quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

“Se Deus quiser...” - sobre as superstições dos portugueses.


Há superstições em todo o mundo. Cada país tem as suas tradições e crenças que muitas vezes são consideradas uma parte do património cultural. Por exemplo, na Polónia agarram um botão quando veem um limpas-chaminés porque acham que isto dá sorte. Os italianos acreditam que o espirro do gato traz felicidade. Para os gregos, terça-feira é o dia de má sorte. Os japoneses pensam que matar uma aranha pela manhã é destruir uma alma humana. E os portugueses? Os portugueses também são supersticiosos.
Fique sabendo que as superstições ajudam a explicar muitos fenómenos. Compreender os medos, mitos, tabus, provérbios, lendas e folclore pode ajudar a obter um alguma informação sobre todos os tipos de raridades culturais. As superstições têm o potencial de afetar tudo. Nem todos confessam que acreditam, mas passadas de geração em geração, as superstições populares ganham terreno, espalham-se e resistem ao tempo e ao avanço da tecnologia. Quem é que ousa passar por baixo de uma escada? Quem é que gostaria de ver um gato preto atravessar-se à sua frente? E que o noivo não deve ver a sua amada vestida de noiva antes da cerimónia, também toda a gente sabe.
As superstições não têm qualquer razão científica mas há gestos que evitamos no nosso dia a dia. Não se sabe ao certo a origem exata de como a superstição começou influenciar a vida do homem. Mas com certeza essas práticas que existem hoje têm a sua origem em tempos antiquíssimos. Antes, os povos não tinham conhecimento suficiente para dar respostas às coisas que aconteciam nas suas vidas, e como consequência disso, começaram a criar superstições e crendices. Logo, o caminho da superstição abriu portas para ao mundo da magia, feitiçaria e bruxaria. Pouca gente sabe que a bruxaria foi muito popular em Portugal. Especialmente nas aldeias no norte de Portugal a crença em bruxas era comum. Quase todas as aldeias tinham os seus praticantes de magia que protegiam os habitantes dos espíritos maus. Mais tarde, as gentes perderam essas crenças populares e desistiram de práticas mágicas, mas uma forte corrente de superstição ainda permaneceu em Portugal.
Apesar da prática mágica realizada há séculos, os portugueses são profundamente religiosos e supersticiosos. O seu catolicismo formal é misturado com práticas e crenças pré-cristãs. Eles, especialmente os habitantes das áreas rurais, dão muita ênfase à adoração dos santos, porque acreditam que isto curará todas as doenças. A famosa frase: "Se Deus quiser" é a resposta automática de muitas mulheres idosas a alguma notícia sobre o futuro como para lembrar que se pode morrer antes de amanhã.
 Existem também as superstições não relacionadas com a vida cristã ou com as crenças antigas, estas consideradas uma curiosidade trivial, que dão sabor à vida. Umas mais ridículas, outras mais verossímeis, mas a maioria respeita-as. E enquanto alguns podem rir, muitas pessoas não querem abusar da sorte.
Por que é que as carteiras ou malas de mão não devem ser deixadas no chão? Não é porque é mais fácil roubá-los - na verdade, é mais fácil roubar uma bolsa pendurada no encosto de uma cadeira de que uma escondida entre os pés debaixo da mesa - é porque mantém o dinheiro fora. Isto é uma das superstições portuguesas mais interessantes. Além disso, os portugueses têm muitas superstições concernentes aos alimentos. Por exemplo, acreditam que deixar um copo de vidro cheio de sal grosso no canto da sala, traz sorte.  Do outro lado, o pão não deve ser colocado na mesa virado para baixo, porque isto dá azar. Também, não se deve beber água de noite, porque ela está a dormir. Quando alguém tem sede de noite e quer bebê-la, é necessário acordá-la batendo. O que é interessante é que os portugueses prestam muita atenção ao lado esquerdo. A esquerda representa o lado positivo, o lado do coração, por isso todas as superstições relacionadas com ele trazem uma boa notícia. Tem um zumbido no ouvido esquerdo? Alguém está a falar bem de nós. Treme o olho esquerdo? Boas notícias. E há muito mais. Por outro lado, o pé esquerdo não traz sorte. Os portugueses dizem que se deve sair de casa e entrar em qualquer lugar, sempre com o pé direito, para evitar o azar. Também, tropeçar com o pé direito é sinal de alegria que está para vir. Além disso, em Portugal deve-se lembrar de não abrir um guarda-chuva dentro de casa. Isto traz desgraça e má sorte à família. Durante a preparação da cerimónia do casamento também se devem lembrar várias crenças. Disso pode depender toda a vida futura dos cônjuges. Se chover no dia do casamento, diz- se: “casamento molhado, casamento abençoado” Isso é sinal de felicidade. Mas, se no casamento qualquer dos nubentes ao colocar a aliança no dedo do outro a deixar cair, isso é sinal de infelicidade. Então, tenha cuidado para não cometer algum erro e não atrair a desgraça sobre si.
Portugal, como qualquer outro pais, é supersticioso em maior ou menor grau. Isto faz parte da cultura e da identidade portuguesa. O conhecimento de algumas das superstições portuguesas é essencial para compreender os costumes e a tradição deste pais. Algumas são mais estranhas e ridículas, outras bem conhecidas das outras nacionalidades – todas existem. E as pessoas , mesmo as que se riem ainda acreditam nelas e seguem-nas.

Ewelina Sysiak

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os filmes, sem dúvida, mudam a nossa vida!


Quando era pequena, gostava do cheiro do cinema. Sim, simplesmente o cheiro. O filme não era tão importante. Só o cheiro das pipocas e a esperança fútil de que vou beber uma coca-cola grande. Com este ‘aparelhamento’ tão gorduroso e cheiroso, gostava de me esconder debaixo dos assentos e apenas de imaginar, quais são os personagens que aparecem no filme. Agora faço o mesmo. Vou ao cinema, sozinha. Não compro o bilhete nem as pipocas, nem a coca-cola. Não digo nada a ninguém. Entro na sala em silêncio e sente-me na fila da frente. Tiro o meu casaco, desligo o telemóvel. Por um momento, olho, de soslaio, para a tela em branco e ouço o silêncio... Instintivamente fecho os olhos, involuntariamente abro a boca, respiro... e começo a minha viagem  pelo mundo cheio das imagens, sons e diálogos que vivem na minha memória.

A estação número I
A Joanna, chamada carinhosamente de Joaninha, 3 anos

Uma menina pequena, com o cabelo de cor não identificada, que já é muito comprido, caminha orgulhosamente ao lado do seu pai e do seu tio. Ela vai ao cinema pela primeira vez! Não sabe nada sobre a vida, nem sobre filmes, mas quer ver um leão que alegremente dança e canta. Ela está muito animada, mas o desejo de ver "O Rei Leão" é mais forte do que a vontade de fazer xixi, portanto bravamente aperta a bexiga e sem fôlego, entra no mundo dos animais animados. Depois das duas horas da sessão, não se lembra de muito, mas a cada manhã tenta rugir como o Simba.

A estação número II
A Joanna tímida como uma borboleta, 6 anos

A menina já não ruge como um leão, mas lê fluentemente os livros sobre o Castelo Real Wawel em Cracóvia. Não gosta de falar muito, portanto foge para o mundo das letras e imagens. Todos os dias antes de ir dormir liga a televisão e conversa com uma menina orfã que se chama Madeline. "As novas aventuras de Madeline" é para Joana como o encontro com a melhor amiga que vive grandes aventuras em cada episódio desta série. A Madeline mora no Orfanato de Lorde Croissant onde é guardada pela sua tutora, a Senhora Clavel, que é uma freira. É possível que por isso, sete anos depois, a Joanna, não totalmente madura, escolha uma escola católica onde as freiras lhe ensinam... Que trauma tão grande!

A estação número III
A Joanna que já sabe o que é amor verdadeiro, 10 anos

Senhorita Joanna descobre em casa uma colecção dos livros "Harlequin". Secretamente assiste aos filmes para adultos. Enquanto isso conquista novos corações. O tempo ideal para conhecer a história do "Titanic". O filme tão dramático e emocionante! A Joanna não entende por que o DiCaprio abraça a sua amada no carro, com tanta força, mas junto com sua mãe, chora amargamente durante todo o filme. Primeira vez, mas não última vez... Pobre Jack!  ...Jaaaack?! Jack! Jack!!! Come back!


