sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A mentalidade polaca


Cada país carateriza-se por coisas diferentes, tem as suas regras, crenças, a sua cultura própria a tradição que não muda há anos. O famoso provérbio diz “tal pai, tal filho”... Acho que podemos dizer a mesma coisa quanto à mentalidade do povo “tal país, tal costume”. Na minha opinião é muito interessante que cada país tem as suas normas culturais, costumes sociais e a sua mentalidade própria. Mas penso que o que nos distingue mais é o modo de pensar. Viajando pelo estrangeiro, além das paisagens idílicas, dos monumentos extraordinários e da comida regional, observamos sempre o modo de se comportar do povo local. Interessam-nos os hábitos, as conversas e a hospitalidade das pessoas. A mentalidade é algo que nos diferencia, que faz com que as pessoas se sintam originais e únicas. Não sei se consigo apresentar a mentalidade polaca objetivamente, mas vou tentar fazê-lo com toda a minha sinceridade.
Inicialmente, acho que vale a pena mostrar o lado bom da nossa maneira de pensar, dos nossos hábitos, da nossa bondade e dos problemas que conseguimos resolver razoavelmente. Inicialmente posso dizer que os polacos são muito hospitaleiros. Gostamos de turistas e temos muito prazer de obsequiá-los. Tratamo-los com muita atenção, com um sorriso nos lábios, até acabarmos por ter amigos estrangeiros.  Acho que esta abertura e hospitalidade é uma consequência da nossa religião. A maioria dos polacos é católica, cada domingo as igrejas estão cheias de pessoas de gerações diferentes. A religião cristã ensina que é preciso tratar os outros de tal maneira como nós queríamos ser tratados. Portanto, a nossa bondade, com  base na religião, é o nosso traço de caráter nacional.
Outro mérito que vale a pena mencionar é a nossa laboriosidade e diligência. Acho que somos trabalhadores e o nosso gosto pelo trabalho merece a admiração. Para fazer prova do meu ponto de vista, basta olhar para os polacos na Inglaterra ou Alemanha. Por um lado, é muito triste que os jovens emigraram e ainda emigram para o estrangeiro para arranjar um trabalho digno, porque na Polónia é muito difícil ganhar a vida, mesmo depois da escola superior e sem ter as costas quentes. Mas voltando à nossa vantagem nacional - penso que não temos medo do trabalho duro, severo e exaustivo. Temos talento para muitíssimas profissões. Então, tenho pena que o nosso governo não possa aproveitar este benefício.
Outra vantagem, que pessoalmente gosto mais, é a capacidade de unir-se. Não somos apáticos e frios quanto à pobreza ou tragédia dos outros. Conseguimos ajudar as pessoas desconhecidas que estejam numa situação extremamente miserável. Muitas vezes organizamos as festas (como “Wielka Orkiestra Świątecznej Pomocy”) para socorrer aos mais carenciados. Auxiliamos financeiramente fundações, organizações e outras formas de ajuda. A habilidade de ajudar nos casos de inundações, incêndios, doenças graves ou pobreza é algo que nos distingue.
Agora, é preciso mostrar o reverso da medalha. Os polacos também têm o comportamento e os hábitos que merecem o desprezo. O que é mais famoso é o nosso lamento. Queixamo-nos de tudo... do salário, do nosso chefe, do estado de saúde, do marido/da esposa, do governo, dos nossos vizinhos. Não podemos gozar a vida. Não estamos contentes com pequenas nadas. Achamos que só uma grande fortuna (no sentido da riqueza) ou a fama pode trazer a felicidade.
O que me irrita muito é a nossa atitude quanto a álcool. Não conseguimos ir a uma festa sem uma garrafa de vodca. Abusamos de bebidas alcoólicas e medimos a nossa coragem com a quantidade de latas de cerveja. Com toda a seriedade, acho que temos um grande problema alcoólico no nosso país. Em quase cada família há pessoas que não têm limite em beber, e o que é triste, não têm vontade de mudar a sua vida, mesmo que tenham consciência do seu problema.   
Falando da família, agora é o momento para abordar o problema seguinte - os nossos hábitos familiares. Para mim, a família é fundamental no “núcleo duro”. São as pessoas mais próximas, e penso que de maior valor. Lamento que na cultura polaca não demos a ênfase às refeições familiares. Almoçamos e jantamos juntos só no caso duma festa de aniversário ou aos domingos com os avós. É essencial promover refeições em família com pais e filhos a comer em conjunto. Isto faz com que nos aproximemos dos outros familiares e temos tempo para conversar e desfrutar juntos.
A nossa triste desvantagem é também a baixa autoestima e sentido de dignidade. Não sabemos como elogiar os outros. Não conseguimos dar parabéns ou gozar do sucesso do vizinho. Pomos sempre em causa o êxito dos outros. Achamos que esse triunfo se passou graças ao dinheiro roubado ou algum esquema. Em consequência, somos invejosos, porque vemos sempre a casa maior, o carro mais caro, o ordenado melhor ou o parceiro mais bonito. Interessa-nos a vida das celebridades, dos vizinhos, dos “famosos por ser famosos”. Gostamos de fingir não ouvir ou ver, mas temos sempre um bom pretexto para conversar sobre a vida dos outros.
No final, queria apresentar uma coisa muito irritante relacionada com a, já mencionada acima, conversa – os palavrões. Quando ouço os garotos de 10 anos a dizer palavrões, posso justificar esse comportamento com a idade deles. As crianças queriam, e ainda querem ser tratados como adultos, a sério. Mas perco a minha paciência quando o povo usa “pu..” como virgula durante uma conversa. Que falta de educação e comportamento grosseiro! Acho que os polacos interpretaram mal “a liberdade de expressão”.

Com que palavras podemos designar os polacos? Amigáveis, hospitaleiros, gentis, religiosos? Ou será que podemos usar palavras como desconfiança, hipocrisia, xenofobia e falta de tolerância, atraso mental? A resposta não é fácil. Para saber que palavras melhor nos caraterizam seja bem-vindo à Polónia!
Olena Boczkowska
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses

domingo, 19 de outubro de 2014

Atenção: Concurso literário e de fotografia com prazos alargados!

