sexta-feira, 29 de junho de 2012

O que nos faz pensar na Polónia?

Pensando na Holanda a primeira inclinação é a tulipa, na França a Torre Eiffel, Itáliaé frequentemente associada com pizza ou macarrão, e Espanha com as touradas ou festas. E o que nos faz pensar na Polónia? A Polónia, como pode parecer, é um país pequeno e bastante desconhecido no mundo. Mas depois duma curta reflexão podemos dizer que não é assim. Há muitas coisas relacionadas com a Polónia que são importantes e mundialmente conhecidas.Principalmente a Polónia é um país de grandes personalidades que influenciaram muito a história do mundo.
  Sem dúvida, quando pensamos na Polónia, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a figura do papa João Paulo II. É o polaco mais conhecido do mundo. Não há lugar na terra onde as pessoas não tenham ouvido falar do Papa polaco. “Polónia, Lech Walesa o Solidariedade" – desta forma a maioria dos estrangeiros pensa em nós também. O presidente, que ocupou o cargo de 1990 a 1995, é um dos polacos mais conhecidos não só na Europa, mas também em todo o mundo. Apesar do fato de que, entre muitos polacos gerou muita controvérsia, o mundo avalia-o positivamente. Pelo seu envolvimento no processo de recuperação da democracia na Polónia foi galardoado com muitos prémios, incluindo o Nobel da Paz. Sem dúvida, outra pessoa relacionada com a Polónia é Fryderyk Chopin. O pianista nascido na pequena aldeia polaca de Żelazowa Wola, filho de mãe polaca e pai francês-expatriado, é amplamente conhecido como um dos maiores compositores para piano e um dos pianistas mais importantes da história. Alguns desportistas polacos também são famosos no exterior. Entre os apelidos polacos conhecidos no mundo, destacam-se três: a tenista Agnieszka Radwanska, o ex-saltador de esqui Adam Malysz e o piloto da Fórmula 1 Robert Kubica. Mas isto ainda não é tudo. Há mais nomes que glorificam a Polónia no exterior. O mundo também se lembra de figuras polacas que influenciaram muito a ciência - Maria Curie-Skłodowska e Mikołaj Kopernik ou a cultura - Roman Polanski.
  Alguns dos eventos históricos são inextricavelmente relacionados com a Polónia também. A Segunda Guerra Mundial e o fim do comunismo são algumas das coisas que lhes vem à cabeça quando os estrangeiros pensam na Polónia. Recentemente, um evento que fez com que as pessoas falassem sobre a Polónia em todos os cantos do mundo, foi o acidente de avião em Smoleńsk, que matou o presidente polaco e muitos outros políticos importantes.
  Entre as cidades e lugares que são mais frequentemente associados com a Polónia, definitivamente ganham Varsóvia e Cracóvia. Mas ainda há um lugar localizado na Polónia que é conhecido no mundo. O antigo campo de concentração nazi Auschwitz-Birkenau é o lugar que não tem boa fama mas muitas pessoas de todo o mundo vêm à Polónia para o ver.Junto com as pessoas, acontecimentos e os lugares conhecidos há muitas outras coisas que trazem à mente o nome da Polónia. Uma deles é a salsicha. Seca, gordurosa, defumada, assada ou cozida - é conhecida por todos. É um dos alimentos mais antigos na Polónia. Há séculos que está nas mesas e é valorizada tanto entre os polacos, como entre os estrangeiros.Outra coisa relacionada com a Polónia é o âmbar. Não há muitas coisas polacas tão famosas no mundo como o âmbar báltico. É o mais valioso tipo deste material que também é chamado o ouro do Báltico. Por isso muitos turistas que visitam a Polónia costumam comprar âmbar. Os estrangeiros ainda associam a Polónia principalmente com o álcool. A vodka polaca é muito famosa no mundo. Pois é amplamente conhecido que os polacos gostam de bebidas alcoólicas fortes e fazem-nas realmente bem.
  Sem dúvida, a Polónia não é só papa João Paulo II, Lech Wałęsa ou vodka. O país é também famoso mundialmente por muitas outras coisas de diversas áreas. Há varias personalidades, eventos históricos, lugares e comidas que a glorificam e que fazem com que a Polónia se destaque entre os outros países do mundo.

Weronika Kucharuk

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Curitiba, a cidade sorriso!

 És polaco. Tens 19 anos, já terminaste a escola secundária e estás no momento de decidir o teu futuro. Por coincidência decides pela formação em Filologia Ibérica que acaba por ser uma boa decisão. Depois de dois anos estás completamente apaixonado pela língua portuguesa, Portugal, Brasil, etc. e sabes que farias tudo o que fosse possível para conhecer todos os elementos desta área. Parece uma história de qualquer estudante deste curso na verdade é a minha história. Graças a esta coincidência e ao facto de eu poder falar português encontrei o meu primo de Curitiba no Brasil. Por isso, achei interessante compartilhar a minha experiência convosco e, sobretudo, falar sobre Curitiba, a cidade sorriso. 
 Curitiba localiza-se no Sul do Brasil e é a capital do Estado do Paraná. Grande pólo industrial, fica no sul do país e cerca de 2 milhões de pessoas vivem aqui. Não é nada estranho que Curitiba seja a cidade com a melhor qualidade de vida no Brasil. Curitiba também tem altos índices de educação. Tem o menor índice de analfabetismo e a melhor qualidade de educação básica entre as capitais. 
  O Brasil por ser um país muito grande é muito diverso, pois então existem pequenos países dentro dele e o Sul é completamente diferente do norte, quanto à geografia, cultura e etnias. A maior parte do Sul do país foi colonizado por europeus, como alemães, polacos, ucranianos, holandeses, italianos, espanhóis, portugueses e russos. A maior parte dos colonizadores do Paraná são polacos, alemães, ucranianos e italianos. Em Curitiba, há 60% de pessoas que têm raízes polacas. Muitas delas foram (como a família do meu primo) para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial. Curitiba é conhecida como a cidade com maior número de polacos no Brasil. Os imigrantes chegaram da Polónia em 1871, fixando-se em zonas rurais próximas a Curitiba. Eles influenciaram largamente a agricultura da região. Curitiba tem a segunda maior diáspora polaca no mundo, apenas para Chicago. O Memorial da Imigração Polonesa foi inaugurado em 13 de dezembro de 1980, após a visita do Papa João Paulo II à cidade em junho do mesmo ano. A sua área é de 46 mil metros quadrados, onde havia uma fábrica de velas.” É um fenómeno interessante que todas as pessoas que vêm cá, trazem algo característico do seu país. Como podemos observar, a cultura europeia é muito forte tanto pela comida como pelos costumes. 
 Comparando com outras regiões brasileiras, o povo de Curitiba é considerado como fechado e antissocial porém tem hábitos que deixam a cidade muito limpa e organizada. A vida típica dos jovens curitibanos, por volta de 23 anos, é a faculdade, desporto, clubes noturnos etc. O estilo musical do momento é a música sertaneja moderna (música do Michel Teló: Ai se eu te pego). Contudo, os hábitos variam de pessoa, a sua classe social, pois no Brasil existe muita diferença entre as pessoas. Também, não podemos deixar de mencionar o papel do desporto. Como o futebol é um dos desportos mais importantes no Brasil, é preciso dizer que em Curitiba há três clubes relevantes, Clube Atlético Paranaense (cujo estádio é a Arena da Baixada), Coritiba Foot Ball Club (cujo estádio é o Couto Pereira) e Paraná Clube (cujo estádio é a Vila Capanema). A cidade será uma das sedes do Campeonato do Mundo de Futebol  em 2014.
  Não importa se és estudante, uma pessoa jovem ou mais velha – em Curitiba vais ser bem recebido. É uma cidade que sempre gostou dos imigrantes porque eles constituem uma fonte de enriquecimento da cultura e economia de todo o país. Então... bem-vindo a Curitiba!
 Katarzyna Rejter

