terça-feira, 29 de abril de 2014

Em busca do amor perdido (2)

À sombra das garotas de Ipanema 


Curitiba
Na realidade, Salvador foi a primeira capital do Brasil, mas para mim sempre foi Curitiba. Tal como Turim, a primeira capital da Itália, ou Munique, a capital inicial alemã. Toda esta confusão por causa da minha paixão pelo futebol. Na década de 90 os meus professores de Geografia eram os jornais, revistas, programas de rádio e televisão desportivos. Visto que a Juventus reinava nessa altura na Península Itálica e o Bayern permanecia a melhor equipa da Alemanha (cujos planos de supremacia tenta hoje em dia frustrar o magnífico Borussia), as cidades de origem destes clubes  eram, de acordo com a minha política topográfica, as mais importantes dos seus países. Berlim com a sua história de alguma muro e Roma que abrigava os lobos e o Papamobile não me interessavam tanto.
Não faço ideia se o Atlético Paranaense estava nesse tempo entre as melhores equipas do país, mas a chegada ao clube do jogador polaco Mariusz Piekarski fez com que a capital do Paraná fosse proclamada no meu atlas a capital do Brasil. Um pouco mais tarde as fotos das meninas vestidas ou não na praia que vi pelo chamado “acaso” (e não a transferência de Piekarski para o Flamengo) decidiram que o Rio de Janeiro ganhou o título do espaço mais destacado no mapa da antiga colónia portuguesa e essencial para todo o hemisfério Sul.
Passaram mais que 15 anos. Desde então as minhas paixões não mudaram visivelmente, mas muitas circunstâncias curiosas estabeleceram o Brasil como mais que só “um lugar” numa folha de papel. Um encorajamento para visitar Curitiba surgiu por parte do indivíduo que uma vez já foi o protagonista de um artigo neste blogue. O Willian revelou-se um homem verdadeiro que além de um perfil no Facebook tem uma alma e uma família e o “evento” a que nos convida factualmente existe. A oferta dele marcou Curitiba como número dois no roteiro da nossa tournée.

No decorrer da estada de três dias, iniciada pela imprevista noite passada no aeroporto de Porto Alegre (e dedicada, claro, à leitura), tivemos o privilégio de dar uma olhada durante o trajeto do ônibus turístico nos pontos como o Jardim Botânico, o Museu Oscar Niemeyer ou a Torre Panorâmica com numerosos estímulos fotográficos.



Em Curitiba encontrei o meu tipo preferido de estabelecimentos comerciais, os sebos, isto é, livrarias onde se compram e vendem livros, revistas, discos usados. Um paraíso cujas fronteiras são as limitações da bagagem de avião. No entanto, não recordar Curitiba por causa do turismo. Os destaques destes dias foram com certeza os jantares com os parentes da Kasia , o Willian e a sua família 

e com a família do seu amigo Everton ,

todos muito acolhedores, curiosos sobre a Polónia, pois ligados com o país distante. Foram eles que levaram a que por pouco tempo nos sentíssemos em casa a 12 mil quilómetros da pátria. Nos guias diz-se muito sobre os lugares, arquitetura, clima das cidades, mas não se tem em conta as pessoas com quem se viaja ou quem se visita. Para mim, este constitui o elemento decisivo para o êxito de cada viagem. Neste caso a variável saiu favorável. Mas as mesmas pessoas que tinham sido responsáveis por este sucesso, suprimiram um pouco o nosso entusiasmo, avisando-nos que o Rio de Janeiro, o nosso destino seguinte, não seria tão hospitaleiro para os turistas da Europa.
Rio de Janeiro
No espaço da minha adolescência a capital do Brasil mudou. O que não mudou tão drasticamente foi a minha fisionomia. Então, depois da vinda ao Rio os empregados do serviço de táxi notaram com facilidade que o homem com quem estavam a falar não parecia um carioca de jeito nenhum. Eles pressentiram uma oportunidade de fazer o negócio da China e tentaram cobrar pelo percurso do aeroporto para o centro o dobro da tarifa normal. Neste cenário negro ajudou-nos o conselho do Willian que já tinha experimentado o “acolhimento” carioca, avisou-nos da prática e poupamos 50 reais.
O contacto com o centro da metrópole poucas horas depois dececionou-me. Um montão de gente, ruas sujas e barulho inimaginável empacotado com o calor insuportável. Felizmente, a primeira impressão não permaneceu por muito tempo. A Cidade Maravilhosa prometeu-nos muitas outras atrações, entre elas o monumento do Cristo Redentor ou a vista do Pão de Açúcar. Não é de estranhar, porém, que na nossa lista de prioridades na primeira posição figurava sempre o nome nobre da caipirinha. Afinal, somos da Polónia. A ingestão da especialidade provocou os resultados inesperados, nomeadamente a participação no desfile de samba acabada prematuramente pela atividade elevada da bexiga. Estranhamente, a(s) caipirinha(s) afeta(m) obviamente ao mesmo tempo a competência de contar e o senso de orientação e, por consequência, prolongam bastante o caminho para a casa. 



Esta “aventura” não me impediu de retratar a beleza natural do Rio e a minha própria.
Apesar de todas as paisagens gostosas, o ponto que me emocionou mais foi, sem dúvida, a obra de mãos humanas, talvez a mais importante construção do Brasil neste ano: o Maracanã. A visita ao Rio coincidiu com a última rodada do campeonato brasileiro de futebol. 

Devido a esse facto, pude assistir ao enfrentamento do Botafogo com o Criciúma. Preferiria estar lá no dia da final da Copa do Mundo em julho, claro, mas a cavalo dado não se olha o dente. Não só o Rio tem a vantagem de localização pitoresca. O interesse pela filosofia de um dos mais influentes arquitetos dos nossos tempos, Oscar Niemeyer, recordado em Curitiba atraiu-me a Niterói, outra cidade belíssima, situada no outro lado da Baía de Guanabara. 

O cruzeiro de barco, especialmente num dia quente, é uma experiência imensamente agradável. Niterói abriga muitas construções projetadas por Niemeyer. 

Entre elas a mais famosa, semelhante a um OVNI, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Nessa época ainda não tinha consciência de que o nosso último destino comum antes de a Kasia voltar para a Polónia, São Paulo, se ia tornar a minha casa brasileira espiritual.

Bartosz Suchecki
3º ano de estudos portugueses

NR: Para ler a primeira parte da crónica siga a ligação: Em busca do amor perdido (1)

domingo, 27 de abril de 2014

Morreu Vasco Graça Moura (1942-2014)

Morreu hoje em Lisboa, Vasco Graça Moura, uma das vozes mais críticas do novo acordo ortográfico. Um dos nomes grandes da língua portuguesa e da lusofonia foi poeta, ensaísta, romancista, tradutor, deputado, secretário de estado e desde 2012 era presidente do Centro Cultural de Belém. A sua poesia é cantada por algumas das grandes vozes do fado, como Carminho, no álbum Alma.




Talvez

Vasco Graça Moura / Mário Pacheco

Talvez digas um dia o que me queres,

Talvez não queiras afinal dizê-lo,
Talvez passes a mão no meu cabelo,
Talvez não pense em ti talvez me esperes.

