terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Os futuristas de Portugal - Padre António Vieira e Rainha Dona Luísa de Gusmão

Analisando as biografias do padre António Vieira e da rainha Dona Luísa de Gusmão cheguei a uma conclusão que o tempo real não sempre corresponde ao tempo da vida das pessoas. Há pessoas que têm os pensamentos e comportamentos muito mais avançados do que a gente da mesma época. O padre António Vieira e a D. Luísa são excelentes exemplos para provar minha tese.
            Padre António Vieira foi considerado um verdadeiro visionário e futurista. O seu pensamento só chegou à luz depois da revolução francesa e no caso do Brasil duzentos anos após a sua morte quando começou o processo da libertação dos escravos. Foi o autor de várias extraordinárias propostas econômicas cujo objetivo foi enriquecer Portugal na época da Restauração. O padre António Vieira percebeu que o sucesso de rápido enriquecimento não eram as constantes conquistas, mas sim o estabelecimento de paz. Na época do Brasil holandês o padre defendia a política pacifista em relação aos Países Baixos e chegou com uma proposta de negociar com os Holandeses a compra do estado brasileiro ocupado por eles, Pernambuco.
Eu chamaria o Padre António Vieira de um cidadão do mundo – além de ser um missionário da Companhia de Jesus, era também um verdadeiro diplomata, sempre convidado pelos vários reis a expressar as suas opiniões políticas e por esta razão foi bem visto nas cortes europeias. A sua política pacifista foi refletida na atitude dele como mediador e negociador. Conseguiu negociar e pactuar com os reis, chefes indígenas, colonos ou funcionários régios em todas as colônias portuguesas quer no próprio Portugal quer nas colônias ultramarinas, nomeadamente no Brasil entre os grupos indígenas do interior brasileiro. O seu lado mais forte foi a arte de se acomodar muito facilmente e a sua flexibilidade - ora quanto à bem-sucedida imposição das suas ideias no ultramar ora quando teve que confrontar-se com as sociedades mais resistentes à sua pregação e mesmo assim conseguiu adaptar-se à nova situação.
O poeta Fernando Pessoa chamou-lhe de “imperador de língua portuguesa”. O padre António Vieira se opôs ao tráfico de escravos africanos, à Inquisição e lutava pela liberdade religiosa. Além de só ocupar o cargo importante nas estruturas religiosas era também escritor, diplomata, político, pregador, sonhador e missionário – tudo ao mesmo tempo. Com a sua visão do mundo “Liberté-Égalité-Fraternité” ultrapassou a grande revolução francesa. Depois da sua morte, foi publicada em 1718 uma obra importante - que o padre António Vieira escreveu secretamente – intitulada “História do Futuro”, onde destaca-se seu pensamento marcante:

“Para satisfazer, pois a maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério, pomos hoje no teatro do mundo esta nova História, por isso chamada do Futuro. Não escrevemos com Beroso, nem com Heródoto as dos Egípcios, nem com Josefo as dos Hebreus, nem com Curciu as dos Macedônios (....) mas escrevemos sem autor o que nenhum deles escreveu nem pode escrever. Eles escreveram histórias do passado para os futuros, nós escrevemos a do futuro para os presentes. Impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias, mas isto é que o fará o pincel da nossa história”.

            O padre António Vieira projetou o futuro de Portugal e previu o papel importante que ia ser desempenhado por Portugal na história do mundo. A visão dele não era o presente para o futuro, mas o futuro para o presente.

 D. Luísa de Gusmão, de origem espanhola, foi uma mulher com muitas aspirações políticas. Pelo seu casamento com D. João IV, o primeiro rei da dinastia de Bragança após a Restauração em 1640, virou a primeira rainha de Portugal representando a nova família real. As longas tradições ibéricas de casamentos entre as famílias reais portuguesas e castelhanas causaram também as ameaças de uma possível perda da independência. Mas a D. Luísa de Gusmão esteve bem longe de unir os dois países rivais sob um cetro.  Incentivou o seu marido D. João IV para ele se opusesse à dinastia filipina e além disto interessou-se bastante pelos assuntos da política portuguesa e agiu de tal modo para garantir a independência deste pequeno país ibérico. Através das suas agitações acabou de vez com o sistema da monarquia dual português-espanhola, recuperando totalmente a autonomia portuguesa. Sempre se manteve fiel aos ideais da Restauração. D. Luísa de Gusmão era uma mulher muito inteligente que defendia o fortalecimento da nova dinastia (por exemplo através dos casamentos – da sua filha D. Catarina com Carlos II de Inglaterra).
Sabia bem que o destino dela era reinar e não apenas servir. Foi lhe atribuída esta frase – „melhor morrer reinando, que acabar servindo” que no decorrer do tempo foi alterada e parafraseada ficando nas cartas da história assim - “É melhor ser rainha por um dia, do que duquesa toda a vida”. Quando D. João IV morreu em 1656  D. Luísa se tornou a regente do reino durante a menoridade do pequeno infante D. Afonso.
D. Luísa foi uma participante ativa na construção da Independência de Portugal. Uma rainha dedicada ao povo português. Mulher inteligente e orgulhosa, boa esposa e carinhosa mãe. Uma mulher certa no tempo e lugar certo.
Contudo, o mundo daquela época não estave pronto para a recepção dos grandes futuristas de Portugal. As ideias inovadoras, o desejo de uma mudança global, a ruptura com um pensamento fixo e a ousadia requerem uma grande força interna. Padre António Vieira defendendo os judeus e os cristãos-novos (vendo em eles uma possibilidade de um desenvolvimento do país e respeitando o dinâmico espírito empreendedor deles) foi condenado pela Inquisição que só anularia esta condenação na segunda metade do século XVII. Um caminho parecido cheio de obstáculos e desafios seguiu a D. Luísa de Gusmão. Mesmo defendendo a independência de Portugal e sempre fiel aos princípios da liberdade, as suas atitudes políticas bravas foram consideradas perigosas a medida que foi afastada do governo por seu filho D. Afonso.
Os grandes futuristas de Portugal foram simplesmente esmagados pela realidade.


Bibliografia:
AVELAR, Ana Paula, D. Luísa de Gusmão, A rainha Mãe.
AVELAR, Ana Paula, Espelhos de um Império na escrita de Padre António Vieira: esboços: iniciáticos.
GARCIA, Lima, Futuro e Futurismo Barroco na Obra de António Vieira, Escola Superior de Educação da Guarda 2008.
RAMOS, Rui, História de Portugal, A Esfera dos Livros 2009.
VIEIRA António, Cartas do Padre António Vieira, Tito de Noronha, Cornel University Library.

AGATA BŁOCH                                                                                                          
Fundacja Terra Brasilis 





sábado, 14 de fevereiro de 2015

Dia de São Valentim?