Conheçamos Évora- uma Cidade- Museu

  No centro da Região do Alentejo, cercada por cereais, vinhedos, olivais e arrozais fica Évora. Há alguma coisa emocionante nesta cidade. Começando pelo seu brasão, onde são visíveis duas cabeças debaixo do conquistador dos mouros Geraldo Sem Pavor. A lenda diz que durante o ataque a Évora em 1165 o comandante atacou a uma torre com umas lanças em vez dumas escadas, deste modo fez o massacre dos mouros. Este ato heroico é comemorado no brasão de armas. 
  O lugar é habitado há muitos séculos. Os Lusitanos chamaram-na Ebora. Depois da conquista romana no século II antes de Cristo, a cidade começou a ser um importante centro do império devido à sua localização na encruzilhada dos caminhos. Os romanos edificaram as muralhas ao redor da cidade e no seu centro o templo que até agora tem importância simbólica e turística e cria a atmosfera deste lugar. A conquista visigoda provocou o declínio da cidade. No ano 715 vieram os mouros e ficaram ali durante 450 anos para levar a cidade a desenvolver-se novamente. Estes governantes reconstruíram as muralhas e no lugar do fórum edificaram a fortaleza e a mesquita. A partir do ano 1166, quando o rei Afonso I assumiu o controle de Évora, a cidade floresceu, construíram-se palácios e igrejas. No século XVI os jesuítas fundaram a universidade, que teve o papel importante em reunir artistas e pensadores no período do humanismo. Todos os acontecimentos da história, a intervenção e a influência de diferentes culturas garantem o clima especial do centro histórico, que foi declarado Património Mundial pela UNESCO, e da cidade toda. 
 O que é representativo para a cidade velha, que cresceu no interior das muralhas, são as ruas laterais estreitas e delimitadas. Na restauração dos monumentos e no desenvolvimento do turismo foram gastos sete milhões. Por isso podemos deliciar-nos com as vistas fascinantes e a paisagem colorida. A primeira coisa que merece ser mencionada é a praça principal de Évora- a praça do Giraldo. Está cheia de pessoas e de movimento, entretanto tranquila. As casas maravilhosas bem restauradas, bons restaurantes junto com cafés e bares abertos até tarde garantem o caráter excecional deste lugar. 
 No ponto mais alto da cidade sobressai o templo romano de Diana, um dos monumentos romanos mais importantes e melhor preservados em Portugal. Provavelmente foi criado por volta do século I. Impressiona com as suas colunas altas, expressivas e atemorizantes que fazem lembrar da presença romana no território português. Por perto, na transição do estilo românico para o gótico, foi construída a Sé Catedral de Nossa Senhora da Assunção, popularmente chamada Catedral de Évora ou Sé de Évora. A sua construção foi iniciada em 1186, em 1204 a igreja foi consagrada e só ficou pronta em 1250. Muitos aperfeiçoamentos, mudanças e enriquecimentos da construção que se realizaram ainda no século XVIII criaram o atual aspeto dela. A catedral reparte-se em três naves, das quais a central é a mais alta. As coisas mais características da frente da catedral são as duas torres distintas e as esculturas marmóreas dos 12 apóstolos no portal. Os turistas que visitam a catedral também podem ver as exposições no Museu de Arte Sacra da Catedral. Entre as peças é possível admirar pintura, escultura e ourivesaria. Além disso, pode-se ver o interior da igreja desde o coro, onde estão esculpidas cenas mitológicas, naturalista e rurais. A catedral tem o caráter defensivo e tende a intrigar os turistas. Outro dos monumentos mais conhecidos de Évora é a Capela dos Ossos, que tem origem do século XVII e é situada na Igreja de São Francisco. O arrepio é quase inevitável devido às cerca de 5000 caveiras e ossos ligados por cimento às paredes e aos oito pilares. O ambiente de medo é aumentado pelas múmias dum homem e duma criança e pela lenda da maldição, que foi lançada por uma mulher moribunda. Na entrada há uma inscrição comovente: Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos. Évora deixa a impressão de ter acontecimentos históricos encerrados nos prédios da cidade. A sua riqueza arquitetónica e cultural foi criada e reunida durante séculos quando vários povos habitavam o Alentejo. Por isso, vale a pena visitar a cidade de Évora.
Karolina Sieńko


Câmara Municipal de Évora
Região de turismo do Alentejo

sábado, 23 de junho de 2012

Lublin-Lisboa 46 dias a pedalar por essa Europa fora!

  Quando era miúdo e tinha uns oito, nove anos sonhava em fazer uma grande viagem à volta do Mundo. Uns anos mais tarde, mas ainda em pequeno e apesar de ser uma perspetiva ainda muito distante e incerta, já esquadrinhava possibilidades de empreender algum projeto duma louca peregrinação. Assim, não parava de procurar companhia indagando os meus companheiros do bairro e convencendo-os que fossem comigo ao Mar Báltico...de bicicleta. A resposta sempre foi a mesma: “Ao mar de bicicleta?! Ganda maluco! Eu não consigo ir nem ao lago perto daqui. Não vou, de jeito nenhum!”. Era óbvio que não houvesse muitos interessados mas ao menos percebi naquela altura uma coisa de grande valor: se queria ir, esperava-me uma longa e solitária viagem. 
  Mas, se alguém perguntar, o que é que significa viajar hoje em dia pelo mundo que se tornou de repente tão pequeno e tão maravilhosamente disponível ao simples alcance da mão, com a alta tecnologia capaz de cobrir todas as distâncias? Para dizer a verdade, basta fazer um clique na Internet, fazer as malas e subir a bordo dum avião. Três horas mais tarde entramos numa outra realidade indo de elétrico pela famosa Alfama lisbonense. 
 Ou numa variante mais ambiciosa e mais romântica, para alguns uma variante “idiota”, estamos a subir, já suando em bicas uma estrada secundária algures na Voivodia de Świętokrzyskie na Polónia central. Atrás das pequeninas Montanhas de Świętokrzyskie estende-se a gigante zona industrial da Silésia, dividida entre a Polónia e a República Checa. Algures, perto da fronteira há uma pequenina e estreita estrada secundária, quase não frequentada por ninguém. Aquela estrada vai por uma grande planície ao longo do rio Váh que mesmo na fronteira desagua no majestoso Danúbio. Atravessado o rio, pelas terras húngaras, junto ao Lago Balaton e mais adiante pelo triângulo territorial húngaro- esloveno-croata para chegar à Costa Mediterrânica italiana. E logo, pela Itália, pela França, pelos Pirinéus e pelo Caminho de Santiago...Quatro mil quilómetros do imprevisível entre Lublin e Lisboa, contra o vento dos impedimentos, na sobrecarregada bicicleta que ia tornar-se o meu meio de transporte, a minha “casa com rodas”, o meu melhor amigo e “o meu tudo” durante aqueles dias da solitária peregrinação pelo continente. 
 Todas as viagens, mesmo que isto já soe trivial, mudam-nos e fazem com que se alargue a nossa perspetiva do mundo ao redor. Por vezes nem damos conta que neste mundo há homens que sabem abrir os nossos corações abrindo os seus sem a mais pequena hesitação. E sim que isto é verdade! Uma vez, indo pelos campos e aldeias croatas precisei de afiar a minha faca, incapaz já de cortar pão. Dirigi-me a um homem que estava a reformar a sua velha casa algures numa pequena aldeia do norte do país. Uns minutos mais tarde estava sentado à mesa a banquetear-me com os meus novos amigos. Recebi muito mais do que precisava. Os homens, já alegres estavam a fantasiar uma doida visão de expulsar todos os inimigos da pátria- os ciganos, os sérvios e outros para depois ´importar´ para a Croácia cinco milhões de Polacos- “os melhores amigos da nação croata, os melhores homens do mundo!”. “Fod... cinco milhões de Polacos!” repetiam. Nem eram capazes de perceber que já queria continuar a viagem- voltaram a trazer mais comida e mais vinho croata! O dono trouxe por fim toda uma coleção de facas para que escolhesse uma. E, já embriagado, começou a encher de notas o meu bolso. Mas, nem pensar, isto significava que já era hora de partir. Deixei então os dois homens, incapazes de reter as lágrimas. Os olhos do dono daquela pequena casa de madeira eram os mais tristes que vi na minha vida. O homem do povo, simples, capaz de dar-te tudo o que tinha- todo o seu amor ou todo o seu ódio. Nem imagino o que me podia oferecer se eu fosse cigano ou sérvio... 
 Passava então quilómetro atrás de quilómetro movido pela paixão de vaguear, com o termos que normalmente guardava e mantinha fresca a água mas que, já algures na Hungria, começou a encher-se cada vez com mais frequência do melhor néctar da Europa do sul. Sabia relativamente pouco, ou seja muito pouco, do país aonde me dirigia, daquele “fim da terra” como o costumavam denominar os medievais, onde há trinta e tal anos atrás os homens colocavam cravos nos canos dos carros de combate. Apesar disso pelo menos tinha mapas, dos quais não dispunham os navegantes portugueses do século XV que só mais tarde iriam desenhá-los e, ao contrário deles, sabia o meu destino. Ou, se calhar, sabia somente a direção... Acho que as mais terríveis doenças e a aleijões dos nossos tempos são a falta de fé e o desinteresse pela vida revelado por alguns homens. Tudo já foi descoberto, nomeado, tudo foi escrito e então já não há nada que seja capaz de surpreender o malcontente ser humano. A navegação em busca de aventuras e descobertas de novas terras minguou à chamada “navegação” pela realidade virtual que parece ser considerada o melhor substituto de todo o real na nossa gloriosa época pós- moderna saturada com a chatice e a inelutável desesperação. Não obstante, às vezes basta desligar o computador para darmos conta que essa velha doença do “fin de siécle” é quase exclusivamente própria dos habitantes das grandes aglomerações da classe média acomodada do mundo ocidental. Assim que deixamos a cidade, vemos que a loucura e a insensatez cedem à paixão de viver a vida plenamente. Deixamos então o mundo virtual, este impenetrável mistério de aparência e de engano que se tornou a nossa única quotidianidade para entrarmos na realidade como se fosse esta viagem uma volta ao passado, ao mundo que para a maioria de nós já está morto. Seja o que for que possa significar viajar mas seguramente cada viagem é significativa e até revelante na dimensão individual. Viajar significa observar e escutar com muita atenção, conhecer, aprofundar e em resultado, às vezes, entender que a visão apresentada na televisão tem pouco a ver com a realidade. 
  Conheci, errando pelas terras europeias, inumeráveis ciclistas, caminhantes, peregrinos, viajantes, romeiros e vagabundos, cada um dos quais levava se calhar um mundo inteiro dentro do coração. Houve entre eles um francês de uns 35 anos que ia em peregrinação à Terra Santa em Jerusalém. Aquele “discípulo moderno” de Jesus avançava muito devagar na sua velha e enferrujada bicicleta e, como o seu mestre, não tinha quase nada consigo. Lembro- me bem que naquela noite preparei o jantar com todos os ingredientes que tinha- cozinhei uma sopa na fogueira. E não foi a primeira, nem a última vez nessa viagem que vi lágrimas nos olhos dum homem. Umas semanas mais tarde, já algures nas montanhas de Navarra parei na praça dum pequeno povo para me abastecer de água. Não estava muito calor mas não vi ninguém na rua exceto uma família árabe - um homem, a sua mulher e dois miúdos jovens. E, quando já estava a abandonar a aldeia, ouvi uma voz gritando: Senhor! Espere! Foi o árabe que chamou por mim da janela da sua casa. Sacou então duas bolsas gigantes, cheias de comida, dentro das quais se encontrava, entre outras iguarias, um pote de sopa de lentilha. “Foi a minha mulher que preparou isto”- disse. E eu não sabia dizer mais do que -“Deus te abençoe”. O Marroquino cumpriu assim a sua obrigação muçulmana, o mandamento de Alá que o obriga a alimentar o faminto. Eu não estava com fome e nem era capaz de sustentar a carga para equilibrar o volante do meu veículo. Não obstante naquela mesma tarde tive oportunidade de compartilhar a comida com uma família francesa e uns dias mais tarde em Burgos, no velho coração de Castela, onde, conforme esperava encontrei pedintes. Nada na Natureza se perde, tudo se cria e tudo se transforma. Fui ajudado numerosas vezes naquela longa peregrinação, e quando já estava a perder fé aparecia algum bonachão que não hesitava em estender a sua bondosa mão e manter assim a chama da esperança. Para tantos outros o bom samaritano fui eu. 
 Foram tantas e tão reais as pessoas que conheci que por vezes esqueço os nomes e as caras na minha memória embaçada: uma família espanhola no desértico e até espantoso “Mar de Castela” dos intermináveis campos de trigo, que me deixou pernoitar, quando estava todo molhado na sua pequena um idoso português que ao ver-me a consertar a bicicleta me ofereceu boleia e me levou a casa da sua família algures perto de Sabugal.“Você fala muito bem a nossa língua”- não deixava de repetir apesar de eu não perceber quase nada, e os ciganos-“condenados” ao meu destino pela sua tradição secular- que sempre que me viram me cumprimentavam com um sorriso e com gesto de mão. Um jovem polaco numa sobrecarregada bicicleta foi naqueles dias um deles. 
 Naturalmente há pessoas que nunca tiveram oportunidade de abandonar a sua vila, ver a cidade, viajar e conhecer o mundo. E há também quem diga que tais homens não têm nenhum conhecimento profundo das coisas porque não viram nada na sua vida, como por exemplo alguns camponeses portugueses que apesar de morar pertíssimo nunca puderam deixar o arado e ir ver o mar. Não concordo absolutamente porque embora esta constatação às vezes seja verdadeira, geralmente não parece acertada e não tem muita justificação. Há uns anos atrás conheci um jovem estrangeiro que viajou por todo o mundo e admitiu ter visitado quase todos os lugares mais exóticos. Apesar disso não sabia dizer nada das suas viagens além da vulgar trivialidade “Yeah, it was f...cool!” quando estava a tentar descrever a sua única “experiência internacional” da qual se lembrava- os bares. Como o gajo tinha ar de tipo inteligente, da chamada “boémia artístico-intelectual”, não podia acreditar que todo o “original” nele se limitasse ao superficial e ao aparente. Aquele jovem viu muitas coisas mas não as experimentou, só se limitou consumi-las com a vista- o sentido humano mais alienante e enganoso. Mas, como diz o provérbio, a barba não faz o filósofo, nem as viagens fazem com que conheçamos o mundo. As novas terras só se podem descobrir vendo as coisas até ao fundo, mas isto supõe ver com o coração, não só com o intelecto.
 Depois de 46 dias a pedalar cheguei por fim a Lisboa onde de repente me dei conta que era completamente incapaz de me comunicar na gloriosa língua de Camões, especialmente na sua variante moderna da rua chamada calão. Aqueles dias passados em viagem, as noites na minha tenda, nos bosques, nas praias e nas aldeias, junto à fogueira acesa, solitárias ou em companhia mas sobretudo as pessoas, os peregrinos que encontrei no caminho mudaram a minha vida.
 Michał Hułyk

