Na realidade, Salvador foi a primeira capital do
Brasil, mas para mim sempre foi Curitiba. Tal como Turim, a primeira capital da
Itália, ou Munique, a capital inicial alemã. Toda esta confusão por causa da
minha paixão pelo futebol. Na década de 90 os meus professores de Geografia
eram os jornais, revistas, programas de rádio e televisão desportivos. Visto
que a Juventus reinava nessa altura na Península Itálica e o Bayern permanecia
a melhor equipa da Alemanha (cujos planos de supremacia tenta hoje em dia frustrar
o magnífico Borussia), as cidades de origem destes clubes eram, de acordo com a minha política
topográfica, as mais importantes dos seus países. Berlim com a sua história de
alguma muro e Roma que abrigava os lobos e o Papamobile não me interessavam tanto.
Não faço ideia se o Atlético Paranaense estava nesse
tempo entre as melhores equipas do país, mas a chegada ao clube do jogador
polaco Mariusz Piekarski fez com que a capital do Paraná fosse proclamada no
meu atlas a capital do Brasil. Um pouco mais tarde as fotos das meninas
vestidas ou não na praia que vi pelo chamado “acaso” (e não a transferência de
Piekarski para o Flamengo) decidiram que o Rio de Janeiro ganhou o título do
espaço mais destacado no mapa da antiga colónia portuguesa e essencial para
todo o hemisfério Sul.
Passaram mais que 15 anos. Desde então as minhas
paixões não mudaram visivelmente, mas muitas circunstâncias curiosas
estabeleceram o Brasil como mais que só “um lugar” numa folha de papel. Um
encorajamento para visitar Curitiba surgiu por parte do indivíduo que uma
vez já foi o protagonista de um artigo neste blogue. O Willian revelou-se
um homem verdadeiro que além de um perfil no Facebook tem uma alma e uma família
e o “evento” a que nos convida factualmente existe. A oferta dele marcou
Curitiba como número dois no roteiro da nossa tournée.
No decorrer da estada de três dias, iniciada pela
imprevista noite passada no aeroporto de Porto Alegre (e dedicada, claro, à
leitura), tivemos o privilégio de dar
uma olhada durante o trajeto do ônibus turístico nos pontos como o Jardim
Botânico, o Museu Oscar Niemeyer ou a Torre Panorâmica com numerosos estímulos
fotográficos.
Em Curitiba encontrei o meu tipo preferido de estabelecimentos comerciais, os
sebos, isto é, livrarias onde se compram e vendem livros, revistas, discos
usados. Um paraíso cujas fronteiras são as limitações da bagagem de avião. No entanto, não recordar Curitiba por causa do turismo.
Os destaques destes dias foram com certeza os jantares com os parentes da Kasia
, o Willian e a sua família
e com a
família do seu amigo Everton ,
todos muito acolhedores, curiosos sobre a Polónia,
pois ligados com o país distante. Foram eles que levaram a que por pouco tempo
nos sentíssemos em casa a 12 mil quilómetros da pátria. Nos guias diz-se muito
sobre os lugares, arquitetura, clima das cidades, mas não se tem em conta as
pessoas com quem se viaja ou quem se visita. Para mim, este constitui o
elemento decisivo para o êxito de cada viagem. Neste caso a variável saiu
favorável. Mas as mesmas pessoas que tinham sido responsáveis por este sucesso,
suprimiram um pouco o nosso entusiasmo, avisando-nos que o Rio de Janeiro, o
nosso destino seguinte, não seria tão hospitaleiro para os turistas da Europa.
Rio de Janeiro
No espaço da minha adolescência a capital do Brasil
mudou. O que não mudou tão drasticamente foi a minha fisionomia. Então, depois
da vinda ao Rio os empregados do serviço de táxi notaram com facilidade que o
homem com quem estavam a falar não parecia um carioca de jeito nenhum. Eles
pressentiram uma oportunidade de fazer o negócio da China e tentaram cobrar pelo
percurso do aeroporto para o centro o dobro da tarifa normal. Neste cenário
negro ajudou-nos o conselho do Willian que já tinha experimentado o “acolhimento”
carioca, avisou-nos da prática e poupamos 50 reais.
O contacto com o centro da metrópole poucas horas
depois dececionou-me. Um montão de gente, ruas sujas e barulho inimaginável
empacotado com o calor insuportável. Felizmente, a primeira impressão não
permaneceu por muito tempo. A Cidade Maravilhosa prometeu-nos muitas outras
atrações, entre elas o monumento do Cristo Redentor ou a vista do Pão de
Açúcar. Não é de estranhar, porém, que na nossa lista de prioridades na primeira
posição figurava sempre o nome nobre da caipirinha. Afinal, somos da Polónia. A
ingestão da especialidade provocou os resultados inesperados, nomeadamente a
participação no desfile de samba acabada prematuramente pela atividade elevada
da bexiga. Estranhamente, a(s) caipirinha(s) afeta(m) obviamente ao mesmo tempo
a competência de contar e o senso de orientação e, por consequência, prolongam
bastante o caminho para a casa.
Esta “aventura” não me impediu de retratar a
beleza natural do Rio e a minha própria.
Apesar de todas as paisagens gostosas, o ponto que me
emocionou mais foi, sem dúvida, a obra de mãos humanas, talvez a mais
importante construção do Brasil neste ano: o Maracanã. A visita ao Rio
coincidiu com a última rodada do campeonato brasileiro de futebol.
Devido a
esse facto, pude assistir ao enfrentamento do Botafogo com o Criciúma. Preferiria estar lá no dia da final da Copa do
Mundo em julho, claro, mas a cavalo dado não se olha o dente. Não só o Rio tem a vantagem de localização pitoresca.
O interesse pela filosofia de um dos mais influentes arquitetos dos nossos
tempos, Oscar Niemeyer, recordado em Curitiba atraiu-me a Niterói, outra cidade
belíssima, situada no outro lado da Baía de Guanabara.
O cruzeiro de barco,
especialmente num dia quente, é uma experiência imensamente agradável. Niterói abriga muitas construções projetadas
por Niemeyer.
Entre elas a mais famosa, semelhante a um OVNI, o Museu de Arte
Contemporânea de Niterói. Nessa época
ainda não tinha consciência de que o nosso último destino comum antes de a
Kasia voltar para a Polónia, São Paulo, se ia tornar a minha casa brasileira espiritual.
Morreu hoje em Lisboa, Vasco Graça Moura, uma das vozes mais críticas do novo acordo ortográfico. Um dos nomes grandes da língua portuguesa e da lusofonia foi poeta, ensaísta, romancista, tradutor, deputado, secretário de estado e desde 2012 era presidente do Centro Cultural de Belém. A sua poesia é cantada por algumas das grandes vozes do fado, como Carminho, no álbum Alma.
A Hora da Liberdade (1999) Ficção documental da autoria de Emidio Rangel, Rodrigo Sousa e Castro e Joana Pontes. Emitido pela SIC na comemoração dos 25º aniversário da revolução.