A data limite para a o envio de fotos para concurso de fotografia "Religiões e Tradição" foi alterada para o dia 31 de outubro de 2014. Igualmente alargado foi o prazo para o envio de textos do concurso literário, que agora se estende até ao dia 15 de novembro do corrente ano.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Portugueses na Ekstraklasa 2013/2014


Desde há dois anos que a Ekstraklasa (a primeira divisão polaca) é uma liga muito agradável para os jogadores portugueses. Ainda há três anos atrás era difícil encontrar algum português na nossa liga. Mas eles mudaram as suas preferências. Antes jogavam no Chipre ou na Roménia, porém, com a chegada da crise económica, naqueles países começou a faltar de dinheiro e – o que é curioso – afinal o dinheiro está na Polónia. Algo que há alguns anos atrás parecia incrível.
Hoje há nove portugueses na liga polaca. Uns são estrelas, que superam futebolisticamente a maioria dos competidores, outros são fracassos que não provaram o seu nível. A este primeiro grupo pertence, sem dúvidas, Marco Paixão, 29 anos. O avançado do Śląsk Wrocław que não pára de marcar golos e não importa se o Śląsk está a jogar bem ou mal. Ele marca sempre. Há pouco tempo incorporou-se à equipa de Wrocław o irmão gémeo do Marco, Flávio, mas parece que não é tão bom jogador. O Marco é um grande jogador na Polónia. Mas ele não entende que a liga polaca é muito fraca e encontra-se na terceira ou quarta divisão europeia. Numa entrevista ao portal weszlo.com, Paixão disse: „Eu sou jogador completo. Sei marcar, passar, acelerar, driblar. Quero ganhar o campeonato e ser considerado um jogador do nível europeu”. A sua segurança em si mesmo não tem fronteiras: ”Tenho a certeza absoluta de que vou jogar na seleção.” – disse em setembro do ano passado. Depois de Paulo Bento ter anunciado a lista para o mundial, o Marco disse que estava desencantado. Talvez Bento nem soubesse que Paixão existe. Mas ele tem uma opinião exagerada não só sobre si mesmo, mas também sobre a Ekstraklasa: „Para mim, a vossa liga em três ou quatro anos vai ser uma das melhores na Europa”. Será que ele se dá conta do que disse? „Se tivesse 24 anos o Śląsk podia vender-me por milhões, mas enquanto mostro em campo quanto valho, a idade não vai ser um problema.” – este tipo vive num mundo que não existe - é certo - mas ele não se preocupa com a opinião de outros e isto é uma caraterística boa.
Outros jogadores portugueses que tiveram êxito na Polónia são Bernardo Vasconcelos e André Micael do Zawisza Bydgoszcz. Ambos ganharam a Taça da Polónia neste ano e ajudaram o Zawisza a manter-se na primeira divisão.
Dizem que nesta temporada houve dois portugueses no Jagiellonia Białystok, mas parece que eles foram jogadores-fantasmas porque não jogaram nem uma partida. Eles são: Nuno Henrique e Tiago Targino. Chegaram ao Jagiellonia em fevereiro e em maio... o clube rescindiu os seus contratos. Vale a pena mencionar que este Nuno Henrique desde 2011 participou só em 10 jogos das suas equipas. Impressionante.
Mas não só eles não cumpriram as esperanças. O melhor exemplo é Hélio Pinto. O ex-jogador do Benfica e do APOEL. Com a equipa de Chipre Pinto alcançou os quartos de final da Liga dos Campeões, nos quais perderam com o Real Madrid. Pinto foi a estrela e o cérebro da equipa. Mas depois de mudar para o Legia, esqueceu-se de jogar futebol. Perde todas as bolas, parece que é o jogador mais lento do plantel. Nunca ganhou o lugar no onze inicial. O caso de Orlando Sá é muito parecido. O Legia comprou-o quando tinha um grande problema com avançados. Sá parecia ser a solução. Mas ainda não tendo nenhuma competência o treinador Henning Berg não apostava nele. Preferia mudar a tática e jogar com um falso 9. No Legia ainda há um jogador nascido em Portugal – Dossa Júnior, porém, ele jogou muitos anos em Chipre e escolheu (ou melhor, não tinha alternativa) jogar na seleção deste país. Ele tem o seu lugar no onze assegurado.
No Zagłębie Lubin joga Manuel Curto, meio-campista. Mas basta dizer que nesta temporada participou em 17 jogos (então menos que a metade) e o Zagłębie desceu. O último português na nossa liga é Tiago Lopes, chamado Rabiola. Teve a temporada quase como Curto, mas o seu Piast Gliwice conseguiu manter-se.
É certo que os portugueses enriquecem a liga polaca. Há muito tempo que não havia cá um jogador como Marco Paixão, que marque tantos golos, com tanta facilidade. Mas muitos clubes polacos cometem o mesmo erro de sempre: pensam que qualquer jogador estrangeiro é melhor do que um polaco e compram futebolistas totalmente desconhecidos, sem ritmo, futebolisticamente velhos e limitados. Isto não passa só com os portugueses porque temos também jogadores de Burkina Faso, Zimbabwe, Congo, Haiti, Burundi ou Albânia. 90 por cento dos jogadores destes países são péssimos. Mas os nossos clubes continuam a comprá-los, impossibilitando desenvolvimento dos jovens jogadores polacos.

Maciej Durka
3º ano de Estudos Portugueses

NR: Este artigo refere-se à época 2013-2014. Na presente temporada jogam na Ekstraklasa os seguintes jogadores:
Tiago Valente (Lechia Gdansk)
Hélio Pinto e Orlando Sá (Legia Warszawa)
Ricardo Nunes e Bruno Loureiro (Pogoń Szczecin)
Marco Paixão e Flávio Paixão (Śląsk Wrocław)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

No fascinante som da concertina - GRUPO DE CONCERTINAS "ESTRELAS DA SERRA"

Ouvi pela primeira vez o mágico som da concertina, na Feira Tradicional em Pinhel. Era a minha primeira visita a Portugal e tudo parecia novo e fascinante. Tive muita sorte de conhecer o verdadeiro Portugal, a terra dos portugueses vista através dos olhos deles. Durante os três longos dias da Feira vi os costumes tradicionais, provei comida e bebidas típicas, mas algo me comoveu muito. Quando o festival estava a encerrar um rapaz tirou da sua mochila um instrumento muito parecido com acordeão e começou a tocar. De repente todos que por ali estavam, pararam de arrumar as suas coisas, rodearam o jovem tocador, uns começaram a cantar enquanto outros juntaram-se em pares e ao som do instrumento abalaram alegremente. A festa não acabou…