Talvez, sendo isto assim, fosse melhor,

Falhar-se o nosso encontro por um triz,
Talvez não me afagasses como eu quis,
Talvez não nos soubéssemos de cor.

Mas não sei bem, respostas não mas dês.

Vivo só de murmúrios repetidos, 
De enganos de alma e fome dos sentidos,
Talvez seja cruel, talvez, talvez.

Se nada dás, porém, nada te dou

Neste vaivém que sempre nos sustenta,
E se a própria saudade nos inventa,
Não sei talvez quem és mas sei quem sou.

Biografia de Vasco Graça Moura no Portal do Fado:
Vasco Graça Moura

sexta-feira, 25 de abril de 2014

40 anos de liberdade - 25 de abril sempre!!!

A Hora da Liberdade (1999) Ficção documental da autoria de Emidio Rangel, Rodrigo Sousa e Castro e Joana Pontes. Emitido pela SIC na comemoração dos 25º aniversário da revolução.


"Portugal 74-75" - O retrato do 25 de abril (1994) Documentário da RTP da autoria de Joaquim Furtado, José Solano de Almeida, Cesário Borga e Isabel Silva Costa. 


25 de abril- Uma aventura para a democracia (2000) Documentário de Edgar Pêra com base nos arquivos do 25 de abril. 





quinta-feira, 24 de abril de 2014

Quim Barreiros, o génio da letra

A Polónia tem Bracia Figo Fagot, Espanha tem Leonardo Dantés, Portugal tem Quim Barreiros. Cada um tem o seu. Mas isso não significa que todos sejam iguais. Pois é, Quim Barreiros é único. O artista minhoto já de pequeno estava ligado ao mundo de música. Aos oito anos começou a aprender a tocar acordeão. Um ano depois já fazia parte da banda do seu pai chamada Conjunto Alegria em que tocava bateria. Fazendo parte de vários grupos folclóricos, despertou então o seu interesse pela música popular e folclórica.  Mas o pequeno Quim demorou 15 anos para demonstrar a todo o mundo os seus grandes dotes musicais.  Nos anos 1968-74 cumpriu o serviço militar ao serviço da Força Aérea Portuguesa, em que tocava na famosa Banda da Força Aérea. O serviço militar não o impediu de desenvolver a sua paixão musical. Naquela altura mudou-se para Lisboa onde teve oportunidade de atuar nas principais casas de fado e restaurantes típicos. Fez então muitas amizades, com o famoso guitarrista Jorge Fonte, entre outras, que depois tiveram muita influência na sua carreira. Com o lançamento do seu primeiro disco (em 1971) começou um novo capítulo na música universal.  Já nada era igual. Surgiu um novo ponto de referência. O músico batia às portas da fama...
Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros, pois este é o seu nome completo, é um artista muito fértil. No entanto, os primeiros vinte anos da sua carreira não anunciavam esta multiplicidade artística. O cantor lançou então três álbuns por década o que não ultrapassava a norma dos músicos daquele tempo. Mas com a chegada dos anos noventa começou em pleno a era do King Barreiros que continua até aos dias de hoje. O artista passou a lançar até três CDs por ano.
A sua música tem a força que une todas as gerações. Ele está presente nos palcos durante festas folclóricas, mas também a sua presença é obrigatória nas Queimas das Fitas. O seu público é bem diversificado mas ouve a sua música com o mesmo objetivo: à procura da alegria. Quim Barreiros atuou em quase todos os países onde existem comunidades portuguesas, tais como o Canadá, E.U.A., Venezuela, Brasil, Bermudas, África do Sul, Namíbia, Austrália, Espanha, França, Suíça, Bélgica, Alemanha, Andorra, Inglaterra, e muitos mais, sendo assim uma espécie de embaixador da música popular no estrangeiro. O seu caminho para o sucesso foi marcado por muitos sacrifícios. Numa entrevista o artista confessou que no princípio da sua carreira não tinha grande apoio por parte dos seus próximos. Ao mudar-se para a capital, mudou tudo. Sem dúvida, grande parte do seu sucesso deve-se à sua humildade e honestidade. Ao longo destes anos foi fiel ao provérbio “devagar se vai ao longe”.
A música portuguesa, por razões óbvias, associa-se com sentimentos de nostalgia, tristeza, saudade. Há muito poucas canções que sejam verdadeiramente alegres. Isso mesmo se reflete em cada composição de Quim Barreiros. A sua grande figura indica-nos o caminho de alegria. Diz-se que a música pimba são letras de duplo sentido. Acho que Quim Barreiros até acrescentou mais um. Pois ele faz também uma análise profunda dos seus compatriotas. As suas canções estão cheias de referências simbológicas. À primeira vista salta o contexto principal, ou seja, a cara grosseira da letra. Mas ao aprofundarmos na leitura (ou audição) das canções do Quim Barreiros podemos encontrar outra mensagem contida. Isso mesmo, há que ler nas entrelinhas.