sábado, 16 de junho de 2012

Polónia com sotaque português

 Portugal no pensamento de muitos polacos parece ser um país do fim da Europa, tão remoto que é quase desconhecido. Todos sabemos que existe mas não damos importância a muitas coisas que acompanham a nossa vida e estão directamente relacionados com Portugal ou outros países de língua portuguesa. As pessoas conhecem muito bem as influências dos países vizinhos como Alemanha, Rússia etc. e isto não surpreende, mas algo que veio para a Polónia de países tão extremamente distintos é muito mais interessante. 
 Por exemplo, a maioria dos Polacos faz compras no supermercado "Biedronka", porque encontram lá os produtos mais baratos do que nos outros supermercados, mas pouca gente sabe que estas lojas são portuguesas. Foram criadas por um polaco mas depois foram vendidas e agora pertencem ao grupo português Jerónimo Martins Distribuição. Nestes supermercados a maioria dos produtos são polacos, mas pode-se encontrar os vinhos e frutos portugueses que são muito bons. Quase ninguém sabe que também o banco Millenium está relacionado com este "remoto país"- é o sexto maior banco na Polónia e o principal investidor é o Banco Comercial Português. 
 Não só no mundo comercial podemos descobrir os rastos portugueses. Todos sabem que os polacos costumam organizar grandes festas de casamento nas quais não pode faltar música, então as pessoas divertem-se, por exemplo, com a melodia de Lambada. Ninguém se preocupa que não entende esta canção, a língua parece ser um pouco estranha, mas o mais importante é divertir-se. Quando tentarmos ouvir a Lambada mais atentamente percebemos que a canção é cantada em português. Aprofundando o tema, Lambada é uma dança brasileiro- boliviana muito popular no Brasil. Caracteriza-se pela sensualidade e espontaneidade, o nome significa um pancada forte.A primeira canção foi interpretada por Lucia Mendez e depois pelo grupo Kaoma em espanhol e em português. Outra canção muito popular neste inverno nas residências dos estudantes foi "Ai se eu te pego" de Michel Teló. Ninguém sabe por que esta canção brasileira ganhou a simpatia dos jovens. Talvez porque a língua desconhecida, confundida com ucraniano e melodia pegadiça causou esta onda de popularidade, e é claro que nenhuma festa podia realizar-se sem o famoso Michel Teló. As meninas em frente do computador suspiraram pelo cantor procurando informações sobre o seu estado civil. 
 Passando a um tema mais cultural podemos também distinguir a literatura. Às vezes quando as pessoas querem ser considerados como mais educados costumam citar nas conversas as palavras de escritores famosos embora nunca tenham lido os seus livros. Por exemplo hoje está na moda citar as frases do Paulo Coelho, como: "A busca da felicidade é pessoal, e não um modelo que possamos dar para os outros", "O homem nunca pode parar de sonhar. O sonho é o alimento da alma como a comida é o alimento do corpo"- conhecem-se estas palavras mas algumas vezes não se sabe quem as escreveu e na maioria dos casos não se sabe que o escritor é brasileiro. 
 Outra coisa interessante é Fátima. Agora as pessoas têm a consciência geográfica mais desenvolvida mas as pessoas mais velhas conhecem toda a história de Francisco, Jacinta e Lucia mas não têm idéia onde fica esta cidade, destino de muitas peregrinações. A Polónia é conhecida pela importância que tem a religião católica por isso Fátima é como outra Częstochowa, a capital religiosa da Polónia.
  É interessante que a Polónia tem algo comum com este país do fim da Europa. Algo que é importante na vida quotidiana, que quase conhecemos como próprio. Cada dia bebemos o vinho de Portugal, comemos laranjas, fazemos compras na Biedronka. É importante que as pessoas saibam um pouco mais sobre isso por que é o primeiro passo para entender que estamos rodeados de várias culturas mesmo onde não esperamos.