"Portugal 74-75" - O retrato do 25 de abril (1994) Documentário da RTP da autoria de Joaquim Furtado, José Solano de Almeida, Cesário Borga e Isabel Silva Costa.
25 de abril- Uma aventura para a democracia (2000) Documentário de Edgar Pêra com base nos arquivos do 25 de abril.
A Polónia tem Bracia Figo Fagot,
Espanha tem Leonardo Dantés, Portugal tem Quim Barreiros. Cada um tem o seu.
Mas isso não significa que todos sejam iguais. Pois é, Quim Barreiros é único.
O artista minhoto já de pequeno estava ligado ao mundo de música. Aos oito anos
começou a aprender a tocar acordeão. Um ano depois já fazia parte da banda do
seu pai chamada Conjunto Alegria em que tocava bateria. Fazendo parte de vários
grupos folclóricos, despertou então o seu interesse pela música popular e
folclórica. Mas o pequeno Quim demorou
15 anos para demonstrar a todo o mundo os seus grandes dotes musicais. Nos anos 1968-74 cumpriu o serviço militar ao
serviço da Força Aérea Portuguesa, em que tocava na famosa Banda da Força
Aérea. O serviço militar não o impediu de desenvolver a sua paixão musical.
Naquela altura mudou-se para Lisboa onde teve oportunidade de atuar nas
principais casas de fado e restaurantes típicos. Fez então muitas amizades, com
o famoso guitarrista Jorge Fonte, entre outras, que depois tiveram muita
influência na sua carreira. Com o lançamento do seu primeiro disco (em 1971)
começou um novo capítulo na música universal.
Já nada era igual. Surgiu um novo ponto de referência. O músico batia às
portas da fama...
Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros, pois este é
o seu nome completo, é um artista muito fértil. No entanto, os primeiros vinte
anos da sua carreira não anunciavam esta multiplicidade artística. O cantor
lançou então três álbuns por década o que não ultrapassava a norma dos músicos
daquele tempo. Mas com a chegada dos anos noventa começou em pleno a era do King Barreiros que continua até aos dias
de hoje. O artista passou a lançar até três CDs por ano.
A sua música tem a força que une
todas as gerações. Ele está presente nos palcos durante festas folclóricas, mas
também a sua presença é obrigatória nas Queimas das Fitas. O seu público é bem
diversificado mas ouve a sua música com o mesmo objetivo: à procura da alegria.
Quim Barreiros atuou em quase todos os países onde existem comunidades
portuguesas, tais como o Canadá, E.U.A., Venezuela, Brasil, Bermudas, África do
Sul, Namíbia, Austrália, Espanha, França, Suíça, Bélgica, Alemanha, Andorra,
Inglaterra, e muitos mais, sendo assim uma espécie de embaixador da música
popular no estrangeiro. O seu caminho para o sucesso foi marcado por muitos
sacrifícios. Numa entrevista o artista confessou que no princípio da sua
carreira não tinha grande apoio por parte dos seus próximos. Ao mudar-se para a
capital, mudou tudo. Sem dúvida, grande parte do seu sucesso deve-se à sua
humildade e honestidade. Ao longo destes anos foi fiel ao provérbio “devagar se
vai ao longe”.
A música portuguesa, por razões
óbvias, associa-se com sentimentos de nostalgia, tristeza, saudade. Há muito
poucas canções que sejam verdadeiramente alegres. Isso mesmo se reflete em cada
composição de Quim Barreiros. A sua grande figura indica-nos o caminho de
alegria. Diz-se que a música pimba são letras de duplo sentido. Acho que Quim
Barreiros até acrescentou mais um. Pois ele faz também uma análise profunda dos
seus compatriotas. As suas canções estão cheias de referências simbológicas. À
primeira vista salta o contexto principal, ou seja, a cara grosseira da letra.
Mas ao aprofundarmos na leitura (ou audição) das canções do Quim Barreiros
podemos encontrar outra mensagem contida. Isso mesmo, há que ler nas
entrelinhas.
Uma das suas canções mais conhecidas
(aliás, é o tema adotado dum cantor brasileiro) é a esplêndida Garagem da Vizinha. É a composição auge
na obra do Quim Barreiros em que conseguiu juntar um sem-número das qualidades
dos portugueses. Já na primeira estrofe o autor refere-se à bondade do povo
português. Falando da sua vizinha que lhe ofereceu a sua garagem destaca a
solidariedade da sociedade que estende a sua mão aos que necessitam ajuda. A
magnanimidade do sujeito lírico é inegável. Ela é uma personificação da beleza
o que corresponde perfeitamente à imagem da mulher portuguesa. Quim Barreiros
faz aqui também uma descrição da sociedade que tem de enfrentar as dificuldades
do dia a dia, tais como a garagem pequena que apenas chega para caber um carro.
Além disso, o autor aborda a questão da confiança ilimitada e hospitalidade que
os portugueses mostram perante os outros que é exprimida no refrão: Ponho o carro, tiro o carro, há hora que eu
quiser! Em contrapartida, há que sublinhar que o cantor não conseguiu fugir
do tópico da solidão, pois, a vizinha está
morando sozinha. É ,se calhar, a influência de fadistas com quem Quim
Barreiros costuma tirar fotos.
Outra canção que mostra o lado solidário da sociedade
é Vou Comer C´os Velhos. É uma
descrição de diferenças geracionais onde Quim Barreiros é uma espécie de
intermediário entre os jovens e velhos. O artista sente, portanto a necessidade
do diálogo entre ambas as gerações, considerando-o imprescindível para o futuro
da nação.
Outro tema de destaque na obra do Quim Barreiros é a
cozinha portuguesa. Na canção Bacalhau à
Portuguesa a influência da gastronomia nacional é bem evidente. O artista
presta homenagem ao peixe-rei exaltando as suas maravilhosas qualidades. Como é
sabido, existe um sem-número de maneiras de preparar bacalhau. Não há duas que
sejam iguais. Cada mulher confecionando-o dissipa o cheiro do seu prato pela
sua casa. Então cada cidadão quer prová-lo. É como na canção onde todos estão
ansiosos por cheirar o bacalhau da Maria. Temos aqui uma imagem da sociedade
portuguesa em que a cozinha tradicional ocupa uma posição central. Nas palavras
Diz-me se é da Noruega ou aqui de
Portugal o autor realça a abertura dos portugueses para os estrangeiros,
isto é, um aspeto associado sempre ao povo lusitano.
A canção com o título um bocado erróneo que é Chupa Teresa! também desenvolve o tema
relacionado em parte com a gastronomia. À primeira vista as coisas parecem ser
evidentes, mas muitas vezes, as aparências iludem...O artista mostrou de novo a
sua excelência de uso de palavra e conseguiu conter na letra uma mensagem
escondida. É uma história de um vendedor de gelados. O cantor relembra que
comer fruta faz parte duma alimentação saudável. A resposta da sociedade é
muito boa, pois As garotas do meu bairro
vêm todas chupar aqui!
