quinta-feira, 18 de abril de 2013

A festa de São Jacinto


Uma das minhas lembranças da infância são as festas populares que se celebravam em honra do patrono da igreja local, são Jacinto. No meio do bonito mês do agosto, quando ainda fazia calor e as pessoas andavam relaxadas, o Jacinto convidava todos os habitantes do meu bairro industrial em Gliwice para a sua festa.
Por esta ocasião a rua em frente da igreja ficava fechada à circulação e estendiam-se as bancas carregadas de brinquedos de origem chinesa. Os avós generosamente ofereciam aos seus netos dinheiro que se esgotava num instante. Os miúdos tentados pelos pavilhões com armamento carregavam as suas pistolas de plástico que ao disparar transtornavam os sons da música festivaleira e deixavam uma nuvem de fumo asfixiante. Num ano, o verdadeiro hit eram as grandes e peludas tarântulas com uma corda o que possibilitava levá-las a passear como se fossem os cãezinhos e aterrorizar desta maneira os animais domésticos. Noutro, estavam na moda os olhos artificiais em forma de bolinhas pequenas que depois circulavam por toda a escola.
No pavilhão de doces reuniam-se todos. As velhotas compravam bolos de mel e os croissants de são Jacinto. As crianças preferiam uma espécie de pastilha elástica comprida e extremamente ácida que provocava o concurso de caretas.
O ponto central (o mais excitante) era o sorteio. O dia todo compravam-se bilhetes, no entanto os prémios mais valiosos esperavam até à noite, quando toda a gente se reunia para ouvir com inquietação o veredito. O prémio principal era a figura do nosso patrono, mas a esmagadora maioria das pessoas preferia obter algum eletrodoméstico. Então, para que o santo não chegasse a mãos indignas, (para que ninguém o tratasse como se fosse umaa escultura que serve para enfeitar o jardim) ficava sempre com ele um dos membros do conselho paroquial.
À noite havia um concerto, em que não participavam os coros nem músicos gospel, senão as verdadeiras estrelas pouco brilhantes. Era como um concurso de talentos: os comediantes entretinham a platéia falando na língua silesiana, havia uma apresentação da escola local de idiomas que também se ocupava de dança, um grupo de entusiastas cantava os grandes hits italianos (“não sabemos italiano, nas conseguimos aprender os textos de cor, porque é uma língua muito bonita”).
E o Jacinto? Parece que ninguém pensava nele (salvo o feliz dono da sua figura enorme). Se calhar divertia-se bem vendo a criatividade do seu povo e repousou com alívio de que esta vez também não partilharia o destino dum duende de jardim.

Kamila Wiśniewska

sexta-feira, 15 de março de 2013

Vamos às compras!?

Quando ouço a palavra «as compras» eu vejo em frente dos meus olhos montes de pessoas quem vão ao supermercado ou à mercearia diariamente para comprar as coisas necessárias para existir. Mas o termo «fazer compras» é mais complicado, porque para cada ser isto pode significar uma atividade diferente. Para começar, para as pessoas muito ocupadas fazer compras significa ir a uma loja e colocar no seu carrinho os produtos mais necessários para viver. Estas pessoas estão muito impacientes esperando na fila, porque não compreendem como podem perder tanto tempo numa loja, especialmente o tempo que é precioso. O segundo tipo dos compradores são os idosos que gostam de fazer compras porque é um pretexto para sair de casa e encontrarem-se uns com os outros. Dividem-se entre: a) os idosos mexeriqueiros, b) os idosos da época comunista e c)os idosos pobres. Os primeiros adoram ficar no centro da loja e comentar o que se passa ao redor. Não lhes importa que bloqueiam a passagem. Para além disso observam sempre o que tens no teu carrinho e fazem comentários. Os segundos (trata-se especialmente das mulheres), na língua coloquial são chamadas «bolseiras». Elas acham que todo o mundo vai comprar repentinamente todos os produtos que desejam (isto é um vestígio do comunismo). Por isso correm com o carrinho usando os seus cotovelos para dar golpes aos outros clientes e para conquistar o produto único que é o pão quente. O terceiro grupo é formado pelos pensionistas pobres que entram numa loja só para comprar pão, leite e batatas. Os estudantes polacos também formam o grupo específico. Entram na loja e compram sempre as mesmas coisas: pão, chocolate, cerveja e pepinos fermentados. Não precisam de outros produtos: isto é suficiente. Existe também um grupo que se chama os dependentes. Eles são os mais perigosos. Eles adoram fazer compras e podem passar muitas horas no centro comercial. Compram tudo: roupa, cosméticos, eletrodomésticos, etc. O ato da compra é o mais importante, é essencial. Especialmente durante os saldos. Neste período é recomendável evitar as lojas, porque se pode sofrer. Quando vi o filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (Confessions of a Shopaholic) com Isla Fisher e Hugh Dancy eu não podia acreditar que as mulheres podem bater-se por causa duma peça de roupa. Mas uma vez durante a época dos saldos eu vi que duas mulheres lutavam por um blusão e que o rasgaram. Não posso compreender isto. Onde está a boa-educação destas mulheres? E as suas cabeças? Estou certa que não nesta loja. No filme podemos ver que a Rebecca (a protagonista) tem muita roupa e muitas dívidas. E não são só as situações imaginadas, na realidade passa o mesmo. Por outro lado, temos também diferentes tipos das lojas. No centro comercial temos tudo perto. Podemos ir ao cinema, ao cabeleireiro, comprar roupa, calçado, medicamentos e comida no mesmo lugar e dia. Isto é incrível quanto tempo as pessoas passam nos centros comerciais. Alem disso, quando entramos no hipermercado podemos sentir-nos inquietos pelo sentido de espaço. Entramos ali e esquecemos-nos do que tínhamos que comprar. E depois saímos com muitas coisas dispensáveis e com a carteira vazia. Mas não é o único lugar onde podemos perder dinheiro ou a nossa carteira. Na feira também podemos comprar comida e roupa. A comida é mais fresca do que a do supermercado mas temos de ter cuidado com os carteiristas que estão à espera das vítimas. Às vezes porém as pessoas preferem o preço baixo à qualidade e por isso vão simplesmente ao supermercado. Finalmente, acho que o dinheiro e as compras governam o mundo. Não é possível escapar-se das compras e lojas. Mesmo que façamos as compras na internet, compramos algo. É óbvio que deveríamos pensar muito bem antes de comprar uma coisa mas as compras formam uma parte inseparável da nossa vida. 
Anna Krupa

  Sistema digestivo do consumo
Estou num cruzamento de ruas. Atrás há uma rua. Em frente há uma rua. À esquerda há uma rua. À direita há uma rua. Há tantas ruas que não sei qual é que hei de escolher. Na mão tenho um saco de pano velho. O saco está vazio. O estômago também. Só a cabeça é que não para de encher com pensamentos indigeríveis e pesados. Qual e a rua que hei de escolher? Esta em frente leva a um supermercado. Um néon deslumbrante convida à caverna da abundância. Umas estreitas passagens entre as estantes entupidas de plástico que prometem o sabor maravilhoso por um preço tão baixo como nunca antes. Nesta caverna não há espaço para as pessoas. Devem escolher sem perda de tempo (a digestão deve ser eficiente, o tempo é dinheiro). A caverna não é para a gente, é a gente que é para a caverna. As mulheres lançam um olhar para um cantinho com os cosméticos e escolhem, pois é ouro para os pobres. As etiquetas prometem maravilhas. Os homens não param, não há nem etiquetas para eles, ou se há, são tão pequenas e escuras como se dissessem que os homens devem perdoar por não se deixarem de enganar. Esta rua à esquerda leva a um hipermercado. É um micro-mundo, um mundo paralelo: atrás da porta as leis do mundo exterior deixam de funcionar. As avenidas são largas e compridas. As prateleiras cheias de quase tudo estendem-se até ao infinito. Cinquenta tipos de manteiga gritam que as leve comigo. Quero uma manteiga boa, não no meio da selva de cinquenta tipos de manteigas idênticas que sabem da mesma maneira, mas com certeza não a manteiga. Para atravessar de um ponto a outro precisa-se de ter horas inteiras. Para escolher, horas. Para pagar, horas, e nós como uns lunáticos, loucos andamos entre prateleiras sem saber o que escolher. O hipermercado não foi criado para que os clientes pensassem, foi criado para o consumo. As mercadorias são más, caras ou sem informações sobre o seu conteúdo, pois as etiquetas que estão na embalagem são escritas num idioma com o qual não estamos familiarizados. Não estamos lá para falar e sim para comprar (a digestão deve ser eficiente, o tempo é dinheiro). Só os olhos do caixa, cada vez mais, silenciosamente imploram que o deixem fugir dessa máquina para ruminar a consciência. À direita há uma feira. Entre as mesas para os jovens, passa gente que geralmente não é mais nova que essas mesas. Os seus olhos ainda não estão tão abatidos nem cansados mas têm que se defender sem parar. A necessidade de digerir é mais forte do que a consciência. Já não compramos para viver, já vivemos para comprar. Estou no cruzamento. Quatro pontos cardeais, quatro ruas, quatro mundos e um estômago vazio ainda está vazio, mas não quero ser engolida.
Anna Kułak