Mariola Kur

quinta-feira, 14 de junho de 2012

De tudo e de nada – sobre a aldeia portuguesa


Além do Portugal que todos conhecem, famoso pelos vinhos, o fado, a saudade e o melhor bacalhau do mundo, há recantos na sua geografia interior que vale a pena ver. Todos conhecem grandes metrópoles como Lisboa ou Porto nas quais para a maioria das pessoas com certeza os pontos mais essenciais são os centros comerciais, mas ninguém sabe que Portugal tem as paisagens rurais mais maravilhosas do mundo. Quando dizemos Portugal a primeira coisa que nos vem à cabeça é Lisboa, Porto, vinho, bacalhau – mas quase nunca pensamos nas aldeias portuguesas que são muito mais interessantes do que as cidades cheias de pó e gases de combustão.
  Por que tão pouca gente visita as pequenas localidades, os lugares mais tranquilos do mundo? A resposta é muito fácil. Todos procuram a comodidade, hoje em dia todos somos comodistas e na verdade ninguém quer viver nem sequer um dia nas condições que dominam no campo. É muito triste, porque não nos damos conta de que precisamente ali começou a nação portuguesa. As aldeias deram origem a tudo o que hoje em dia existe. Infelizmente só algumas pessoas respeitam a importância destes sítios.
  Como mencionei antes pouca gente conhece a cultura rural que existe em Portugal e por isso acho que se deveria falar mais dos lugares ainda não descobertos pela humanidade, que na verdade podem ser interessantes para muita gente. Dou-me conta de que há poucas pessoas que gostam da natureza, do contato com o mundo profundo mas com certeza há pessoas que adoram os sítios onde se pode esquecer de tudo. As aldeias portuguesas podem levar-nos a locais de sonho, onde ao lazer, à tranquilidade e ao bem-estar se acrescenta a possibilidade de fruição do país mais profundo e autêntico. O contato com a natureza, com as populações e os modos de viver rurais, com as delícias gastronómicas e o artesanato estes lugares constituem o paraíso tanto para a alma como para o estômago. Como sabemos o pais do Camões é um dos países em que se come de maneira mais saudável e deliciosa, e foi precisamente no campo que se criaram as primeiras delícias sem que hoje em dia não se pode sobreviver. Os camponeses faziam e continuam fazendo os doces e pratos mais deliciosos do mundo.
  As aldeias envolvidas pelas paisagens idílicas preservam também tradições expressas na sua arquitetura, na sua gente, na cultura. Um dos elementos mais importantes são as festas tradicionais e as romarias que com certeza fazem parte considerável da prática da religião católica que é a religião dominante. Como sabemos os habitantes das aldeias são mais crentes do que as pessoas que vivem nas cidades, por isso nos campos apresenta-se a preservação das tradições católicas mais profundas. Então, a visita a uma aldeia é uma oportunidade para desfrutar, não só de um ambiente sereno, mas também da cultura e da vida quotidiana do mundo camponês.
  Na imagem da aldeia portuguesa hoje em dia predominam as rugas e cabelos brancos, os sorrisos que mostram poucos dentes, os passos lentos, as viúvas vestidas de preto. Por que os jovens não querem viver no campo? Por que razão preferem a vida mais ocupada, cheia de barulho e incolor? Certamente não têm tanta coragem para experimentar viver por sua conta. Nos nossos tempos todos tentam facilitar a vida e nada mais. Ninguém se sente tão decidido para continuar o que começaram os nossos avós. É na verdade muito deprimente, dentro de pouco as aldeias serão completamente abandonadas, sem nenhuma alma na rua.
Neste momento só uma pergunta me vem à cabeça, se todos fossemos habitantes das grandes cidades, o que se passaria com os campos, com a terra que é a melhor amiga do homem?

Monika Lisik

NR: Na imagem, a Igreja Matriz de Querença, bonita aldeia do concelho de Loulé. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

“Moonspell? De Portugal? É impossível!...”

   Os meus amigos ficam surpreendidos.. “Moonspell? De Portugal? É impossível!...” Porém sim, Portugal não é só o país do fado. Os Moonspell são uma banda portuguesa de black e gothic metal formada em 1989. É formada por quatro músicos: Fernando Ribeiro (vocal), Ricardo Amorim (guitarra), Mike Gaspar (bateria) e Pedro Paixão (teclado e guitarra). O primeiro nome da banda foi Morbid God. O estilo da banda é muito interessante e variável. A banda começou a sua carreira com as canções góticas e obscuras. Os temas mais frequentes foram: vampiros, noite, morte e sangue. 
  No seu primeiro álbum – Wolfheart podem-se encontrar as influências da mitologia lusitana e da música folk. No disco podemos ouvir as canções sobre duas deusas lusitanas – Trebraruna (deusa das batalhas, da morte e da família) e Ataegina (deusa da primavera). O segundo álbum de estúdio chama-se Irreligious e por muitas pessoas é considerado o melhor de todo o património musical dos Moonspell. É o mais escuro e lúgubre. A temática está relacionada com a morte, o diabo e a eternidade. Pode-se encontrar uma referência à literatura portuguesa – a canção Opium inclui uma citação de uma das obras do Fernando Pessoa. 

"E por isso eu tomo ópio,é um remédio
Sou um convalescente do momento, 
Moro no rés do chão do pensamento 
E ver passar a vida faz-me tédio." 
                                     Fernando Pessoa 

 Os álbuns seguintes – Sin/Pecado e The Butterfly Effect apresentam outra cara dos Moonspell. Fernando Ribeiro surpreende porque em vez do seu típico vocal gutural (eng. growl) podemos ouvir que sabe cantar muito bem e que tem uma voz delicada e pura. No Sin/Pecado predomina a temática religiosa, há várias referências bíblicas e o estilo do álbum tem a ver com gothic rock com elementos de música eletrónica. O estilo semelhante predomina no The Butterfly Effect, cuja temática é inspirada na Teoria do Caos. Aqui podemos encontrar a canção Tired, que contém uns fragmentos do Requiem do W.A. Mozart. Os Moonspell continuam a experimentar com música no disco seguinte – Darkness and Hope – onde podemos ouvir as interpretações de Mr. Crowley do Ozzy Osbourne e da canção Os Senhores da Guerra de uma das bandas portuguesas mais conhecidas no mundo – os Madredeus. O álbum The Antidote é um pouco diferente dos últimos porque é mais energético sentimental. Obviamente, todas as composições como sempre têm um nível muito alto. Os músicos de Portugal obtiveram êxito no ano 2006 com o seu disco Memorial, com que regressaram ao estilo gótico. Conseguiram combinar perfeitamente música étnica árabe com heavy metal. O álbum está cheio de peças misteriosas e temas instrumentais escuros. Parece que os Moonspell decidiram manter esse estilo e um ano depois lançaram uma compilação das canções realizadas nos princípios da sua carreira musical. O disco chama-se Under Satanae e contém só o material dos anos 90. No Night Eternal os músicos apresentam as melodias escuras e lúgubres, desta vez sem elementos de música gótica. Para realizar uma das canções os Moonspell convidaram Anneke van Giersbergen. O álbum mais recente, Alpha Noir/Omega White foi lançado no ano 2012 e é composto por dois discos. Cada um é uma dose de música muito boa, cujas letras são inspiradas pelos temas góticos. 
  Os Moonspell tocaram na Polónia várias vezes. O seu primeiro DVD Lusitanian Metal contém as gravações do concerto de Metalmania 2004. É muito importante mencionar que alguns dos álbuns de estúdio da banda foram produzidos pelo músico e produtor polaco de heavy metal Waldemar Sorychta. Outro polaco, Wojciech Błasiak, colaborou com os músicos na criação da capa do disco Darkness and Hope. O repertório dos Moonspell é bastante amplo e cada fã de música metal certamente encontrará algo interessante para si em algum dos seus álbuns. 
Kasia Kuczyńska


