terça-feira, 31 de março de 2015

Dois dedos de conversa com... Michał, luthier.


Chama-se Michał, tem 30 anos, é de Białystok. Estudou em Lublin mas agora vive e trabalha em Varsóvia. É uma pessoa normal, psicólogo. O que o faz extraordinário é o seu passatempo que está a converter na sua nova profissão. É um luthier, faz instrumentos de corda. Para ser mais concreto – um tipo de instrumento com seis (ou sete) cordas e caixa-de-ressonância, parecido ao violoncelo, mas com trastos. Uma viola da gamba, instrumento barroco com som muito agradável, mas não tão popular como o violoncelo ou contrabaixo – algo a meio caminho entre estes dois.


Michał não tem nenhuma preparação profissional para isso. É um luthier autodidata. A ideia de fazer instrumentos nasceu num festival da música folclórica em Lublin onde viu um homem com instrumentos feitos de madeira, de latas, de peças metálicas... Tinham forma estranha, mas produziam som, mesmo uma melodia gira. Isso mostrou-lhe que se pode fazer uma coisa dessas por si mesmo. Assim começou a pensar em fazer algum instrumento parecido, a verdadeira viola da gamba, só para poder aprender a tocar e praticar. Sempre quis ter uma, mas isso era impossível por causa do preço. Os instrumentos deste tipo são muito caros, o preço chega até alguns milhares de euros.
Não sabia nada de acústica nem como construir instrumentos. No entanto, em dois meses conseguiu fazer um instrumento que apesar da falta de aparência da viola, soava exatamente como ela. Tudo teve lugar na cave da sua casa em Białystok, onde Michał passava todo o seu tempo livre, às vezes saindo só para comer e beber.
Hoje reconhece que o seu objetivo foi fazer algo que tivesse som, não esperava mais. E já tendo um protótipo podia praticar. Graças a ter um ouvido muito bom (ou seja, absoluto) não tinha problemas com isso. Aprendeu a tocar e continuou praticando com a viola feita por ele durante seis anos. O instrumento tinha um aspeto um pouco estranho, em vez de colar as peças, Michał juntava-as com parafusos o que deu ao instrumento o ar de estilo steampunk. Não foi envernizado mas depois de alguns anos foi pintado tal como uma das guitarras de Eric Clapton.
Durante esse tempo na cabeça de Michał crescia uma nova ideia, fazer outro instrumento, mas já de maneira como deveria ser feito. De maneira, digamos, profissional. Pesquisou informações na internet, recolheu dados, viu as fotografias. Não podia perguntar a alguém diretamente como se faz certas coisas, porque na Polónia não havia nenhuma pessoa que fizessem isso. Durante essa época de pesquisa esteve em alguns concertos de música histórica onde podia tocar e ver de perto as verdadeiras violas da gamba. Recolhendo toda essa experiência, decidiu finalmente começar os trabalhos. Foi em 2012 que transformou um dos quartos da sua casa numa oficina de luthier e comprou as primeiras peças de madeira.
Rapidamente chegou à conclusão que vai precisar das ferramentas que nunca tinha visto e das quais sabe pouco. Mas isto não impediu o trabalho. Se não podia comprar alguma coisa (que fazia normalmente nas lojas estrangeiras pela internet), construía. Isto ocupava mais tempo mas Michał não tinha pressa. Passava cada momento livre na sua oficina de luthier, às vezes fazendo intervalos muito longos no trabalho, porque esperava a encomenda de outro país com certo tipo de madeira comprada pela internet.
Já no princípio deste projeto decidiu que vai documentar cada movimento seu com fotos. Criou um site onde cada dia punha as fotos. Assim os amigos dele podiam ver como vai o trabalho e não só os amigos. Tem muitos seguidores que o felicitam cada vez que acaba alguma parte dos seu instrumento.

Se a primeira viola da gamba que fez ocupou-lhe dois meses, a segunda precisava de mais tempo. Também dois, não meses mas anos. Tudo isso por necessidade de encontrar por ele mesmo soluções técnicas que não conhecia antes. Celebrou o dia em que acabou completamente o instrumento com uma garrafa de espumante. A viola da gamba que fez era um instrumento verdadeiro, com todos os detalhes necessários, como se saísse de oficina de um luthier profissional. Tem sete cordas, o que amplia a escala do som. Soa alto e profundo.
Já tendo a oficina de luthier completamente equipada decidiu continuar com a produção de violas da gamba. A recém terminada é sua, mas outra que já começou a fazer vai querer vender. E provavelmente ganhará muito com ela. Assim quer também mudar completamente a sua ocupação que é o trabalho de psicólogo. O seu sonho é fazer instrumentos e que isso seja o seu trabalho verdadeiro, não só o passatempo.
Diz que a viola que está a fazer agora, a segunda da sua oficina de luthier, já não deveria ocupar-lhe tanto tempo porque já tem todas as ferramentas que precisa e também um pouco de experiência que ganhou fazendo os dois primeiros instrumentos. Vai continuar também documentando com fotos os seus trabalhos. De fato, já está a fazê-lo. Tudo se pode ver no site goldenviol.tumblr.com.

O que é mais difícil na construção do instrumento?
Michał: Os mais difíceis são todos esses momentos quando tenho de ser muito preciso. Em cada parte de trabalho há esses momentos. O pior é fazer um erro na fase de preparação do desenho técnico e dar conta na fase da construção. Pois, é muito fácil enfurecer-se neste momento. Depois pode-se mudar da conceção, fazer esta parte outra vez desde zero ou aceitar que esta parte do instrumento vai ser imperfeita.  O difícil é também recolher os dados sobre o tamanho e tipo de madeira do instrumento que quero fazer. Tenho de procurar muito na internet.