Uma das suas canções mais conhecidas (aliás, é o tema adotado dum cantor brasileiro) é a esplêndida Garagem da Vizinha. É a composição auge na obra do Quim Barreiros em que conseguiu juntar um sem-número das qualidades dos portugueses. Já na primeira estrofe o autor refere-se à bondade do povo português. Falando da sua vizinha que lhe ofereceu a sua garagem destaca a solidariedade da sociedade que estende a sua mão aos que necessitam ajuda. A magnanimidade do sujeito lírico é inegável. Ela é uma personificação da beleza o que corresponde perfeitamente à imagem da mulher portuguesa. Quim Barreiros faz aqui também uma descrição da sociedade que tem de enfrentar as dificuldades do dia a dia, tais como a garagem pequena que apenas chega para caber um carro. Além disso, o autor aborda a questão da confiança ilimitada e hospitalidade que os portugueses mostram perante os outros que é exprimida no refrão: Ponho o carro, tiro o carro, há hora que eu quiser! Em contrapartida, há que sublinhar que o cantor não conseguiu fugir do tópico da solidão, pois, a vizinha está morando sozinha. É ,se calhar, a influência de fadistas com quem Quim Barreiros costuma tirar fotos.
Outra canção que mostra o lado solidário da sociedade é Vou Comer C´os Velhos. É uma descrição de diferenças geracionais onde Quim Barreiros é uma espécie de intermediário entre os jovens e velhos. O artista sente, portanto a necessidade do diálogo entre ambas as gerações, considerando-o imprescindível para o futuro da nação.
Outro tema de destaque na obra do Quim Barreiros é a cozinha portuguesa. Na canção Bacalhau à Portuguesa a influência da gastronomia nacional é bem evidente. O artista presta homenagem ao peixe-rei exaltando as suas maravilhosas qualidades. Como é sabido, existe um sem-número de maneiras de preparar bacalhau. Não há duas que sejam iguais. Cada mulher confecionando-o dissipa o cheiro do seu prato pela sua casa. Então cada cidadão quer prová-lo. É como na canção onde todos estão ansiosos por cheirar o bacalhau da Maria. Temos aqui uma imagem da sociedade portuguesa em que a cozinha tradicional ocupa uma posição central. Nas palavras Diz-me se é da Noruega ou aqui de Portugal o autor realça a abertura dos portugueses para os estrangeiros, isto é, um aspeto associado sempre ao povo lusitano.
A canção com o título um bocado erróneo que é Chupa Teresa! também desenvolve o tema relacionado em parte com a gastronomia. À primeira vista as coisas parecem ser evidentes, mas muitas vezes, as aparências iludem...O artista mostrou de novo a sua excelência de uso de palavra e conseguiu conter na letra uma mensagem escondida. É uma história de um vendedor de gelados. O cantor relembra que comer fruta faz parte duma alimentação saudável. A resposta da sociedade é muito boa, pois As garotas do meu bairro vêm todas chupar aqui!
Quim Barreiros serve-se das suas canções também para homenagear algumas profissões, como é no caso de Ser Bombeiro ou Padeiro. Apesar de serem atividades mal pagas, a sociedade dá mostras de muito respeito perante as pessoas que as exercem. O autor fala das dificuldades que têm de enfrentar trabalhando de noite ou como voluntários.
Para além das tradições e caraterísticas dos portugueses, mostra uma grande preocupação pelos problemas sociais. Na canção Qual é o melhor dia p´ra casar o artista aborda a questão da baixa taxa da natalidade. Aproveitando os seus dotes e autoridade tenta despertar no povo português o sentido de dever. A mensagem transmitida é esta: quanto mais matrimónios, mais crianças. O autor fala também da grande força do amor e que nem falta o consentimento dos pais para ganhá-lo. É simplesmente imparável.
Os grandes acontecimentos históricos de Portugal também não passaram despercebidos pelo artista. Uma Virgem refere-se obviamente ao Milagre de Fátima. É um relato feito por um dos pastores que eram testemunhas da maravilhosa aparição. Ao ver a Virgem ele ficou quedo e mudo, o que prova a atividade de forças sobrenaturais.
Outro acontecimento de muita relevância é a famosa exposição internacional eternizada na canção Marcha da Expo´98. O músico mostra o seu orgulho pelo país relembrando a era dos Descobrimentos e a beleza de Lisboa. É um tipo de ode ao louvor de Portugal. Evidencia o lado muito patriótico do cantor.
É de destacar que ao longo da sua carreira, Quim Barreiros nunca mudou da sua imagem (com a exceção dos tempos do primeiro disco quando aparecia sem bigode). Parece que é resistente ao passar do tempo o que atribui à sua música um cunho de eternidade. No entanto, a imagem da música pimba mudou bastante. Nos últimos anos surgiram grupos como Homens da Luta que também se enquadra nesta vertente musical. Mas parece que o único vínculo entre ambos os artistas é a referência musical. Quanto às letras, a situação é bem diferente. Enquanto Quim Barreiros consegue fugir consequentemente da política nas suas canções, os Homens da Luta servem-se dela como de um poço infinito de ideias. Mas julgo que o seu objetivo não é tanto dar alegria ao público, mas servir como alívio na época da crise. Há quem diga que a música de Quim Barreiros é para malta “rasca”, mas acho que o seu contributo para a promoção da cultura e tradição portuguesas mascara todas as suas imperfeições. Sendo um artista arraigado profundamente na sua sociedade e dedicado inteiramente ao povo, sem sombra de dúvida, merece um grande respeito.

Pawel Nowak
1º ano mestrado em Estudos Portugueses

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Em busca do amor perdido (1)


No caminho de Tieta
Porto Alegre
Há quase dois anos saí da Polónia para passar um semestre de estudos em Portugal. O voo para Lisboa marcou na minha vida um momento em que a atitude com que eu abordava a língua mudou. Foi como se o português fosse um monumento que de repente ganhasse vida. Conheci alguns portugueses, provei alguns pratos típicos, visitei alguns lugares históricos e ainda queria mais. Essa cobiça, esquecendo por um instante a própria língua, conduziu-me no ano seguinte ao Brasil. O Erasmus no extremo ocidental da Europa não deixou muito a desejar. Só lamentei não ter viajado mais. Em Portugal, um país pequeninho em comparação com o Brasil faltou-me a vontade. Por isso, desta vez, apesar de distâncias muito mais longas, decidi e consegui ver mais. Não amansou a fome. Já sei que tenho de voltar lá. Posso enumerar dezenas de sítios no Brasil que gostaria de explorar um dia. 
Porto Alegre, a minha primeira localidade na Terra Brasilis, não faz parte desta categoria. Eu acredito que é um lugar ótimo e que tem muito a oferecer, mas vou lembrá-la como a cidade das greves, taxistas-vigaristas, pousadas barulhentas, noites no aeroporto, estações apinhadas de gente e prostitutas (pela ordem de mais a menos irritantes). Talvez seja uma visão injusta, mas, infelizmente, esta é uma impressão subjetiva que não me deixou até ao fim. A única coisa de valor sentimental que troxe da capital gaúcha foi um disco de vinil com a banda sonora da série Tieta comprado por 2 reais. Larguei ali muito mais, sobretudo dinheiro e os nervos.

Sul (Ijuí e arredores, Passo Fundo e Florianópolis)
Chegada a Ijuí, uma cidade de 80 mil habitantes, não me pôde surpreender. Eu sabia antes o que esperar. Apesar disso, o choque com a nova realidade foi doloroso. Levou-me muito tempo acostumar-me à sesta do meio-dia, mas o problema mais perturbador foi, sem dúvida, o frio. As temperaturas por volta dos zero graus de noite esfriavam bastante a casa privada de aquecimento. Portanto, os meses de julho e agosto foram a prova verdadeira do sistema imunitário. A constipação mantinha-se um estado perene do meu organismo. Podia, claro, usar os produtos polacos, como vodka Sobieski promovida no Brasil pelo ator americano Bruce Willis, para esquentar-me, mas queria adaptar-me à realidade brasileira e o meu pensamento concentrava-se na cachaça. 


Em Ijuí não encontrei atrações turísticas típicas. Na verdade, toda a Região das Missões e os arredores não oferecem muito para turistas preguiçosos. Para apreciar os valores da área é preciso mergulhar na história da colonização. Ijuí, por exemplo, é uma terra de pelo menos 11 etnias que cultivam a tradição dos seus ancestrais e exibem-na todos os anos na feira Expo Ijuí Fenadi. Com o propósito de avaliar melhor a região, eu e a minha corajosa parceira Kasia aproveitámos a hospitalidade das pessoas ligadas de qualquer jeito com a Polónia. A Marli, a Irene e o Claudio da etnia polaca apresentaram-nos a vida da comunidade. Com a professora Marli, por exemplo, ensinámos às crianças na escola IMEAB um pouco da cultura e língua polaca.



Os intercambistas: o Diovan (que esteve em Lublin no ano passado) e o Pietro (que agora mesmo acaba a sua estada na Polónia)[1] possibilitaram-nos conhecer não só as cidades onde eles moram (respetivamente: Santo Augusto e Santa Rosa), mas também as famílias e os amigos deles.