Se alguém acredita no calendário, hoje estamos no dia 14 de Fevereiro. E o que é que destaca este dia do resto dos desagradáveis dias de inverno? É o dia de São Valentim, um pesadelo para os homens e a data adorada pelas mulheres.
As vitrinas estão cheias de diversas coisas de cor vermelha para mostrar às pessoas que não sabem de nada, que o vermelho é a cor do amor. Do outro lado do vidro sorriem-nos os ursos de peluche, rosas (obrigatoriamente vermelhas). E como é que eu me pude esquecer dos corações! Os corações de chocolate, de amêndoa, de papel, de ouro... este é o símbolo inextricavelmente ligado ao Dia dos Namorados.
E que é que fazem os namorados neste dia tão especial? Sem dúvida, as coisas indescritivelmente românticas. E assim, os namorados vão aos cinemas, aos parques, aos restaurantes e fazem todas estas coisas que (quando se pensa bem nisso) podem fazer todos os dias. Mas não fazem. É engraçado que as pessoas precisam de estabelecer uma festa para encontrar uma desculpa, um tempo, ou pior, uma vontade de mostrar, de expressar o afeto que sentem. Também me faz rir o peso que as mulheres atribuem à celebração deste dia. E que Deus tenha piedade do homem que se atrever a esquecer do dia de São Valentim ou dizer à sua namorada que não reconhece esta festa. Aquele homem pode contar com a falta de amor, pelo menos, até ao Dia das Mulheres.
E o que pensaria de tudo isto  o próprio São Valentim? Como o patrono, defensor de doenças graves como as doenças nervosas e a epilepsia, acho que o pobre são Valentim não diria muito.

Beata Zuzel
2º ano de Estudos Portugueses


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Não me toca

"Já estou há três dias neste quarto escuro, rodeado por garrafas vazias, em silêncio total mas com os gritos na minha cabeça. Fumei dezenas de cigarros, comi pouco. O álcool já não me dá alívio nem vai resolver os meus problemas mas ainda bebo a última cerveja que tenho. O meu telemóvel está desligado, não abro a porta - quero estar sozinho. Dói-me a cabeça e todo o meu corpo. Ultimamente não tenho dormido bem. Acabei de fazer as malas e estou pronto para sair e nunca mais voltar a este apartamento de que tenho tantas memórias. Já tomei uma decisão e sei perfeitamente o que quero. Dei-me conta de que não era um homem feliz e por isso vou dar o primeiro passo para a felicidade. A minha felicidade. Hoje ela volta da casa dos seus pais. Finalmente vou dizer-lhe tudo o que agora sinto. Depois da última briga pensei muito sobre a nossa relação. Relação... não sei se posso chamar assim isto que agora há entre nós. Há quatro anos que estamos juntos e com o decorrer do tempo consigo ver como sou estúpido e quanto tempo perdi estando com uma pessoa que me parece cada vez mais alheia. Quem sou para ela? Um servo? Um escravo? Uma marioneta nas suas mãos? Estou farto dos seus caprichos, do seu egoísmo e da sua desconfiança. Estou farto de tudo e não tenho mais força para viver assim. Fiz tudo para que ela fosse feliz mas ela nunca apreciou os meus esforços. Eu estava sempre com ela quando ela precisava, às vezes esquecendo de outras pessoas importantes para mim e das minhas necessidades. Estava cego de amor mas finalmente abri os meus olhos. Perdi demasiado tempo.. não quero perder  mais.".
O Pedro deixou de escrever, fechou o seu diário e acendeu um cigarro. Ainda estava um pouco bêbado mas era totalmente consciente do que fazia e pensava. Escrever ajudava-lhe a organizar os seus pensamentos e acalmar-se. Já quase adormecia quando o silêncio do apartamento foi interrompido pelo som da chave a abrir a fechadura da porta. Podia ser só ela - a Maria. Voltou cedo mas o Pedro já estava pronto para acabar uma etapa da vida relacionada com ela. A mulher entrou no quarto aproximando-se dele para dar-lhe um beijo.
- Não me toques. - disse o Pedro e empurrou-a.
- Pedro.. o que é que se passa contigo? Ainda estás chateado comigo?
- Chateado? Estou farto de ti! Não vou aguentar mais o teu egoísmo e falta de respeito!
O Pedro estava cheio de raiva. Já não quis explicar nada mais sabendo que isso não fazia sentido e que não ia mudar nada.
- O que tu estás a fazer? - a Maria notou as malas.
- Vou-me embora.
- Mas vais para onde?!
O Pedro nem olhou para a Maria, nem ouvia o que ela ainda estava a dizer. Pegou nas malas e saiu sem se despedir. Agora ela ficou totalmente sozinha, em silêncio, nesse quarto escuro. Resignada, deitou-se na cama para acalmar-se. Não sabia o que fazer nem o que pensar. Não percebia nada. Sentiu alguma coisa debaixo das costas - era o diário do Pedro. Reconheceu a letra dele e começou a ler a página em que o caderno estava aberto. Os olhos dela encheram-se de lágrimas que caíram nas folhas de papel.

(Conto inspirado na canção "Não me toca" de Anselmo Ralph)