sábado, 2 de junho de 2012

Yami em Lublin

  As ruas de Lublin cheias de pessoas não cientes da magia que cerca as vidas em todos os momentos. A luz da lua alumbra subtilmente todos os eventos e todos os sons da cidade. Nesta atmosfera coisas extraordinárias podem ocorrer... Nesta atmosfera uma cidade no centro de Europa pode transformar-se num lugar completamente diferente. 
  Foi isso que aconteceu na terça-feira, 29 de maio, por volta das 20:00, quando um grupo de artistas veio ao Czarny Tulipan, um restaurante no centro da cidade velha, para tocar música do mundo lusófono. Yami (Perfil no Myspace), vocalista de origem angolana, João Balão (Perfil no Myspace), baixista português, e Marito Marques (Página oficial), baterista português, levaram todos para um mundo sem fronteiras nenhumas onde os sons têm a fragrância e o sabor das emoções verdadeiras. A sala estava cheia de pessoas que não esperavam fazer uma viagem tão incrível. 
  O trio dos músicos tocou não somente canções angolanas, mas também de Cabo Verde ou São Tomé. As caras sérias da audiência mudaram rapidamente - todas as pessoas sentiram contacto com o mundo desconhecido. Algumas pessoas começaram a dançar aos ritmos das mornas, coladeras e sembas. Canções como "Mãe Negra", "Sodade", "Marimbondo Uamulumata" ou "Kananga do Amor" transformaram este pequeno lugar num mundo cheio de emoções. Os sons tornaram-se o recurso para pintar as paisagens quase espirituais. Os artistas pareciam honestos e alegres - portanto, conseguiram estabelecer uma relação com o público. O concerto foi dividido em duas partes - a primeira foi dedicada às canções calmas e românticas. Yami cantou entre outras "Marimbondo Uamulumata" para o único angolano que vive em Lublin e que veio ao concerto. Depois, cantou "Kananga do Amor" para todas as mulheres reunidas no local. João Balão acompanhou no cavaquinho - o instrumento originado no norte de Portugal, enquanto Marito Marques encantou o público com sons suaves e delicados de bateria. Na segunda parte, a banda foi acompanhada pelo músico polaco, Mieczysław Jurecki, que se juntou à banda depois do concerto maravilhoso do dia anterior. Essa parte foi mais energética e todas as pessoas que tinham conseguido permanecer sentadas até este momento, começaram a dançar ou, pelo menos, dar saltos. A alegria visível nas caras dos músicos mostrou que, no caso da música, as fronteiras não são importantes. As duas horas do concerto provaram que a magia trazida pela música pode acontecer em todos os lugares e que há algumas coisas mais poderosas do que as divisões culturais ou linguisticas. Às vezes tudo o que se precisa é parar por um momento e abrir os olhos e os corações às emoções transmitidas pelos sons. 

Małgorzata Miciuła

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Música e bola

Já que falamos em Euro vale a pena recordar algumas das músicas de apoio à seleção de Portugal. No Mundial de Maradona no México em 1986 foi o mítico José Estebes (uma das mais geniais criações de Herman José) com a canção “Vamos lá cambada”, que animaram a desastrosa e polémica participação de Portugal no torneio. A cambada não passou da fase de grupos e foi derrotada pela Polónia com um golo de Smolarek.

 Em 2004 o hino oficial da seleção foi “Força” de Nelly Furtado em versão bilíngue e sotaque açoriano-canadiano. A música entrou no ouvido de todos e chegámos à final, mas perdemos com a Grécia que até hoje não sabe como conseguiu ser campeã.

 Depois da tragédia grega veio o Mundial de 2006 na Alemanha e o anúncio da Galp que pedia menos Ais e um pouco Mais. Não fomos campeões mas estivemos perto. Fomos pela terceira vez eliminados pelos franceses (1984, 2000 e 2006).

 Em 2010 houve várias opções, sendo escolhido como tema oficial “I Gotta Feeling”, dos Black Eyed Peas. Mas como o que é nacional é bom , em protesto pela escolha de uma canção em inglês para apoiar a seleção de Portugal, surgiu no Facebook um movimento para promover Sete Voltas Prá Muralha Cair de Tiago Guillul. O vídeo é bom, a letra também mas não imagino um estádio a cantar aquilo.
 Para o Euro 2012 há candidatos a hino oficial  para todos os gostos:



 Por aqui na Polónia foi escolhida a girls band “Jarzębina”, e o seu mais recente sucesso “ Koko Euro spoko” para animar os estádios. Quem não tem cão caça com gato.


Seleção portuguesa no EURO 2012

Esta semana Paulo Bento anunciou numa conferência de imprensa em Óbidos os 23 convocados para o Campeonato da Europa 2012 na Polónia e Ucrânia. A decisão do selecionador não foi uma surpresa, pois convocou os melhores jogadores que estavam atualmente disponíveis. Só Ricardo Carvalho e Bosingwa não foram eleitos devido ao conflito aberto com Bento do ano passado. A lista dos convocados está cheia das estrelas: Cristiano Ronaldo, Nani e Pepe, entre outros. 
 Embora os jogos dos portugueses sejam na Ucrânia, a seleção nacional vai viver no hotel “Remes Sport & Spa” em Opalenica (Polónia). Para Portugal, a competição começará no dia 9 de junho em Lviv (o jogo com a Alemanha), depois no dia 13 de junho também em Lviv (com a Dinamarca). O último encontro no grupo B será com a Holanda no dia 17 de junho em Carcóvia (Kharkiv). 
 A lista dos convocados para o Euro 2012: 
Guarda-redes: Beto (CFR Cluj), Eduardo (Benfica), Rui Patrício (Sporting); 
Defesas: Bruno Alves (Zenit São Petersburgo), Pepe, Fábio Coentrão (ambos do Real Madrid), João Pereira (Sporting), Miguel Lopes (Sporting Braga), Ricardo Costa (Valencia), Rolando (FC Porto);
Médios: Carlos Martins (Granada), João Moutinho (FC Porto), Custódio (Sporting Braga), Miguel Veloso (FC Genoa), Raul Meireles (Chelsea), Rúben Micael (Real Zaragoza), Nani (Manchester United);
Avançados: Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Hugo Almeida, Ricardo Quaresma (ambos do Besiktas Istambul), Helder Postiga (Real Zaragoza), Nelson Oliveira (Benfica), Silvestre Varela (FC Porto).

  Joanna Śliwińska

terça-feira, 15 de maio de 2012

Anthony Bourdain e as bifanas em Lisboa


Anthony Bourdain passou mais uma vez por Portugal e mostrou uma Lisboa melancólica e marcada pelo passado glorioso dos Descobrimentos e sombrio do fascismo, pela presente crise, mas com esperança num futuro melhor.  Comeu com alguns dos nossos melhores chefes (José Avillez,Henrique Sá Pessoa, e Ljubomir Stanisic)e provou a sua cozinha, foi aos fados com António Lobo Antunes, petiscou com os Dead Combo, jogou chinquilho, foi à pesca do polvo e à Ginginha do Rossio, empanturrou-se com marisco e adorou as tão nossas bifanas e pregos com uma imperial bem gelada. Tudo isto acompanhado pela excelente música dos Dead Combo, que graças a isso têm três dos seus álbuns no Top 10 do Itunes. Faltaram os pastéis de nata e mais vinho, entre outras coisas, mas apesar disso Bourdain deixou aqui a redacção com água na boca e ainda mais saudades de casa. 


sexta-feira, 20 de abril de 2012

O encanto da primavera na Polónia


Há poucos dias começou a primavera, uma estação cheia de vida e alegria. Com a chegada da primavera voltam à vida ativa muitos representantes da fauna e flora local, adormecidos durante o inverno, que fazem as delícias dos demais habitantes deste harmonioso ecossistema do qual podemos desfrutar no nosso belo país. Vamos passar em revista estes filhos de... a nossa pátria, cuja constante companhia não nos vai permitir esquecermo-nos da nossa nacionalidade e do mundo em que vivemos.
  Um dos grupos de espécies mais notáveis do nosso ecosistema é a família dos Hooligani,  com o Hooliganus Predius como representante mais conhecido. Este animal mostra um grande interesse pelas atividades físicas e a roupa associada com o tema. Uma das funções deste grupo no ecossistema é a deteção dos problemas dos outros habitantes, coisa que fazem com muita eficácia de noite e com benefício bilateral, pois muitas vezes cobram pelo serviço. O Hooliganus Brutalis costuma adicionar uma massagem para relaxar os clientes, com ocasionais serviços de cirurgia plástica e, raramente, pré-funerários. Outro proveito que temos da parte desta família é a defesa de cidades inimigas. Qualquer descarado que quisesse visitar a sua família ou vir com qualquer outra escura intenção num carro matriculado noutra cidade pode esperar consequências. Especialmente nos dias próximos a um jogo de futebol.
  A espécie seguinte são os meninos bem (Meninus Bonus). Podemos encontrar os representantes desta espécie nas discotecas caras. Às vezes topam na rua com manifestações ou outras situações de caráter político e ideológico. Nestes casos ficam perplexos e detêm-se para tentar imaginar como é ter ideias. Passam algum tempo a discernir as razões da inexplicável pobreza no mundo e geralmente chegam a conclusões similares: é o orgulho o que não permite às pessoas pobres pedir dinheiro aos seus pais. A pele deles é especialmente frágil e só tolera roupinhas de marca. Ambos os sexos perderam as suas glândulas cutâneas, e por isso precisam de produtos especializados para lubrificar ou dar forma ao seu cabelo. As fêmeas nascem com os pés deformados e têm de usar sapatos ortopédicos, mas ainda assim não conseguem caminhar corretamente por terrenos acidentados. Apesar da sua resistência natural ao frio, não todas sobrevivem ao inverno, devido à incapacidade de cobrir as costas com roupa por causa de um grupo de ligações neurónicas defeituosas exclusivo de esta espécie. A carência de glândulas cutâneas obriga aos representantes deste grupo a usar perfumes especiais que funcionam como atrativos para outros indivíduos de características similares. Também cumprem uma função oposta no contacto com espécies estranhas.
  A última espécie desta digressão pela fauna local é o Homo Etílicus. Estes mamíferos são muito mais comuns nas ruas nos meses quentes. Alimentam-se principalmente de bebidas alcoólicas e petiscos baratos. O Homo Etílicus Vulgaris é a variante gregária. Encontra-se principalmente em festas associadas à reprodução ou aos nomes, mas às vezes acha uma boa ideia voltar para a sua guarida a pé. Os encontros fortuitos com grupos que circulam pela rua e a aproximação às suas festas podem causar danos nos sistemas olfativo, auditivo e cognitivo. Pelo contrário, o Homo Etílicus Vagabundis não costuma agrupar-se prolongadamente em grupos de mais do que três indivíduos. São coletores. Geralmente coletam dinheiro e cigarros de outros transeuntes. Cobrem-se com bastante roupa durante o inverno, mas carecem da resistência natural das fêmeas do Meninus Bonus. Por muito que gostasse de ver um cruzamento direto destas duas espécies, não há casos conhecidos. Se calhar há casos no mundo de indivíduos que combinam as características de ambas as espécies (Charlie Sheen, Amy Winehouse). O  Homo Etílicus Vagabundis evolui a partir do Homo Etílicus Vulgaris, e este processo é mais comum em homens.
Bartek Kozłowski