Durante a minha curta permanência em Tenente Portela com o Diovan tornou-se claro que os vestígios polacos não se limitam a Ijuí.



Por outro lado, a professora Natalia Klidzio, que passou as férias no Brasil, mostrou-nos a cidade de Santo Ângelo (um dos Sete Povos das Missões) e familiarizou-nos com a cultura gaúcha, especificamente com a sua parte musical no Festival do Canto Missioneiro.


No fim de agosto, fomos por iniciativa dela a Passo Fundo, onde assistimos à palestra da Professora Doutora Barbara Hlibowicka proferida na 15ª Jornada Nacional de Literatura.


Além desses eventos, o quotidiano revelou-se mais agradável do que os começos sugeriram. A experiência universitária foi frutífera. Aprimorei as minhas competências linguísticas escrevendo nas aulas dos professores Lisandra e Márcio textos jornalísticos e participei na criação e manutenção do projeto Redação K1 com o professor Felipe.

Em casa os problemas não faltavam, mas consegui resolver os mais importantes .

A melhora do tempo fortaleceu a nossa vontade de verificar outro lado do Brasil, este do cartão-postal. Por conseguinte, em meados de novembro aproveitámos o dia da Proclamação da República, fizemos ponte e visitámos a capital do estado vizinho – Florianópolis em Santa Catarina. A viagem de ônibus (autocarro) foi longa (15 horas a de ida e 12 a de volta) e cansativa, mas gratificante. As praias e as paisagens bonitas recompensaram a fadiga.

Devido à recomendação da autoridade encontrada numa das ruas da ilha, a primeira viagem não continuou como única por muito tempo.

(continua)...

Bartosz Suchecki
3º ano de Estudos Portugueses


[1] Esta crónica foi escrita em janeiro 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Punk rock exótico. História do punk em Portugal.

 Todos os punks e até as pessoas com menor interesse pela música punk conhecem as raízes deste movimento nos Estados Unidos, na Inglaterra e com certeza na Polónia. É verdade que a cena norte-americana e inglesa estabeleceram os fundamentos deste estilo e influenciaram o desenvolvimento da revolução punk e da sua criação principal pelo mundo inteiro, a música. Vale a pena recuar duas décadas e investigar como se formou e desenvolveu o punk nos países menos conhecidos. Todas as partes do mundo têm as suas particularidades, problemas diferentes e as pessoas têm o temperamento, a língua e os costumes bem diferentes. Em vários zines podemos encontrar com frequência relatórios sobre a situação atual do punk nos países considerados por nós exóticos, mas faltam pelo menos pequenas referências do passado. Uma vez que a história ensina então devemos conhecer a tradição deste género. Sendo assim vale a pena que nesta série encontremos um espaço para países tão interessantes como a Finlândia, a Itália, o Brasil, a Espanha, a Jugoslávia, a Austrália, a Noruega, a França...Já visitamos muitos deles portanto agora é o momento para a expedição seguinte...a Portugal!
  Portugal, pais de 10 milhões situado na extremidade ocidental da Europa, da perspetiva polaca parece distante e exótico mas é porém bastante bem conhecido. Os amantes de história conhecem bem o papel de Portugal nos descobrimentos geográficos e depois na conquista das terras antes desconhecidas, outros olham para ali em busca de sol e descanso. Para outros é simplesmente a pátria do vinho do Porto e os adeptos de futebol apreciam a classe das equipas portuguesas. Mas o punk rock português é ainda uma incógnita e, além de alguns exemplos contemporâneos, na Polónia a sua história é completamente desconhecida. De algum modo é compreensível por causa do longo isolamento do país, do pequeno tamanho do mercado português ou simplesmente do seu potencial que não é muito grande. Mas acho que vale a pena no 15º capítulo de Punk Rock Exótico olhar um pouco também para esse país. Tanto mais que desde o relatório parcial sobre Portugal no número 12 de Qqryq (1)de 1988, não se escreveu muito sobre aquele país.
A aparição do punk rock em Portugal foi procedida de uma época de transições sócio-políticas. Depois dos anos da ditadura e isolamento do país, em 1974 teve lugar um golpe de estado a chamada Revolução dos Cravos, um golpe pacífico, seguido de um período de desenvolvimento bastante estável do país. No entanto Portugal teve de enfrentar-se com a queda do seu Império Colonial, reformar o estado, limitar a influência da igreja e apostar em criar uma sociedade moderna. Isso teve êxito apenas desde meados da década de 80, sobretudo desde 1986 – o momento da entrada na União Europeia. Tal como o desenvolvimento do país, ao mesmo tempo mudava o rock local – nos meados da década de 70 dominava o pop nativo de raízes folclóricas e então apareceu a primeira onda de bandas de blues e de hard rock como Petrus, Saga, Heavy Band e Tantra. A primeira banda que optou, embora ainda timidamente, pelo caminho da rebelião musical em Portugal foi o grupo Aqui d’el Rock, influenciado pela obra dos The Stooges e das primeiras bandas punk portuguesas. O grupo foi formado em Lisboa em 1977 e era composto pelo vocalista Oscar Martins, o guitarrista Alfredo Marvão, o baixista Fernando Gonçalves e o baterista Carlos Serra. Alguns deles já tinham começado a sua aventura musical como membros da banda hard rock Osiris. Marvão, o mais velho dos músicos, licenciou-se naquela altura em filosofia enquanto os seus companheiros ainda estavam a estudar. Os Aqui d’el Rock deram o seu primeiro grande concerto em julho de 1978 quando abriram o concerto dos Eddie & The Hot Rods. A banda logrou dar uns 30 concertos no total até à sua dissolução em 1981 e deixou dois singles intitulados ‘Há que violentar o Sistema´(1978) e ´Eu não sei´ (1979), lançados pela editora independente Metro-Som. As quatro faixas da banda foram reeditadas juntas em vinil pela editora italiana Rave Up em 2006.