Ewa Kobyłka
Estudos Portugueses 2011/2014

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A mágica Podláquia


Há um pedaço da terra atirado para os confins da Polónia. Não há lá solos férteis, os arranha-céus não perfuram as nuvens, as auto-estradas não atravessam os campos. Não há aeroportos, as chaminés de fábricas não despontam no horizonte. Este pedaço da terra chama-se Podláquia, uma voivodia (província) no nordeste da Polónia.
 Era uma vez um político de camisola turca que quis que não houvesse nada. Eis a Podláquia. Há quem diga que foi aqui que Proust procurou o tempo perdido, mas eu corroboro o Saint-Exuperiano: “O essencial é invisível aos olhos”.
A Podláquia não é terra para se conquistar, é terra que conquista: faça o que fizer, é preciso “entrar de cabeça” nela para a descobrir. É preciso deixá-la seduzir com os seus feitiços. Nos seus braços o ar é mais leve, não há quem resista aos seus encantos.
                                                      Casa tradicional, século XX, fot.: Anna Kułak
Cruzar a fronteira da Podláquia é como entrar num mundo paralelo. Os direitos do mundo real são abolidos e entreabre-se o espaço impregnado de metafísica. Desenrola-se o tempo que não tem nenhuma pressa em acontecer. Fica-se tranquilamente perto de um fogão de lenha. O calor faz o sangue circular mais depressa, e se não fosse o calor não, seria a żubrówka, uma vodka feita com ervas que crescem livremente rodeadas pelos bisontes europeus no parque nacional Białowieski. Se não o tivesse logrado a żubrówka, ainda fica por provar o hidromel Podlaski ou a cerveja Kormoran de uma das cervejarias regionais. Mesmo assim, não é possível viver só bebendo, é preciso comer um ou, por que não, dois dos pratos centenários feitos à base de batatas e carne de porco não estressado (pois, o porco feliz é mais saboroso). 
Casa tradicional, século XX, fot.: Anna Kułak
O homem não vive somente de pão, pois é preciso encher não só o estômago, mas também a alma. Assim, a Podláquia é a terra de muitos deuses. Ou de um chamado de vários nomes, como quem preferir. É a terra onde há centenas de anos convivem crentes de diversas religiões e confissões. Os tártaros, duros e silenciosos, com seu povo trouxeram o islão, a arte do tiro com arco a cavalo, os temperos de sabor picante e marcantes, a carne de carneiro e a arte de curtimento da pele e de elaboração de objetos em couro. Os judeus trouxeram o judaísmo, a riqueza dos pratos salgados com mel, e a música klezmer, outrora inseparavelmente relacionada dos ritos religiosos, porém hoje em dia aplicada somente à dimensão de entretenimento que pode ser confundido com o jazz, mas um jazz com o “ar exótico”. Em tudo isso, os ortodoxos enredam o canto ortodoxo, profundo e místico. Ombro a ombro, os polacos, bielorussos, lituanos, ucranianos, judeus e os tártaros.
Em virtude da multiplicidade das línguas usadas na Podláquia, o médico judeu Ludwik Zamenhof reparou na necessidade da criação de uma língua artificial que fosse fácil de aprender e que servisse de língua franca para toda a população mundial. Assim em 1887 surgiu o Esperanto, a língua idealizada como ferramenta para transmitir as culturas, propagar a amizade e a paz, destruir a última barreira que nos pudesse separar.
Aliás, a fala dos podlaquianos é muito musical. O ouvido bem treinado perceberia que certas consoantes na boca deles alargam-se o que se tornou conhecido como śledzikowanie (a palavra intraduzível que tem a ver com o arenque, embora não há quem compreenda porquê). 
            Além disso, para realmente entender a Podláquia e os podlaquianos não é suficiente olhar e pensar. É preciso sentir, sentir é o que os constitui, é o que também constitui a mim como podlaquiana. É por isso que os podlaquianos gostam tanto da arte: adoram cantar e dançar. Białystok é a capital polaca da música pimba (em polaco disco polo), mas também é lá onde fica o teatro de ópera, o filarmónico e se realiza o festival de blues Bluesowe ostatki. Na Podláquia organiza-se também o festival de música ortodoxa de Hajnówka, o festival de blues  de Suwałki. Preserva-se também a música folk e o artesanato que se podem admirar e aprender durante o festival Wisegard Wave, o Festival de muitas culturas e nações “Do pátio do campo” ou durante a Podlaquiana Oitava das Culturas, Festival Internacional da Música, Arte e Folclore. Mas a vida cultural da Podláquia não é só a música, dança ou o artesanato, são tambémos teatros e, entre eles, há dois que merecem atenção especial: O teatro de marionetes de Białystok e um teatro estudantil que representa as obras dos estudantes da Academia Teatral de Białystok (a única na Europa Central e Oriental com a faculdade de marionetas). A criatividade do povo não tem limites. A expressão suprema manifesta-se no Campeonato da Polónia de navegar em qualquercoisa que se realiza em Augustów sob o lema “O que flutua, não se afunda”.
A Podláquia é tudo isso e muito mais. É o temperamento em ebulição que encontra o seu verdadeiro destino entre as fileiras dos chorões, perto das florestas infinitas e a névoa da noite. É a terra onde é possível perder-se e encontrar-se, aliás, onde é necessário perder-se e encontrar-se, onde vais perder-te e encontrar-te se deixares.


Anna Kułak
1º ano de mestrado em Espanhol

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

História de um sentimento...