Depois descobri que o jovem tocador que hipnotizou todos era membro do grupo folclórico “Estrelas da Serra” e o instrumento chamava-se concertina. Deste então, a partir desse momento interessei-me mais pelo instrumento, para mim mágico, e pelo próprio grupo de concertinas “Estrelas da Serra”. Assim conheci Salete Pinto, coordenadora do grupo ”Estrelas da Serra” e cheguei a entrevistá-la. Estes foram os resultados:
Katarzyna Janowska: Bom dia Dona Salete, é um prazer poder estar a entrevistá-la. Já tive a oportunidade de ver a sua paixão e carinho pelo que faz, agora queria que nos falasse um pouco do seu grupo de concertinas “Estrelas da Serra” Porquê a escolha da concertina?
Salete Pinto: A concertina é um instrumento associado à animação, à folia. Na região centro tinha perdido protagonismo, muito à custa da globalização verificada a partir dos anos 80. No entanto, com o apelo à valorização das tradições, do património cultural, material e imaterial, surgiu um pouco por todo o país um movimento que apela ao patriotismo e deste modo ao respeito por tão popular instrumento, podendo mesmo afirmar-se que é considerado o instrumento do povo, apesar do seu elevado preço.
KJ: Quem criou o grupo e porquê?
SP: O Grupo de Concertinas Estrelas da Serra foi criado pelos vários elementos que o constitui, a isso, se ficou a dever o facto de cada interveniente nutrir uma especial predileção pela concertina, e ainda o facto de à época, se verificar uma certa preferência pelo som alegre deste instrumento.
KJ: E porquê este nome?
SP: O nome foi proposto pela pessoa responsável pela orgânica do grupo. Pesou o facto de a região a que o mesmo pertence estar inserida no Parque Natural da Serra da Estrela, nome dado à cadeia montanhosa onde se encontram as maiores altitudes de Portugal Continental, constituindo a segunda mais alta montanha de Portugal continental e insular (apenas a Montanha do Pico, nos Açores, a supera).  Foi feito assim, um trocadilho com o nome do grupo e o da região a que pertence.
KJ: Como foi no início?
 SP: O início apresentou-se como uma batalha ganha, algo que muitos aspiravam com bastante ansiedade. A primeira apresentação ao público ocorreu nas comemorações do dia 10 de junho, dia das Comunidades portuguesas, dia de Portugal e de Camões, numa das Associações às quais o grupo tem prestado serviço comunitário e social. Porem limitou-se a um repertório reduzido e ainda acompanhados pelo professor.
KJ: Como é constituído o grupo?                 
SP: O grupo é bastante heterogéneo. É constituído por doze elementos, três femininos e nove masculinos, com idades compreendidas entre os onze e os sessenta e dois anos. Há um elemento que toca bombo e pandeireta e todos os restantes tocam concertina, destacando-se quatro deles como polivalentes na área do canto.
KJ: Quem ensina as pautas musicais e onde ocorre essa aprendizagem?
SP: Após quatro anos consecutivos de aprendizagem com o primeiro formador, prescindiu-se da sua colaboração em benefício de um dos elementos do próprio grupo, visto este deter uma certa facilidade na aquisição de conhecimentos e assim ele próprio poder dar continuidade ao projeto a menor custo para todos.  Os ensaios, bem como a apreensão de conhecimento de novos temas, ocorre numa escola desativada, onde tomou assento a Associação Cultural, Desportiva e Recreativa de São Miguel do Jarmelo, uma freguesia pertencente à cidade da Guarda.
KJ: Quais os maiores sucessos já alcançados pelo grupo?
R: Ao longo da sua existência o grupo já foi protagonista de diversos eventos, nos quais teve grande sucesso, sendo considerado um dos mais multifacetados do género musical, tendo já atuado em palcos internacionais como Espanha e França. Em Portugal tem efetuado atuações um pouco por toda a região norte e centro. Contudo, o maior êxito é a canção “Guarda dos Cinco Fs”, tema composto por um constituinte do grupo, que faz referencia ao património histórico-cultural da cidade da Guarda.
KJ: É difícil tocar concertina? O que é necessário para aprender?
SP: Efetivamente não é um instrumento de fácil aprendizagem, porém, com muita pertinácia, dedicação e algum talento, ao fim de alguns meses de aprendizagem já será possível exibir um pequeno repertório. Para que tal aconteça é necessário música convertida em números e adquirir uma concertina. O mais aconselhado para a fase inicial, será um instrumento em segunda mão, pelo facto de ser essencial a exploração do mesmo, tornando-se comprometedor para uma concertina nova, pois, o seu preço de aquisição é um pouco elevado, as mais módicas variam entre os 1.500€ e os 2500€. É também de referir que a sua má utilização implica um desgaste muito grande, ocorrendo frequentemente quebra das palhetas, as palhetas são finas lâminas retangulares de metal ou madeira que são montadas sobre uma placa de suporte. Para cada palheta, existe na placa uma fresta com o tamanho exato para que a palheta se possa movimentar livremente dentro dela sem que haja folgas, se a concertina for erradamente manuseada as palhetas terão de ser concertadas, tendo um custo acrescido de 25€, por cada uma.
KJ: Qual é o repertório que o grupo exibe? Qual é a vossa inspiração?
SP: O repertório é essencialmente música tradicional portuguesa, e a fonte de inspiração tem sido o Cancioneiro Português e os artistas populares mais consagrados do atual panorama popular, tais como: Quim Barreiros, Emmanuel; Sons do Minho, e também alguns temas de Amália Rodrigues, convertidos do fado para música ligeira.
Esta foi a última pergunta, muito obrigada e desejo muitos sucessos para as “Estrelas da Serra”


Katarzyna Janowska
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Silêncio (III)