O aparecimento dos Aqui d’el Rock foi o fenómeno crucial, embora não tenha atingido um nível de popularidade que fosse comparável ao dos Sex Pistols na Grã- Bretanha, ou ao dos Ramones nos Estados Unidos. Apesar da banda gozar de popularidade exclusivamente em Lisboa, houve quem continuasse pelo mesmo caminho estilístico.  Apareceram então bandas novas e, além delas, algumas personagens importantes, tais como o recém falecido promotor do punk rock António Sérgio, jornalista de rádio que publicava ilegalmente gravações das primeiras bandas punk estrangeiras, sobretudo da Inglaterra. No momento da estreia dos Aqui d’el Rock, ainda não se podia falar  de um movimento punk em Portugal e, tal como na Polónia , a nova música tinha pouca audiência. Também as editoras locais ainda não estavam preparadas para promover o punk rock.  Foi neste contexto que a primeira editora independente foi fundada em 1976, mas... em Londres, por Rui de Castro que também enquanto emigrante, liderou a sua banda The Warm, e após alguns anos voltou  à terra natal. No final dos anos 70 além dos Aqui d’el Rock surgiram outros grupos inspirados pelo punk e new wave. Um deles foram Os Faíscas, de Lisboa nos anos 1978-79. Apesar de não terem deixado gravações, em Portugal têm o estatuto lendário, devido ao facto que lá se estrearam os membros de bandas posteriormente famosas como Xutos & Pontapés, Street Kids ou Corpo Diplomático. Ainda menos conseguiram os Minas & Armadilhas, da mesma altura e que tocavam principalmente covers com as letras do vocalista Paulo Borges. Enquanto isso, os acima mencionados Corpo Diplomático lançaram, graças ao apoio do Antonio Sérgio, o primeiro álbum português de new wave, Música moderna (1979), uma combinação dos sons do punk, new wave e pub rock com elementos psicadélicos. É significativo que nesse tempo os jovens de Portugal não sentiam a necessidade de punk rock radical e realmente não entendiam o propósito da mensagem agressiva, da aparência nem das letras chocantes. Para a maioria das pessoas depois do período de isolamento do país e da inatividade musical a própria liberdade de criar e a liberdade de expressão eram suficientes. Assim até 1982 havia poucos grupos estritamente só de música punk rock. A maioria das que saíram do anonimato orientou-se rapidamente para a música new wave mais suave e que seria mais aceitável pelo público e pelas editoras. Curiosamente no “fraterno” Brasil, no início dos anos 80 a cena punk era muito mais radical. Os contactos mútuos relacionados com a música underground eram mínimos e desenvolveram-se apenas na segunda metade da década graças aos contactos do grupo Mata Ratos com os brasileiros Garotos Podres.Voltando à música new wave rock em Portugal do início dos anos 80 falta recordar algumas bandas. Vale a pena mencionar os STREET KIDS que tocavam música power pop/new wave liderados pelo Emanuel Ramalho (ex-Faíscas). Gravaram quatro singles nos anos 1980-1982 e o álbum “Trauma” (1982). Um outro grupo chamado Opinião Pública fazia música power pop/mod (um single no ano 1981 e um vinil “No Sul da Europa”, 1982), e até apareceram num dos volumes da coletânea internacional pirata “Powerpearls”. Convém enumerar também a banda de punk’n’roll Vodka Laranja (o único single “O Papel”de 1980), os Ferro & Fogo, uma banda bastante boa que juntava punk/new wave com hard rock e rhythm’n’blues (dois singles de 1981 e o álbum “Vidas”de 1982), os Speeds, banda de punk e de rhythm’n’blues com dois singles de 1980 e que cantam em inglês como os  Street Kids. A banda Tilt de punk’n’rock e de new wave editou dois singles e um mini LP “Ideias” (1982). Os Pizolizo tocavam rock’n’roll com os elementos de punk (um single de 1980), foi uma banda bastante interessante porque tinha dois baixistas. Enquanto o grupo TNT estava mais na onda new wave/mod ( três singles de 1981-1983). Os Jáfumega (single e LP de 1982) e os Ananga Ranga tocavam new wave interessante, ambos com teclados e saxofone. Por outro lado os Xeque-Mate foram uma banda de hard rock, cujo single inicial de 1981 foi  um pouco influenciado pelo punk. Mais tarde esta banda converteu-se na pioneira do heavy metal português (álbum “Em Nome do Pai, do Filho e do Rock’n’Roll, 1985). O grupo Taxi (João Grande (v), Henrique Oliveira (g), Rui Taborda (b), Rodrigo Freitas (bt) ) do Porto conseguiram sem dúvida a maior popularidade nesta geração. Eles animaram a cena portuguesa com os ritmos ska combinados com elementos punk, mod e pop. Venderam-se 70000 exemplares do seu primeiro single “Chiclete” e do álbum “Taxi” editado pelo Polygram (1981), o que para Portugal foi uma quantidade enorme. Em 1981 estando no auge da popularidade abriram o concerto dos The Clash em Lisboa. No entanto os seus álbuns seguintes, apesar de serem populares, foram piores e de pop pura.

  Os novos grupos podiam contar com o forte apoio da Metro-Som, talvez a primeira editora discográfica independente de música rock em Portugal, e do clube lisboeta Rock Rendez-Vous, no qual se organizavam festivais cíclicos que tinham forma de concursos. A cena new wave precoce é bem representado pela coletânea de singles dos anos 1979-82 editados pela Metro-Som, intitulado “Grande Geração do Rock” (1997). Por sua vez, dada a escassez de bandas punk clássicas e o reduzido número de gravações, nunca apareceu nenhum disco da serie “Bloodstains Across...”, nem sequer há representantes de Portugal na coletânea de culto “World Class Punk” (1984).
A maioria das primeiras bandas punk e new wave durou só alguns anos, chegando no máximo a lançar um single ou, raras vezes, um álbum. Duas das bandas que se estrearam naquela altura duraram porém anos e são grupos rock populares. A primeira são os XUTOS & PONTAPÉS, formada em Lisboa no final do ano 1978. No início, a banda estava relacionada com os Aqui d’el Rock, com os quais dava concertos. A primeira formação contava com Zé Leonel (v), Zé Pedro (g), Tim (b) e Kalú (bt). Mais tarde, depois da saída do Zé Leonel (morreu de cancro, em 2011), Tim, além de tocar baixo, começou a cantar e juntou-se a eles um segundo guitarrista, Francis. Inicialmente procuraram o seu próprio estilo, sem conseguir decidir-se pelo punk rock e depois, com o tempo, optaram por um estilo mais rock. Estrearam-se só no ano 1981 com o single “Sémen” e com o álbum “78-82” (1982), mas depois recuperaram os anos perdidos e editaram mais dez álbuns, entre os quais vale a pena ouvir “Circo de Feras” (1987) ou “Gritos Mudos” (1990) que contêm rock com elementos punk.  Existem até hoje e são uma banda apreciada. A música deles foi usada em filmes, mesmo num musical. No 30º aniversário do grupo foram nomeados para a “melhor’’ banda de rock em Portugal. O segundo grupo inspirado pelo punk rock que começou no underground e com o decurso do tempo ficou muito famoso, foram os UHF. Criados no ano 1978 em Almada, perto de Lisboa, formados por António Ribeiro (v), Renato Gomes (g), Carlos Peres (b) e Zé Carvalho (b). Estrearam-se pela Metro-Som com o single “Jorge Morreu” (1979). Esta canção teve muito êxito e provocou uma onda de choque mesmo no ambiente do rock, porque foi a primeira no país que criticou de maneira tão determinada a morte causada pelas drogas. A toxicodependência era nesta época um enorme problema, e tanto para o governo, como para o mundo musical – um tema tabu. Depois dos singles seguintes bastante bons, como  “Cavalos de Corrida” (1980), “Rua do Carmo”, e o álbum “À Flor da Pele” (1981), o grupo começou a gravar para a EMI. Lançaram mais de uma dúzia de álbuns e existem até hoje.

