segunda-feira, 15 de julho de 2013

Língua sem língua

 Andamos a aprender a língua portuguesa há dois anos a fim de atingir o nível suficientemente elevado. Enriquecemos o vocabulário, aperfeiçoamos a gramática, prestamos atenção à pronúncia e entoação da frase. Esquecemo-nos, no entanto, de um elemento muito importante de todas as línguas. A língua dos gestos.
  Nós não imaginamos que a linguagem corporal desempenha uma parte extremamente importante numa conversa. O conhecimento perfeito da língua portuguesa sem o conhecimento dos gestos típicos usados pelos portugueses pode ser insuficiente para perceber uma mensagem verbal. Nos casos menos graves, a ignorância ou a confusão do gesto pode provocar um sorriso no rosto do interlocutor, mas nos casos mais extremos, pode causar o desentendimento muito grave. Não queremos ofender ninguém.
  A situação mais normal que deve ocorrer mais cedo ou mais tarde durante o processo de aprendizagem do português pelo polaco: o momento de cumprimentar um português quando um polaco o vê pela primeira vez. Na Polónia quando duas mulheres ou dois homens se cumprimentam, ambas as partes limitam-se a apertar a mão. Em Portugal, a situação com os homens é parecida, mas o problema é que as mulheres portuguesas se cumprimentam com dois beijos. Entre a portuguesa e a polaca isso pode parecer adequado, mas quando o português cumprimenta a polaca com dois beijos, o marido da mulher cerra os seus punhos com ciúmes. O português inconsciente ainda não sabe que galanteia a mulher do outro homem! Mas como poderia saber? O português que quer mostrar a sua inveja ou ciúmes de alguém dá toques no cotovelo.
  Bem. O polaco reprime a onda de ciúme e convida o já conhecido amigo português para almoçar. Depois do almoço o português, dizendo que a comida estava muito boa, toca a sua... orelha. Não, não beija os seus dedos como o polaco. Toca a sua orelha. Quem sabia?


Małgorzata Grzesiowska 
II ano de Filologia Ibérica

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Sorraia, o bisavô do Lusitano

   Este pequeno cavalo é o primeiro antepassado dos famosos cavalos Lusitanos e Andaluzes e também de numerosas  raças de cavalos da Europa e da América. Foi descoberto pelo Dr. Ruy D'Andrade, zoólogo e paleontologista português, em 1920 junto ao rio Sorraia e daqui provém o nome deste animal. O hipólogo tornou-se  responsável pela  preservação e desenvolvimento do Sorraia. De acordo com os registos, estes cavalos foram levados para a América pelos conquistadores espanhóis. Cristóvão Colombo planeava levar os belos Andaluzes para a sua viagem em busca das Índias,mas descobriu que alguém os tinha substituído pelos pequenos e feios cavalos do tipo Sorraia. Isto passou a ser um benefício, porque estes animais não se abalaram com os rigores de viagem oceânica e  sobreviveram em grande número até ao seu desembarque na América. Algumas esculturas antigas e  pinturas rupestres de cavalos  nas paredes da gruta La Pileta (Granada,  Espanha), datadas entre 30.000 e 20.000 a. C., mostram as imagens  típicas do  Sorraia.
  O Sorraia é capaz de suportar  climas extremos, especialmente secos e quentes. É  forte, resistente e do temperamento calmo e independente. É um verdadeiro cavalo de sela, pode ser empregado na pecuária,no pastoreio de outros rebanhos e na tração de carroças. Este cavalo tem pequena estatura. A sua pelagem é baia ou rato,tem uma máscara negra na cara e uma risca preta no dorso. As suas orelhas também são escurecidas. Estes animais usualmente são riscados nas pernas como as zebras e por isso são conhecidos pelo nome "zebro".  Assemelham-se ao tarpan, antigo cavalo selvagem europeu.
  Atualmente esta espécie já não vive em ambiente selvagem.  O número total de Sorraias existentes no mundo não excede 200. Todos estes cavalos descendem do grupo original de 7 fémeas e 4 machos recolhidos pelo Dr. Ruy d'Andrade. A família D'Andrade conserva o maior número de Sorraias em estado semisselvagem no Refúgio do Vale de Zebro Sorraia, onde nascem, crescem e se reproduzem  sem intervenção humana. infelizmente, apesar de todos os esforços, a sobrevivência do cavalo ibérico mais primitivo não é segura e ainda se considera uma raça em vias de extinção.