Somos 7 mil milhões de pessoas que vivemos na Terra. Cada um no nosso planeta é como um grão de areia na praia. Isto significa que somos desconhecidos nesta multidão de gente que sente, desfruta e sofre. Milhões de tragédias, de histórias, de acontecimentos que ocorrem cada dia, cada hora, ainda cada segundo. Umas doces e alegres, outras mais amargas. As histórias são como as sinfonias agridoces. Esta é a minha. A história de um sentimento.
24 de junho de 2013
O meu horário no trabalho mudou por causa do início das férias. O verão chegou muito tarde este ano, os dias cheios de frio acabaram na semana passada. Mesmo que goste muito do nosso inverno polaco, graças ao meu pai no meu coração há sempre o espaço para as temperaturas altas. De qualquer maneira vou ter de me acostumar ao novo horário dos comboios. Hoje, ao voltar do trabalho, vi um par de olhos verdes tão grandes e bonitos que o meu coração acelerou. Mas esta sensação durou apenas uns segundos, interrompida pelo movimento de passageiros que baixaram e subiram na estação. Quando o comboio arrancou, os olhos desapareceram. Mas eram tão... tristes. Sim, é a palavra adequada. Se calhar vou vê‑los outra vez.
18 de julho de 2013
Passaram já 3 semanas desde o momento em que vi aquele par de olhos misteriosos. Não conheço o dono daquela alma cheia de tristeza escondida atrás do pano verde. Não me lembro quase nada do seu aspeto, mas isso não é tão importante. O meu problema é que não posso deixar de pensar naquela tristeza e infelicidade. Quando penso nisso, sinto as contrações dentro. As contrações de dor. É como se eu sentisse tudo o que ele sentiria. Como se produzisse alguma conexão entre nós, no momento em que os nossos olhos conseguiram encontrar o mesmo caminho. É muito estranho.
7 de agosto de 2013
Hoje foi um dia diferente dos outros dias. No trabalho houve muitas coisas para fazer, como sempre. Contudo, especialmente durante o verão e as férias há mais trabalho, dado que muitas pessoas estão de folga.Sem dúvida, hoje foi um dia de encontros. Chegaram e saíram muitas pessoas que tinham marcadas as entrevistas de trabalho com a nossa diretora, já que estamos no momento de recrutamento dos professores na escola de línguas.Estava muito ocupada com uma tradução que veio um dia antes com o objetivo de ficar realizada até hoje. Por isso, concentrei-me no ecrã do meu computador. Ouvi que alguém entrou na sala, porque a porta rangeu, mas não levantei o meu olhar, tendo certeza de que a minha amiga se ia ocupar do recém chegado. “O ato de divórcio entre a senhora X e o senhor Y”, soaram as palavras na minha mente, seguidos imediatamente do movimentos dos dedos.
- Desculpe, tenho um encontro combinado para às 14 horas com a senhora Carolina - ouvi. Fiquei muito surpreendida e quase saltei na cadeira. Olhei na direção da procedência da voz e as palavras ficaram na minha garganta. Vi um par de verdes olhos grandes que observavam a minha cara com atenção. Aqueles olhos verdes.
- Peço imensa desculpa, não a quis assustar. Não vi outra pessoa senão a senhora, então decidi perguntar.
Olhei para a sua cara quase com a boca aberta. Por um instante o meu cérebro ficou congelado. “Aqueles olhos verdes estão aqui. Aqui no trabalho. O que disse ele?”, pensei. “Ah, que tonta sou. Teresa, concentra-te”.
- Desculpe, pode repetir? Acho que não ouvi bem o que disse na primeira frase.
O homem fixou os seus olhos no meu rosto uma vez mais, sorriu e explicou que tinha um encontro com a minha chefe.
Naquele momento pude observar a figura dele. Era alto, magro, mas bem constituído. Tinha o sorriso grande, com os dentes brancos e bonitos. O cabelo dele era preto, encaracolado e mais comprido do que o corte da maioria dos homens.
- Sim, claro. Por aqui - levantei-me da cadeira e guiei o homem para a sala adequada. - Faz favor de se sentar, a senhora Carolina vem já.
- Muito obrigado - disse o homem e mandou-me um sorriso perfeito, quase como um dos atores que vemos nos filmes. “Meu deus, vai pensar que sou uma perfeita idiota”, essa foi a única frase que apareceu na minha mente. Tentei sorrir-lhe e sai do gabinete. No caminho de volta para o meu escritório fui chamada pela senhora Carolina.
- Teresa, um dos nossos clientes quer que alguém vá recolher os documentos para traduzir. Sei que tens uma tradução para fazer, mas eu tenho o encontro agora e preciso de que a Mónica esteja aqui. Vai lá tu.
- Com licença - voltei para o escritório, escrevi o endereço do cliente e sai do trabalho. Quando regressei, a Mónica estava trabalhando tranquilamente e vi outras pessoas à espera para a entrevista.
- Quem foi aquele homem que teve o encontro às 14 com a senhora Carolina? - perguntei à minha colega.
- Este borracho de caracóis? Era da companhia de seguros.
- E não sabes o seu nome?
- Não. Porquê? Gostaste dele?
- Fiquei curiosa, é tudo - menti e voltei para a tradução. Concentrei-me, com esforço claro, nos documentos de divórcio e esqueci-me do misterioso homem por umas horas. Porém, ele colou-se na minha mente durante o resto da tarde e ainda permaneceu lá durante a noite. Esta foi a primeira vez que sonhei com o homem dos olhos verdes. Toda aquela tristeza acumulou-se com a dor, por isso, quando acordei na manhã seguinte não estava nem relaxada nem tranquila. A partir deste dia não pude encontrar a paz interior.
30 de agosto de 2013
Os sonhos continuam. São sempre os mesmos. Ao início estou a ver que aquele homem observa o horizonte. As imagens mudam. Às vezes está nas montanhas, outras nas falésias. Ele olha as ondas quando se balançam ligeiramente perturbando a superfície da água. Ouço uma melodia tranquila e doce. Vem do violino. O homem parece relaxado, sei que a música chega a ele também. Começo a ir na sua direção. Um passo, dois passos, três... Ainda não me está a ouvir. Com cada segundo sinto esta sensação magnética entre nós. Sinto as centelhas no meu corpo. Apenas uns passos mais e vou estar ao seu lado. Ele começa a virar a sua cabeça. Lentamente. Já posso ver o seu sorriso. Não o sorriso falso, estudado. Não. O sorriso honesto. Cheio de alegria e de afeto. Já estou perto dele. Um caracol rebelde cai na sua cesta. Os nossos olhos encontram-se. O verde da sua íris penetra o mel dos meus olhos. E ainda chega lá, mais dentro. Quase explora a minha alma. De repente o sorriso desaparece do seu rosto. A expressão dos seus olhos muda. Não consigo ver nem a alegria, nem o amor. Há apenas dor e tristeza. Sinto com cada nervo que ele sofre. Vejo este sofrimento e começo a sentir o mesmo. A música do fundo muda também. Nunca mais será tão doce como antes. Está cheia de tristeza, como se o violinista quisesse expressar o seu lamento por nossa razão. Aparecem as lágrimas nos meus olhos. Começam a correr lentamente nas minhas bochechas. Ele quer dizer alguma coisa, mas não pode. Tenta, mas as palavras não saem. Vira a sua cabeça e neste momento acordo. O mesmo sonho aparece cada noite. Termina sempre assim.



18 de setembro de 2013
O dia no trabalho foi muito cansativo. Depois das férias temos ainda mais coisas para traduzir. Por isso, quando finalmente me sentei no comboio pude continuar a ler um livro. Já estava lá, dentro da história trágica dos protagonistas quando ouviu uma pergunta.
- Sim, o assento está livre - disse, sem deixar a leitura. Um homem sentou-se junto a mim. A história era tão interessante que nem pensei em deixar de ler. Porém, outra pergunta chegou até ao meu ouvido:
- Desculpe, posso lhe perguntar uma coisa? - sem esperar pela minha resposta ele continuou. - Tem...tens... isto é um e-book reader?
Lentamente levantei os meus olhos e neste momento o meu coração acelerou. Era ele! Aqui, no comboio! Ao pé de mim!
- Sim, é um e-book reader - tentei dizê-lo com um tom tranquilo, mas o meu coração batia com muita força, como se ouvisse os sinos a tocar.
- Quero comprar um, por isso perguntei. Mas... acho que já nós conhecemos. Não trabalhas lá na agência de tradução?
- Sim, trabalho. Tiveste o encontro com a diretora, certo?
- Certo. Sou o Tomasz - estendeu a sua mão na minha direção. Quando a toquei, senti uma corrente de eletricidade dentro de mim.
- Sou a Teresa - disse, um pouco timidamente.
- A Teresa? Não é um nome muito comum para uma mulher tão jovem como tu.
- Pois não. Os meus pais adoravam uma canção com este nome.
- Uma canção polaca? Não me lembro de nenhuma com o nome de Teresa - assegurou o homem dos olhos verdes.
- Sim, é verdade. Não é uma canção polaca, mas portuguesa - expliquei.
- Portuguesa? - perguntou muito surpreendido, mas ao mesmo tempo interessado.
- Sim, portuguesa. Sou metade polaca, metade portuguesa. O meu pai veio da terra do vinho doce, futebol e Camões - disse isto com um pequeno sorriso.
- Que interessante! - suspirou o Tomasz e neste momento o meu coração deu um salto de alegria. “acalma-te”, pensei.
- O facto que lês esse livro – apontou para o meu e-book reader - confirma que és bilingue, certo?
- Certo - sorri. Ele fez o mesmo. Neste momento vi que estávamos perto da estação onde costumava sair. Foi o único momento para fazer alguma coisa, porque como dizem, a cavalo dado não se olha o dente. O meu cavalo foi este instante. “Quem não arrisca não petisca”, apareceram as palavras de um provérbio na minha mente. No mesmo segundo a voz da minha intuição quase gritou „Não! Não!”, mas ignorei os avisos.
- É a minha paragem e tenho de sair agora - disse. Vi que no rosto do Tomasz apareceu a sombra da tristeza, tão bem conhecida que senti os arrepios. Quando ele me deixou passar, estendi a mão.
- Muito prazer em conhecer-te, Tomasz - disse.
- Igualmente -  respondeu com um pequeno sorriso. 
- Olha, aqui tens o meu número de telefone. Se quiseres, podes escrever ou ligar-me. Até logo! - disse e sai. Com o canto de olho vi que ficou surpreendido, mas ... feliz. Isso mesmo! Feliz! Senti um segundo salto no coração e dirigi-me para casa.

