Ontem em Portugal foi dia da mãe . Por isso as linhas seguintes são dedicadas a todas as mães...do mundo:)
O papel da mulher na época moderna não é fácil. As mulheres não são tratadas de forma igual aos homens. Ainda não têm os mesmos direitos que os homens, mas têm as mesmas obrigações. Além disso, têm de ligar tanto com as obrigações profissionais como com as tarefas domésticas. Em minha opinião há muitas mulheres que se safam conseguem fazê-lo bem. Uma deles é a minha mãe. Pensei muito sobre quem escrever: Uma cientista, atriz, médica, professora, cabeleireira?... Mas por que escolher só uma cor quando se pode ter um arco-íris inteiro?
A minha mãe é médica. Sempre sabe o que é que me dói mesmo quando eu mesma não o sei. Não é preciso perguntar o que é que deve ajudar-me porque ela já o sabe. É Esculápio quando liga o meu joelho outra vez na mesma semana dizendo que não haverá cicatriz ou se houver – todos os heróis têm cicatrizes de guerra.
A minha mãe é política. Sabe manobrar entre os partidos da minha família. Entre quatro fações cada uma quer outra coisa e não quer desistir nem retirar nem sequer um passo. E ela sabe fazer a paz de tal forma que todos acham que ainda têm poder.
A minha mãe é cosmonauta. Leva-me numa viagem espacial. Só fecho a boca, abro os olhos e olho na direção que me mostra. E permite-me voar e tocar os planetas e ter sempre os bolsos cheios do pó das estrelas. Aposto que foi a minha mãe quem foi primeiro à Lua.
A minha mãe é viajante. Com ela não tenho medo de serpentes venenosas nem elefantes selvagens que atravessam o bosque. É com ela que adoro apanhar morangos silvestres ou estirar-me na clareira no meio da floresta. Com ela nenhuma montanha é alta demais para atingir o cume e nenhuma rota demasiado comprida.
A minha mãe é detetive. Sabe onde se escondem as meias (maliciosas!). Nenhum cogumelo está bastante camuflado. Nenhuma cara triste passa despercebida. Sempre sabe o que é que se passa embora não estivesse lá nem perguntasse pela razão.
A minha mãe é cozinheira. É capaz de criar uma refeição de numerosos pratos para que todos tenham algo saboroso para si, mas também pode cozer só um prato tão delicioso que todos gostam e desejam comer mais uma dose. A minha mãe é Buddy Valastro e Gordon Ramsay em um, mas melhor porque sabe que, sobretudo os morangos são reis da nossa mesa.
A minha mãe é construtora. Sabe pregar pregos, fazer pérgulas e fixar as portas do armário. Com um lápis e uma folha e um pouco de tempo cria um verdadeiro avião, barco e dinossauro tão grande como eu. Acho que com muitas folhas poderia criar um farol, pirâmide e todas as sete maravilhas do mundo.
A minha mãe é sonhadora. Nunca se rende. Luta sempre pelo que acha importante. Não concorda com que os outros tomem as decisões que ela deve tomar. Não se esquece de que atrás das nuvens há sempre sol. Não deixa que o seu mundo se torne negro. A minha mãe é o arco-íris: tem todas as cores do meu universo.
Sou mulher e não gosto das compras - esta frase é quase como um oximoro. Mas eu realmente não gosto das compras. Desde pequena que se notava o motim no meu comportamento:
–Abre a boca!
–Não.
–Diz “a”.
–“b”.
Mas não ia falar da minha meninice. As compras, o consumo, a publicidade, o gasto de dinheiro - não, isto não é o meu lado mais forte (sobretudo a última questão, o dinheiro é como o meu amigo... virtual, mas continua sendo o meu amigo!), então digo um calado e indeciso ‘não sei’ às compras. Pois não se pode evitar o consumo nem reduzi-lo a zero, então não sou tão masoquista para obrigar-me a sofrer todos os dias. O que é que eu compro? As coisas mais necessárias para viver é claro, a comida, os produtos da higiene pessoal, o chocolate, os cosméticos, os brincos... Só para escrever composições tenho de comprar as canetas todos os meses. E quando ando pela zona das canetas perto encontram-se outras coisas que eu acho imprescindíveis: o coador (está em liquidação!), a laca para o cabelo, entre outras coisas que naquele momento acabam. Além disso, um cartaz grande lembra-me de que só hoje posso comprar as meias que normalmente vendem com o preço três vezes mais alto. Concluindo, eu pertenço ao grupo “consumidor normal”, ou seja, costumo comprar o que é necessário e o que me dizem que necessito. Quem? Os amigos, a sociedade, a moda, o apresentador na televisão. E repito outra vez: não gasto das compras, as compras gostam de mim.
Edyta Marzec
O mundo de hoje oferece-nos um tipo de vida muito comercializado, cada um diz-nos que precisamos de alguma coisa, que temos de comprar o novo telemóvel ou vestido. Acho que temos de parar, desligar a televisão e deixar um pouco este mudo artificial.
Há um filme que se chama `Into the Wild´ e mostra a história de Christopher McCandless, um jovem que deixou a sua vida de luxo e o seu prometedor futuro universitário, cortou os cartões de crédito, queimou o seu dinheiro, pegou numa mochila e foi descobrir o mundo. Praticamente sem nada, viajou à boleia por uma parte da América e conseguiu chegar ao seu objetivo- Alasca. Ali, com vinte e quatro anos, morreu no meio do nada, sozinho. Ele tentava viver sem as coisas que considerava desnecessárias, não usava o carro, comia o que encontrava pelo caminho ou o que lhe davam as pessoas, dormia onde podia. Gostei muito deste jovem, que tinha a cabeça cheia de ideais tirados dos livros de Jack London e Leo Tolstoy e que tinha coragem para viver a vida à sua maneira.
Depois de ver este filme, fiquei a pensar sobre como as pessoas complicam a vida com todas as coisas inúteis que tem. Não acho que o vigésimo vestido ou o novo telemóvel sejam tão importantes. As pessoas compram a roupa elegante só para que os vizinhos os vejam, compram cremes, máscaras e pós para ficarem mais lindas e gastam muito dinheiro nas férias num hotel de cinco estrelas, com o SPA, piscina e ginásio, como se uma noite numa tenda sem um jantar elegante pudesse matá-los. Temos cada vez mais dinheiro e separamo-nos da vida real e da natureza com uma muralha de plástico e vidro, como se fossemos mais belos e mais perfeitos do que o resto de mundo, como se um batom e um verniz de unhas nos tornasse em seres supernaturais. E só depois compreendemos que o mundo verdadeiro é o que viajamos a pé e tocamos com as nossos mãos, e não o que vimos na televisão ou pelo vidro dum carro.
Eu não faço muitas compras, mas há uma coisa que compro sempre e não penso deixar de fazer. São, obviamente, os livros. Mas para mim, isto não é só mais um produto comercial, mas a história de algumas pessoas, seja verdadeira ou inventada, não importa. Uma livraria é um lugar com alma, e não é fácil encontrá-lo, porque não há muitas.
No nosso mundo cheio de comércio, temos de parar por um momento e pensar sobre a nosso estilo da vida. Acho que se aprendemos a passar um dia a, por exemplo, fazer desporto em vez de estar no centro comercial e temos mais contato com a natureza, seremos mais felizes.
Na cultura há trabalhos que são únicos e, ao mesmo tempo, universais.
Conseguem captar a atenção da maioria dos observadores – fazem-nos pensar e
comovem-nos. São universalmente reconhecidos, elogiados tanto pela crítica como
pelo público. Constituem o ápice da criatividade dos seus autores – são as
obras-primas deles, a crème de la crème do
género.Existem também produções que
nem sequer se juntam ao grupo elitista – são mais mundanas, mas ainda assim
sólidas e podem funcionar surpreendentemente bem num contexto definido. Eu
incluiria nesta segunda lista o filme que fez parte da série de sessões de
cinema português organizada no Centro de Língua Portuguesa Camões – “Um Funeral
à Chuva” – uma obra suficientemente intrigante para me fazer esquecer das suas imperfeições
como se não importassem nem um pouco.