sexta-feira, 8 de março de 2013

Festejar à portuguesa

A cultura dos países ibéricos para a maioria dos Polacos pode parecer um pouco exótica e cativante. As festas na Polónia incluem sempre uma quantidade enorme de seriedade e de páthos, falta-nos espontaneidade e alegria de celebrar, mesmo quando festejamos os acontecimentos felizes e importantes para nós ou para a nossa pátria. Acho que o motivo  desse estado de coisas é o fato de que os nossos temperamentos polacos são completamente diferentes do dos nossos irmãos ibéricos. A leitura das descrições das festas portuguesas e dos costumes que acompanham esses acontecimentos fazem com que me pergunte, por que razão não podemos encontrar em nós a mesma alegria da vida e a vontade de se reunir, pelo menos de vez em quando, na celebração um pouco menos a sério e da maneira ligeiramente mais descontraída? Aparentemente, a seriedade, a falta de distância perante a vida quotidiana, com a tristeza quase inata já estão demasiado fortemente enraizadas na nossa mentalidade. 
Estas reflexões vieram-me à mente depois de ler alguns textos na Internet sobre a cidade do Porto, como parte das pequenas “preparações“ para a minha viagem a Portugal em maio. Lamento que não terei a possibilidade de participar na festa de São João que, com a festa de São Pedro e a festa de Santo António é celebrada em todos os países lusófonos. O Porto oferece uma variedade de celebrações ligadas ao nascimento do seu padroeiro mas a culminação delas tem lugar na noite de 23 para 24 de junho. Especialmente para essa noite, a cidade é embelezada e decorada, as ruas estão cheias de pessoas, vozes, cores e cheiros. Diz- se que todo o mundo, não importa o sexo, a idade ou a proveniência, se reúne durante essa noite festiva para divertir-se e passar momentos inesquecíveis, tudo acompanhado pela degustação de pratos deliciosos, tipicamente portugueses como sardinhas assadas, caldo verde ou a presença dos vasos de manjericos com os poemas de quatro versos sem esquecer de um pouco de cerveja ou de vinho local.
 As atividades e as tradições ligadas a essa noite igualmente atraem a minha atenção eslava. Gostei especialmente da ideia do lançamento de balões de ar quente que é uma vista espetacular. Também não me posso esquecer da outra tradição que se destaca nessa noite: os martelos de plástico com os quais se bate na cabeça das pessoas aleatórias que passam ou os alhos-porros que se usa da maneira semelhante. Sinceramente, não posso imaginar a implantação da tradição parecida na nossa cultura, embora tente mover a minha imaginação. E vocês, podem imaginar bater alguém na cabeça com o martelo de plástico e a reação possível da pessoa “batida“? :-)
 Gostaria também de ver o famoso fogo de artifício que ilumina o céu à meia-noite em ambos os lados do rio Douro, que é o espetáculo aguardado por todos participantes e que faz parte inseparável dessa noite especial.
 A verdade é que nós Polacos também temos a nossa própria “noc świętojańska“ ou „ noc kupały”, mas, infelizmente, é muito marginalizada e celebra-se só às vezes em que chamamos “skansen“ da maneira menos, digamos, intensiva. Por alguma estranha razão, estamos mais dispostos a implantar algumas celebrações completamente ridículas como, por exemplo, o Halloween, do que desenvolver e valorizar aquelas semelhantes à festa de São João. Atrevo-me a dizer que ela tem um pouco mais de sentido do que usar uma máscara de zombie e acima de tudo - está relacionada com a nossa cultura e com a identidade europeia.

Ewa Szafrańska

sábado, 2 de março de 2013

Professora Doutora Hanna Batoréo


Mais uma vez passou pelo nosso centro a linguista Professora Doutora Helena Batoréo da Universidade Aberta de Lisboa.  Desta vez a temática abordada na sua palestra foi: Linguagem e Cultura: como estudar a Linguística Cultural no âmbito da Linguística Cognitiva e Língua Portuguesa, Linguística Cultural e o ensino do Português Língua Não Materna. Não deixa de ser curioso que uma das maiores especialistas em Linguística Cognitiva do português europeu seja natural de Varsóvia. 


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Kuduro- mais do que um rabo resistente

