segunda-feira, 6 de maio de 2013

O arco-íris do meu universo

Ontem em Portugal foi dia da mãe . Por isso as linhas seguintes são dedicadas a todas as mães...do mundo:)


O papel da mulher na época moderna não é fácil. As mulheres não são tratadas de forma igual aos homens. Ainda não têm os mesmos direitos que os homens, mas têm as mesmas obrigações. Além disso, têm de ligar tanto com as obrigações profissionais como com as tarefas domésticas. Em minha opinião há muitas mulheres que se safam conseguem fazê-lo bem. Uma deles é a minha mãe. Pensei muito sobre quem escrever: Uma cientista, atriz, médica, professora, cabeleireira?... Mas por que escolher só uma cor quando se pode ter um arco-íris inteiro? 
  A minha mãe é médica. Sempre sabe o que é que me dói mesmo quando eu mesma não o sei. Não é preciso perguntar o que é que deve ajudar-me porque ela já o sabe. É Esculápio quando liga o meu joelho outra vez na mesma semana dizendo que não haverá cicatriz ou se houver – todos os heróis têm cicatrizes de guerra. 
  A minha mãe é política. Sabe manobrar entre os partidos da minha família. Entre quatro fações cada uma quer outra coisa e não quer desistir nem retirar nem sequer um passo. E ela sabe fazer a paz de tal forma que todos acham que ainda têm poder. 
  A minha mãe é cosmonauta. Leva-me numa viagem espacial. Só fecho a boca, abro os olhos e olho na direção que me mostra. E permite-me voar e tocar os planetas e ter sempre os bolsos cheios do pó das estrelas. Aposto que foi a minha mãe quem foi primeiro à Lua. 
  A minha mãe é viajante. Com ela não tenho medo de serpentes venenosas nem elefantes selvagens que atravessam o bosque. É com ela que adoro apanhar morangos silvestres ou estirar-me na clareira no meio da floresta. Com ela nenhuma montanha é alta demais para atingir o cume e nenhuma rota demasiado comprida.
   A minha mãe é detetive. Sabe onde se escondem as meias (maliciosas!). Nenhum cogumelo está bastante camuflado. Nenhuma cara triste passa despercebida. Sempre sabe o que é que se passa embora não estivesse lá nem perguntasse pela razão. A minha mãe é cozinheira. É capaz de criar uma refeição de numerosos pratos para que todos tenham algo saboroso para si, mas também pode cozer só um prato tão delicioso que todos gostam e desejam comer mais uma dose. A minha mãe é Buddy Valastro e Gordon Ramsay em um, mas melhor porque sabe que, sobretudo os morangos são reis da nossa mesa. 
  A minha mãe é construtora. Sabe pregar pregos, fazer pérgulas e fixar as portas do armário. Com um lápis e uma folha e um pouco de tempo cria um verdadeiro avião, barco e dinossauro tão grande como eu. Acho que com muitas folhas poderia criar um farol, pirâmide e todas as sete maravilhas do mundo. 
  A minha mãe é sonhadora. Nunca se rende. Luta sempre pelo que acha importante. Não concorda com que os outros tomem as decisões que ela deve tomar. Não se esquece de que atrás das nuvens há sempre sol. Não deixa que o seu mundo se torne negro. A minha mãe é o arco-íris: tem todas as cores do meu universo.

Anna Kułak, II ano de Filologia Ibérica

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Vamos às compras!? Outra vez...

Sou mulher e não gosto das compras - esta frase é quase como um oximoro. Mas eu realmente não gosto das compras. Desde pequena que se notava o motim no meu comportamento: 
 –Abre a boca! 
 –Não.
 –Diz “a”.
 –“b”. 
 Mas não ia falar da minha meninice. As compras, o consumo, a publicidade, o gasto de dinheiro - não, isto não é o meu lado mais forte (sobretudo a última questão, o dinheiro é como o meu amigo... virtual, mas continua sendo o meu amigo!), então digo um calado e indeciso ‘não sei’ às compras. Pois não se pode evitar o consumo nem reduzi-lo a zero, então não sou tão masoquista para obrigar-me a sofrer todos os dias. O que é que eu compro? As coisas mais necessárias para viver é claro, a comida, os produtos da higiene pessoal, o chocolate, os cosméticos, os brincos... Só para escrever composições tenho de comprar as canetas todos os meses. E quando ando pela zona das canetas perto encontram-se outras coisas que eu acho imprescindíveis: o coador (está em liquidação!), a laca para o cabelo, entre outras coisas que naquele momento acabam. Além disso, um cartaz grande lembra-me de que só hoje posso comprar as meias que normalmente vendem com o preço três vezes mais alto. Concluindo, eu pertenço ao grupo “consumidor normal”, ou seja, costumo comprar o que é necessário e o que me dizem que necessito. Quem? Os amigos, a sociedade, a moda, o apresentador na televisão. E repito outra vez: não gasto das compras, as compras gostam de mim.
 Edyta Marzec 

 O mundo de hoje oferece-nos um tipo de vida muito comercializado, cada um diz-nos que precisamos de alguma coisa, que temos de comprar o novo telemóvel ou vestido. Acho que temos de parar, desligar a televisão e deixar um pouco este mudo artificial. 
 Há um filme que se chama `Into the Wild´ e mostra a história de Christopher McCandless, um jovem que deixou a sua vida de luxo e o seu prometedor futuro universitário, cortou os cartões de crédito, queimou o seu dinheiro, pegou numa mochila e foi descobrir o mundo. Praticamente sem nada, viajou à boleia por uma parte da América e conseguiu chegar ao seu objetivo- Alasca. Ali, com vinte e quatro anos, morreu no meio do nada, sozinho. Ele tentava viver sem as coisas que considerava desnecessárias, não usava o carro, comia o que encontrava pelo caminho ou o que lhe davam as pessoas, dormia onde podia. Gostei muito deste jovem, que tinha a cabeça cheia de ideais tirados dos livros de Jack London e Leo Tolstoy e que tinha coragem para viver a vida à sua maneira. 
 Depois de ver este filme, fiquei a pensar sobre como as pessoas complicam a vida com todas as coisas inúteis que tem. Não acho que o vigésimo vestido ou o novo telemóvel sejam tão importantes. As pessoas compram a roupa elegante só para que os vizinhos os vejam, compram cremes, máscaras e pós para ficarem mais lindas e gastam muito dinheiro nas férias num hotel de cinco estrelas, com o SPA, piscina e ginásio, como se uma noite numa tenda sem um jantar elegante pudesse matá-los. Temos cada vez mais dinheiro e separamo-nos da vida real e da natureza com uma muralha de plástico e vidro, como se fossemos mais belos e mais perfeitos do que o resto de mundo, como se um batom e um verniz de unhas nos tornasse em seres supernaturais. E só depois compreendemos que o mundo verdadeiro é o que viajamos a pé e tocamos com as nossos mãos, e não o que vimos na televisão ou pelo vidro dum carro. Eu não faço muitas compras, mas há uma coisa que compro sempre e não penso deixar de fazer. São, obviamente, os livros. Mas para mim, isto não é só mais um produto comercial, mas a história de algumas pessoas, seja verdadeira ou inventada, não importa. Uma livraria é um lugar com alma, e não é fácil encontrá-lo, porque não há muitas. No nosso mundo cheio de comércio, temos de parar por um momento e pensar sobre a nosso estilo da vida. Acho que se aprendemos a passar um dia a, por exemplo, fazer desporto em vez de estar no centro comercial e temos mais contato com a natureza, seremos mais felizes. 
Sylwia Jabłońska