  O início dos anos 80 em Portugal é a época da formação praticamente do zero da música rock. O punk era uma parte, mas realmente ainda faltavam lá os grupos estritamente punk, conscientes, empenhados e tocando música agressiva. Só a partir de 1982, quando os ecos da segunda onda do punk europeu e hardcore americano chegaram lá, lentamente começaram a surgir novas bandas, mais intransigentes, que cantavam com mais coragem sobre a política, que atuavam contra o sistema, costumes conservadores, a Igreja e, um tema muito delicado em Portugal e um peso na sua história , a questão do colonialismo. Finalmente, surgiram os primeiros fanzines como “Subúrbios” de Lisboa ou “Cadáver Esquisito” do Porto, este relacionado com a rádio pirata “Radio Caos”. Começou também a circular o jornal de música “Blitz”. A banda mais importante formada naquele período foi os MATA-RATOS formada em 1982 em Oeiras, nos subúrbios de Lisboa e existe até hoje. A formação original incluía: Jorge Leal (voc.), Pedro Coelho (g), Pinela (b) e Jorge Cristina (bt).  Em 1988 surgem com uma nova formação: Miguel Newton (voc.), Coelho (g), Cascão (b) e Jó (bt). Durante os anos 80, a banda e os seus seguidores vagueavam pelas ruas de Lisboa, restringindo-se a dar concertos esporádicos (p.ex. em 1985 no festival “Rock Rendez-Vous“), em 1987 gravaram as suas primeiras canções demo e em 1988 editaram a cassete “Mata-Ratos“. Tornaram-se conhecidos no país com o seu álbum de estreia “Rock Radioativo“ (1990) editado pela EMI, que contém um repertório street punk dinâmico. Apesar da popularidade bastante grande não seguiram o comercialismo e editaram os seus álbuns seguintes em editoras independentes. Uma recolha de gravações originais e parcialmente de arquivo dos Mata-Ratos apareceu na compilação “Xu-Pá-Ki 1982-1997“ editada pela Fast’N’Loud – uma editora notável para o punk rock português, que editou também o seu álbum seguinte “Estás Aqui, Estás Ali“ (1995). Em Portugal, os Mata-Ratos abriram os concertos de p.ex. The Exploited,  partiram para a conquista da Europa com o grupo brasileiro Garotos Podres e finalmente representaram Portugal  na compilação “Oi! Rare & Exotica“. Depois de editarem “Sente o Ódio“ (1999) suspenderam a sua atividade, mas alguns anos depois regressaram com o álbum “És um Homem ou és um Rato?“ (2004) e sem mudanças funcionam até hoje em dia. Depois de abandonar os Mata-Ratos, Coelho formou uma nova banda, os Anti-Clockwise.

Embora os Mata ratos tenham trazido ao punk rock português as características da música Oi!, foram os  CRISE TOTAL os pioneiros do anarco punk ao estilo de Conflict ou também dos representantes do caótico punk rock, grupos como Chaos UK, Disorder ou Varukers. Formado em 1983 em Algueirão perto de Lisboa, o grupo era constituído por Manolo na (v) , Rui Ramos na (g), Paulo Ampola (b) e João Felipe (bt) A atividade artística (entre outros  a participação no Rock Rendez-Vous 1984) não foi apoiada por editoras e na realidade, não incluindo gravações experimentais, chegaram ao disco com gravações dos anos 80 "E a crise continua" só em 1996. Foi o momento de desintegração, ou melhor suspensão da atividade, porque ultimamente o grupo retornou ocasionalmente. Ampola tocou depois no grupo Censurados, e Manolo nos Capitão Fantasma. Nos anos 1983-86 também na região de Lisboa existiram os GRITO FINAL representantes do punk parecido, forte e caótico ( Luis Human (v), João (g), Caze (b) i Alexandre(bt) e tal como os Crise Total só depois da desintegração gravaram é que surge uma coletânea de gravações de arquivo. Ainda mais pequeno património musical deixaram os KU DE JUDAS, cujas únicas demo apareceram na coletânea musical "Vozes de Raiva" (1997). João Pedro Almendra (v), João Ribas (g), Serpinha (b) e Carlos Aguilar (bt) graças ao caráter totalmente simples e punk-rock da banda ganharam enorme simpatia dos punks portugueses. Começaram aqui, além disso, Almendra e Ribas, que depois ficaram à frente das geniais bandas punk Peste & Sida e Censurados.
Nos anos 1983-87 em torno dos grupos Mata Ratos, Crise Total, Grito Final e Ku De Judas formou-se em Lisboa uma autêntica legião de punks que tentava organizar concertos e outras atividades antissistema. Mais tarde surgiram deste grupo as formações de hardcore punk: SUBCAOS, VÓMITO e PÉ DE CABRA. Este período na história do punk português é muito interessante mas relativamente pobre em termos de gravações, então vale a pena procurar as compilações com o punk português mais velho: “Caos em Portugal” (1997) e “Ataque Frontal” (2002). Com o tempo surgiram também os primeiros grupos oi! do seio da atrás referida legião. A mais importante foi a banda Guarda de Ferro que existiu nos anos 1987-93, criada pelos skinheads de 17 anos (Paolo (v), Filipe (g), Gordo (b) e Tratado (bt) ). No início participavam constantemente em lutas de hooligans, sofrendo no entretanto a morte do vocalista Paolo num acidente de viação e já guiados por Filipe lançaram o single e LP “G.D.F” (1992) pela editora francesa Rebelles Europeans. Devido às suas participações em rixas e à fama de banda nacionalista, foram afetados pela proibição de concertos e por fim desintegraram-se. Mais tarde no Canadá apareceu o CD “The Worst of Guarda de Ferro” (2000) com todas as suas gravações.
       Em 1986 formou-se o grupo PESTE & SIDA que desde o início tocou punk rock clássico e melodioso que com o tempo se foi diversificado com elementos de rock e ska. João Pedro Almendra (v) tornou-se o líder do grupo e acompanharam-no: Luis Varatojo (g), João San Payo (b) e Fernando Raposo (bt), depois passaram por alterações no grupo mas San Payo e Almendra continuam até hoje. Estrearam-se com o álbum „Veneno” lançado independentemente (1987), e já depois “Portem-Se bem!”com a Polygram. A banda sobreviveu até hoje, lançou mais alguns álbuns, não mudando o estilo e é até hoje o representante mais consequente da música punk da geração dos anos 80. Os seus últimos álbuns como “Toxico” (2004) ou “Cai No Real” (2007)são prova disso. Vale a pena também escutar a coletâneas, lançadas pelas grandes editoras como “O Melhor dos Peste e Sida” (1993) ou “A Verdadeira História” (2002). O projeto paralelo dos músicos dos Peste & Sida nos anos 90 foi a banda DESPE &  SIGA, para o qual convidaram, entre outros, um contrabaixista e uma secção de sopro. Além das suas composições tocavam também muitas covers de clássicos do Rock’n’Roll, ska e reggae (entre outros: The Specials, Madness) e deixaram dois álbuns. 