Urszula Półkosznik
II ano de Filologia Ibérica

quarta-feira, 10 de julho de 2013

“A nova voz do fado” rouba os corações

 
A terceira edição do famoso Siesta Festival foi muito especial para todos os fãs do fado na Polónia. Nos finais de abril, atuou em Gdańsk uma talentosa e maravilhosa fadista que transformou as noites em espetáculos inesquecíveis. Trata-se obviamente de Cuca Roseta - uma reconhecida artista portuguesa que apesar de ser jovem já obteve um grande sucesso. 
  O início da sua carreira como fadista é muito surpreendente. Cuca pensava em ser psicóloga no futuro, mas os seus planos mudaram aos 18 quando se apaixonou ao ouvir o fado ao vivo. Cuca descobre a sua paixão por este género da música e por fazer a gente feliz enviando as mensagens da sua alma. Começa a cantar no famoso Clube de Fado em Lisboa, onde o seu espantoso talento é descoberto pelo compositor e produtor argentino Gustavo Santaolalla - vencedor de dois Óscares pela música dos filmes Babel e Brokeback Mountain. O músico faz uma proposta imediata a Cuca para gravar um disco e assim nasce o seu primeiro fenomenal álbum “Cuca Roseta”, que goza de grande interesse do público em todo o mundo. 
 Os concertos da fadista em Gdańsk tiveram lugar na barca “ A Cidade dos Anjos” no rio Motława. O ambiente então foi muito especial e os espetadores puderam sentir-se como se estivessem em Alfama – o bairro mais antigo de Lisboa onde ressoa o fado. Os convidados tinham a possibilidade de deliciar-se no silêncio da noite com a ardente voz de Cuca acompanhada pelos maravilhosos sons das guitarras portuguesas. A fadista cantou, designadamente, as bem conhecidas canções do seu primeiro disco. Podiam-se ouvir as melodias cheias de saudade, amor e verdade, os temas que refletiam os sentimentos profundos da artista. Cuca fez com que os espetadores sentissem a interação da alma com a sua música e receberam grandes emoções. No fim do concerto os fãs podiam obter o autógrafo da artista e falar com ela pessoalmente. 
 Eu tive muito prazer de assistir ao concerto e admirar o grande talento de tão fascinante personagem. Também tinha a possibilidade de falar com ela pessoalmente. Gostei que ela era muito aberta e sincera comigo. Na conversa Cuca mostrou ser muito orgulhosa do seu país e estava contente de que podia promovê-lo no estrangeiro. Ficou muito interessada pela nossa cultura e gostou mesmo da nossa língua cuja pronunciação achava difícil. A sua frase preferida em polaco foi : “Chrząszcz brzmi w trzcinie”:)Aparte do fado, Cuca também tem outra paixão- taekwondo e é cinturão preto, então os homens cuidadinho!:) Cuca Roseta aproximou-me mais da cultura portuguesa. A sua impressionante voz tocou a minha alma e roubou o meu coração. Também, fez com que me apaixonasse totalmente por este género de música. Acho que as suas canções são poemas que se leem através dos sons estranhos e únicos. Foi uma noite mágica cheia de grandes e inesquecíveis emoções. Agora esperamos a sua próxima visita na Polónia. Cuca Roseta apresentou o fado como algo que viveu, algo que é verdadeiro e algo que se sente profundamente em si próprio. Descubram a verdade mais profunda da Cuca e ouçam o seu recém-lançado disco “Raiz” onde há um novo fenomenal single ’’Fado do Contra”.


Joanna Sędzimir-Dobrowolska
II ano de Filologia Ibérica

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O ciclismo português dos últimos dez anos

O ciclismo português nunca teve uma posição tão importante como o da França, da Itália ou da Espanha. As corridas nacionais destes países são muito famosas e importantes. A de Portugal não tem o nível tão alto mas nos últimos dez anos dois  portugueses lograram  êxitos impressionantes neste desporto. Vou falar sobre José Azevedo e Rui Costa que em minha opinião são os melhores ciclistas portugueses da atualidade.
O primeiro deles foi membro da famosa equipa espanhol Once Eroski. No ano 2001 terminou na 5. posição na Volta à Itália. Isto é um êxito muito importante para o ciclismo de Portugal. A sua melhor época é nos anos 2004 e 2005. Naquelas temporadas foi ciclista da equipa US Postal. Azevedo foi “domestique” (ajudante de capitão da equipa durante as corridas) do ex-melhor ciclista da história Lance Armstrong (a única pessoa que ganhou sete vezes Volta à França). Nos anos 2004 e 2005 foi um dos mais importantes ajudantes do mundo. Na edição da Volta à França do ano 2004 conseguiu o quinto lugar. Este resultado é muito impressionante porque como já foi mencionado ele era ajudante de Lance Armstrong naquela época. Isto significa que não podia realizar os seus objetivos. Este tipo de ciclistas dedica a sua carreira profissional com o objetivo de assistir o seu líder. Vale a pena mencionar neste momento que o ciclismo não é o desporto individual. Ganha só um desportista mas a sua vitória depende totalmente do trabalho de toda a equipa. Esta caraterística do ciclismo causa muita polémica. Por isso o resultado de Azevedo é tão notável. Em minha opinião o português teria logrado ao menos a segunda posição, se tivesse sido capitão da sua equipa. Agora é diretor desportivo duma das melhores equipas do mundo, a Radioshack Leopard que foi criada por Lance Armstrong (é importante mencionar que ele foi condenado por usar substancias proibidas durante todas as edições da Volta a França que ganhou).
Rui Costa é um ciclista ativo. Agora tem 27 anos e é membro da equipa espanhola Movistar. Hoje em dia, esta equipa é uma das melhores do mundo. O diretor desportivo, o legendário Eusebio Unzué disse que Rui Costa aproxima-se do nível mais alto e deve conseguir uma posição no pódio da Volta à França, mas disse que se não conseguir este objetivo dentro dos dois próximos anos, nunca o conseguirá. O português já alcançou muitos êxitos, entre outros ganhou a Volta a Suíça (uma corrida muito importante para os ciclistas que se preparam para a Volta à França) e terminou no 18º lugar na Volta à França do ano 2012.
Em minha opinião José Azevedo era melhor ciclista do que Rui Costa. Tinha o potencial muito grande. Não logrou muitas vitórias por causa do seu papel nas suas equipas. No seu ambiente era um ciclista muito respeitado. Sem sombra de dúvida, Rui Costa tem capacidades de conseguir muito no mundo do ciclismo moderno. Vamos ver o que passará no futuro.

Paweł Kwiatkowski
II ano de Filologia Ibérica

sábado, 6 de julho de 2013

CONCURSO DE FOTOGRAFIA: PORTUGAL A PRETO E BRANCO


Regulamento
O Concurso de Fotografia é uma iniciativa organizada pelo Centro de Língua Portuguesa/Camões de Lublin e tem por objetivo divulgar Portugal através da imagem.
1.Participantes:
a)O concurso é aberto apenas a fotógrafos amadores. 
b) Aos membros do júri é vedada a participação bem como aos seus familiares diretos. 

2.Tema: O tema do concurso é Portugal a preto e branco.  

3. Trabalhos:
a) Os trabalhos deverão ser a preto e branco. 
b) Cada participante pode apresentar a concurso até 3 trabalhos.
c) Só serão aceites trabalhos que não tenham sido premiados noutros concursos.
d) Os trabalhos deverão ser apresentados em formato digital.
e) Os trabalhos deverão ser entregues por e-mail, até ao dia 30 de Setembro de 2013 (clp.lublin.polonia@gmail.com).
f) Os concorrentes deverão indicar o título do trabalho e a indicação do local de recolha da imagem.
g) Juntamente com os trabalhos os concorrentes deverão indicar o nome e e-mail 

4.Júri: A divulgar.