Estás contente com os instrumentos que fizeste até agora?
Michał: Sim e não. Sim, porque a primeira viola teve dois objetivos: poder tocar e que soasse mais ou menos como viola da gamba. E estes objetivos foram alcançados. Não, porque não era o instrumento verdadeiro, feito segundo certas regras. Estou contente com a  segunda viola que fiz porque soa melhor, tem som mais alto, é mais leve e mais cómoda para tocar. Realizei o objetivo de fazer o instrumento verdadeiro. Não estou contente porque tem alguns erros e más soluções técnicas. Além disso, ainda não tem o som que procuro. O primeiro passo foi feito mas ainda tenho muito por fazer. O descontentamento é um bom sentido porque dá a força para continuar com este trabalho.

O que dá mais satisfação em ser luthier?
Michał: Não sei quando é esse momento em já és um luthier. É mais o processo de converter-se nele que o ser. É uma boa oportunidade de expressar a minha criatividade. Posso sentir-me como um criador porque crio o novo objeto. É uma ocupação muito fascinante. Além disso, crio uma coisa que posso vender por muito dinheiro.

O que dirias às pessoas que se queixam do seu trabalho mas não fazem nada para mudá-lo?
Michał: Se não gostas do que fazes, não gostas do sítio onde estás, muda algo. Não és uma árvore, não tens raízes. O facto que não tens preparação para fazer algo não significa que não podes fazê-lo. Tenta antes de dizer que não sabes fazer algo.

Estera Małek
2º de Mestrado em Estudos Portugueses

sábado, 28 de março de 2015

O conto da Mosca Muda sobre o Mordedor


- A Mosca Muda vai contar a sua história – decidiu a Aranha de Duas Cabeças e o resto dos bichos assentiram cheios de alegria. Poder sentir as feromonas da Mosca Muda, que, desde que entrou no grupo com a sua companheira Aranha, não disse nenhuma palavra, era uma tentação muito grande. O inseto moveu o seu probóscide num gesto de consentimento e soltou as primeiras palavras.
Era uma história dos tempos passados, quando ainda os monstros caminhavam pela terra e não havia Grandes Ninhos. Entre os seres racionais reinava a lei mais antiga de todas as leis antigas, presente ainda antes da velha Lei do Poder. A esquecida Lei da Morte.
- Uma família da minha espécie, eu não provenho dela, mas conheço outras moscas que sim, viajava pelo céu, como nós temos a costume e não seria nada de especial se não chegasse, seguramente por casualidade, até o fim do mundo. Não era o fim do mundo verdadeiro, afastado, vazio e sem nenhuma coisa para comer. Era um extremo mais próximo. Não tinha areia em baixo e vento em cima, todas as paredes eram frias, escorregadias e brilhantes. Era um sítio, onde o tempo não existia, estava sempre calor e luzia uma fila de compridos sóis azuis.
Mas o mais importante era que havia ali imensas quantidades de comida, carne da melhor qualidade. Não como a nossa, dos bichos, era carne dos monstros, vermelha, saborosa e seca. Montanhas, montanhas de carne dos monstros. As moscas decidiram que era um lugar perfeito para viver, assim puseram os ovos e começaram a comer.
A má verdade sobre este extremo do mundo conheceram depois, quando apareceu o Mordedor. O monstro era invisível para a sua vista e olfato, não produzia nenhum som e não tinha sombra. Contavam, que tinha tanta força que podia transformar uma mosca grande e gorda numa mancha de sangue e era o que fazia. Trazia a morte a qualquer uma que pousava só por um momentinho para descansar as suas asas. Não caçava para saciar a sua fome. Havia comida suficiente para todos, também para o monstro. Além disso deixava os cadáveres no sitio onde caiam. Rapidamente e com muito sangue espalhava-se a não-vida entre a jovem colónia das moscas.
Algumas delas conseguiram sobreviver à ira da besta e puseram-lhe um nome, o Mordedor, porque uma só dentada sobrava para cair morto. As que escaparam, contavam histórias incríveis. Segundo elas, o monstro mostrava o seu rosto um momento antes do ataque, e era da cor mais bela (amarela), e assobiava como uma carraça esfomeada, só que mais alto e forte, fazendo anunciar a sua chegada. No começo poucos acreditavam nas suas palavras. As outras moscas diziam que estavam loucas ou doentes, mas as histórias começaram a circular e repetir-se com tanta frequência que a história sobre o monstro Mordedor de um conto passou a ser uma Verdade; e vivia, como a Verdade, com a sua própria vida.
Um grupo procurava nele a figura da Primeira Serpente, que devorava o seu rabo. A Serpente que é o começo do mundo e o seu final ao mesmo tempo, a que cria e destrói tudo. Outras achavam, que por casualidade entraram no ninho do Demiurgo e a epidemia de não-vida era um castigo por comer a carne com que criava novos monstros semelhantes a ele. Mais perto da solução do enigma estava outra Verdade que descrevia o Mordedor como um predador, com desejo de caçar, como a aranha, mas que apreciava a astúcia das suas vítimas. Por isso, embora fosse invisível, mostrava o seu rosto e deixava fugir os que podiam fazê-lo.
Finalmente, a natureza do Mordedor deixou de ser tão importante. As moscas acostumaram-se a estar atentas o tempo todo e o seu número lentamente aumentava. Então começaram a ser mais insolentes e deixaram de temer o monstro. Algumas até apostavam qual delas fugia dos seus dentes durante mais tempo. Foi isto o que enfureceu a besta.
Isto aconteceu numa época, não se sabe se durante o dia ou a noite, porque naquelas terras não havia muita diferença entre elas. O monstro voltou a atacar. Era mais rápido, mais aferrado e matava cada mosca que podia alcançar com o seu olho da cor mais bela que  via tudo. O voo não ajudava na fuga porque a besta pulverizava um ácido que cheirava muito bem, doce e suculento, mas se colava às asas e forçava as moscas a aterrar. Num abrir e fechar de olhos as moscas jaziam uma ao lado de outra, mortas ou quase mortas, e só neste conto as corajosas Viajantes, que encontraram o Mordedor,  são mencionadas.