Quim Barreiros serve-se das suas canções também para homenagear
algumas profissões, como é no caso de Ser
Bombeiro ou Padeiro. Apesar de
serem atividades mal pagas, a sociedade dá mostras de muito respeito perante as
pessoas que as exercem. O autor fala das dificuldades que têm de enfrentar
trabalhando de noite ou como voluntários.
Para além das tradições e caraterísticas dos portugueses,
mostra uma grande preocupação pelos problemas sociais. Na canção Qual é o melhor dia p´ra casar o artista
aborda a questão da baixa taxa da natalidade. Aproveitando os seus dotes e
autoridade tenta despertar no povo português o sentido de dever. A mensagem
transmitida é esta: quanto mais matrimónios, mais crianças. O autor fala também
da grande força do amor e que nem falta o consentimento dos pais para ganhá-lo.
É simplesmente imparável.
Os grandes acontecimentos históricos de Portugal também
não passaram despercebidos pelo artista. Uma
Virgem refere-se obviamente ao Milagre de Fátima. É um relato feito por um
dos pastores que eram testemunhas da maravilhosa aparição. Ao ver a Virgem ele
ficou quedo e mudo, o que prova a
atividade de forças sobrenaturais.
Outro acontecimento de muita relevância é a famosa
exposição internacional eternizada na canção Marcha da Expo´98. O músico mostra o seu orgulho pelo país
relembrando a era dos Descobrimentos e a beleza de Lisboa. É um tipo de ode ao louvor
de Portugal. Evidencia o lado muito patriótico do cantor.
É de destacar que ao longo da sua
carreira, Quim Barreiros nunca mudou da sua imagem (com a exceção dos tempos do
primeiro disco quando aparecia sem bigode). Parece que é resistente ao passar
do tempo o que atribui à sua música um cunho de eternidade. No entanto, a
imagem da música pimba mudou bastante. Nos últimos anos surgiram grupos como
Homens da Luta que também se enquadra nesta vertente musical. Mas parece que o
único vínculo entre ambos os artistas é a referência musical. Quanto às letras,
a situação é bem diferente. Enquanto Quim Barreiros consegue fugir
consequentemente da política nas suas canções, os Homens da Luta servem-se dela
como de um poço infinito de ideias. Mas julgo que o seu objetivo não é tanto
dar alegria ao público, mas servir como alívio na época da crise. Há quem diga
que a música de Quim Barreiros é para malta “rasca”, mas acho que o seu
contributo para a promoção da cultura e tradição portuguesas mascara todas as
suas imperfeições. Sendo um artista arraigado profundamente na sua sociedade e
dedicado inteiramente ao povo, sem sombra de dúvida, merece um grande respeito.
Há quase dois anos saí da Polónia para passar um semestre de estudos em
Portugal. O voo para Lisboa marcou na minha vida um momento em que a atitude
com que eu abordava a língua mudou. Foi como se o português fosse um monumento
que de repente ganhasse vida. Conheci alguns portugueses, provei alguns pratos
típicos, visitei alguns lugares históricos e ainda queria mais. Essa cobiça,
esquecendo por um instante a própria língua, conduziu-me no ano seguinte ao
Brasil. O Erasmus no extremo ocidental da Europa não deixou muito a desejar. Só
lamentei não ter viajado mais. Em Portugal, um país pequeninho em comparação
com o Brasil faltou-me a vontade. Por isso, desta vez, apesar de distâncias
muito mais longas, decidi e consegui ver mais. Não amansou a fome. Já sei que
tenho de voltar lá. Posso enumerar dezenas de sítios no Brasil que gostaria de
explorar um dia.
Porto Alegre, a minha primeira localidade na Terra Brasilis,não faz
parte desta categoria. Eu acredito que é um lugar ótimo e que tem muito a
oferecer, mas vou lembrá-la como a cidade das greves, taxistas-vigaristas,
pousadas barulhentas, noites no aeroporto, estações apinhadas de gente e
prostitutas (pela ordem de mais a menos irritantes). Talvez seja uma visão
injusta, mas, infelizmente, esta é uma impressão subjetiva que não me deixou
até ao fim. A única coisa de valor sentimental que troxe da capital gaúcha foi um
disco de vinil com a banda sonora da série Tieta comprado por 2 reais.
Larguei ali muito mais, sobretudo dinheiro e os nervos.
Sul (Ijuí e arredores, Passo Fundo e Florianópolis)
Chegada a Ijuí, uma cidade de 80 mil habitantes, não me pôde
surpreender. Eu sabia antes o que esperar. Apesar disso, o choque com a nova
realidade foi doloroso. Levou-me muito tempo acostumar-me à sesta do meio-dia,
mas o problema mais perturbador foi, sem dúvida, o frio. As temperaturas por
volta dos zero graus de noite esfriavam bastante a casa privada de aquecimento.
Portanto, os meses de julho e agosto foram a prova verdadeira do sistema
imunitário. A constipação mantinha-se um estado perene do meu organismo. Podia,
claro, usar os produtos polacos, como vodka Sobieski promovida no Brasil pelo
ator americano Bruce Willis, para esquentar-me, mas queria adaptar-me à
realidade brasileira e o meu pensamento concentrava-se na cachaça.
Em Ijuí não encontrei atrações turísticas típicas. Na verdade, toda a
Região das Missões e os arredores não oferecem muito para turistas preguiçosos.
Para apreciar os valores da área é preciso mergulhar na história da
colonização. Ijuí, por exemplo, é uma terra de pelo menos 11 etnias que
cultivam a tradição dos seus ancestrais e exibem-na todos os anos na feira Expo Ijuí Fenadi. Com
o propósito de avaliar melhor a região, eu e a minha corajosa parceira Kasia
aproveitámos a hospitalidade das pessoas ligadas de qualquer jeito com a
Polónia. A Marli, a Irene e o Claudio da etnia polaca apresentaram-nos a vida da
comunidade. Com a professora Marli, por exemplo, ensinámos às crianças na
escola IMEAB um pouco da cultura e língua polaca.
Os intercambistas: o
Diovan (que esteve em Lublin no ano passado) e o Pietro (que
agora mesmo acaba a sua estada na Polónia)[1]
possibilitaram-nos conhecer não só as cidades onde eles moram (respetivamente:
Santo Augusto e Santa Rosa), mas também as famílias e os amigos deles.
Durante
a minha curta permanência em Tenente Portela com o Diovan tornou-se claro que
os vestígios polacos não se limitam a Ijuí.
Por outro lado, a professora
Natalia Klidzio, que passou as férias no Brasil, mostrou-nos a cidade de Santo
Ângelo (um dos Sete Povos das Missões) e familiarizou-nos com a cultura gaúcha,
especificamente com a sua parte musical no Festival do Canto Missioneiro.
No fim de agosto, fomos por iniciativa dela a Passo Fundo, onde assistimos
à palestra da Professora Doutora Barbara Hlibowicka proferida na 15ª Jornada
Nacional de Literatura.
Além desses eventos, o quotidiano revelou-se mais agradável do que os
começos sugeriram. A experiência universitária foi frutífera. Aprimorei as
minhas competências linguísticas escrevendo nas aulas dos professores Lisandra
e Márcio textos jornalísticos e participei na criação e manutenção do
projeto Redação K1 com o
professor Felipe.