sábado, 20 de abril de 2013

" UM FUNERAL À CHUVA" Contextodependência – Em Busca de Sentido



Na cultura há trabalhos que são únicos e, ao mesmo tempo, universais. Conseguem captar a atenção da maioria dos observadores – fazem-nos pensar e comovem-nos. São universalmente reconhecidos, elogiados tanto pela crítica como pelo público. Constituem o ápice da criatividade dos seus autores – são as obras-primas deles, a crème de la crème do género. Existem também produções que nem sequer se juntam ao grupo elitista – são mais mundanas, mas ainda assim sólidas e podem funcionar surpreendentemente bem num contexto definido. Eu incluiria nesta segunda lista o filme que fez parte da série de sessões de cinema português organizada no Centro de Língua Portuguesa Camões – “Um Funeral à Chuva” – uma obra suficientemente intrigante para me fazer esquecer das suas imperfeições como se não importassem nem um pouco.
O filme foi classificado como “comédia”, mas, apesar desta avaliação, acho que a qualidade da criação está fora dos elementos satíricos que são, por vezes (as piadas dirigidas a um casal homossexual entre outros clichés), demasiado previsíveis. Portanto, não tenho dúvidas: uma obra-prima – este “Um Funeral à Chuva” não é.
Contudo, a magia da cultura consiste no facto de que as suas expressões não têm de ser impecáveis para que um indivíduo se emocione e identifique com elas. Às vezes, basta que um observador, espetador, leitor, etc. encontre nelas os valores comuns com o autor. E com certeza não faz mal se a mundividência apresentada for compartilhada entre a audiência. Tendo em conta estes fatores, acho que durante a projeção a 17 de abril de 2013 a longa-metragem de Telmo Martins realizou todas as potencialidades. Apesar de que a minha primeira impressão ainda durante a exibição fosse que o que via era um pouco depressivo, ao sair da sala do Centro vi também um vislumbre de esperança. Isto parece contraditório, mas, na verdade, é perfeitamente compatível.
A intriga concentra-se na história de um grupo de amigos dos tempos académicos. Depois da conclusão do curso os seus caminhos separam-se. O motivo da reunião 10 anos mais tarde é a súbita morte de um deles – o João. Os protagonistas chegam à Serra de Estrela (o lugar onde o João queria ser enterrado) na véspera do funeral para relembrarem a vida do falecido. Esta ocasião é o pretexto para conhecermos a evolução da sua amizade, as atividades que compõem a sua vida atual e, consequentemente, os carateres das pessoas – com um leque de virtudes e defeitos. Por meio das histórias ouvidas no restaurante à volta da mesa distinguem-se as diferenças entre os reunidos. Dizem petas, fazem observações sarcásticas, alguns têm os problemas com a aceitação deles mesmos apesar do aparente êxito profissional (Diana) ou, antes pelo contrário, ficam felizes na vida pessoal a despeito de serem mal sucedidos no trabalho (Rui). Mas, sobretudo, todos se sentem bem neste conjunto.
Apesar disto, acho secundários os pormenores do enredo e as personagens. A depressão aparente que o filme me trouxe à primeira vista e a esperança que se seguiu fazem parte da mesma magia que decide sobre a singularidade da arte. O componente essencial nesta mistura mágica e a palavra-chave para a minha perceção da criação de Martins é “contexto”. “Um Funeral à Chuva” é um filme de contexto – em dois sentidos. Em primeiro lugar, como já mencionado, funciona melhor em ambiente definido – entre os jovens, preferivelmente os estudantes. O que é mais importante é que, em sentido mais lato, descreve o papel do contexto na nossa vida.
Por um lado, a morte do João que é o eixo da narrativa, ou melhor, a reação do pessoal perante a sua visita inesperada na vizinhança faz com que sentisse o desespero ligado à fraqueza humana, à falta de escolha, de atitude adequada em face do destino. Os amigos, com exceção do Zé, tentam lutar com o facto do falecimento do companheiro relaxando-se – bebem vinho, riem-se, brincam e trazem à luz as memórias – comportam-se como se ainda fossem os estudantes. Parecem não ter papas na língua nem preocupações nenhumas. No entanto, pode-se notar que o seu contentamento é ilusório – a reunião é um baile de máscaras. Todos os participantes estão conscientes da realidade do problema, mas esperam que se possa enterrá-lo como se fosse um cadáver que nunca mais viria à tona. As cenas seguintes mostram, porém, que este procedimento pode fazer sentido.
Os protagonistas começam a aprender como abordar a dificuldade – a sua fórmula é simples: a unidade que se baseia nas experiências passadas comuns, restabelecida no presente. Têm de se ajudar uns aos outros, criar um sistema de apoio próprio, visto que fazem parte da geração que rejeitou o conceito de Deus, da verdade absoluta e, consequentemente, a comunidade religiosa. A religião que antigamente era o guia nunca contestado na matéria espiritual, sem a qual não se tocava no assunto, que explicava a morte e as suas consequências, perdeu a sua autoridade. Por conseguinte, o plano religioso, além da coleção das cruzes no apartamento da velhinha devota e a igreja onde se situa o caixão do João, na realização de Martins é inexistente.
Indo mais longe, a realizadora roça o tema do niilismo – desta maneira interpreto a disputa entre o Marco e o Zé. O Zé – um professor académico – sente que os preparativos e a cerimónia de funeral precisam da seriedade e exige que os companheiros sigam a sua opinião. O Marco – um escritor – não gosta desta atitude bastante tradicional, mais solene perante a morte (a necessidade de luto) e acusa o Zé de moralização desnecessária. Sugere que toda a gente tem direito a experimentar esta dificuldade como quiser e que não existe a norma universal. Parece que a forma de agir do Marco não provém da sua indiferença, mas é uma luta interior, uma tentativa de encontrar a crença, os limites que podia respeitar na sua vida.
Para mim, o filme narra não só a história do João e os seus amigos, mas, sobretudo, descreve a situação da nova geração que tenta redefinir as regras de vida, conferir o sentido à existência privada, por eles mesmos, da promessa de eternidade. Os amigos procuram as respostas sem auxílio, sozinhos, e, paradoxalmente ou não, encontram-nas na – desta vez não religiosa, mas laica – comunidade. As suas brincadeiras, as tolices ditas enquanto estão bêbados, ainda que pareçam não servir para nada, formam entre eles uma ligação, deixam-lhes gozar da presença de outros. E isto é o reverso da medalha, um fator animador, o fragmento otimista da mensagem – o que importa no mundo caótico são as pessoas que nos rodeiam. O João não era exatamente o rei da festa, mas os amigos aceitavam-no.
Telmo Martins – um jovem realizador português criou um filme cuja ideia central, se calhar, traduz-se só para o público-alvo – as pessoas de 20, 30 ou 40 anos. Para este grupo a noção do argumentista paradoxalmente, pode parecer universal. Isto é o mérito principal da produção – a coerência entre a mensagem da própria obra e a atitude exigida para a perceber. A interpretação do filme depende do contexto, do mesmo que os protagonistas do enredo tentam encontrar em proveito da sua vida. Isto, bem provavelmente, pode guiar-lhes aos paradoxos. Já no século XVII Hamlet na famosa tragédia shakespeariana disse: “Nada em si é bom ou mau; tudo depende daquilo que pensamos”. Talvez a nova geração privada de soluções certas, suponha que a felicidade própria reside em busca da felicidade e o fim é só um meio?

Bartosz Suchecki
2º ano de Portugalistyka, UMCS

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A festa de São Jacinto


Uma das minhas lembranças da infância são as festas populares que se celebravam em honra do patrono da igreja local, são Jacinto. No meio do bonito mês do agosto, quando ainda fazia calor e as pessoas andavam relaxadas, o Jacinto convidava todos os habitantes do meu bairro industrial em Gliwice para a sua festa.
Por esta ocasião a rua em frente da igreja ficava fechada à circulação e estendiam-se as bancas carregadas de brinquedos de origem chinesa. Os avós generosamente ofereciam aos seus netos dinheiro que se esgotava num instante. Os miúdos tentados pelos pavilhões com armamento carregavam as suas pistolas de plástico que ao disparar transtornavam os sons da música festivaleira e deixavam uma nuvem de fumo asfixiante. Num ano, o verdadeiro hit eram as grandes e peludas tarântulas com uma corda o que possibilitava levá-las a passear como se fossem os cãezinhos e aterrorizar desta maneira os animais domésticos. Noutro, estavam na moda os olhos artificiais em forma de bolinhas pequenas que depois circulavam por toda a escola.
No pavilhão de doces reuniam-se todos. As velhotas compravam bolos de mel e os croissants de são Jacinto. As crianças preferiam uma espécie de pastilha elástica comprida e extremamente ácida que provocava o concurso de caretas.
O ponto central (o mais excitante) era o sorteio. O dia todo compravam-se bilhetes, no entanto os prémios mais valiosos esperavam até à noite, quando toda a gente se reunia para ouvir com inquietação o veredito. O prémio principal era a figura do nosso patrono, mas a esmagadora maioria das pessoas preferia obter algum eletrodoméstico. Então, para que o santo não chegasse a mãos indignas, (para que ninguém o tratasse como se fosse umaa escultura que serve para enfeitar o jardim) ficava sempre com ele um dos membros do conselho paroquial.
À noite havia um concerto, em que não participavam os coros nem músicos gospel, senão as verdadeiras estrelas pouco brilhantes. Era como um concurso de talentos: os comediantes entretinham a platéia falando na língua silesiana, havia uma apresentação da escola local de idiomas que também se ocupava de dança, um grupo de entusiastas cantava os grandes hits italianos (“não sabemos italiano, nas conseguimos aprender os textos de cor, porque é uma língua muito bonita”).
E o Jacinto? Parece que ninguém pensava nele (salvo o feliz dono da sua figura enorme). Se calhar divertia-se bem vendo a criatividade do seu povo e repousou com alívio de que esta vez também não partilharia o destino dum duende de jardim.

Kamila Wiśniewska

sexta-feira, 15 de março de 2013

Vamos às compras!?

Quando ouço a palavra «as compras» eu vejo em frente dos meus olhos montes de pessoas quem vão ao supermercado ou à mercearia diariamente para comprar as coisas necessárias para existir. Mas o termo «fazer compras» é mais complicado, porque para cada ser isto pode significar uma atividade diferente. Para começar, para as pessoas muito ocupadas fazer compras significa ir a uma loja e colocar no seu carrinho os produtos mais necessários para viver. Estas pessoas estão muito impacientes esperando na fila, porque não compreendem como podem perder tanto tempo numa loja, especialmente o tempo que é precioso. O segundo tipo dos compradores são os idosos que gostam de fazer compras porque é um pretexto para sair de casa e encontrarem-se uns com os outros. Dividem-se entre: a) os idosos mexeriqueiros, b) os idosos da época comunista e c)os idosos pobres. Os primeiros adoram ficar no centro da loja e comentar o que se passa ao redor. Não lhes importa que bloqueiam a passagem. Para além disso observam sempre o que tens no teu carrinho e fazem comentários. Os segundos (trata-se especialmente das mulheres), na língua coloquial são chamadas «bolseiras». Elas acham que todo o mundo vai comprar repentinamente todos os produtos que desejam (isto é um vestígio do comunismo). Por isso correm com o carrinho usando os seus cotovelos para dar golpes aos outros clientes e para conquistar o produto único que é o pão quente. O terceiro grupo é formado pelos pensionistas pobres que entram numa loja só para comprar pão, leite e batatas. Os estudantes polacos também formam o grupo específico. Entram na loja e compram sempre as mesmas coisas: pão, chocolate, cerveja e pepinos fermentados. Não precisam de outros produtos: isto é suficiente. Existe também um grupo que se chama os dependentes. Eles são os mais perigosos. Eles adoram fazer compras e podem passar muitas horas no centro comercial. Compram tudo: roupa, cosméticos, eletrodomésticos, etc. O ato da compra é o mais importante, é essencial. Especialmente durante os saldos. Neste período é recomendável evitar as lojas, porque se pode sofrer. Quando vi o filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (Confessions of a Shopaholic) com Isla Fisher e Hugh Dancy eu não podia acreditar que as mulheres podem bater-se por causa duma peça de roupa. Mas uma vez durante a época dos saldos eu vi que duas mulheres lutavam por um blusão e que o rasgaram. Não posso compreender isto. Onde está a boa-educação destas mulheres? E as suas cabeças? Estou certa que não nesta loja. No filme podemos ver que a Rebecca (a protagonista) tem muita roupa e muitas dívidas. E não são só as situações imaginadas, na realidade passa o mesmo. Por outro lado, temos também diferentes tipos das lojas. No centro comercial temos tudo perto. Podemos ir ao cinema, ao cabeleireiro, comprar roupa, calçado, medicamentos e comida no mesmo lugar e dia. Isto é incrível quanto tempo as pessoas passam nos centros comerciais. Alem disso, quando entramos no hipermercado podemos sentir-nos inquietos pelo sentido de espaço. Entramos ali e esquecemos-nos do que tínhamos que comprar. E depois saímos com muitas coisas dispensáveis e com a carteira vazia. Mas não é o único lugar onde podemos perder dinheiro ou a nossa carteira. Na feira também podemos comprar comida e roupa. A comida é mais fresca do que a do supermercado mas temos de ter cuidado com os carteiristas que estão à espera das vítimas. Às vezes porém as pessoas preferem o preço baixo à qualidade e por isso vão simplesmente ao supermercado. Finalmente, acho que o dinheiro e as compras governam o mundo. Não é possível escapar-se das compras e lojas. Mesmo que façamos as compras na internet, compramos algo. É óbvio que deveríamos pensar muito bem antes de comprar uma coisa mas as compras formam uma parte inseparável da nossa vida. 
Anna Krupa

  Sistema digestivo do consumo
Estou num cruzamento de ruas. Atrás há uma rua. Em frente há uma rua. À esquerda há uma rua. À direita há uma rua. Há tantas ruas que não sei qual é que hei de escolher. Na mão tenho um saco de pano velho. O saco está vazio. O estômago também. Só a cabeça é que não para de encher com pensamentos indigeríveis e pesados. Qual e a rua que hei de escolher? Esta em frente leva a um supermercado. Um néon deslumbrante convida à caverna da abundância. Umas estreitas passagens entre as estantes entupidas de plástico que prometem o sabor maravilhoso por um preço tão baixo como nunca antes. Nesta caverna não há espaço para as pessoas. Devem escolher sem perda de tempo (a digestão deve ser eficiente, o tempo é dinheiro). A caverna não é para a gente, é a gente que é para a caverna. As mulheres lançam um olhar para um cantinho com os cosméticos e escolhem, pois é ouro para os pobres. As etiquetas prometem maravilhas. Os homens não param, não há nem etiquetas para eles, ou se há, são tão pequenas e escuras como se dissessem que os homens devem perdoar por não se deixarem de enganar. Esta rua à esquerda leva a um hipermercado. É um micro-mundo, um mundo paralelo: atrás da porta as leis do mundo exterior deixam de funcionar. As avenidas são largas e compridas. As prateleiras cheias de quase tudo estendem-se até ao infinito. Cinquenta tipos de manteiga gritam que as leve comigo. Quero uma manteiga boa, não no meio da selva de cinquenta tipos de manteigas idênticas que sabem da mesma maneira, mas com certeza não a manteiga. Para atravessar de um ponto a outro precisa-se de ter horas inteiras. Para escolher, horas. Para pagar, horas, e nós como uns lunáticos, loucos andamos entre prateleiras sem saber o que escolher. O hipermercado não foi criado para que os clientes pensassem, foi criado para o consumo. As mercadorias são más, caras ou sem informações sobre o seu conteúdo, pois as etiquetas que estão na embalagem são escritas num idioma com o qual não estamos familiarizados. Não estamos lá para falar e sim para comprar (a digestão deve ser eficiente, o tempo é dinheiro). Só os olhos do caixa, cada vez mais, silenciosamente imploram que o deixem fugir dessa máquina para ruminar a consciência. À direita há uma feira. Entre as mesas para os jovens, passa gente que geralmente não é mais nova que essas mesas. Os seus olhos ainda não estão tão abatidos nem cansados mas têm que se defender sem parar. A necessidade de digerir é mais forte do que a consciência. Já não compramos para viver, já vivemos para comprar. Estou no cruzamento. Quatro pontos cardeais, quatro ruas, quatro mundos e um estômago vazio ainda está vazio, mas não quero ser engolida.
Anna Kułak

sexta-feira, 8 de março de 2013

Festejar à portuguesa

A cultura dos países ibéricos para a maioria dos Polacos pode parecer um pouco exótica e cativante. As festas na Polónia incluem sempre uma quantidade enorme de seriedade e de páthos, falta-nos espontaneidade e alegria de celebrar, mesmo quando festejamos os acontecimentos felizes e importantes para nós ou para a nossa pátria. Acho que o motivo  desse estado de coisas é o fato de que os nossos temperamentos polacos são completamente diferentes do dos nossos irmãos ibéricos. A leitura das descrições das festas portuguesas e dos costumes que acompanham esses acontecimentos fazem com que me pergunte, por que razão não podemos encontrar em nós a mesma alegria da vida e a vontade de se reunir, pelo menos de vez em quando, na celebração um pouco menos a sério e da maneira ligeiramente mais descontraída? Aparentemente, a seriedade, a falta de distância perante a vida quotidiana, com a tristeza quase inata já estão demasiado fortemente enraizadas na nossa mentalidade. 
Estas reflexões vieram-me à mente depois de ler alguns textos na Internet sobre a cidade do Porto, como parte das pequenas “preparações“ para a minha viagem a Portugal em maio. Lamento que não terei a possibilidade de participar na festa de São João que, com a festa de São Pedro e a festa de Santo António é celebrada em todos os países lusófonos. O Porto oferece uma variedade de celebrações ligadas ao nascimento do seu padroeiro mas a culminação delas tem lugar na noite de 23 para 24 de junho. Especialmente para essa noite, a cidade é embelezada e decorada, as ruas estão cheias de pessoas, vozes, cores e cheiros. Diz- se que todo o mundo, não importa o sexo, a idade ou a proveniência, se reúne durante essa noite festiva para divertir-se e passar momentos inesquecíveis, tudo acompanhado pela degustação de pratos deliciosos, tipicamente portugueses como sardinhas assadas, caldo verde ou a presença dos vasos de manjericos com os poemas de quatro versos sem esquecer de um pouco de cerveja ou de vinho local.
 As atividades e as tradições ligadas a essa noite igualmente atraem a minha atenção eslava. Gostei especialmente da ideia do lançamento de balões de ar quente que é uma vista espetacular. Também não me posso esquecer da outra tradição que se destaca nessa noite: os martelos de plástico com os quais se bate na cabeça das pessoas aleatórias que passam ou os alhos-porros que se usa da maneira semelhante. Sinceramente, não posso imaginar a implantação da tradição parecida na nossa cultura, embora tente mover a minha imaginação. E vocês, podem imaginar bater alguém na cabeça com o martelo de plástico e a reação possível da pessoa “batida“? :-)
 Gostaria também de ver o famoso fogo de artifício que ilumina o céu à meia-noite em ambos os lados do rio Douro, que é o espetáculo aguardado por todos participantes e que faz parte inseparável dessa noite especial.
 A verdade é que nós Polacos também temos a nossa própria “noc świętojańska“ ou „ noc kupały”, mas, infelizmente, é muito marginalizada e celebra-se só às vezes em que chamamos “skansen“ da maneira menos, digamos, intensiva. Por alguma estranha razão, estamos mais dispostos a implantar algumas celebrações completamente ridículas como, por exemplo, o Halloween, do que desenvolver e valorizar aquelas semelhantes à festa de São João. Atrevo-me a dizer que ela tem um pouco mais de sentido do que usar uma máscara de zombie e acima de tudo - está relacionada com a nossa cultura e com a identidade europeia.

Ewa Szafrańska

sábado, 2 de março de 2013

Professora Doutora Hanna Batoréo


Mais uma vez passou pelo nosso centro a linguista Professora Doutora Helena Batoréo da Universidade Aberta de Lisboa.  Desta vez a temática abordada na sua palestra foi: Linguagem e Cultura: como estudar a Linguística Cultural no âmbito da Linguística Cognitiva e Língua Portuguesa, Linguística Cultural e o ensino do Português Língua Não Materna. Não deixa de ser curioso que uma das maiores especialistas em Linguística Cognitiva do português europeu seja natural de Varsóvia. 


domingo, 24 de fevereiro de 2013

Kuduro- mais do que um rabo resistente

  Um estilo de dança e um género musical com o nome comum gracioso "kuduro" tornou-se um dos mais intrigantes fenómenos dos últimos anos no mundo da música lusófona. Chama a atenção não só a popularidade que o género ganhou devido à sua mistura da música eletrónica, predominante entre os jovens dos dias de hoje, com o folclore tradicional angolano, mas também a génese do nome (supostamente uma junção das palavras "cu" e "duro" que se referem às características exigidas aos dançarinos para poderem realizar alguns movimentos agressivos que fazem parte da coreografia). O significado do kuduro, porém, é mais abrangente. Como uma arte valiosa, não é só um conjunto dos sons ou dos passos de dança, mas também uma narrativa sobre os problemas atuais do povo angolano, um olhar sobre o espírito do país. A matéria em que o kuduro toca é ainda mais interessante, tendo em conta os acontecimentos recentes na história de Angola – por um lado, o pesadelo da guerra civil, e, por outro lado, a cada vez mais forte posição do país na economia mundial graças aos recursos naturais em forma de petróleo e diamantes. 
  O kuduro nasceu no fim dos anos 80 em Luanda e Lisboa. As origens estéticas constituem outros estilos angolanos como o semba, a kizomba e a batida que foi o precursor do kuduro com base na música eletrónica europeia e americana enriquecida com a batida tradicional africana. O género tem também influências do soca caribenho e dos ritmos rápidos (130-140 batidas por minuto) techno e house. As letras são rapadas em português angolano ou em crioulo de quimbundo com o uso de calão e abordam os temas do quotidiano e da sexualidade.       
  A dança e a música são inseparáveis. A dança (que iniciou a evolução do género musical) consta dos elementos de break dance, movimentos dançarinos tradicionais e movimentos teatrais (por exemplo, imitando a ausência dos membros, visto que Angola é um país com uma das mais altas taxas de acidentes com minas). Por conseguinte, é uma mistura verdadeiramente única. 
  Às vezes o kuduro é discutido no contexto do chamado global guetotech, quer dizer, a música da periferia que se alastra pela Internet e por vias informais. Como um fenómeno na música eletrónica espalhado pelos países lusófonos (por exemplo, uma versão mais pop e aguada foi mesmo escolhida como música-tema da novela Avenida Brasil, da Globo, graças às semelhanças com o funk carioca) e pelas pistas de dança em torno do mundo, o kuduro, infelizmente, raramente provoca entre a audiência uma reflexão sobre a sua proveniência. Os álbuns da série Kuduro Sound System ajudaram a promover os sons dados à luz pela terra africana, mas, ao mesmo tempo, funcionaram virtualmente fora do contexto político e social. 
  A música, entretanto, tinha o papel relevante no desenvolvimento da chamada angolanidade (patriotismo cultural angolano) devido à criação das canções em línguas nacionais (como quimbundo e umbundo) com a utilização dos instrumentos nacionais. Angola sofreu muito nas últimas décadas. Em 1961 rebentou a guerra de libertação. Depois de cerca de 500 anos do colonialismo português, a Revolução dos Cravos em Portugal em 1974 levou a Angola a independência, mas também precedeu outra guerra – desta vez civil – que terminou finalmente em 2002. O conflito destruiu a economia, as estruturas sociais, ao passo que as atividades culturais foram frequentemente forçadas ao exílio. 
  Enquanto isso, a música foi a chave para inserir dentro do povo a noção de Angola como o país próprio. Desempenhava este papel, bastante político, desde os anos 50, mas após a independência em 1975 as coisas tomaram um rumo para o pior em termos da criatividade e da liberdade de expressão. A atmosfera cultural em Luanda e uma estrita censura forçou os artistas a politizarem a sua obra para os fins do estado. Até hoje, também no caso do kuduro, a propaganda política intervém na música, a maioria das vezes por meio do sistema de patrocínio. 
  Os investigadores destacam no contexto social três plataformas propícias para o kuduro: além de Luanda, existe a cena de Lisboa e a música marca a sua presença em pistas de dança do resto do mundo. Perante uma perspetiva angolana, a terceira área pode ser negligenciada. 
  Luanda – a capital do país e do movimento – é uma metrópole de cerca de sete milhões de habitantes. A maioria do kuduro em Luanda é produzida em estúdios nos musseques ("zona de areia" em quimbundo, isto é, nos bairros suburbanos ocupados por população com menos recursos, equivalentes dos bairros de lata portugueses ou das favelas brasileiras). O kuduro, da mesma maneira que muitos movimentos musicais de guerra antes dele, está ligado ao ambiente de gueto. Esta procedência é visível na rivalidade entre os kuduristas dos vários musseques, que consideram os seus guetos como os reinos. Na plataforma de Luanda a música é profundamente integrada no contexto sócio-histórico.
   Quanto à plataforma lisbonense, a integração não é tão clara, mas o facto é que os representantes desta cena tentam manter a relação da música criada por eles com a origem africana. O kuduro em Lisboa desenvolveu-se através dos refugiados da guerra civil angolana, especialmente nas periferias de Lisboa. O estilo distinto desta variante chamado kuduro progressivo é mais sofisticado do ponto de vista técnico. O kuduro angolano serve-lhe como o modelo e as bandas como a mais conhecida os Buraka Som Sistema combinam-no com as tendências observadas na música de dança europeia, nomeadamente, o dubstep britânico e o hip-hop. Outras bandas como os Batida e os Makongo também se referem à cultura angolana contemporânea ou antiga. 
  Hoje em dia, as condições e os temas da criação são muito diferentes em comparação com os inícios do género. Há equipamento suficiente para produzir a música em Luanda. A possibilidade de viver no ambiente precário faz com que os artistas possam ser mais autênticos do que os músicos criando, por exemplo, em Lisboa. 
  Esta autenticidade, expressa em Luanda e procurada na medida do possível em Lisboa, transforma o kuduro em algo mais do que só uma dança e uma música. Torna-o um ecrã em que se pode ver a Angola contemporânea, encontrar os vestígios da história do país, bem como os problemas atuais e, sobretudo, a voz dos cidadãos, a sua atitude perante os desafios, a sua crítica social e uma dose de otimismo na sua celebração da sobrevivência, sem se importar com os obstáculos. Afinal de contas, os kuduristas, tal como o nome indica, não deviam ter medo de cair.

Bartosz Suchecki

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

“Se Deus quiser...” - sobre as superstições dos portugueses.


Há superstições em todo o mundo. Cada país tem as suas tradições e crenças que muitas vezes são consideradas uma parte do património cultural. Por exemplo, na Polónia agarram um botão quando veem um limpas-chaminés porque acham que isto dá sorte. Os italianos acreditam que o espirro do gato traz felicidade. Para os gregos, terça-feira é o dia de má sorte. Os japoneses pensam que matar uma aranha pela manhã é destruir uma alma humana. E os portugueses? Os portugueses também são supersticiosos.
Fique sabendo que as superstições ajudam a explicar muitos fenómenos. Compreender os medos, mitos, tabus, provérbios, lendas e folclore pode ajudar a obter um alguma informação sobre todos os tipos de raridades culturais. As superstições têm o potencial de afetar tudo. Nem todos confessam que acreditam, mas passadas de geração em geração, as superstições populares ganham terreno, espalham-se e resistem ao tempo e ao avanço da tecnologia. Quem é que ousa passar por baixo de uma escada? Quem é que gostaria de ver um gato preto atravessar-se à sua frente? E que o noivo não deve ver a sua amada vestida de noiva antes da cerimónia, também toda a gente sabe.
As superstições não têm qualquer razão científica mas há gestos que evitamos no nosso dia a dia. Não se sabe ao certo a origem exata de como a superstição começou influenciar a vida do homem. Mas com certeza essas práticas que existem hoje têm a sua origem em tempos antiquíssimos. Antes, os povos não tinham conhecimento suficiente para dar respostas às coisas que aconteciam nas suas vidas, e como consequência disso, começaram a criar superstições e crendices. Logo, o caminho da superstição abriu portas para ao mundo da magia, feitiçaria e bruxaria. Pouca gente sabe que a bruxaria foi muito popular em Portugal. Especialmente nas aldeias no norte de Portugal a crença em bruxas era comum. Quase todas as aldeias tinham os seus praticantes de magia que protegiam os habitantes dos espíritos maus. Mais tarde, as gentes perderam essas crenças populares e desistiram de práticas mágicas, mas uma forte corrente de superstição ainda permaneceu em Portugal.
Apesar da prática mágica realizada há séculos, os portugueses são profundamente religiosos e supersticiosos. O seu catolicismo formal é misturado com práticas e crenças pré-cristãs. Eles, especialmente os habitantes das áreas rurais, dão muita ênfase à adoração dos santos, porque acreditam que isto curará todas as doenças. A famosa frase: "Se Deus quiser" é a resposta automática de muitas mulheres idosas a alguma notícia sobre o futuro como para lembrar que se pode morrer antes de amanhã.
 Existem também as superstições não relacionadas com a vida cristã ou com as crenças antigas, estas consideradas uma curiosidade trivial, que dão sabor à vida. Umas mais ridículas, outras mais verossímeis, mas a maioria respeita-as. E enquanto alguns podem rir, muitas pessoas não querem abusar da sorte.
Por que é que as carteiras ou malas de mão não devem ser deixadas no chão? Não é porque é mais fácil roubá-los - na verdade, é mais fácil roubar uma bolsa pendurada no encosto de uma cadeira de que uma escondida entre os pés debaixo da mesa - é porque mantém o dinheiro fora. Isto é uma das superstições portuguesas mais interessantes. Além disso, os portugueses têm muitas superstições concernentes aos alimentos. Por exemplo, acreditam que deixar um copo de vidro cheio de sal grosso no canto da sala, traz sorte.  Do outro lado, o pão não deve ser colocado na mesa virado para baixo, porque isto dá azar. Também, não se deve beber água de noite, porque ela está a dormir. Quando alguém tem sede de noite e quer bebê-la, é necessário acordá-la batendo. O que é interessante é que os portugueses prestam muita atenção ao lado esquerdo. A esquerda representa o lado positivo, o lado do coração, por isso todas as superstições relacionadas com ele trazem uma boa notícia. Tem um zumbido no ouvido esquerdo? Alguém está a falar bem de nós. Treme o olho esquerdo? Boas notícias. E há muito mais. Por outro lado, o pé esquerdo não traz sorte. Os portugueses dizem que se deve sair de casa e entrar em qualquer lugar, sempre com o pé direito, para evitar o azar. Também, tropeçar com o pé direito é sinal de alegria que está para vir. Além disso, em Portugal deve-se lembrar de não abrir um guarda-chuva dentro de casa. Isto traz desgraça e má sorte à família. Durante a preparação da cerimónia do casamento também se devem lembrar várias crenças. Disso pode depender toda a vida futura dos cônjuges. Se chover no dia do casamento, diz- se: “casamento molhado, casamento abençoado” Isso é sinal de felicidade. Mas, se no casamento qualquer dos nubentes ao colocar a aliança no dedo do outro a deixar cair, isso é sinal de infelicidade. Então, tenha cuidado para não cometer algum erro e não atrair a desgraça sobre si.
Portugal, como qualquer outro pais, é supersticioso em maior ou menor grau. Isto faz parte da cultura e da identidade portuguesa. O conhecimento de algumas das superstições portuguesas é essencial para compreender os costumes e a tradição deste pais. Algumas são mais estranhas e ridículas, outras bem conhecidas das outras nacionalidades – todas existem. E as pessoas , mesmo as que se riem ainda acreditam nelas e seguem-nas.

Ewelina Sysiak

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os filmes, sem dúvida, mudam a nossa vida!


Quando era pequena, gostava do cheiro do cinema. Sim, simplesmente o cheiro. O filme não era tão importante. Só o cheiro das pipocas e a esperança fútil de que vou beber uma coca-cola grande. Com este ‘aparelhamento’ tão gorduroso e cheiroso, gostava de me esconder debaixo dos assentos e apenas de imaginar, quais são os personagens que aparecem no filme. Agora faço o mesmo. Vou ao cinema, sozinha. Não compro o bilhete nem as pipocas, nem a coca-cola. Não digo nada a ninguém. Entro na sala em silêncio e sente-me na fila da frente. Tiro o meu casaco, desligo o telemóvel. Por um momento, olho, de soslaio, para a tela em branco e ouço o silêncio... Instintivamente fecho os olhos, involuntariamente abro a boca, respiro... e começo a minha viagem  pelo mundo cheio das imagens, sons e diálogos que vivem na minha memória.

A estação número I
A Joanna, chamada carinhosamente de Joaninha, 3 anos

Uma menina pequena, com o cabelo de cor não identificada, que já é muito comprido, caminha orgulhosamente ao lado do seu pai e do seu tio. Ela vai ao cinema pela primeira vez! Não sabe nada sobre a vida, nem sobre filmes, mas quer ver um leão que alegremente dança e canta. Ela está muito animada, mas o desejo de ver "O Rei Leão" é mais forte do que a vontade de fazer xixi, portanto bravamente aperta a bexiga e sem fôlego, entra no mundo dos animais animados. Depois das duas horas da sessão, não se lembra de muito, mas a cada manhã tenta rugir como o Simba.

A estação número II
A Joanna tímida como uma borboleta, 6 anos

A menina já não ruge como um leão, mas lê fluentemente os livros sobre o Castelo Real Wawel em Cracóvia. Não gosta de falar muito, portanto foge para o mundo das letras e imagens. Todos os dias antes de ir dormir liga a televisão e conversa com uma menina orfã que se chama Madeline. "As novas aventuras de Madeline" é para Joana como o encontro com a melhor amiga que vive grandes aventuras em cada episódio desta série. A Madeline mora no Orfanato de Lorde Croissant onde é guardada pela sua tutora, a Senhora Clavel, que é uma freira. É possível que por isso, sete anos depois, a Joanna, não totalmente madura, escolha uma escola católica onde as freiras lhe ensinam... Que trauma tão grande!

A estação número III
A Joanna que já sabe o que é amor verdadeiro, 10 anos

Senhorita Joanna descobre em casa uma colecção dos livros "Harlequin". Secretamente assiste aos filmes para adultos. Enquanto isso conquista novos corações. O tempo ideal para conhecer a história do "Titanic". O filme tão dramático e emocionante! A Joanna não entende por que o DiCaprio abraça a sua amada no carro, com tanta força, mas junto com sua mãe, chora amargamente durante todo o filme. Primeira vez, mas não última vez... Pobre Jack!  ...Jaaaack?! Jack! Jack!!! Come back!


A estação número IV
A Joanna que está á procura de novas inspirações, 12 anos

A senhorita com a experiência de vida grandíssima, já está farta do amor. Por isso, decide desistir de todos os seus amores "eternos" e começa a dedicar-se à paixão. Pelo menos uma vez por mês, vê ao filme "Dirty Dancing" e dança apaixonadamente com os atores na cena final. Ela sabe perfeitamente que um dia, vai dançar tão bem como eles!

A estação número 666.
Trevas, mal e vampiros, isto é a Joanna Dark, a versão gótica, 16 anos

A vida tenebrosa da Joanna está cheia da poesia de Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Tadeusz Miciński. Por isso o filme "Eclipse Total" é tão importante para ela. Não só inspira, mas também mostra que o DiCaprio porém é o ator excelente. A menina que chamam de bruxa, tenta assistir aos filmes de terror. Brevemente range os dentes e liga "13 Fantasmas". É uma obra totalmente sem valor artístico. Não é terrível, mas ela está com muito medo. Depois desta sessão de cinema, a Joanna tem certeza que não pode assistir aos filmes de terror. Mesmo sem som...

A estação número VII
 A Joanna, uma estudante muito aplicada, 18 anos

A Joanna, já adulta, está a preparar-se para os exames finais da escola secundária. Portanto, vê muitos filmes biográficos, em particular sobre os pintores famosos. " Rapariga com Brinco de Pérola", "Os Fantasmas de Goya" ou "Frida" são os filmes que ainda estão na sua memória...

A estação número VIII
A Joanna que fica no cinema e pensa que está sozinha, 20 anos

É muito tarde. Depois de uma longa viagem através da sua memória, a Joanna abre os olhos. A menina não está ciente de quantas mentes estrangeiras há em torno dela. Não importa. Não importa, porque na grande tela começam a projetar o filme "Pina". Um documentário alemão em 3D. As pessoas no cinema emudecem, apagam as luzes. Alguns segundos de silêncio e começa uma nova jornada. Desta vez, uma jornada através de movimentos, sons e gestos. A verdadeira adoração do corpo humano. Arte, precisão, perfeição. Sem palavras e sem fôlego, como a pequena Joaninha de três anos, Joanna afoga-se na dança. Está feliz. Está muito feliz. E... queria que esse momento durasse para sempre.

Joanna Dudek

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Timor-Leste nos olhos de Luís Cardoso


Em maio de 2012, para celebrar o décimo aniversário da reconquista da independência de Timor-Leste, o mais importante escritor timorense, Luís Cardoso, foi convidado para visitar Cracóvia. Esta iniciativa fez parte de um projeto maior* que envolve a popularização da língua e da cultura dos países lusófonos. O encontro acompanhou a estreia dos fragmentos dos seus romances em polaco, Crónica de uma travessia, Olhos de coruja olhos de gato bravo e Requiem para o navegador solitário, publicados no “Roman” - jornal dos estudantes do Instituto de Filologia Românica da Universidade Jaguelónica.
Luís Cardoso nasceu em 1958 na ilha de Timor e recebeu a sua primeira formação no colégio missionário, uns anos depois terminou os estudos universitários em Portugal e lá ficou. Não podia regressar à sua pátria por razões políticas- naquela altura Timor estava ocupado pela Indonésia. Apesar disso, sempre foi um representante e um defensor da questão timorense na arena internacional. O seu país é muito jovem, pode desfrutar-se da liberdade e da independência só há 10 anos. No entanto, ainda sofre das repercussões dos tempos da ocupação e da isolação.
Nos seus livros o autor aproxima o leitor da “terra onde nasce o sol”, como é chamado Timor. Apresenta a diversidade étnica do povo timorense, a sua história e a cultura que é profundamente arraigada na tradição impregnada pelos ritos e mitos. Ainda a mesma ilha tem a sua própria história no que se refere à sua origem. Acredita-se que foi criada do corpo do crocodilo que chegou ao fim do mundo com o primeiro habitante nas suas costas. As lendas deste tipo constituem uma parte intrínseca do universo timorense. Durante o encontro com Luís Cardoso tive uma oportunidade única de escutar contos da sua infância em Timor. Como ele é um contador maravilhoso podia com as suas histórias “transportar” a sua audiência para este sítio mágico onde se encontram o mundo terrestre com o espiritual e o sobrenatural.
É interessante como o povo tão afastado da nossa cultura europeia pode perceber o mundo. Na visão dos timorenses o mundo é capaz de virar-se do avesso só para desviar os intrusos. O truque chama-se rain-fila e se alguma pessoa se dá conta de que o truque foi feito, deve despir-se e pôr a roupa do avesso para encontrar o seu caminho correto. Em Crónica de uma travessia, uma personagem que está em Portugal faz este rito em frente de um grupo de pessoas. Eles ficam muito surpreendidos, mas também estão inconscientes totalmente do que acontece.
Uma das histórias contadas durante o encontro com Cardoso referia-se ao espírito da mulher grávida, uma pontiana, que assombra durante a noite e o encontro com ela pode provocar a insanidade. Além disso, diz-se que se à meia-noite os meninos dormem de boca para cima enquanto lá fora um pássaro canta, uma pontiana aparece e arranca os corações deles. Cardoso revelou que a mãe dele para proteger o seu filho adormecido virava-o sempre para que ele ficasse de costas para a janela. Também, o autor acrescentou que durante a sua infância queria sempre encontrar uma pontiana porque a lenda diz que ela é uma mulher muito bonita.
Quanto aos espíritos  deve-se mencionar os dos antepassados. Eles não se separam do seu povo, estão sempre presentes porque habitam os corpos de tubarões que vivem nas águas que rodeiam a ilha. Os timorenses respeitam muito os espíritos ancestrais. Se eles ficam ofendidos por algum motivo podem provocar uma tempestade. Também, como eles já viveram a vida têm uma sabedoria grande e podem ajudar a resolver os conflitos. Portanto, se dois homens não podiam chegar a acordo em alguma questão, o povo mandava-os ao mar, aos tubarões e quem regressava tinha razão.
Estes são alguns dos mitos ainda vivos nos lares timorenses. Contudo, não se deve esquecer do que a população timorense também é católica e trata a sua religião com uma devoção verdadeira. É admirável como estas duas esferas coexistem sem evocar os conflitos. A realidade timorense com o seu imaginário mágica não só surpreende, mas também fascina. Que pena que Timor-Leste fica tão longe da Polónia!

* o projeto realizado pela Fundação Lusorizonte, o Instituto da Filologia Portuguesa UJ, o Instituto de Camões em Cracóvia e o Círculo Académico da Língua Portuguesa UJ

Agnieszka Miciuła

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Bom cinema e mau cinema


Quando andava na escola secundária todos os alunos tinham de participar na MAF - academia de cinema. Todos os meses íamos ao cinema para ver um filme bom, não popular. Eu fui só uma vez e isto foi uma experiência tão aterradora que depois não fui ao cinema durante dois anos.
Quando o filme não tem muitos admiradores, não podemos dizer que é mau. É bom, difícil, que não compreendemos, porque somos estúpidos. Filme mau podemos considerar algum filme popular, porque é claro, que toda a gente quer ver as piores coisas e perder o tempo. Também há grandes êxitos de cinema, que ganham prémios e têm muitos admiradores. Por exemplo A Origem (Inception). Vi 30 minutos fiquei aborrecida e o meu irmão disse: "Isto é bom, vais perceber depois." Então, eu estou a ver um filme bom, mas ainda não sei isto. Faz sentido para mim.
O género de filme mais adorado e, ao mesmo tempo, mais odiado é o filme de terror. Para algumas pessoas é muito divertido, enquanto outras têm depois medo de sair do quarto à noite. A única coisa em que os realizadores deste género estão a pensar é o medo, o medo e o medo. Não veem nada mais e por isso criam as cenas assustadoras e ilógicas. A luz está acesa durante o dia e desligada à noite, quando os heróis esperam o monstro. Quando o monstro chega, fogem para o telhado. Além disso, os filmes de terror contemporâneos não têm a tendência para assustar, mas para ser repugnantes. Um saco de molho de tomate e alguns ossos de plástico não influem nas minhas emoções, mas faz-me lembrar o jantar, que não devia ter comido.
A comédia romântica é como o porquinho da Índia: não é porco, nem da Índia. Ver uma é como ver todas. Não há nada para contar: as mesmas personagens, o mesmo enredo, as mesmas piadas, ainda os mesmos detalhes e os mesmos atores. Nunca ficamos desiludidos com estes filmes, porque cada vez que vamos ao cinema ver uma comédia romântica, sabemos perfeitamente o que vamos ver. É o filme ideal para as pessoas que não gostam de surpresas e têm muito tempo para perder.
Há uma grande diferença entre a comédia da América do Norte e "a comédia norte-americana". O fundamento de boa piada é a conclusão surpreendente, imprevista. Sydney Pollack sabia isto perfeitamente e por isso Tootsie - que representa o cinema da América do Norte - é o segundo filme na lista dos filmes mais engraçados da história. Os realizadores das comédias norte-americanas querem ser mais imprevisíveis, por isso incluem na conclusão os elementos irreais. Assim, é claro que o espectador vai ficar surpreendido. Pela primeira vez e depois? Como as piadas que seguem o mesmo esquema podem provocar o riso por uma hora e meia? Para ser justo: o filme mais engraçado da história é Quanto mais Quente Melhor. Então, podemos ver que gostamos das piadas norte-americanas ou homens vestidos de mulher.
A Disney é o estúdio, que lança os melhores desenhos animados, que sempre mostram o mundo bonito e feliz. As crianças ainda têm tempo para saber que não é assim. Por isso a Disney muda um pouco os contos de fadas e as lendas. Na versão original de A Pequena Sereia o príncipe casou-se com a outra princesa. As irmãs da Pequena Sereia deram-lhe a faca para matar o príncipe, mas ela preferiu suicidar-se. As irmãs da Cinderela cortaram os dedos dos pés antes de experimentar o sapatinho. Pocahontas foi raptada pelos ingleses e morreu pouco depois de chegar a Londres. Por outro lado, a heroína chinesa Mulan não teve grandes problemas quando os outros soldados descobriram que ela era uma mulher. Foi a Disney quem quis matá-la por isso.
Eu escrevi no princípio, com ironia, que só os filmes maus atraem o público. Não tenho certeza se isto é sempre a ironia. The Room foi considerado um dos piores filmes já feitos, mas também é muito famoso porque lançar uma coisa tão má, tão ilógica, com os atores tão maus, com os diálogos tão estúpidos, sem uma única cena feita corretamente é a verdadeira arte, que precisa de muito talento. O realizador, guionista e ator foi Tommy Wiseau. É o homem mais feio que já vi. Não sei o género deste filme nem qual é o enredo, mas adoro vê-lo, é uma experiência sem igual.
Há muitos prémios, listas dos filmes melhores e dos piores, resenhas dos críticos reconhecidos, que servem para classificar o que vale a pena ver e o que não. Na verdade a única pessoa que tem o direito de decidir o que gosto de ver sou eu com o meu gosto estranho, mas isto não significa que é o mau gosto.

Małgorzata Stankiewicz

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O filme da minha vida...

Outra vez o outono. Os dias são mais curtos, está frio e chove muito. Já não posso passear durante horas (e não quero). Até apanho o autocarro para a universidade e de volta para a casa preciso dum chá quente. Desejo deitar-me um dia e acordar na primavera, quando as árvores estejam em flor. Queria ser um urso, mas ainda tenho coisas por fazer e não posso cair nos braços do Morfeu, assim afundo-me em “meio-sono”. Vejo filmes. Foi complicado pensar num filme importante para mim. Na infância tinha muitos modelos para seguir, mas com o tempo esqueci-me deles e criei uma personalidade própria e original, não duma princesa Disney. Finalmente, decidi-me pelo último filme que vi no cinema: “Skyfall”. 
 Um dia um amigo meu telefonou-me e perguntou se tinha alguma coisa para fazer nessa noite. Costumo dizer que não tenho nada importante porque, muitas vezes, assim consigo uma cerveja ou comida grátis. Desta vez foi ainda melhor porque recebi um bilhete de cinema. Naquele momento não percebia que a minha decisão iniciaria uma espiral de desgraças e mexericos. Gostei muito do James Bond, mas a amante do protagonista não era boa atriz. Não comi pipocas, não falei pelo telemóvel, também não fui à casa de banho. Portei-me bem. Mas depois do filme vi que tinha cinco chamadas perdidas. O meu namorado estava zangado comigo e senti a obrigação de falar com ele. Normalmente não minto e naquele momento também não queria mentir. Contei-lhe que estive no cinema com um amigo. Desligou a chamada. Desde então a minha vida mudou muito. Parece um filme. O meu namorado tinha espiões que supostamente me viam com o mesmo amigo pela rua, juntos, de mão dada. A cada dia, hora, minuto, segundo, os mexericos eram mais interessantes. Uma paixão descontrolada, fugas secretas para a casa dele, uma relação misteriosa. Não! Uma seita satânica e comércio de órgãos. Depois duma semana dentro dum filme de suspense, começou a parte dramática. Eu estava irritada. Queria falar com ele, mas não era possível. Tinha monólogos com um boneco calado, deprimido, estranho. Só esperava que explodisse duma vez. E explodiu. Gritou-me no meio da rua e deixou-me sozinha.
 Agora sou solteira e nunca imaginei que um filme pudesse alterar tanto a minha vida. Mas, ainda assim, gosto do James Bond. É o meu herói tanto no grande ecrã como na vida real.

Natalia Sławińska

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que me irrita II


Como toda a gente, tenho a minha própria ideologia. Creio que uma certa ordem no mundo é crucial e sigo as regras desta ordem. Não gosto quando alguém destrói a minha visão do mundo perfeito.
Não me irritam pessoas ou coisas em particular, mas certos grupos e os seus esquemas de comportamento. Nada me dá pior dor de cabeça do que os conservadores. São as pessoas que cultivam as tradições mais antigas da cultura polaca. Entre outros, escrevem como os seus antepassados da Idade Média, então não usam pontos, vírgulas, maiúsculas nem outros elementos indispensáveis para compreender o texto. Eu não vou adivinhar o que o emissor queria dizer e peço-lhe que repita (irrito-o muito) até que escreva de forma compreensível.
Faço o mesmo com os adeptos do futurismo. É um movimento artístico e literário da primeira metade do século XX, que aprecia o valor da originalidade e a criatividade. Não conheço pintores ou arquitetos que representam este estilo, mas há muitos escritores. Eles sabem as regras da ortografia polaca, mas, para serem excêntricos, não as seguem. De quando em quando esquecem-se disto e escrevem na mesma frase uma palavra duas vezes: uma corretamente e a outra futuristicamente. Irrita-me esta falta de coerência.
Eu sei que é muito importante conhecer outras culturas e outras línguas. Viajar pelo mundo faz-nos mais sábios e tolerantes. Se calhar devo viajar mais, porque não tolero os poliglotas. Quando conhecem uma palavra nova, geralmente inglesa, esquecem-se imediatamente da palavra polaca. Depois escrevem frases em duas línguas ainda que não haja nenhuma razão para fazer isso. Nas aulas na escola primária ensinavam-me que metade de um burro e metade de um sapo não é igual a um animal.
Respeito todas as pessoas que se interessam por alguma coisa e não me importa se jogam xadrez, se ouvem Justin Bieber. Também respeito os cinéfilos, mas isto não significa que eles não me irritam. Eles conhecem todos os filmes novos, conhecem os atores, sabem quem é mau, que é um bom ator, predizem que filme vai ganhar o Oscar. Isto é incrível. Para mim um filme é só um filme. O que é mais incrível é que os cinéfilos não sabem a diferença entre Star Trek e Star Wars. Chewbacca não era um amigo de Spock e Picard não lutava com um sabre de luz. É óbvio!
Irritam-me muito as minhas fraquezas, sobretudo a indolência. Tenho sempre o plano de fazer todo o trabalho de casa durante o fim de semana, mas ver pela quinta vez Prison Break é mais importante do que escrever uma composição.
Detesto a situação quando não tenho ideia do que escrever. Os meus amigos tentam ajudar-me, mas geralmente as suas sugestões são piores do que a minha falta de ideias. Por exemplo, eu pergunto: "O que te irrita?" "Tudo." "Nada." "Os patos que atravessam a rua." Não vou escrever isto, eu gosto de patos.
Há também um grupo de pessoas piores de tudo. Eles enervam-me imenso: despertam o Mr. Hyde, provocam a Terceira Guerra Mundial, acendem o rastilho das toneladas de explosivos, arriscam as suas vidas. São as pessoas que não compartilham chocolate comigo.

Małgorzata Stankiewicz

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O que me irrita

Está frio. Chove e há muito vento. Infelizmente não tenho nenhum guarda-chuva, então, a cada segundo, pareço mais e mais um rato afogado. Sem dúvida, não estou feliz. Não posso fingir que tudo está bem. Estou furiosa. Sim, furiosa, zangada, irritada...e ela já está atrasada meia hora. Outra vez é impontual. Não quero ouvir outra vez as suas desculpas estúpidas. Finalmente chega. Respiro fundo, sorrio e sem palavras vou levá-la para um café. 
  O meu pequeno café preferido está fechado. Temos de mudar de lugar. Agora estamos numa pastelaria onde só se podem ver casais apaixonadas que não param de se beijar e abraçar. Isso dá-me vontade de vomitar, mas a chuva não nos permite deixar este “jardim do amor”. Estamos ansiosas por um café que já está a fazer há 15 minutos. Tento concentrar-me na música do rádio, mas... isso não é uma boa ideia. Só modernas batidas tecno que não têm nada para oferecer. Estou irritada, sem palavras, e sem café, saímos deste lugar. 
  Ainda está a chover, portanto vamos para a paragem apanhar um autocarro. Muita gente espera impacientemente para voltar para casa. Infelizmente a chuva é forte e o engarrafamento em hora de ponta atrasa tudo. Estamos um pouco chateadas e irritadas. Além disso, um homem alto com uma barba ruiva está a fumar bastante perto de mim. Não me vê porque está ao telefone. Portanto, não percebe que todo o fumo que lança da boca está a voar diretamente para mim. Quero dizer-lhe algo desagradável mas alegremente chega o nosso autocarro. Subimos. 
  A minha primeira impressão é que não estamos no autocarro número cinco, mas no meio do deserto cheio de pessoas suadas. Sem ar, sem água, sem espaço. Já é segunda vez que quero vomitar mas... não tenho nenhum lugar para fazer isso. Estou irritada, muito irritada. Acho que neste momento sou a pessoa mais irritada do mundo. A paragem de autocarro número um, a paragem número dois, a paragem número três, quatro, cinco, seis... ufff. Por fim, deixamos o deserto de suor e fedor. Continua a chover por isso os meus sapatos de camurça estão completamente molhados. Sem dúvida vou ficar doente. Maravilhoso! A minha amiga sem nome, mas com galochas, pode cantar e saltar sobre poças, o que me irrita ainda mais. Já não quero vomitar, eu quero matá-la, mas finalmente e alegremente, chegamos à minha casa. 
  Esperava descansar um pouco mas depois de três minutos vejo perfeitamente que hoje isso não é possível... O meu querido irmão, grande músico, está a tocar saxofone. Não sei se há no mundo um instrumento cujo som me irrite mais. Educadamente digo "adeus" à minha amiga, corro para o meu quarto, fecho a porta, fecho os olhos, trato de tapar as orelhas também e cheia da irritação, vou dormir com a cabeça debaixo do travesseiro. Estou a dormir! Estou a dormir e a sonhar com o dia mais irritante da minha vida.

Joanna Dudek

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Duelo Ortográfico


No passado dia 12 de novembro decorreu o primeiro concurso de ortografia organizado pelo Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões em Lublin. Apresentaram-se 17 concorrentes no que mais parecia um duelo Lublin versus Cracóvia, uma vez que da terra do dragão do Wawel vieram nove estudantes. Os restantes eram alunos da UMCS. Apesar de jogar em casa a “seleção” de Lublin não venceu mas ocupou os restantes lugares do pódio:
Primeiro lugar: Katarzyna Kuźnik – Universidade Jagellónica de Cracóvia
Segundo lugar: Zyta Padała – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin
Terceiro lugar: Monika Dobrowolska – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin
Além disso, o júri decidiu ainda distinguir:
Daria Mikocka – Universidade Jagellónica de Cracóvia
Anna Betlej - Universidade Jagellónica de Cracóvia
Paulina Pałyska – Universidade Marie Curie Sklodowska de Lublin