Foi pedido aos estudantes do 2º ano de Filologia Ibérica que, depois de lerem o conto "O Silêncio", escrevessem a continuação da história, um novo final. O texto integral do conto de Sophia de Mello Breyner Andresen pode ser lido aqui: "O Silêncio"
Dentre os trabalhos do alunos foram escolhidos os melhores e hoje é publicado mais um:
Se calhar essa casa nunca foi dela? Se morava aqui, então tinha de ser dela...mas não era. Não era sua a cama no quarto, nem o sofá na sala, nem o tapete no corredor, nem a mesa na cozinha. Tudo só parecia ser dela. Mas não era essa a cama onde adormecia abraçada pelos braços fortes e quentes. Nem era esse o sofá onde se escondia do frio do inverno. Nem esse o tapete que rebatia os passos dos pés pequenos, também não era essa a mesa em que cada tarde punha quatro pratos, quatro pratos... A Joana deteve o seu olhar na cortina que estava a rebater sopros do vento fresco. Em seguida o vento acelerou e entrou com toda a força no quarto, espalhando as cortinas como se fossem cabelos de mulher. Sentiu como se esse vento estivesse acompanhado pela solidão que agora mesmo a estava a abraçar com suas mãos gélidas e ásperas que congelavam a sua alma deixando-a com a pele arrepiada. Soltou-se deste aperto e com estrondo e pressa fechou a janela. Deu a volta e apoiou-se no parapeito. Fechou os olhos e começou a esfregar os braços para aquecê-los. Deixava-se ouvir só o zumbido da mosca que cegamente dava voltas ao redor da luz acessa quando o rangido barulhento dos pneus soou na rua, atravessando os ouvidos da Joana. Abriu os olhos como se alguém a tivesse arrancado de um sonho. O mundo começou a girar em frente dos seus olhos, as imagens baças surgiram e desapareceram como quando era criança e olhava para os seus pais andando no carrossel. Quando era criança...criança... Uma dor aguda penetrou a sua cabeça. Empurrando as paredes e móveis como se fossem inimigos chegou até a cama e com as mãos trémulas abriu a gaveta da mesa de cabeceira à procura duma ampola pequena cheia dos comprimidos redondos e brancos que já podia reconhecer sem ver. Amplamente meteu um comprimido na boca e engoliu-o sem dificuldade nenhuma. Depois despiu-se atirando a roupa para o chão e deslizou para baixo do cobertor, cobriu-se até à cara e assim após cerca de dois minutos adormeceu como um bebé. Os raios de sol tratavam de acordar sossegadamente todo o quarto com o seu calor quando soou o toque de telemóvel. Joana, devagar, ainda com os olhos fechados procurou o seu telemóvel nas calças atiradas no chão.
-Sim?- atendeu o telefone
-Olá, como estás? Não respondeste à minha mensagem...- falou uma voz masculina
-Desculpa, estava a dormir já. O que escreveste?
-Não importa... Tens o encontro hoje?
-Sim, como sempre todas as quintas-feiras. Respondeu Joana, bocejando.
-Bem, alegro-me muito de que continuas a ir lá, mas...Não terminou o homem.
-Mas o quê? Diz, Rafa! Insistia a mulher
-Mas temos saudades de ti... Fazes-nos muita falta aqui em casa. O Mário cada dia pergunta-me quando voltarás... Ele necessita-te. Necessita da mãe e do pai, juntos. Quando é que pensas voltar?
-Rafa, não sei. Não me perguntes. Sabes que é complicado...
-E sempre será! Mas tens de conformar-te com isto, já não podemos recuar no tempo. Temos de continuar, dar passos! Mas dá-los juntos, como família.
-Achas que não sei isso? Entende que...
-Já não sei o que achas.- interrompeu o homem- Só te repito, temos saudades de ti, o Mário e eu, é tudo o que te quis dizer. Tenho de ir, tchau.- desligou o telefone
-Rafa!!! Rafa...- repetia Joana já ao surdo sinal do telefone- Eu de vocês também...
As lágrimas encheram os seus olhos e com a piscadela das pálpebras libertaram-se, correndo devagar pelas bochechas. Cobriu-se de novo com a manta e observando como os raios de sol passeiam pela mobília, adormeceu em seguida.
Eram três e cinco quando Joana entrou atrasada no quarto espaçoso e luminoso, sem muita mobília, só com um círculo de cadeiras no centro, das quais somente uma estava livre.
- Olá Joana! Não te preocupes com o atraso, ainda não começámos. Senta-te ao lado da Ivone, é a nossa nova colega.- mostrou-lhe a cadeira livre. A Joana dirigiu-se em direção à cadeira quando deu conta de que a Ivone era a mulher que gritava ontem na rua. Ficou totalmente surpreendida. Como é que aquela mulher tão desesperada e triste podia estar agora em frente dela sorrindo de orelha a orelha? Há muito tempo que ela mesma não sorria assim . O que passou com o seu sorriso? Desapareceu ou só se escondeu? Estava a inventar as respostas quando a voz da desconhecida a acordou da letargia.
-Olá, sou a Ivone. Muito prazer! sorriu ainda mais a mulher
- O prazer é meu. Sou a Joana.- respondeu da maneira mais amável que pôde sentando-se ao seu lado.
- Hoje vamos trabalhar em pares. Contem ao seu companheiro o seu caso, verão que alívio sentirão. Joana, aproveita! A Ivone é uma ouvinte ótima!- disse a dirigente do encontro.
Foi difícil para Joana começar a contar novamente a história que já tinha contado tantas vezes. Sentia-se sempre como se cada palavra cravasse um prego no seu coração. Mas desta vez foi diferente. O olhar da Ivone e os cíclicos acenos da cabeça cheios de compressão, compaixão e aceitação levaram a que contasse tudo, sem parar, sem vergonha, sem omissão de fatos nenhuns, com detalhes, com emoções, com confiança. A Ivone recompensou-a com o mesmo. A sua história incluiu o sentimento enorme, o amor que separaram primeiro as grades da prisão e que depois separou a morte inesperada, dolorosa e incompreensível.
- E foi ontem o aniversário do seu suicídio... Foi uma peculiar crise da minha alma. Tudo culminou dentro de mim e tive que deitá-lo para fora. Nunca perceberei porque o fez, mas tenho que seguir em frente. Ele não queria, então eu tenho de fazê-lo. Por sorte tenho o meu próprio anjo da guarda, é o meu irmão. Está comigo nos dias como ontem, está sempre que necessito, apoiando e deixando molhar o seu braço com as minhas lágrimas. O pior que podes fazer é encerrares-te na solidão e compartilhar o teu choro com as paredes da casa vazia. E o teu marido, ajudou-te a conformares-te com a perda do Pedro após o acidente?- concluiu a Ivone
- Sim, sim, com certeza.- mentiu com insegurança a Joana, ajeitando nervosamente o cabelo. “Se lhe tinha deixado fazê-lo...” pensou, ao mesmo tempo congelando o seu olhar no chão. Até fim do encontro estava quase ausente, mergulhou nos seus pensamentos como se estivesse percorrendo a espessura de selva. Após o encontro despediu-se rapidamente de todos e com a mesma rapidez voltou para casa. Quase voou pelas escadas e entrou no apartamento como o sopro do vento forte entra pela janela aberta. Tirou com ímpeto a mala que estava desde há meses esquecida debaixo da cama e com as mãos impacientes e suadas meteu dentro a roupa arrugada ou apenas passada a ferro, cosméticos, os papéis, os livros que já tinha lido cem vezes e outras coisas que conseguiu reparar com o seu olhar. Quis fechar a porta quando viu no armário do corredor uma quadrinho coberto de pó com a fotografia duma família feliz e sorridente. Debaixo do vidro havia um papelinho que dizia “Volta rápido. Amamos-te.”. Guardou delicadamente o quadrinho na mala e fechou tranquilamente a porta.
Na estação havia poucas pessoas. Embora o sol já não brilhasse tão fortemente, todas as nuvens desapareceram e o céu parecia alegrar-se da sua ausência. Em seguida ouviu-se o ruído do comboio que estava a entrar preguiçosamente na estação. A Joana sentiu o vento fresco na sua cara, mas esse já não lhe apertava. Escreveu no seu telemóvel “Hoje volto para casa, para nossa casa” e pisou o degrau do comboio com o há muito tempo esquecido sorriso na cara.

Anna Drabik
2º ano de Filologia Ibérica

terça-feira, 5 de agosto de 2014

"Até Amanhã, Meu Filho" de António Macheira


Se António Macheira fosse vivo faria hoje 81 anos. Por essa razão decidimos prestar-lhe homenagem no dia do seu aniversário. Uma homenagem que serve acima de tudo para dar a conhecer a obra de um talentoso escritor que desapareceu aos 23 anos de idade em 14 de dezembro de 1957. Natural de Olhão, ou melhor, filho de Olhão como orgulhosamente os olhanenses falam de si próprios, através da sua escrita dá-nos a conhecer não só a beleza da sua terra e do Algarve, o quotidiano de uma vila piscatória, mas acima de tudo a realidade nua e crua da pobreza e miséria em que viviam os pescadores e as suas famílias. Por isso a sua escrita tem uma enorme carga social e até política que lhe valeu alguns dissabores com o regime fascista de então. Nas palavras do seu irmão José Macheira, “António Macheira dedicou a sua vida aos problemas que afetam a humanidade. Tinha o desejo de criar uma sociedade mais justa entre os pescadores e contribuir para a sua promoção social em igualdade com os outros escalões da sociedade. Ao deixar-nos prematuramente perdeu a oportunidade de conhecer uma nova sociedade, esta em que vivemos, onde crianças e família têm a vida facilitada nas escolas, doenças e no trabalho. Contudo, esta mesma estrutura social (...) continua enferma faltando-lhe aquilo que o nosso autor apregoa – a humildade e o afeto.” 
 Olhão reconheceu o seu valor dando o seu nome a uma rua da cidade e à biblioteca da Escola Básica João da Rosa. Mas a verdadeira homenagem seria a divulgação da sua obra nas escolas e bibliotecas não só da região mas do país. Em Lublin começamos a fazê-lo este ano e embora para não sejam fáceis para um falante não nativo de português, os contos de António Macheira tocaram o coração dos alunos. O livro “Até amanhã, meu filho” onde estão compilados alguns dos seus contos e crónicas, foi publicado postumamente. Decidimos publicar o conto que dá o título ao livro e que foi traduzido para polaco pela turma do 3º ano de estudos portugueses.