Em casa os problemas não faltavam, mas consegui
resolver os mais importantes .
A melhora do tempo fortaleceu a nossa vontade de verificar outro lado do
Brasil, este do cartão-postal. Por conseguinte, em meados de novembro
aproveitámos o dia da Proclamação da República, fizemos ponte e visitámos a
capital do estado vizinho – Florianópolis em Santa Catarina. A viagem de ônibus
(autocarro) foi longa (15 horas a de ida e 12 a de volta) e cansativa, mas
gratificante. As praias e as paisagens bonitas recompensaram a fadiga.
Devido à recomendação da autoridade encontrada numa das ruas da ilha, a primeira viagem não continuou como única por muito tempo.
Todos
os punks e até as pessoas com menor interesse pela música punk conhecem as
raízes deste movimento nos Estados Unidos, na Inglaterra e com certeza na
Polónia. É verdade que a cena norte-americana e inglesa estabeleceram os
fundamentos deste estilo e influenciaram o desenvolvimento da revolução punk e
da sua criação principal pelo mundo inteiro, a música. Vale a pena recuar duas
décadas e investigar como se formou e desenvolveu o punk nos países menos
conhecidos. Todas as partes do mundo têm as suas particularidades, problemas
diferentes e as pessoas têm o temperamento, a língua e os costumes bem
diferentes. Em vários zines podemos encontrar com frequência relatórios sobre a
situação atual do punk nos países considerados por nós exóticos, mas faltam
pelo menos pequenas referências do passado. Uma vez que a história ensina então
devemos conhecer a tradição deste género. Sendo assim vale a pena que nesta
série encontremos um espaço para países tão interessantes como a Finlândia, a
Itália, o Brasil, a Espanha, a Jugoslávia, a Austrália, a Noruega, a
França...Já visitamos muitos deles portanto agora é o momento para a expedição
seguinte...a Portugal!
Portugal, pais de 10 milhões situado na extremidade ocidental da Europa,
da perspetiva polaca parece distante e exótico mas é porém bastante bem
conhecido. Os amantes de história conhecem bem o papel de Portugal nos
descobrimentos geográficos e depois na conquista das terras antes
desconhecidas, outros olham para ali em busca de sol e descanso. Para
outros é simplesmente a pátria do vinho do Porto e os adeptos de futebol
apreciam a classe das equipas portuguesas. Mas o punk rock português
é ainda uma incógnita e, além de alguns exemplos contemporâneos, na
Polónia a sua história é completamente desconhecida. De algum modo é
compreensível por causa do longo isolamento do país, do pequeno tamanho do
mercado português ou simplesmente do seu potencial que não é muito grande. Mas
acho que vale a pena no 15º capítulo de Punk Rock Exótico olhar um pouco também
para esse país. Tanto mais que desde o relatório parcial sobre Portugal no
número 12 de Qqryq (1)de
1988, não se escreveu muito sobre aquele país.
A aparição do punk rock em Portugal foi
procedida de uma época de transições sócio-políticas. Depois dos anos da ditadura e
isolamento do país, em 1974 teve lugar um golpe de estado a chamada Revolução dos Cravos, um golpe pacífico, seguido de um período de
desenvolvimento bastante estável do país. No entanto Portugal teve de
enfrentar-se com a queda do seu Império
Colonial, reformar o estado, limitar a influência da igreja e apostar em criar
uma sociedade moderna. Isso teve êxito apenas desde meados da década de 80,
sobretudo desde 1986 – o momento da entrada na União Europeia. Tal como o
desenvolvimento do país, ao mesmo tempo mudava o rock local – nos meados da
década de 70 dominava o pop nativo de raízes folclóricas e então apareceu a
primeira onda de bandas de blues e de hardrock comoPetrus, Saga, Heavy Band e
Tantra. A primeira banda que
optou, embora ainda timidamente, pelo caminho da rebelião musical em Portugal
foi o grupo Aqui d’el Rock, influenciado pela obra dos The Stooges e das
primeiras bandas punk portuguesas. O grupo foi formado em Lisboa em 1977 e era
composto pelo vocalista Oscar Martins, o guitarrista Alfredo Marvão, o baixista
Fernando Gonçalves e o baterista Carlos Serra. Alguns deles já tinham começado
a sua aventura musical como membros da banda hard rock Osiris. Marvão, o mais
velho dos músicos, licenciou-se naquela altura em filosofia enquanto os seus
companheiros ainda estavam a estudar. Os Aqui d’el Rock deram o seu primeiro
grande concerto em julho de 1978 quando abriram o concerto dos Eddie & The
Hot Rods. A banda logrou dar uns 30 concertos no total até à sua dissolução em
1981 e deixou dois singles intitulados ‘Há que violentar o Sistema´(1978) e ´Eu
não sei´ (1979), lançados pela editora independente Metro-Som. As quatro faixas
da banda foram reeditadas juntas em vinil pela editora italiana Rave Up em
2006.