Anna Krupa
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Novo número: Água Vai nº 5


Nesta edição:
- “É hoje...” - Conto de Ewa Szafrańska (Licenciada em Estudos Portugueses)
- As mulheres no mundo dos videojogos - Magdalena Jόźwik (2º ano de mestrado em Estudos Portugueses)
- Não compreendo! - Małgorzata Tracz  (3º ano de Filologia Ibérica)
- Os livros de Ryszard Kapuściński - Weronika Ślęzak (3º ano de Filologia Ibérica)
- Atividades do Centro de Língua Portuguesa/Camões no ano letivo 2013/2014
 3º Congresso dos Estudantes Lusitanistas da Polónia: Unidade e Diversidade no Mundo Lusófono
- Anna Tylec e Katarzyna Janowska (UMCS, Lublin) - Património mundial de origem portuguesa
- Bartosz Suchecki (UMCS, Lublin) - Em busca do amor perdido- Uma perspectiva subjectiva sobre a brasilidade
- Grzegorz Kobędza  (UJ, Cracóvia) - Influências da língua francesa no português e no polaco
- Magdalena Góralska  (UW, Wroclaw) - Avaliação ambivalente do rei Dom Sebastião: Um herói nacional ou um rei louco?
- Michał Belina (UW, Wroclaw) - Sobre a essência e a origem do idioma mirandês

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A viagem da minha vida

Há dois anos a minha amiga Natalia encorajou-me a fazer uma viagem intercontinental. Ela queria visitar 13 países em 30 dias, num carro antigo, com um grupo de cinco pessoas. Aquela ideia parecia-me louca e irreal. Tinha medo de que fracassemos- o carro não era o melhor, não tínhamos muito dinheiro nem experiencia em viajar e não sabíamos nada da região aonde queríamos ir. O nosso destino foi a Turquia mas pensávamos que não chegaríamos lá nunca. Decidimos fazer as mochilas para voltar a casa quando o carro avariasse. Comprámos aquele carro que tinha mais de 20 anos duas semanas antes da viagem e não pagámos mais de 250 euros. A velocidade máxima que normalmente podia alcançar era 90 km/h, mas temos que lembrar que aquela máquina estava cheia com as nossas bagagens e cinco pessoas.
Partimos cheios de medo e com uma visão pessimista mas quisemos viver uma aventura inesquecível e por isso decidimos arriscar. Primeiro fomos à Ucrânia para visitar  Lviv e Odessa onde nos encontrámos com o meu amigo Cristian que nos mostrou os melhores lugares de Odessa. Esta cidade é maravilhosa porque está situada nas margens do Mar Negro, é muito antiga e há muitos lugares para divertir-se. O tempo que passámos com o Cristian foi muito interessante porque ele sabia muito da história da cidade e nos contava nos lugares mais significantes.
Da Ucrânia fomos à Moldávia- o pais do vinho e dos girassóis. A Moldávia é muito pobre mas a gente é muito alegre e prestimosa. O preço do vinho era entre 1 ou 2 euros e dos cigarros era se calhar o mais barato de toda a Europa. O que mais se destaca na Moldávia é a sua cozinha- cheia de carne de carneiro muito saborosa e que também era muito barata. Infelizmente este país não tem nada de arquitetura interessante ou lugares turísticos mas com certeza posso recomendá-lo para todos que queiram passar uma semana sossegada, longe da civilização.

Da Moldávia fomos para a Roménia onde visitámos Constança. Sem dúvida vale a pena visitar Constança para ver a diversidade religiosa e observar como as pessoas desta cidade vivem em paz apesar de todas as diferenças muito significante entre elas. Lembro-me duma rua onde havia uma igreja católica entre uma mesquita e uma igreja ortodoxa. As pessoas que saíam daqueles templos depois do tempo de oração iam todos juntos tomar um café. Na Roménia também visitamos Bucareste- a capital do país. Não é uma cidade muito turística mas quisemos ver o edifício do Parlamento Romeno que está no segundo lugar na lista dos maiores edifícios do mundo.
Da Roménia fomos para a Bulgária mas cá tivemos uma situação muito desagradável. Quando cambiávamos dinheiro fomos enganados em 100 euros. Por isso decidimos mudar o nosso plano e deixámos de visitar os lugares mais interessantes da Bulgária e fomos diretamente para a Turquia.

Depois de 15 dias de viagem chegámos a Istambul- a antiga capital do Império Bizantino. Lá atravessámos o estreito do Bósforo e fizemos uma foto do nosso carro na Ásia . A população de Istambul é de 15 milhões e a cidade é cheia de atrações turísticas. Por isso decidimos passar ai quatro dias. Visitámos mais ou menos 15 mesquitas, fizemos compras no Grande Bazar, e provámos o verdadeiro kebab turco. As pessoas na Turquia são fantásticas.

Tivemos sorte de encontrar só gente que queria partilhar connosco tudo. Uma vez um homem que estava na rua quando ouviu que éramos da Polónia convidou-nos para a sua casa e cozinhou pratos típicos da Turquia. Tivemos muito saudades quando tínhamos que partir para a Grécia. Contudo, com certeza realizamos o nosso plano principal- atravessar a fronteira da Europa. Este sentimento, este orgulho é quase  impossível de imaginar. Realizamos um dos nossos sonhos e isto é uma das coisas mais importantes na minha vida. Decidi arriscar, decidi fazer algo perigoso e finalmente consegui. Mas quando saíamos da Turquia ainda não sabíamos nada da Grécia. 



Aquela estadia na Grécia foi sem dúvida inesquecível. As paisagens, a cozinha o vinho, e as suas mulheres- isto é a composição dum país ideal- isto é a composição da Grécia. Se alguém morre e nunca esteve na Grécia a sua vida não teve nenhum sentido. Não quero agora descrever tudo o que passámos lá porque podem-se escrever livros grandes sobre este país.
Lembro-me duma situação. Era noite, o céu estava cheio de estrelas e nós deitado no feno com algumas garrafas de vinho grego e assim adormecemos. Isto foi a noite mais bonita da minha vida.