Até amanhã, meu filho
A chavinha emperrou um pouco, mas o estalido, já tão conhecido, da lingueta a correr, fez-se ouvir. Conceição suspirou, satisfeita, enquanto a pequena porta de ferro forjado se abria lentamente. O vidro estava baço e as duas pequenas cortinas brancas pareciam húmidas e manchadas. A pequena lamparina apagara-se e um cheiro a azeite queimado veio-lhe às narinas juntamente com o odor subtil de duas rosas amarelas que murchavam na jarrinha de porcelana. A moldura de madeira polida também sofrera os efeitos da humidade eo rosto querido esfumava-se sob uma neblina cerrada. Conceição puxou por uma ponta do xaile e limpou tudo cuidadosamente até que o rosto voltou a sorrir, um sorriso eterno, feliz. Sofregamente, beijou o retrato. Mas lembrou-se de qualquer coisa e lamentou-se em voz baixa.
 – Ai, esta minha cabeça, Luís. Não faças caso. Boa tarde, meu filho. – Novamente limpou a moldura.
– Sabes? Ontem não pude vir por causa da chuva. Eu bem me importava, mas o teu pai...Ora! Estas molduras, Nossa Senhora! Custou-me quinze escudos, na feira do ano passado...Nunca dou com o jeito. Ah! Já está. Se me constipei da outra vez, tusso outra vez, e não saí disto (tu bem o conheces) e eu acabo por ficar em casa. A tal dor não há meio de passar. Vem daqui, mete-se pelas costas...Que disparate, Luís! Vá lá que ninguém olhou para mim. Depois, a noite sem dormir, um vendaval dos demónios; o teu pai a roncar e a acordar-me: ˝Isto é chuva, Conceição?˝ ˝– É sim, João; uma chuva igualzinha à da tal noite...˝. Agora estou estafada. O teu pai ficou em casa a dormir. Quem diria que hoje estaria um dia assim. Tal e qual como na outra vez...
Agarrou no pequeno frasco que estava a um canto, desarrolhou-o lentamente e, inclinando-o sobre o recipiente da lamparina, deixou correr o azeite que restava. Um novo pavio foi colocado e acendido. Conceição fez um pequeno sinal da cruz com o fósforo antes de o apagar. Os seus lábios continuavam num vaivém incessante, que poderia parecer uma oração. Mas não era.
– Tu não estás molhado, pois não? Aqui as cortinas estão encharcadas. O teu vizinho de cima é que deve apanhar mais humidade. Oxalá que se dêem bem. A Maria ainda fala deste luxo, a parva. Se calhar o meu filho haveria de ir pró chão e ser espezinhado! Somos pobres mas graças a Deus, o teu pai arranjou aquele negociozinho de peixe... –fez outro sinal da cruz com o fósforo apagando e jogou-o fora. Sorriu inconscientemente.
– Que linda tarde, Luís. E isto hoje está muito animado, graças a Deus. Olha, a mãe do Rafael chegou agora e trouxe-lhe um ramo de malmequeres. Não o tens visto, Luís? Vocês eram tão amigos... –suspirou– às vezes penso como a vida deve ser aborrecida para vocês aí em cima.
Duas velhotas magras, vestidas de negro, aproximaram-se de Conceição.
– Nosso Senhor te salve Çanita.
– Boa tarde, tia Adélia. E à sua mana também.
O olhar perscrutador da velha Adélia fixou-se no retrato grande.
– Que belo moço, o seu santinho! Todas as vezes que passamos por aqui, digo à Luísa:   ˝Veja lá, mana, aquele rapaz que morreu afogado. É mesmo igual ao da imagem de S. Sebastião, que temos em casa... ˝
Finalmente, as duas velhas afastaram-se e Conceição bateu com uma mão na testa.
– O jantar! – e duas lágrimas correram-lhe pelo rosto envelhecido.
– Daqui a pouco é noite. Arroz com ervilhas, lembras-te? O teu prato preferido. Agora já não o faço no tacho azul, mas, sim, no pequeno.
As lágrimas corriam-lhe. – Sou uma parva, Luís. A chorar por uma coisa destas.
Enxugou os olhos com o lenço branco. Parecia mais aliviada. Meteu o pequeno frasco numa algibeira da saia. E, empurrando brandamente a portinha de ferro, que gemeu de mansinho. Conceição disse, em voz baixa:
– Até amanhã meu filho.

Até amanhã, meu filho- Contos e Narrativas de António Macheira
Algarve em Foco Editora, 2ª edição aumentada, 1998