A estação número IV
A Joanna que está á procura de novas inspirações, 12 anos

A senhorita com a experiência de vida grandíssima, já está farta do amor. Por isso, decide desistir de todos os seus amores "eternos" e começa a dedicar-se à paixão. Pelo menos uma vez por mês, vê ao filme "Dirty Dancing" e dança apaixonadamente com os atores na cena final. Ela sabe perfeitamente que um dia, vai dançar tão bem como eles!

A estação número 666.
Trevas, mal e vampiros, isto é a Joanna Dark, a versão gótica, 16 anos

A vida tenebrosa da Joanna está cheia da poesia de Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Tadeusz Miciński. Por isso o filme "Eclipse Total" é tão importante para ela. Não só inspira, mas também mostra que o DiCaprio porém é o ator excelente. A menina que chamam de bruxa, tenta assistir aos filmes de terror. Brevemente range os dentes e liga "13 Fantasmas". É uma obra totalmente sem valor artístico. Não é terrível, mas ela está com muito medo. Depois desta sessão de cinema, a Joanna tem certeza que não pode assistir aos filmes de terror. Mesmo sem som...

A estação número VII
 A Joanna, uma estudante muito aplicada, 18 anos

A Joanna, já adulta, está a preparar-se para os exames finais da escola secundária. Portanto, vê muitos filmes biográficos, em particular sobre os pintores famosos. " Rapariga com Brinco de Pérola", "Os Fantasmas de Goya" ou "Frida" são os filmes que ainda estão na sua memória...

A estação número VIII
A Joanna que fica no cinema e pensa que está sozinha, 20 anos

É muito tarde. Depois de uma longa viagem através da sua memória, a Joanna abre os olhos. A menina não está ciente de quantas mentes estrangeiras há em torno dela. Não importa. Não importa, porque na grande tela começam a projetar o filme "Pina". Um documentário alemão em 3D. As pessoas no cinema emudecem, apagam as luzes. Alguns segundos de silêncio e começa uma nova jornada. Desta vez, uma jornada através de movimentos, sons e gestos. A verdadeira adoração do corpo humano. Arte, precisão, perfeição. Sem palavras e sem fôlego, como a pequena Joaninha de três anos, Joanna afoga-se na dança. Está feliz. Está muito feliz. E... queria que esse momento durasse para sempre.

Joanna Dudek

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Timor-Leste nos olhos de Luís Cardoso


Em maio de 2012, para celebrar o décimo aniversário da reconquista da independência de Timor-Leste, o mais importante escritor timorense, Luís Cardoso, foi convidado para visitar Cracóvia. Esta iniciativa fez parte de um projeto maior* que envolve a popularização da língua e da cultura dos países lusófonos. O encontro acompanhou a estreia dos fragmentos dos seus romances em polaco, Crónica de uma travessia, Olhos de coruja olhos de gato bravo e Requiem para o navegador solitário, publicados no “Roman” - jornal dos estudantes do Instituto de Filologia Românica da Universidade Jaguelónica.
Luís Cardoso nasceu em 1958 na ilha de Timor e recebeu a sua primeira formação no colégio missionário, uns anos depois terminou os estudos universitários em Portugal e lá ficou. Não podia regressar à sua pátria por razões políticas- naquela altura Timor estava ocupado pela Indonésia. Apesar disso, sempre foi um representante e um defensor da questão timorense na arena internacional. O seu país é muito jovem, pode desfrutar-se da liberdade e da independência só há 10 anos. No entanto, ainda sofre das repercussões dos tempos da ocupação e da isolação.
Nos seus livros o autor aproxima o leitor da “terra onde nasce o sol”, como é chamado Timor. Apresenta a diversidade étnica do povo timorense, a sua história e a cultura que é profundamente arraigada na tradição impregnada pelos ritos e mitos. Ainda a mesma ilha tem a sua própria história no que se refere à sua origem. Acredita-se que foi criada do corpo do crocodilo que chegou ao fim do mundo com o primeiro habitante nas suas costas. As lendas deste tipo constituem uma parte intrínseca do universo timorense. Durante o encontro com Luís Cardoso tive uma oportunidade única de escutar contos da sua infância em Timor. Como ele é um contador maravilhoso podia com as suas histórias “transportar” a sua audiência para este sítio mágico onde se encontram o mundo terrestre com o espiritual e o sobrenatural.
É interessante como o povo tão afastado da nossa cultura europeia pode perceber o mundo. Na visão dos timorenses o mundo é capaz de virar-se do avesso só para desviar os intrusos. O truque chama-se rain-fila e se alguma pessoa se dá conta de que o truque foi feito, deve despir-se e pôr a roupa do avesso para encontrar o seu caminho correto. Em Crónica de uma travessia, uma personagem que está em Portugal faz este rito em frente de um grupo de pessoas. Eles ficam muito surpreendidos, mas também estão inconscientes totalmente do que acontece.
Uma das histórias contadas durante o encontro com Cardoso referia-se ao espírito da mulher grávida, uma pontiana, que assombra durante a noite e o encontro com ela pode provocar a insanidade. Além disso, diz-se que se à meia-noite os meninos dormem de boca para cima enquanto lá fora um pássaro canta, uma pontiana aparece e arranca os corações deles. Cardoso revelou que a mãe dele para proteger o seu filho adormecido virava-o sempre para que ele ficasse de costas para a janela. Também, o autor acrescentou que durante a sua infância queria sempre encontrar uma pontiana porque a lenda diz que ela é uma mulher muito bonita.
Quanto aos espíritos  deve-se mencionar os dos antepassados. Eles não se separam do seu povo, estão sempre presentes porque habitam os corpos de tubarões que vivem nas águas que rodeiam a ilha. Os timorenses respeitam muito os espíritos ancestrais. Se eles ficam ofendidos por algum motivo podem provocar uma tempestade. Também, como eles já viveram a vida têm uma sabedoria grande e podem ajudar a resolver os conflitos. Portanto, se dois homens não podiam chegar a acordo em alguma questão, o povo mandava-os ao mar, aos tubarões e quem regressava tinha razão.
Estes são alguns dos mitos ainda vivos nos lares timorenses. Contudo, não se deve esquecer do que a população timorense também é católica e trata a sua religião com uma devoção verdadeira. É admirável como estas duas esferas coexistem sem evocar os conflitos. A realidade timorense com o seu imaginário mágica não só surpreende, mas também fascina. Que pena que Timor-Leste fica tão longe da Polónia!

* o projeto realizado pela Fundação Lusorizonte, o Instituto da Filologia Portuguesa UJ, o Instituto de Camões em Cracóvia e o Círculo Académico da Língua Portuguesa UJ