O filme foi classificado como “comédia”, mas, apesar desta avaliação,
acho que a qualidade da criação está fora dos elementos satíricos que são, por
vezes (as piadas dirigidas a um casal homossexual entre outros clichés),
demasiado previsíveis. Portanto, não tenho dúvidas: uma obra-prima – este “Um
Funeral à Chuva” não é.
Contudo, a magia da cultura consiste no facto de que as suas expressões
não têm de ser impecáveis para que um indivíduo se emocione e identifique com
elas. Às vezes, basta que um observador, espetador, leitor, etc. encontre nelas
os valores comuns com o autor. E com certeza não faz mal se a mundividência
apresentada for compartilhada entre a audiência. Tendo em conta estes fatores,
acho que durante a projeção a 17 de abril de 2013 a longa-metragem de Telmo
Martins realizou todas as potencialidades. Apesar de que a minha primeira
impressão ainda durante a exibição fosse que o que via era um pouco depressivo,
ao sair da sala do Centro vi também um vislumbre de esperança. Isto parece
contraditório, mas, na verdade, é perfeitamente compatível.
A intriga concentra-se na história de um grupo de amigos dos tempos
académicos. Depois da conclusão do curso os seus caminhos separam-se. O motivo
da reunião 10 anos mais tarde é a súbita morte de um deles – o João. Os
protagonistas chegam à Serra de Estrela (o lugar onde o João queria ser
enterrado) na véspera do funeral para relembrarem a vida do falecido. Esta
ocasião é o pretexto para conhecermos a evolução da sua amizade, as atividades
que compõem a sua vida atual e, consequentemente, os carateres das pessoas –
com um leque de virtudes e defeitos. Por meio das histórias ouvidas no
restaurante à volta da mesa distinguem-se as diferenças entre os reunidos.
Dizem petas, fazem observações sarcásticas, alguns têm os problemas com a
aceitação deles mesmos apesar do aparente êxito profissional (Diana) ou, antes
pelo contrário, ficam felizes na vida pessoal a despeito de serem mal sucedidos
no trabalho (Rui). Mas, sobretudo, todos se sentem bem neste conjunto.
Apesar disto, acho secundários os pormenores do enredo e as personagens.
A depressão aparente que o filme me trouxe à primeira vista e a esperança que
se seguiu fazem parte da mesma magia que decide sobre a singularidade da arte.
O componente essencial nesta mistura mágica e a palavra-chave para a minha
perceção da criação de Martins é “contexto”. “Um Funeral à Chuva” é um filme de
contexto – em dois sentidos. Em primeiro lugar, como já mencionado, funciona melhor
em ambiente definido – entre os jovens, preferivelmente os estudantes. O que é
mais importante é que, em sentido mais lato, descreve o papel do contexto na
nossa vida.
Por um lado, a morte do João que é o eixo da narrativa, ou melhor, a
reação do pessoal perante a sua visita inesperada na vizinhança faz com que
sentisse o desespero ligado à fraqueza humana, à falta de escolha, de atitude
adequada em face do destino. Os amigos, com exceção do Zé, tentam lutar com o
facto do falecimento do companheiro relaxando-se – bebem vinho, riem-se,
brincam e trazem à luz as memórias – comportam-se como se ainda fossem os
estudantes. Parecem não ter papas na língua nem preocupações nenhumas. No
entanto, pode-se notar que o seu contentamento é ilusório – a reunião é um
baile de máscaras. Todos os participantes estão conscientes da realidade do
problema, mas esperam que se possa enterrá-lo como se fosse um cadáver que
nunca mais viria à tona. As cenas seguintes mostram, porém, que este
procedimento pode fazer sentido.
Os protagonistas começam a aprender como abordar a dificuldade – a sua
fórmula é simples: a unidade que se baseia nas experiências passadas comuns,
restabelecida no presente. Têm de se ajudar uns aos outros, criar um sistema de
apoio próprio, visto que fazem parte da geração que rejeitou o conceito de
Deus, da verdade absoluta e, consequentemente, a comunidade religiosa. A
religião que antigamente era o guia nunca contestado na matéria espiritual, sem
a qual não se tocava no assunto, que explicava a morte e as suas consequências,
perdeu a sua autoridade. Por conseguinte, o plano religioso, além da coleção
das cruzes no apartamento da velhinha devota e a igreja onde se situa o caixão
do João, na realização de Martins é inexistente.
Indo mais longe, a realizadora roça o tema do niilismo – desta maneira
interpreto a disputa entre o Marco e o Zé. O Zé – um professor académico –
sente que os preparativos e a cerimónia de funeral precisam da seriedade e
exige que os companheiros sigam a sua opinião. O Marco – um escritor – não
gosta desta atitude bastante tradicional, mais solene perante a morte (a
necessidade de luto) e acusa o Zé de moralização desnecessária. Sugere que toda
a gente tem direito a experimentar esta dificuldade como quiser e que não
existe a norma universal. Parece que a forma de agir do Marco não provém da sua
indiferença, mas é uma luta interior, uma tentativa de encontrar a crença, os
limites que podia respeitar na sua vida.
Para mim, o filme narra não só a história do João e os seus amigos, mas,
sobretudo, descreve a situação da nova geração que tenta redefinir as regras de
vida, conferir o sentido à existência privada, por eles mesmos, da promessa de
eternidade. Os amigos procuram as respostas sem auxílio, sozinhos, e,
paradoxalmente ou não, encontram-nas na – desta vez não religiosa, mas laica –
comunidade. As suas brincadeiras, as tolices ditas enquanto estão bêbados,
ainda que pareçam não servir para nada, formam entre eles uma ligação,
deixam-lhes gozar da presença de outros. E isto é o reverso da medalha, um
fator animador, o fragmento otimista da mensagem – o que importa no mundo
caótico são as pessoas que nos rodeiam. O João não era exatamente o rei da
festa, mas os amigos aceitavam-no.
Telmo Martins – um jovem realizador português criou um filme cuja ideia
central, se calhar, traduz-se só para o público-alvo – as pessoas de 20, 30 ou
40 anos. Para este grupo a noção do argumentista paradoxalmente, pode parecer
universal. Isto é o mérito principal da produção – a coerência entre a mensagem
da própria obra e a atitude exigida para a perceber. A interpretação do filme
depende do contexto, do mesmo que os protagonistas do enredo tentam encontrar
em proveito da sua vida. Isto, bem provavelmente, pode guiar-lhes aos
paradoxos. Já no século XVII Hamlet na famosa tragédia shakespeariana disse:
“Nada em si é bom ou mau; tudo depende daquilo que pensamos”. Talvez a nova
geração privada de soluções certas, suponha que a felicidade própria reside em
busca da felicidade e o fim é só um meio?
Uma das minhas lembranças da
infância são as festas populares que se celebravam em honra do patrono da
igreja local, são Jacinto. No meio do bonito mês do agosto, quando ainda fazia
calor e as pessoas andavam relaxadas, o Jacinto convidava todos os habitantes
do meu bairro industrial em Gliwice para a sua festa.
Por esta ocasião a rua em frente da
igreja ficava fechada à circulação e estendiam-se as bancas carregadas de
brinquedos de origem chinesa. Os avós generosamente ofereciam aos seus netos
dinheiro que se esgotava num instante. Os miúdos tentados pelos pavilhões com
armamento carregavam as suas pistolas de plástico que ao disparar transtornavam
os sons da música festivaleira e deixavam uma nuvem de fumo asfixiante. Num
ano, o verdadeiro hit eram as grandes e peludas tarântulas com uma corda o que
possibilitava levá-las a passear como se fossem os cãezinhos e aterrorizar desta
maneira os animais domésticos. Noutro, estavam na moda os olhos artificiais em
forma de bolinhas pequenas que depois circulavam por toda a escola.