A viagem até à Grécia foi muito extensa. Por isso decidimos deixar de visitar os museus, deixar de conhecer a cultura de dentro e decidimos fazer a última semana de descanso. Então não posso dizer muito sobre a Albânia, Montenegro ou sobre a Croácia. Passámos todo o nosso tempo nestes países na praia, falando das nossas experiências durante a aventura. Voltamos à Polónia completamente esgotados mas muito felizes.
Quando comecei a contar a minha história em casa dos meus pais a minha mãe adormeceu porque não conseguiu ouvir-me mais de cinco horas.

Joachim Czalej

3º ano de Estudos Ibéricos

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A vida na Polónia nos tempos da PRL e os seus paradoxos

De vez em quando é bom relembrar os tempos dos nossos pais e avós olhando para as fotografias. Na casa dos meus pais há muitos álbuns com fotos da sua infância e juventude. Especialmente uma chamou a minha atenção. A fotografia dos meus pais quando eram estudantes tirada num clube onde o meu pai desempenhava a função de disco-jóquei. Isto não é uma fotografia de pose como podemos ver em cada rede social. Foi tirada espontaneamente, e por isso é tão extraordinária. Apresenta os meus pais sentados num alto-falante enorme e naturalmente vestem a roupa da época. O que é mais notável é a gravata borboleta pontilhada. Um dia encontrei-a numa gaveta. O meu pai guardou-a até agora como uma lembrança da juventude.
Quando penso nos tempos da PRL (República Popular da Polónia) vejo as fotografias em cor de sépia, as filas enormes de gente procurando os produtos de primeira necessidade, nas lojas as prateleiras quase vazias, os colares de papel higiénico e os trabalhadores pintando a passagem de pedestres dum modelo de cartão. Para ver tudo isto agora basta visitar o museu de PRL em Gdansk. Porém, para entender aquela realidade é preciso perguntar às pessoas que a viveram.
Começando pela moda desta época que foi ainda mais extravagante do que agora. Lembro-me duma história que o meu pai me contou. Quando os jeans começaram a estar na moda, só se podia comprá-los nas lojas PEVEX, mas eram muito caros. Custavam 17 dólares. Em comparação, o salário-base era de 3 dólares. Então teve de poupar durante muito tempo para comprá-los. Além disso, a história não termina assim. O que estava mais na moda eram os jeans que parecessem velhos, por isso, era necessário gastá-los com um tijolo, fazendo uns buracos. Dizem que eram quase indestrutíveis. Também estavam na moda as calças chamadas “boca de sino”. Eram muito apertadas em cima e tinham até 40 centímetros de largura nos em baixo. O comum eram as meias brancas que acompanhavam cada sapato preto. Quanto aos sapatos para as mulheres, eram vendidos junto com a mala da mesma cor. O mais divertido era o corte de cabelo estranho, chamado ‘ao macaco’ que constituía numa franja exuberante.
Agora passemos para uma loja típica da PRL. Hoje em dia não podemos imaginar aquelas bichas enormes e as cadernetas de racionamento que permitiam comprar para um mês: uma barra de manteiga, uma barra de sabão ou uma tablete de chocolate trocável por uma garrafa de álcool. Era óbvio esperar durante todo o dia e não conseguir arranjar nada. Nas lojas penduravam os cartazes com letras como: "Os produtos já tocados são considerados vendidos" ou "A loja está fechada porque não está aberta". Os produtos como a carne ou enchidos embalados em papel de jornal, mas era comum que às vezes nas prateleiras havia só vinagre e mostarda. Agora parece incrível mas isto era a realidade da PRL.
No que diz respeito às relações sociais e comportamento das pessoas era natural a corrupção. Não se podia tratar de coisa nenhuma numa repartição sem oferecer algum presente, por exemplo: um chocolate, alguma bebida alcoólica ou um ramo de flores. Também era típico preparar algum bolo e trazê-lo para o trabalho no dia do imieniny (1). Este costume existe ainda hoje mas tem origem na PRL. Outro dia festivo celebrado foi o dia das mulheres. Nesse dia os homens presenteavam as mulheres com um cravo vermelho e meias (normalmente não se podia comprar).
Todas essas imagens da vida quotidiana podem-se ver nos filmes desses tempos como “Detesto a segunda-feira” ou “Miś” que apresentam a realidade um pouco embelezada mas ao mesmo tempo muito divertida. Achei sempre os anos 70 como uma época coloria e alegre, despreocupada enquanto a realidade era um pouco diferente. A PRL era indubitavelmente uma época de paradoxos onde a coca-cola custava 1 dólar e onde as pessoas não sabiam como gastar o dinheiro porque não havia o que comprar. Além disso a imagem deste período na Polónia é um pouco deformada.
Emilia Wróbel
3º ano de Filologia Ibérica

(1) Seguindo o calendário católico dos santos, quem tenha o nome de um santo festeja no dia desse santo. Por exemplo hoje, 26 de Janeiro, os polacos e polacas que se chamam: Paula, Skarbimir, Leon, Tymoteusz, Tytus, Leona, Wanda, Zeligniew, Ksenofont e Małostryj celebram o dia do seu nome.
 