***

O M. era um novo empregado num talho. Gostava de facas e carne, por isso era um trabalho perfeito para ele. O único defeito eram as moscas omnipresentes, que todos para além dele pareciam ignorar. Apanhou um mata-moscas e um aromatizador de pêssego e depois de acabar com os bichos saiu para fumar um cigarro. Não sabia que a lembrança sobre ele ia durar muito mais do que ele mesmo e de uma forma que  não podia imaginar. 
(Inspirado na canção "Mosca na Sopa" de Raul Seixas)
Natalia Sławińska
1º ano de Mestrado em Espanhol


quinta-feira, 26 de março de 2015

O vegetarianismo aos olhos dos carnívoros


Há quase quatro anos que sou vegetariana e estou muito orgulhosa da minha decisão. Isso significa que não como os animais (sim, os peixes também pertencem a este grupo), não compro os produtos de couro, por exemplo os sapatos, e não compro os cosméticos testados em animais. Para tomar essa decisão tive de pensar muito nas vantagens e desvantagens da dieta vegetal, li muitos livros sobre esta temática e falei com os vegetarianos que conhecia. Quando fiz  18 anos decidi oferecer a mim mesma a melhor prenda de todas e tornei-me vegetariana. O meu primeiro motivo para fazer isso foi a grande sensibilidade, o amor aos animais e a vontade de viver em harmonia comigo mesma e com o mundo inteiro.
Inicialmente a minha família não ficou muito surpreendida porque pensavam que era só uma das minhas ideias loucas que ia fracassar. Pensavam que em algum momento eu ia aborrecer-me  da ideia de melhorar o mundo e que ia voltar à mesa posta de filete de carne com batatas, mas isso nunca aconteceu. Passavam dias, semanas e meses e eu ficava cada vez mais convencida das minhas razões. Os meus pais começaram a preocupar-se comigo e eu sentia-me melhor do que nunca. Enquanto os meus amigos pensaram que era excêntrica e até perguntaram se podiam fazer algo por mim para ajudar-me a lutar com minha „enfermidade”.
Rapidamente passaram quatro anos desde o dia em que a minha vida mudou radicalmente. Durante todos esses anos observei com atenção os comportamentos da minha família e dos meus amigos quanto ao vegetarianismo. Hoje sou mais rica com esta experiência e posso compartilhar com os outros as minhas observações e conclusões. Vou apresentar então certas opiniões dos meus amigos carnívoros.
O que é o vegetarianismo segundo as pessoas “normais” (quer dizer que comem carne)?
O vegetarianismo é uma dieta que consiste em comer exclusivamente erva, cenoura e rebentos de plantas. Teve início na antiga Índia cujos cidadãos costumavam comer tudo o que se movia ou não se movia por estar morto. Mas depressa se deram conta de que tudo o que era saboroso e agradável ao paladar tinha sido comido e nos campos só ficaram as ervas  que depois se tornaram a base do vegetarianismo.
O líder dos vegetarianos e ao mesmo tempo o seu deus é o Senhor Deus Soja, e como é característico para Deus, pode aparecer sob várias formas, como por exemplo algo que parece  carne do animais, o leite ou qualquer outro produto alimentício. Um homem simples (quer dizer o carnívoro) teria graves problemas de digestão depois de comer qualquer das formas do Soja e seria obrigado a passar muitas horas fechado entre as quatro paredes do quarto de banho.
O indivíduo vegetariano, evidencia uma série dos transtornos mentais, está sob o poder do Diabo e quer mudar  mundo a qualquer preço. Caracteriza-se por ser fraco e pálido. É considerado um dos maiores inimigos dos ecologistas por comer o que eles defendem.

Espero ter elucidado um pouco o tema do vegetarianismo e as maneiras de percebe-lo pelos meus amigos-carnívoros. Queria também encorajar todos para pelo menos tentarem experimentar a dieta baseada nos alimentos de origem vegetal.
Aqui apresento também algumas frases que cada vegetariano tem de ouvir pelo menos uma vez na sua vida:
-Não comes carne, mas as plantas também sentem dor e têm sentimentos!
-Se não comeres carne, ficarás doente.
-Não se comem os animais vivos mas mortos e os mortos não sofrem.
-Os cristãos não podem ser vegetarianos, só os ateus podem.
-Jesus também comia carne.
-O homem é criado para comer carne e para matar os animais!
-De onde consegues proteína?
-E comes peixes?
-Como é que te vais casar? (A pergunta feita pelas avós)
-O que é que comes na verdade?
-Não tens medo de morrer?
-Porque te preocupas mais com os animais do que com os homens?
-Sabes, diz-se que o Hitler também era vegetariano...