Do jutra, synku
 Kluczyk lekko się zaciął, jednak zamek wydał dobrze już znany dźwięk. Conceição westchnęła z zadowoleniem, gdy małe żelazne drzwi powoli się otwierały. Szkło było zaparowane, a dwie białe zasłonki jakby wilgotne i poplamione. Lampka oliwna zgasła, a jej zapach zmieszany z subtelna wonią więdnących w porcelanowym wazoniku dwóch żółtych róż podrażnił jej nozdrza. Na ramce z polerowanego drewna również były widoczne skutki wilgoci i ukochana twarz zanikała pokryta gęstą mgłą. Coiceição pociągnęła za koniec swojego szala i starannie wytarła wszystko, aż twarz znów się uśmiechała, uśmiechem wiecznym, szczęśliwym. Czule ucałowała zdjęcie. Lecz przypomniała sobie o czymś i poskarżyła się cicho.
- Ach, ta moja głowa, Luís. Nie zwracaj uwagi. Dzień dobry, synku. – Przetarła ponownie ramkę.
- Wiesz, wczoraj nie mogłam przyjść z powodu deszczu. Bardzo mi zależało, ale twój ojciec… Oj tam. Te ramki, Matko Boska! Kosztowała mnie piętnaście escudo na zeszłorocznym jarmarku. Nigdy nie trafiam! O, już jest. Znowu się przeziębiłam, znowu mam kaszel i ciągle to samo (dobrze wiesz, o co chodzi) i koniec końców zostaję w domu. Nie ma rady na ten ból. Wychodzi stąd i przechodzi przez całe plecy. Co za głupota, Luís. Dobrze, że nikt mnie nie widział. Później bezsenna noc, piekielna wichura, twój chrapiący ojciec budził mnie: „czy to deszcz, Conceição?”. „- Tak, João, deszcz, taki samiutki jak tamtej nocy…”. Teraz jestem wyczerpana. Twój ojciec został w domu i śpi. Kto by powiedział, że dziś będzie taki dzień. Dokładnie taki jak wtedy...
Sięgnęła po mały słoiczek stojący w rogu, odkręciła powoli zakrętkę i pochylając go nad pojemniczkiem, pozwoliła spłynąć reszcie oliwy. Następnie włożyła nowy knot i zapaliła lampę. Conceição zrobiła mały znak krzyża z zapałką w ręku, zanim ją zgasiła. Nieustanie poruszała ustami, zupełnie jakby odmawiała modlitwę, ale nie odmawiała.
- Nie zmokłeś, prawda? Zasłonki są przemoczone. Twój sąsiad na górze to dopiero ma wilgoć[1]. Obyście się dogadywali. Maria wciąż gada o tym luksusie, głupia. Pomyśleć, że mój syn miałby leżeć w ziemi, żeby go deptali. Jesteśmy biedni, ale dzięki Bogu twój ojciec rozkręcił ten interes z rybami… – zrobiła jeszcze jeden znak krzyża zgaszoną zapałką i ją wyrzuciła. Uśmiechnęła się nieświadomie.
- Cóż za piękne popołudnie, Luís. Ale dzisiaj duży ruch, dzięki Bogu. Słuchaj, matka Rafaela przed chwilą przyszła i przyniosła mu bukiet nagietków. Widziałeś go ostatnio, Luís? Byliście takimi przyjaciółmi… – westchnęła – czasem sobie myślę, jak nudne musi być życie dla was tam, na górze.
Dwie starsze szczupłe kobiety ubrane na czarno podeszły do Conceição.
- Niech Bóg Cię błogosławi, Çanita.
- Dzień dobry pani, Adelito, i pani siostrze również.
Wnikliwe spojrzenie leciwej Adeli spoczęło na podobiźnie zmarłego.
- Cóż za piękny chłopiec, ten twój aniołek! Zawsze, gdy tędy przechodzimy, mówię Luizie: spójrz no tylko, siostro, to ten młodzieniec, który się utopił. Wypisz, wymaluj S. Sebastião, którego figurkę mamy w domu.
Kiedy w końcu obie kobiety oddaliły się, Conceição złapała się za głowę.
- Kolacja! i dwie łzy spłynęły jej po pomarszczonej twarzy. - Niedługo zapadnie noc. Ryż z zielonym groszkiem, pamiętasz? Twoje ulubione danie. Teraz już go nie robię w niebieskim garnku, tylko w tym małym.
Spływały kolejne łzy. - Ale jestem głupia, Luís. Płakać z takiego powodu. Białą chusteczką wytarła oczy. Wyglądała jakby jej ulżyło. Włożyła mały słoiczek w kieszeń spódnicy. Popychając delikatnie żelazne drzwiczki, które łagodnie zaskrzypiały, Conceição powiedziała cichutko:
- Do jutra, synku.

Tłumaczenie
III rok portugalistyki UMCS: Anna Tylec, Bartosz Suchecki, Ewa Kobyłka, Ewa Szafrańska, Ewa Tomaszewska, Katarzyna Frąszczak, Katarzyna Janowska, Katarzyna Rejter, Łukasz Gomoła, Olena Boczkowska i Zuzanna Michalska


[1] W Portugalii trumny na cmentarzach są zarówno przytwierdzane piętrowo do ścian, jak też, zgodnie z polskim zwyczajem, zakopywane w ziemi.

sábado, 26 de julho de 2014

As festas de casamento na Polónia

„Zastaw się, a postaw się” – é um provérbio tradicional polaco que significa que embora não tenhas dinheiro, tens que receber os convidados com hospitalidade e generosidade. Acho que podemos dizer que este provérbio é entre os polacos a primeira e a mais importante regra quando preparam as festas de casamento. Isto serve para mostrar a riqueza (às vezes fictícia) dos anfitriões, mas também está ligado às tradições que existem na cultura polaca. Há numerosas regras e rituais que numa família tradicional são absolutamente imprescindíveis para que a festa de casamento não seja uma vergonha para os organizadores e também para que os recém-casados tenham uma vida próspera e feliz.  Aqui vamos ver o que é que ocorre, passo a passo, quando as pessoas organizam a cerimónia e a festa de casamento tradicionais, tendo em conta que estas podem variar ligeiramente segundo as regiões do país.
Todo o processo começa quando duas pessoas decidem casar-se. Depois de tudo estar decidido (e normalmente o homem tem de pedir a mão da sua namorada perante os pais dela), é necessário escolher o mês da cerimónia. Costuma-se organizá-la nos meses que contêm no seu nome a letra „r” para dar sorte. Depois a mulher tem de arranjar o seu vestido ao qual também está ligada uma superstição: é proibido o noivo vê-lo antes do dia do casamento, para não atrair o azar. E para atrair a sorte e bom tempo neste dia importante, alguns põem os sapatos da boda num parapeito da casa.


Já no dia do casamento decora-se a casa da noiva com balões e outros adornos e o noivo vai lá para pedir a bênção dos pais da sua namorada. E o que se passa depois é normalmente a cerimónia na igreja, como a maioria das pessoas na Polónia é católica, então os noivos e as suas famílias vão para a igreja onde já esperam os convidados. Depois da cerimónia ao sair da igreja, todas as pessoas os esperam à porta e atiram-lhes arroz ou moedas. Os recém-casados recolhem este dinheiro e diz-se que aquele que junta mais, terá mais poder na relação no futuro.

 Após tudo isso, os convidados e o casal vão para o lugar da festa de casamento, frequentemente barrados durante o caminho pelos vizinhos ou crianças que lhes dão parabéns e exigem algo - ou um pacote de bolos ou uma bebida alcoólica (que normalmente é uma garrafa de vodca) – para deixá-los passar e continuar a viagem durante a qual se costuma buzinar, como quem quer anunciar a todo o mundo a alegria, até ao chegar ao destino. Já neste lugar, que costuma ser abundantemente adornado, os recém-casados são recebidos com pão e sal e bebem um copo de vodca. Depois recebem parabéns e presentes da família e dos amigos. Neste momento é preciso ter muita paciência, porque todos os convidados querem ter os seus 5 minutos com o casal e isto pode durar muitíssimo. Os presentes costumam ser: dinheiro num envelope, um buquê de flores e por exemplo algum utensílio doméstico, um conjunto de talheres ou qualquer coisa que sirva ao casal na nova vida na sua nova casa. Embora oferecer flores seja tradicional e popular, agora cada vez mais pessoas diz que prefere que os convidados doem alguma quantidade de dinheiro para fins caritativos ou que comprem algo para as crianças de orfanato. Também se pode comprar um bilhete de lotaria para que o casal tenha a possibilidade de ganhar dinheiro que lhes garanta um futuro próspero.