5.Prémios : Serão premiados os três melhores trabalhos.

6. Disposições finais:
a) A organização reserva-se o direito de expor, publicar ou reproduzir quaisquer dos trabalhos premiados, salvaguardando sempre a indicação do autor. 
b) Os dados pessoais facultados serão utilizados exclusivamente pelo CLP/C para os fins do concurso, entrega de prémios e divulgação de informações relativas a eventos futuros semelhantes.
c) A apresentação dos trabalhos pressupõe a plena aceitação do presente regulamento.
 



Se eu fosse uma folha...

 
  Eu queria ser uma folha que apenas caiu de uma árvore. Não toda a vida mas por um breve período de tempo. Se eu fosse uma folha a minha vida seria muito tranquila, frívola e muito interessante. Mas não queria ser uma folha que pende de um ramo porque não me poderia mover. Seria dependente do vento e teria de passar todo o tempo com outras folhas. Por outro lado, poderia madurar e estar verde durante todo o verão. Se fosse a folha do bordo, seria muito vaidosa e olharia as pessoas e os carros passando. As folhas do bordo são pesadas então o vento não me moveria demasiado. Teria o meu próprio território marcado e outras folhas seriam mal vistas. Também poderia ser uma folha de faia. Então teria o caráter completamente diferente. Seria um viajante que voaria com o vento. Observaria todo o mundo como um pássaro. Descansaria nas calhas do teto e nos parapeitos. Poderia passar as fronteiras sem papeis e controles. A vida de uma folha é muito interessante. Todas as folhas são livres e nunca se preocupam. Mas acho que as folhas de pinheiro ou abeto são mais tristes porque são pequenas e não podem voar. 
Maciej Durka 
II ano filologia ibérica

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Na pele dum homem estátua ou um dia descansado



    De manhã visto a capa comprida e preta em que me posso esconder completamente. O chapéu grande enfeita-me a cabeça. Tenho a cara coberta com tinta branca. Dirijo-me à praça central e lá coloco-me à sombra da igreja. Durante as próximas horas vou desempenhar o papel dum homem estátua.
   Tenho que estar inamovível como um monumento. Reter os movimentos e as caretas. O dia está quente e o céu limpo. A minha capa negra atrai os raios do sol, enquanto a praça se enche de gente. Observo o meu público acidental. Conto os membros da excursão escolar lembrando-me que não posso mover a cabeça. Algumas crianças travessas tentam desconcertar-me, mas não me deixo. Os treinos de bailado ajudam-me agora a manter o equilíbrio. Alguns param e olham para mim com insistência e espanto. Outros atrevem-se a agarrar a minha capa. Superar o ataque massivo das crianças curiosas é um desafio. O seu assombro faz-me rir, mas detenho os músculos da cara porque não sou palhaço. Depois, os turistas ingleses aproximam-se com as suas máquinas fotográficas e desta vez também contenho o sorriso que quer aparecer instintivamente. Um homem com folhetos tenta desconcertar-me com um e além disso, como para chatear, vêm-me à cabeça as histórias que querem provocar uma explosão de gargalhadas. Depois de três horas, felizmente já não tenho este problema, porque a dor das costas facilita manter o rosto concentrado. Divirto-me observando a vida da cidade nas horas de ponta. O fluxo das pessoas correndo ao sons inadequados do violino dum músico vagabundo. Finjo que estou a ver um filme cuja acção se desenvolve em frente de mim. Outra vez, imagino que sou um jogral medieval, tendo cuidado para que não esquecer que hoje sou só um elemento da composição deste lugar. No entanto, alegra-me muito que as pombas não se deixam convencer que seja um monumento e preferem reunir-se na estátua familiar de Mickiewicz.
Assim foi o desejado dia quando não fiz simplesmente nada, mas cansei-me excessivamente. Acho que vou gastar o meu dinheiro numas férias.
Kamila Wiśniewska
II ano filologia ibérica

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Na pele do ser vivo mais bonito

