quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Uma visão brasileira da Polónia

Realizei uma pequena entrevista com um amigo meu brasileiro, Túlio de Araújo Campos, que esteve na Polónia durante algum tempo, para conhecer a opinião de um estrangeiro sobre o nosso país.

J: Antes de vires à Polónia sabias algo sobre o nosso país?
T: Sim, sabia bastante sobre a Polónia porque estudei geografia e portanto tinha uma visão geral.  Além disso, sou fascinado pela história. Estou particularmente interessado na Primeira e Segunda Guerra Mundial, e isto têm uma grande relação com a Polónia. Também, mesmo antes da viagem procurei várias informações na Internet.
J: Estiveste na Polónia, durante o inverno. Como sobreviveste à diferença climática?
T: Sinceramente, foi muito difícil. No geral, tive que vestir roupa muito quente, mesmo que para vós ainda não fosse totalmente inverno. Eu ri de mim mesmo quando vestia, por exemplo, as ceroulas, calças de ganga e três pares de meias! Apesar de todo o charme do inverno e da neve, definitivamente prefiro o clima brasileiro e as nossas temperaturas.
J: Onde é que moravas durante o programa AISEC na Polónia?
T: Visitei 11 cidades, entre outras, Lublin, Rzeszów, Zamość, Cracóvia, Varsóvia e Trójmiasto. Principalmente morava nas residências de estudantes, mas também em casas de famílias polacas. Isso foi a experiência mais valiosa para mim. Pude familiarizar-me com o ritmo do seu dia, tradição, experimentar diretamente a cultura e participar na vida quotidiana da família. Isso deu-me umas memórias preciosas. Com algumas pessoas mantenho contato até hoje.
J: Gostaste da comida polaca ou houve algo que não gostaste?
T: Geralmente muito. O que mais gostei foram os pierogi e o borsch. Por outro lado, realmente não gostei de panquecas de batatas raladas e fritas, a manteiga e compotas. Além disso, faltavam-me frutas e legumes frescos, como tenho em abundância no Brasil.
J: Há algo na cultura, costumes, etc, que  particularmente te surpreendeu?
T: Principalmente, chamou a minha atenção a forma de cumprimentar. É possível observar uma grande distância, os polacos apenas dão um aperto de mão. No Brasil, todo isso é mais efusivo, abraçamo-nos e damos dois beijos. Outra coisa que notei foi a forma e o horário das refeições. Não respeitam as horas fixas e específicas. Além disso, comem quando queiram e raramente comem com a família. Não celebram estas refeições como os brasileiros. Para nós é muito importante que toda a família come junta e cada pessoa come o que foi previamente preparado para todos.
J: Gostarias de vir no futuro outra vez para a Polónia?
T: Claro que sim, mas noutra estação do ano. Fiquei encantado pela Polónia. Estou mesmo planeando em 2014 uma viagem para a Rússia, mas durante a excursão gostaria de ficar alguns dias em Varsóvia e voltar a Lublin por razões sentimentais e porque tenho muitos amigos aqui.

Justyna Teterycz
2º ano de Estudos Portugueses




sábado, 15 de fevereiro de 2014

Felicidade

Felicidade. O que é isto? Quando perguntamos a alguém o que deseja, a maioria das pessoas responde: "Quero ser feliz!"Mas o que significa ser feliz? Ter um bom trabalho, muito dinheiro ou uma casa luxuosa? Família? Namorado? Paixão? Não sei. Sei apenas que normalmente as pessoas que não têm quase nada são as mais felizes. Paradoxo? Então, o que é a felicidade para mim?
1- Três horas a jogar voleibol. Apogeu da felicidade! E a dor dos músculos no dia seguinte...
2- Morangos. O sabor dos primeiros morangos neste ano... indescritível!
3- Elogios. Levanto-me demasiado tarde, tenho apenas quinze minutos para fazer tudo. Visto-me com a primeira coisa que tenho mais próxima. Nervosa e ansiosa entro na universidade e ouço: "Que bonita estás hoje!"
4- O primeiro dia de vinte graus depois de cinco meses de inverno!
5- Um copo de água gelada quando acordo depois de uma noitada de festa...
6- As minhas colegas de quatro. Nunca pensei que vou viver com as pessoas tão excelentes. Karaoke às 3 da manhã? Porque não! Pobres vizinhos...
7- Sábado. Quando não tenho que ouvir o meu despertador e posso passar todo o dia vestida de pijama. Sob a condição de que a minha mãe não me telefone às 7 de manhã, discurso: "Ainda estás a dormir?! Porque não estás a estudar?!"
8- Memórias. Quando me encontro com os meus amigos da escola secundária e lembramos todas as coisas estúpidas que fizemos.
9- Abraços. Ouvi falar que as pessoas que se abraçam pelo menos uma vez por dia vivem mais tempo. Vale a pena praticar!
10- Ver o meu filme favorito pela décima vez. Não me importa que saiba sempre o que acontecerá. Adoro!
11- A comida caseira. Não há coisa melhor do que o sabor da comida feita pela minha mãe depois de um mês passado em Lublin.
12- Os momentos em que não posso respirar por estar a rir-me!
Isto é felicidade! 