quinta-feira, 29 de março de 2012

O diálogo com a tradição de Ana Luísa Amaral em A Génese do Amor


Ana Luísa Amaral no seu décimo livro intitulado A Génese do Amor [1] tenta descodificar o essencial do amor humano. A escritora repensa de forma intertextual o cânone amoroso estético da cultura ocidental e desde a perspetiva feminina apresenta a visão panorâmica da questão por ela tratada.
            O livro de poemas de Ana Luísa Amaral destaca-se pela mostra de diversas referências literárias (os textos de Camões, Dante e Petrarca servem de modelo a seguir e de ponto de apoio) e pela única organização dos poemas. Verifica-se que o primeiro e o último poema do livro apresentam uma visão geral da autora e, ao mesmo tempo, constituem uma chave de leitura de toda a obra, um guia. A poesia de Amaral, exprime-se por meio de sinais exteriores (coisas, palavras) e por eles é recriado o essencial (o que é visível da melhor maneira em dois poemas: Topografias em quase dicionário e A Génese do Amor). A escritora cruza os olhares e os pensamentos na encenação dialógica de poemas. A voz têm não só os clássicos que cantam a beleza, mas também as suas musas inspiradoras (antes silenciosas).
Avançando na leitura, chega-se à conclusão que o amor humano é inexpressível, mas é por meio de palavras e a reinvenção da língua, que a própria autora quer tornar o amor num valor infinito. A desconstrução de poemas resulta em revelar o absurdo que deriva da sobreposição de planos e dos olhares apresentados nos poemas. Tudo isto serve para confirmar que apesar de toda a topografia exposta (é isso, mas pode ser tudo outro) não há uma resposta para a pergunta onde é que nasce o amor. A poesia de Ana Luísa Amaral tenta exprimir algo que na sua origem não tem palavras.
Desde o ponto de vista crítico vale a pena sublinhar que os poemas tratam do assunto já elaborado por muitos e bons poetas. Mas não se deve esquecer que, contudo, a escrita de Amaral desperta muitas emoções estéticas, e, além disso, apresenta um olhar novo para a tradição nacional.
[1] AMARAL, Ana Luísa (2005) A Génese do Amor. Porto, Campo das Letras.
Agata Pietroń

sábado, 17 de março de 2012

Fátima

  Fátima é uma cidade portuguesa situada no centro do país que pertence ao Distrito de Santarém. A cidade tornou-se conhecida mundialmente graças às aparições marianas. Desde a década de 20 do século XX até hoje Fátima recebe peregrinos de todo o mundo e é um dos santuários mais importantes da Igreja Católica. Mesmo que a história que aconteceu ali já tenha quase cem anos, pouco a pouco conhecemos novos factos.
  No princípio do século XX Fátima era uma aldeia habitada por pastores. A história das aparições começou no dia 13 de maio de 1917. Três crianças Lúcia, Francisco e Jacinta foram as testemunhas de um acontecimento extraordinário. Afirmaram ter visto a figura de uma senhora sobre uma árvore de um metro de altura. Isto teve lugar na Cova de Iria, muito perto de Fátima onde os primos apascentavam um pequeno rebanho. Lúcia, a mais velha conversou com a figura. Os irmãos, Francisco e Jacinta apenas a viam. As aparições repetiram-se cinco vezes. A senhora mandou-os voltar ao mesmo lugar no mesmo dia de cada mês seguinte. As posteriores aparições tiveram lugar nos dias 13 de junho, 13 de julho, 15 de agosto, 13 de setembro e 13 de outubro do mesmo ano. Ao princípio as crianças decidiram não contar sobre o que tinha ocorrido a ninguém, mas rapidamente tiveram de revelar o seu segredo por pressão dos adultos. Cada um deles sofreu muito depois de que a história das suas visões saiu à luz, até os puseram na prisão. A Virgem confiou às crianças três mensagens para a humanidade. Estes acontecimentos são uns dos poucos milagres reconhecidos pela Igreja Católica e só duas delas --- foram divulgadas posteriormente. A primeira delas falava de que o mundo viveria uma grande guerra mundial. A segunda profetizava uma futura conversão da União Soviética e a Segunda Guerra Mundial. 
 A última visão, a 13 de outubro foi a mais espetacular. Além das crianças acudiram cerca de 60 mil pessoas. Nesta altura o tema das aparições já tinha muito bem divulgado entre o povo português. Naquele dia todos puderam ver o milagre do sol. Aproximadamente ao meio dia o sol deslocou-se no céu, girando e movendo-se em várias direções. Aquele espetáculo durou vários minutos. Das três crianças, Jacinta e Francisco faleceram ainda bem jovens, dois e três anos após o milagre do sol. Lúcia, a única que falou com a Virgem dedicou a sua vida à religião e tornou-se freira carmelita. Viveu 98 anos, falecendo em 2005. 
  Mas o que realmente ocorreu em Fátima? Durante anos apareceram várias teorias sobre a história contada pelas crianças e o movimento do sol. Os representantes da Igreja Católica investigaram estes acontecimentos admitiram que tinha sido um milagre. Por outro lado nem as pessoas dos outros lugares da terra nem nenhum observatório astronómico notaram mudanças da posição do sol. Apareceram várias explicações para este fenómeno, como por exemplo uma histeria coletiva ou um fenómeno meteorológico. As testemunhas descreveram que o milagre foi acompanhado por relâmpagos e trovões. Muitas pessoas crêem que foi na realidade um encontro com um ovni, um objeto extraterrestre porque teve muitos elementos caraterísticos de outras descrições deste tipo em relatos de avistamentos de objetos voadores não identificados, décadas mais tarde. A visão da Senhora na narração de Lúcia parecia ser "transparente e brilhante, como um copo de cristal com água" que nos fazem lembrar dos fenómenos de natureza holográfica ou semelhante, os quais a ciência começa a pesquisar.
   Em 2000 o Papa João Paulo II revelou a parte do terceiro segredo que durante tanto tempo foi guardado em segredo. Segundo este segredo algo muito grave deverá ocorrer em relação ao globo. As pessoas relacionam o texto do terceiro segredo com as profecias do fim do mundo no ano 2012 e as de Nostradamus. Muitos dos crentes cristãos estão convencidos de que as mudanças políticas, as guerras, os desastres naturais,a mudança do clima, são todos os sinais da profecia que vai se cumprir. Dentro em breve todos vamos ver se o texto do terceiro segredo e outras especulações têm a ver algo com a realidade. A opinião pública não tem nenhum acesso aos documentos oficiais relacionados com as aparições. Por isso acho que na realidade nem tudo o que nos dizem é verdadeiro. Por alguma razão a Igreja manipula os factos, por exemplo quanto à descrição da Virgem, os relatos das testemunhas oculares são imprecisos e diferenciam-se. Não há dúvida que algo extraordinário teve lugar em Fátima, e provavelmente não teve origem em fenómenos naturais. Por isso acho que o relacionamento destes acontecimentos com os conceitos cristãos é uma atitude ingénua.
Barbara Górak