  Imagina a situação: vais caminhando pela rua e repentinamente aparece uma pessoa que te faz uma pergunta «Se tivesse uma oportunidade de estar na pele de qualquer pessoa ou ser vivo por um dia, qual escolheria?». Pois, tens de ter um minuto para pensar.  Já sabes? A escolha foi fácil? No meu caso sim.
  Ao princípio, pensei em pessoas que conheço. Queria estar na pele deles? Não. Uma tem demasiados problemas consigo que são visíveis, por isso eu não quero nem saber o que está dentro dela. Seguimos. Uma pessoa que eu admiro e que é homem? Não, vou deixar o caso de Dave Gahan para outra oportunidade. Uma profissão? Não, é possível mudar de profissão se alguém quer. O quê então? É óbvio que um animal! Porquê? Porque não é possível na nossa vida transformar-se num animal, então é a única oportunidade. Agora a escolha é facílima. Quero estar na pele do animal mais lindo, e que admiro: um lince euroasiático.
   O meu dia é muito diferente do dos homens. Para começar, as partes do dia estão inversas. Quando os homens trabalham eu durmo e quando deveriam dormir eu começo o meu dia, ou seja a noite.  É possível comparar o meu dia com o dos trabalhadores por turnos, mas eles mudam o seu ritmo e eu não. Às horas quando todos se levantam eu deito-me na minha casa. Vivo na floresta, nas cavernas ou nos troncos ocos. É bastante cómodo. Não durmo todo o dia e às vezes gosto muito de aquecer-me ao sol ou estar sentado no ramo de uma árvore. Alguns homens acham que desta maneira eu caço. Que ingénuos! Caço de noite, mas se sinto ou vejo a possibilidade de comer durante o dia, aproveito-a. Mas então é possível comer só os pássaros. A parte mais interessante do meu ritmo de vida começa à noite, quando o sol se põe. Vou caçar. Tenho de ter muito cuidado para que a minha «comida» não fuja. Os homens acham que sou o campeão na corrida. Pelo contrário. Posso correr depressa mas só por um momentinho. Canso-me rapidamente. Mas sou paciente. Por isso, posso caminhar 20 quilómetros à procura de comida. O meu «prato» preferido é a cerva. Ela corre muito depressa, por isto uso a astúcia. Sou tão inteligente que me aproximo da vítima sem fazer nenhum som, silencioso. E quando não espera...ataco-a. Escondo debaixo da terra ou na árvore os restos do meu «prato». Poderiam pensar que alguns animais roubam a minha comida! Sim, também há ladrões entre os animais! Isto é horrível. Às vezes a minha caça é muito divertida. Imaginem que posso saltar até 2 metros de altura!
     Mas a minha vida não é tão colorida como parece. Primeiro, sou uma espécie em perigo de extinção. Muitas vezes os homens matam os meus irmãos nos acidentes nas estradas que cruzam as florestas. Também alguns nos caçam. Não há muitos lugares onde podemos viver, infelizmente. Isto é um problema muito grande. Na Polónia há uma organização que se dedica a nós. Chama-se WWF. Vocês podem ajudar-nos também. Basta darem 1% dos impostos no futuro. Isto não custa nada, mas pode ajudar. Ou se têm dinheiro podem doar via fundação WWF.
    Acho que se eu não fosse homem, seria um lince. Os grandes olhos e a cor da pele dos linces não são as únicas semelhanças.  Mas o assunto dos linces deveria ser tratado mais sério. E porque não é? Quando fui à repartição de Finanças a senhora quase se riu de mim quando viu que dei 1% dos meus impostos para salvar os linces! Não podemos esquecer-nos dos animais, não só dos linces mas também dos outros. E podemos começar com os nossos cães ou gatos.

Anna Krupa 
II ano de Filologia Ibérica




Nota da redacção:
O Lince-Ibérico é o felino mais ameaçado a nível mundial. Para mais informações consultem:

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Na pele de...

  Quando entrei no palco o público calou-se e ficou com um ar de espera e de algo mais, só depois dum momento percebi que foi...surpresa. Tiinha nessa altura dezassete anos e os outros músicos eram bastante mais velhos. Apesar disso, tinha a roupa velha e usada, enquanto o resto das pessoas eram nobres, vestidos de seda e veludo. Sentia que a curiosidade do meu público crescia. Abri a capa, apanhei o meu alaúde e olhei uma vez mais para a minha audiência, Cantei os quatro primeiros versos e calei-me. Escutei como um sussurro de surpresa enchia a sala. Depois voltei a por as minhas mãos no instrumento e toda a gente se calou.
   Se não sabem, tenho de explicar-vos uma coisa. A canção que tocava não era só difícil- era extraordinariamente difícil e complicada e provavelmente a única pessoa em todo o mundo que conseguia cantá-la e tocá-la extraindo toda a sua beleza era o meu pai. Todos conheciam a letra da canção, mas provavelmente poucos a tinha ouvido, era mais como uma lenda, uma canção escrita de uma maneira que para tocá-la bem tinha de ter um dom sobrenatural, um talento excecional e muita experiência.
    E lá estava eu, um menino de dezassete anos, tocando-a com uma perfeição que nenhum deles tinha ouvido na sua vida. Cantei com toda a minha alma, o som de alaúde era forte e sonoro, a minha voz orgulhosa e segura, sentia como o público começava a amar-me e a ter medo de mim. A música era eu e eu era a música, não sabia dizer onde acabava eu e começava ela. Nem sequer tive consciência dos espectadores, sentia como se estivesse só com a música da minha alma. Era como montar um cavalo a galope numa tempestade muito forte, quando o teu corpo e a tua alma se enchem da excitação causada pela velocidade de montar e pelos trovões que parecem mover a terra. O teu caminho é iluminado só pelos relâmpagos e esqueces o fim da viagem, porque o fim não é o mais importante, a importante é a viagem em si, o seu ritmo e a sua beleza.
    Mas tudo tem de acabar. E assim acabou a história que cantava e os meus dedos deixaram de tocar as cordas. Todos estavam calados, na sala não havia nenhum barulho. Sentia- me como se despertasse dum sonho louco e profundo, e ficamos assim, todos calados, todos cheios de música, apesar de que já se não ouvia, todos a ouvíamos nas nossas almas. E depois, a taberna encheu- se de aplausos, de barulho forte como uma trovada depois dum relâmpago.
***
A pessoa sobre a qual escrevi é Kvothe, personagem do livro “O nome do vento” de Patrick Rothfuss. O texto, obviamente, não é nenhum fragmento do livro, é somente a minha cena imaginada baseada na personagem.

Sylwia Jabłońska
II ano de Filologia Ibérica

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Lisboa – a cidade da cultura, aliás, não só de bacalhau vive o homem.

  Estás em Lisboa. Já comeste os famosos pastéis de nata, saboreaste o vinho português e conheces todos os centros comerciais de cor. Perguntas: e agora o que vou fazer? Neste momento reparas que seria bom se investisses no teu desenvolvimento cultural. Sais na estação do metropolitano que se chama Baixa Chiado, porque alguém te disse que lá está o coração de Lisboa. Pensas: perguntarei a alguém se conhece o caminho para algum sítio interessante. Perguntas a um português porque devia conhecer a cidade dele. Mas não tomaste em conta que não fala fluentemente inglês e no melhor resultado ouves a resposta: I'm sorry. I speak only portuguese.* Perguntas a outra pessoa. Fala inglês. Só há um problema. Tal como tu, pensa no lugar para onde podia ir e tira o mapa. Resignado , tens intenção de ir para o sítio já conhecido, onde a carteira clama ao céu por vingança e as vitrinas seduzem com os produtos infernais. De repente relembras-te que uma vez leste um artigo sobre os lugares interessantes em Lisboa. Aqui está.