  Um estilo de dança e um género musical com o nome comum gracioso "kuduro" tornou-se um dos mais intrigantes fenómenos dos últimos anos no mundo da música lusófona. Chama a atenção não só a popularidade que o género ganhou devido à sua mistura da música eletrónica, predominante entre os jovens dos dias de hoje, com o folclore tradicional angolano, mas também a génese do nome (supostamente uma junção das palavras "cu" e "duro" que se referem às características exigidas aos dançarinos para poderem realizar alguns movimentos agressivos que fazem parte da coreografia). O significado do kuduro, porém, é mais abrangente. Como uma arte valiosa, não é só um conjunto dos sons ou dos passos de dança, mas também uma narrativa sobre os problemas atuais do povo angolano, um olhar sobre o espírito do país. A matéria em que o kuduro toca é ainda mais interessante, tendo em conta os acontecimentos recentes na história de Angola – por um lado, o pesadelo da guerra civil, e, por outro lado, a cada vez mais forte posição do país na economia mundial graças aos recursos naturais em forma de petróleo e diamantes. 
  O kuduro nasceu no fim dos anos 80 em Luanda e Lisboa. As origens estéticas constituem outros estilos angolanos como o semba, a kizomba e a batida que foi o precursor do kuduro com base na música eletrónica europeia e americana enriquecida com a batida tradicional africana. O género tem também influências do soca caribenho e dos ritmos rápidos (130-140 batidas por minuto) techno e house. As letras são rapadas em português angolano ou em crioulo de quimbundo com o uso de calão e abordam os temas do quotidiano e da sexualidade.       
  A dança e a música são inseparáveis. A dança (que iniciou a evolução do género musical) consta dos elementos de break dance, movimentos dançarinos tradicionais e movimentos teatrais (por exemplo, imitando a ausência dos membros, visto que Angola é um país com uma das mais altas taxas de acidentes com minas). Por conseguinte, é uma mistura verdadeiramente única. 
  Às vezes o kuduro é discutido no contexto do chamado global guetotech, quer dizer, a música da periferia que se alastra pela Internet e por vias informais. Como um fenómeno na música eletrónica espalhado pelos países lusófonos (por exemplo, uma versão mais pop e aguada foi mesmo escolhida como música-tema da novela Avenida Brasil, da Globo, graças às semelhanças com o funk carioca) e pelas pistas de dança em torno do mundo, o kuduro, infelizmente, raramente provoca entre a audiência uma reflexão sobre a sua proveniência. Os álbuns da série Kuduro Sound System ajudaram a promover os sons dados à luz pela terra africana, mas, ao mesmo tempo, funcionaram virtualmente fora do contexto político e social. 
  A música, entretanto, tinha o papel relevante no desenvolvimento da chamada angolanidade (patriotismo cultural angolano) devido à criação das canções em línguas nacionais (como quimbundo e umbundo) com a utilização dos instrumentos nacionais. Angola sofreu muito nas últimas décadas. Em 1961 rebentou a guerra de libertação. Depois de cerca de 500 anos do colonialismo português, a Revolução dos Cravos em Portugal em 1974 levou a Angola a independência, mas também precedeu outra guerra – desta vez civil – que terminou finalmente em 2002. O conflito destruiu a economia, as estruturas sociais, ao passo que as atividades culturais foram frequentemente forçadas ao exílio. 
  Enquanto isso, a música foi a chave para inserir dentro do povo a noção de Angola como o país próprio. Desempenhava este papel, bastante político, desde os anos 50, mas após a independência em 1975 as coisas tomaram um rumo para o pior em termos da criatividade e da liberdade de expressão. A atmosfera cultural em Luanda e uma estrita censura forçou os artistas a politizarem a sua obra para os fins do estado. Até hoje, também no caso do kuduro, a propaganda política intervém na música, a maioria das vezes por meio do sistema de patrocínio. 
  Os investigadores destacam no contexto social três plataformas propícias para o kuduro: além de Luanda, existe a cena de Lisboa e a música marca a sua presença em pistas de dança do resto do mundo. Perante uma perspetiva angolana, a terceira área pode ser negligenciada. 
  Luanda – a capital do país e do movimento – é uma metrópole de cerca de sete milhões de habitantes. A maioria do kuduro em Luanda é produzida em estúdios nos musseques ("zona de areia" em quimbundo, isto é, nos bairros suburbanos ocupados por população com menos recursos, equivalentes dos bairros de lata portugueses ou das favelas brasileiras). O kuduro, da mesma maneira que muitos movimentos musicais de guerra antes dele, está ligado ao ambiente de gueto. Esta procedência é visível na rivalidade entre os kuduristas dos vários musseques, que consideram os seus guetos como os reinos. Na plataforma de Luanda a música é profundamente integrada no contexto sócio-histórico.
   Quanto à plataforma lisbonense, a integração não é tão clara, mas o facto é que os representantes desta cena tentam manter a relação da música criada por eles com a origem africana. O kuduro em Lisboa desenvolveu-se através dos refugiados da guerra civil angolana, especialmente nas periferias de Lisboa. O estilo distinto desta variante chamado kuduro progressivo é mais sofisticado do ponto de vista técnico. O kuduro angolano serve-lhe como o modelo e as bandas como a mais conhecida os Buraka Som Sistema combinam-no com as tendências observadas na música de dança europeia, nomeadamente, o dubstep britânico e o hip-hop. Outras bandas como os Batida e os Makongo também se referem à cultura angolana contemporânea ou antiga. 
  Hoje em dia, as condições e os temas da criação são muito diferentes em comparação com os inícios do género. Há equipamento suficiente para produzir a música em Luanda. A possibilidade de viver no ambiente precário faz com que os artistas possam ser mais autênticos do que os músicos criando, por exemplo, em Lisboa. 
  Esta autenticidade, expressa em Luanda e procurada na medida do possível em Lisboa, transforma o kuduro em algo mais do que só uma dança e uma música. Torna-o um ecrã em que se pode ver a Angola contemporânea, encontrar os vestígios da história do país, bem como os problemas atuais e, sobretudo, a voz dos cidadãos, a sua atitude perante os desafios, a sua crítica social e uma dose de otimismo na sua celebração da sobrevivência, sem se importar com os obstáculos. Afinal de contas, os kuduristas, tal como o nome indica, não deviam ter medo de cair.

Bartosz Suchecki

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

“Se Deus quiser...” - sobre as superstições dos portugueses.


Há superstições em todo o mundo. Cada país tem as suas tradições e crenças que muitas vezes são consideradas uma parte do património cultural. Por exemplo, na Polónia agarram um botão quando veem um limpas-chaminés porque acham que isto dá sorte. Os italianos acreditam que o espirro do gato traz felicidade. Para os gregos, terça-feira é o dia de má sorte. Os japoneses pensam que matar uma aranha pela manhã é destruir uma alma humana. E os portugueses? Os portugueses também são supersticiosos.
Fique sabendo que as superstições ajudam a explicar muitos fenómenos. Compreender os medos, mitos, tabus, provérbios, lendas e folclore pode ajudar a obter um alguma informação sobre todos os tipos de raridades culturais. As superstições têm o potencial de afetar tudo. Nem todos confessam que acreditam, mas passadas de geração em geração, as superstições populares ganham terreno, espalham-se e resistem ao tempo e ao avanço da tecnologia. Quem é que ousa passar por baixo de uma escada? Quem é que gostaria de ver um gato preto atravessar-se à sua frente? E que o noivo não deve ver a sua amada vestida de noiva antes da cerimónia, também toda a gente sabe.
As superstições não têm qualquer razão científica mas há gestos que evitamos no nosso dia a dia. Não se sabe ao certo a origem exata de como a superstição começou influenciar a vida do homem. Mas com certeza essas práticas que existem hoje têm a sua origem em tempos antiquíssimos. Antes, os povos não tinham conhecimento suficiente para dar respostas às coisas que aconteciam nas suas vidas, e como consequência disso, começaram a criar superstições e crendices. Logo, o caminho da superstição abriu portas para ao mundo da magia, feitiçaria e bruxaria. Pouca gente sabe que a bruxaria foi muito popular em Portugal. Especialmente nas aldeias no norte de Portugal a crença em bruxas era comum. Quase todas as aldeias tinham os seus praticantes de magia que protegiam os habitantes dos espíritos maus. Mais tarde, as gentes perderam essas crenças populares e desistiram de práticas mágicas, mas uma forte corrente de superstição ainda permaneceu em Portugal.
Apesar da prática mágica realizada há séculos, os portugueses são profundamente religiosos e supersticiosos. O seu catolicismo formal é misturado com práticas e crenças pré-cristãs. Eles, especialmente os habitantes das áreas rurais, dão muita ênfase à adoração dos santos, porque acreditam que isto curará todas as doenças. A famosa frase: "Se Deus quiser" é a resposta automática de muitas mulheres idosas a alguma notícia sobre o futuro como para lembrar que se pode morrer antes de amanhã.
 Existem também as superstições não relacionadas com a vida cristã ou com as crenças antigas, estas consideradas uma curiosidade trivial, que dão sabor à vida. Umas mais ridículas, outras mais verossímeis, mas a maioria respeita-as. E enquanto alguns podem rir, muitas pessoas não querem abusar da sorte.
Por que é que as carteiras ou malas de mão não devem ser deixadas no chão? Não é porque é mais fácil roubá-los - na verdade, é mais fácil roubar uma bolsa pendurada no encosto de uma cadeira de que uma escondida entre os pés debaixo da mesa - é porque mantém o dinheiro fora. Isto é uma das superstições portuguesas mais interessantes. Além disso, os portugueses têm muitas superstições concernentes aos alimentos. Por exemplo, acreditam que deixar um copo de vidro cheio de sal grosso no canto da sala, traz sorte.  Do outro lado, o pão não deve ser colocado na mesa virado para baixo, porque isto dá azar. Também, não se deve beber água de noite, porque ela está a dormir. Quando alguém tem sede de noite e quer bebê-la, é necessário acordá-la batendo. O que é interessante é que os portugueses prestam muita atenção ao lado esquerdo. A esquerda representa o lado positivo, o lado do coração, por isso todas as superstições relacionadas com ele trazem uma boa notícia. Tem um zumbido no ouvido esquerdo? Alguém está a falar bem de nós. Treme o olho esquerdo? Boas notícias. E há muito mais. Por outro lado, o pé esquerdo não traz sorte. Os portugueses dizem que se deve sair de casa e entrar em qualquer lugar, sempre com o pé direito, para evitar o azar. Também, tropeçar com o pé direito é sinal de alegria que está para vir. Além disso, em Portugal deve-se lembrar de não abrir um guarda-chuva dentro de casa. Isto traz desgraça e má sorte à família. Durante a preparação da cerimónia do casamento também se devem lembrar várias crenças. Disso pode depender toda a vida futura dos cônjuges. Se chover no dia do casamento, diz- se: “casamento molhado, casamento abençoado” Isso é sinal de felicidade. Mas, se no casamento qualquer dos nubentes ao colocar a aliança no dedo do outro a deixar cair, isso é sinal de infelicidade. Então, tenha cuidado para não cometer algum erro e não atrair a desgraça sobre si.
Portugal, como qualquer outro pais, é supersticioso em maior ou menor grau. Isto faz parte da cultura e da identidade portuguesa. O conhecimento de algumas das superstições portuguesas é essencial para compreender os costumes e a tradição deste pais. Algumas são mais estranhas e ridículas, outras bem conhecidas das outras nacionalidades – todas existem. E as pessoas , mesmo as que se riem ainda acreditam nelas e seguem-nas.