O aparecimento dos Aqui d’el Rock
foi o fenómeno crucial, embora não tenha atingido um nível de popularidade que
fosse comparável ao dos Sex Pistols na Grã- Bretanha, ou ao dos Ramones nos
Estados Unidos. Apesar da banda gozar de popularidade exclusivamente em Lisboa,
houve quem continuasse pelo mesmo caminho estilístico. Apareceram então bandas novas e, além delas,
algumas personagens importantes, tais como o recém falecido promotor do punk
rock António Sérgio, jornalista de rádio que publicava ilegalmente gravações
das primeiras bandas punk estrangeiras, sobretudo da Inglaterra. No momento da
estreia dos Aqui d’el Rock, ainda não se podia falar de um movimento punk em Portugal e, tal como na
Polónia , a nova música tinha pouca audiência. Também as editoras locais ainda
não estavam preparadas para promover o punk rock. Foi neste contexto que a primeira editora
independente foi fundada em 1976, mas... em Londres, por Rui de Castro que
também enquanto emigrante, liderou a sua banda The Warm, e após alguns anos
voltou à terra natal. No final dos anos
70 além dos Aqui d’el Rock surgiram outros grupos inspirados pelo punk e new
wave. Um deles foram Os Faíscas, de Lisboa nos anos 1978-79. Apesar de não
terem deixado gravações, em Portugal têm o estatuto lendário, devido ao facto
que lá se estrearam os membros de bandas posteriormente famosas como Xutos
& Pontapés, Street Kids ou Corpo Diplomático. Ainda menos conseguiram os
Minas & Armadilhas, da mesma altura e que tocavam principalmente covers com
as letras do vocalista Paulo Borges. Enquanto isso,osacima mencionados
Corpo Diplomático lançaram, graças ao apoio do Antonio Sérgio, o primeiro álbum
português de new wave, Música moderna
(1979), uma combinação dos sons do punk, new wave e pub rock com elementos
psicadélicos. É significativo que nesse tempo os jovens de Portugal não sentiam
a necessidade de punk rock radical e realmente não entendiam o propósito da
mensagem agressiva, da aparência nem das letras chocantes. Para a maioria das
pessoas depois do período de isolamento do país e da inatividade musical a
própria liberdade de criar e a liberdade de expressão eram suficientes. Assim até 1982 havia poucos grupos estritamente
só de música punk rock. A maioria das que saíram do anonimato orientou-se
rapidamente para a música new wave mais suave e que seria mais aceitável pelo
público e pelas editoras. Curiosamente no “fraterno” Brasil, no início dos anos
80 a cena punk era muito mais radical. Os contactos mútuos relacionados com a
música underground eram mínimos e desenvolveram-se apenas na segunda metade da
década graças aos contactos do grupo Mata Ratos com os brasileiros Garotos
Podres.Voltando à música new wave rock em Portugal do início dos anos 80 falta
recordar algumas bandas. Vale a pena mencionar os STREET KIDS que tocavam música
power pop/new wave liderados pelo Emanuel Ramalho (ex-Faíscas). Gravaram quatro
singles nos anos 1980-1982 e o álbum “Trauma” (1982). Um outro grupo chamado
Opinião Pública fazia música power pop/mod (um single no ano 1981 e um vinil “No
Sul da Europa”, 1982), e até apareceram num dos volumes da coletânea
internacional pirata “Powerpearls”. Convém
enumerar também a banda de punk’n’roll Vodka
Laranja (o único single “O Papel”de 1980), os Ferro & Fogo, uma banda bastante boa que juntava punk/new wave
com hard rock e rhythm’n’blues (dois singles de 1981 e o álbum “Vidas”de 1982),
os Speeds, banda de punk e de
rhythm’n’blues com dois singles de 1980 e que cantam em inglês como os Street Kids. A banda Tilt de punk’n’rock e de new wave editou dois singles e um mini LP
“Ideias” (1982). Os Pizolizo tocavam
rock’n’roll com os elementos de punk (um single de 1980), foi uma banda
bastante interessante porque tinha dois baixistas. Enquanto o grupo TNT estava mais na onda new wave/mod (
três singles de 1981-1983). Os Jáfumega
(single e LP de 1982) e os Ananga Ranga
tocavam new wave interessante, ambos com teclados e saxofone. Por outro lado os
Xeque-Mate foram uma banda de hard
rock, cujo single inicial de 1981 foi um
pouco influenciado pelo punk. Mais tarde esta banda converteu-se na pioneira do
heavy metal português (álbum “Em Nome do Pai, do Filho e do Rock’n’Roll, 1985).
O grupo Taxi (João
Grande (v), Henrique Oliveira (g), Rui Taborda (b),
Rodrigo Freitas (bt) ) do Porto conseguiram sem dúvida a maior popularidade
nesta geração. Eles animaram a cena portuguesa com os ritmos ska combinados com elementos punk, mod e pop. Venderam-se 70000 exemplares do seu primeiro
single “Chiclete” e do álbum “Taxi” editado pelo Polygram (1981), o que para
Portugal foi uma quantidade enorme. Em 1981 estando no auge da popularidade
abriram o concerto dos The Clash em Lisboa. No entanto os seus álbuns
seguintes, apesar de serem populares, foram piores e de pop pura.
Os novos grupos podiam contar com o forte apoio da Metro-Som, talvez a
primeira editora discográfica independente de música rock em Portugal, e do
clube lisboeta Rock Rendez-Vous, no
qual se organizavam festivais cíclicos que tinham forma de concursos. A cena new wave precoce é bem representado pela
coletânea de singles dos anos 1979-82 editados pela Metro-Som, intitulado
“Grande Geração do Rock” (1997). Por sua vez, dada a escassez de bandas punk
clássicas e o reduzido número de gravações, nunca apareceu nenhum disco da
serie “Bloodstains Across...”, nem sequer há representantes de Portugal na
coletânea de culto “World Class Punk” (1984).
A maioria das primeiras bandas punk
e new wave durou só alguns anos, chegando no máximo a lançar um single ou,
raras vezes, um álbum. Duas das bandas que se estrearam naquela altura duraram
porém anos e são grupos rock populares. A primeira são os XUTOS & PONTAPÉS, formada em Lisboa
no final do ano 1978. No início, a banda estava relacionada com os Aqui d’el
Rock, com os quais dava concertos. A primeira formação contava com Zé Leonel
(v), Zé Pedro (g), Tim (b) e Kalú (bt). Mais tarde,
depois da saída do Zé Leonel (morreu de cancro, em 2011), Tim, além de tocar
baixo, começou a cantar e juntou-se a eles um segundo guitarrista, Francis.
Inicialmente procuraram o seu próprio estilo, sem conseguir decidir-se pelo
punk rock e depois, com o tempo, optaram por um estilo mais rock. Estrearam-se
só no ano 1981 com o single “Sémen” e com o álbum “78-82” (1982), mas depois
recuperaram os anos perdidos e editaram mais dez álbuns, entre os quais vale a
pena ouvir “Circo de Feras” (1987) ou “Gritos Mudos” (1990) que contêm rock com
elementos punk. Existem até hoje e são
uma banda apreciada. A música deles foi usada em filmes, mesmo num musical. No
30º aniversário do grupo foram nomeados para a “melhor’’ banda de rock em
Portugal. O segundo grupo inspirado pelo punk rock que começou no underground e
com o decurso do tempo ficou muito famoso, foram os UHF. Criados no ano 1978 em Almada, perto de Lisboa, formados por
António Ribeiro (v), Renato Gomes (g), Carlos Peres (b)
e Zé Carvalho (b). Estrearam-se pela Metro-Som com o single “Jorge
Morreu” (1979). Esta canção teve muito êxito e provocou uma onda de choque
mesmo no ambiente do rock, porque foi a primeira no país que criticou de
maneira tão determinada a morte causada pelas drogas. A toxicodependência era
nesta época um enorme problema, e tanto para o governo, como para o mundo
musical – um tema tabu. Depois dos singles seguintes bastante bons, como “Cavalos de Corrida” (1980), “Rua do Carmo”,
e o álbum “À Flor da Pele” (1981), o grupo começou a gravar para a EMI.
Lançaram mais de uma dúzia de álbuns e existem até hoje.
O início dos anos 80 em Portugal é a época da formação praticamente do
zero da música rock. O punk era uma parte, mas realmente ainda faltavam lá os
grupos estritamente punk, conscientes, empenhados e tocando música agressiva.
Só a partir de 1982, quando os ecos da segunda onda do punk europeu e hardcore
americano chegaram lá, lentamente começaram a surgir novas bandas, mais
intransigentes, que cantavam com mais coragem sobre a política, que atuavam
contra o sistema, costumes conservadores, a Igreja e, um tema muito delicado em
Portugal e um peso na sua história , a questão do colonialismo. Finalmente,
surgiram os primeiros fanzines como “Subúrbios” de Lisboa ou “Cadáver
Esquisito” do Porto, este relacionado com a rádio pirata “Radio Caos”. Começou
também a circular o jornal de música “Blitz”. A banda mais importante formada
naquele período foi os MATA-RATOS
formada em 1982 em Oeiras, nos subúrbios de Lisboa e existe até hoje. A
formação original incluía: Jorge Leal (voc.), Pedro Coelho (g), Pinela (b) e
Jorge Cristina (bt). Em 1988 surgem com
uma nova formação: Miguel Newton (voc.), Coelho (g), Cascão (b) e Jó (bt).