No pavilhão de doces reuniam-se
todos. As velhotas compravam bolos de mel e os croissants de são Jacinto. As
crianças preferiam uma espécie de pastilha elástica comprida e extremamente
ácida que provocava o concurso de caretas.
O ponto central (o mais excitante)
era o sorteio. O dia todo compravam-se bilhetes, no entanto os prémios mais
valiosos esperavam até à noite, quando toda a gente se reunia para ouvir com
inquietação o veredito. O prémio principal era a figura do nosso patrono, mas a
esmagadora maioria das pessoas preferia obter algum eletrodoméstico. Então,
para que o santo não chegasse a mãos indignas, (para que ninguém o tratasse
como se fosse umaa escultura que serve para enfeitar o jardim) ficava sempre
com ele um dos membros do conselho paroquial.
À noite havia um concerto, em que
não participavam os coros nem músicos gospel, senão as verdadeiras estrelas
pouco brilhantes. Era como um concurso de talentos: os comediantes entretinham
a platéia falando na língua silesiana, havia uma apresentação da escola local
de idiomas que também se ocupava de dança, um grupo de entusiastas cantava os
grandes hits italianos (“não sabemos italiano, nas conseguimos aprender os
textos de cor, porque é uma língua muito bonita”).
E o Jacinto?
Parece que ninguém pensava nele (salvo o feliz dono da sua figura enorme). Se
calhar divertia-se bem vendo a criatividade do seu povo e repousou com alívio
de que esta vez também não partilharia o destino dum duende de jardim.
Quando ouço a palavra «as compras» eu vejo em frente dos meus olhos montes de pessoas quem vão ao supermercado ou à mercearia diariamente para comprar as coisas necessárias para existir. Mas o termo «fazer compras» é mais complicado, porque para cada ser isto pode significar uma atividade diferente.
Para começar, para as pessoas muito ocupadas fazer compras significa ir a uma loja e colocar no seu carrinho os produtos mais necessários para viver. Estas pessoas estão muito impacientes esperando na fila, porque não compreendem como podem perder tanto tempo numa loja, especialmente o tempo que é precioso. O segundo tipo dos compradores são os idosos que gostam de fazer compras porque é um pretexto para sair de casa e encontrarem-se uns com os outros. Dividem-se entre: a) os idosos mexeriqueiros, b) os idosos da época comunista e c)os idosos pobres. Os primeiros adoram ficar no centro da loja e comentar o que se passa ao redor. Não lhes importa que bloqueiam a passagem. Para além disso observam sempre o que tens no teu carrinho e fazem comentários. Os segundos (trata-se especialmente das mulheres), na língua coloquial são chamadas «bolseiras». Elas acham que todo o mundo vai comprar repentinamente todos os produtos que desejam (isto é um vestígio do comunismo). Por isso correm com o carrinho usando os seus cotovelos para dar golpes aos outros clientes e para conquistar o produto único que é o pão quente. O terceiro grupo é formado pelos pensionistas pobres que entram numa loja só para comprar pão, leite e batatas. Os estudantes polacos também formam o grupo específico. Entram na loja e compram sempre as mesmas coisas: pão, chocolate, cerveja e pepinos fermentados. Não precisam de outros produtos: isto é suficiente. Existe também um grupo que se chama os dependentes. Eles são os mais perigosos. Eles adoram fazer compras e podem passar muitas horas no centro comercial. Compram tudo: roupa, cosméticos, eletrodomésticos, etc. O ato da compra é o mais importante, é essencial. Especialmente durante os saldos. Neste período é recomendável evitar as lojas, porque se pode sofrer. Quando vi o filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (Confessions of a Shopaholic) com Isla Fisher e Hugh Dancy eu não podia acreditar que as mulheres podem bater-se por causa duma peça de roupa. Mas uma vez durante a época dos saldos eu vi que duas mulheres lutavam por um blusão e que o rasgaram. Não posso compreender isto. Onde está a boa-educação destas mulheres? E as suas cabeças? Estou certa que não nesta loja. No filme podemos ver que a Rebecca (a protagonista) tem muita roupa e muitas dívidas. E não são só as situações imaginadas, na realidade passa o mesmo. Por outro lado, temos também diferentes tipos das lojas. No centro comercial temos tudo perto. Podemos ir ao cinema, ao cabeleireiro, comprar roupa, calçado, medicamentos e comida no mesmo lugar e dia. Isto é incrível quanto tempo as pessoas passam nos centros comerciais. Alem disso, quando entramos no hipermercado podemos sentir-nos inquietos pelo sentido de espaço. Entramos ali e esquecemos-nos do que tínhamos que comprar. E depois saímos com muitas coisas dispensáveis e com a carteira vazia. Mas não é o único lugar onde podemos perder dinheiro ou a nossa carteira. Na feira também podemos comprar comida e roupa. A comida é mais fresca do que a do supermercado mas temos de ter cuidado com os carteiristas que estão à espera das vítimas. Às vezes porém as pessoas preferem o preço baixo à qualidade e por isso vão simplesmente ao supermercado. Finalmente, acho que o dinheiro e as compras governam o mundo. Não é possível escapar-se das compras e lojas. Mesmo que façamos as compras na internet, compramos algo. É óbvio que deveríamos pensar muito bem antes de comprar uma coisa mas as compras formam uma parte inseparável da nossa vida.
Anna Krupa
Sistema digestivo do consumo
Estou num cruzamento de ruas. Atrás há uma rua. Em frente há uma rua. À esquerda há uma rua. À direita há uma rua. Há tantas ruas que não sei qual é que hei de escolher. Na mão tenho um saco de pano velho. O saco está vazio. O estômago também. Só a cabeça é que não para de encher com pensamentos indigeríveis e pesados. Qual e a rua que hei de escolher?
Esta em frente leva a um supermercado. Um néon deslumbrante convida à caverna da abundância. Umas estreitas passagens entre as estantes entupidas de plástico que prometem o sabor maravilhoso por um preço tão baixo como nunca antes. Nesta caverna não há espaço para as pessoas. Devem escolher sem perda de tempo (a digestão deve ser eficiente, o tempo é dinheiro). A caverna não é para a gente, é a gente que é para a caverna. As mulheres lançam um olhar para um cantinho com os cosméticos e escolhem, pois é ouro para os pobres. As etiquetas prometem maravilhas. Os homens não param, não há nem etiquetas para eles, ou se há, são tão pequenas e escuras como se dissessem que os homens devem perdoar por não se deixarem de enganar.
Esta rua à esquerda leva a um hipermercado. É um micro-mundo, um mundo paralelo: atrás da porta as leis do mundo exterior deixam de funcionar. As avenidas são largas e compridas. As prateleiras cheias de quase tudo estendem-se até ao infinito. Cinquenta tipos de manteiga gritam que as leve comigo. Quero uma manteiga boa, não no meio da selva de cinquenta tipos de manteigas idênticas que sabem da mesma maneira, mas com certeza não a manteiga.
Para atravessar de um ponto a outro precisa-se de ter horas inteiras. Para escolher, horas. Para pagar, horas, e nós como uns lunáticos, loucos andamos entre prateleiras sem saber o que escolher. O hipermercado não foi criado para que os clientes pensassem, foi criado para o consumo. As mercadorias são más, caras ou sem informações sobre o seu conteúdo, pois as etiquetas que estão na embalagem são escritas num idioma com o qual não estamos familiarizados. Não estamos lá para falar e sim para comprar (a digestão deve ser eficiente, o tempo é dinheiro). Só os olhos do caixa, cada vez mais, silenciosamente imploram que o deixem fugir dessa máquina para ruminar a consciência.
À direita há uma feira. Entre as mesas para os jovens, passa gente que geralmente não é mais nova que essas mesas. Os seus olhos ainda não estão tão abatidos nem cansados mas têm que se defender sem parar. A necessidade de digerir é mais forte do que a consciência. Já não compramos para viver, já vivemos para comprar.
Estou no cruzamento. Quatro pontos cardeais, quatro ruas, quatro mundos e um estômago vazio ainda está vazio, mas não quero ser engolida.