Ewelina Sysiak

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os filmes, sem dúvida, mudam a nossa vida!


Quando era pequena, gostava do cheiro do cinema. Sim, simplesmente o cheiro. O filme não era tão importante. Só o cheiro das pipocas e a esperança fútil de que vou beber uma coca-cola grande. Com este ‘aparelhamento’ tão gorduroso e cheiroso, gostava de me esconder debaixo dos assentos e apenas de imaginar, quais são os personagens que aparecem no filme. Agora faço o mesmo. Vou ao cinema, sozinha. Não compro o bilhete nem as pipocas, nem a coca-cola. Não digo nada a ninguém. Entro na sala em silêncio e sente-me na fila da frente. Tiro o meu casaco, desligo o telemóvel. Por um momento, olho, de soslaio, para a tela em branco e ouço o silêncio... Instintivamente fecho os olhos, involuntariamente abro a boca, respiro... e começo a minha viagem  pelo mundo cheio das imagens, sons e diálogos que vivem na minha memória.

A estação número I
A Joanna, chamada carinhosamente de Joaninha, 3 anos

Uma menina pequena, com o cabelo de cor não identificada, que já é muito comprido, caminha orgulhosamente ao lado do seu pai e do seu tio. Ela vai ao cinema pela primeira vez! Não sabe nada sobre a vida, nem sobre filmes, mas quer ver um leão que alegremente dança e canta. Ela está muito animada, mas o desejo de ver "O Rei Leão" é mais forte do que a vontade de fazer xixi, portanto bravamente aperta a bexiga e sem fôlego, entra no mundo dos animais animados. Depois das duas horas da sessão, não se lembra de muito, mas a cada manhã tenta rugir como o Simba.

A estação número II
A Joanna tímida como uma borboleta, 6 anos

A menina já não ruge como um leão, mas lê fluentemente os livros sobre o Castelo Real Wawel em Cracóvia. Não gosta de falar muito, portanto foge para o mundo das letras e imagens. Todos os dias antes de ir dormir liga a televisão e conversa com uma menina orfã que se chama Madeline. "As novas aventuras de Madeline" é para Joana como o encontro com a melhor amiga que vive grandes aventuras em cada episódio desta série. A Madeline mora no Orfanato de Lorde Croissant onde é guardada pela sua tutora, a Senhora Clavel, que é uma freira. É possível que por isso, sete anos depois, a Joanna, não totalmente madura, escolha uma escola católica onde as freiras lhe ensinam... Que trauma tão grande!

A estação número III
A Joanna que já sabe o que é amor verdadeiro, 10 anos

Senhorita Joanna descobre em casa uma colecção dos livros "Harlequin". Secretamente assiste aos filmes para adultos. Enquanto isso conquista novos corações. O tempo ideal para conhecer a história do "Titanic". O filme tão dramático e emocionante! A Joanna não entende por que o DiCaprio abraça a sua amada no carro, com tanta força, mas junto com sua mãe, chora amargamente durante todo o filme. Primeira vez, mas não última vez... Pobre Jack!  ...Jaaaack?! Jack! Jack!!! Come back!


A estação número IV
A Joanna que está á procura de novas inspirações, 12 anos

A senhorita com a experiência de vida grandíssima, já está farta do amor. Por isso, decide desistir de todos os seus amores "eternos" e começa a dedicar-se à paixão. Pelo menos uma vez por mês, vê ao filme "Dirty Dancing" e dança apaixonadamente com os atores na cena final. Ela sabe perfeitamente que um dia, vai dançar tão bem como eles!

A estação número 666.
Trevas, mal e vampiros, isto é a Joanna Dark, a versão gótica, 16 anos

A vida tenebrosa da Joanna está cheia da poesia de Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Tadeusz Miciński. Por isso o filme "Eclipse Total" é tão importante para ela. Não só inspira, mas também mostra que o DiCaprio porém é o ator excelente. A menina que chamam de bruxa, tenta assistir aos filmes de terror. Brevemente range os dentes e liga "13 Fantasmas". É uma obra totalmente sem valor artístico. Não é terrível, mas ela está com muito medo. Depois desta sessão de cinema, a Joanna tem certeza que não pode assistir aos filmes de terror. Mesmo sem som...

A estação número VII
 A Joanna, uma estudante muito aplicada, 18 anos

A Joanna, já adulta, está a preparar-se para os exames finais da escola secundária. Portanto, vê muitos filmes biográficos, em particular sobre os pintores famosos. " Rapariga com Brinco de Pérola", "Os Fantasmas de Goya" ou "Frida" são os filmes que ainda estão na sua memória...

A estação número VIII
A Joanna que fica no cinema e pensa que está sozinha, 20 anos

É muito tarde. Depois de uma longa viagem através da sua memória, a Joanna abre os olhos. A menina não está ciente de quantas mentes estrangeiras há em torno dela. Não importa. Não importa, porque na grande tela começam a projetar o filme "Pina". Um documentário alemão em 3D. As pessoas no cinema emudecem, apagam as luzes. Alguns segundos de silêncio e começa uma nova jornada. Desta vez, uma jornada através de movimentos, sons e gestos. A verdadeira adoração do corpo humano. Arte, precisão, perfeição. Sem palavras e sem fôlego, como a pequena Joaninha de três anos, Joanna afoga-se na dança. Está feliz. Está muito feliz. E... queria que esse momento durasse para sempre.

Joanna Dudek

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Timor-Leste nos olhos de Luís Cardoso


Em maio de 2012, para celebrar o décimo aniversário da reconquista da independência de Timor-Leste, o mais importante escritor timorense, Luís Cardoso, foi convidado para visitar Cracóvia. Esta iniciativa fez parte de um projeto maior* que envolve a popularização da língua e da cultura dos países lusófonos. O encontro acompanhou a estreia dos fragmentos dos seus romances em polaco, Crónica de uma travessia, Olhos de coruja olhos de gato bravo e Requiem para o navegador solitário, publicados no “Roman” - jornal dos estudantes do Instituto de Filologia Românica da Universidade Jaguelónica.
Luís Cardoso nasceu em 1958 na ilha de Timor e recebeu a sua primeira formação no colégio missionário, uns anos depois terminou os estudos universitários em Portugal e lá ficou. Não podia regressar à sua pátria por razões políticas- naquela altura Timor estava ocupado pela Indonésia. Apesar disso, sempre foi um representante e um defensor da questão timorense na arena internacional. O seu país é muito jovem, pode desfrutar-se da liberdade e da independência só há 10 anos. No entanto, ainda sofre das repercussões dos tempos da ocupação e da isolação.
Nos seus livros o autor aproxima o leitor da “terra onde nasce o sol”, como é chamado Timor. Apresenta a diversidade étnica do povo timorense, a sua história e a cultura que é profundamente arraigada na tradição impregnada pelos ritos e mitos. Ainda a mesma ilha tem a sua própria história no que se refere à sua origem. Acredita-se que foi criada do corpo do crocodilo que chegou ao fim do mundo com o primeiro habitante nas suas costas. As lendas deste tipo constituem uma parte intrínseca do universo timorense. Durante o encontro com Luís Cardoso tive uma oportunidade única de escutar contos da sua infância em Timor. Como ele é um contador maravilhoso podia com as suas histórias “transportar” a sua audiência para este sítio mágico onde se encontram o mundo terrestre com o espiritual e o sobrenatural.
É interessante como o povo tão afastado da nossa cultura europeia pode perceber o mundo. Na visão dos timorenses o mundo é capaz de virar-se do avesso só para desviar os intrusos. O truque chama-se rain-fila e se alguma pessoa se dá conta de que o truque foi feito, deve despir-se e pôr a roupa do avesso para encontrar o seu caminho correto. Em Crónica de uma travessia, uma personagem que está em Portugal faz este rito em frente de um grupo de pessoas. Eles ficam muito surpreendidos, mas também estão inconscientes totalmente do que acontece.
Uma das histórias contadas durante o encontro com Cardoso referia-se ao espírito da mulher grávida, uma pontiana, que assombra durante a noite e o encontro com ela pode provocar a insanidade. Além disso, diz-se que se à meia-noite os meninos dormem de boca para cima enquanto lá fora um pássaro canta, uma pontiana aparece e arranca os corações deles. Cardoso revelou que a mãe dele para proteger o seu filho adormecido virava-o sempre para que ele ficasse de costas para a janela. Também, o autor acrescentou que durante a sua infância queria sempre encontrar uma pontiana porque a lenda diz que ela é uma mulher muito bonita.
Quanto aos espíritos  deve-se mencionar os dos antepassados. Eles não se separam do seu povo, estão sempre presentes porque habitam os corpos de tubarões que vivem nas águas que rodeiam a ilha. Os timorenses respeitam muito os espíritos ancestrais. Se eles ficam ofendidos por algum motivo podem provocar uma tempestade. Também, como eles já viveram a vida têm uma sabedoria grande e podem ajudar a resolver os conflitos. Portanto, se dois homens não podiam chegar a acordo em alguma questão, o povo mandava-os ao mar, aos tubarões e quem regressava tinha razão.
Estes são alguns dos mitos ainda vivos nos lares timorenses. Contudo, não se deve esquecer do que a população timorense também é católica e trata a sua religião com uma devoção verdadeira. É admirável como estas duas esferas coexistem sem evocar os conflitos. A realidade timorense com o seu imaginário mágica não só surpreende, mas também fascina. Que pena que Timor-Leste fica tão longe da Polónia!