Durante os anos 80, a banda e os seus seguidores vagueavam pelas ruas de
Lisboa, restringindo-se a dar concertos esporádicos (p.ex. em 1985 no festival
“Rock Rendez-Vous“), em 1987 gravaram as suas primeiras canções demo e em 1988
editaram a cassete “Mata-Ratos“. Tornaram-se conhecidos no país com o seu álbum
de estreia “Rock Radioativo“ (1990) editado pela EMI, que contém um repertório street punk dinâmico. Apesar da
popularidade bastante grande não seguiram o comercialismo e editaram os seus
álbuns seguintes em editoras independentes. Uma recolha de gravações originais
e parcialmente de arquivo dos Mata-Ratos apareceu na compilação “Xu-Pá-Ki
1982-1997“ editada pela Fast’N’Loud – uma editora notável para o punk rock
português, que editou também o seu álbum seguinte “Estás Aqui, Estás Ali“
(1995). Em Portugal, os Mata-Ratos abriram os concertos de p.ex. The
Exploited, partiram para a conquista da
Europa com o grupo brasileiro Garotos Podres e finalmente representaram
Portugal na compilação “Oi! Rare &
Exotica“. Depois de editarem “Sente o Ódio“ (1999) suspenderam a sua atividade,
mas alguns anos depois regressaram com o álbum “És um Homem ou és um Rato?“
(2004) e sem mudanças funcionam até hoje em dia. Depois de abandonar os
Mata-Ratos, Coelho formou uma nova banda, os Anti-Clockwise.
Embora os Mata ratos tenham trazido
ao punk rock português as características da música Oi!, foram os CRISE TOTAL os pioneiros do anarco punk ao
estilo de Conflict ou também dos representantes do caótico punk rock, grupos
como Chaos UK, Disorder ou Varukers. Formado em 1983 em Algueirão perto de
Lisboa, o grupo era constituído por Manolo na (v) , Rui Ramos na (g), Paulo
Ampola (b) e João Felipe (bt) A atividade artística (entre outros a participação no Rock Rendez-Vous 1984) não
foi apoiada por editoras e na realidade, não incluindo gravações experimentais,
chegaram ao disco com gravações dos anos 80 "E a crise continua" só
em 1996. Foi o momento de desintegração, ou melhor suspensão da atividade,
porque ultimamente o grupo retornou ocasionalmente. Ampola tocou depois no
grupo Censurados, e Manolo nos Capitão Fantasma. Nos anos 1983-86 também na
região de Lisboa existiram os GRITO FINAL representantes do punk parecido,
forte e caótico ( Luis Human (v), João (g), Caze (b) i Alexandre(bt) e tal como
os Crise Total só depois da desintegração gravaram é que surge uma coletânea de
gravações de arquivo. Ainda mais pequeno património musical deixaram os KU DE JUDAS, cujas únicas demo apareceram na coletânea musical "Vozes de
Raiva" (1997). João Pedro Almendra (v), João Ribas (g), Serpinha (b) e
Carlos Aguilar (bt) graças ao caráter totalmente simples e punk-rock da banda
ganharam enorme simpatia dos punks portugueses. Começaram aqui, além disso,
Almendra e Ribas, que depois ficaram à frente das geniais bandas punk Peste
& Sida e Censurados.
Nos anos 1983-87 em torno dos grupos
Mata Ratos, Crise Total, Grito Final e Ku De Judas formou-se em Lisboa uma
autêntica legião de punks que tentava organizar concertos e outras atividades
antissistema. Mais tarde surgiram deste grupo as formações de hardcore punk:
SUBCAOS, VÓMITO e PÉ DE CABRA. Este período na história do punk português é
muito interessante mas relativamente pobre em termos de gravações, então vale a
pena procurar as compilações com o punk português mais velho: “Caos em
Portugal” (1997) e “Ataque Frontal” (2002). Com o tempo surgiram também os
primeiros grupos oi! do seio da atrás referida legião. A mais importante foi a
banda Guarda de Ferro que existiu nos anos 1987-93, criada pelos skinheads de
17 anos (Paolo (v), Filipe (g), Gordo (b) e Tratado (bt) ). No início
participavam constantemente em lutas de hooligans, sofrendo no entretanto a
morte do vocalista Paolo num acidente de viação e já guiados por Filipe
lançaram o single e LP “G.D.F” (1992) pela editora francesa Rebelles Europeans.
Devido às suas participações em rixas e à fama de banda nacionalista, foram
afetados pela proibição de concertos e por fim desintegraram-se. Mais tarde no
Canadá apareceu o CD “The Worst of Guarda de Ferro” (2000) com todas as suas
gravações.
Em 1986 formou-se o grupo PESTE &
SIDA que desde o início tocou punk rock clássico e melodioso que com o tempo se
foi diversificado com elementos de rock e ska. João Pedro Almendra (v)
tornou-se o líder do grupo e acompanharam-no: Luis Varatojo (g), João San Payo
(b) e Fernando Raposo (bt), depois passaram por alterações no grupo mas San
Payo e Almendra continuam até hoje. Estrearam-se com o álbum „Veneno”
lançado independentemente (1987), e já depois “Portem-Se bem!”com a Polygram. A
banda sobreviveu até hoje, lançou mais alguns álbuns, não mudando o estilo e é
até hoje o representante mais consequente da música punk da geração dos anos
80. Os seus últimos álbuns como “Toxico” (2004) ou “Cai No Real” (2007)são
prova disso. Vale a pena também escutar a coletâneas, lançadas pelas grandes
editoras como “O Melhor dos Peste e Sida” (1993) ou “A Verdadeira História”
(2002). O projeto paralelo dos músicos dos Peste & Sida nos anos 90 foi a
banda DESPE &SIGA, para o qual
convidaram, entre outros, um contrabaixista e uma secção de sopro. Além das
suas composições tocavam também muitas covers de clássicos do Rock’n’Roll, ska
e reggae (entre outros: The Specials, Madness) e deixaram dois álbuns.