Monika Świderska

2º ano de Estudos Portugueses

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Canções contadas: O Anãozinho

  O Pedro teria uns vinte e quatro, vinte e sete anos quando o conheci. O rapaz parecia totalmente ensimesmado e praticamente não abria a boca na presença de outros empregados da nossa pequena pensão de luxo. Era mesmo muito difícil trocar dois dedos de conversa com ele, sem mencionar já a possibilidade de entabular alguma relação mais profunda com aquele ‘filho das ruas’. O Pedro era baixo e de postura lamentavelmente fraca. Rapidamente foi-lhe cunhado pelos outros o ofensivo apodo de ‘Anãozinho’, devido à sua estatura liliputiana. Além disso, o miúdo permanecia, obviamente, à margem da nossa provisória vida social, que geralmente costumava limitar-se a umas trocas de palavras mais ou menos acidentais, ocorridas durante os curtos e infrequentes intervalos na nossa faina diária.
   Apesar dessa aparente fraqueza e vários síndromes de alienação ambiental, o Anãozinho parecia um trabalhador perfeito: todos os dias estava cumpria com as suas obrigações e tarefas diurnas de empregado de mesa e de limpeza do local. Varria, lavava a louça, preparava os quartos para os hóspedes. Não obstante, os companheiros de trabalho achavam que, injusta e erroneamente, era um imbecil, incapaz de perceber a natureza dos assuntos humanos. Apesar da perfeita execução das tarefas que lhe eram atribuídas, ao Pedrinho nunca o incumbiam de nenhuma obrigação que ultrapassasse a atividade puramente manual como se o simples atender do telefone se encontrasse fora da sua aptidão intelectual. Marcado com a etiqueta de deficiente mental, o rapaz não falava com os outros pois não havia absolutamente ninguém que supusesse que por trás da sua cortina de silêncio e incomunicação o jovem estava a construir o seu próprio mundo, uma realidade alternativa cheia de maravilhas. Passavam dias e noites de guarda e sem sono, mas tudo continuava igual e nós, sem excepção, ficávamos sempre com as mãos a arder por excesso de trabalho. O Pedrinho chegava à pensão às 6 horas de manhã e saia tarde, depois do pôr- do- sol. Outras vezes a patroa pedia-lhe que ficasse no local durante toda a noite ou até durante vários dias sucessivos.
  Um certo dia o recepcionista do nosso turno da noite teve problemas em explicar as condições e regras vigentes na pensão e referentes ao alojamento nela a um casal de idosos estrangeiros que não conseguiam entendê-lo em inglês. Ao ouvir o homem dizer alguma coisa à sua mulher naquela língua que todos nós ignorávamos o Pedrinho, que ajolheado estava a limpar o chão, inesperadamente levantou-se, abriu a boca e, para nossa surpresa, começou a explicar tudo com uma fluência linguística impressionante. Todos ficamos sem palavras ao ver e ouvir o Anãozinho falar húngaro como se fosse um budapestense de gema. Naquele momento apareceu a patroa que tinha entrado pela porta traseira. Ela também não era capaz de entender o que tinha acabado de acontecer. Depois de os hóspedes terem sido alojados no seu quarto, a mulher chamou pelo Pedrinho e, sem entendermos o porquê da sua reação, começou a repreendê-lo por ter ousado falar na presença de hóspedes tão distintos. Desta vez o rapaz nem sequer abriu a boca e agora apenas acenava afirmativamente com a cabeça em sinal de compreensão total do seu erro imperdoável. Depois de ter ouvido aquele sermão, cheio de acusações humilhantes, o nosso Anãozinho jamais voltou a atrever-se a falar com ninguém. 
  Rapidamente, tudo parecia continuar como dantes e de novo presenciávamos muitas chegadas e saídas de hóspedes que vinham à procura da tranquilidade comprada por um preço astronômico. Até um dia em que a chefe chamou por nós porque queria uma explicação para o desaparecimento de três livros da prateleira do salão no segundo andar. Curiosamente, nenhum de nós recordava os títulos daqueles livros. Apenas podíamos lembrar-nos de que efetivamente se encontravam lá na prateleira do salão, muito empoeirados, sem podermos evocar nem sequer a cor da capa de nenhum dos tomos em questão. Todos, inclusive a patroa que há muitos anos tinha recebido o local de herança, ficaram envergonhados porque tinham de admitir que nenhuma vez prestaram a mínima atenção ao conteúdo das prateleiras cujo ‘buraco’ embaraçoso foi, ainda aquele mesmo dia, enganosamente tapado com umas revistas de imprensa cor- de- rosa. Ao princípio ninguém achou estranho o facto do dito desaparecimento dos três livros e a ausência do Pedrinho no trabalho aquele dia. Contudo, era verdade que a partir daquele dia o Anãozinho não voltou a aparecer na pensão. Só passados alguns anos chegou uma estranha encomenda do estrangeiro. Para surpresa da patroa, a encomenda continha os três volumes em falta da vasta coleção do seu avô intelectual falecido há mais de 40 anos. Tanto os dois os romances de Honoré de Balzac escritos em francês como o exemplar de ´Darkness at noon´ de Arthur Koestler na edição inglesa encontravam-se intactos e em perfeitas condições. Dentro do último dos livros alguém encontrou um bilhete: “Obrigado por ter podido levar emprestados e ler estes livros. Foram os últimos de toda a coleção que não consegui ler durante aqueles cinco anos. Anãozinho".