A cultura dos países ibéricos para a maioria dos Polacos pode parecer um pouco exótica e cativante. As festas na Polónia incluem sempre uma quantidade enorme de seriedade e de páthos, falta-nos espontaneidade e alegria de celebrar, mesmo quando festejamos os acontecimentos felizes e importantes para nós ou para a nossa pátria. Acho que o motivo desse estado de coisas é o fato de que os nossos temperamentos polacos são completamente diferentes do dos nossos irmãos ibéricos. A leitura das descrições das festas portuguesas e dos costumes que acompanham esses acontecimentos fazem com que me pergunte, por que razão não podemos encontrar em nós a mesma alegria da vida e a vontade de se reunir, pelo menos de vez em quando, na celebração um pouco menos a sério e da maneira ligeiramente mais descontraída? Aparentemente, a seriedade, a falta de distância perante a vida quotidiana, com a tristeza quase inata já estão demasiado fortemente enraizadas na nossa mentalidade.
Estas reflexões vieram-me à mente depois de ler alguns textos na Internet sobre a cidade do Porto, como parte das pequenas “preparações“ para a minha viagem a Portugal em maio. Lamento que não terei a possibilidade de participar na festa de São João que, com a festa de São Pedro e a festa de Santo António é celebrada em todos os países lusófonos. O Porto oferece uma variedade de celebrações ligadas ao nascimento do seu padroeiro mas a culminação delas tem lugar na noite de 23 para 24 de junho. Especialmente para essa noite, a cidade é embelezada e decorada, as ruas estão cheias de pessoas, vozes, cores e cheiros. Diz- se que todo o mundo, não importa o sexo, a idade ou a proveniência, se reúne durante essa noite festiva para divertir-se e passar momentos inesquecíveis, tudo acompanhado pela degustação de pratos deliciosos, tipicamente portugueses como sardinhas assadas, caldo verde ou a presença dos vasos de manjericos com os poemas de quatro versos sem esquecer de um pouco de cerveja ou de vinho local.
As atividades e as tradições ligadas a essa noite igualmente atraem a minha atenção eslava. Gostei especialmente da ideia do lançamento de balões de ar quente que é uma vista espetacular. Também não me posso esquecer da outra tradição que se destaca nessa noite: os martelos de plástico com os quais se bate na cabeça das pessoas aleatórias que passam ou os alhos-porros que se usa da maneira semelhante. Sinceramente, não posso imaginar a implantação da tradição parecida na nossa cultura, embora tente mover a minha imaginação. E vocês, podem imaginar bater alguém na cabeça com o martelo de plástico e a reação possível da pessoa “batida“? :-)
Gostaria também de ver o famoso fogo de artifício que ilumina o céu à meia-noite em ambos os lados do rio Douro, que é o espetáculo aguardado por todos participantes e que faz parte inseparável dessa noite especial.
A verdade é que nós Polacos também temos a nossa própria “noc świętojańska“ ou „ noc kupały”, mas, infelizmente, é muito marginalizada e celebra-se só às vezes em que chamamos “skansen“ da maneira menos, digamos, intensiva. Por alguma estranha razão, estamos mais dispostos a implantar algumas celebrações completamente ridículas como, por exemplo, o Halloween, do que desenvolver e valorizar aquelas semelhantes à festa de São João. Atrevo-me a dizer que ela tem um pouco mais de sentido do que usar uma máscara de zombie e acima de tudo - está relacionada com a nossa cultura e com a identidade europeia.
Mais uma vez
passou pelo nosso centro a linguista Professora Doutora Helena Batoréo da
Universidade Aberta de Lisboa. Desta vez
a temática abordada na sua palestra foi: Linguagem e
Cultura: como estudar a Linguística Cultural no âmbito da Linguística Cognitiva
e Língua Portuguesa, Linguística Cultural e o ensino do Português Língua Não
Materna. Não deixa de ser curioso que uma das maiores especialistas em Linguística Cognitiva do português europeu seja natural de Varsóvia.
Um estilo de dança e um género musical com o nome comum gracioso "kuduro" tornou-se um dos mais intrigantes fenómenos dos últimos anos no mundo da música lusófona. Chama a atenção não só a popularidade que o género ganhou devido à sua mistura da música eletrónica, predominante entre os jovens dos dias de hoje, com o folclore tradicional angolano, mas também a génese do nome (supostamente uma junção das palavras "cu" e "duro" que se referem às características exigidas aos dançarinos para poderem realizar alguns movimentos agressivos que fazem parte da coreografia). O significado do kuduro, porém, é mais abrangente. Como uma arte valiosa, não é só um conjunto dos sons ou dos passos de dança, mas também uma narrativa sobre os problemas atuais do povo angolano, um olhar sobre o espírito do país. A matéria em que o kuduro toca é ainda mais interessante, tendo em conta os acontecimentos recentes na história de Angola – por um lado, o pesadelo da guerra civil, e, por outro lado, a cada vez mais forte posição do país na economia mundial graças aos recursos naturais em forma de petróleo e diamantes.
O kuduro nasceu no fim dos anos 80 em Luanda e Lisboa. As origens estéticas constituem outros estilos angolanos como o semba, a kizomba e a batida que foi o precursor do kuduro com base na música eletrónica europeia e americana enriquecida com a batida tradicional africana. O género tem também influências do soca caribenho e dos ritmos rápidos (130-140 batidas por minuto) techno e house. As letras são rapadas em português angolano ou em crioulo de quimbundo com o uso de calão e abordam os temas do quotidiano e da sexualidade.
A dança e a música são inseparáveis. A dança (que iniciou a evolução do género musical) consta dos elementos de break dance, movimentos dançarinos tradicionais e movimentos teatrais (por exemplo, imitando a ausência dos membros, visto que Angola é um país com uma das mais altas taxas de acidentes com minas). Por conseguinte, é uma mistura verdadeiramente única.
Às vezes o kuduro é discutido no contexto do chamado global guetotech, quer dizer, a música da periferia que se alastra pela Internet e por vias informais. Como um fenómeno na música eletrónica espalhado pelos países lusófonos (por exemplo, uma versão mais pop e aguada foi mesmo escolhida como música-tema da novela Avenida Brasil, da Globo, graças às semelhanças com o funk carioca) e pelas pistas de dança em torno do mundo, o kuduro, infelizmente, raramente provoca entre a audiência uma reflexão sobre a sua proveniência. Os álbuns da série Kuduro Sound System ajudaram a promover os sons dados à luz pela terra africana, mas, ao mesmo tempo, funcionaram virtualmente fora do contexto político e social.
A música, entretanto, tinha o papel relevante no desenvolvimento da chamada angolanidade (patriotismo cultural angolano) devido à criação das canções em línguas nacionais (como quimbundo e umbundo) com a utilização dos instrumentos nacionais. Angola sofreu muito nas últimas décadas. Em 1961 rebentou a guerra de libertação. Depois de cerca de 500 anos do colonialismo português, a Revolução dos Cravos em Portugal em 1974 levou a Angola a independência, mas também precedeu outra guerra – desta vez civil – que terminou finalmente em 2002. O conflito destruiu a economia, as estruturas sociais, ao passo que as atividades culturais foram frequentemente forçadas ao exílio.
Enquanto isso, a música foi a chave para inserir dentro do povo a noção de Angola como o país próprio. Desempenhava este papel, bastante político, desde os anos 50, mas após a independência em 1975 as coisas tomaram um rumo para o pior em termos da criatividade e da liberdade de expressão. A atmosfera cultural em Luanda e uma estrita censura forçou os artistas a politizarem a sua obra para os fins do estado. Até hoje, também no caso do kuduro, a propaganda política intervém na música, a maioria das vezes por meio do sistema de patrocínio.
Os investigadores destacam no contexto social três plataformas propícias para o kuduro: além de Luanda, existe a cena de Lisboa e a música marca a sua presença em pistas de dança do resto do mundo. Perante uma perspetiva angolana, a terceira área pode ser negligenciada.