Nos anos
1988-94 existiu outra banda formada sobre as ruínas dos Ku de Judas, os CENSURADOS (João Ribas (v), Orlando Cohen (g), Fred Valsassina (b) e Samuel
Palitos (bt) ). Graças a dois primeiros álbuns gravados num curto período de
tempo “Censurados” (1990) e “Confusão” (1991), que continham uma boa dose de
punk rockprofissional e forte, mas
também melódico, rapidamente ganharam reconhecimento no meio do punk rock. Com
razão, porque esses álbuns são considerados hoje como clássicos do punk rock
português. Infelizmente, depois de gravarem o terceiro, não tão bem sucedido
álbum “Sopa” (1994), onde tentaram sem sucesso enriquecer o som com o rock e
grunge, o grupo desintegrou-se. No ano 1995 sobre as ruínas de Censurados
nasceu uma nova esperança do punk rock português , os TARA PERDIDA (João Ribas (v)
Ganso (g), Ruka (g), Jimmix (b) e Rodrigo (bt) ). (2) Combinaram as tradições do punk rock da
época dos Censurados com a nova onda do skate punk americano fazendo tudo isto
no alto nível. Estrearam-se com o álbum “Tara Perdida” (1998) para lançar
depois ainda mais quatro álbuns, dos quais vale a pena ouvir “Lambe-Botas”
(2005) ou “Nada A Esconder” (2008). São um dos pilares da cena hardcore/punk
contemporânea e os representantes permanentes do país nos concertos ao lado de
Pennywise, Offspring e NOFX.
No início dos anos 90 a cena hardcore com o decorrer do tempo era cada
vez mais forte, independente e na maioria dos casos comprometida com os
assuntos políticos e sociais. Nessa altura, um grupo straight edge, os X-ATO formado em 1991 em Lisboa desempenhou um papel importante. Esta banda tocou até ao fim da década
lançando alguns álbuns, especialmente
singles e álbuns splits (entre outros com o grupo americano Ignite) e o álbum
“Harmony As One” (1995). A banda propagava nas suas letras os assuntos sociais
e da ecologia. Tocaram também fora do país (entre outros no Brasil). O
vocalista Rodrigo Barradas suicidou-se em 2005 cometeu. Como continuação da banda surgiu o grupo SANNYASIN. Porém, na época de estreia
dos X-Ato existia o grupo de Aveiro INKISIÇÃO que tocava um forte hardcore
punk.
Formado pelo dueto vocal de uma
mulher e um homem , Lena e Manuel, que se tornou bem conhecido devido aos
concertos nos ocupas de vários países na Europa, lançaram uma cassete
independente “Alternativa” (1992), um split
com os X-Ato e um split- single com os japoneses Battle Of
Disarm. Após vários anos apareceu um CD resumindo a sua atividade “1988-1995”
(2006). Nas ruínas dos Inkisição surgiu por algum tempo o grupo INTERVENZIONE que deixaram só um single e muitas demos, anosmais tarde relançadas em CD. Sob a influência dos X-Ato
e dos americanos 7 Seconds em Lisboa, em 1996 formou-se o grupo NEW WINDS. Esquerdista, envolvido no
anarquismo, no straight edge e que
tocava hardcore melódico debutou com “Seeds of Hope” (1997) para lançar mais
tarde três álbuns completos e vários lançamentos menores. Liderados por Bruno
Break (v) são bem conhecidos na Polónia devido aos concertos, mas também ao
álbum “A Spirit Filled Revolution” que lançaram na nossa editora Refuse. Das bandas ativas há vários anos e que ocupam
uma alta posição no meio harcore-punk deve ser mencionado o quinteto lisbonense
ALBERT FISH que tem tanto da
tradição street punk como da skate e hardcore.Gustavo (v), Osge (g), Danihell (g), Rattus (b) e Saavedre (bt)
deram à banda o nome de um assassino e canibal condenado à cadeira elétrica nos
anos 30. Estrearam-se com demos, em
2002 lançaram o primeiro álbum “Strongly Recomended” e mais recentemente o
segundo „News From The Front” (2009).
Tocaram muito no estrangeiro e em
Portugal junto com os Varukers, Casualities, Deadline, Klasse Kriminale e
Garotos Podres com os quais lançaram um split
single. Os Fonzie (Hugo Maia (v),
David Marques (g), Carlos Teixeira (b) e João Marques (bt) ). são outra banda
com muito êxito e um bom produto do género punk
rock exportado para fora de Portugal. Tocam um skate pop/punk melódico. São de
Lisboa, existem desde 1996 e já contam com alguns discos e numerosos concertos
não só na Europa (entre eles participação em festivais) mas também nos Estados
Unidos, Austrália e Japão. Vale a pena conhecer o seu melhor álbum "Wake
Up Call" (2004), ou "Built to Rock" (2002) gravado na Suécia com
a participação dos membros dos No Fun at All, e também "The Melo Pot"
o álbum de estreia em 1998. A formação ska punk, Humble, existe há alguns anos e segue o
caminho marcado pelos Tara Perdida e Fonzie. Levam na sua bagagem o MCD “2
Tone”(2005) e dois álbuns completos “Get Up”(2007) e “Step Into Nowhere”(2009).
Dão bastantes concertos e fizeram já a primeira parte de concertos dos NOFX e
Mad Caddies.
A partir dos anos 90, em Portugal
tocaram vários grupos, muitas vezes esquecidos. Vale a pena mencionar o grupo
Dr.Frankenstein (punk’n’roll surf com o disco lançado no ano 2000 ”The Lost Tapes From Dr.
Frankenstein’n’Lab ) ou a banda anarcopunk ACROMANIACOS(dois álbuns
–“Dietarreia”,1997 e “Oue Lete” 2000) e INJUSTICED LEAGUE(cassete “Injusticed
League”1994 e o disco “Live’95”,2004).
Desde os finais dos anos 80 até ao
ano 1997 esteve ativa a banda hardcore punk CORROSÃO CAÓTICA. Apesar de que
onda da música crust punk/grindcore era maior há uns anos atrás, nos últimos
anos movimentos extremamente porreiros também não faltam em Portugal. A banda
SUBCAOS de Lisboa, formada em 1991, é considerada a formação local mais
importante deste género. Em meados dos anos 90 a banda era muito ativa e fez
digressões na Bélgica, Holanda e Alemanha. O grupo toca ocasionalmente até aos
dias de hoje, porém alguns membros da formação inicial, formaram o grupo PORCOS
SUJOS, que já tem na bagagem alguns discos dos quais se destacam o álbum split
7´ gravado com os Hiatus e o álbum independente «Fuckin´ Row Hardcore»(1999).
Nos anos 1994-2007 existiu a banda crust RELITH que lançou duas cassetes e um
CD retrospetivo «13 Years Of Misery»(2009). Atualmente o hardcore/grand/crust é
tocado por bandas como: SPITZBUBEN, DESKARGA ETILIKA, SIMBIOSE, SEM TALENTO e
MOTU. Da velha guarda surgiu finalmente
a banda crossover TRINTA E UM que lançou três discos.
Na última década cada vez menos
grupos de música que mereçam maior atenção aparecem no mercado, mas o punk rock
clássico está bem e recomenda-se.
Desde 1998 em Lisboa existe a banda
LES BATON ROUGE (Suspiria Franklyn (v) (g); Elle W. (b), James Jacket (g) e Lex
(bt) ), quarteto composto de mulheres e homens, tocam punk rock americano inspirado nos anos 70.