Aleksandra Rogala
3º ano de Filologia Ibérica

terça-feira, 24 de março de 2015

Ecce árvore!


Eram 9 da manhã. Nenhum raio de sol, nenhum sorriso nas caras dos pedestres na rua. Naquele dia, Lublin era mesmo muito feia. Não estavam mais que 4 graus acima de zero, nem havia esperanças que a Primavera cedo chegasse. Mas o que mais importava, era a chuva constante que não parava! Estava a chover para caraças! Já disse como detesto a chuva? Aquele líquido repugnante que descaradamente costuma cair no chão, sem qualquer permissão, e que não nos permite pensar logicamente? Pronto. Além disso não trazia comigo nenhum guarda-chuva. Nunca trago, mas a razão é muito óbvia. Simplesmente não posso descer ao nível da chuva, tentando lutar com ela como se eu fosse um Don Quixote que achava que poderia ganhar contra os moinhos de vento. Que tola que era... Mas pronto. Ainda faltavam muitos metros ou até quilómetros para atravessar estas flutuantes e mega sujas ruas de Lublin, por isso precisava, mas precisava mesmo de um plano que me ajudasse a sobreviver neste momento traumático. 
Decidi  então pensar, ou seja, fingir que realmente não sentia que o meu sapato esquerdo estava completamente encharcado. Que porreiro! - pensei ironicamente, mas pelo menos pensei! Então o meu plano começou a funcionar. Só faltava mudar o curso do meu pensamento, encontrar um pretexto! Sim! Mas mais três passos e o sapato direito compartilhou o destino desprezível do primeiro. Já navegavam alegremente juntos, como se estivessem nas profundezas do oceano. O meu cabelo também estava totalmente molhado. Por um segundo até pensei que com este ar, poderia atuar na cena mais dramática do naufrágio do Titanic. Só me faltava uma porta velha e um Jack congelado, a quem poderia deixar no centro de uma poça de água. Mas pronto, já tinha chumbado nos exames de admissão para a escola de teatro, então era melhor deixar este assunto e não me meter mais no papel de actriz. Decidi, portanto, começar a cantar! Isto não quer dizer que canto como Whitney Houston ou Celine Dion, a verdade é que acho que nem chego até às habilidades vocais da Britney Spears (penso que tenho mais ou menos o nível vocal do vocalista da banda polaca Weekend), mas naquele momento isso não importava. Outra quantidade de água, que de repente caiu a partir de um telhado, impulsionou esta maravilhosa ideia de cantar. Fooo... força menina! - gritou alguém na minha cabeça! Uma voz muito optimista, mas provavelmente de alguém que já tinha bebido pelo menos três cafés e estava deitado na cama quentinha, com um livro de Dostoyevski... A minha mãe sempre me disse: quem não arrisca não petisca! Assim comecei pela música do meu repertório quotidiano, tipo Yesterday dos The Beatles ou Kolorowe Jarmarki, mas não conhecia mais que cinco versos de cada uma. Além disso, o sentimento terrível da água constante não me deixava. 
Resolvi então, concentrar-me mais e assim alienar-me dos meus problemas. Lembrei-me da melhor época da minha vida, ou seja, da minha infância, quando costumava criar as minhas próprias canções com as letras maravilhosas que agora seguramente figuravam no top da música pop. Nem 10 anos tinha, quando produzi as minhas primeiras canções com os meus próprios direitos de autor. Eram em inglês, mas ninguém me importava com o facto de que só quando tinha 12, é que comecei a estudar este idioma. Ah, que memórias... Mas pronto, de volta ao tópico, como já posso dizer que o meu português não é nada mau, decidi criar uma música com aroma lusitano. Mas as primeiras palavras que surgiram na minha cabeça foram: Já está tudo preparaaado, e logo algo do tipo: Piri, pipire, pire piradinha, Ela tá maluca ela tá doidinha! Não vejo nenhum mal na música brasileira mas só quando estou no mode Erasmus. O sol algarvio, as brasileiras em biquíni (os brasileiros também) e a caipirinha na mão. Infelizmente estas memórias não se encaixavam de todo na paisagem de Lublin no inverno. Por isso decidi procurar mais algumas músicas, digamos, europeias e finalmente optei pela minha fadista favorita, quer dizer, Mariza. Mas que tristeza! Quando comecei a cantar os primeiros versos da sua música, dei-me conta de que o título dela era Chuva! Imediatamente apercebi-me que não havia outra chance senão regressar aos tempos de infância e começar a criar algo por mim própria, algo totalmente novo, fresco e criativo! Gostei tanto desta ideia que até decidi fechar os olhos. Pois, diziam-me sempre que isso ajuda na criatividade, e eu precisava, desesperadamente, de uma inspiração forte! O único problema era que naquele momento estava no caminho, no movimento constante, rodeada de pessoas e de outros objetos esquisitos. Mas mesmo assim, decidi arriscar, pois quem não arrisca... (amo-te mãe! Beijinhos!). Então, fechei os olhos. O primeiro sentimento foi mesmo agradável, senti-me como se me encontrasse com uma musa da inspiração, parecida com as mulheres pintadas por Boticcelli, loira, gira com o cabelo grande, andando num cavalo branco e correndo na minha direção. Que prazer! Que beleza! Que inspiração! De repente as palavras começaram a surgir na minha mente sem nenhum esforço. Naquele momento senti-me quase como uma poetisa! Agoraaa, la la la, a razão vaaaai obviamente, la la la, reganhar energias! - comecei a cantar com uma paixão indescritível! Até me senti muito inteligente! Mas a impressão seguinte foi apenas a dor enorme provocada por uma pancada na minha testa. No início pensei que foi um cavalo que não conseguiu abrandar e assim bateu-me na cara com um enorme ímpeto, mas quando abri os olhos, reparei  apenas numa árvore enorme. Que diabos é isto? Uma árvore no meio da calçada? Perfeito. Acho que às vezes se exagera um pouco com esta ecovida design, tentando ter mais forças que a própria natureza, e achar que se pode interferir nela, plantando uma árvore no meio da calçada, como se esta árvore pobre e solitária pudesse ser feliz por lá estar. Mas, este não é o momento adequado para me debruçar sobre os direitos humanos de intervir na natureza. Por causa da dor que se espalhava por todo o corpo, fiquei imóvel durante alguns bons minutos. E não sei porquê, mas a cada segundo olhava para esta árvore com um fascínio maior. Ecce homo – disse uma vez Pôncio Pilatos, mas eu mais diria: ecce árvore! Sorri para mim mesma. A chuva terminou. Até o fraco sol de inverno, surgiu por detrás das nuvens. Por uma última vez olhei para a minha árvore e decidi voltar diretamente para casa. Durante todo o caminho cantei a minha música mágica, criando novas melodias, mas sem mudar a letra. 
Quando entrei em casa, peguei numa caneta e escrevi o texto todo: AGORA RAZÃO VAI OBVIAMENTE REGANHAR ENERGIAS, Agora - Razão – Vai - Obviamente – Reganhar – Energias, A (gora) R (azão) V (ai) O (bviamente) R (eganhar) E (energias). Ecce ARVORE! – gritei. A partir daquele momento, realmente comecei a apreciar a chuva. Também decidi que se a minha carreira de grande cantora não der certo, tornar-me-ei filósofa ou poetisa e começarei a plantar árvores (mesmo no meio das calçadas).
Joanna Dudek
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses

sexta-feira, 20 de março de 2015

‘PRZYSTANEK WOODSTOCK’ – o paraíso na terra ou um caminho para o inferno?

PrzystanekWoodstock  é um festival musical organizado na Polónia há 20 anos. O seu nome é derivado do lendário festival Woodstock e da série da televisão dos anos 90 – Przystanek Alaska (No Fim do Mundo). O festival é organizado anualmente para cumprir o seu objetivo principal, ou seja, para agradecer aos voluntários que ajudam e colaboram com a Wielka Orkiestra Świątecznej Pomocy (ONG polaca que desde 1993 já angariou cerca de 140 milhões de euros usados na compra de equipamento hospitalar). O festival, tem lugar em Kostrzyn nad Odrą, e é completamente gratuito. Embora Przystanek Woodstock seja considerado por muitos o melhor festival no mundo, não faltam as pessoas que criticam este evento. O que é tão especial no Woodstock que provoca tantas controvérsias?
Pagão, satânico, escandaloso, cheio de bêbedos e drogados...esta é a  visão estereotipada do Woodstock. Segundo muitas reportagens ficamos a saber que este evento é um lugar de barulho insuportável, poeira, fedor, onde as pessoas vestem a roupa estranha e não fazem nada mais do que tomar banho na lama. Antes do Woodstock aparecem na internet artigos com os avisos para os pais. “Não permitam os seus filhos ir ao Woodstock. Podem não regressar.” – escrevem. Surpreendentemente passei três dias em Kostrzyn nad Odrą e regressei a casa sã e salva, sóbria e com muitas lembranças.
O que é visível desde o primeiro minuto no Woodstock é a multidão de pessoas de várias idades, incluindo as crianças e as pessoas idosas, várias subculturas e vários gostos musicais. O fenómeno deste festival é que é possível encontrar todos: polacos, estrangeiros, pessoas de distintas educações, religiões e opiniões políticas. Apesar destas diferenças entre os participantes, a violência está ausente. Pelo contrário, o que está presente  todo o tempo são sorrisos, abraços entre desconhecidos e ‘Dá cá mais cinco’.
Em Woodstock a diversidade concerne não só os participantes mas também os músicos e os artistas que são convidados para a Akademia Sztuk Pięknych (Academia de Belas Artes). Anualmente é organizada uma série de encontros com personalidades conhecidas na Polónia, mas também não faltam os convidados estrangeiros. Numa tenda especial reúnem-se com os participantes do Woodstock, respondendo às suas perguntas e falando sobre as suas atividades. Este é o espaço onde as pessoas têm uma grande oportunidade para ouvir debates, cujas temas variam da arte à liberdade ou dedicação. É o lugar onde se discute com os padres sobre religião, com os escritores sobre literatura ou com políticos sobre a situação no país.
Mas a ASP não se compõe só de encontros e discussões. Também organiza muitas atividades artísticas, como as aulas práticas dedicadas a teatro ou dança. Não faltam as palestras sobre por exemplo motivação efectiva, emissão vocal ou prevenção da violência contra as mulheres.
Não se pode esquecer que Woodstock é um festival musical, onde a música acompanha os participantes durante três dias sem parar. A música é muito diversa, todas as pessoas podem encontrar algo adequado. É normal que por exemplo ao mesmo tempo num palco atua um grupo de punk, noutro um grupo de reggae e num terceiro um grupo de música religiosa. Todos os elementos já mencionados fazem com que muitas pessoas reservem sempre o último fim de semana de Julho para ir a Kostrzyn e passar pelo menos três inesquecíveis dias. 
Patrycja Pluta
3º ano de Filologia Ibérica