Inspirei-me na canção Spread your wings (1977) da banda britânica Queen e, além disso, introduzi alguns elementos ‘autobiográficos’ no conto. 
Michał Hułyk
1º ano de Mestrado em Espanhol

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Português europeu ou brasileiro - qual escolher?

Sou aluna do terceiro ano de Filologia Românica da UMCS. A minha primeira língua é o francês e a segunda é o português. Desde o início, eu tive as aulas de português com dois professores que me ensinaram as duas variantes diferentes do português, a europeia e a brasileira. Nos primeiros dias de aulas, percebi rapidamente que essas duas versões têm muitas semelhanças, mas também muitas diferenças. No final do ano eu decidi que quero participar no programa de intercâmbio Erasmus durante um ano e fui para Portugal estudar o segundo curso que frequento, Turismo e Lazer. Eu queria aprender a linguagem informal e ser capaz de falar bem pelo menos numa variante de português. Isto foi um grande desafio! Eu passei muito tempo com os estudantes estrangeiros que falavam só inglês. Também na universidade era mais fácil de comunicar em inglês. No entanto, no segundo semestre, eu já sabia que era preciso encontrar algumas pessoas que vão estar dispostas a conversar comigo em português o mais rápido possível. Participei em várias reuniões de linguistas e de viajantes mas reuniões de uma hora não foram suficientes. Finalmente encontrei um grupo das pessoas do Brasil e nós tornamo-nos amigos. Falavam mal inglês, por isso fui obrigada a falar português com eles. Desta forma, quando eu estava em Portugal, eu aprendi a falar português na variante brasileira.
Agora, eu gostaria de apresentar neste artigo as diferenças básicas nas duas variantes do português, a fim de facilitar a escolha de aprendizagem de uma delas. Em todo o mundo há cerca de 210 milhões pessoas que falam português.  O português é a sexta língua mais usada do mundo. Fora de Portugal, é língua oficial em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. O Brasil possui cerca de 194 milhões de habitantes,  Portugal cerca de 11 milhões. O português é uma língua única, combinando os melhores sabores de muitas línguas europeias, mas não se limitando às da Europa. Por um lado, extremamente suave, melódico, quente, por outro lado, uma língua  dura, incrivelmente intensa.
A pronúncia: A variante brasileira, em oposição à da Europa, não tem a redução de vogais em sílabas átonas (por exemplo: a palavra distante em Portugal pronunciamos  quase como dsztant e no Brasil dzistanci). Portanto, ficamos com a impressão de que a pronúncia brasileira é mais suave e melódica.
O português do Brasil é enriquecido com uma série de palavras e de expressões das línguas dos índios brasileiros e ex-escravos da África Ocidental. Há também algumas diferenças significativas no vocabulário quotidiano (por exemplo, o ônibus no Brasil é o autocarro em Portugal, o sorvete no Brasil é o gelado em Portugal, etc.). No Brasil, há ainda mais estrangeirismos do inglês.
A gramática: Não há muitas diferenças na gramática de português brasileiro e europeu. Os termos de uso e a colocação dos pronomes numa frase em português do Brasil são mais simples do que na Europa. As outras modificações significativas à gramática que existem no português brasileiro é evitar o pronome possessivo definitivo (no Brasil, diz-se: meu carro, em Portugal: o meu carro) e o uso das formas verbais da terceira pessoa do singular em vez da segunda pessoa do singular (você diz no Brasil é tu falas em Portugal).
Como você pode ver a escolha não é fácil, eu ainda não decidi qual variante escolher :)  Talvez, quando o meu sonho de fazer uma viagem ao Brasil se torne realidade um dia,  eu decida que variante prefiro...

Karolina Swaj
3º ano de Filologia Românica