Nos anos 1988-94 existiu outra banda formada sobre as ruínas dos Ku de Judas, os CENSURADOS (João Ribas (v), Orlando Cohen (g), Fred Valsassina (b) e Samuel Palitos (bt) ). Graças a dois primeiros álbuns gravados num curto período de tempo “Censurados” (1990) e “Confusão” (1991), que continham uma boa dose de punk rock  profissional e forte, mas também melódico, rapidamente ganharam reconhecimento no meio do punk rock. Com razão, porque esses álbuns são considerados hoje como clássicos do punk rock português. Infelizmente, depois de gravarem o terceiro, não tão bem sucedido álbum “Sopa” (1994), onde tentaram sem sucesso enriquecer o som com o rock e grunge, o grupo desintegrou-se. No ano 1995 sobre as ruínas de Censurados nasceu uma nova esperança do punk rock português , os TARA PERDIDA (João Ribas (v) Ganso (g), Ruka (g), Jimmix (b) e Rodrigo (bt) ). (2) Combinaram as tradições do punk rock da época dos Censurados com a nova onda do skate punk americano fazendo tudo isto no alto nível. Estrearam-se com o álbum “Tara Perdida” (1998) para lançar depois ainda mais quatro álbuns, dos quais vale a pena ouvir “Lambe-Botas” (2005) ou “Nada A Esconder” (2008). São um dos pilares da cena hardcore/punk contemporânea e os representantes permanentes do país nos concertos ao lado de Pennywise, Offspring e NOFX.
No início dos anos 90 a cena hardcore com o decorrer do tempo era cada vez mais forte, independente e na maioria dos casos comprometida com os assuntos políticos e sociais. Nessa altura, um grupo straight edge, os X-ATO formado em 1991 em Lisboa desempenhou um papel importante. Esta banda tocou até ao fim da década lançando alguns álbuns, especialmente singles e álbuns splits (entre outros com o grupo americano Ignite) e o álbum “Harmony As One” (1995). A banda propagava nas suas letras os assuntos sociais e da ecologia. Tocaram também fora do país (entre outros no Brasil). O vocalista Rodrigo Barradas suicidou-se em 2005 cometeu. Como  continuação da banda surgiu o grupo SANNYASIN.  Porém, na época de estreia dos X-Ato  existia o grupo de Aveiro INKISIÇÃO que tocava um forte hardcore punk.
Formado pelo dueto vocal de uma mulher e um homem , Lena e Manuel, que se tornou bem conhecido devido aos concertos nos ocupas de vários países na Europa, lançaram uma cassete independente “Alternativa” (1992), um split com os X-Ato e um split- single com os japoneses Battle Of Disarm. Após vários anos apareceu um CD resumindo a sua atividade “1988-1995” (2006). Nas ruínas dos Inkisição surgiu por algum tempo o grupo INTERVENZIONE que deixaram só um single e muitas demos, anosmais tarde relançadas em CD. Sob a influência dos X-Ato e dos americanos 7 Seconds em Lisboa, em 1996 formou-se o grupo NEW WINDS. Esquerdista, envolvido no anarquismo, no straight edge e que tocava hardcore melódico debutou com “Seeds of Hope” (1997) para lançar mais tarde três álbuns completos e vários lançamentos menores. Liderados por Bruno Break (v) são bem conhecidos na Polónia devido aos concertos, mas também ao álbum “A Spirit Filled Revolution” que lançaram na nossa editora Refuse.  Das bandas ativas há vários anos e que ocupam uma alta posição no meio harcore-punk deve ser mencionado o quinteto lisbonense ALBERT FISH que tem tanto da tradição street punk como da skate e hardcore. Gustavo (v), Osge (g), Danihell (g), Rattus (b) e Saavedre (bt) deram à banda o nome de um assassino e canibal condenado à cadeira elétrica nos anos 30. Estrearam-se com demos, em 2002 lançaram o primeiro álbum “Strongly Recomended” e mais recentemente o segundo „News From The Front” (2009).
Tocaram muito no estrangeiro e em Portugal junto com os Varukers, Casualities, Deadline, Klasse Kriminale e Garotos Podres com os quais lançaram um split single. Os Fonzie (Hugo Maia (v), David Marques (g), Carlos Teixeira (b) e João Marques (bt) ). são outra banda com muito êxito e um bom produto do género punk rock exportado para fora de Portugal. Tocam um skate pop/punk melódico. São de Lisboa, existem desde 1996 e já contam com alguns discos e numerosos concertos não só na Europa (entre eles participação em festivais) mas também nos Estados Unidos, Austrália e Japão. Vale a pena conhecer o seu melhor álbum "Wake Up Call" (2004), ou "Built to Rock" (2002) gravado na Suécia com a participação dos membros dos No Fun at All, e também "The Melo Pot" o álbum de estreia em 1998. A formação ska punk, Humble, existe há alguns anos e segue o caminho marcado pelos Tara Perdida e Fonzie. Levam na sua bagagem o MCD “2 Tone”(2005) e dois álbuns completos “Get Up”(2007) e “Step Into Nowhere”(2009). Dão bastantes concertos e fizeram já a primeira parte de concertos dos NOFX e Mad Caddies.