 Outro momento muito importante é também quando se agradece aos pais dos noivos e tem lugar a dança da noiva com o seu pai e do noivo com a sua mãe.  Tradicionalmente isto é acompanhado por uma canção que se chama „Cudownych rodziców mam” (“Tenho os pais maravilhosos”) que presta homenagem aos pais. Além disso, não se pode omitir a primeira dança dos apaixonados, mas lá não há regras exactas quanto à escolha da canção. Depois de dançar, participar em algumas brincadeiras específicas, jantar, comer bolos e frutas e beber vodca, as pessoas estão bastante descontraídas e relaxadas. Temos de mencionar que há sempre abundância de comida e de bebidas e quase nunca faltam. Se és mulher, seguramente vais ser forçada a dançar com um tio bêbado, o que é ao mesmo tempo um pouco desconfortável e engraçado.
À meia-noite tem lugar um ritual que se chama “oczepiny” e que consiste em a noiva atirar o seu buquê ou o seu véu ao grupo de todas as mulheres solteiras presentes na festa. Aquela que consiga apanhá-lo será a primeira a casar-se. O mesmo acontece com o noivo, a sua gravata e os homens solteiros. Depois deste gracioso costume, as pessoas continuam a festejar até às 5 ou 6 da manhã. Todos recebem o seu próprio pacote de bolos porque os anfitriões querem que os seus hóspedes se sintam bem acolhidos e lembrem a festa positivamente. Mas isto não é o fim! No dia seguinte, por volta das 4 ou 5 horas da tarde, os convidados que tenham vontade (mas já não se costuma convidar as crianças), juntam-se novamente no mesmo lugar e festejam, dançando, comendo o que sobrou do dia anterior e falando da festa. À noite tudo termina e tanto os convidados como os recém-casados e a sua família voltam para casa de bom humor e cheios de recordações agradáveis.
Isto é uma festa de casamento tradicional mais típica, pelo menos nas localidades mais pequenas, porque obviamente nas mais modernas não haverá todos esses costumes, mas acho que em todas é normal querer receber os hóspedes da melhor maneira possível. Contudo, se queres experimentar a verdadeira festa de casamento polaca, tens que assistir a alguma.

Paulina Nycz
2º ano de Filologia Ibérica





terça-feira, 22 de julho de 2014

A minha avó, Maria Cieśluk

A minha avó, que hoje tem 88 anos, nasceu em 1926 em Grodno que nesta altura era parte da Polónia. A história da sua vida é provavelmente bem parecida com a dos seus colegas, mas tão diferente da nossa.
  O seu pai lutou nas Legiões de Piłsudski e durante uma das suas expedições militares, em Grodno, conheceu a sua futura mulher - Maria. Depois de casados decidiram ficar nesta cidade. A minha avó foi a terceira dos seis filhos de Józef e Maria. Teve dois irmãos – Stanisław e Józef e três irmãs – Genowefa, Janina e Irena.
  Quando a minha avó tinha dois anos a família mudou-se para Mielnik – cidade natal do seu pai. Até 1939 levava uma vida como as outras crianças – uma vida normal. Frequentava a escola primária e durante as tardes ajudava à sua mãe nos trabalhos domésticos.
  Mas em setembro de 1939 já ninguém pensava em ir às aulas. As escolas locais foram fechadas. Começou a guerra. O rio Bug, que atravessa Mielnik, passa a ser a fronteira entre a Alemanha Nazi e a União Soviética. Esta linha de demarcação entre ambas as potências traz consigo graves consequências para os habitantes da cidade. Ao fim do ano começa a ocupação soviética que vai durar até 1941. Durante este período a família da minha avó é repetidamente invadida pelos russos que roubavam tudo o que parecia ter algum valor. Em 1940 os soviéticos obrigam a família a deixar tudo e mudar-se para Grabowiec (uma aldeia a 5 km de Mielnik).
 Em 1941 o território do município já está sob o controle nazi. Com a chegada dos novos invasores começam as deportações de população local para o território alemão na Prússia Oriental onde a gente é utilizada como mão-de-obra escrava. A minha avó vai num comboio de carga para Hajde Kruk (perto de Królewiec, hoje Kaliningrad) em 1942. Durante a “seleção” é escolhida para os trabalhos forçados numa exploração agrícola. O seu primeiro dono é um homem cruel, sem escrúpulos. Odeia os polacos e abusa dos seus subalternos. A minha avó trabalhou ali um ano e depois foi enviada para outra exploração agrícola. Ali faz amizade com Zuzanna - filha do seu novo dono. Começa a trabalhar como cozinheira da casa. Nesta altura os russos que não conseguiram fugir do inimigo, tornaram-se prisioneiros de guerra - foram mal tratados, passavam fome. Zuzanna com a minha avó traziam-lhes pão. Um certo dia um alemão apanhou a minha avó em flagrante e ordenaram fuzilá-la. O seu dono decidiu defendê-la e salvou a sua vida porque a tratava quase como filha.
Quando a guerra acabou Maria voltou para Mielnik. Em 1958 foi atropelada por um carro. Depois disso teve muitas problemas de saúde. Esteve em coma e os médicos não lhe davam muitas esperanças de recuperação. Mas a minha avó venceu a luta contra a morte e passados dois anos casou-se com o meu avô. Trabalhava como cozinheira nas festas de casamento e mais tarde como funcionária pública. A minha avó ainda mora em Mielnik na mesma casa em que passou infância. Tem três filhos, muitos netos e até bisnetos. 