Editaram alguns discos, entre eles “Woman Non-Stop” (2002), “Chloe Yurtz”
(2003) ou “My Body – The pistol” (2004) – no estúdio Elevator Music, fundado
pelo imigrante português Fernando Pinto, que edita música portuguesa. Tocaram
na Europa, fizeram uma digressão pelos Estados Unidos, e durante alguns anos
permaneceram em Berlim. No já mencionado estúdio Elevator Music foi editado o
disco “Revolution Rock” (2005) pelo grupo efémero, cujo nome, 77 diz muito,
formado pelos ex-membros do Tédio Boys e pelo veterano de Coimbra, Paulo Eno
(v). Finalmente, há algum tempo tem sido bem aclamado o trio GAZUA de Lisboa
(João (v), (g); Paulinho (b) e Corvo(bt) ), que toca punk clássico com a
propensão para o rock. Os três tocam rock há anos, especialmente João, que
passou pelos ,entre outros , os mencionados Corrosão Caótica. Os Gauza gravaram
três álbuns: “Convo-cação” (2008), “Música Pirata” (2009) e “Contra Cultural”
(2010). Os já referidos ANTI-CLOCKWISE (Pedro Coelho (v), (g), ex-Mata Ratos;
Pica (g), J.B (b) e Hugo (bt)) desde 1996 tocam música que liga street punk com
o clássico punk rock americano.
Estrearam-se com um disco chamado
“My TV World” (1999), a fim de após um intervalo causado pelas mudanças de
elementos da banda, gravar outros dois álbuns. Um deles é o mais novo e o
melhor “Love Bomb Baby” (2009). Outra banda interessante são os THE PARKINSONS que agora residem em
Inglaterra, mas a sua é Coimbra. Dirigida por Victor Torpedo (vocalista,
guitarrista) que foi o líder do grupo Tédio Boys, tocam um garage punk de 77 cheio de humor. Têm no seu
acervo o álbum “A Long Way To Nowhere” (2002). Vale a pena também assinalar a
banda de street punk CLOCKWORK BOYS
que existe desde 2004 em Lisboa. É
composta por veteranos de bandas locais e é liderada pelo vocalista Marion Cobretti. Têm duas demos lançadas juntas no CD “Arquivo Vol. 1” (2009). Tocando
uma música do grupo Aqui d’el Rock “Há que violentar o sistema”, a banda
sublinha o seu apego ao punk rock clássico nacional.
A velha guarda é representada pelo
menos em parte pelos PUNK SINATRA que é liderada pelo vocalista dos Peste e
Sida, João Pedro Almendra. Eles criam um hardcore punk rápido mas também
melodioso, e sobretudo vale a pena ouvir a sua produção mais recente que é o
álbum “À Socapa do Sistema” (2011). A banda de punk rock os DECRETO 77, da
cidade de Almada, que existe desde 2003, tem cada vez mais seguidores. Até
agora, fizeram uma demo e dois split singles, e avisam que neste ano vão
publicar o seu primeiro álbum “Getting Older, Wasting Time”. Nova banda oi! são
os FAÇÃO OPOSTA - skinhead band onde
Rattus que toca também com os Albert Fish e os Crise Total é baixista. Por
agora eles têm só um single “Skinheads” e um split CD com os Mão de Ferro
(2010). Os SKALIBANS fazem com êxito música ska/punk/reggae. É uma banda de
sete pessoas com secção de sopro. Até agora lançaram três MCD's e um álbum “Is
It Voodoo?” (2008). Por outro lado com o repertório assente no harcore clássico
nos últimos anos surgiram bandas como os TIME X, os BROKEN DISTANCE ou os
POINTING FINGER, dos quais surgiram os PRESSURE e também os NO GOOD REASON ou
por fim os REACHING HAND onde a vocalista Sofia defende a honra das raparigas
portuguesas pois há poucas no movimento hardcore/punk.
Os Killing Frost e Devil In Me são bandas já bastante conhecidas, até fora de
Portugal e a esperança docírculo musical hardcore eram,
por sua vez, os All Against TheWorld,bem conhecidosna
Polónia pelosconcertose pelo
álbum"The Furthermost", publicado pela
Spook Records.
Para terminar,
ainda algumas palavras sobre o psychobillye rockabilly português. A primeira
banda psycho foram os Cães Vadios,
do Porto entre 1985 e 1995 (David Dano (v), Guilherme Lucas (g), Oscar Q. (b) e
Carlos Moura (bt) ). Deixaram uma produção musical modesta: um single de 1987 e uma cassette intitulada “Bem Fundo”,
lançada na França em 1992. Entre 1989 e 2000 existiu em
Coimbra a banda Tédio Boys que
gostava de dar concertos obscenos, onde muitas vezes atuavam nus ou encharcados
em tinta vermelha... Estrearam-se com o álbum “Porkabilly Psychosis” em 1994
para lançar depois mais doisbons
álbuns “Bad Trip” (1998) e “Outer Space Shit” (2000). Com a sua reativação, lançaram
o disco “Pussynest” (2008) gravadodurante a digressãonos EUA (organizada pela já mencionada editora Elevator Music). O
terceiro grupo de psychobilly surge em 1988, os Capitão Fantasma de Lisboa.
Banda liderada por Jorge Bruto (v)
estreou-se pela Polygram com o álbum “Hu Ua Ua” (1992) que ganhou muita popularidade. Mais tarde,
o grupo realizou ainda dois álbuns: “Contos Do Imaginárioe do Bizarro” (1996), gravado no In Heaven Studios em
Londres com a ajuda de P.P. Fenecha dos The Meteors e outro, lançado depois de
um intervalo “Viva Cadáver” (2007). Mas a banda
rockabilly mais importante nos últimos anos são os TEXABILLY ROCKETS de Lisboa, que existe desde 1993 e que tem já
alguns discos. Quanto aohorror punk, é sobretudo THE TRAUMATICA, bandaque durou pouco e deixou o CD “Classic
Horror Lives”.
Resumindo trinta anos de punk rock
em Portugal, pode-se observar que a cena musical local começou lentamente, mas
com o tempo lançou algumas bandas que merecem ser conhecidas. Apesar do punk
português e estilos próximos nunca desempenharam o papel de liderança à escala
da Europa, não se poderia deixar passar algumas bandas locais. Hoje em dia, quando
o acesso à Internet não é um problema e são possíveis vários contatos , o que mostra
mesmo a cena hardcore, estes podem resultar em concertos e até em lançamento
das bandas portuguesas na Polónia.
Sopel
Reportagem publicada na revista polaca Garaż, nº 30, abril de 2012
Tradução: Monika Czarkowska-Guziuk,
Aleksandra Dudziak, Paulina Flasińska, Michał Hułyk, Magdalena Jóźwik, Weronika
Kazanowska, Joanna Kida, Katarzyna Kłodnicka, Marcin Krawczyk, Weronika
Kucharuk, Katarzyna Kuczyńska, Mariola Kur, Monika Lisik, Estera Małek,
Malgorzata Marciniec, Agnieszka Miciula, Paulina Pałyska, Patrycja Pawęska,
Karolina Sieńko-Flis, Mariola Soboń, Natalia Trzebuniak, Ewelina Witkowska e
Paulina Zajglic (Filologia Ibérica 2010/2013)
(1) NR:Fanzine polaco que surgiu em 1985 em pleno regime comunista. Foi publicado até 1999