Agnieszka Miciuła

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Bom cinema e mau cinema


Quando andava na escola secundária todos os alunos tinham de participar na MAF - academia de cinema. Todos os meses íamos ao cinema para ver um filme bom, não popular. Eu fui só uma vez e isto foi uma experiência tão aterradora que depois não fui ao cinema durante dois anos.
Quando o filme não tem muitos admiradores, não podemos dizer que é mau. É bom, difícil, que não compreendemos, porque somos estúpidos. Filme mau podemos considerar algum filme popular, porque é claro, que toda a gente quer ver as piores coisas e perder o tempo. Também há grandes êxitos de cinema, que ganham prémios e têm muitos admiradores. Por exemplo A Origem (Inception). Vi 30 minutos fiquei aborrecida e o meu irmão disse: "Isto é bom, vais perceber depois." Então, eu estou a ver um filme bom, mas ainda não sei isto. Faz sentido para mim.
O género de filme mais adorado e, ao mesmo tempo, mais odiado é o filme de terror. Para algumas pessoas é muito divertido, enquanto outras têm depois medo de sair do quarto à noite. A única coisa em que os realizadores deste género estão a pensar é o medo, o medo e o medo. Não veem nada mais e por isso criam as cenas assustadoras e ilógicas. A luz está acesa durante o dia e desligada à noite, quando os heróis esperam o monstro. Quando o monstro chega, fogem para o telhado. Além disso, os filmes de terror contemporâneos não têm a tendência para assustar, mas para ser repugnantes. Um saco de molho de tomate e alguns ossos de plástico não influem nas minhas emoções, mas faz-me lembrar o jantar, que não devia ter comido.
A comédia romântica é como o porquinho da Índia: não é porco, nem da Índia. Ver uma é como ver todas. Não há nada para contar: as mesmas personagens, o mesmo enredo, as mesmas piadas, ainda os mesmos detalhes e os mesmos atores. Nunca ficamos desiludidos com estes filmes, porque cada vez que vamos ao cinema ver uma comédia romântica, sabemos perfeitamente o que vamos ver. É o filme ideal para as pessoas que não gostam de surpresas e têm muito tempo para perder.
Há uma grande diferença entre a comédia da América do Norte e "a comédia norte-americana". O fundamento de boa piada é a conclusão surpreendente, imprevista. Sydney Pollack sabia isto perfeitamente e por isso Tootsie - que representa o cinema da América do Norte - é o segundo filme na lista dos filmes mais engraçados da história. Os realizadores das comédias norte-americanas querem ser mais imprevisíveis, por isso incluem na conclusão os elementos irreais. Assim, é claro que o espectador vai ficar surpreendido. Pela primeira vez e depois? Como as piadas que seguem o mesmo esquema podem provocar o riso por uma hora e meia? Para ser justo: o filme mais engraçado da história é Quanto mais Quente Melhor. Então, podemos ver que gostamos das piadas norte-americanas ou homens vestidos de mulher.
A Disney é o estúdio, que lança os melhores desenhos animados, que sempre mostram o mundo bonito e feliz. As crianças ainda têm tempo para saber que não é assim. Por isso a Disney muda um pouco os contos de fadas e as lendas. Na versão original de A Pequena Sereia o príncipe casou-se com a outra princesa. As irmãs da Pequena Sereia deram-lhe a faca para matar o príncipe, mas ela preferiu suicidar-se. As irmãs da Cinderela cortaram os dedos dos pés antes de experimentar o sapatinho. Pocahontas foi raptada pelos ingleses e morreu pouco depois de chegar a Londres. Por outro lado, a heroína chinesa Mulan não teve grandes problemas quando os outros soldados descobriram que ela era uma mulher. Foi a Disney quem quis matá-la por isso.
Eu escrevi no princípio, com ironia, que só os filmes maus atraem o público. Não tenho certeza se isto é sempre a ironia. The Room foi considerado um dos piores filmes já feitos, mas também é muito famoso porque lançar uma coisa tão má, tão ilógica, com os atores tão maus, com os diálogos tão estúpidos, sem uma única cena feita corretamente é a verdadeira arte, que precisa de muito talento. O realizador, guionista e ator foi Tommy Wiseau. É o homem mais feio que já vi. Não sei o género deste filme nem qual é o enredo, mas adoro vê-lo, é uma experiência sem igual.
Há muitos prémios, listas dos filmes melhores e dos piores, resenhas dos críticos reconhecidos, que servem para classificar o que vale a pena ver e o que não. Na verdade a única pessoa que tem o direito de decidir o que gosto de ver sou eu com o meu gosto estranho, mas isto não significa que é o mau gosto.

Małgorzata Stankiewicz

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O filme da minha vida...

Outra vez o outono. Os dias são mais curtos, está frio e chove muito. Já não posso passear durante horas (e não quero). Até apanho o autocarro para a universidade e de volta para a casa preciso dum chá quente. Desejo deitar-me um dia e acordar na primavera, quando as árvores estejam em flor. Queria ser um urso, mas ainda tenho coisas por fazer e não posso cair nos braços do Morfeu, assim afundo-me em “meio-sono”. Vejo filmes. Foi complicado pensar num filme importante para mim. Na infância tinha muitos modelos para seguir, mas com o tempo esqueci-me deles e criei uma personalidade própria e original, não duma princesa Disney. Finalmente, decidi-me pelo último filme que vi no cinema: “Skyfall”. 
 Um dia um amigo meu telefonou-me e perguntou se tinha alguma coisa para fazer nessa noite. Costumo dizer que não tenho nada importante porque, muitas vezes, assim consigo uma cerveja ou comida grátis. Desta vez foi ainda melhor porque recebi um bilhete de cinema. Naquele momento não percebia que a minha decisão iniciaria uma espiral de desgraças e mexericos. Gostei muito do James Bond, mas a amante do protagonista não era boa atriz. Não comi pipocas, não falei pelo telemóvel, também não fui à casa de banho. Portei-me bem. Mas depois do filme vi que tinha cinco chamadas perdidas. O meu namorado estava zangado comigo e senti a obrigação de falar com ele. Normalmente não minto e naquele momento também não queria mentir. Contei-lhe que estive no cinema com um amigo. Desligou a chamada. Desde então a minha vida mudou muito. Parece um filme. O meu namorado tinha espiões que supostamente me viam com o mesmo amigo pela rua, juntos, de mão dada. A cada dia, hora, minuto, segundo, os mexericos eram mais interessantes. Uma paixão descontrolada, fugas secretas para a casa dele, uma relação misteriosa. Não! Uma seita satânica e comércio de órgãos. Depois duma semana dentro dum filme de suspense, começou a parte dramática. Eu estava irritada. Queria falar com ele, mas não era possível. Tinha monólogos com um boneco calado, deprimido, estranho. Só esperava que explodisse duma vez. E explodiu. Gritou-me no meio da rua e deixou-me sozinha.
 Agora sou solteira e nunca imaginei que um filme pudesse alterar tanto a minha vida. Mas, ainda assim, gosto do James Bond. É o meu herói tanto no grande ecrã como na vida real.

Natalia Sławińska

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que me irrita II


Como toda a gente, tenho a minha própria ideologia. Creio que uma certa ordem no mundo é crucial e sigo as regras desta ordem. Não gosto quando alguém destrói a minha visão do mundo perfeito.
Não me irritam pessoas ou coisas em particular, mas certos grupos e os seus esquemas de comportamento. Nada me dá pior dor de cabeça do que os conservadores. São as pessoas que cultivam as tradições mais antigas da cultura polaca. Entre outros, escrevem como os seus antepassados da Idade Média, então não usam pontos, vírgulas, maiúsculas nem outros elementos indispensáveis para compreender o texto. Eu não vou adivinhar o que o emissor queria dizer e peço-lhe que repita (irrito-o muito) até que escreva de forma compreensível.
Faço o mesmo com os adeptos do futurismo. É um movimento artístico e literário da primeira metade do século XX, que aprecia o valor da originalidade e a criatividade. Não conheço pintores ou arquitetos que representam este estilo, mas há muitos escritores. Eles sabem as regras da ortografia polaca, mas, para serem excêntricos, não as seguem. De quando em quando esquecem-se disto e escrevem na mesma frase uma palavra duas vezes: uma corretamente e a outra futuristicamente. Irrita-me esta falta de coerência.
Eu sei que é muito importante conhecer outras culturas e outras línguas. Viajar pelo mundo faz-nos mais sábios e tolerantes. Se calhar devo viajar mais, porque não tolero os poliglotas. Quando conhecem uma palavra nova, geralmente inglesa, esquecem-se imediatamente da palavra polaca. Depois escrevem frases em duas línguas ainda que não haja nenhuma razão para fazer isso. Nas aulas na escola primária ensinavam-me que metade de um burro e metade de um sapo não é igual a um animal.
Respeito todas as pessoas que se interessam por alguma coisa e não me importa se jogam xadrez, se ouvem Justin Bieber. Também respeito os cinéfilos, mas isto não significa que eles não me irritam. Eles conhecem todos os filmes novos, conhecem os atores, sabem quem é mau, que é um bom ator, predizem que filme vai ganhar o Oscar. Isto é incrível. Para mim um filme é só um filme. O que é mais incrível é que os cinéfilos não sabem a diferença entre Star Trek e Star Wars. Chewbacca não era um amigo de Spock e Picard não lutava com um sabre de luz. É óbvio!
Irritam-me muito as minhas fraquezas, sobretudo a indolência. Tenho sempre o plano de fazer todo o trabalho de casa durante o fim de semana, mas ver pela quinta vez Prison Break é mais importante do que escrever uma composição.
Detesto a situação quando não tenho ideia do que escrever. Os meus amigos tentam ajudar-me, mas geralmente as suas sugestões são piores do que a minha falta de ideias. Por exemplo, eu pergunto: "O que te irrita?" "Tudo." "Nada." "Os patos que atravessam a rua." Não vou escrever isto, eu gosto de patos.
Há também um grupo de pessoas piores de tudo. Eles enervam-me imenso: despertam o Mr. Hyde, provocam a Terceira Guerra Mundial, acendem o rastilho das toneladas de explosivos, arriscam as suas vidas. São as pessoas que não compartilham chocolate comigo.