Patrycja Cieśluk e Dominika Ładycka
1º ano de Mestrado em Português

quinta-feira, 10 de julho de 2014

OS REIS PORTUGUESES NAS CRÓNICAS

Os dois textos que analisei: „Luzes e Sombras da figura do rei D. João no discurso cronístico régio” e “Pela pena e pela espada – historiografando um Portugal do Cancioneiro Geral” oferece um amplo conhecimento dos cronistas e melhor conhecimento dos reis portugueses e dá uma visão diferente e mais profunda da vida dos infantes e governadores portugueses. Assim conhecemos os dois lados dos reis portugueses: a imagem majestosa e do ser humano, a parte política e a parte humana, a evolução política e econômica.
 A construção imperial manuelina e joanina deu início a uma nova época da história de Portugal, época do Estado Moderno com fortes autoridades centralizadas. O Estado Moderno abrange três espaços: europeu, mediterrâneo e Ibérico – Castelhano. O primeiro espaço europeu mostra as mudanças de rumo da política portuguesa: diminuição da importância da ligação com Europa Norte por causa dos conflitos e guerra de Cem Anos entre a Grã Bretanha e a França. Assim o interesse político português mudou da Europa para África que em seguida começa já outro espaço – mediterrânico. Os reis portugueses encontram novas rotas comerciais por outro lado do Mar Mediterrâneo em Marrocos e África. E último espaço mostra a importância da paz estabelecida com Espanha e a luta para ser reconhecido entre outras nações como um país independente. A dinastia de Avis era uma família real muito unida, por exemplo as crônicas escrevem da tristeza do príncipe D. Afonso e da infanta D. Isabel depois da morte do filho. 
 São os cronistas que dão os apelidos aos reis: por exemplo, D. João II de gloriosa memória, nesse caso foi o cronista Rui de Pina que se dedicava à recolha das informações sobre os reis (D.Sancho I, D.Afonso II, D. Sancho II, D.Afonso III, D. Dinis, D.Afonso IV). Rui de Pina era uma das personagens mais importantes e interessantes da historiografia portuguesa. Além de ser cronista e escrivão, assumiu também o cargo do diplomata do Reino Português. As crônicas deles se tornaram confiáveis devido ao fato que Rui de Pina participou pessoalmente em vários acontecimentos mundiais, por exemplo: negociações após a descoberta da América por Colombo que acabaram com o Tratado de Tordesilhas. Representava também a presença portuguesa nas descobertas atlânticas e negociou com o papado essa presença. Tornou-se também o tradutor de português para latim da bula “Ortodoxae Fidei” que falava do poder do rei D. Manuel. A questão que queria levantar é se um cronista com tanta proximidade ao rei consegue passar as informações de uma forma neutra? Se as informações e crônicas não ficarão mais influenciadas pela pessoa do próprio rei? “Nas palavras de Rui de Pina, o ofício historial subordina-se claramente ao valor exemplar que as lembranças e contemplações das excelentes coisas passadas provocam em quem lê e ouve tais memórias.” (Ana Paula Avelar, Luzes e Sombras da figura do rei D. João II no discurso cronístico Régio, p. 6). As crônicas deviam mostrar a história imparcial ou tem direito de modificá-la do próprio jeito.        Na historiografia portuguesa podemos destacar duas pessoas importantes que descreviam a vida dos reis da dinastia Avis que virou um assunto muito polêmico. Um era cronista oficial, político e diplomata – Rui de Pina, outro era escritor, poeta e arquiteto Garcia de Resende. Um baseava-se mais na história e fatos, outro na literatura e nas memórias coletivas. A obra do primeiro era mais breve e cronológica enquanto a obra do outro se tornou famosa graças a sua fluidez e graciosidade da sua prosa. Talvez um seja mais objetivo que outro. Os dois estavam muito perto dos Reis. Existe também a hipótese de que Resende copiou alguns fragmentos da obra do Rui de Pina. Rui de Pina recebeu um oficio de Confirmações do D. Manuel I. Dom João II nomeou-o cronista oficial e em 1497 D. Manuel ofereceu-lhe os ofícios de guarda-mor da Torre do Tombo e também cronista-mor do reino. Rui de Pina participou tanto em acontecimentos da família real como, por exemplo, durante a morte de D. João II ou execução do D. Fernando, como no palco internacional (fazia parte da embaixada que foi enviada ao novo papa Inocêncio VIII). Rui de Pina seguia a filosofia do grande Cícero de valorizar a ética e moral nas suas obras. Cícero era conhecido por escrever muito detalhadamente as suas cartas. 
 Os cronistas claramente mostram a sua simpatia aos reis. D. João II foi descrito muito bem por Rui de Pina (“a excelência de suas bondades e virtudes, de que na paz, e na guerra, no publico e no secreto, na vida e na morte maravilhosamente sempre usou (...)”) e por Garcia de Resende (“homem de muito bom parecer e bom corpo, e de mean estatura, porem mais grande que pequeno, muito bem feyto e em tudo muy proporcionado, ayroso e de tanta grauidade e autoridade que entre todos era logo conhecido por Rey (...)”). 
Rui de Pina e Garcia de Resende escreviam sobre o império português na época quando os portugueses conseguiram conquistar África, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. As crônicas que descreviam em detalhe os sucessos marítimos eram também uma forma de legitimar o poder da coroa portuguesa quando a dinastia de Avis chegou ao poder. Houve uma grande necessidade de legitimar a nova dinastia de Avis em Portugal. As crônicas descrevem as conquistas marítimas também a propósito. A população portuguesa na época ficou sabendo dos sucessos dos atuais reis legitimando assim a presença da dinastia de Avis. 
Os reis portugueses passaram a assumir um papel importante de servir de exemplo e de construir uma boa imagem do monarca. Nas cartas da história foram lembrados como “O Messias” - D. João I ou “O Príncipe Perfeito” - D. João II. 
A história reflete muito na literatura. Um dos exemplos é a obra do Garcia de Resende Cancioneiro Geral que é uma compilação de poesia elaborada pelo próprio Resende que mostra a transição da Idade Média para a Renascença. Este tipo de escrita vem da tradição da Península Ibérica e principalmente da cultura castelhana. Além de competir nos mares e oceanos Portugal percebeu que a literatura portuguesa estava muita atrás da já bem desenvolvida tradição escrita espanhola. Os descobrimentos e conquistas marítimas descritos por vários cronistas inspiraram os poetas portugueses. Na crônica do João de Barros Décadas da Ásia (titulo completo: Ásia de Ioam de Barros, dos feitos que os Portuguezes fizeram na conquista e descobrimento dos mares e terras do Oriente) a partida de Vasco da Gama foi poetizada por Luís de Camões em Os Lusíadas
 Destacam-se alguns opostos, ou seja, cronistas versus poetas; Rui de Pina versus Garcia de Resende, os cronistas dos descobrimentos – Gomes Eanes de Zurara, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda versus poetas de Cancioneiro Geral. Por que a obra do Resende ficou mais famosa na época? A resposta é muito fácil. A obra do Rui Pina não foi publicada no século XVI enquanto a obra do Garcia de Resende Cancioneiro Geral foi impressa já em 1516. Naquela época era mais importante promover a história entre o povo através da literatura porque a literatura conseguiu chegar a todos os cidadãos de uma maneira muito mais rápida. Foi também uma forma de legitimar a dinastia de Avis entre a própria população. Os reis da dinastia de Avis foram os pioneiros na época do Renascimento. A importância do papel assumido por eles como lideres de “missão civilizadora” podemos explicar como justificação para a reconquista contra os mouros, mas também no espírito do estado moderno como o registro da história, sucessos marítimos e conquistas das novas terras de uma forma mais acessível ao povo.

Bibliografia:
ANDRADE, A.A., “A importância da linha costeira na estruturação do reino medieval português. Algumas reflexões”.
AVELAR, A.P.,“Luzes e Sombras da figura do rei D. João II no discurso cronístico Régio.
AVELAR, Ana Paula, “Pela pena e pela espada – Historiografando um Portugal do Cancioneiro Geral.
DINSEY, A.R., “A History of Portugal and the Portuguese Empire”, Cambridge University Press, New York 2009.
FONSECA, L.A.,, “Política e cultura nas relações luso-castelhanas no século XV”

AGATA BŁOCH                                                                                                          
Fundacja Terra Brasilis e Centro de História de Além-Mar  (Universidade Nova de Lisboa)