Luanda – a capital do país e do movimento – é uma metrópole de cerca de sete milhões de habitantes. A maioria do kuduro em Luanda é produzida em estúdios nos musseques ("zona de areia" em quimbundo, isto é, nos bairros suburbanos ocupados por população com menos recursos, equivalentes dos bairros de lata portugueses ou das favelas brasileiras). O kuduro, da mesma maneira que muitos movimentos musicais de guerra antes dele, está ligado ao ambiente de gueto. Esta procedência é visível na rivalidade entre os kuduristas dos vários musseques, que consideram os seus guetos como os reinos. Na plataforma de Luanda a música é profundamente integrada no contexto sócio-histórico.
Quanto à plataforma lisbonense, a integração não é tão clara, mas o facto é que os representantes desta cena tentam manter a relação da música criada por eles com a origem africana. O kuduro em Lisboa desenvolveu-se através dos refugiados da guerra civil angolana, especialmente nas periferias de Lisboa. O estilo distinto desta variante chamado kuduro progressivo é mais sofisticado do ponto de vista técnico. O kuduro angolano serve-lhe como o modelo e as bandas como a mais conhecida os Buraka Som Sistema combinam-no com as tendências observadas na música de dança europeia, nomeadamente, o dubstep britânico e o hip-hop. Outras bandas como os Batida e os Makongo também se referem à cultura angolana contemporânea ou antiga.
Hoje em dia, as condições e os temas da criação são muito diferentes em comparação com os inícios do género. Há equipamento suficiente para produzir a música em Luanda. A possibilidade de viver no ambiente precário faz com que os artistas possam ser mais autênticos do que os músicos criando, por exemplo, em Lisboa.
Esta autenticidade, expressa em Luanda e procurada na medida do possível em Lisboa, transforma o kuduro em algo mais do que só uma dança e uma música. Torna-o um ecrã em que se pode ver a Angola contemporânea, encontrar os vestígios da história do país, bem como os problemas atuais e, sobretudo, a voz dos cidadãos, a sua atitude perante os desafios, a sua crítica social e uma dose de otimismo na sua celebração da sobrevivência, sem se importar com os obstáculos. Afinal de contas, os kuduristas, tal como o nome indica, não deviam ter medo de cair.
Há superstições em todo o mundo.
Cada país tem as suas tradições e crenças que muitas vezes são consideradas uma
parte do património cultural. Por exemplo, na Polónia agarram um botão quando
veem um limpas-chaminés porque acham que isto dá sorte. Os italianos acreditam
que o espirro do gato traz felicidade. Para os gregos, terça-feira é o dia de
má sorte. Os japoneses pensam que matar uma aranha pela manhã é destruir uma
alma humana. E os portugueses? Os portugueses também são supersticiosos.
Fique sabendo que as superstições
ajudam a explicar muitos fenómenos. Compreender os medos, mitos, tabus,
provérbios, lendas e folclore pode ajudar a obter um alguma informação sobre
todos os tipos de raridades culturais. As superstições têm o potencial de
afetar tudo. Nem todos confessam que acreditam, mas passadas de geração em
geração, as superstições populares ganham terreno, espalham-se e resistem ao
tempo e ao avanço da tecnologia. Quem é que ousa passar por baixo de uma
escada? Quem é que gostaria de ver um gato preto atravessar-se à sua frente? E
que o noivo não deve ver a sua amada vestida de noiva antes da cerimónia,
também toda a gente sabe.
As superstições não têm qualquer
razão científica mas há gestos que evitamos no nosso dia a dia. Não se sabe ao
certo a origem exata de como a superstição começou influenciar a vida do homem.
Mas com certeza essas práticas que existem hoje têm a sua origem em tempos
antiquíssimos. Antes, os povos não tinham conhecimento suficiente para dar
respostas às coisas que aconteciam nas suas vidas, e como consequência disso,
começaram a criar superstições e crendices. Logo, o caminho da superstição
abriu portas para ao mundo da magia, feitiçaria e bruxaria. Pouca gente sabe
que a bruxaria foi muito popular em Portugal. Especialmente nas aldeias no
norte de Portugal a crença em bruxas era comum. Quase todas as aldeias tinham
os seus praticantes de magia que protegiam os habitantes dos espíritos maus.
Mais tarde, as gentes perderam essas crenças populares e desistiram de práticas
mágicas, mas uma forte corrente de superstição ainda permaneceu em Portugal.
Apesar da prática mágica realizada
há séculos, os portugueses são profundamente religiosos e supersticiosos. O seu
catolicismo formal é misturado com práticas e crenças pré-cristãs. Eles,
especialmente os habitantes das áreas
rurais, dão muita ênfase à adoração dos santos, porque acreditam que isto
curará todas as doenças. A famosa frase: "Se Deus quiser" é a
resposta automática de muitas mulheres idosas a alguma notícia sobre o futuro
como para lembrar que se pode morrer antes de amanhã.
Existem também as superstições não
relacionadas com a vida cristã ou com as crenças antigas, estas consideradas
uma curiosidade trivial, que dão sabor à vida. Umas mais ridículas, outras mais
verossímeis, mas a maioria respeita-as. E enquanto alguns podem rir, muitas
pessoas não querem abusar da sorte.
Por que é que as carteiras ou malas de mão
não devem ser deixadas no chão? Não é porque é mais fácil roubá-los - na
verdade, é mais fácil roubar uma bolsa pendurada no encosto de uma cadeira de
que uma escondida entre os pés debaixo da mesa - é porque mantém o dinheiro
fora. Isto é uma das superstições portuguesas mais interessantes. Além disso,
os portugueses têm muitas superstições concernentes aos alimentos. Por exemplo,
acreditam que deixar um copo de vidro cheio de sal grosso no canto da sala,
traz sorte. Do outro lado, o pão não
deve ser colocado na mesa virado para baixo, porque isto dá azar. Também, não
se deve beber água de noite, porque ela está a dormir. Quando alguém tem sede
de noite e quer bebê-la, é necessário acordá-la batendo. O que é interessante é
que os portugueses prestam muita atenção ao lado esquerdo. A esquerda
representa o lado positivo, o lado do coração, por isso todas as superstições
relacionadas com ele trazem uma boa notícia. Tem um zumbido no ouvido esquerdo?
Alguém está a falar bem de nós. Treme o olho esquerdo? Boas notícias. E há
muito mais. Por outro lado, o pé esquerdo não traz sorte. Os
portugueses dizem que se deve sair de casa e entrar em qualquer lugar,
sempre com o pé direito, para evitar o azar. Também, tropeçar com o pé direito
é sinal de alegria que está para vir. Além disso, em Portugal deve-se lembrar
de não abrir um guarda-chuva dentro de casa. Isto traz desgraça e má sorte à
família. Durante a preparação da cerimónia do casamento também se devem lembrar
várias crenças. Disso pode depender toda a vida futura dos cônjuges.Se chover no
dia do casamento, diz- se: “casamento molhado, casamento abençoado” Isso é
sinal de felicidade. Mas, se no casamento qualquer dos nubentes ao colocar a
aliança no dedo do outro a deixar cair, isso é sinal de infelicidade. Então, tenha cuidado para não cometer algum erro enão atrair a desgraça sobre si.
Portugal, como qualquer outro pais,
é supersticioso em maior ou menor grau. Isto faz parte da cultura e da
identidade portuguesa. O conhecimento de algumas das superstições portuguesas é
essencial para compreender os costumes e a tradição deste pais. Algumas são mais estranhas e
ridículas, outras bem conhecidas das outras nacionalidades – todas
existem. E as pessoas , mesmo as que se riem ainda acreditamnelas eseguem-nas.
Quando era pequena, gostava do cheiro do cinema. Sim, simplesmente o
cheiro. O filme não era tão importante. Só o cheiro das pipocas e a esperança
fútil de que vou beber uma coca-cola grande. Com este ‘aparelhamento’ tão
gorduroso e cheiroso, gostava de me esconder debaixo dos assentos e apenas de
imaginar, quais são os personagens que aparecem no filme. Agora faço o mesmo.