Małgorzata Stankiewicz

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O que me irrita

Está frio. Chove e há muito vento. Infelizmente não tenho nenhum guarda-chuva, então, a cada segundo, pareço mais e mais um rato afogado. Sem dúvida, não estou feliz. Não posso fingir que tudo está bem. Estou furiosa. Sim, furiosa, zangada, irritada...e ela já está atrasada meia hora. Outra vez é impontual. Não quero ouvir outra vez as suas desculpas estúpidas. Finalmente chega. Respiro fundo, sorrio e sem palavras vou levá-la para um café. 
  O meu pequeno café preferido está fechado. Temos de mudar de lugar. Agora estamos numa pastelaria onde só se podem ver casais apaixonadas que não param de se beijar e abraçar. Isso dá-me vontade de vomitar, mas a chuva não nos permite deixar este “jardim do amor”. Estamos ansiosas por um café que já está a fazer há 15 minutos. Tento concentrar-me na música do rádio, mas... isso não é uma boa ideia. Só modernas batidas tecno que não têm nada para oferecer. Estou irritada, sem palavras, e sem café, saímos deste lugar. 
  Ainda está a chover, portanto vamos para a paragem apanhar um autocarro. Muita gente espera impacientemente para voltar para casa. Infelizmente a chuva é forte e o engarrafamento em hora de ponta atrasa tudo. Estamos um pouco chateadas e irritadas. Além disso, um homem alto com uma barba ruiva está a fumar bastante perto de mim. Não me vê porque está ao telefone. Portanto, não percebe que todo o fumo que lança da boca está a voar diretamente para mim. Quero dizer-lhe algo desagradável mas alegremente chega o nosso autocarro. Subimos. 
  A minha primeira impressão é que não estamos no autocarro número cinco, mas no meio do deserto cheio de pessoas suadas. Sem ar, sem água, sem espaço. Já é segunda vez que quero vomitar mas... não tenho nenhum lugar para fazer isso. Estou irritada, muito irritada. Acho que neste momento sou a pessoa mais irritada do mundo. A paragem de autocarro número um, a paragem número dois, a paragem número três, quatro, cinco, seis... ufff. Por fim, deixamos o deserto de suor e fedor. Continua a chover por isso os meus sapatos de camurça estão completamente molhados. Sem dúvida vou ficar doente. Maravilhoso! A minha amiga sem nome, mas com galochas, pode cantar e saltar sobre poças, o que me irrita ainda mais. Já não quero vomitar, eu quero matá-la, mas finalmente e alegremente, chegamos à minha casa. 
  Esperava descansar um pouco mas depois de três minutos vejo perfeitamente que hoje isso não é possível... O meu querido irmão, grande músico, está a tocar saxofone. Não sei se há no mundo um instrumento cujo som me irrite mais. Educadamente digo "adeus" à minha amiga, corro para o meu quarto, fecho a porta, fecho os olhos, trato de tapar as orelhas também e cheia da irritação, vou dormir com a cabeça debaixo do travesseiro. Estou a dormir! Estou a dormir e a sonhar com o dia mais irritante da minha vida.

Joanna Dudek

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Duelo Ortográfico


No passado dia 12 de novembro decorreu o primeiro concurso de ortografia organizado pelo Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Lublin. Apresentaram-se 17 concorrentes no que mais parecia um duelo Lublin versus Cracóvia, uma vez que da terra do dragão do Wawel vieram nove estudantes. Os restantes eram alunos da UMCS. Apesar de jogar em casa a “seleção” de Lublin não venceu mas ocupou os restantes lugares do pódio:
Primeiro lugar: Katarzyna Kuźnik – Universidade Jagellónica de Cracóvia
Segundo lugar: Zyta Padała – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin
Terceiro lugar: Monika Dobrowolska – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin
Além disso, o júri decidiu ainda distinguir:
Daria Mikocka – Universidade Jagellónica de Cracóvia
Anna Betlej - Universidade Jagellónica de Cracóvia
Paulina Pałyska – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin





domingo, 23 de setembro de 2012

Há um ano na blogosfera


 Depois de um merecido período de férias o AGUAVAIBLOGSPOT.COM está de volta no dia em que comemora um ano de vida na blogosfera. Para os mais distraídos, à vossa direita está um contador com o número total de visualizações e em dia de aniversário estamos perto de atingir as 8500 visitas. Um pouco mais abaixo aparece o globo terrestre a girar. Este “adereço” não é meramente decorativo mas serve para nos mostrar o país de origem dos nossos visitantes. Desta forma podemos sentir algum orgulho ao saber que a revista Água Vai já chegou aos cinco continentes. Mesmo sabendo que alguns destes 8500 visitantes tenham tropeçado”  e encontrado o blog por acaso, o objetivo de mostrar o trabalho dos nossos estudantes ao mundo foi atingido. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Os escândalos artísticos na Polónia depois da transformação.

   O ano 1990 trouxe a transformação do sistema político na Polónia e com esta transformação a tão esperada liberdade de expressão. Os artistas sofreram bastante por causa dos comunistas que usavam a censura para manter a sociedade polaca obediente, que não protesta e para usar só uma palavra- que é estúpida. Por isso quando na Polónia instalou a democracia, os artistas começaram a respirar profundamente, estavam convencidos que com a liberdade de expressão viria a liberdade artística, por muito tempo escondida no fundo da gaveta. Infelizmente a sociedade polaca mostrou rapidamente que não é suficientemente madura e não sabe usar a liberdade. Como mostram os exemplos a Polónia ainda não é um país laico e o uso dos símbolos católicos como expressão artística termina em processo judicial vencido normalmente pelos defensores dos valores católicos. De uma pluralidade de incidentes escolhi os mais interessantes e que causaram as emoções contraditórias. Vale a pena prestar atenção às intervenções dos políticos e à atitude dos funcionários. Surge deles a questão se essas intervenções funcionam de acordo com os padrões dum país democrático.
   Em 1993 começa a nova época de censura na arte polaca. Katarzyna Kozyra, uma estudante da Academia de Belas-Artes de Varsóvia apresentou a sua obra "Pirâmide de animais". Inspirada pelo conto dos irmãos Grimm a instalação era composta por animais embalsamados: um cavalo, um cão, um gato e um galo e era acompanhada por um filme que apresentava a morte do cavalo. Apareceram os protestos contra a escultura e os processos contra a artista. 
 Em 1997 o comissário de Pavilhão da Polónia na Bienal de Veneza Jan Stanisław Wojciechowski proibiu a apresentação da obra do Zbigniew Libera "Lego- Campo de concentração". Campo de concentração”. 
 Em 1999 o governador de Łódź acusa Katarzyna Kozyra de ofensa dos sentimentos religiosos por fazer o cartaz “Laços de sangue” "Laços de sangue"onde juntou símbolos religiosos com a imagem de uma mulher despida. Após protestos dos partidos católicos os cartazes foram tapados ou retirados. 
 Em 2000 o ator Daniel Olbrychski acompanhado pelas câmaras de televisão destruiu com uma espada o fragmento da obra de Piotr Uklański “Nazis”. O Ministro da Cultura exigiu um comentário do artista em que explicasse o sentido da exposição. Uklański não acedeu à intervenção e por fim a exposição foi fechada. No mesmo ano aconteceu o escândalo seguinte.  
  Uma escultura de Maurizio Cattelan causou problemas. Essa obra representava João Paulo II derrubado por um meteorito. O jornalista Wojciech Cejrowski tentou cobrir a escultura com um lençol mas finalmente alguns membros do parlamento estragaram a instalação e afastaram o meteorito. Um dos membros do parlamento escreveu também uma carta ao primeiro-ministro para destituir o funcionário de origem judia (Anda Rottenberg), que era a diretora da galeria. Por fim em 2009 este homem foi acusado pela destruição da escultura que custava 40mil zlotys.
 No outono de 2001 pela primeira vez foi censurada "A Paixão" de Dorota Nieznalska durante a sua exposição em Białystok. A diretora da galeria ordenou que cobrissem com papel a foto pendurada na cruz. Depois, em consequência do escândalo provocado pela emissão da reportagem na televisão sobre a exposição, a artista foi acusada da ofensa dos sentimentos religiosos. O júri considerou-a culpada e só no ano 2010 foi absolvida. Neste artigo queria mostrar que apesar de muitas mudanças que sofreu o nosso país depois da transformação do sistema, a receção de arte permanece tradicional e paroquial. Os exemplos acima mencionados são só alguns das intervenções do estado na arte contemporânea que deveria ser independente. As obras dos artistas polacos são apreciadas no estrangeiro, ganham prémios prestigiosos mas na Polónia ainda são atacadas, provocam os piores emoções. Se calhar a sociedade tem medo de conversar sobre os temas ainda dolorosos mas sem este diálogo é impossível considerar a Polónia como o país democrático e aberto à modernidade.