* o projeto realizado pela Fundação Lusorizonte, o Instituto da Filologia Portuguesa UJ, o Instituto de Camões em Cracóvia e o Círculo Académico da Língua Portuguesa UJ

Agnieszka Miciuła

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Bom cinema e mau cinema


Quando andava na escola secundária todos os alunos tinham de participar na MAF - academia de cinema. Todos os meses íamos ao cinema para ver um filme bom, não popular. Eu fui só uma vez e isto foi uma experiência tão aterradora que depois não fui ao cinema durante dois anos.
Quando o filme não tem muitos admiradores, não podemos dizer que é mau. É bom, difícil, que não compreendemos, porque somos estúpidos. Filme mau podemos considerar algum filme popular, porque é claro, que toda a gente quer ver as piores coisas e perder o tempo. Também há grandes êxitos de cinema, que ganham prémios e têm muitos admiradores. Por exemplo A Origem (Inception). Vi 30 minutos fiquei aborrecida e o meu irmão disse: "Isto é bom, vais perceber depois." Então, eu estou a ver um filme bom, mas ainda não sei isto. Faz sentido para mim.
O género de filme mais adorado e, ao mesmo tempo, mais odiado é o filme de terror. Para algumas pessoas é muito divertido, enquanto outras têm depois medo de sair do quarto à noite. A única coisa em que os realizadores deste género estão a pensar é o medo, o medo e o medo. Não veem nada mais e por isso criam as cenas assustadoras e ilógicas. A luz está acesa durante o dia e desligada à noite, quando os heróis esperam o monstro. Quando o monstro chega, fogem para o telhado. Além disso, os filmes de terror contemporâneos não têm a tendência para assustar, mas para ser repugnantes. Um saco de molho de tomate e alguns ossos de plástico não influem nas minhas emoções, mas faz-me lembrar o jantar, que não devia ter comido.
A comédia romântica é como o porquinho da Índia: não é porco, nem da Índia. Ver uma é como ver todas. Não há nada para contar: as mesmas personagens, o mesmo enredo, as mesmas piadas, ainda os mesmos detalhes e os mesmos atores. Nunca ficamos desiludidos com estes filmes, porque cada vez que vamos ao cinema ver uma comédia romântica, sabemos perfeitamente o que vamos ver. É o filme ideal para as pessoas que não gostam de surpresas e têm muito tempo para perder.
Há uma grande diferença entre a comédia da América do Norte e "a comédia norte-americana". O fundamento de boa piada é a conclusão surpreendente, imprevista. Sydney Pollack sabia isto perfeitamente e por isso Tootsie - que representa o cinema da América do Norte - é o segundo filme na lista dos filmes mais engraçados da história. Os realizadores das comédias norte-americanas querem ser mais imprevisíveis, por isso incluem na conclusão os elementos irreais. Assim, é claro que o espectador vai ficar surpreendido. Pela primeira vez e depois? Como as piadas que seguem o mesmo esquema podem provocar o riso por uma hora e meia? Para ser justo: o filme mais engraçado da história é Quanto mais Quente Melhor. Então, podemos ver que gostamos das piadas norte-americanas ou homens vestidos de mulher.
A Disney é o estúdio, que lança os melhores desenhos animados, que sempre mostram o mundo bonito e feliz. As crianças ainda têm tempo para saber que não é assim. Por isso a Disney muda um pouco os contos de fadas e as lendas. Na versão original de A Pequena Sereia o príncipe casou-se com a outra princesa. As irmãs da Pequena Sereia deram-lhe a faca para matar o príncipe, mas ela preferiu suicidar-se. As irmãs da Cinderela cortaram os dedos dos pés antes de experimentar o sapatinho. Pocahontas foi raptada pelos ingleses e morreu pouco depois de chegar a Londres. Por outro lado, a heroína chinesa Mulan não teve grandes problemas quando os outros soldados descobriram que ela era uma mulher. Foi a Disney quem quis matá-la por isso.
Eu escrevi no princípio, com ironia, que só os filmes maus atraem o público. Não tenho certeza se isto é sempre a ironia. The Room foi considerado um dos piores filmes já feitos, mas também é muito famoso porque lançar uma coisa tão má, tão ilógica, com os atores tão maus, com os diálogos tão estúpidos, sem uma única cena feita corretamente é a verdadeira arte, que precisa de muito talento. O realizador, guionista e ator foi Tommy Wiseau. É o homem mais feio que já vi. Não sei o género deste filme nem qual é o enredo, mas adoro vê-lo, é uma experiência sem igual.
Há muitos prémios, listas dos filmes melhores e dos piores, resenhas dos críticos reconhecidos, que servem para classificar o que vale a pena ver e o que não. Na verdade a única pessoa que tem o direito de decidir o que gosto de ver sou eu com o meu gosto estranho, mas isto não significa que é o mau gosto.

Małgorzata Stankiewicz

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O filme da minha vida...

Outra vez o outono. Os dias são mais curtos, está frio e chove muito. Já não posso passear durante horas (e não quero). Até apanho o autocarro para a universidade e de volta para a casa preciso dum chá quente. Desejo deitar-me um dia e acordar na primavera, quando as árvores estejam em flor. Queria ser um urso, mas ainda tenho coisas por fazer e não posso cair nos braços do Morfeu, assim afundo-me em “meio-sono”. Vejo filmes. Foi complicado pensar num filme importante para mim. Na infância tinha muitos modelos para seguir, mas com o tempo esqueci-me deles e criei uma personalidade própria e original, não duma princesa Disney. Finalmente, decidi-me pelo último filme que vi no cinema: “Skyfall”. 
 Um dia um amigo meu telefonou-me e perguntou se tinha alguma coisa para fazer nessa noite. Costumo dizer que não tenho nada importante porque, muitas vezes, assim consigo uma cerveja ou comida grátis. Desta vez foi ainda melhor porque recebi um bilhete de cinema. Naquele momento não percebia que a minha decisão iniciaria uma espiral de desgraças e mexericos. Gostei muito do James Bond, mas a amante do protagonista não era boa atriz. Não comi pipocas, não falei pelo telemóvel, também não fui à casa de banho. Portei-me bem. Mas depois do filme vi que tinha cinco chamadas perdidas. O meu namorado estava zangado comigo e senti a obrigação de falar com ele. Normalmente não minto e naquele momento também não queria mentir. Contei-lhe que estive no cinema com um amigo. Desligou a chamada. Desde então a minha vida mudou muito. Parece um filme. O meu namorado tinha espiões que supostamente me viam com o mesmo amigo pela rua, juntos, de mão dada. A cada dia, hora, minuto, segundo, os mexericos eram mais interessantes. Uma paixão descontrolada, fugas secretas para a casa dele, uma relação misteriosa. Não! Uma seita satânica e comércio de órgãos. Depois duma semana dentro dum filme de suspense, começou a parte dramática. Eu estava irritada. Queria falar com ele, mas não era possível. Tinha monólogos com um boneco calado, deprimido, estranho. Só esperava que explodisse duma vez. E explodiu. Gritou-me no meio da rua e deixou-me sozinha.
 Agora sou solteira e nunca imaginei que um filme pudesse alterar tanto a minha vida. Mas, ainda assim, gosto do James Bond. É o meu herói tanto no grande ecrã como na vida real.