NR: Na edição da 2014 passaram pelo festival 750 mil pessoas.

domingo, 8 de março de 2015

Adelaide Cabete


"Uma vida inteira devotada à prática do
bem, especialmente à dignificação da mulher"
Elina de Guimarães (Escritora e jurista portuguesadiretora do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas)



O século XX carateriza-se pela existência de considerável número de personalidades que, de algum modo, deixaram uma marca profunda na história de Portugal e que devem ser conhecidas pelas novas gerações. Políticos, revolucionários, cientistas ou artistas. Ao longo do tempo, houve homens e mulheres que se destacaram e ajudaram a criar o mundo de hoje.
     Uma destas figuras, talvez pouco conhecida e esquecida, foi Adelaide de Jesus Damas Brasão Cabete, uma grande feminista e militante na defesa da emancipação das mulheres nos vários movimentos e iniciativas em que esteve envolvida. Destacou-se como pioneira da Medicina em Portugal, lutadora pela República, pelos direitos das crianças e dos animais, educadora, publicista, socióloga, humanista.
     Nasceu na freguesia de santa Maria, de Alcáçova, concelho de Elvas, durante a Monarquia, a 25 de janeiro de 1867. Filha de Ezequiel Duarte Brasão e de Balbina dos Remédios Damas. A sua família de trabalhadores rurais alentejanos de origens modestas não podia assegurar aos filhos uma educação primária. Adelaide passou a maioria da sua infância e juventude trabalhando na apanha da ameixa e exercendo tarefas domésticas em casas dos homens ricos.
     Em 1886, aos dezanove anos, Adelaide de Jesus Damas Brasão casou-se com o republicano Manuel Fernandes Cabete (1849-1916), intelectual autodidata, sargento do exército, e adotou o seu apelido. O matrimónio, em vez de a limitar, possibilitou-lhe crescer e escapar ao analfabetismo. Graças ao seu marido, começou a estudar, podia desenvolver as suas paixões e ultrapassar novas etapas do seu percurso profissional. O casamento libertou-a, salientou o caráter dela, a sua força e coragem. Manuel Fernandes deu-lhe, por assim dizer, a oportunidade de se tornar visível num mundo maioritariamente composto por homens, a oportunidade que Adelaide empregou perfeitamente. Apesar de não ter filhos biológicos, criou dois sobrinhos, Maria (1873-1943) e Arnaldo Brasão (1890-1968).
     Aos 22 anos, no ano 1889, Adelaide Cabete fez o exame de instrução primária e matriculou-se no Liceu Central de Lisboa. Sete anos mais tarde, ingressou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Em 26 de julho de 1900, já com 33 anos de idade, concluiu brilhantemente o curso com a classificação de 14 valores, defendendo a tese  Proteção às mulheres grávidas pobres como meio de promover o desenvolvimento physico [de novas] gerações, assumindo-se como a terceira mulher a cumprir Medicina em Portugal. Também no ano 1900 foi admitida como sócia da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa. Durante o liceu, 119 dos estudantes eram do sexo masculino e Adelaide era a única representante feminina. No curso de medicina, a proporção era de 36 homens para duas mulheres (Adelaide Cabete e Maria do Carmo Joaquim Lopes). Após a conclusão da especialidade, exerceu Ginecologia e Obstetrícia no seu consultório em Lisboa, situado na Praça dos Restauradores.
 Em 1907 foi iniciada na Instituição Maçónica Grande Oriente Lusitano Unido – Loja Humanidade. Ao estar em desacordo com as diferenças de tratamento entre lojas masculinas e femininas, acabou por deixar a Ordem. Anos depois, em 1923, obteve autorização para criar a Ordem Maçónica Mista do Direito Humano. Na maçonaria, de nome simbólico Louise Michel, com ideias de fraternidade, progresso e justiça, atingiu o grau de “Venerável” (20º-Grau do rito escocês com 35 Graus).
     Adelaide Cabete foi admitida em 1912 como médica e professora no Instituto Feminino de Odivelas (conhecido popularmente por meninas de Odivelas e tendo então o nome de Instituto Feminino de Educação e Trabalho) onde regeu a disciplina de Higiene e Puericultura (acompanhamento do desenvolvimento infantil) até 1929. Na Universidade Popular Portuguesa dirigiu um curso com o mesmo nome.
     No ano 1914 foi fundado o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a mais importante e duradoura organização feminista da primeira metade do século XX em Portugal e a única a subsistir para além da Primeira Guerra Mundial.  O CNMP teve como principal dirigente Adelaide Cabete, reeleita consecutivamente Presidente até à década de 30. A organização manteve a sua atividade até 1947, quando o regime salazarista do Estado Novo ordenou o encerramento.
    O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas tinha como objetivos melhorar a situação legal da mulher na sociedade e na família, a eliminação da prostituição, o melhoramento da saúde pública, a criação de gabinetes de consulta, a educação dos emigrantes, a proteção das crianças contra os maus tratos, trabalhos pesados e abusos sexuais. Em 1924, para celebrar o décimo aniversário do CNMP, foi organizado o Primeiro Congresso Feminista e da Educação no qual Cabete proferiu o discurso inaugural e apresentou 3 teses, entre elas um projeto de natureza pedagógica relacionado com A Luta Anti-Alcoólica nas Escolas, que se tornou um marco fundamental na Educação em Portugal.