Vou ao cinema, sozinha. Não compro o bilhete nem as pipocas, nem a coca-cola.
Não digo nada a ninguém. Entro na sala em silêncio e sente-me na fila da
frente. Tiro o meu casaco, desligo o telemóvel. Por um momento, olho, de
soslaio, para a tela em branco e ouço o silêncio... Instintivamente fecho os
olhos, involuntariamente abro a boca, respiro... e começo a minha viagempelo mundo cheio das imagens, sons e diálogos
que vivem na minha memória.
A estação número I
A Joanna, chamada carinhosamente de Joaninha, 3 anos
Uma menina pequena, com o cabelo de cor não
identificada, que já é muito comprido, caminha orgulhosamente ao lado do seu
pai e do seu tio. Ela vai ao cinema pela primeira vez! Não sabe nada sobre a
vida, nem sobre filmes, mas quer ver um leão que alegremente dança e canta. Ela
está muito animada, mas o desejo de ver "O Rei Leão" é mais forte
do que a vontade de fazer xixi, portanto bravamente aperta a bexiga e sem
fôlego, entra no mundo dos animais animados.Depois das duas horas da sessão, não se lembra de
muito, mas a cada manhã tenta rugir como o Simba.
A estação número II
A Joanna tímida como uma borboleta, 6 anos
A menina já não ruge como um leão, mas lê fluentemente
os livros sobre o Castelo Real Wawel em Cracóvia. Não gosta de falar muito, portanto
foge para o mundo das letras e imagens. Todos os dias antes de ir dormir liga a
televisão e conversa com uma menina orfã que se chama Madeline. "As
novas aventuras de Madeline" é para Joana como o encontro com a
melhor amiga que vive grandes aventuras em cada episódio desta série. A
Madeline mora no Orfanato de Lorde Croissant onde é guardada pela sua tutora, a
Senhora Clavel, que é uma freira. É possível que por isso, sete anos depois, a
Joanna, não totalmente madura, escolha uma escola católica onde as freiras lhe
ensinam... Que trauma tão grande!
A estação número III
A Joanna que já sabe o que é amor verdadeiro, 10 anos
Senhorita Joanna descobre em casa uma colecção dos
livros "Harlequin". Secretamente assiste aos filmes para adultos.
Enquanto isso conquista novos corações. O tempo ideal para conhecer a história
do "Titanic".
O filme tão dramático e emocionante! A Joanna não entende por que o DiCaprio
abraça a sua amada no carro, com tanta força, mas junto com sua mãe, chora
amargamente durante todo o filme. Primeira vez, mas não última vez... Pobre
Jack! ...Jaaaack?! Jack! Jack!!! Come
back!
A estação número IV
A Joanna que está á procura de novas inspirações, 12
anos
A senhorita com a experiência de vida grandíssima, já
está farta do amor. Por isso, decide desistir de todos os seus amores
"eternos" e começa a dedicar-se à paixão. Pelo menos uma vez por mês,
vê ao filme "Dirty Dancing" e dança apaixonadamente com os atores
na cena final. Ela sabe perfeitamente que um dia, vai dançar tão bem como eles!
A estação número 666.
Trevas, mal e vampiros, isto é a Joanna Dark, a versão
gótica, 16 anos
A vida tenebrosa da Joanna está cheia da poesia de
Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Tadeusz Miciński. Por isso o filme "Eclipse
Total" é tão importante para ela. Não só inspira, mas também
mostra que o DiCaprio porém é o ator excelente. A menina que chamam de bruxa,
tenta assistir aos filmes de terror. Brevemente range os dentes e liga "13
Fantasmas". É uma obra totalmente sem valor artístico. Não é terrível,
mas ela está com muito medo. Depois desta sessão de cinema, a Joanna tem
certeza que não pode assistir aos filmes de terror. Mesmo sem som...
A estação número VII
A Joanna, uma
estudante muito aplicada, 18 anos
A Joanna, já adulta, está a preparar-se para os exames
finais da escola secundária. Portanto, vê muitos filmes biográficos, em
particular sobre os pintores famosos. " Rapariga com Brinco de Pérola",
"Os Fantasmas de Goya" ou "Frida" são os
filmes que ainda estão na sua memória...
A estação número VIII
A Joanna que fica no cinema e pensa que está sozinha,
20 anos
É muito tarde. Depois de uma longa viagem através da
sua memória, a Joanna abre os olhos. A menina não está ciente de quantas mentes
estrangeiras há em torno dela. Não importa. Não importa, porque na grande tela
começam a projetar o filme "Pina". Um documentário
alemão em 3D. As pessoas no cinema emudecem, apagam as luzes. Alguns segundos
de silêncio e começa uma nova jornada. Desta vez, uma jornada através de
movimentos, sons e gestos. A verdadeira adoração do corpo humano. Arte,
precisão, perfeição. Sem palavras e sem fôlego, como a pequena Joaninha de três
anos, Joanna afoga-se na dança. Está feliz. Está muito feliz. E... queria que
esse momento durasse para sempre.
Em
maio de 2012, para celebrar o décimo aniversário da reconquista da independência
de Timor-Leste, o mais importante escritor timorense, Luís Cardoso, foi
convidado para visitar Cracóvia. Esta iniciativa fez parte de um projeto maior*
que envolve a popularização da língua e da cultura dos países lusófonos. O
encontro acompanhou a estreia dos fragmentos dos seus romances em polaco, Crónica
de uma travessia, Olhos de coruja olhos de gato bravo e Requiem
para o navegador solitário, publicados no “Roman” - jornal dos estudantes
do Instituto de Filologia Românica da Universidade Jaguelónica.
Luís
Cardoso nasceu em 1958 na ilha de Timor e recebeu a sua primeira formação no
colégio missionário, uns anos depois terminou os estudos universitários em
Portugal e lá ficou. Não podia regressar à sua pátria por razões políticas- naquela
altura Timor estava ocupado pela Indonésia. Apesar disso, sempre foi um
representante e um defensor da questão timorense na arena internacional. O seu
país é muito jovem, pode desfrutar-se da liberdade e da independência só há 10
anos. No entanto, ainda sofre das repercussões dos tempos da ocupação e da
isolação.
Nos
seus livros o autor aproxima o leitor da “terra onde nasce o sol”, como é
chamado Timor. Apresenta a diversidade étnica do povo timorense, a sua história
e a cultura que é profundamente arraigada na tradição impregnada pelos ritos e
mitos. Ainda a mesma ilha tem a sua própria história no que se refere à sua
origem. Acredita-se que foi criada do corpo do crocodilo que chegou ao fim do
mundo com o primeiro habitante nas suas costas. As lendas deste tipo constituem
uma parte intrínseca do universo timorense. Durante o encontro com Luís Cardoso
tive uma oportunidade única de escutar contos da sua infância em Timor. Como
ele é um contador maravilhoso podia com as suas histórias “transportar” a sua
audiência para este sítio mágico onde se encontram o mundo terrestre com o espiritual
e o sobrenatural.
É
interessante como o povo tão afastado da nossa cultura europeia pode perceber o
mundo. Na visão dos timorenses o mundo é capaz de virar-se do avesso só para
desviar os intrusos. O truque chama-se rain-fila
e se alguma pessoa se dá conta de que o truque foi feito, deve despir-se e pôr
a roupa do avesso para encontrar o seu caminho correto. Em Crónica de uma
travessia, uma personagem que está em Portugal faz este rito em frente de
um grupo de pessoas. Eles ficam muito surpreendidos, mas também estão inconscientes
totalmente do que acontece.