Monika Dobrowolska

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Polacos em Portugal

  Por que motivo os Polacos estão cada vez mais interessados pela língua portuguesa e pelas viagens a Portugal? É difícil responder a esta pergunta mas podemos dizer que nos últimos tempos os polacos com muito prazer visitam Portugal e às vezes decidem também ficar ali mais tempo. Segundo os dados do ano 2009 reunidos pela embaixada polaca, o número dos habitantes registados é de cerca de 1000 pessoas. A sociedade polaca vive geralmente em Lisboa, no Porto e em Faro. Há também famílias simples que vivem nas outras cidades. A maioria destas pessoas foram para Portugal nos últimos 16 anos. Algumas têm formação e trabalham nas instituições internacionais em Lisboa. Há muitos músicos, artistas, professores, médicos, arquitetos e informáticos. Para o norte normalmente vão os que querem obter o trabalho temporário nas plantações. As pessoas que vivem aqui mais que cinco anos não pensam em voltar para a Polónia e dizem que gostam da vida neste país. Cada ano há mais casamentos luso-polacos e as famílias jovens que vão com os filhos que têm menos que oito anos. As crianças frequentam as escolas portuguesas ou internacionais.Para que a aprendizagem deles seja mais fácil, no ano 2011 foi fundada a escola para as crianças bilingues “Borboleta”em Vila Nova de Gaia. Na Escola Secundária do Restelo em Lisboa também organizam as aulas para as crianças polacas. 
 Portugal é famoso também entre os estudantes de programa Erasmus. Normalmente escolhem a universidade em Lisboa mas as universidades em Coimbra, Porto e Faro também são populares. Podem-se encontrar nos foros muitas opiniões positivas sobre a estadia deles naquele país e naquelas universidades. O clima e as maravilhosas paisagens são as duas coisas que provocam o maior encanto entre eles. A maioria deles diz que se pudesse voltar a Portugal queria passar ali toda a sua vida ou pelo menos uns meses.  
 A Madeira é um lugar muito hospitaleiro para os polacos. O Marechal Józef Piłsudski per¬maneceu na Madeira entre De¬zembro de 1930 e março de 1931. Devido ao seu muito mau estado de saúde decidiu beneficiar do clima favorável e por isso escolheu este lugar para o repouso. Instalou-se na Quinta de Bettencourt, nos subúr¬bios do Funchal (capital da Região Autónoma da Madeira). Numa parede da casa onde viveu há um letreiro com a seguinte inscrição em polaco e português: ‘’Marechal Piłsudski viveu nesta casa XII.1930 – III.1931. EM HOMENAGEM AO PRIMEIRO MARECHAL DA POLÓNIA – COMPATRIOTAS’’. No centro da cidade na Rua António José de Almeida há um busto do Marechal. Outro toque polaco no Funchal é que atribuíram o nome de Józef Piłsudksi a uma rotunda no cruzamento das ruas do Caminho do Pilar e do Caminho do Esmeraldo. Nas outras cidades da Madeira podemos encontrar também os monumentos de João Paulo II e as ruas com o seu nome.  
 Paweł Kieszek é um futebolista polaco que desde 2007 até 2010 foi contratado pelo SC Braga. Joga atualmente no Futebol Clube do Porto. Conseguiu estrear-se neste clube no dia 11 de dezembro de 2010 durante a partida de Taça de Portugal com o Juventude de Évora.    
   Entre os dias 20-29 de abril de 2012 foram organizados ‘’Os Dias da Cultura polaca no Porto’’. Esta iniciativa abarcou os seguintes acontecimentos: o concerto de Leszek Możdzer pianista e compositor polaco, a exposição ‘’E ainda vejo os seus rostos ‘’- fotografias de judeus polacos e também um seminário sobre Wisława Szymborska, a poetisa polaca. Por fim, teve lugar a apresentação a versão portuguesa do livro polaco ‘’A locomotiva’’ de Julian Tuwim. Neste último acontecimento participaram igualmente não só alunos polacos mas também crianças de famílias luso-polacas.
Paulina Flasińska

terça-feira, 10 de julho de 2012

Festivais de música




  Para a maioria dos grupos de música, não existe digressão sem os concertos em festivais. Durante todo o verão, em quase todas as grandes cidades na Europa tem lugar um ou mais festivais de música. Durando até sete dias, atraem milhares de pessoas com o número de artistas e a variedade de géneros de música apresentados. O festival é também uma boa oportunidade para conhecer pessoas - no público de até 150 mil amantes da música por dia (Glastonbury, Inglaterra, 2009) é muito fácil fazer amigos. Além das espetáculos musicais, muitos eventos apresentam outras formas de arte: espetáculos de dança, humor ou teatro. Embora o primeiro festival de música da chamada era moderna tenha sido o Festival Berkshire em 1937 (Stockbridge, Massachusetts, EUA) o momento crucial na história dos festivais - e da música popular em si - foi o Woodstock Music&Arts Fair em agosto de 1969. O evento, que durou três dias, foi realizado numa fazenda em Bethel, Nova York com o público de 500 mil pessoas e 32 artistas como, por exemplo, Jimi Hendrix/Band Of Gypsys, The Who e Joe Cocker e The Grease Band. Depois de Woodstock, nos anos de 70 e 80, numerosos festivais foram criados em todo o mundo. Na Europa, os eventos como o Roskilde Festival, o Hurricane Festival ou o Festival de Glastonbury até agora cada ano reúnem milhares de fãs de música. 
  Também na Polónia e em Portugal esta forma de entretenimento é muito popular. Nos últimos anos, na Polónia têm sido criados numerosos festivais. O mais conhecido na Europa e muito premiado é o Heineken Open'er Festival em Gdynia. A primeira edição foi organizada em 2002 em Varsóvia como o Open Air Festival, mas depois o evento tirou o nome do seu principal patrocinador e foi transferido para Gdynia. Agora dura quatro dias e reúne até 75 mil pessoas; é o evento obrigatório no calendário de muita gente. Desde o início, os organizadores têm tentado convidar tantos artistas como seja possível. O público já teve a oportunidade de ver estrelas como Prince, Sex Pistols, Pulp ou Pearl Jam. Não existem as regras que restringem os géneros da música - durante o festival, é possível ver os grupos de rock ou da música alternativa ao lado de famosos DJs ou artistas da música dance. A única regra - como na maioria dos festivais - é que o mesmo artista não pode ser uma das estrelas máximas do evento dois anos consecutivos; tem de haver pelo menos dois ou três anos entre as suas performances. Apesar desta regra, alguns artistas decidiram incluir aquele festival nas suas digressões três vezes (Cypress Hill: 2004 e 2010, Placebo: 2006 e 2009, Massive Attack: 2004, 2008, 2010, Franz Ferdinand: 2006 e 2012).




Outro festival muito conhecido na Polónia é o Przystanek Woodstock, realizado desde 1995 pela organização Wielka Orkiestra Świątecznej Pomocy (em português: a Grande Orquestra de Ajuda Natalícia), nos últimos anos em Kostrzyn nad Odrą. Com o nome inspirado pelo Woodstock Festival, é chamado o maior festival de música a céu aberto na Europa - com o público de 700 mil pessoas (2011). É um evento gratuito de música rock e alternativa, uma forma de agradecer aos voluntários que ajudam no evento principal da WOŚP: os concertos beneficentes realizados todos os anos em janeiro. A maioria das bandas são polacas; os bem conhecidos, como Dżem, Myslovitz ou Ira apresentaram-se numerosas vezes. Nos últimos anos, os grupos estrangeiros (como por exemplo The Stranglers, Papa Roach, The Prodigy ou - neste ano - The Darkness e Machine Head) também têm sido convidados. Para além dos concertos nos dois palcos - o principal e o pequeno, chamado folk - há muitos outros eventos organizados durante o festival. O mais importante é a Academia das Melhores Artes - um lugar onde as pessoas podem encontrar-se com os políticos conhecidos como Lech Walesa, artistas, jornalistas, atores ou líderes religiosos (como Kesang Takla, o representante do Dalai Lama no norte da Europa, 2008). Uma das tradições do festival é que não há barreiras entre o público e o palco (a exceção foi o concerto dos The Prodigy em 2011, a pedido do grupo) para que a parede frontal possa ser coberta com bandeiras. A ordem é cada ano guardada pelo grupo de voluntários, chamado Pokojowy Patrol, com a ajuda dos guardas de segurança e da polícia. O festival é também conhecido pela tradição dos banhos de lama em que participam muitas pessoas. Embora o evento seja bastante criticado, principalmente pelos pais que não querem permitir que os seus filhos adolescentes vão lá porque, segundo eles, é muito perigoso e cheio de drogados e alcoólatras, há muita gente que depois de sentir a atmosfera e a diversão, não podem imaginar que não voltar outra vez. Há numerosos outros festivais na Polónia. Os mais conhecidos são o OFF Festival, o Orange Warsaw Festival e o Coke Live Music Festival, mas cada ano aparecem novos, de diversos géneros de música e com os artistas famosos em todo o mundo.