     Defensora da vida, considerando-a desde a conceção e manifestou-se contra o aborto. Defendeu e praticou a proteção da mulher pobre e das prostitutas a cujos problemas foi sempre sensível, combateu a propagação das doenças infetocontagioso. Cabete lutou contra a ignorância, contra os curandeiros e as superstições. Numa das suas publicações no Portugal Feminino, no verão de 1930, mostrou-se contrária à importação da moda feminina, criticando as saias curtas e recomendando o uso da saia até um palmo do chão. Desencorajou o emprego de substâncias para emagrecimento e de dietas que prejudicavam a saúde, debilitando o organismo.
    A aviação, atividade nova naquele época, também teve a ver com Adelaide Cabete.  Foi a primeira secretária da Assembleia Geral do Centro Nacional de Aviação fundada em 1914. Ali prestou os seus serviços médicos, exercendo uma profissão que foi considerada de alto risco.
No campo político foi grande ativista republicana, patriota e defensora dos direitos das mulheres. Desenvolveu intensa atividade militante a favor do estabelecimento daquele regime político e pela dignificação do estatuto da mulher, mostrando que o sexo não limita o ser humano. Foi ela quem, com duas outras mulheres,  em 1910 coseu e bordou a bandeira nacional hasteada na implantação da República em Lisboa. Em 28 de agosto de 1908 Cabete participou na fundação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP) que apoiou a queda da monarquia constitucional. No ano seguinte foi publicado o primeiro número da revista mensal A Mulher e a Criança (1909-1911), órgão da LRMP. A Liga tinha como objetivos defender a dignidade a emancipação feminina, especialmente das mulheres socialmente mais desfavorecidas.
Como sufragista militante em 1912 reivindicou o voto das mulheres. Em 1922 integrou a Direção do Centro Republicano Democrático e em 1933 foi a primeira e única mulher a votar em Luanda a Constituição Portuguesa. Depois da implantação da ditadura do Estado Novo(1926), desiludida com a nova situação política, partiu em 1929 com o seu sobrinho Arnaldo para Angola. Em Luanda, Adelaide Cabete abriu consultório médico, mas continuou a colaborar com jornais locais e da metrópole. Regressou a Lisboa em 1934. Faleceu aos 68 anos de forma repentina, de ataque cardíaco, a 14 de setembro de 1935 na sua residência de Lisboa. Está sepultada no Cemitério do Alto de São João em Lisboa. Como mostra de reconhecimento recebeu postumamente a 10 de Junho de 1995 a Medalha e Colar de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Foi nomeada uma das "100 Figuras que moldaram o século" seleciondas pelo semanário Expresso, na edição de 1 de junho de 2013.
 Acho que com toda a certeza, Adelaide Cabete merece todo o nosso reconhecimento. Esta mulher excecional, que honrou e dignificou a mulher, tem todo o direito a homenagem e memória. Abriu caminho para as gerações seguintes e mostrou que com o trabalho duro e a perseverança tudo é possível. Inspirou as suas contemporâneas e pode servir como exemplo para as mulheres de hoje.
Tudo o que conseguiu na sua vida foi pela sua força de vontade, coragem, esforço e enorme dedicação em tudo que fez. Nada lhe foi dado, não tinha a vantagem de provir de uma família de classe alta, mas apesar de todos os obstáculos, de origens humildes e simplesmente sendo mulher numa época em que o homem dominava, triunfou. Soube aproveitar as oportunidades que lhe foram dadas e aproveitou-a da melhor maneira que podia, ajudando outros menos afortunados e atuando a favor de todas as portuguesas.
     Tratou a sua educação que tardiamente começou, e o seu desenvolvimento profissional de forma muito séria e com grande devoção. Sistematicamente procurava ampliar os seus conhecimentos e melhorar a sua formação. Tinha a necessidade de manter-se atualizada, era uma grande leitora da imprensa nacional e estrangeira. A leitura regular foi um dos seus hábitos do dia a dia. “Fiz os exames do primeiro e do segundo grau aos 21 anos e já depois de casada, e aos 33 estava médica. Vê-se por isso, que não estudava a brincar nem para me divertir”. Adelaide Cabete,  A Província de Angola,17 de agosto de 1932
Cabete tinha ideias progressistas, avançadas para a época em que vivia. Não foi uma personagem de seu tempo mas de vanguarda. Na sua opinião, as mulheres tendo as mesmas capacidades que os homens, deviam ter também os mesmos direitos e liberdades. Acreditava na dignidade, igualdade e na independência feminina. Lutou pelo direito de trabalho digno e bem remunerado para as mulheres. Procurou advogar a causa das mais necessitadas e denunciar as injustiças. Aplaudiu o encerramento de tabernas e manifestou-se contra a violência nas touradas ou o uso de brinquedos bélicos.
    Destacou-se também pelo grande sentido de humor e tratava com distância as críticas, tanto do seu aspeto físico como do seu caráter e trabalho. Adelaide não mostrou sentir-se ofendida com o que outros pensavam dela e não os deixou menosprezar os seus esforços  para mudarar o mundo.
    Sem dúvidas, por detrás desta grande mulher houve um homem igualmente grande. Manuel Fernandes Cabete não limitou a sua mulher, não a reduziu somente a dona de casa fechada em casa. Pelo contrário, despertou nela a curiosidade e vontade de descobrir  e conhecer as múltiplas faces do mundo. Partilhava com ela as tarefas diárias da casa, o que na época não era a norma.
O marido de Cabete foi uma figura extraordinária, um homem que contra todas as crenças e estereótipos daquela época, tratava, não só a sua mulher, mas todas, como iguais a si mesmo. Juntos formavam um par que se complementava e pode servir como casamento exemplar até aos nossos dias.