quarta-feira, 14 de março de 2012

O pai do Modernismo Português – Almada Negreiros

  O símbolo da arte moderna portuguesa. O favorito e amigo de Fernando Pessoa. O desenhador, caricaturista-humorista, poeta, dramaturgo, escritor, pintor, escultor. Não basta palavras para descrever um artista tão talentoso e multifacetado como foi o José Sobral de Almada Negreiros. Podemos encontrar as suas obras pitorescas, por exemplo, na Casa Museu Teixeira Lopes/ Galerias Diogo Macedo em Vila Nova de Gaia, no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (Fundação Calouste Gulbenkian) em Lisboa ou nos frescos da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Por que razões a sua obra se tornou um dos elementos mais significativos para a arte moderna portuguesa? A que deve ele deve a sua popularidade tanto nos seus tempos, como nas épocas posteriores? E o mais importante – o que o inspirava a criar? 
A vida 
 José Almada Negreiros nasceu em 1893 em São Tomé e Príncipe, o país natal da sua mãe. Depois de alguns anos mudou-se com a família para Portugal, mas não ficou fiel a este país mudando-se para França no ano 1919 ou para Espanha em 1927. Morreu em 1970, devido a uma paragem cardíaca em Lisboa. O fato bastante curioso é que Almada Negreiros faleceu no mesmo quarto no Hospital de São Luís dos Franceses no qual também tinha morrido o seu amigo Fernando Pessoa em 1935. 
A obra 
A sua carreira começou em 1911, quando, após a formação académica e o desenvolvimento do seu trabalho, publicou o seu primeiro desenho para a revista A Sátira, e já no ano 1913 teve lugar a sua primeira exposição de quase noventa desenhos na Escola Internacional em Lisboa. No entanto, apesar de ser o pintor excelente, a maioria da sua vida dedicou à escrita. Trabalhou com Fernando Pessoa, com quem ainda fez amizade, ou com Mário de Sá Carneiro e todos juntos fundam a Revista Orpheu. Porém, na última década da sua vida voltou a desenhar e pintar. Almada Negreiros foi chamado o pintor – pensador. Todas as suas obras circulavam em torno da beleza e sabedoria, as quais na sua opinião não poderiam existir uma sem outra. Lima de Freitas (outro artista português) explicou-o com as palavras: “a beleza não podia ser ignorante e idiota tal como a sabedoria não podia ser feia e triste”. No seu trabalho não se esgotava só nas habilidades adquiridas na Escola da Arte, mas pelo contrário, ultrapassava as correntes populares. Os temas principais das suas obras são os números e a geometria. Almada tentava procurar os seus significados, contextos e entrelinhas, o que foi a fonte mais importante na sua inspiração e criatividade. José Sabral de Almada Negreiros mais que nenhum outro artista contribuiu para o desenvolvimento e o prestígio do modernismo português. No entanto, também ele próprio evolucionou ao longo dos anos – passou do convencionalismo e figurativismo à abstração tanto numérica como geométrica nas suas últimas obras.
Provavelmente, a pintura mais reconhecida é o retrato do seu amigo, Fernando Pessoa, que criou no ano 1954. 
Karolina Bróździak

segunda-feira, 12 de março de 2012

TERRA DAS CULTURAS DIVERSIFICADAS I


  Minha aventura no Brasil começou em 22 de julho de 2011, quando pela primeira vez desembarquei em solo brasileiro, no aeroporto de São Paulo, de onde peguei um vôo para Porto Alegre, a capital do Estado do Rio Grande do Sul. Lá, embarquei em um ônibus e após uma viagem de oito horas, cheguei a Ijuí, uma cidade situada no noroeste do Estado. O desejo de visitar este país tão diferente para nós estava latente dentro de mim desde sempre. Portanto a decisão de seguir meus sonhos foi rápida. Sempre sabia que viria, agora já estou aqui.
    Como mencionei, eu vim para o Brasil em julho, exatamente no meio do inverno que atinge o sul do Brasil. Claro, não é um inverno tão rigoroso como o nosso polonês, aqui durante esta estação pode-se colher laranjas. A única desvantagem é que nem as casas, e nem as universidades brasileiras possuem aquecimento. Portanto, o inverno no sul do Brasil se sente muito mais do que na Polônia. Felizmente, durante esses períodos frios, aparecem também dias muito ensolarados, caso contrário ele seria insuportável. Isso é algo inacreditável, mas acreditem ou não, um dia eu, vestia um casaco grosso, e no dia seguinte estava muito quente, o sol brilhava e o clima estava perfeito para manga curta. No passado a região do Rio Grande do Sul teve as estações bem definidas. Hoje os dias frios se alteram com dias muito ensolarados. Essa região, localizada no sul do Brasil, sua cultura, tradições e sabores regionais, muito fortes, em especial a cidade de Ijuí e seus arredores, pretendo, aproximar vocês caros leitores dessa realidade. Espero poder cumprir com o desafio.
    Na língua Guarani, Ijuí significa “Rio das Águas Claras” ou “Rio das Águas Divinas”. Como sabemos, os povos indígenas foram os primeiros habitantes da região. Depois de milhares de anos, se juntaram a eles os imigrantes afro-brasileiros, luso-brasileiros e os descendentes de imigrantes europeus. É assim que começou uma grande mistura de etnias, que caracteriza Ijuí como “Terra das Culturas Diversificadas”. Ijuí foi fundada no final do século XIX. É uma cidade com a aparência típica das cidades sul-americanas. Sua história breve, a arquitetura pouco artística e mistura cultural não assemelham Ijuí às cidades europeias contemporâneas. Além de “Terra das Culturas Diversificadas”, Ijuí pode se orgulhar também dos títulos “Cidade Universitária”, “Colméia do Trabalho” ou “Terra das Fontes de Água Mineral”. A cidade é uma mistura de muitas nacionalidades. É habitada por descendentes de imigrantes portugueses, alemães, italianos e poloneses. Não é difícil, encontrar também os descendentes de imigrantes árabes, holandeses, austríacos, japoneses, espanhóis, africanos ou suecos, mas é claro, em menor número. Estes grupos étnicos estão hoje bastante integrados e organizam anualmente a FENADI – Festa Nacional das Culturas Diversificadas.
    Esse evento acontece no “Parque de Exposições” de 7 a 19 de outubro. Durante estes 12 dias, os 12 grupos étnicos têm a oportunidade de mostrar a cultura e as tradições de seus antepassados. O mais interessante é que cada grupo possui sua própria casa. No “Parque de Exposições” situam-se 12 casas chamadas “Casas Étnicas” e em cada uma delas pode-se ver um fragmento da cultura, que é mais característico para elas, que faz parte do seu país de origem de seus antepassados. E assim, por exemplo, na casa italiana pode-se provar o maravilhoso gnocchi, na espanhola pode-se paella, e na alemã degustar uma cerveja tradicional. E tudo isso com o acompanhamento de música típica de cada país. Na casa polonesa são servidos, claro, as nossas empanadas tradicionais. Os visitantes também encontrarão uma surpresa atraente. Cada convidado recebe um “passaporte turístico” em que se carimba a visita numa casa. A pessoa que consegue coletar todos os 12 selos, tem a chance de participar dum concurso, cujo prêmio principal é uma viagem para um dos 12 países propostos. O que me surpreendeu nessas pessoas, é uma enorme fascinação pelo país de seus antepassados. Fiquei muito agradavelmente surpreendida porque tive a oportunidade de trocar algumas palavras em polonês. Embora o idioma polonês possa ser ouvido hoje aqui apenas por pessoas mais velhas, falando um pouco polonês arcaico, as novas gerações enfatizam sua origem, através dos grupos folclóricos, dos quais em Ijuí tem dois. Os jovens estão interessados em aprender danças polonesas, que são apresentadas, entre outros, durante a FENADI. Gostaria de acrescentar apenas que, sob a presidência de G. Vargas (1930-1945), através de seus decretos (1938), com a ideia de nacionalização da nação, foi proibido o uso de línguas locais. O presidente Vargas aboliu todas as escolas étnicas, incluindo as polonesas, o que dificultou muito a transmissão de tradições e língua polonesa às gerações mais jovens. 
    Durante a FENADI fiquei mesmo impressionada com a grande dedicação na preparação da festa e a paixão pela terra de seus ancestrais que contaminam também estes mais jovens. Durante estes dias não só tive a oportunidade de visitar a casa ;), mas também por ocasião visitar toda Europa. Foi uma verdadeira viagem culinária, durante a qual conheci os sabores de quase todos os cantos da Europa, bem como da Ásia ou África. Esta é a minha primeira viagem ao Brasil, mas eu não sinto que é um país estrangeiro para mim, pelo contrário, me sinto como em casa. Em grande parte é graças à comunidade local polonesa, uma das maiores na América do Sul. Não quero dizer que o Brasil seja igual à Polônia, porque o Brasil é um país totalmente diferente.
Sylwia Michta

domingo, 11 de março de 2012

Uma joia gastronómica da cozinha portuguesa

  Como é Portugal para as outras nações? Com o que o associam os outros? O que pensam os polacos ouvindo o nome de Portugal? Para a maioria Portugal é um pais no fim da Europa, ou pior, uma parte de Espanha, é este país que agora está em crise e que tem tremendos problemas económicos, o pais do futebol, do Benfica ou Cristiano Ronaldo, do vinho do Porto, mas acho que há poucos que associam Portugal com os Pastéis de Belém, e porquê ? Isto é o doce mais saboroso do mundo, é uma maravilha das sobremesas, que foi considerado a 15 ª mais saborosa iguaria do mundo pelo jornal The Guardian e uma das coisas mais importantes para ver e provar em Lisboa. Com certeza, também tem a sua história. 
 Os pastéis de nata podem-se comprar em cada parte de Portugal e sabem bem, disto não há dúvidas, mas só no bairro de Belém em Lisboa se podem encontrar ESTE sabor e ESTES pastéis de nata, mais precisamente os pastéis de Belém. Onde podemos comprá-los? Num lugar ao lado do Mosteiro dos Jerónimos, onde começa a história destes. Lá os monges no ano 1837 começaram a preparar e depois vender os pastéis de nata para manter o mosteiro. Os pastéis rapidamente caíram no gosto popular apesar de que nessa época, a zona de Belém ficava longe do centro de Lisboa. A receita, transmitida e exclusivamente conhecida pelos mestres pasteleiros que os fabricaram artesanalmente na Oficina do Segredo, mantém-se igual até aos nossos dias. Com o encerramento do mosteiro o confeiteiro vendeu a receita em 1874 ao empresário português Domingos Rafael Alves. E assim começou um grande êxito de pastelaria. Aqui todos os dias vende-se cerca de 10.000 pastéis. Tanto a receita original como o nome "Pastéis de Belém" estão patenteados. A Pastelaria de Belém é um lugar com tradição, lá trabalha Henrique Almeida que dedica a toda sua vida à preparação dos pastéis e é uma das três pessoas que conhecem a receita. Começou a trabalhar lá quando tinha 15 anos e ainda continua aos 76 anos. Antes o seu pai trabalhou aqui 60 anos e transmitiu-lhe o segredo da receita. Ele diz que viajava muito pelo mundo e provava pastéis e doces em todas as partes e está convencido de que entre outras iguarias e os pastéis de Belém não há comparação. Acho que quando experimentarem os pastéis de Belém vão achar o mesmo. Eu já experimentei!  
  Sabiam que…Os Pastéis de nata são muito populares na China, onde chegaram através de Macau, no tempo da presença portuguesa.. Em chinês são chamados "dan ta" que significa "pastel de ovo". Empresas de fast food incluíram os "dan ta" na sua oferta de sobremesas, fazendo com que desde finais de 1990 seja possível saborear pastéis de nata em países asiáticos, como no Camboja, Singapura, Malásia, Hong Kong e Taiwan. 

Natalia Trzebuniak

sexta-feira, 9 de março de 2012

E porque não rir-se dos portugueses?

Qual é a diferença entre um casamento polaco e um funeral polaco? Num funeral há sempre um bêbado menos. O sentido de humor é uma das características mais apreciadas no mundo de hoje. Segundo os psicólogos rimo-nos especialmente das anedotas nas quais os outros são satirizados. Inventamo-las e repetimos facilmente porque nos ajudam a curar os nossos complexos. Estas anedotas estereotípicas formam uma verdadeira sabedoria sobre outras nacionalidades. 
 Os russos são a principal vitima das piadas dos japoneses, ao mesmo tempo que se riem dos americanos. Os alemães riem-se dos polacos e dizem que somos capazes de roubar tudo. Segundo as „polish jokes” nos Estados Unidos também somos capazes de beber tudo. Nós brincamos com o atraso civilizador dos romenos e eles e os eslovacos divertem-se com piadas sobre os húngaros. Ademais cada alemão vai ser sempre um secreto nazi. Cada italiano ama a sua mãe e vai viver com ela até aos 40 anos; inventou a sesta para poder não fazer nada durante mais tempo. Um francês é sempre um cobarde ofendido com todo o mundo... É uma rede que não se pode ordenar de modo nenhum. Porém, nalguma parte há piadas sobre os portugueses, nas quais a maior parte tem origem no Brasil e na África lusófona. 
  Brasil: Para os brasileiros contar piadas sobre o português é quase um desporto nacional, eles adoram. As anedotas sobre esta personagem circulam na internet, nos jornais e ainda nos programas de televisão. Porquê? Se ambos tem a mesma origem... por que os portugueses do Brasil, os que já estavam instalados ali, passaram a rir-se dos que chegavam? A causa é a seguinte: Depois da Independência do Brasil (1822) em meados do século XIX começa a grande vaga da emigração portuguesa para o Brasil. Grande parte deles empregou-se, substituindo os escravos, nas plantações de cana-de-açúcar, café e algodão. Este foi um acontecimento muito vergonhoso. Descrevia uma enorme diferença entre o estatuto social destes novos imigrantes e a comunidade portuguesa há muito tempo instalada no Brasil que constituía a elite brasileira. Agora esta elite quer anular as marcas da sua identidade portuguesa para distinguir-se deste povo. Desta maneira os emigrantes portugueses no Brasil passaram a ser retratados, através de anedotas e piadas, como estúpidos. Não possuem inteligência nenhuma ou quando a têm, sempre é inferior à de um macaco, como podemos ver num exemplo: 
 Todos estavam prestes a apedrejar Maria Madalena, quando Jesus disse: - "Quem nunca errou que atire a primeira pedra!" Um português juntou rapidamente do chão o maior pedregulho que achou e atirou, acertando em Maria Madalena. Jesus aproximou-se dele e perguntou: - "Você nunca errou?" O português respondeu: - "Dessa distância eu nunca errei senhor! Outra característica muito presente é a nostalgia portuguesa. Todos conhecemos Camões e a sua saudade, uma das palavras mais populares na poesia e música portuguesa. Palavra, segundo a lenda, surgida na época dos Descobrimentos no Brasil colónia. Nesta época esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha. É uma melancolia causada pela lembrança e ausência de Portugal. Até hoje no Brasil o estereótipo do português melancólico e sempre contemplativo forma a base do humor brasileiro: Qual é a diferença entre um computador brasileiro e um computador português? O computador brasileiro tem memória; o português tem uma "vaga lembrança". Estas anedotas são apenas exemplos mas existem muito mais. Porém, na realidade os brasileiros quando estão a rir-se do português estão a rir-se de si mesmos. 
  Recém che­gado ao Brasil, está Pedro Álvares Ca­bral a en­tregar um con­trato aos na­tu­rais do Novo Mundo. Então o índio bra­si­leiro per­gunta: - Ó Ca­bral, que está es­crito neste con­trato? Ca­bral res­ponde: - Que nós por­tu­gueses po­demos levar o ouro todo, a prata toda, e o pau-brasil que qui­sermos. Diz o índio: - E nós bra­si­leiros o que ga­nhamos? Res­ponde Ca­bral: - O di­reito de con­tarem ane­dotas sobre por­tu­gueses es­tú­pidos nos pró­ximos qui­nhentos anos.     
  África: Moçambique, Angola, Guiné Bissau, São Tomé e Princípe e Cabo Verde até 1975 viveram sob a tutela do cruel colonialismo português que tal como as demais potências europeias procurava apoderar-se das riquezas e não respeitava a lei nenhuma. Isto levou a que os portugueses agora sejam vistos como pessoas cruéis e, como sempre, com a inteligência de um macaco. Ali, as piadas deles são tão comuns como no Brasil, e não só entre o povo. Em Moçambique por exemplo a gente educada (jornalistas ou professores) sem escrúpulos dizem que os portugueses são “burros” e “porcos”. Também em Angola e na Guiné-Bissau os portugueses brancos eram as primeiras vítimas de racismo. Expulsos das terras onde nasceram simplesmente por causa da sua cor de pele, sempre culpados da colonização: "Um caçador português, vindo de uma caçada, para em Angola para tomar café e o empregado pergunta-lhe: - Que tipo de animais o senhor caçou? - Girafas, elefantes, rinocerontes e muitos aminões. - Aminões? - Sim, são uns animais pretos, que quando eu lhes apontava a arma, gritavam: "A MIM NÃO","A MIM NÃO","A MIM NÃO".
  Na realidade as anedotas e piadas estereotípicas pouco dizem sobre estes dos quais se riem, mais sobre os que se estão a rir. Então qual é o seu objetivo? Porque nos rimos dos outros? Não tenho resposta. Porém, tenho outra pergunta: e porque não? Para quê resignar de um bom motivo para rirmos? 
Sylwia Moździerzewska