Natalia Sławińska

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que me irrita II


Como toda a gente, tenho a minha própria ideologia. Creio que uma certa ordem no mundo é crucial e sigo as regras desta ordem. Não gosto quando alguém destrói a minha visão do mundo perfeito.
Não me irritam pessoas ou coisas em particular, mas certos grupos e os seus esquemas de comportamento. Nada me dá pior dor de cabeça do que os conservadores. São as pessoas que cultivam as tradições mais antigas da cultura polaca. Entre outros, escrevem como os seus antepassados da Idade Média, então não usam pontos, vírgulas, maiúsculas nem outros elementos indispensáveis para compreender o texto. Eu não vou adivinhar o que o emissor queria dizer e peço-lhe que repita (irrito-o muito) até que escreva de forma compreensível.
Faço o mesmo com os adeptos do futurismo. É um movimento artístico e literário da primeira metade do século XX, que aprecia o valor da originalidade e a criatividade. Não conheço pintores ou arquitetos que representam este estilo, mas há muitos escritores. Eles sabem as regras da ortografia polaca, mas, para serem excêntricos, não as seguem. De quando em quando esquecem-se disto e escrevem na mesma frase uma palavra duas vezes: uma corretamente e a outra futuristicamente. Irrita-me esta falta de coerência.
Eu sei que é muito importante conhecer outras culturas e outras línguas. Viajar pelo mundo faz-nos mais sábios e tolerantes. Se calhar devo viajar mais, porque não tolero os poliglotas. Quando conhecem uma palavra nova, geralmente inglesa, esquecem-se imediatamente da palavra polaca. Depois escrevem frases em duas línguas ainda que não haja nenhuma razão para fazer isso. Nas aulas na escola primária ensinavam-me que metade de um burro e metade de um sapo não é igual a um animal.
Respeito todas as pessoas que se interessam por alguma coisa e não me importa se jogam xadrez, se ouvem Justin Bieber. Também respeito os cinéfilos, mas isto não significa que eles não me irritam. Eles conhecem todos os filmes novos, conhecem os atores, sabem quem é mau, que é um bom ator, predizem que filme vai ganhar o Oscar. Isto é incrível. Para mim um filme é só um filme. O que é mais incrível é que os cinéfilos não sabem a diferença entre Star Trek e Star Wars. Chewbacca não era um amigo de Spock e Picard não lutava com um sabre de luz. É óbvio!
Irritam-me muito as minhas fraquezas, sobretudo a indolência. Tenho sempre o plano de fazer todo o trabalho de casa durante o fim de semana, mas ver pela quinta vez Prison Break é mais importante do que escrever uma composição.
Detesto a situação quando não tenho ideia do que escrever. Os meus amigos tentam ajudar-me, mas geralmente as suas sugestões são piores do que a minha falta de ideias. Por exemplo, eu pergunto: "O que te irrita?" "Tudo." "Nada." "Os patos que atravessam a rua." Não vou escrever isto, eu gosto de patos.
Há também um grupo de pessoas piores de tudo. Eles enervam-me imenso: despertam o Mr. Hyde, provocam a Terceira Guerra Mundial, acendem o rastilho das toneladas de explosivos, arriscam as suas vidas. São as pessoas que não compartilham chocolate comigo.

Małgorzata Stankiewicz

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O que me irrita

Está frio. Chove e há muito vento. Infelizmente não tenho nenhum guarda-chuva, então, a cada segundo, pareço mais e mais um rato afogado. Sem dúvida, não estou feliz. Não posso fingir que tudo está bem. Estou furiosa. Sim, furiosa, zangada, irritada...e ela já está atrasada meia hora. Outra vez é impontual. Não quero ouvir outra vez as suas desculpas estúpidas. Finalmente chega. Respiro fundo, sorrio e sem palavras vou levá-la para um café. 
  O meu pequeno café preferido está fechado. Temos de mudar de lugar. Agora estamos numa pastelaria onde só se podem ver casais apaixonadas que não param de se beijar e abraçar. Isso dá-me vontade de vomitar, mas a chuva não nos permite deixar este “jardim do amor”. Estamos ansiosas por um café que já está a fazer há 15 minutos. Tento concentrar-me na música do rádio, mas... isso não é uma boa ideia. Só modernas batidas tecno que não têm nada para oferecer. Estou irritada, sem palavras, e sem café, saímos deste lugar. 
  Ainda está a chover, portanto vamos para a paragem apanhar um autocarro. Muita gente espera impacientemente para voltar para casa. Infelizmente a chuva é forte e o engarrafamento em hora de ponta atrasa tudo. Estamos um pouco chateadas e irritadas. Além disso, um homem alto com uma barba ruiva está a fumar bastante perto de mim. Não me vê porque está ao telefone. Portanto, não percebe que todo o fumo que lança da boca está a voar diretamente para mim. Quero dizer-lhe algo desagradável mas alegremente chega o nosso autocarro. Subimos. 
  A minha primeira impressão é que não estamos no autocarro número cinco, mas no meio do deserto cheio de pessoas suadas. Sem ar, sem água, sem espaço. Já é segunda vez que quero vomitar mas... não tenho nenhum lugar para fazer isso. Estou irritada, muito irritada. Acho que neste momento sou a pessoa mais irritada do mundo. A paragem de autocarro número um, a paragem número dois, a paragem número três, quatro, cinco, seis... ufff. Por fim, deixamos o deserto de suor e fedor. Continua a chover por isso os meus sapatos de camurça estão completamente molhados. Sem dúvida vou ficar doente. Maravilhoso! A minha amiga sem nome, mas com galochas, pode cantar e saltar sobre poças, o que me irrita ainda mais. Já não quero vomitar, eu quero matá-la, mas finalmente e alegremente, chegamos à minha casa. 
  Esperava descansar um pouco mas depois de três minutos vejo perfeitamente que hoje isso não é possível... O meu querido irmão, grande músico, está a tocar saxofone. Não sei se há no mundo um instrumento cujo som me irrite mais. Educadamente digo "adeus" à minha amiga, corro para o meu quarto, fecho a porta, fecho os olhos, trato de tapar as orelhas também e cheia da irritação, vou dormir com a cabeça debaixo do travesseiro. Estou a dormir! Estou a dormir e a sonhar com o dia mais irritante da minha vida.

Joanna Dudek

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Duelo Ortográfico


No passado dia 12 de novembro decorreu o primeiro concurso de ortografia organizado pelo Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Lublin. Apresentaram-se 17 concorrentes no que mais parecia um duelo Lublin versus Cracóvia, uma vez que da terra do dragão do Wawel vieram nove estudantes. Os restantes eram alunos da UMCS. Apesar de jogar em casa a “seleção” de Lublin não venceu mas ocupou os restantes lugares do pódio:
Primeiro lugar: Katarzyna Kuźnik – Universidade Jagellónica de Cracóvia
Segundo lugar: Zyta Padała – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin
Terceiro lugar: Monika Dobrowolska – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin
Além disso, o júri decidiu ainda distinguir:
Daria Mikocka – Universidade Jagellónica de Cracóvia
Anna Betlej - Universidade Jagellónica de Cracóvia
Paulina Pałyska – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin





domingo, 23 de setembro de 2012

Há um ano na blogosfera


 Depois de um merecido período de férias o AGUAVAIBLOGSPOT.COM está de volta no dia em que comemora um ano de vida na blogosfera. Para os mais distraídos, à vossa direita está um contador com o número total de visualizações e em dia de aniversário estamos perto de atingir as 8500 visitas. Um pouco mais abaixo aparece o globo terrestre a girar. Este “adereço” não é meramente decorativo mas serve para nos mostrar o país de origem dos nossos visitantes. Desta forma podemos sentir algum orgulho ao saber que a revista Água Vai já chegou aos cinco continentes. Mesmo sabendo que alguns destes 8500 visitantes tenham tropeçado”  e encontrado o blog por acaso, o objetivo de mostrar o trabalho dos nossos estudantes ao mundo foi atingido. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Os escândalos artísticos na Polónia depois da transformação.