 No acima mencionado – Chiado – cada pessoa encontrará algo para ela, porque este bairro está cheio de sítios ligados à cultura popular, que é mais acessível e também com a cultura mais culta e sofisticada. Interessados pelo teatro vão encontrar alívio num dos três mais famosos teatros de Lisboa: Teatro de São Carlos (a principal Casa de Ópera de Lisboa), Teatro São Luiz ou Teatro da Trindade. No caso dos teatros tenho de mencionar o teatro mais famoso, situado no Rossio – Teatro Nacional D. Maria II.   
 Passando o tempo no centro da cidade (Alfama, Mouraria ou Bairro Alto) vale a pena conhecer o património cultural de Lisboa que com certeza é o fado. É uma canção tradicional que normalmente, com a melancolia dela, manifesta saudade. É realizado com o acompanhamento da guitarra portuguesa (que se distingue da guitarra pelas 12 cordas) ou da guitarra clássica. Na verdade, há muitos lugares onde se pode ouvir este tipo da música. Para participar no concerto dos músicos profissionais pode-se ir a uma das famosas Casas de Fado. Uma delas é por exemplo a Parreirinha de Alfama, em que o programa depende da hora da nossa chegada. Antes temos de reservar uma mesa para podermos vir, sentar-nos, deleitar-nos com a música ao vivo e encomendar o prato (é obrigatório). Outra casa de fado localiza-se no Bairro Alto e chama-se Tasca do Chico. Lá a comida não é tão importante como no lugar anterior mas também se pode comer bem (porém da maneira menos requintada) com o acompanhamento da música. Na Tasca do Chico normalmente cantam e tocam as pessoas desconhecidas mas isto não significa que as músicas sejam de baixa qualidade. Ao contrário, estas pessoas habitualmente sabem muito sobre a música.   
A maneira mais barata de ouvir o fado é ir a um bar típico português (que não é preparado especialmente para os turistas). Um bom exemplo do bar deste tipo pode ser o Tejo Bar em Alfama. Lá não ouviremos a música feita pelos músicos profissionais. Encontraremos as pessoas habituais que tiram prazer de tocar e cantar. Vale a pena mencionar que antigamente, quando o fado surgiu, era a voz da pobreza. Depois despertou o interesse das pessoas que se ocupam da música diariamente. Por isso, para poder comparar, é bom conhecer dois tipos de fado (profissional e amador).   
 Para descansar depois de ouvir a música tradicional portuguesa, recomendo ir para o Hot Clube (ao lado da Praça da Alegria). É o clube mais antigo de Portugal e da Europa (fundado em 1948), em que a música principal é o jazz. Lá começaram a tocar muitos músicos notáveis de jazz e atualmente quase todos os dias têm lugar vários concertos. Se alguma pessoa se interessar pela música em larga escala, tem de assistir pelo menos uma vez a algum concerto no Hot Clube (tendo em conta que este clube é famoso não só em Portugal mas em toda a Europa). Ainda tens falta de jazz? No centro de Lisboa é fácil encontrar outros bares, em que frequentemente têm lugar jam sessions (por exemplo Fabrica Braço de Prata ou bar Alface).  
 Passando ao tema dos concertos então tenho de referir-me aos Coliseu dos Recreios, Campo Pequeno ou Pavilhão Atlântico. Estes lugares merecem atenção especial porque lá acontecem os maiores musicais em Portugal. Cada mês servem-nos uma dose musical potente dos vários géneros desde rock e metal passando pelo punk e música alternativa até hip-hop e pop. Mas temos de ter em conta que para assistir ao concerto é bom familiarizar-nos com o programa e comprar os bilhetes antes, porque muitas vezes pode acontecer que os bilhetes já esgotaram (com certeza isto depende de artista/banda).
 Se falamos de cinemas vale a pena chamar a atenção para o festival IndieLisboa, que demora 10 dias e é um festival internacional dos filmes independentes. Em abril terá a sua décima edição. Este evento tem como objetivo a promoção do cinema alternativo e a propagação dos filmes que aparecem nos cinemas portugueses raramente. É um dos maiores eventos deste tipo em Portugal não só por causa do número dos participantes (35 500) mas também por causa do número dos ecrãs (9) usados para as projeções dos filmes e da quantidade dos filmes que aparecem nos cinemas durante o festival (226).  
 Quanto aos festivais, o maior festival de música, o  Optimus Alive! (que é parecido, no que diz respeito ao programa, ao festival polaco Open’er), tem lugar em Algés (nos arredores de Lisboa). Teve a sua estreia em 2007. Junta muitas estrelas da música rock e alternativa. Apesar de curta história deste festival, já tem sucesso fora de Portugal. O Optimus Alive! Foi destacado pela revista britânica NME, que colocou o Optimus na dianteira do ranking dos doze mais populares e maiores festivais na Europa. A outra vantagem deste festival é o tempo previsível – é sempre ideal.           
  Se depois de tanta informação ainda tiveres problema em escolher algum lugar digno de atenção, faz uma pergunta para ti: estou sem dúvida na cidade que se chama Lisboa? A resposta é sim? Vais encontrar algum bar com ambiente agradável nos bairros que já foram enumerados antes. Tens muita e boa escolha. Em Lisboa vais chegar sempre até à porta de algum sítio interessante. Os decobrimentos acidentais são aconselháveis. 
   
*Mas tenho de dizer que os portugueses muitas vezes falam inglês e é fácil de entendê-los.