Fontes e Bibliografia:
-  Lousada Isabel, Adelaide Cabete (1867-1935), 2010
- Lousada Isabel, Da presença feminina nas Letras & Ciências:
o pioneirismo de Adelaide Cabete
- Adelaide Cabete, HOMENAGEM A UMA MULHER (Diálogos com Helena à beira-rio), http://www.triplov.com
- Associação de Professores de História, http://www.aph.pt
- Associação República e Laicidade, http://www.laicidade.org
- Dicionário de Médicos Portugueses, http://medicosportugueses.blogs.sapo.pt
- http://www.institutodivelas.com
- http://odivelas.com

Urszula Półkosznik
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses

quinta-feira, 5 de março de 2015

Fernando Pessoa e Lisboa





A primavera de 1905 chegou a Lisboa com antecedência. Os raios de sol acariciavam as caras dos transeuntes, o ar fresco dava voltas por toda a cidade começando por Alfama e chegando até os arredores, e logo pelo resto de Portugal. Este ar da primavera refrescante trazia consigo o triste sentimento de saudade que só aumentava a beleza desta cidade. Ah, este cidade é cheia de encanto, uma princesa real. Uma princesa, mais também uma lutadora. Não é fácil levantar-se depois de um terramoto, pensou o rapaz de 17 anos passeando pelas ruas. No seu coração também sentia uma espécie de terramoto. Mas não havia nenhum marquês de Pombal que o ajudasse a levantar-se. De manhã chegou ao porto e desde então estava visitando a cidade que não via há muito tempo. Depois de terminar os seus estudos na África do Sul decidiu mudar-se definitivamente para Lisboa. Aqui quase cada rua o inspirava, cada sopro de vento. Aqui podia escrever. Com somente sete anos, graças ao seu padrasto, teve que deixar esta maravilhosa cidade e mudar-se para Durban, na África do Sul, enfrentando  novos e desconhecidos costumes e a uma nova língua. Por um instante, o jovem parou a observar a cidade. Esta é Lisboa! Suas casas de várias cores..., pensava. Este momento dá inicio a um poema de Álvaro de Campos escrito anos depois...
    A casa da sua avó Dionísia não era muito grande, mas acolhedora. Ao chegar, ele cumprimentou-a com um beijo carinhoso. Não era comum que o Fernando demonstrasse tal afeto, talvez tantos anos separados fossem a causa desta mudança de comportamento, pensou a avó. O mesmo beijo será usado dois anos mais tarde para a sua despedida para sempre.
    Já passaram quinze anos desde o seu retorno a Lisboa. Apesar do tempo transcorrido, o Fernando, um homem de 32 anos, olhava para aquela cidade, para a sua arquitetura, para as pessoas que nela viviam, para o porto, para o mar..., com a mesma admiração e interesse que mostrou no primeiro dia em que os seus pés voltaram a pisar esta terra. Entre os bairros de ar boémio, as casas cobertas de azulejos, os castelos medievais, e as muitas outras belezas da cidade, Fernando preferia um lugar em concreto, um lugar onde que encontrar-se com seus amigos e conversar tranquilamente observando a cidade. Este lugar era o café Martinho da Arcada, na Praça do Comércio. Ali se reunia varias vezes com o engenheiro Álvaro de Campos, o médico Ricardo Reis e o camponês Alberto Caeiro. Esses encontros alimentavam a sua imaginação e criatividade de tal forma que os seus bolsos estavam sempre cheios de papéis com anotações quando voltava para casa.
    Às vezes, os seus companheiros visitavam-no na sua casa de Campo de Ourique. Chegavam sempre muito tarde, algumas vezes com as garrafas de bebidas alcoólicas. Fernando tinha um certo tipo de angústia que parecia acompanhá-lo sempre; uma angústia que se tornou ainda mais visível depois da morte do seu amigo, Mário de Sá-Carneiro. A angústia, a incerteza, a inquietude.. todos estes sentimentos pareciam persegui-lo como os fantasmas do passado. Por vezes não era capaz de se levantar da cama, outras vezes caminhava sem sentido pelas ruas de Lisboa, com os seus óculos e chapéu, sempre procurando o sentido da vida, o sentido de ser humano. Nos momentos difíceis nos quais sentia desilusão com a existência, compartilhava os seus pensamentos com Álvaro, um grande decadentista, que como o próprio Fernando sentia-se um estrangeiro em qualquer parte de mundo. Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.- deixou uma vez no escritório de Fernando.
    Outras vezes, Fernando passava o tempo discutindo com Ricardo Reis, um médico cuja inspiração tinha origens na mitologia clássica, sobre a limitação e fatalidade da condição humana. Chegavam sempre à mesma conclusão – a vida é uma viagem com um fim, é inevitável, o destino é a força que supera o homem e o homem só pode aproveitar o momento. Depois de conclusões deste tipo era óbvio procurar prazer imediato, sem medo do futuro. Passavam então tempo juntos em companhia de várias garrafas, tentando aproveitar cada momento.
    Quando Fernando se cansava da simbologia e da metafísica, falava com Alberto, o camponês de Lisboa, que acreditava que os seres somente são. Rapidamente ganhou a simpatia de Fernando, porque foi um poeta com as regras muito estritas - nunca escreveu em prosa, pensando que somente a poesia seria capaz de dar conta da sensação que é a única realidade. Numa casa de pasto conheceu também Bernardo Soares, o autor do “Livro do Desassossego”. