O Concurso de Fotografia é uma iniciativa
organizada peloCentro de Língua Portuguesa/Camõesde Lublin e tem por objetivo divulgar Portugal
através da imagem. 1.Participantes: a)O concurso é
aberto apenas a fotógrafos amadores.
b) Aos membros do júri é vedada a participação
bem como aos seus familiares diretos.
2.Tema: O tema do concurso é Portugal
a preto e branco.
3. Trabalhos:
a) Os trabalhos deverão ser a preto e
branco.
b) Cada participante pode apresentar a concurso
até 3 trabalhos.
c) Só serão aceites trabalhos que não tenham sido
premiados noutros concursos.
d) Os trabalhos deverão ser apresentados em
formato digital.
e) Os trabalhos deverão ser entregues por
e-mail, até ao dia 30 de Setembro de 2013 (clp.lublin.polonia@gmail.com).
f) Os concorrentes deverão indicar o título do
trabalho e a indicação do local de recolha da imagem.
g) Juntamente com os trabalhos os concorrentes
deverão indicar o nome e e-mail
4.Júri: A divulgar.
5.Prémios :Serão premiados os três melhores trabalhos.
6. Disposições finais:
a) A organização reserva-se o direito de expor,
publicar ou reproduzir quaisquer dos trabalhos premiados, salvaguardando sempre
a indicação do autor. b) Os dados pessoais facultados serão utilizados exclusivamente pelo CLP/C para os fins do concurso, entrega de prémios e divulgação de informações relativas a eventos futuros semelhantes. c) A apresentação dos trabalhos pressupõe a
plena aceitação do presente regulamento.
Eu queria ser uma folha que apenas caiu de uma árvore. Não toda a vida mas por um breve período de tempo. Se eu fosse uma folha a minha vida seria muito tranquila, frívola e muito interessante. Mas não queria ser uma folha que pende de um ramo porque não me poderia mover. Seria dependente do vento e teria de passar todo o tempo com outras folhas. Por outro lado, poderia madurar e estar verde durante todo o verão. Se fosse a folha do bordo, seria muito vaidosa e olharia as pessoas e os carros passando. As folhas do bordo são pesadas então o vento não me moveria demasiado. Teria o meu próprio território marcado e outras folhas seriam mal vistas. Também poderia ser uma folha de faia. Então teria o caráter completamente diferente. Seria um viajante que voaria com o vento. Observaria todo o mundo como um pássaro. Descansaria nas calhas do teto e nos parapeitos. Poderia passar as fronteiras sem papeis e controles. A vida de uma folha é muito interessante. Todas as folhas são livres e nunca se preocupam. Mas acho que as folhas de pinheiro ou abeto são mais tristes porque são pequenas e não podem voar.
De
manhã visto a capa comprida e preta em que me posso esconder completamente. O
chapéu grande enfeita-me a cabeça. Tenho a cara coberta com tinta branca.
Dirijo-me à praça central e lá coloco-me à sombra da igreja. Durante as
próximas horas vou desempenhar o papel dum homem estátua.
Tenho que estar inamovível como um monumento. Reter os
movimentos e as caretas. O dia está quente e o céu limpo. A minha capa negra
atrai os raios do sol, enquanto a praça se enche de gente. Observo o meu
público acidental. Conto os membros da excursão escolar lembrando-me que não
posso mover a cabeça. Algumas crianças travessas tentam desconcertar-me, mas
não me deixo. Os treinos de bailado ajudam-me agora a manter o equilíbrio.
Alguns param e olham para mim com insistência e espanto. Outros atrevem-se a
agarrar a minha capa. Superar o ataque massivo das crianças curiosas é um
desafio. O seu assombro faz-me rir, mas detenho os músculos da cara porque não
sou palhaço. Depois, os turistas ingleses aproximam-se com as suas máquinas
fotográficas e desta vez também contenho o sorriso que quer aparecer
instintivamente. Um homem com folhetos tenta desconcertar-me com um e além
disso, como para chatear, vêm-me à cabeça as histórias que querem provocar uma
explosão de gargalhadas. Depois de três horas, felizmente já não tenho este
problema, porque a dor das costas facilita manter o rosto concentrado.
Divirto-me observando a vida da cidade nas horas de ponta. O fluxo das pessoas
correndo ao sons inadequados do violino dum músico vagabundo. Finjo que estou a
ver um filme cuja acção se desenvolve em frente de mim. Outra vez, imagino que
sou um jogral medieval, tendo cuidado para que não esquecer que hoje sou só um
elemento da composição deste lugar. No entanto, alegra-me muito que as pombas
não se deixam convencer que seja um monumento e preferem reunir-se na estátua
familiar de Mickiewicz.
Assim foi o desejado dia quando não fiz simplesmente
nada, mas cansei-me excessivamente. Acho que vou gastar o meu dinheiro numas
férias.
Imagina a
situação: vais caminhando pela rua e repentinamente aparece uma pessoa que te
faz uma pergunta «Se tivesse uma
oportunidade de estar na pele de qualquer pessoa ou ser vivo por um dia, qual
escolheria?». Pois, tens de ter um minuto para pensar. Já sabes? A escolha foi fácil? No meu caso
sim.
Ao princípio, pensei em pessoas que
conheço. Queria estar na pele deles? Não. Uma tem demasiados problemas consigo
que são visíveis, por isso eu não quero nem saber o que está dentro dela.
Seguimos. Uma pessoa que eu admiro e que é homem? Não, vou deixar o caso de
Dave Gahan para outra oportunidade. Uma profissão? Não, é possível mudar de
profissão se alguém quer. O quê então? É óbvio que um animal! Porquê? Porque
não é possível na nossa vida transformar-se num animal, então é a única
oportunidade. Agora a escolha é facílima. Quero estar na pele do animal mais
lindo, e que admiro: um lince euroasiático.
O meu dia é muito diferente do dos
homens. Para começar, as partes do dia estão inversas. Quando os homens
trabalham eu durmo e quando deveriam dormir eu começo o meu dia, ou seja a
noite. É possível comparar o meu dia com
o dos trabalhadores por turnos, mas eles mudam o seu ritmo e eu não. Às horas
quando todos se levantam eu deito-me na minha casa. Vivo na floresta, nas
cavernas ou nos troncos ocos. É bastante cómodo. Não durmo todo o dia e às
vezes gosto muito de aquecer-me ao sol ou estar sentado no ramo de uma árvore.
Alguns homens acham que desta maneira eu caço. Que ingénuos! Caço de noite, mas
se sinto ou vejo a possibilidade de comer durante o dia, aproveito-a. Mas então
é possível comer só os pássaros. A parte mais interessante do meu ritmo de vida
começa à noite, quando o sol se põe. Vou caçar. Tenho de ter muito cuidado para
que a minha «comida» não fuja. Os
homens acham que sou o campeão na corrida. Pelo contrário. Posso correr
depressa mas só por um momentinho. Canso-me rapidamente. Mas sou paciente. Por
isso, posso caminhar 20 quilómetros à procura de comida. O meu «prato» preferido é a cerva. Ela corre
muito depressa, por isto uso a astúcia. Sou tão inteligente que me aproximo da
vítima sem fazer nenhum som, silencioso. E quando não espera...ataco-a. Escondo
debaixo da terra ou na árvore os restos do meu «prato». Poderiam pensar que alguns animais roubam a minha comida!
Sim, também há ladrões entre os animais! Isto é horrível. Às vezes a minha caça
é muito divertida. Imaginem que posso saltar até 2 metros de altura!
Mas a minha vida não é tão colorida
como parece. Primeiro, sou uma espécie em perigo de extinção. Muitas vezes os
homens matam os meus irmãos nos acidentes nas estradas que cruzam as florestas.
Também alguns nos caçam. Não há muitos lugares onde podemos viver,
infelizmente. Isto é um problema muito grande. Na Polónia há uma organização
que se dedica a nós. Chama-se WWF. Vocês podem ajudar-nos também. Basta darem 1% dos impostos no futuro. Isto não custa nada, mas pode ajudar. Ou se têm
dinheiro podem doar via fundação WWF.
Acho que se eu não fosse homem, seria
um lince. Os grandes olhos e a cor da pele dos linces não são as únicas
semelhanças. Mas o assunto dos linces
deveria ser tratado mais sério. E porque não é? Quando fui à repartição de
Finanças a senhora quase se riu de mim quando viu que dei 1% dos meus impostos
para salvar os linces! Não podemos esquecer-nos dos animais, não só dos linces
mas também dos outros. E podemos começar com os nossos cães ou gatos.
Anna
Krupa II ano de Filologia Ibérica
Nota da redacção:
O Lince-Ibérico é o felino mais ameaçado a nível mundial. Para mais informações consultem:
Quando entrei no palco o público calou-se e ficou com
um ar de espera e de algo mais, só depois dum momento percebi que
foi...surpresa. Tiinha nessa altura dezassete anos e os outros músicos eram
bastante mais velhos. Apesar disso, tinha a roupa velha e usada, enquanto o
resto das pessoas eram nobres, vestidos de seda e veludo. Sentia que a
curiosidade do meu público crescia. Abri a capa, apanhei o meu alaúde e olhei
uma vez mais para a minha audiência, Cantei os quatro primeiros versos e
calei-me. Escutei como um sussurro de surpresa enchia a sala. Depois voltei a
por as minhas mãos no instrumento e toda a gente se calou.
Se
não sabem, tenho de explicar-vos uma coisa. A canção que tocava não era só
difícil- era extraordinariamente difícil e complicada e provavelmente a única
pessoa em todo o mundo que conseguia cantá-la e tocá-la extraindo toda a sua
beleza era o meu pai. Todos conheciam a letra da canção, mas provavelmente
poucos a tinha ouvido, era mais como uma lenda, uma canção escrita de uma
maneira que para tocá-la bem tinha de ter um dom sobrenatural, um talento
excecional e muita experiência.
E lá
estava eu, um menino de dezassete anos, tocando-a com uma perfeição que nenhum
deles tinha ouvido na sua vida. Cantei
com toda a minha alma, o som de alaúde era forte e sonoro, a minha voz
orgulhosa e segura, sentia como o público começava a amar-me e a ter medo de
mim. A música era eu e eu era a música, não sabia dizer onde acabava eu e
começava ela. Nem sequer tive consciência dos espectadores, sentia como se
estivesse só com a música da minha alma. Era como montar um cavalo a galope
numa tempestade muito forte, quando o teu corpo e a tua alma se enchem da
excitação causada pela velocidade de montar e pelos trovões que parecem mover a
terra. O teu caminho é iluminado só pelos relâmpagos e esqueces o fim da
viagem, porque o fim não é o mais importante, a importante é a viagem em si, o
seu ritmo e a sua beleza.
Mas
tudo tem de acabar. E assim acabou a história que cantava e os meus dedos
deixaram de tocar as cordas. Todos estavam calados, na sala não havia nenhum
barulho. Sentia- me como se despertasse dum sonho louco e profundo, e ficamos
assim, todos calados, todos cheios de música, apesar de que já se não ouvia,
todos a ouvíamos nas nossas almas. E
depois, a taberna encheu- se de aplausos, de barulho forte como uma trovada
depois dum relâmpago.
***
A pessoa sobre a qual escrevi é Kvothe,
personagem do livro “O nome do vento” de Patrick Rothfuss. O texto, obviamente,
não é nenhum fragmento do livro, é somente a minha cena imaginada baseada na
personagem.
Estás em Lisboa. Já comeste os famosos pastéis de nata, saboreaste o vinho
português e conheces todos os centros comerciais de cor. Perguntas: e agora o que vou fazer? Neste momento
reparas que seria bom se investisses no teu desenvolvimento cultural. Sais na
estação do metropolitano que se chama Baixa
Chiado, porque alguém te disse que lá está o coração de Lisboa. Pensas: perguntarei a alguém se conhece o caminho
para algum sítio interessante. Perguntasa um português porque devia conhecer a cidade
dele. Mas não tomaste em conta que não fala fluentemente inglês e no melhor
resultado ouves a resposta: I'm sorry. I speak only portuguese.* Perguntas a outra pessoa. Fala inglês.
Só há um problema. Tal como tu, pensa no lugar para onde podia ir e tira o
mapa. Resignado , tens intenção de ir para o sítio já conhecido, onde a
carteira clama ao céu por vingança e as vitrinas seduzem com os produtos
infernais. De repente relembras-te que uma vez leste um artigo sobre os lugares
interessantes em Lisboa. Aqui está.
No acima mencionado – Chiado – cada pessoa encontrará algo
para ela, porque este bairro está cheio de sítios ligados à cultura popular,
que é mais acessível e também com a cultura mais culta e sofisticada.
Interessados pelo teatro vão encontrar alívio num dos três mais famosos teatros de Lisboa: Teatro de São Carlos (a principal Casa de Ópera de Lisboa), Teatro
São Luiz ou Teatro da Trindade. No caso dos teatros tenho de mencionar o teatro mais famoso, situado no
Rossio – Teatro Nacional D. Maria II.
Passando o tempo no centro da cidade (Alfama, Mouraria ou Bairro
Alto) vale a pena conhecer o património cultural de Lisboa que com certeza
é o fado. É uma canção tradicional
que normalmente, com a melancolia dela, manifesta saudade. É realizado com o
acompanhamento da guitarra portuguesa (que se distingue da guitarra pelas 12
cordas) ou da guitarra clássica. Na verdade, há muitos lugares onde se pode
ouvir este tipo da música. Para participar no concerto dos músicos
profissionais pode-se ir a uma das famosas Casas
de Fado. Uma delas é por exemplo a Parreirinha
de Alfama, em que o programa depende da
hora da nossa chegada. Antes temos de reservar uma mesa para podermos vir,
sentar-nos, deleitar-nos com a música ao vivo e encomendar o prato (é
obrigatório). Outra casa de fado localiza-se
no Bairro Alto e chama-se Tasca do Chico. Lá a comida não é tão
importante como no lugar anterior mas também se pode comer bem (porém da
maneira menos requintada) com o acompanhamento da música. Na Tasca do Chico
normalmente cantam e tocam as pessoas desconhecidas mas isto não significa que
as músicas sejam de baixa qualidade. Ao contrário, estas pessoas habitualmente
sabem muito sobre a música.
A maneira
mais barata de ouvir o fado é ir a um bar típico português (que não é preparado
especialmente para os turistas). Um bom exemplo do bar deste tipo pode ser o Tejo Bar em Alfama. Lá não ouviremos a
música feita pelos músicos profissionais. Encontraremos as pessoas habituais
que tiram prazer de tocar e cantar. Vale a pena mencionar que antigamente,
quando o fado surgiu, era a voz da pobreza. Depois despertou o interesse das
pessoas que se ocupam da música diariamente. Por isso, para poder comparar, é
bom conhecer dois tipos de fado (profissional e amador).
Para
descansar depois de ouvir a música tradicional portuguesa, recomendo ir para o Hot Clube (ao lado da Praça da Alegria). É o
clube mais antigo de Portugal e da Europa (fundado em 1948), em que a música principal
é o jazz. Lá começaram a tocar muitos músicos notáveis de jazz e atualmente
quase todos os dias têm lugar vários concertos. Se alguma pessoa
se interessar pela música em larga escala, tem de assistir pelo menos uma vez a
algum concerto no Hot Clube (tendo em conta que este clube é famoso não só em
Portugal mas em toda a Europa). Ainda tens falta de jazz? No centro de Lisboa é
fácil encontrar outros bares, em que frequentemente têm lugar jam sessions (por exemplo Fabrica Braço de Prata ou bar Alface).
Passando
ao tema dos concertos então tenho de referir-me aos Coliseu dos Recreios, Campo Pequeno ou
Pavilhão Atlântico. Estes lugares merecem atenção especial porque lá
acontecem os maiores musicais em Portugal. Cada mês servem-nos uma dose musical potente
dos vários géneros desderock e metal
passando pelo punk e música alternativa até hip-hop e pop. Mas temos de ter em
conta que para assistir ao concerto é bom familiarizar-nos com o programa e
comprar os bilhetes antes, porque muitas vezes pode acontecer que os bilhetes
já esgotaram (com certeza isto depende de artista/banda).
Se
falamos de cinemas vale a pena chamar a atenção para o festival IndieLisboa, que demora 10 dias e é um festival internacional dos filmes
independentes. Em abril terá a sua décima edição. Este evento tem como objetivo
a promoção do cinema alternativo e a propagação dos filmes que aparecem nos
cinemas portugueses raramente. É um dos maiores eventos deste tipo em Portugal
não só por causa do número dos participantes (35 500) mas também por causa
do número dos ecrãs (9) usados para as projeções dos filmes e da quantidade dos
filmes que aparecem nos cinemas durante o festival (226).
Quanto
aos festivais, o maior festival de música, o
Optimus
Alive! (que é
parecido, no que diz respeito ao programa, ao festival polaco Open’er), tem lugar em Algés (nos
arredores de Lisboa). Teve a sua estreia em 2007. Junta muitas estrelas da
música rock e alternativa. Apesar de curta história deste festival, já tem
sucesso fora de Portugal. O Optimus Alive! Foi destacado pela revista britânica
NME, que colocou o Optimus na
dianteira do ranking dos doze mais populares e maiores festivais na Europa. A
outra vantagem deste festival é o tempo previsível – é sempre ideal.
Se depois de tanta informação ainda
tiveres problema em escolher algum lugar digno de atenção, faz uma pergunta
para ti: estou sem dúvida na cidade que
se chama Lisboa? A resposta é sim?
Vais encontrar algum bar com ambiente agradável nos bairros que já foram
enumerados antes. Tens muita e boa escolha. Em Lisboa vais chegar sempre até à
porta de algum sítio interessante. Os decobrimentos acidentais são
aconselháveis.
*Mas
tenho de dizer que os portugueses muitas vezes falam inglês e é fácil de entendê-los.
No terceiro anel da esquerda para a direita:
Agnieszka Miciuła, Paulina Zajglic e Monika Dobrowolska.
Em pé da esquerda para a direita:
Mariola Kur, Karolina Sieńko-Flis, Michał Hułyk, Weronika Kucharuk, Ewelina Witkowska, Monika Lisik, Estera Małek, Patrycja Paweska,Natalia Trzebuniak,Weronika Kazanowska, Katarzyna Kłodnicka,Mariola Soboń, Paulina Flasińska, Magdalena Józwik, Malgorzata Marciniec e Marcin Krawczyk.
Em baixo da esquerda para a direita:
Aleksandra Dudziak, Katarzyna Kuczyńska, Paulina Pałyska, Joanna Kida e Lino Matos
Os vizinhos são como a família, não se escolhem. Ou, pelo menos, é assim na maioria dos casos. Com certeza cada pessoa já teve o prazer duvidoso de viver ao lado dum indivíduo que lhe diversificava a vida e lhe fornecia emoções numerosas e lembranças inolvidáveis.
No prédio onde mora a minha família normalmente não há muitos problemas entre os residentes. Às vezes ocorrem alguns conflitos pequenos mas, em geral, a gente é simpática e tranquila. Mas nem sempre foi assim.
Lembro-me que há uns anos, vivia lá uma família bastante interessante, um casal com uma filha e um cão que ladrava sem parar e de que todos tinham medo. O pai não trabalhava, porém quase nunca estava em casa. Passava a maioria do tempo num banco com os seus colegas e com uma, ou mais, latas de cerveja na mão. Quando regressava para a casa depois dos encontros sociáveis mais intensivos, todos os vizinhos podiam ouvir o que na verdade a sua esposa pensava sobre ele. O estrépito alto e forte da porta assinalava que o espetáculo tinha acabado e os vizinhos podiam deixar de escutar às portas e voltar às suas tarefas. Ao contrário da sua mulher, o homem nunca usava palavrões e independentemente de estar sóbrio ou não era muito amável e estava sempre de bom humor. Às vezes não tinha permissão para entrar no seu apartamento e tinha de passar a noite na escadaria. Depois de passar umas horas no chão duro e frio, cumprimentava os seu vizinhos com um sorriso enorme e parecia o homem mais feliz no mundo. A sua mulher, apesar de ter o caráter muito mais forte do que ele tinha também o lado sensível. Todas as manhãs, ou as madrugadas, ouvia música clássica. Acho que o seu cão partilhava a sua paixão porque durante estes concertos matinais mostrava um talento tão grande que o próprio Andrea Bocelli podia ter inveja dele. Não sei se seria pelo cão perigoso ou pela coleção enorme de lixo que tinham na varanda, mas a filha adolescente dos meus vizinhos recebia sempre visitas na cave. Talvez ela e os seus amigos gostassem dos lugares escuros e húmidos ou pertencessem a uma seita. Eu nunca me atrevi a perguntar, mas julgando pelos vestuário preto e pela maquiagem escura deles tudo era possível.
Com certeza, nunca podíamos aborrecer-nos graças a esta família tão original, mas não posso dizer que quando mudaram de casa, os restantes residentes estavam com saudades deles.
Urszula Półkosznik 2º ano de Filologia Ibérica
Antigamente vivíamos em pequenas tribos no meio da floresta. Todos que habitavam na mesma povoação eram os parentes ou primos e todos se conheciam. Apesar disso, nem todos queriam, nem sabiam, conviver no mesmo espaço, mas todos eram os seus vizinhos. Hoje em dia geralmente não vivemos no meio da floresta, a menos que sejamos guarda-florestal. Infelizmente, nem sempre temos a possibilidade de não ter os vizinhos ou de escolher quem é que serão os nossos vizinhos. Quase 70% das pessoas na Polónia mora nas cidades e a maioria vive nos prédios construídos durante a época do comunismo ou até mesmo antes do comunismo (para não enumerar os que formam uma parte de paisagem urbana mesmo de antes da I guerra mundial).
Tudo isto faz com que os nossos vizinhos, quer queiramos, quer não, sejam as testemunhas da nossa vida. Embora nos separe a parede, há situações em que são só os olhos que não veem, mas os ouvidos registam tudo. Por isso, há um provérbio que diz: “as paredes têm os ouvidos”. Os vizinhos são um tema comum das piadas e zombarias. Mas nem sempre é assim, nem sempre os vizinhos são o alvo da crítica.
Łódź: Uma cidade feia onde tudo que não se encontra na rua Piotrkowska ou Narutowicza é cinzento e lembra a época do século XIX e dos princípios da urbanização e desenvolvimento das manufaturas têxteis. A cidade onde um pequeno chuvisco paralisa os transportes públicos e os elétricos andam à velocidade da luz. Nesta cidade no meio do inverno uma mulher, de alguns 70 anos, num dia cinzento e frio entregou-me umas luvas feitas de tricô. Deve ter observado que as minhas tinham muitos buracos e o inverno era muito severo. E dedicou o seu tempo para ajudar uma estudante que cruzava nas escadas durante alguns meses. O coração não tem de ser cinzento, nem de se paralisar com um pequeno chuvisco.
Białystok: Uma cidade multicolorida e caótica. Onde tudo está em obras constantes, mas nada é feito. A cidade que adora dançar e cantar, mas não sabe realizar um trabalho do dia a dia. Nesta cidade vivem muitas pessoas que provêm da região do Cáucaso. Uma destas famílias morava numa casa que se encontrava ao lado da minha. Naquele tempo o meu apartamento tinha muitas fechaduras e num dia os meus amigos fecharam uma para a qual não tinha a chave. Portanto, entrei no prédio, mas não podia entrar em casa, então sentei-me nas escadas, cansada, desesperada, sem saber quanto tempo precisaria de esperar até que alguém voltasse. Pouco depois abria-se a porta do apartamento do lado e uma mulher vestida de preto, com os olhos pretos e cabelo preto, falando um polaco muito fraco convidou-me para um chá. O coração não tem de ser preto, nem de se fechar com muitas chaves.
Kuźnica: Uma vila cujos dias da glória já ficam para atrás. Depois da II guerra mundial, quando foi bombardeada pelos nazis, o único que se desenvolve nesta vila são o cemitério, as mercearias e o contrabando dos cigarros, do álcool e das drogas. Nesta cidade vive o meu vizinho Wladyslaw. A sua casa foi construída numa cave onde tinha caído uma bomba. O meu vizinho passa a maioria do seu tempo à janela. A janela não está vazia, pois no peitoril está sentado um fiel companheiro, o cão Azor. Num dia o Wladyslaw não apareceu à janela. No dia seguinte tampouco. Os vizinhos, que de vez em quando visitavam o Wladyslaw na sua casa, normalmente passavam pela sua casa indo fazer compras. Se fazia calor, a janela estava aberta e paravam para falar um momento com ele. Se fazia frio, só acenavam e trocavam um sorriso. Mas neste dia quando o Wladyslaw não apareceu, todos ficaram preocupados e o visitaram. Wladyslaw adoeceu e pouco depois recuperou a força. O poder do sorriso é maior do que milhares de bombas.
Na Polónia há muitas cidades e muito mais vilas e aldeias. Todos temos e somos vizinhos, mas quando vemos algum deles triste dizemos: É só o meu vizinho, isso não é problema meu?
Anna Kułak 2º ano de Filologia Ibérica
Como o emprego das inocentes palavras "bom dia!" podem provocar mesmo as perturbações nervosas.
Quando era pequena e passeava com a minha mãe, ensinou-me a dizer "bom dia" aos vizinhos cada vez que ela o fizesse, o que era muito confortável, porque bastava que eu repetisse. A situação complicou-se no entanto quando andava sozinha e tinha que afrontar todas estas caras que sempre me surpreendiam aparecendo de repente na rua em frente de mim, assomando-se à janela ou espreitando na escuridão da escadaria. Eram todas caras familiares, que deveria reconhecer sem hesitação nenhuma. Porém esta exigência inquietava-me, porque quase nunca conseguia acertar por acaso no meu jogo de quem era quem? Passava por eles inconsciente de que estes rostos pertenciam aos mesmos donos cujas vozes ouvia todos os dias atrás de parede. Só um rosnido de desaprovação me informava que eram eles mesmos. Os meus óculos não chamavam a atenção, porque isso não era nada excecional. Talvez se andasse apoiando-me numa bengala branca ou acompanhada de um cão-guia, isso teria sido a prova evidente da origem da minha conduta. No entanto via demasiado bem para usar a bengala, mas ao mesmo tempo não bastante para poder vislumbrar quem está no lado oposto da rua. A minha mãe dizia-me que cumprimentasse qualquer um que visse no nosso prédio, o que também não esclareceu a minha confusão. Seguindo esta regra dizia gentilmente "bom dia" às minhas colegas e gritava "olá!" aos vizinhos idosos. Desta maneira consegui fazer que os primeiros se fartassem de rir enquanto os segundos consideravam que eu me ria deles.
Quando cresci, decidi que tinha que acabar com esta palhaçada e que se calhar seria melhor não dizer simplesmente nada. Pensava também sair depois de averiguar se o corredor estava vazio. Mas o que fazer com os encontros na rua? O meu irmão aconselhou-me que só lançasse os olhares raivosos. Pelo menos teriam medo de ti, achava.
Mas como apesar de tudo era uma criança cortês, não queria que me temessem. Tentava agarrar-me a um pormenor que me ajudasse a reconhecer estas pessoas. Por exemplo o vizinho de em frente saía sempre para o trabalho com um saco enorme e ocupava todo o espaço andando pela escada. A vizinha do andar de cima tinha o cabelo de cor do vinho maduro, muito chamativo. E havia também um senhor idoso, muito afeiçoado ao seu cão grande, que o acompanhava para todas as partes e ladrando anunciava que se estavam a aproximar.
No entanto, bastou que o vizinho aparecesse na rua sem o seu saco ou que a senhora de cima mudasse o penteado, e já voltava eu ao ponto de partida.
Havia também outras circunstâncias, exteriores que decidiam que um vizinho passaria desapercebido/desrespeitado (depende do ponto de vista). As precipitações enfraquecem a visibilidade não só na estrada. Era exatamente numa tarde invernal e escura, quando empapada de neve entrei na loja do bairro e com os sapatos pesados pisei o rabo do cão do vizinho. O pobre animal uivou tão comovedoramente que ainda inconsciente do meu feito cruel, pensei que tinha sido o alarme. O vizinho não disse nada, porque era um homem educado, mas a repreensão no seu olhar, cada vez que nos cruzávamos, era tão visível como o saco enorme ou a cor estranha de cabelo.
Atualmente, não consigo seguir as mudanças pessoais na minha escadaria. Cada vez que descubro uma cara que acho nova, afinal já aqui mora desde antes do meu nascimento. Percebo que por isso sente-se obrigada a rosnir e torcer a cabeça quando não a honro com o cumprimento. Só há um novo vizinho que não conhece a minha “fama” e então não considera inconveniente dizer-me Bom dia. Também eu sei reconhecê-lo sem sombra de dúvida, pois ele é preto.
Um pouco de Portugal no programa Pytanie na sniadanie da TVP 1 (Telewizja Polska). Curta conversa invariavelmente estereotipada mas que não deixa de ser uma boa forma de divulgar Portugal aqui na Polónia. Depois de um tal de Norbi (um saloio que já foi famoso na Polónia) e da Magda Gessler parece que Portugal está na moda por estes lados. Esta última passou por Portugal e num portunhol fluente cozinhou...na Praça da Alegria da RTP.
Muitas
vezes, quando tento dormir, sonho com a mulher que quero ser. Uma mulher forte,
bela, ágil. Uma mulher que sabe como resolver um problema, que não foge para o
mundo das emoções. Ela nunca tem rosto, é anónima. Acho que não há uma mulher
como a que eu desejo ser.
Porque nunca quis ser uma princesa,
Marilyn Monroe, Lady Gaga ou Joana d´Arc? Simplesmente porque sempre quis ser
homem. Quando era pequena não gostava dos comentários da minha mãe, que sempre
me disse que não podia ir com os meus amigos brincar porque era perigoso. E se
fosse um menino? – perguntava a pequena Natalia. A minha mãe respondia que sim,
então podia. Naqueles momentos apanhava um pau e tentava ser mais masculina do
que os meus amigos. Subia às árvores, saltava dos telhados e era o cavaleiro
mais corajoso do grupo todo. A minha mãe viu e decidiu que não posso brincar
com os meninos. Levou-me para a quinta da minha avó e ali com livros para
meninas, cresci até os 12 anos, quando foi para Espanha.
Foi a primeira vez que tive amigas.
Sempre foram rapazes, agora duas raparigas mostravam-me um mundo diferente,
cheio de cultura e linguagem distintas. Não gostei das conversas sobre as
compras. Não gostei da busca dos namorados. Ainda era pequena, não queria um
namorado, tinha muitos livros por ler e canções por ouvir. Não tinha tempo para
rapazes. Desapareci num mundo das
fantasias, Tolkien era o meu melhor amigo, Galadriela uma ninfa mágica e eu um
dos elfos à procura das aventuras. Uma mercenária com a sua espada, preparada
para lutar e procurar tesouros. Outras vezes era Eira, uma mulher tranquila e
normalmente pacífica, que conhecia todos os segredos das ervas. Amava todos os
seres vivos e ajudava, sem nada em troca. E eu na vida real queria ser como
ela. Achava que para conseguir a felicidade só precisava dum sorriso de outra
pessoa.
Depois de seis anos voltei para a
Polónia com mais experiência. Já conhecia os meus desejos. Queria fazer algo
para mim mesma, não só estudar para que a minha mãe seja orgulhosa de mim. E
então conheci o Treinador. Era só três anos mais velho que eu e há seis
praticava esgrima. Era erudito, entendia da lógica e dizia coisas muito
interessantes. Ensinou-me que um humanista deve saber um pouco de cada tema. Que
não está bem visto que uma mulher esteja bêbada e mais quando está rodeada de
homens também bêbados. Que levar uma navalha como proteção é ainda mais
perigoso do que não levar nada. Explicou-me que uma pessoa não precisa de
álcool, tabaco nem drogas para ser feliz. Que a euforia produzida pelo treino é
melhor, não custa dinheiro e é muito mais saudável.
O Treinador é o meu
herói. Não é uma mulher, mas tem todas as qualidades que eu queria ter e
normalmente comporta-se como eu me comportasse. A partir dele desenhei a mulher
dos meus sonhos, uma mulher ideal. E tentarei ser como ela. Ou como o Treinador
talvez.
Ontem em Portugal foi dia da mãe . Por isso as linhas seguintes são dedicadas a todas as mães...do mundo:)
O papel da mulher na época moderna não é fácil. As mulheres não são tratadas de forma igual aos homens. Ainda não têm os mesmos direitos que os homens, mas têm as mesmas obrigações. Além disso, têm de ligar tanto com as obrigações profissionais como com as tarefas domésticas. Em minha opinião há muitas mulheres que se safam conseguem fazê-lo bem. Uma deles é a minha mãe. Pensei muito sobre quem escrever: Uma cientista, atriz, médica, professora, cabeleireira?... Mas por que escolher só uma cor quando se pode ter um arco-íris inteiro?
A minha mãe é médica. Sempre sabe o que é que me dói mesmo quando eu mesma não o sei. Não é preciso perguntar o que é que deve ajudar-me porque ela já o sabe. É Esculápio quando liga o meu joelho outra vez na mesma semana dizendo que não haverá cicatriz ou se houver – todos os heróis têm cicatrizes de guerra.
A minha mãe é política. Sabe manobrar entre os partidos da minha família. Entre quatro fações cada uma quer outra coisa e não quer desistir nem retirar nem sequer um passo. E ela sabe fazer a paz de tal forma que todos acham que ainda têm poder.
A minha mãe é cosmonauta. Leva-me numa viagem espacial. Só fecho a boca, abro os olhos e olho na direção que me mostra. E permite-me voar e tocar os planetas e ter sempre os bolsos cheios do pó das estrelas. Aposto que foi a minha mãe quem foi primeiro à Lua.
A minha mãe é viajante. Com ela não tenho medo de serpentes venenosas nem elefantes selvagens que atravessam o bosque. É com ela que adoro apanhar morangos silvestres ou estirar-me na clareira no meio da floresta. Com ela nenhuma montanha é alta demais para atingir o cume e nenhuma rota demasiado comprida.
A minha mãe é detetive. Sabe onde se escondem as meias (maliciosas!). Nenhum cogumelo está bastante camuflado. Nenhuma cara triste passa despercebida. Sempre sabe o que é que se passa embora não estivesse lá nem perguntasse pela razão.
A minha mãe é cozinheira. É capaz de criar uma refeição de numerosos pratos para que todos tenham algo saboroso para si, mas também pode cozer só um prato tão delicioso que todos gostam e desejam comer mais uma dose. A minha mãe é Buddy Valastro e Gordon Ramsay em um, mas melhor porque sabe que, sobretudo os morangos são reis da nossa mesa.
A minha mãe é construtora. Sabe pregar pregos, fazer pérgulas e fixar as portas do armário. Com um lápis e uma folha e um pouco de tempo cria um verdadeiro avião, barco e dinossauro tão grande como eu. Acho que com muitas folhas poderia criar um farol, pirâmide e todas as sete maravilhas do mundo.
A minha mãe é sonhadora. Nunca se rende. Luta sempre pelo que acha importante. Não concorda com que os outros tomem as decisões que ela deve tomar. Não se esquece de que atrás das nuvens há sempre sol. Não deixa que o seu mundo se torne negro. A minha mãe é o arco-íris: tem todas as cores do meu universo.
Sou mulher e não gosto das compras - esta frase é quase como um oximoro. Mas eu realmente não gosto das compras. Desde pequena que se notava o motim no meu comportamento:
–Abre a boca!
–Não.
–Diz “a”.
–“b”.
Mas não ia falar da minha meninice. As compras, o consumo, a publicidade, o gasto de dinheiro - não, isto não é o meu lado mais forte (sobretudo a última questão, o dinheiro é como o meu amigo... virtual, mas continua sendo o meu amigo!), então digo um calado e indeciso ‘não sei’ às compras. Pois não se pode evitar o consumo nem reduzi-lo a zero, então não sou tão masoquista para obrigar-me a sofrer todos os dias. O que é que eu compro? As coisas mais necessárias para viver é claro, a comida, os produtos da higiene pessoal, o chocolate, os cosméticos, os brincos... Só para escrever composições tenho de comprar as canetas todos os meses. E quando ando pela zona das canetas perto encontram-se outras coisas que eu acho imprescindíveis: o coador (está em liquidação!), a laca para o cabelo, entre outras coisas que naquele momento acabam. Além disso, um cartaz grande lembra-me de que só hoje posso comprar as meias que normalmente vendem com o preço três vezes mais alto. Concluindo, eu pertenço ao grupo “consumidor normal”, ou seja, costumo comprar o que é necessário e o que me dizem que necessito. Quem? Os amigos, a sociedade, a moda, o apresentador na televisão. E repito outra vez: não gasto das compras, as compras gostam de mim.
Edyta Marzec
O mundo de hoje oferece-nos um tipo de vida muito comercializado, cada um diz-nos que precisamos de alguma coisa, que temos de comprar o novo telemóvel ou vestido. Acho que temos de parar, desligar a televisão e deixar um pouco este mudo artificial.
Há um filme que se chama `Into the Wild´ e mostra a história de Christopher McCandless, um jovem que deixou a sua vida de luxo e o seu prometedor futuro universitário, cortou os cartões de crédito, queimou o seu dinheiro, pegou numa mochila e foi descobrir o mundo. Praticamente sem nada, viajou à boleia por uma parte da América e conseguiu chegar ao seu objetivo- Alasca. Ali, com vinte e quatro anos, morreu no meio do nada, sozinho. Ele tentava viver sem as coisas que considerava desnecessárias, não usava o carro, comia o que encontrava pelo caminho ou o que lhe davam as pessoas, dormia onde podia. Gostei muito deste jovem, que tinha a cabeça cheia de ideais tirados dos livros de Jack London e Leo Tolstoy e que tinha coragem para viver a vida à sua maneira.
Depois de ver este filme, fiquei a pensar sobre como as pessoas complicam a vida com todas as coisas inúteis que tem. Não acho que o vigésimo vestido ou o novo telemóvel sejam tão importantes. As pessoas compram a roupa elegante só para que os vizinhos os vejam, compram cremes, máscaras e pós para ficarem mais lindas e gastam muito dinheiro nas férias num hotel de cinco estrelas, com o SPA, piscina e ginásio, como se uma noite numa tenda sem um jantar elegante pudesse matá-los. Temos cada vez mais dinheiro e separamo-nos da vida real e da natureza com uma muralha de plástico e vidro, como se fossemos mais belos e mais perfeitos do que o resto de mundo, como se um batom e um verniz de unhas nos tornasse em seres supernaturais. E só depois compreendemos que o mundo verdadeiro é o que viajamos a pé e tocamos com as nossos mãos, e não o que vimos na televisão ou pelo vidro dum carro.
Eu não faço muitas compras, mas há uma coisa que compro sempre e não penso deixar de fazer. São, obviamente, os livros. Mas para mim, isto não é só mais um produto comercial, mas a história de algumas pessoas, seja verdadeira ou inventada, não importa. Uma livraria é um lugar com alma, e não é fácil encontrá-lo, porque não há muitas.
No nosso mundo cheio de comércio, temos de parar por um momento e pensar sobre a nosso estilo da vida. Acho que se aprendemos a passar um dia a, por exemplo, fazer desporto em vez de estar no centro comercial e temos mais contato com a natureza, seremos mais felizes.
Na cultura há trabalhos que são únicos e, ao mesmo tempo, universais.
Conseguem captar a atenção da maioria dos observadores – fazem-nos pensar e
comovem-nos. São universalmente reconhecidos, elogiados tanto pela crítica como
pelo público. Constituem o ápice da criatividade dos seus autores – são as
obras-primas deles, a crème de la crème do
género.Existem também produções que
nem sequer se juntam ao grupo elitista – são mais mundanas, mas ainda assim
sólidas e podem funcionar surpreendentemente bem num contexto definido. Eu
incluiria nesta segunda lista o filme que fez parte da série de sessões de
cinema português organizada no Centro de Língua Portuguesa Camões – “Um Funeral
à Chuva” – uma obra suficientemente intrigante para me fazer esquecer das suas imperfeições
como se não importassem nem um pouco.
O filme foi classificado como “comédia”, mas, apesar desta avaliação,
acho que a qualidade da criação está fora dos elementos satíricos que são, por
vezes (as piadas dirigidas a um casal homossexual entre outros clichés),
demasiado previsíveis. Portanto, não tenho dúvidas: uma obra-prima – este “Um
Funeral à Chuva” não é.
Contudo, a magia da cultura consiste no facto de que as suas expressões
não têm de ser impecáveis para que um indivíduo se emocione e identifique com
elas. Às vezes, basta que um observador, espetador, leitor, etc. encontre nelas
os valores comuns com o autor. E com certeza não faz mal se a mundividência
apresentada for compartilhada entre a audiência. Tendo em conta estes fatores,
acho que durante a projeção a 17 de abril de 2013 a longa-metragem de Telmo
Martins realizou todas as potencialidades. Apesar de que a minha primeira
impressão ainda durante a exibição fosse que o que via era um pouco depressivo,
ao sair da sala do Centro vi também um vislumbre de esperança. Isto parece
contraditório, mas, na verdade, é perfeitamente compatível.
A intriga concentra-se na história de um grupo de amigos dos tempos
académicos. Depois da conclusão do curso os seus caminhos separam-se. O motivo
da reunião 10 anos mais tarde é a súbita morte de um deles – o João. Os
protagonistas chegam à Serra de Estrela (o lugar onde o João queria ser
enterrado) na véspera do funeral para relembrarem a vida do falecido. Esta
ocasião é o pretexto para conhecermos a evolução da sua amizade, as atividades
que compõem a sua vida atual e, consequentemente, os carateres das pessoas –
com um leque de virtudes e defeitos. Por meio das histórias ouvidas no
restaurante à volta da mesa distinguem-se as diferenças entre os reunidos.
Dizem petas, fazem observações sarcásticas, alguns têm os problemas com a
aceitação deles mesmos apesar do aparente êxito profissional (Diana) ou, antes
pelo contrário, ficam felizes na vida pessoal a despeito de serem mal sucedidos
no trabalho (Rui). Mas, sobretudo, todos se sentem bem neste conjunto.
Apesar disto, acho secundários os pormenores do enredo e as personagens.
A depressão aparente que o filme me trouxe à primeira vista e a esperança que
se seguiu fazem parte da mesma magia que decide sobre a singularidade da arte.
O componente essencial nesta mistura mágica e a palavra-chave para a minha
perceção da criação de Martins é “contexto”. “Um Funeral à Chuva” é um filme de
contexto – em dois sentidos. Em primeiro lugar, como já mencionado, funciona melhor
em ambiente definido – entre os jovens, preferivelmente os estudantes. O que é
mais importante é que, em sentido mais lato, descreve o papel do contexto na
nossa vida.
Por um lado, a morte do João que é o eixo da narrativa, ou melhor, a
reação do pessoal perante a sua visita inesperada na vizinhança faz com que
sentisse o desespero ligado à fraqueza humana, à falta de escolha, de atitude
adequada em face do destino. Os amigos, com exceção do Zé, tentam lutar com o
facto do falecimento do companheiro relaxando-se – bebem vinho, riem-se,
brincam e trazem à luz as memórias – comportam-se como se ainda fossem os
estudantes. Parecem não ter papas na língua nem preocupações nenhumas. No
entanto, pode-se notar que o seu contentamento é ilusório – a reunião é um
baile de máscaras. Todos os participantes estão conscientes da realidade do
problema, mas esperam que se possa enterrá-lo como se fosse um cadáver que
nunca mais viria à tona. As cenas seguintes mostram, porém, que este
procedimento pode fazer sentido.
Os protagonistas começam a aprender como abordar a dificuldade – a sua
fórmula é simples: a unidade que se baseia nas experiências passadas comuns,
restabelecida no presente. Têm de se ajudar uns aos outros, criar um sistema de
apoio próprio, visto que fazem parte da geração que rejeitou o conceito de
Deus, da verdade absoluta e, consequentemente, a comunidade religiosa. A
religião que antigamente era o guia nunca contestado na matéria espiritual, sem
a qual não se tocava no assunto, que explicava a morte e as suas consequências,
perdeu a sua autoridade. Por conseguinte, o plano religioso, além da coleção
das cruzes no apartamento da velhinha devota e a igreja onde se situa o caixão
do João, na realização de Martins é inexistente.
Indo mais longe, a realizadora roça o tema do niilismo – desta maneira
interpreto a disputa entre o Marco e o Zé. O Zé – um professor académico –
sente que os preparativos e a cerimónia de funeral precisam da seriedade e
exige que os companheiros sigam a sua opinião. O Marco – um escritor – não
gosta desta atitude bastante tradicional, mais solene perante a morte (a
necessidade de luto) e acusa o Zé de moralização desnecessária. Sugere que toda
a gente tem direito a experimentar esta dificuldade como quiser e que não
existe a norma universal. Parece que a forma de agir do Marco não provém da sua
indiferença, mas é uma luta interior, uma tentativa de encontrar a crença, os
limites que podia respeitar na sua vida.
Para mim, o filme narra não só a história do João e os seus amigos, mas,
sobretudo, descreve a situação da nova geração que tenta redefinir as regras de
vida, conferir o sentido à existência privada, por eles mesmos, da promessa de
eternidade. Os amigos procuram as respostas sem auxílio, sozinhos, e,
paradoxalmente ou não, encontram-nas na – desta vez não religiosa, mas laica –
comunidade. As suas brincadeiras, as tolices ditas enquanto estão bêbados,
ainda que pareçam não servir para nada, formam entre eles uma ligação,
deixam-lhes gozar da presença de outros. E isto é o reverso da medalha, um
fator animador, o fragmento otimista da mensagem – o que importa no mundo
caótico são as pessoas que nos rodeiam. O João não era exatamente o rei da
festa, mas os amigos aceitavam-no.
Telmo Martins – um jovem realizador português criou um filme cuja ideia
central, se calhar, traduz-se só para o público-alvo – as pessoas de 20, 30 ou
40 anos. Para este grupo a noção do argumentista paradoxalmente, pode parecer
universal. Isto é o mérito principal da produção – a coerência entre a mensagem
da própria obra e a atitude exigida para a perceber. A interpretação do filme
depende do contexto, do mesmo que os protagonistas do enredo tentam encontrar
em proveito da sua vida. Isto, bem provavelmente, pode guiar-lhes aos
paradoxos. Já no século XVII Hamlet na famosa tragédia shakespeariana disse:
“Nada em si é bom ou mau; tudo depende daquilo que pensamos”. Talvez a nova
geração privada de soluções certas, suponha que a felicidade própria reside em
busca da felicidade e o fim é só um meio?
Uma das minhas lembranças da
infância são as festas populares que se celebravam em honra do patrono da
igreja local, são Jacinto. No meio do bonito mês do agosto, quando ainda fazia
calor e as pessoas andavam relaxadas, o Jacinto convidava todos os habitantes
do meu bairro industrial em Gliwice para a sua festa.
Por esta ocasião a rua em frente da
igreja ficava fechada à circulação e estendiam-se as bancas carregadas de
brinquedos de origem chinesa. Os avós generosamente ofereciam aos seus netos
dinheiro que se esgotava num instante. Os miúdos tentados pelos pavilhões com
armamento carregavam as suas pistolas de plástico que ao disparar transtornavam
os sons da música festivaleira e deixavam uma nuvem de fumo asfixiante. Num
ano, o verdadeiro hit eram as grandes e peludas tarântulas com uma corda o que
possibilitava levá-las a passear como se fossem os cãezinhos e aterrorizar desta
maneira os animais domésticos. Noutro, estavam na moda os olhos artificiais em
forma de bolinhas pequenas que depois circulavam por toda a escola.
No pavilhão de doces reuniam-se
todos. As velhotas compravam bolos de mel e os croissants de são Jacinto. As
crianças preferiam uma espécie de pastilha elástica comprida e extremamente
ácida que provocava o concurso de caretas.
O ponto central (o mais excitante)
era o sorteio. O dia todo compravam-se bilhetes, no entanto os prémios mais
valiosos esperavam até à noite, quando toda a gente se reunia para ouvir com
inquietação o veredito. O prémio principal era a figura do nosso patrono, mas a
esmagadora maioria das pessoas preferia obter algum eletrodoméstico. Então,
para que o santo não chegasse a mãos indignas, (para que ninguém o tratasse
como se fosse umaa escultura que serve para enfeitar o jardim) ficava sempre
com ele um dos membros do conselho paroquial.
À noite havia um concerto, em que
não participavam os coros nem músicos gospel, senão as verdadeiras estrelas
pouco brilhantes. Era como um concurso de talentos: os comediantes entretinham
a platéia falando na língua silesiana, havia uma apresentação da escola local
de idiomas que também se ocupava de dança, um grupo de entusiastas cantava os
grandes hits italianos (“não sabemos italiano, nas conseguimos aprender os
textos de cor, porque é uma língua muito bonita”).
E o Jacinto?
Parece que ninguém pensava nele (salvo o feliz dono da sua figura enorme). Se
calhar divertia-se bem vendo a criatividade do seu povo e repousou com alívio
de que esta vez também não partilharia o destino dum duende de jardim.