Em Portugal, as últimas duas décadas têm sido muito importantes na história dos festivais de música. Têm aparecido os eventos como o Festival Paredes de Coura, o Super Bock Super Rock e o Festival Sudoeste. Desde 2004, em Lisboa, também tem sido organizada a edição do festival internacional Rock in Rio. Originário no Brasil, até agora teve dez edições: quatro no Rio de Janeiro, quatro em Portugal e duas em Madrid. Em Lisboa, o evento é organizado cada dois anos. A primeira evento no Parque da Bela Vista reuniu 385 mil espectadores e mais de 70 artistas ao longo de 5 dias; foi um grande sucesso. Depois da edição brasileira no ano passado, este ano o festival voltou para Lisboa - entre 1 e 5 de junho apresentaram-se  Metallica, Stevie Wonder, Linkin Park ou Bruce Springsteen. Uma coisa muito interessante sobre este festival é o projeto Por Um Mundo Melhor, lançado em 2001 no Rio de Janeiro. Foi criado para chamar a atenção das pessoas para que, através das simples atitudes quotidianas, melhorem as condições sociais. Durante os últimos 10 anos, o Rock in Rio gerou quase 12 milhões de euros para diversas ações socioambientais.
O Optimus Alive! é um dos mais novos festivais em Portugal. Embora não tivesse muitas edições, já é o evento bem reconhecido não só no seu país, mas em toda a Europa. Foi realizado pela primeira vez em 2007 e até agora passaram por lá, por exemplo, Pearl Jam, Deftones ou Faith No More. Como na maioria dos festivais, não são restringidos nenhuns géneros de música - ao mesmo tempo, no palco principal (Optimus Stage) pode tocar uma banda de rock e ao lado, no Heineken Stage - um grupo de música pop ou dance. Neste ano, o cartaz ainda está incompleto, mas os artistas já confirmados são, entre outros, The Cure, Radiohead e The Stone Roses.
Hoje em dia, os festivais de música formam uma grande parte da cultura. Embora a sua principal atração seja a música, são realmente o conjunto dos atos culturais como o teatro, o cinema, a moda, até as conferências feitas pelas pessoas reconhecidas. É também uma boa oportunidade para os fãs dos grupos menos conhecidos que muitas vezes não têm a possibilidade de apresentar-se no seu próprio concerto. Embora às vezes os bilhetes sejam bastante caros, vale a pena poupar dinheiro para passar alguns dias com música divertindo-se com outros amantes dela.
Magda Józwik

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O que nos faz pensar na Polónia?

Pensando na Holanda a primeira inclinação é a tulipa, na França a Torre Eiffel, Itáliaé frequentemente associada com pizza ou macarrão, e Espanha com as touradas ou festas. E o que nos faz pensar na Polónia? A Polónia, como pode parecer, é um país pequeno e bastante desconhecido no mundo. Mas depois duma curta reflexão podemos dizer que não é assim. Há muitas coisas relacionadas com a Polónia que são importantes e mundialmente conhecidas.Principalmente a Polónia é um país de grandes personalidades que influenciaram muito a história do mundo.
  Sem dúvida, quando pensamos na Polónia, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a figura do papa João Paulo II. É o polaco mais conhecido do mundo. Não há lugar na terra onde as pessoas não tenham ouvido falar do Papa polaco. “Polónia, Lech Walesa o Solidariedade" – desta forma a maioria dos estrangeiros pensa em nós também. O presidente, que ocupou o cargo de 1990 a 1995, é um dos polacos mais conhecidos não só na Europa, mas também em todo o mundo. Apesar do fato de que, entre muitos polacos gerou muita controvérsia, o mundo avalia-o positivamente. Pelo seu envolvimento no processo de recuperação da democracia na Polónia foi galardoado com muitos prémios, incluindo o Nobel da Paz. Sem dúvida, outra pessoa relacionada com a Polónia é Fryderyk Chopin. O pianista nascido na pequena aldeia polaca de Żelazowa Wola, filho de mãe polaca e pai francês-expatriado, é amplamente conhecido como um dos maiores compositores para piano e um dos pianistas mais importantes da história. Alguns desportistas polacos também são famosos no exterior. Entre os apelidos polacos conhecidos no mundo, destacam-se três: a tenista Agnieszka Radwanska, o ex-saltador de esqui Adam Malysz e o piloto da Fórmula 1 Robert Kubica. Mas isto ainda não é tudo. Há mais nomes que glorificam a Polónia no exterior. O mundo também se lembra de figuras polacas que influenciaram muito a ciência - Maria Curie-Skłodowska e Mikołaj Kopernik ou a cultura - Roman Polanski.
  Alguns dos eventos históricos são inextricavelmente relacionados com a Polónia também. A Segunda Guerra Mundial e o fim do comunismo são algumas das coisas que lhes vem à cabeça quando os estrangeiros pensam na Polónia. Recentemente, um evento que fez com que as pessoas falassem sobre a Polónia em todos os cantos do mundo, foi o acidente de avião em Smoleńsk, que matou o presidente polaco e muitos outros políticos importantes.
  Entre as cidades e lugares que são mais frequentemente associados com a Polónia, definitivamente ganham Varsóvia e Cracóvia. Mas ainda há um lugar localizado na Polónia que é conhecido no mundo. O antigo campo de concentração nazi Auschwitz-Birkenau é o lugar que não tem boa fama mas muitas pessoas de todo o mundo vêm à Polónia para o ver.Junto com as pessoas, acontecimentos e os lugares conhecidos há muitas outras coisas que trazem à mente o nome da Polónia. Uma deles é a salsicha. Seca, gordurosa, defumada, assada ou cozida - é conhecida por todos. É um dos alimentos mais antigos na Polónia. Há séculos que está nas mesas e é valorizada tanto entre os polacos, como entre os estrangeiros.Outra coisa relacionada com a Polónia é o âmbar. Não há muitas coisas polacas tão famosas no mundo como o âmbar báltico. É o mais valioso tipo deste material que também é chamado o ouro do Báltico. Por isso muitos turistas que visitam a Polónia costumam comprar âmbar. Os estrangeiros ainda associam a Polónia principalmente com o álcool. A vodka polaca é muito famosa no mundo. Pois é amplamente conhecido que os polacos gostam de bebidas alcoólicas fortes e fazem-nas realmente bem.
  Sem dúvida, a Polónia não é só papa João Paulo II, Lech Wałęsa ou vodka. O país é também famoso mundialmente por muitas outras coisas de diversas áreas. Há varias personalidades, eventos históricos, lugares e comidas que a glorificam e que fazem com que a Polónia se destaque entre os outros países do mundo.

Weronika Kucharuk

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Curitiba, a cidade sorriso!

 És polaco. Tens 19 anos, já terminaste a escola secundária e estás no momento de decidir o teu futuro. Por coincidência decides pela formação em Filologia Ibérica que acaba por ser uma boa decisão. Depois de dois anos estás completamente apaixonado pela língua portuguesa, Portugal, Brasil, etc. e sabes que farias tudo o que fosse possível para conhecer todos os elementos desta área. Parece uma história de qualquer estudante deste curso na verdade é a minha história. Graças a esta coincidência e ao facto de eu poder falar português encontrei o meu primo de Curitiba no Brasil. Por isso, achei interessante compartilhar a minha experiência convosco e, sobretudo, falar sobre Curitiba, a cidade sorriso. 
 Curitiba localiza-se no Sul do Brasil e é a capital do Estado do Paraná. Grande pólo industrial, fica no sul do país e cerca de 2 milhões de pessoas vivem aqui. Não é nada estranho que Curitiba seja a cidade com a melhor qualidade de vida no Brasil. Curitiba também tem altos índices de educação. Tem o menor índice de analfabetismo e a melhor qualidade de educação básica entre as capitais. 
  O Brasil por ser um país muito grande é muito diverso, pois então existem pequenos países dentro dele e o Sul é completamente diferente do norte, quanto à geografia, cultura e etnias. A maior parte do Sul do país foi colonizado por europeus, como alemães, polacos, ucranianos, holandeses, italianos, espanhóis, portugueses e russos. A maior parte dos colonizadores do Paraná são polacos, alemães, ucranianos e italianos. Em Curitiba, há 60% de pessoas que têm raízes polacas. Muitas delas foram (como a família do meu primo) para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial. Curitiba é conhecida como a cidade com maior número de polacos no Brasil. Os imigrantes chegaram da Polónia em 1871, fixando-se em zonas rurais próximas a Curitiba. Eles influenciaram largamente a agricultura da região. Curitiba tem a segunda maior diáspora polaca no mundo, apenas para Chicago. O Memorial da Imigração Polonesa foi inaugurado em 13 de dezembro de 1980, após a visita do Papa João Paulo II à cidade em junho do mesmo ano. A sua área é de 46 mil metros quadrados, onde havia uma fábrica de velas.” É um fenómeno interessante que todas as pessoas que vêm cá, trazem algo característico do seu país. Como podemos observar, a cultura europeia é muito forte tanto pela comida como pelos costumes. 
 Comparando com outras regiões brasileiras, o povo de Curitiba é considerado como fechado e antissocial porém tem hábitos que deixam a cidade muito limpa e organizada. A vida típica dos jovens curitibanos, por volta de 23 anos, é a faculdade, desporto, clubes noturnos etc. O estilo musical do momento é a música sertaneja moderna (música do Michel Teló: Ai se eu te pego). Contudo, os hábitos variam de pessoa, a sua classe social, pois no Brasil existe muita diferença entre as pessoas. Também, não podemos deixar de mencionar o papel do desporto. Como o futebol é um dos desportos mais importantes no Brasil, é preciso dizer que em Curitiba há três clubes relevantes, Clube Atlético Paranaense (cujo estádio é a Arena da Baixada), Coritiba Foot Ball Club (cujo estádio é o Couto Pereira) e Paraná Clube (cujo estádio é a Vila Capanema). A cidade será uma das sedes do Campeonato do Mundo de Futebol  em 2014.
  Não importa se és estudante, uma pessoa jovem ou mais velha – em Curitiba vais ser bem recebido. É uma cidade que sempre gostou dos imigrantes porque eles constituem uma fonte de enriquecimento da cultura e economia de todo o país. Então... bem-vindo a Curitiba!
 Katarzyna Rejter

Conheçamos Évora- uma Cidade- Museu

  No centro da Região do Alentejo, cercada por cereais, vinhedos, olivais e arrozais fica Évora. Há alguma coisa emocionante nesta cidade. Começando pelo seu brasão, onde são visíveis duas cabeças debaixo do conquistador dos mouros Geraldo Sem Pavor. A lenda diz que durante o ataque a Évora em 1165 o comandante atacou a uma torre com umas lanças em vez dumas escadas, deste modo fez o massacre dos mouros. Este ato heroico é comemorado no brasão de armas. 
  O lugar é habitado há muitos séculos. Os Lusitanos chamaram-na Ebora. Depois da conquista romana no século II antes de Cristo, a cidade começou a ser um importante centro do império devido à sua localização na encruzilhada dos caminhos. Os romanos edificaram as muralhas ao redor da cidade e no seu centro o templo que até agora tem importância simbólica e turística e cria a atmosfera deste lugar. A conquista visigoda provocou o declínio da cidade. No ano 715 vieram os mouros e ficaram ali durante 450 anos para levar a cidade a desenvolver-se novamente. Estes governantes reconstruíram as muralhas e no lugar do fórum edificaram a fortaleza e a mesquita. A partir do ano 1166, quando o rei Afonso I assumiu o controle de Évora, a cidade floresceu, construíram-se palácios e igrejas. No século XVI os jesuítas fundaram a universidade, que teve o papel importante em reunir artistas e pensadores no período do humanismo. Todos os acontecimentos da história, a intervenção e a influência de diferentes culturas garantem o clima especial do centro histórico, que foi declarado Património Mundial pela UNESCO, e da cidade toda. 
 O que é representativo para a cidade velha, que cresceu no interior das muralhas, são as ruas laterais estreitas e delimitadas. Na restauração dos monumentos e no desenvolvimento do turismo foram gastos sete milhões. Por isso podemos deliciar-nos com as vistas fascinantes e a paisagem colorida. A primeira coisa que merece ser mencionada é a praça principal de Évora- a praça do Giraldo. Está cheia de pessoas e de movimento, entretanto tranquila. As casas maravilhosas bem restauradas, bons restaurantes junto com cafés e bares abertos até tarde garantem o caráter excecional deste lugar. 
 No ponto mais alto da cidade sobressai o templo romano de Diana, um dos monumentos romanos mais importantes e melhor preservados em Portugal. Provavelmente foi criado por volta do século I. Impressiona com as suas colunas altas, expressivas e atemorizantes que fazem lembrar da presença romana no território português. Por perto, na transição do estilo românico para o gótico, foi construída a Sé Catedral de Nossa Senhora da Assunção, popularmente chamada Catedral de Évora ou Sé de Évora. A sua construção foi iniciada em 1186, em 1204 a igreja foi consagrada e só ficou pronta em 1250. Muitos aperfeiçoamentos, mudanças e enriquecimentos da construção que se realizaram ainda no século XVIII criaram o atual aspeto dela. A catedral reparte-se em três naves, das quais a central é a mais alta. As coisas mais características da frente da catedral são as duas torres distintas e as esculturas marmóreas dos 12 apóstolos no portal. Os turistas que visitam a catedral também podem ver as exposições no Museu de Arte Sacra da Catedral. Entre as peças é possível admirar pintura, escultura e ourivesaria. Além disso, pode-se ver o interior da igreja desde o coro, onde estão esculpidas cenas mitológicas, naturalista e rurais. A catedral tem o caráter defensivo e tende a intrigar os turistas. Outro dos monumentos mais conhecidos de Évora é a Capela dos Ossos, que tem origem do século XVII e é situada na Igreja de São Francisco. O arrepio é quase inevitável devido às cerca de 5000 caveiras e ossos ligados por cimento às paredes e aos oito pilares. O ambiente de medo é aumentado pelas múmias dum homem e duma criança e pela lenda da maldição, que foi lançada por uma mulher moribunda. Na entrada há uma inscrição comovente: Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos. Évora deixa a impressão de ter acontecimentos históricos encerrados nos prédios da cidade. A sua riqueza arquitetónica e cultural foi criada e reunida durante séculos quando vários povos habitavam o Alentejo. Por isso, vale a pena visitar a cidade de Évora.
Karolina Sieńko


Câmara Municipal de Évora
Região de turismo do Alentejo

sábado, 23 de junho de 2012

Lublin-Lisboa 46 dias a pedalar por essa Europa fora!