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O orgulho polaco

Quando procuro no Google polaco a expressão ”o orgulho polaco” quase todos os resultados da pesquisa são relacionados com os hussardos polacos. Além disso vejo também outros símbolos da guerra, a ”âncora” – um símbolo da Polónia em luta, o nosso brasão de armas – águia branca. Às vezes aparece alguma foto dum desportista (Stoch, Kowalczyk, Lewandowski), ou de um dos nossos seis vencedores do Prémio Nobel. Quando pergunto aos meus compatriotas de que se sentem mais orgulhosos como polacos, normalmente a primeira resposta  é: João Paulo II. Apesar de tudo isso (e muito mais) nós, os polacos, somos um povo de muitos complexos. Acho que a razão disso é tantos anos de comunismo que sofremos. Quando depois da Segunda Guerra Mundial a maioria dos países da Europa ocidental se desenvolvia,  Polónia ainda teve de lutar pela liberdade. Uma das consequências disso é o nosso ”atraso” (sobretudo económico). E assim frequentemente sentimo-nos piores do que os ”de Ocidente”, porque ganhamos menos, não temos tantas auto-estradas, o nosso serviço de saúde não funciona bem, somos mais pobres etc. Para além disso, um dos estereótipos sobre os polacos é que bebemos demasiada vodca e que entre nós há muitos ladrões. Alguns de nós foram ofendidos quando no estrangeiro disseram que eram da Polónia. E infelizmente não se defenderam. Por outro lado em algumas questões somos demasiado presumidos. Não é possível ofender mais um polaco do que dizer que é russo, ou que a Polónia faz parte da Rússia. (Mas acho que os portugueses podem sentir o mesmo quando alguém trata Portugal como “algo” perto da Espanha). Apesar de sermos presumidos, a nossa caraterística nacional é o pessimismo e a queixa. Muitos polacos nas conversas dão a impressão de saber tudo, mas além de falar, não fazem nada. Temos até um provérbio “O polaco é sábio depois do prejuízo”. Tudo isso é muito visível tanto nas situações diárias, como nos momentos significativos. Somos capazes de suportar muitíssimo e não reagir (ou ainda discutimos uns com outros), até quando a situação seja terrível, mas quando chega a crise extrema, sabemos cooperar e demonstrar o heroísmo como nenhum outro. A nossa qualidade nacional é certamente também a capacidade de atingir os nossos propósitos, fazer as coisas mesmo sem ter os recursos. Quando um polaco tem algum problema, vai inventar ou criar algo que o resolva. Depois de tantos anos de carências, aprendemos a ser auto-suficientes,  a saber construir algo de nada, fazer o impossível (especialmente as gerações mais velhas do que a minha). Isto faz-me sentir muito orgulhosa. E quando eu durante a minha vida me senti especialmente orgulhosa de ser polaca? Além das coisas evidentes (os sucessos desportivos dos meus compatriotas e tudo relacionado com o nosso Papa), posso destacar duas situações mais significativas. A primeira foi a catástrofe do avião presidencial em Smolensk. Depois do acidente, todos os polacos se uniram. Nesta fraternidade e compaixão todos nós sentimos algo especial, algo indescritível. E muito polaco. E a segunda... no Brasil. Estive lá com os meus amigos para a Jornada Mundial da Juventude e passámos algum tempo na região de Curitiba. Ficámos totalmente surpreendidos ao ver as reações das pessoas  ao saberem que éramos da Polónia. Todos queriam tirar uma foto connosco. Um homem falou comigo em polaco depois de 40 anos sem usar essa língua. Numa casa de repouso recebemos uma revista muito antiga (encontrámos nela as informações sobre uma invenção nova, que parece ser perigosa e está nomeada laser), que uma polaca guardou até à sua morte. Até os guardas nos arranjaram uma excursão numa reserva, onde normalmente não se pode entrar. E depois em Copacabana quando o Papa anunciou que as Jornadas de 2016 serão em Cracóvia, todos os símbolos da Polónia se tornaram inestimáveis. E nós, os polacos, também. Em tais momentos não há nada melhor  que ser polaca.
Debora Mirosław
3º ano de Filologia Ibérica

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O jogo do pau

A maioria das pessoas quando pensa numa arma, com que se pode defender, pensa  numa espada, pistola, flecha etc. Claro são efectivas, usando-as temos a certeza que estamos bem protegidos.  Acho que hoje em dia quase cada pessoa acha que defender-se só com as mãos é possível só em filmes com Bruce Lee ou Jackie Chan. Bem, eles têm um pouco de razão. Pessoas que não conhecem artes marciais não têm a possibilidade de defender-se sem gás ou pelo menos uma faca. É interessante que é possível defender-se usando uma arma menos drástica: um simples pau.
            O jogo do pau é praticado em Portugal já há muitos anos. Neste caso a palavra "jogo" não significa uma “brincadeira”, mas “técnica” ou “manejo”. Ao principio foi a maneira de os pastores e camponeses se defenderem.  O pau que se usa neste combate é bastante comprido e graças a isto pode-se lutar com ele afastado, o que era muito prático em combates com os lobos. Em pouco tempo o jogo do pau começou a ser muito popular em festas do campo e romarias porque era muito giro e exigia técnica e força. As demostrações do jogo eram não só uma atracção para quem participava na festa mas também uma maneira de mostrar a sua força e ganhar o respeito da aldeia. Os jovens frequentemente usavam esta técnica para resolver conflitos, conquistar o amor das raparigas etc. As regras desta arte marcial são muito parecidas ao Karate ou Aikido. Devo mencionar aqui que no Aikido também se usa o pau (chamado ali jo) para lutar. O jogo do pau e as artes marciais japonesas não são só parecidas quanto à técnica mas também quanto ao código ético. Quando dois homens começam a luta obedecem sempre a certas regras. Era proibido que os lutadores batessem num homem sem pau, ou a um  homem que já esta por terra. Obter este código era uma questão de honra, nestes tempos muito importante.
            Há muitas histórias sobre o jogo do pau que podemos ler não só em crónicas mas também na literatura. Autores que mais mencionam e descrevem o jogo são: Aquilino Ribeiro e Miguel Torga. Com o tempo o jogo do pau começou a perder importância. Há muitas razões, mas acho que as mais importantes são a ação da Polícia que queria evitar problemas de lutas perigosas entre pessoas, se claro, diminuir o poder dos cidadãos. Outra razão muito importante é a emigração de muitos homens para os cidades ou para o estrangeiro.
Hoje em dia o jogo de pau é um desporto bastante popular praticado pelas pessoas como passatempo. Esta arte marcial é muito popular em Portugal e quase desconhecido na Polónia. Para muitos portugueses o jogo do pau e uma parte da cultura tão importante e interessante como o fado ou  tourada. Há muitas escolas dirigidas por mestres com títulos. Quase cada região desenvolveu um estilo um pouco diferente. Estas várias escolas e clubes estão hoje organizadas numa estrutura representativa, a Federação Portuguesa de Jogo do Pau que foi fundada em 1977 pelo impulso do Mestre Pedro Ferreira.
            Eu gosto imenso de artes marciais, já pratiquei Ju-jitso e Aikido então também pratiquei a luta com pau e gostei imenso disto. Somando as minhas experiências e as informações que recolhi durante a elaboração deste artigo posso dizer que para dominar bem o jogo do pau precisamos de praticar muito. Também devemos ter boa concentração e memória, e claro equilíbrio e coordenação. Quando em Aikido tive aulas com " jo" tive sempre de memorizar sequências de movimentos que tive de repetir muitas vezes.  Isto parecia uma dança muito gira, e por isso quero ver alguma vez o jogo do pau apresentado pelos mestres deste desporto e os alunos deles, para poder admirar esta tradição tão portuguesa.

Anna Pięcińska

sábado, 17 de janeiro de 2015

Atrevo-me a sorrir ou não me atrevo?