A partir dos anos 90, em Portugal tocaram vários grupos, muitas vezes esquecidos. Vale a pena mencionar o grupo Dr.Frankenstein (punk’n’roll surf com o disco lançado no  ano 2000 ”The Lost Tapes From Dr. Frankenstein’n’Lab ) ou a banda anarcopunk ACROMANIACOS(dois álbuns –“Dietarreia”,1997 e “Oue Lete” 2000) e INJUSTICED LEAGUE(cassete “Injusticed League”1994 e o disco “Live’95”,2004).
Desde os finais dos anos 80 até ao ano 1997 esteve ativa a banda hardcore punk CORROSÃO CAÓTICA. Apesar de que onda da música crust punk/grindcore era maior há uns anos atrás, nos últimos anos movimentos extremamente porreiros também não faltam em Portugal. A banda SUBCAOS de Lisboa, formada em 1991, é considerada a formação local mais importante deste género. Em meados dos anos 90 a banda era muito ativa e fez digressões na Bélgica, Holanda e Alemanha. O grupo toca ocasionalmente até aos dias de hoje, porém alguns membros da formação inicial, formaram o grupo PORCOS SUJOS, que já tem na bagagem alguns discos dos quais se destacam o álbum split 7´ gravado com os Hiatus e o álbum independente «Fuckin´ Row Hardcore»(1999). Nos anos 1994-2007 existiu a banda crust RELITH que lançou duas cassetes e um CD retrospetivo «13 Years Of Misery»(2009). Atualmente o hardcore/grand/crust é tocado por bandas como: SPITZBUBEN, DESKARGA ETILIKA, SIMBIOSE, SEM TALENTO e MOTU.  Da velha guarda surgiu finalmente a banda crossover TRINTA E UM que lançou três discos.
Na última década cada vez menos grupos de música que mereçam maior atenção aparecem no mercado, mas o punk rock clássico está bem e recomenda-se.
Desde 1998 em Lisboa existe a banda LES BATON ROUGE (Suspiria Franklyn (v) (g); Elle W. (b), James Jacket (g) e Lex (bt) ), quarteto composto de mulheres e homens, tocam  punk rock americano inspirado nos anos 70. Editaram alguns discos, entre eles “Woman Non-Stop” (2002), “Chloe Yurtz” (2003) ou “My Body – The pistol” (2004) – no estúdio Elevator Music, fundado pelo imigrante português Fernando Pinto, que edita música portuguesa. Tocaram na Europa, fizeram uma digressão pelos Estados Unidos, e durante alguns anos permaneceram em Berlim. No já mencionado estúdio Elevator Music foi editado o disco “Revolution Rock” (2005) pelo grupo efémero, cujo nome, 77 diz muito, formado pelos ex-membros do Tédio Boys e pelo veterano de Coimbra, Paulo Eno (v). Finalmente, há algum tempo tem sido bem aclamado o trio GAZUA de Lisboa (João (v), (g); Paulinho (b) e Corvo(bt) ), que toca punk clássico com a propensão para o rock. Os três tocam rock há anos, especialmente João, que passou pelos ,entre outros , os mencionados Corrosão Caótica. Os Gauza gravaram três álbuns: “Convo-cação” (2008), “Música Pirata” (2009) e “Contra Cultural” (2010). Os já referidos ANTI-CLOCKWISE (Pedro Coelho (v), (g), ex-Mata Ratos; Pica (g), J.B (b) e Hugo (bt)) desde 1996 tocam música que liga street punk com o clássico punk rock americano.
Estrearam-se com um disco chamado “My TV World” (1999), a fim de após um intervalo causado pelas mudanças de elementos da banda, gravar outros dois álbuns. Um deles é o mais novo e o melhor “Love Bomb Baby” (2009). Outra banda interessante são os THE PARKINSONS que agora residem em Inglaterra, mas a sua é Coimbra. Dirigida por Victor Torpedo (vocalista, guitarrista) que foi o líder do grupo Tédio Boys, tocam um  garage punk de 77 cheio de humor. Têm no seu acervo o álbum “A Long Way To Nowhere” (2002). Vale a pena também assinalar a banda de street punk CLOCKWORK BOYS que existe desde 2004 em Lisboa.  É composta por veteranos de bandas locais e é liderada pelo vocalista Marion Cobretti. Têm duas demos lançadas juntas no CD “Arquivo Vol. 1” (2009). Tocando uma música do grupo Aqui d’el Rock “Há que violentar o sistema”, a banda sublinha o seu apego ao punk rock clássico nacional.
A velha guarda é representada pelo menos em parte pelos PUNK SINATRA que é liderada pelo vocalista dos Peste e Sida, João Pedro Almendra. Eles criam um hardcore punk rápido mas também melodioso, e sobretudo vale a pena ouvir a sua produção mais recente que é o álbum “À Socapa do Sistema” (2011). A banda de punk rock os DECRETO 77, da cidade de Almada, que existe desde 2003, tem cada vez mais seguidores. Até agora, fizeram uma demo e dois split singles, e avisam que neste ano vão publicar o seu primeiro álbum “Getting Older, Wasting Time”. Nova banda oi! são os FAÇÃO OPOSTA  - skinhead band onde Rattus que toca também com os Albert Fish e os Crise Total é baixista. Por agora eles têm só um single “Skinheads” e um split CD com os Mão de Ferro (2010). Os SKALIBANS fazem com êxito música ska/punk/reggae. É uma banda de sete pessoas com secção de sopro. Até agora lançaram três MCD's e um álbum “Is It Voodoo?” (2008). Por outro lado com o repertório assente no harcore clássico nos últimos anos surgiram bandas como os TIME X, os BROKEN DISTANCE ou os POINTING FINGER, dos quais surgiram os PRESSURE e também os NO GOOD REASON ou por fim os REACHING HAND onde a vocalista Sofia defende a honra das raparigas portuguesas pois há poucas no movimento hardcore/punk.
Os Killing Frost e Devil In Me são bandas já bastante conhecidas, até fora de Portugal  e a esperança do círculo musical hardcore eram, por sua vez,  os All Against The World, bem conhecidos na Polónia pelos concertos e pelo álbum "The Furthermost", publicado pela Spook Records.
Para terminar, ainda algumas palavras sobre o psychobilly e rockabilly português. A primeira banda psycho foram os Cães Vadios, do Porto entre 1985 e 1995 (David Dano (v), Guilherme Lucas (g), Oscar Q. (b) e Carlos Moura (bt) ). Deixaram uma produção musical modesta: um single de 1987 e uma cassette intitulada “Bem Fundo”, lançada na França em 1992. Entre 1989 e 2000 existiu em Coimbra a banda Tédio Boys que gostava de dar concertos obscenos, onde muitas vezes atuavam nus ou encharcados em tinta vermelha... Estrearam-se com o álbum “Porkabilly Psychosis” em 1994 para lançar depois mais dois bons álbuns “Bad Trip” (1998) e “Outer Space Shit” (2000). Com a sua reativação, lançaram o disco “Pussynest” (2008) gravado durante a digressão nos EUA (organizada pela já mencionada editora Elevator Music). O terceiro grupo de psychobilly surge em 1988, os Capitão Fantasma de Lisboa.

Banda liderada por Jorge Bruto (v) estreou-se pela Polygram com o álbum “Hu Ua Ua” (1992) que ganhou muita popularidade. Mais tarde, o grupo realizou ainda dois álbuns: “Contos Do Imaginário e do Bizarro” (1996), gravado no In Heaven Studios em Londres com a ajuda de P.P. Fenecha dos The Meteors e outro, lançado depois de um intervalo “Viva Cadáver” (2007). Mas a banda rockabilly mais importante nos últimos anos são os TEXABILLY ROCKETS de Lisboa, que existe desde 1993 e que tem já alguns discos. Quanto ao horror punk, é sobretudo THE TRAUMATICA, banda que durou pouco e deixou o CD “Classic Horror Lives”.
  Resumindo trinta anos de punk rock em Portugal, pode-se observar que a cena musical local começou lentamente, mas com o tempo lançou algumas bandas que merecem ser conhecidas. Apesar do punk português e estilos próximos nunca desempenharam o papel de liderança à escala da Europa, não se poderia deixar passar algumas bandas locais. Hoje em dia, quando o acesso à Internet não é um problema e são possíveis vários contatos , o que mostra mesmo a cena hardcore, estes podem resultar em concertos e até em lançamento das bandas portuguesas na Polónia.
Sopel  
Reportagem publicada na revista polaca Garaż, nº 30, abril de 2012

Tradução: Monika Czarkowska-Guziuk, Aleksandra Dudziak, Paulina Flasińska, Michał Hułyk, Magdalena Jóźwik, Weronika Kazanowska, Joanna Kida, Katarzyna Kłodnicka, Marcin Krawczyk, Weronika Kucharuk, Katarzyna Kuczyńska, Mariola Kur, Monika Lisik, Estera Małek, Malgorzata Marciniec, Agnieszka Miciula, Paulina Pałyska, Patrycja Pawęska, Karolina Sieńko-Flis, Mariola Soboń, Natalia Trzebuniak, Ewelina Witkowska e Paulina Zajglic (Filologia Ibérica 2010/2013)

(1) NR:Fanzine polaco que surgiu em 1985 em pleno regime comunista. Foi publicado até 1999
(2)  NR: João Ribas faleceu a 23 de março de 2014

(v) voz
(g) guitarra
(b) baixo
(bt) bateria