Zuzanna Michalska

terça-feira, 11 de junho de 2013

E sai mais uma fornada:)



No terceiro anel da esquerda para a direita: Agnieszka Miciuła, Paulina Zajglic e Monika Dobrowolska. 
Em pé da esquerda para a direita: Mariola Kur, Karolina Sieńko-Flis, Michał Hułyk, Weronika Kucharuk, Ewelina Witkowska, Monika Lisik, Estera Małek, Patrycja Paweska,Natalia Trzebuniak,Weronika Kazanowska, Katarzyna Kłodnicka,Mariola Soboń, Paulina Flasińska, Magdalena Józwik, Malgorzata Marciniec e Marcin Krawczyk. 
Em baixo da esquerda para a direita: Aleksandra Dudziak, Katarzyna Kuczyńska, Paulina Pałyska, Joanna Kida e Lino Matos

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Vizinhos

Os vizinhos são como a família, não se escolhem. Ou, pelo menos, é assim na maioria dos casos. Com certeza cada pessoa já teve o prazer duvidoso de viver ao lado dum indivíduo que lhe diversificava a vida e lhe fornecia emoções numerosas e lembranças inolvidáveis. No prédio onde mora a minha família normalmente não há muitos problemas entre os residentes. Às vezes ocorrem alguns conflitos pequenos mas, em geral, a gente é simpática e tranquila. Mas nem sempre foi assim. 
  Lembro-me que há uns anos, vivia lá uma família bastante interessante, um casal com uma filha e um cão que ladrava sem parar e de que todos tinham medo. O pai não trabalhava, porém quase nunca estava em casa. Passava a maioria do tempo num banco com os seus colegas e com uma, ou mais, latas de cerveja na mão. Quando regressava para a casa depois dos encontros sociáveis mais intensivos, todos os vizinhos podiam ouvir o que na verdade a sua esposa pensava sobre ele. O estrépito alto e forte da porta assinalava que o espetáculo tinha acabado e os vizinhos podiam deixar de escutar às portas e voltar às suas tarefas. Ao contrário da sua mulher, o homem nunca usava palavrões e independentemente de estar sóbrio ou não era muito amável e estava sempre de bom humor. Às vezes não tinha permissão para entrar no seu apartamento e tinha de passar a noite na escadaria. Depois de passar umas horas no chão duro e frio, cumprimentava os seu vizinhos com um sorriso enorme e parecia o homem mais feliz no mundo. A sua mulher, apesar de ter o caráter muito mais forte do que ele tinha também o lado sensível. Todas as manhãs, ou as madrugadas, ouvia música clássica. Acho que o seu cão partilhava a sua paixão porque durante estes concertos matinais mostrava um talento tão grande que o próprio Andrea Bocelli podia ter inveja dele. Não sei se seria pelo cão perigoso ou pela coleção enorme de lixo que tinham na varanda, mas a filha adolescente dos meus vizinhos recebia sempre visitas na cave. Talvez ela e os seus amigos gostassem dos lugares escuros e húmidos ou pertencessem a uma seita. Eu nunca me atrevi a perguntar, mas julgando pelos vestuário preto e pela maquiagem escura deles tudo era possível. Com certeza, nunca podíamos aborrecer-nos graças a esta família tão original, mas não posso dizer que quando mudaram de casa, os restantes residentes estavam com saudades deles. 
Urszula Półkosznik  2º ano de Filologia Ibérica

 Antigamente vivíamos em pequenas tribos no meio da floresta. Todos que habitavam na mesma povoação eram os parentes ou primos e todos se conheciam. Apesar disso, nem todos queriam, nem sabiam, conviver no mesmo espaço, mas todos eram os seus vizinhos. Hoje em dia geralmente não vivemos no meio da floresta, a menos que sejamos guarda-florestal. Infelizmente, nem sempre temos a possibilidade de não ter os vizinhos ou de escolher quem é que serão os nossos vizinhos. Quase 70% das pessoas na Polónia mora nas cidades e a maioria vive nos prédios construídos durante a época do comunismo ou até mesmo antes do comunismo (para não enumerar os que formam uma parte de paisagem urbana mesmo de antes da I guerra mundial). Tudo isto faz com que os nossos vizinhos, quer queiramos, quer não, sejam as testemunhas da nossa vida. Embora nos separe a parede, há situações em que são só os olhos que não veem, mas os ouvidos registam tudo. Por isso, há um provérbio que diz: “as paredes têm os ouvidos”. Os vizinhos são um tema comum das piadas e zombarias. Mas nem sempre é assim, nem sempre os vizinhos são o alvo da crítica.
   Łódź: Uma cidade feia onde tudo que não se encontra na rua Piotrkowska ou Narutowicza é cinzento e lembra a época do século XIX e dos princípios da urbanização e desenvolvimento das manufaturas têxteis. A cidade onde um pequeno chuvisco paralisa os transportes públicos e os elétricos andam à velocidade da luz. Nesta cidade no meio do inverno uma mulher, de alguns 70 anos, num dia cinzento e frio entregou-me umas luvas feitas de tricô. Deve ter observado que as minhas tinham muitos buracos e o inverno era muito severo. E dedicou o seu tempo para ajudar uma estudante que cruzava nas escadas durante alguns meses. O coração não tem de ser cinzento, nem de se paralisar com um pequeno chuvisco.
   Białystok: Uma cidade multicolorida e caótica. Onde tudo está em obras constantes, mas nada é feito. A cidade que adora dançar e cantar, mas não sabe realizar um trabalho do dia a dia. Nesta cidade vivem muitas pessoas que provêm da região do Cáucaso. Uma destas famílias morava numa casa que se encontrava ao lado da minha. Naquele tempo o meu apartamento tinha muitas fechaduras e num dia os meus amigos fecharam uma para a qual não tinha a chave. Portanto, entrei no prédio, mas não podia entrar em casa, então sentei-me nas escadas, cansada, desesperada, sem saber quanto tempo precisaria de esperar até que alguém voltasse. Pouco depois abria-se a porta do apartamento do lado e uma mulher vestida de preto, com os olhos pretos e cabelo preto, falando um polaco muito fraco convidou-me para um chá. O coração não tem de ser preto, nem de se fechar com muitas chaves.
  Kuźnica: Uma vila cujos dias da glória já ficam para atrás. Depois da II guerra mundial, quando foi bombardeada pelos nazis, o único que se desenvolve nesta vila são o cemitério, as mercearias e o contrabando dos cigarros, do álcool e das drogas. Nesta cidade vive o meu vizinho Wladyslaw. A sua casa foi construída numa cave onde tinha caído uma bomba. O meu vizinho passa a maioria do seu tempo à janela. A janela não está vazia, pois no peitoril está sentado um fiel companheiro, o cão Azor. Num dia o Wladyslaw não apareceu à janela. No dia seguinte tampouco. Os vizinhos, que de vez em quando visitavam o Wladyslaw na sua casa, normalmente passavam pela sua casa indo fazer compras. Se fazia calor, a janela estava aberta e paravam para falar um momento com ele. Se fazia frio, só acenavam e trocavam um sorriso. Mas neste dia quando o Wladyslaw não apareceu, todos ficaram preocupados e o visitaram. Wladyslaw adoeceu e pouco depois recuperou a força. O poder do sorriso é maior do que milhares de bombas. Na Polónia há muitas cidades e muito mais vilas e aldeias. Todos temos e somos vizinhos, mas quando vemos algum deles triste dizemos: É só o meu vizinho, isso não é problema meu? 
Anna Kułak 2º ano de Filologia Ibérica