Uma
das histórias contadas durante o encontro com Cardoso referia-se ao espírito da
mulher grávida, uma pontiana, que
assombra durante a noite e o encontro com ela pode provocar a insanidade. Além
disso, diz-se que se à meia-noite os meninos dormem de boca para cima enquanto lá
fora um pássaro canta, uma pontiana aparece e arranca os corações deles. Cardoso
revelou que a mãe dele para proteger o seu filho adormecido virava-o sempre
para que ele ficasse de costas para a janela. Também, o autor acrescentou que
durante a sua infância queria sempre encontrar uma pontiana porque a lenda diz
que ela é uma mulher muito bonita.
Quanto
aos espíritos deve-se mencionar os dos antepassados.
Eles não se separam do seu povo, estão sempre presentes porque habitam os
corpos de tubarões que vivem nas águas que rodeiam a ilha. Os timorenses
respeitam muito os espíritos ancestrais. Se eles ficam ofendidos por algum
motivo podem provocar uma tempestade. Também, como eles já viveram a vida têm
uma sabedoria grande e podem ajudar a resolver os conflitos. Portanto, se dois
homens não podiam chegar a acordo em alguma questão, o povo mandava-os ao mar,
aos tubarões e quem regressava tinha razão.
Estes
são alguns dos mitos ainda vivos nos lares timorenses. Contudo, não se deve
esquecer do que a população timorense também é católica e trata a sua religião
com uma devoção verdadeira. É admirável como estas duas esferas coexistem sem
evocar os conflitos. A realidade timorense com o seu imaginário mágica não só surpreende,
mas também fascina. Que pena que Timor-Leste fica tão longe da Polónia!
*
o projeto realizado pela Fundação Lusorizonte, o Instituto da Filologia
Portuguesa UJ, o Instituto de Camões em Cracóvia e o Círculo Académico da
Língua Portuguesa UJ
Quando
andava na escola secundária todos os alunos tinham de participar na MAF -
academia de cinema. Todos os meses íamos ao cinema para ver um filme bom,
não popular. Eu fui só uma vez e isto foi uma experiência tão aterradora
que depois não fui ao cinema durante dois anos.
Quando
o filme não tem muitos admiradores, não podemos dizer que é mau. É bom,
difícil, que não compreendemos, porque somos estúpidos. Filme mau podemos
considerar algum filme popular, porque é claro, que toda a gente quer ver as
piores coisas e perder o tempo. Também há grandes êxitos de cinema, que ganham
prémios e têm muitos admiradores. Por exemplo A Origem (Inception). Vi 30 minutos fiquei aborrecida e o meu irmão
disse: "Isto é bom, vais perceber depois." Então, eu estou a ver um
filme bom, mas ainda não sei isto. Faz sentido para mim.
O
género de filme mais adorado e, ao mesmo tempo, mais odiado é o filme de
terror. Para algumas pessoas é muito divertido, enquanto outras têm depois medo
de sair do quarto à noite. A única coisa em que os realizadores deste
género estão a pensar é o medo, o medo e o medo. Não veem nada mais e
por isso criam as cenas assustadoras e ilógicas. A luz está acesa durante o dia
e desligada à noite, quando os heróis esperam o monstro. Quando
o monstro chega, fogem para o telhado. Além disso, os filmes de terror
contemporâneos não têm a tendência para assustar, mas para ser repugnantes. Um
saco de molho de tomate e alguns ossos de plástico não influem nas minhas
emoções, mas faz-me lembrar o jantar, que não devia ter comido.
A
comédia romântica é como o porquinho da Índia: não é porco, nem da Índia. Ver
uma é como ver todas. Não há nada para contar: as mesmas personagens, o mesmo
enredo, as mesmas piadas, ainda os mesmos detalhes e os mesmos atores. Nunca
ficamos desiludidos com estes filmes, porque cada vez que vamos ao cinema ver
uma comédia romântica, sabemos perfeitamente o que vamos ver. É o filme ideal
para as pessoas que não gostam de surpresas e têm muito tempo para perder.
Há
uma grande diferença entre a comédia da América do Norte
e "a comédia norte-americana". O fundamento de boa piada é
a conclusão surpreendente, imprevista. Sydney Pollack sabia isto perfeitamente
e por isso Tootsie - que representa o
cinema da América do Norte - é o segundo filme na lista dos filmes mais
engraçados da história. Os realizadores das comédias norte-americanas querem
ser mais imprevisíveis, por isso incluem na conclusão os elementos irreais.
Assim, é claro que o espectador vai ficar surpreendido. Pela primeira vez e
depois? Como as piadas que seguem o mesmo esquema podem provocar o riso por uma
hora e meia? Para ser justo: o filme mais engraçado da história é Quanto mais Quente Melhor. Então,
podemos ver que gostamos das piadas norte-americanas ou homens vestidos de
mulher.
A
Disney é o estúdio, que lança os melhores desenhos animados, que sempre mostram
o mundo bonito e feliz. As crianças ainda têm tempo para saber que não é assim.
Por isso a Disney muda um pouco os contos de fadas e as lendas. Na versão
original de A Pequena Sereia o
príncipe casou-se com a outra princesa. As irmãs da Pequena Sereia deram-lhe a
faca para matar o príncipe, mas ela preferiu suicidar-se. As irmãs da Cinderela
cortaram os dedos dos pés antes de experimentar o sapatinho. Pocahontas foi
raptada pelos ingleses e morreu pouco depois de chegar a Londres. Por
outro lado, a heroína chinesa Mulan não teve grandes problemas quando os outros
soldados descobriram que ela era uma mulher. Foi a Disney quem quis
matá-la por isso.
Eu
escrevi no princípio, com ironia, que só os filmes maus atraem o público. Não
tenho certeza se isto é sempre a ironia. The
Room foi considerado um dos piores filmes já feitos, mas também
é muito famoso porque lançar uma coisa tão má, tão ilógica, com os atores
tão maus, com os diálogos tão estúpidos, sem uma única cena feita corretamente
é a verdadeira arte, que precisa de muito talento. O realizador, guionista e
ator foi Tommy Wiseau. É o homem mais feio que já vi. Não sei o género deste
filme nem qual é o enredo, mas adoro vê-lo, é uma experiência sem igual.
Há
muitos prémios, listas dos filmes melhores e dos piores, resenhas dos críticos
reconhecidos, que servem para classificar o que vale a pena ver e o que
não. Na verdade a única pessoa que tem o direito de decidir o que gosto de ver
sou eu com o meu gosto estranho, mas isto não significa que é o mau gosto.
Outra vez o outono. Os dias são mais curtos, está frio e chove muito. Já não posso passear durante horas (e não quero). Até apanho o autocarro para a universidade e de volta para a casa preciso dum chá quente. Desejo deitar-me um dia e acordar na primavera, quando as árvores estejam em flor. Queria ser um urso, mas ainda tenho coisas por fazer e não posso cair nos braços do Morfeu, assim afundo-me em “meio-sono”. Vejo filmes. Foi complicado pensar num filme importante para mim. Na infância tinha muitos modelos para seguir, mas com o tempo esqueci-me deles e criei uma personalidade própria e original, não duma princesa Disney. Finalmente, decidi-me pelo último filme que vi no cinema: “Skyfall”.
Um dia um amigo meu telefonou-me e perguntou se tinha alguma coisa para fazer nessa noite. Costumo dizer que não tenho nada importante porque, muitas vezes, assim consigo uma cerveja ou comida grátis. Desta vez foi ainda melhor porque recebi um bilhete de cinema. Naquele momento não percebia que a minha decisão iniciaria uma espiral de desgraças e mexericos.
Gostei muito do James Bond, mas a amante do protagonista não era boa atriz. Não comi pipocas, não falei pelo telemóvel, também não fui à casa de banho. Portei-me bem. Mas depois do filme vi que tinha cinco chamadas perdidas. O meu namorado estava zangado comigo e senti a obrigação de falar com ele. Normalmente não minto e naquele momento também não queria mentir. Contei-lhe que estive no cinema com um amigo. Desligou a chamada. Desde então a minha vida mudou muito. Parece um filme. O meu namorado tinha espiões que supostamente me viam com o mesmo amigo pela rua, juntos, de mão dada. A cada dia, hora, minuto, segundo, os mexericos eram mais interessantes. Uma paixão descontrolada, fugas secretas para a casa dele, uma relação misteriosa. Não! Uma seita satânica e comércio de órgãos.