   O ano 1990 trouxe a transformação do sistema político na Polónia e com esta transformação a tão esperada liberdade de expressão. Os artistas sofreram bastante por causa dos comunistas que usavam a censura para manter a sociedade polaca obediente, que não protesta e para usar só uma palavra- que é estúpida. Por isso quando na Polónia instalou a democracia, os artistas começaram a respirar profundamente, estavam convencidos que com a liberdade de expressão viria a liberdade artística, por muito tempo escondida no fundo da gaveta. Infelizmente a sociedade polaca mostrou rapidamente que não é suficientemente madura e não sabe usar a liberdade. Como mostram os exemplos a Polónia ainda não é um país laico e o uso dos símbolos católicos como expressão artística termina em processo judicial vencido normalmente pelos defensores dos valores católicos. De uma pluralidade de incidentes escolhi os mais interessantes e que causaram as emoções contraditórias. Vale a pena prestar atenção às intervenções dos políticos e à atitude dos funcionários. Surge deles a questão se essas intervenções funcionam de acordo com os padrões dum país democrático.
   Em 1993 começa a nova época de censura na arte polaca. Katarzyna Kozyra, uma estudante da Academia de Belas-Artes de Varsóvia apresentou a sua obra "Pirâmide de animais". Inspirada pelo conto dos irmãos Grimm a instalação era composta por animais embalsamados: um cavalo, um cão, um gato e um galo e era acompanhada por um filme que apresentava a morte do cavalo. Apareceram os protestos contra a escultura e os processos contra a artista. 
 Em 1997 o comissário de Pavilhão da Polónia na Bienal de Veneza Jan Stanisław Wojciechowski proibiu a apresentação da obra do Zbigniew Libera "Lego- Campo de concentração". Campo de concentração”. 
 Em 1999 o governador de Łódź acusa Katarzyna Kozyra de ofensa dos sentimentos religiosos por fazer o cartaz “Laços de sangue” "Laços de sangue"onde juntou símbolos religiosos com a imagem de uma mulher despida. Após protestos dos partidos católicos os cartazes foram tapados ou retirados. 
 Em 2000 o ator Daniel Olbrychski acompanhado pelas câmaras de televisão destruiu com uma espada o fragmento da obra de Piotr Uklański “Nazis”. O Ministro da Cultura exigiu um comentário do artista em que explicasse o sentido da exposição. Uklański não acedeu à intervenção e por fim a exposição foi fechada. No mesmo ano aconteceu o escândalo seguinte.  
  Uma escultura de Maurizio Cattelan causou problemas. Essa obra representava João Paulo II derrubado por um meteorito. O jornalista Wojciech Cejrowski tentou cobrir a escultura com um lençol mas finalmente alguns membros do parlamento estragaram a instalação e afastaram o meteorito. Um dos membros do parlamento escreveu também uma carta ao primeiro-ministro para destituir o funcionário de origem judia (Anda Rottenberg), que era a diretora da galeria. Por fim em 2009 este homem foi acusado pela destruição da escultura que custava 40mil zlotys.
 No outono de 2001 pela primeira vez foi censurada "A Paixão" de Dorota Nieznalska durante a sua exposição em Białystok. A diretora da galeria ordenou que cobrissem com papel a foto pendurada na cruz. Depois, em consequência do escândalo provocado pela emissão da reportagem na televisão sobre a exposição, a artista foi acusada da ofensa dos sentimentos religiosos. O júri considerou-a culpada e só no ano 2010 foi absolvida. Neste artigo queria mostrar que apesar de muitas mudanças que sofreu o nosso país depois da transformação do sistema, a receção de arte permanece tradicional e paroquial. Os exemplos acima mencionados são só alguns das intervenções do estado na arte contemporânea que deveria ser independente. As obras dos artistas polacos são apreciadas no estrangeiro, ganham prémios prestigiosos mas na Polónia ainda são atacadas, provocam os piores emoções. Se calhar a sociedade tem medo de conversar sobre os temas ainda dolorosos mas sem este diálogo é impossível considerar a Polónia como o país democrático e aberto à modernidade.

Monika Dobrowolska

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Polacos em Portugal

  Por que motivo os Polacos estão cada vez mais interessados pela língua portuguesa e pelas viagens a Portugal? É difícil responder a esta pergunta mas podemos dizer que nos últimos tempos os polacos com muito prazer visitam Portugal e às vezes decidem também ficar ali mais tempo. Segundo os dados do ano 2009 reunidos pela embaixada polaca, o número dos habitantes registados é de cerca de 1000 pessoas. A sociedade polaca vive geralmente em Lisboa, no Porto e em Faro. Há também famílias simples que vivem nas outras cidades. A maioria destas pessoas foram para Portugal nos últimos 16 anos. Algumas têm formação e trabalham nas instituições internacionais em Lisboa. Há muitos músicos, artistas, professores, médicos, arquitetos e informáticos. Para o norte normalmente vão os que querem obter o trabalho temporário nas plantações. As pessoas que vivem aqui mais que cinco anos não pensam em voltar para a Polónia e dizem que gostam da vida neste país. Cada ano há mais casamentos luso-polacos e as famílias jovens que vão com os filhos que têm menos que oito anos. As crianças frequentam as escolas portuguesas ou internacionais.Para que a aprendizagem deles seja mais fácil, no ano 2011 foi fundada a escola para as crianças bilingues “Borboleta”em Vila Nova de Gaia. Na Escola Secundária do Restelo em Lisboa também organizam as aulas para as crianças polacas. 
 Portugal é famoso também entre os estudantes de programa Erasmus. Normalmente escolhem a universidade em Lisboa mas as universidades em Coimbra, Porto e Faro também são populares. Podem-se encontrar nos foros muitas opiniões positivas sobre a estadia deles naquele país e naquelas universidades. O clima e as maravilhosas paisagens são as duas coisas que provocam o maior encanto entre eles. A maioria deles diz que se pudesse voltar a Portugal queria passar ali toda a sua vida ou pelo menos uns meses.  
 A Madeira é um lugar muito hospitaleiro para os polacos. O Marechal Józef Piłsudski per¬maneceu na Madeira entre De¬zembro de 1930 e março de 1931. Devido ao seu muito mau estado de saúde decidiu beneficiar do clima favorável e por isso escolheu este lugar para o repouso. Instalou-se na Quinta de Bettencourt, nos subúr¬bios do Funchal (capital da Região Autónoma da Madeira). Numa parede da casa onde viveu há um letreiro com a seguinte inscrição em polaco e português: ‘’Marechal Piłsudski viveu nesta casa XII.1930 – III.1931. EM HOMENAGEM AO PRIMEIRO MARECHAL DA POLÓNIA – COMPATRIOTAS’’. No centro da cidade na Rua António José de Almeida há um busto do Marechal. Outro toque polaco no Funchal é que atribuíram o nome de Józef Piłsudksi a uma rotunda no cruzamento das ruas do Caminho do Pilar e do Caminho do Esmeraldo. Nas outras cidades da Madeira podemos encontrar também os monumentos de João Paulo II e as ruas com o seu nome.  
 Paweł Kieszek é um futebolista polaco que desde 2007 até 2010 foi contratado pelo SC Braga. Joga atualmente no Futebol Clube do Porto. Conseguiu estrear-se neste clube no dia 11 de dezembro de 2010 durante a partida de Taça de Portugal com o Juventude de Évora.    
   Entre os dias 20-29 de abril de 2012 foram organizados ‘’Os Dias da Cultura polaca no Porto’’. Esta iniciativa abarcou os seguintes acontecimentos: o concerto de Leszek Możdzer pianista e compositor polaco, a exposição ‘’E ainda vejo os seus rostos ‘’- fotografias de judeus polacos e também um seminário sobre Wisława Szymborska, a poetisa polaca. Por fim, teve lugar a apresentação a versão portuguesa do livro polaco ‘’A locomotiva’’ de Julian Tuwim. Neste último acontecimento participaram igualmente não só alunos polacos mas também crianças de famílias luso-polacas.
Paulina Flasińska