Um dia normal como todos, chega o teu autocarro, entras e após ocupares um assento passas a ser um companheiro de umas quantas pessoas ao teu lado. De repente recebes uma mensagem de texto dum/a amigo/a que te escreveu uma coisa tão estúpida e ao mesmo tempo engraçada que já estás a ponto de desatar a rir. “Mas o que faço?”, começas a pensar, “Estou num autocarro cheio de pessoas, rir-me, só sorrir ou deveria deter a riso e aguentar-me continuando com a cara séria e imperturbável?” Uma situação tão absurda que até é difícil escolher uma opção adequada. Mas lembra-te que ela pode marcar a tua vida, até que saias do autocarro;)
Isto quer dizer que estar nos lugares públicos como autocarros, lojas ou centros comerciais  às vezes exige de nós certo comportamento e os dilemas tão complicados acontecem diariamente. A coexistência involuntária nestes lugares provoca que temos que assumir algumas posturas. Mas escolhemos sempre as adequadas? E quais deveriam ser? Se tens dificuldades em responder, tens aqui alguns conselhos preparados por mim. Contudo, cuidado, recorda que não há que levar a sério tudo na vida;)
As dicas úteis em autocarros:
1. Não sorrias para os desconhecidos, nem sequer se te parecessem pessoas simpáticas ou atrativas, até poderias fazer com que alguém também sorrisse e o seu humor melhorasse!
2. Se és uma pessoa mais velha e queres sentar-te mas não há nenhum assento livre, põe-te rapidamente a falar com a outra senhora da tua idade e comentem em voz alta o pouco respeito e a falta de educação que caracterizam os jovens de hoje. Pois criticar em voz alta num lugar público é uma caraterística das pessoas com o nível de educação muito elevado e aquele jovem com certeza agora deixará o assento livre com uma vontade inacreditável.
3. Lembra-te que os assentos nos autocarros são duplos para que as pessoas viagem à vontade com as suas sacolas, malas, casacos etc. Não te esqueças que é preferível colocar estas coisas no assento junto à janela, para que ninguém possa tocá-las ou, Deus nos livre, roubá-las!
4. Se tens problemas com o suor, não deixes que os outros não conheçam o teu problema. Escolhe um dia adequado. 28 graus e um dia de sol serão o tempo ideal. Lembra-te que  a hora também é importante. Às 16 horas, quando há maior tráfego e mais pessoas andam de autocarros, serão as circunstâncias francamente desejadas. Veste uma camiseta sem mangas, ao entrar no autocarro procura o lugar com o maior número de pessoas e agarra a barra ou a pega acima, o que possibilitará a exposição da tua axila. Assim todos saberão o problema que tens. Tens garantidas a compreensão e a compaixão.
5. Quando queres passar para o fundo do autocarro, não incomodes os outros passageiros repetindo “desculpe” sem parar. É suficiente que empurres um pouco e que dês várias cotoveladas aos vizinhos e já saberão que queres passar.
6. Ao ver entrar uma mulher grávida, não lhe proponhas que se sente, seguramente não vai querer, porque vai ter medo de que com o peso que leva vai ser mais difícil para ela levantar-se que estar todo o tempo de pé.
7. Se vês algum ladrão tentando roubar outro passageiro, não detenhas o espetáculo. Assim que a peça termine e o ator principal se retire do palco, não te esqueças de informar a vítima que acabou de ser roubada. Pois assim é mais engraçado e a tragédia converte-se numa comédia! (um exemplo real lido na página “Spotted: MPK Lublin” do Facebook, há uns meses)

Apenas umas mais para os que têm dúvidas quando fazem compras:
1. Quando fazes compras num supermercado ou numa loja de bairro, não digas à vendedora ou à caixa ”bom dia”, “obrigado/a”, “adeus”. Ela já ouviu estas frases tantas vezes esse dia por isso não a chateies mais... Além disso tenta ser mais grosseiro que normalmente, com certeza todos os clientes foram muito simpáticos com ela esse dia, então sê original!
2. Se te desistes de comprar uma coisa, deixa-a num lugar qualquer, em vez de pô-la no seu  lugar,  pois os trabalhadores das lojas e supermercados gostam muito dos jogos de pista. Com certeza faz o mesmo com os produtos que caíram no chão.
3. Em geral, recorda: nunca peças, exige sempre. É o seu trabalho, não é?

            Em resumo, poderia haver mais exemplos, mas acho que com estes já alguma ideia deveria surgir nas vossas cabeças. Se não, não vos vou deixar sem a minha própria opinião que explicará tudo. Em geral ao vir à memória e recordar que com frequência eu mesma fui testemunha das situações parecidas (com exceção do ponto 7.), tanto viajando de autocarro como trabalhando em lojas e tendo o contato constante com os clientes, só me vem à cabeça uma reflexão: onde é que se meteu a empatia das pessoas? Tenho a impressão que a antipatia e o individualismo unido com uma dose de egoísmo começam a cercar e esmagar devagar esse pobre valor. Ou se calhar simplesmente ser amável e prestável passou de moda? Agora frequentemente as pessoas tentem ser muito convencidas, independentes e focadas em si mesmos e assim chegam a esquecer-se que convivemos numa sociedade enorme que depois se divide em grupos mais pequenos, como escola, trabalho, turma, amigos etc, e que não há outra opção que incorporar-nos dalguma maneira. Perdemos a amabilidade e até mesmo quando alguns não a perdem- reagimos de qualquer forma mal. Inclusive, às vezes as mulheres começam a reagir negativamente ao comportamento dos homens que querem mostrar ser “cavalheiros”. Eu pessoalmente não exijo este tipo de conduta da parte dos homens, mas quando me acontece, é para mim algo muito agradável e tento não me esquecer de responder “obrigada”, por exemplo quando um homem me deixa passar primeiro na entrada do autocarro. Há que assinalar que não é algo comum em todos os países. Já ouvi várias vezes que o comportamento dos nossos “cavalheiros” é  normalmente uma das primeiras coisas que surpreendem as espanholas quando vêm à Polónia e que não é algo normal na Espanha. Então não sigamos  o provérbio polaco “valorizam o alheio, não conhecem o seu”, mas apreciemos o que temos e  que alguém (que talvez nem sequer nos conheça) quer ser amável connosco.

Só para concluir, pensemos quantas vezes nos aconteceu ver alguém que ia sozinho pela rua sorrindo de orelha a orelha e pensámos: “Será maluco?”? Eu dantes também pensava da maneira parecida e várias vezes me surpreendi quando vi alguém absorto nos seus pensamentos que sorria olhando cegamente para frente. No entanto afinal supus que era muito estúpido conter-se o sorriso só porque talvez alguém pensasse algo estranho de mim. É melhor alegrar-se de que em geral temos algo de que se alegrar ou que há algo ou alguém cujas lembranças nos provocam este sorriso. E seguindo as palavras de Gabriel García Marquez, que aliás se converteram numa das minhas citações preferidas, “Nunca deixes de sorrir, nem quando estejas triste porque nunca sabes quem pode apaixonar-se pelo teu sorriso”. Assim, sorriam e um pouco mais de amabilidade e empatia, amigos!

Anna Drabik
3º ano de Filologia Ibérica