Depois duma semana dentro dum filme de suspense, começou a parte dramática. Eu estava irritada. Queria falar com ele, mas não era possível. Tinha monólogos com um boneco calado, deprimido, estranho. Só esperava que explodisse duma vez. E explodiu. Gritou-me no meio da rua e deixou-me sozinha.
Agora sou solteira e nunca imaginei que um filme pudesse alterar tanto a minha vida. Mas, ainda assim, gosto do James Bond. É o meu herói tanto no grande ecrã como na vida real.
Como toda a
gente, tenho a minha própria ideologia. Creio que uma certa ordem no mundo é
crucial e sigo as regras desta ordem. Não gosto quando alguém destrói a minha
visão do mundo perfeito.
Não me irritam
pessoas ou coisas em particular, mas certos grupos e os seus esquemas de
comportamento. Nada me dá pior dor de cabeça do que os conservadores. São
as pessoas que cultivam as tradições mais antigas da cultura polaca. Entre
outros, escrevem como os seus antepassados da Idade Média, então não usam
pontos, vírgulas, maiúsculas nem outros elementos indispensáveis para
compreender o texto. Eu não vou adivinhar o que o emissor queria dizer e
peço-lhe que repita (irrito-o muito) até que escreva de forma compreensível.
Faço o mesmo com os adeptos do futurismo. É um
movimento artístico e literário da primeira metade do século XX, que aprecia o
valor da originalidade e a criatividade. Não conheço pintores ou arquitetos que
representam este estilo, mas há muitos escritores. Eles sabem as regras da
ortografia polaca, mas, para serem excêntricos, não as seguem. De quando em
quando esquecem-se disto e escrevem na mesma frase uma palavra duas vezes: uma
corretamente e a outra futuristicamente. Irrita-me esta falta de coerência.
Eu sei que é muito importante conhecer outras culturas
e outras línguas. Viajar pelo mundo faz-nos mais sábios e tolerantes.
Se calhar devo viajar mais, porque não tolero os poliglotas. Quando
conhecem uma palavra nova, geralmente inglesa, esquecem-se imediatamente da
palavra polaca. Depois escrevem frases em duas línguas ainda que não haja
nenhuma razão para fazer isso. Nas aulas na escola primária ensinavam-me que
metade de um burro e metade de um sapo não é igual a um animal.
Respeito todas as pessoas que se interessam por alguma
coisa e não me importa se jogam xadrez, se ouvem Justin Bieber. Também respeito
os cinéfilos, mas isto não significa que eles não me irritam. Eles conhecem
todos os filmes novos, conhecem os atores, sabem quem é mau, que é um bom ator,
predizem que filme vai ganhar o Oscar. Isto é incrível. Para mim um filme é só
um filme. O que é mais incrível é que os cinéfilos não sabem a diferença entre Star Trek e Star Wars. Chewbacca não era um amigo de Spock e Picard não lutava
com um sabre de luz. É óbvio!
Irritam-me muito as minhas fraquezas, sobretudo a
indolência. Tenho sempre o plano de fazer todo o trabalho de casa durante o fim
de semana, mas ver pela quinta vez Prison
Break é mais importante do que escrever uma composição.
Detesto a situação quando não tenho ideia do que
escrever. Os meus amigos tentam ajudar-me, mas geralmente as suas sugestões são
piores do que a minha falta de ideias. Por exemplo, eu pergunto: "O
que te irrita?" "Tudo." "Nada." "Os patos que atravessam
a rua." Não vou escrever isto, eu gosto de patos.
Há também um grupo de pessoas piores de tudo. Eles
enervam-me imenso: despertam o Mr. Hyde,
provocam a Terceira Guerra Mundial, acendem o rastilho das toneladas de
explosivos, arriscam as suas vidas. São as pessoas que não compartilham chocolate
comigo.
Está frio. Chove e há muito vento. Infelizmente não tenho nenhum guarda-chuva, então, a cada segundo, pareço mais e mais um rato afogado. Sem dúvida, não estou feliz. Não posso fingir que tudo está bem. Estou furiosa. Sim, furiosa, zangada, irritada...e ela já está atrasada meia hora. Outra vez é impontual. Não quero ouvir outra vez as suas desculpas estúpidas. Finalmente chega. Respiro fundo, sorrio e sem palavras vou levá-la para um café.
O meu pequeno café preferido está fechado. Temos de mudar de lugar. Agora estamos numa pastelaria onde só se podem ver casais apaixonadas que não param de se beijar e abraçar. Isso dá-me vontade de vomitar, mas a chuva não nos permite deixar este “jardim do amor”. Estamos ansiosas por um café que já está a fazer há 15 minutos. Tento concentrar-me na música do rádio, mas... isso não é uma boa ideia. Só modernas batidas tecno que não têm nada para oferecer. Estou irritada, sem palavras, e sem café, saímos deste lugar.
Ainda está a chover, portanto vamos para a paragem apanhar um autocarro. Muita gente espera impacientemente para voltar para casa. Infelizmente a chuva é forte e o engarrafamento em hora de ponta atrasa tudo. Estamos um pouco chateadas e irritadas. Além disso, um homem alto com uma barba ruiva está a fumar bastante perto de mim. Não me vê porque está ao telefone. Portanto, não percebe que todo o fumo que lança da boca está a voar diretamente para mim. Quero dizer-lhe algo desagradável mas alegremente chega o nosso autocarro. Subimos.
A minha primeira impressão é que não estamos no autocarro número cinco, mas no meio do deserto cheio de pessoas suadas. Sem ar, sem água, sem espaço. Já é segunda vez que quero vomitar mas... não tenho nenhum lugar para fazer isso. Estou irritada, muito irritada. Acho que neste momento sou a pessoa mais irritada do mundo.
A paragem de autocarro número um, a paragem número dois, a paragem número três, quatro, cinco, seis... ufff. Por fim, deixamos o deserto de suor e fedor. Continua a chover por isso os meus sapatos de camurça estão completamente molhados. Sem dúvida vou ficar doente. Maravilhoso!
A minha amiga sem nome, mas com galochas, pode cantar e saltar sobre poças, o que me irrita ainda mais. Já não quero vomitar, eu quero matá-la, mas finalmente e alegremente, chegamos à minha casa.
Esperava descansar um pouco mas depois de três minutos vejo perfeitamente que hoje isso não é possível... O meu querido irmão, grande músico, está a tocar saxofone. Não sei se há no mundo um instrumento cujo som me irrite mais. Educadamente digo "adeus" à minha amiga, corro para o meu quarto, fecho a porta, fecho os olhos, trato de tapar as orelhas também e cheia da irritação, vou dormir com a cabeça debaixo do travesseiro. Estou a dormir! Estou a dormir e a sonhar com o dia mais irritante da minha vida.
No passado dia 12 de novembro
decorreu o primeiro concurso de ortografia organizado pelo Centro de Língua
Portuguesa do Instituto Camões em Lublin. Apresentaram-se 17 concorrentes no
que mais parecia um duelo Lublin versus Cracóvia, uma vez que da terra do
dragão do Wawel vieram nove estudantes. Os restantes eram alunos da UMCS. Apesar
de jogar em casa a “seleção” de Lublin não venceu mas ocupou os restantes lugares
do pódio:
Primeiro
lugar: Katarzyna Kuźnik – Universidade Jagellónica de Cracóvia
Segundo
lugar: Zyta Padała – Universidade
Marie Curie Sklodowska de Lublin
Terceiro
lugar: Monika Dobrowolska – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin
Além disso, o júri decidiu ainda distinguir:
Daria Mikocka – Universidade
Jagellónica de Cracóvia
Anna Betlej - Universidade
Jagellónica de Cracóvia
Paulina Pałyska – Universidade
Marie Curie Sklodowska de Lublin