terça-feira, 10 de julho de 2012

Festivais de música




  Para a maioria dos grupos de música, não existe digressão sem os concertos em festivais. Durante todo o verão, em quase todas as grandes cidades na Europa tem lugar um ou mais festivais de música. Durando até sete dias, atraem milhares de pessoas com o número de artistas e a variedade de géneros de música apresentados. O festival é também uma boa oportunidade para conhecer pessoas - no público de até 150 mil amantes da música por dia (Glastonbury, Inglaterra, 2009) é muito fácil fazer amigos. Além das espetáculos musicais, muitos eventos apresentam outras formas de arte: espetáculos de dança, humor ou teatro. Embora o primeiro festival de música da chamada era moderna tenha sido o Festival Berkshire em 1937 (Stockbridge, Massachusetts, EUA) o momento crucial na história dos festivais - e da música popular em si - foi o Woodstock Music&Arts Fair em agosto de 1969. O evento, que durou três dias, foi realizado numa fazenda em Bethel, Nova York com o público de 500 mil pessoas e 32 artistas como, por exemplo, Jimi Hendrix/Band Of Gypsys, The Who e Joe Cocker e The Grease Band. Depois de Woodstock, nos anos de 70 e 80, numerosos festivais foram criados em todo o mundo. Na Europa, os eventos como o Roskilde Festival, o Hurricane Festival ou o Festival de Glastonbury até agora cada ano reúnem milhares de fãs de música. 
  Também na Polónia e em Portugal esta forma de entretenimento é muito popular. Nos últimos anos, na Polónia têm sido criados numerosos festivais. O mais conhecido na Europa e muito premiado é o Heineken Open'er Festival em Gdynia. A primeira edição foi organizada em 2002 em Varsóvia como o Open Air Festival, mas depois o evento tirou o nome do seu principal patrocinador e foi transferido para Gdynia. Agora dura quatro dias e reúne até 75 mil pessoas; é o evento obrigatório no calendário de muita gente. Desde o início, os organizadores têm tentado convidar tantos artistas como seja possível. O público já teve a oportunidade de ver estrelas como Prince, Sex Pistols, Pulp ou Pearl Jam. Não existem as regras que restringem os géneros da música - durante o festival, é possível ver os grupos de rock ou da música alternativa ao lado de famosos DJs ou artistas da música dance. A única regra - como na maioria dos festivais - é que o mesmo artista não pode ser uma das estrelas máximas do evento dois anos consecutivos; tem de haver pelo menos dois ou três anos entre as suas performances. Apesar desta regra, alguns artistas decidiram incluir aquele festival nas suas digressões três vezes (Cypress Hill: 2004 e 2010, Placebo: 2006 e 2009, Massive Attack: 2004, 2008, 2010, Franz Ferdinand: 2006 e 2012).




Outro festival muito conhecido na Polónia é o Przystanek Woodstock, realizado desde 1995 pela organização Wielka Orkiestra Świątecznej Pomocy (em português: a Grande Orquestra de Ajuda Natalícia), nos últimos anos em Kostrzyn nad Odrą. Com o nome inspirado pelo Woodstock Festival, é chamado o maior festival de música a céu aberto na Europa - com o público de 700 mil pessoas (2011). É um evento gratuito de música rock e alternativa, uma forma de agradecer aos voluntários que ajudam no evento principal da WOŚP: os concertos beneficentes realizados todos os anos em janeiro. A maioria das bandas são polacas; os bem conhecidos, como Dżem, Myslovitz ou Ira apresentaram-se numerosas vezes. Nos últimos anos, os grupos estrangeiros (como por exemplo The Stranglers, Papa Roach, The Prodigy ou - neste ano - The Darkness e Machine Head) também têm sido convidados. Para além dos concertos nos dois palcos - o principal e o pequeno, chamado folk - há muitos outros eventos organizados durante o festival. O mais importante é a Academia das Melhores Artes - um lugar onde as pessoas podem encontrar-se com os políticos conhecidos como Lech Walesa, artistas, jornalistas, atores ou líderes religiosos (como Kesang Takla, o representante do Dalai Lama no norte da Europa, 2008). Uma das tradições do festival é que não há barreiras entre o público e o palco (a exceção foi o concerto dos The Prodigy em 2011, a pedido do grupo) para que a parede frontal possa ser coberta com bandeiras. A ordem é cada ano guardada pelo grupo de voluntários, chamado Pokojowy Patrol, com a ajuda dos guardas de segurança e da polícia. O festival é também conhecido pela tradição dos banhos de lama em que participam muitas pessoas. Embora o evento seja bastante criticado, principalmente pelos pais que não querem permitir que os seus filhos adolescentes vão lá porque, segundo eles, é muito perigoso e cheio de drogados e alcoólatras, há muita gente que depois de sentir a atmosfera e a diversão, não podem imaginar que não voltar outra vez. Há numerosos outros festivais na Polónia. Os mais conhecidos são o OFF Festival, o Orange Warsaw Festival e o Coke Live Music Festival, mas cada ano aparecem novos, de diversos géneros de música e com os artistas famosos em todo o mundo.


Em Portugal, as últimas duas décadas têm sido muito importantes na história dos festivais de música. Têm aparecido os eventos como o Festival Paredes de Coura, o Super Bock Super Rock e o Festival Sudoeste. Desde 2004, em Lisboa, também tem sido organizada a edição do festival internacional Rock in Rio. Originário no Brasil, até agora teve dez edições: quatro no Rio de Janeiro, quatro em Portugal e duas em Madrid. Em Lisboa, o evento é organizado cada dois anos. A primeira evento no Parque da Bela Vista reuniu 385 mil espectadores e mais de 70 artistas ao longo de 5 dias; foi um grande sucesso. Depois da edição brasileira no ano passado, este ano o festival voltou para Lisboa - entre 1 e 5 de junho apresentaram-se  Metallica, Stevie Wonder, Linkin Park ou Bruce Springsteen. Uma coisa muito interessante sobre este festival é o projeto Por Um Mundo Melhor, lançado em 2001 no Rio de Janeiro. Foi criado para chamar a atenção das pessoas para que, através das simples atitudes quotidianas, melhorem as condições sociais. Durante os últimos 10 anos, o Rock in Rio gerou quase 12 milhões de euros para diversas ações socioambientais.
O Optimus Alive! é um dos mais novos festivais em Portugal. Embora não tivesse muitas edições, já é o evento bem reconhecido não só no seu país, mas em toda a Europa. Foi realizado pela primeira vez em 2007 e até agora passaram por lá, por exemplo, Pearl Jam, Deftones ou Faith No More. Como na maioria dos festivais, não são restringidos nenhuns géneros de música - ao mesmo tempo, no palco principal (Optimus Stage) pode tocar uma banda de rock e ao lado, no Heineken Stage - um grupo de música pop ou dance. Neste ano, o cartaz ainda está incompleto, mas os artistas já confirmados são, entre outros, The Cure, Radiohead e The Stone Roses.
Hoje em dia, os festivais de música formam uma grande parte da cultura. Embora a sua principal atração seja a música, são realmente o conjunto dos atos culturais como o teatro, o cinema, a moda, até as conferências feitas pelas pessoas reconhecidas. É também uma boa oportunidade para os fãs dos grupos menos conhecidos que muitas vezes não têm a possibilidade de apresentar-se no seu próprio concerto. Embora às vezes os bilhetes sejam bastante caros, vale a pena poupar dinheiro para passar alguns dias com música divertindo-se com outros amantes dela.
Magda Józwik