  Quando era miúdo e tinha uns oito, nove anos sonhava em fazer uma grande viagem à volta do Mundo. Uns anos mais tarde, mas ainda em pequeno e apesar de ser uma perspetiva ainda muito distante e incerta, já esquadrinhava possibilidades de empreender algum projeto duma louca peregrinação. Assim, não parava de procurar companhia indagando os meus companheiros do bairro e convencendo-os que fossem comigo ao Mar Báltico...de bicicleta. A resposta sempre foi a mesma: “Ao mar de bicicleta?! Ganda maluco! Eu não consigo ir nem ao lago perto daqui. Não vou, de jeito nenhum!”. Era óbvio que não houvesse muitos interessados mas ao menos percebi naquela altura uma coisa de grande valor: se queria ir, esperava-me uma longa e solitária viagem. 
  Mas, se alguém perguntar, o que é que significa viajar hoje em dia pelo mundo que se tornou de repente tão pequeno e tão maravilhosamente disponível ao simples alcance da mão, com a alta tecnologia capaz de cobrir todas as distâncias? Para dizer a verdade, basta fazer um clique na Internet, fazer as malas e subir a bordo dum avião. Três horas mais tarde entramos numa outra realidade indo de elétrico pela famosa Alfama lisbonense. 
 Ou numa variante mais ambiciosa e mais romântica, para alguns uma variante “idiota”, estamos a subir, já suando em bicas uma estrada secundária algures na Voivodia de Świętokrzyskie na Polónia central. Atrás das pequeninas Montanhas de Świętokrzyskie estende-se a gigante zona industrial da Silésia, dividida entre a Polónia e a República Checa. Algures, perto da fronteira há uma pequenina e estreita estrada secundária, quase não frequentada por ninguém. Aquela estrada vai por uma grande planície ao longo do rio Váh que mesmo na fronteira desagua no majestoso Danúbio. Atravessado o rio, pelas terras húngaras, junto ao Lago Balaton e mais adiante pelo triângulo territorial húngaro- esloveno-croata para chegar à Costa Mediterrânica italiana. E logo, pela Itália, pela França, pelos Pirinéus e pelo Caminho de Santiago...Quatro mil quilómetros do imprevisível entre Lublin e Lisboa, contra o vento dos impedimentos, na sobrecarregada bicicleta que ia tornar-se o meu meio de transporte, a minha “casa com rodas”, o meu melhor amigo e “o meu tudo” durante aqueles dias da solitária peregrinação pelo continente. 
 Todas as viagens, mesmo que isto já soe trivial, mudam-nos e fazem com que se alargue a nossa perspetiva do mundo ao redor. Por vezes nem damos conta que neste mundo há homens que sabem abrir os nossos corações abrindo os seus sem a mais pequena hesitação. E sim que isto é verdade! Uma vez, indo pelos campos e aldeias croatas precisei de afiar a minha faca, incapaz já de cortar pão. Dirigi-me a um homem que estava a reformar a sua velha casa algures numa pequena aldeia do norte do país. Uns minutos mais tarde estava sentado à mesa a banquetear-me com os meus novos amigos. Recebi muito mais do que precisava. Os homens, já alegres estavam a fantasiar uma doida visão de expulsar todos os inimigos da pátria- os ciganos, os sérvios e outros para depois ´importar´ para a Croácia cinco milhões de Polacos- “os melhores amigos da nação croata, os melhores homens do mundo!”. “Fod... cinco milhões de Polacos!” repetiam. Nem eram capazes de perceber que já queria continuar a viagem- voltaram a trazer mais comida e mais vinho croata! O dono trouxe por fim toda uma coleção de facas para que escolhesse uma. E, já embriagado, começou a encher de notas o meu bolso. Mas, nem pensar, isto significava que já era hora de partir. Deixei então os dois homens, incapazes de reter as lágrimas. Os olhos do dono daquela pequena casa de madeira eram os mais tristes que vi na minha vida. O homem do povo, simples, capaz de dar-te tudo o que tinha- todo o seu amor ou todo o seu ódio. Nem imagino o que me podia oferecer se eu fosse cigano ou sérvio... 
 Passava então quilómetro atrás de quilómetro movido pela paixão de vaguear, com o termos que normalmente guardava e mantinha fresca a água mas que, já algures na Hungria, começou a encher-se cada vez com mais frequência do melhor néctar da Europa do sul. Sabia relativamente pouco, ou seja muito pouco, do país aonde me dirigia, daquele “fim da terra” como o costumavam denominar os medievais, onde há trinta e tal anos atrás os homens colocavam cravos nos canos dos carros de combate. Apesar disso pelo menos tinha mapas, dos quais não dispunham os navegantes portugueses do século XV que só mais tarde iriam desenhá-los e, ao contrário deles, sabia o meu destino. Ou, se calhar, sabia somente a direção... Acho que as mais terríveis doenças e a aleijões dos nossos tempos são a falta de fé e o desinteresse pela vida revelado por alguns homens. Tudo já foi descoberto, nomeado, tudo foi escrito e então já não há nada que seja capaz de surpreender o malcontente ser humano. A navegação em busca de aventuras e descobertas de novas terras minguou à chamada “navegação” pela realidade virtual que parece ser considerada o melhor substituto de todo o real na nossa gloriosa época pós- moderna saturada com a chatice e a inelutável desesperação. Não obstante, às vezes basta desligar o computador para darmos conta que essa velha doença do “fin de siécle” é quase exclusivamente própria dos habitantes das grandes aglomerações da classe média acomodada do mundo ocidental. Assim que deixamos a cidade, vemos que a loucura e a insensatez cedem à paixão de viver a vida plenamente. Deixamos então o mundo virtual, este impenetrável mistério de aparência e de engano que se tornou a nossa única quotidianidade para entrarmos na realidade como se fosse esta viagem uma volta ao passado, ao mundo que para a maioria de nós já está morto. Seja o que for que possa significar viajar mas seguramente cada viagem é significativa e até revelante na dimensão individual. Viajar significa observar e escutar com muita atenção, conhecer, aprofundar e em resultado, às vezes, entender que a visão apresentada na televisão tem pouco a ver com a realidade. 
  Conheci, errando pelas terras europeias, inumeráveis ciclistas, caminhantes, peregrinos, viajantes, romeiros e vagabundos, cada um dos quais levava se calhar um mundo inteiro dentro do coração. Houve entre eles um francês de uns 35 anos que ia em peregrinação à Terra Santa em Jerusalém. Aquele “discípulo moderno” de Jesus avançava muito devagar na sua velha e enferrujada bicicleta e, como o seu mestre, não tinha quase nada consigo. Lembro- me bem que naquela noite preparei o jantar com todos os ingredientes que tinha- cozinhei uma sopa na fogueira. E não foi a primeira, nem a última vez nessa viagem que vi lágrimas nos olhos dum homem. Umas semanas mais tarde, já algures nas montanhas de Navarra parei na praça dum pequeno povo para me abastecer de água. Não estava muito calor mas não vi ninguém na rua exceto uma família árabe - um homem, a sua mulher e dois miúdos jovens. E, quando já estava a abandonar a aldeia, ouvi uma voz gritando: Senhor! Espere! Foi o árabe que chamou por mim da janela da sua casa. Sacou então duas bolsas gigantes, cheias de comida, dentro das quais se encontrava, entre outras iguarias, um pote de sopa de lentilha. “Foi a minha mulher que preparou isto”- disse. E eu não sabia dizer mais do que -“Deus te abençoe”. O Marroquino cumpriu assim a sua obrigação muçulmana, o mandamento de Alá que o obriga a alimentar o faminto. Eu não estava com fome e nem era capaz de sustentar a carga para equilibrar o volante do meu veículo. Não obstante naquela mesma tarde tive oportunidade de compartilhar a comida com uma família francesa e uns dias mais tarde em Burgos, no velho coração de Castela, onde, conforme esperava encontrei pedintes. Nada na Natureza se perde, tudo se cria e tudo se transforma. Fui ajudado numerosas vezes naquela longa peregrinação, e quando já estava a perder fé aparecia algum bonachão que não hesitava em estender a sua bondosa mão e manter assim a chama da esperança. Para tantos outros o bom samaritano fui eu. 
 Foram tantas e tão reais as pessoas que conheci que por vezes esqueço os nomes e as caras na minha memória embaçada: uma família espanhola no desértico e até espantoso “Mar de Castela” dos intermináveis campos de trigo, que me deixou pernoitar, quando estava todo molhado na sua pequena um idoso português que ao ver-me a consertar a bicicleta me ofereceu boleia e me levou a casa da sua família algures perto de Sabugal.“Você fala muito bem a nossa língua”- não deixava de repetir apesar de eu não perceber quase nada, e os ciganos-“condenados” ao meu destino pela sua tradição secular- que sempre que me viram me cumprimentavam com um sorriso e com gesto de mão. Um jovem polaco numa sobrecarregada bicicleta foi naqueles dias um deles. 
 Naturalmente há pessoas que nunca tiveram oportunidade de abandonar a sua vila, ver a cidade, viajar e conhecer o mundo. E há também quem diga que tais homens não têm nenhum conhecimento profundo das coisas porque não viram nada na sua vida, como por exemplo alguns camponeses portugueses que apesar de morar pertíssimo nunca puderam deixar o arado e ir ver o mar. Não concordo absolutamente porque embora esta constatação às vezes seja verdadeira, geralmente não parece acertada e não tem muita justificação. Há uns anos atrás conheci um jovem estrangeiro que viajou por todo o mundo e admitiu ter visitado quase todos os lugares mais exóticos. Apesar disso não sabia dizer nada das suas viagens além da vulgar trivialidade “Yeah, it was f...cool!” quando estava a tentar descrever a sua única “experiência internacional” da qual se lembrava- os bares. Como o gajo tinha ar de tipo inteligente, da chamada “boémia artístico-intelectual”, não podia acreditar que todo o “original” nele se limitasse ao superficial e ao aparente. Aquele jovem viu muitas coisas mas não as experimentou, só se limitou consumi-las com a vista- o sentido humano mais alienante e enganoso. Mas, como diz o provérbio, a barba não faz o filósofo, nem as viagens fazem com que conheçamos o mundo. As novas terras só se podem descobrir vendo as coisas até ao fundo, mas isto supõe ver com o coração, não só com o intelecto.
 Depois de 46 dias a pedalar cheguei por fim a Lisboa onde de repente me dei conta que era completamente incapaz de me comunicar na gloriosa língua de Camões, especialmente na sua variante moderna da rua chamada calão. Aqueles dias passados em viagem, as noites na minha tenda, nos bosques, nas praias e nas aldeias, junto à fogueira acesa, solitárias ou em companhia mas sobretudo as pessoas, os peregrinos que encontrei no caminho mudaram a minha vida.
 Michał Hułyk