 Como o emprego das inocentes palavras "bom dia!" podem provocar mesmo as perturbações nervosas.
   Quando era pequena e passeava com a minha mãe, ensinou-me a dizer "bom dia" aos vizinhos cada vez que ela o fizesse, o que era muito confortável, porque bastava que eu repetisse. A situação complicou-se no entanto quando andava sozinha e tinha que afrontar todas estas caras que sempre me surpreendiam aparecendo de repente na rua em frente de mim, assomando-se à janela ou espreitando na escuridão da escadaria. Eram todas caras familiares, que deveria reconhecer sem hesitação nenhuma. Porém esta exigência inquietava-me, porque quase nunca conseguia acertar por acaso no meu jogo de quem era quem? Passava por eles inconsciente de que estes rostos pertenciam aos mesmos donos cujas vozes ouvia todos os dias atrás de parede. Só um rosnido de desaprovação me informava que eram eles mesmos. Os meus óculos não chamavam a atenção, porque isso não era nada excecional. Talvez se andasse apoiando-me numa bengala branca ou acompanhada de um cão-guia, isso teria sido a prova evidente da origem da minha conduta. No entanto via demasiado bem para usar a bengala, mas ao mesmo tempo não bastante para poder vislumbrar quem está no lado oposto da rua. A minha mãe dizia-me que cumprimentasse qualquer um que visse no nosso prédio, o que também não esclareceu a minha confusão. Seguindo esta regra dizia gentilmente "bom dia" às minhas colegas e gritava "olá!" aos vizinhos idosos. Desta maneira consegui fazer que os primeiros se fartassem de rir enquanto os segundos consideravam que eu me ria deles. 
  Quando cresci, decidi que tinha que acabar com esta palhaçada e que se calhar seria melhor não dizer simplesmente nada. Pensava também sair depois de averiguar se o corredor estava vazio. Mas o que fazer com os encontros na rua? O meu irmão aconselhou-me que só lançasse os olhares raivosos. Pelo menos teriam medo de ti, achava. Mas como apesar de tudo era uma criança cortês, não queria que me temessem. Tentava agarrar-me a um pormenor que me ajudasse a reconhecer estas pessoas. Por exemplo o vizinho de em frente saía sempre para o trabalho com um saco enorme e ocupava todo o espaço andando pela escada. A vizinha do andar de cima tinha o cabelo de cor do vinho maduro, muito chamativo. E havia também um senhor idoso, muito afeiçoado ao seu cão grande, que o acompanhava para todas as partes e ladrando anunciava que se estavam a aproximar. No entanto, bastou que o vizinho aparecesse na rua sem o seu saco ou que a senhora de cima mudasse o penteado, e já voltava eu ao ponto de partida. Havia também outras circunstâncias, exteriores que decidiam que um vizinho passaria desapercebido/desrespeitado (depende do ponto de vista). As precipitações enfraquecem a visibilidade não só na estrada. Era exatamente numa tarde invernal e escura, quando empapada de neve entrei na loja do bairro e com os sapatos pesados pisei o rabo do cão do vizinho. O pobre animal uivou tão comovedoramente que ainda inconsciente do meu feito cruel, pensei que tinha sido o alarme. O vizinho não disse nada, porque era um homem educado, mas a repreensão no seu olhar, cada vez que nos cruzávamos, era tão visível como o saco enorme ou a cor estranha de cabelo. Atualmente, não consigo seguir as mudanças pessoais na minha escadaria. Cada vez que descubro uma cara que acho nova, afinal já aqui mora desde antes do meu nascimento. Percebo que por isso sente-se obrigada a rosnir e torcer a cabeça quando não a honro com o cumprimento. Só há um novo vizinho que não conhece a minha “fama” e então não considera inconveniente dizer-me Bom dia. Também eu sei reconhecê-lo sem sombra de dúvida, pois ele é preto. 
Kamila Wiśniewska 2º ano de Filologia Ibérica

domingo, 19 de maio de 2013

Pequeno-almoço à Portuguesa

Um pouco de Portugal no programa Pytanie na sniadanie da TVP 1 (Telewizja Polska). Curta conversa invariavelmente estereotipada mas que não deixa de ser uma boa forma de divulgar Portugal aqui na Polónia. Depois de um tal de Norbi (um saloio que já foi famoso na Polónia) e da Magda Gessler parece que Portugal está  na moda por estes lados. Esta última passou por Portugal e num portunhol fluente cozinhou...na Praça da Alegria da RTP.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Aquela mulher dos sonhos...


Muitas vezes, quando tento dormir, sonho com a mulher que quero ser. Uma mulher forte, bela, ágil. Uma mulher que sabe como resolver um problema, que não foge para o mundo das emoções. Ela nunca tem rosto, é anónima. Acho que não há uma mulher como a que eu desejo ser.
            Porque nunca quis ser uma princesa, Marilyn Monroe, Lady Gaga ou Joana d´Arc? Simplesmente porque sempre quis ser homem. Quando era pequena não gostava dos comentários da minha mãe, que sempre me disse que não podia ir com os meus amigos brincar porque era perigoso. E se fosse um menino? – perguntava a pequena Natalia. A minha mãe respondia que sim, então podia. Naqueles momentos apanhava um pau e tentava ser mais masculina do que os meus amigos. Subia às árvores, saltava dos telhados e era o cavaleiro mais corajoso do grupo todo. A minha mãe viu e decidiu que não posso brincar com os meninos. Levou-me para a quinta da minha avó e ali com livros para meninas, cresci até os 12 anos, quando foi para Espanha.
            Foi a primeira vez que tive amigas. Sempre foram rapazes, agora duas raparigas mostravam-me um mundo diferente, cheio de cultura e linguagem distintas. Não gostei das conversas sobre as compras. Não gostei da busca dos namorados. Ainda era pequena, não queria um namorado, tinha muitos livros por ler e canções por ouvir. Não tinha tempo para rapazes.  Desapareci num mundo das fantasias, Tolkien era o meu melhor amigo, Galadriela uma ninfa mágica e eu um dos elfos à procura das aventuras. Uma mercenária com a sua espada, preparada para lutar e procurar tesouros. Outras vezes era Eira, uma mulher tranquila e normalmente pacífica, que conhecia todos os segredos das ervas. Amava todos os seres vivos e ajudava, sem nada em troca. E eu na vida real queria ser como ela. Achava que para conseguir a felicidade só precisava dum sorriso de outra pessoa.
            Depois de seis anos voltei para a Polónia com mais experiência. Já conhecia os meus desejos. Queria fazer algo para mim mesma, não só estudar para que a minha mãe seja orgulhosa de mim. E então conheci o Treinador. Era só três anos mais velho que eu e há seis praticava esgrima. Era erudito, entendia da lógica e dizia coisas muito interessantes. Ensinou-me que um humanista deve saber um pouco de cada tema. Que não está bem visto que uma mulher esteja bêbada e mais quando está rodeada de homens também bêbados. Que levar uma navalha como proteção é ainda mais perigoso do que não levar nada. Explicou-me que uma pessoa não precisa de álcool, tabaco nem drogas para ser feliz. Que a euforia produzida pelo treino é melhor, não custa dinheiro e é muito mais saudável.
            O Treinador é o meu herói. Não é uma mulher, mas tem todas as qualidades que eu queria ter e normalmente comporta-se como eu me comportasse. A partir dele desenhei a mulher dos meus sonhos, uma mulher ideal. E tentarei ser como ela. Ou como o Treinador talvez.

Natalia Sławińska

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O arco-íris do meu universo

Ontem em Portugal foi dia da mãe . Por isso as linhas seguintes são dedicadas a todas as mães...do mundo:)


O papel da mulher na época moderna não é fácil. As mulheres não são tratadas de forma igual aos homens. Ainda não têm os mesmos direitos que os homens, mas têm as mesmas obrigações. Além disso, têm de ligar tanto com as obrigações profissionais como com as tarefas domésticas. Em minha opinião há muitas mulheres que se safam conseguem fazê-lo bem. Uma deles é a minha mãe. Pensei muito sobre quem escrever: Uma cientista, atriz, médica, professora, cabeleireira?... Mas por que escolher só uma cor quando se pode ter um arco-íris inteiro? 
  A minha mãe é médica. Sempre sabe o que é que me dói mesmo quando eu mesma não o sei. Não é preciso perguntar o que é que deve ajudar-me porque ela já o sabe. É Esculápio quando liga o meu joelho outra vez na mesma semana dizendo que não haverá cicatriz ou se houver – todos os heróis têm cicatrizes de guerra. 
  A minha mãe é política. Sabe manobrar entre os partidos da minha família. Entre quatro fações cada uma quer outra coisa e não quer desistir nem retirar nem sequer um passo. E ela sabe fazer a paz de tal forma que todos acham que ainda têm poder. 
  A minha mãe é cosmonauta. Leva-me numa viagem espacial. Só fecho a boca, abro os olhos e olho na direção que me mostra. E permite-me voar e tocar os planetas e ter sempre os bolsos cheios do pó das estrelas. Aposto que foi a minha mãe quem foi primeiro à Lua. 
  A minha mãe é viajante. Com ela não tenho medo de serpentes venenosas nem elefantes selvagens que atravessam o bosque. É com ela que adoro apanhar morangos silvestres ou estirar-me na clareira no meio da floresta. Com ela nenhuma montanha é alta demais para atingir o cume e nenhuma rota demasiado comprida.
   A minha mãe é detetive. Sabe onde se escondem as meias (maliciosas!). Nenhum cogumelo está bastante camuflado. Nenhuma cara triste passa despercebida. Sempre sabe o que é que se passa embora não estivesse lá nem perguntasse pela razão. A minha mãe é cozinheira. É capaz de criar uma refeição de numerosos pratos para que todos tenham algo saboroso para si, mas também pode cozer só um prato tão delicioso que todos gostam e desejam comer mais uma dose. A minha mãe é Buddy Valastro e Gordon Ramsay em um, mas melhor porque sabe que, sobretudo os morangos são reis da nossa mesa. 
  A minha mãe é construtora. Sabe pregar pregos, fazer pérgulas e fixar as portas do armário. Com um lápis e uma folha e um pouco de tempo cria um verdadeiro avião, barco e dinossauro tão grande como eu. Acho que com muitas folhas poderia criar um farol, pirâmide e todas as sete maravilhas do mundo. 
  A minha mãe é sonhadora. Nunca se rende. Luta sempre pelo que acha importante. Não concorda com que os outros tomem as decisões que ela deve tomar. Não se esquece de que atrás das nuvens há sempre sol. Não deixa que o seu mundo se torne negro. A minha mãe é o arco-íris: tem todas as cores do meu universo.

Anna Kułak, II ano de Filologia Ibérica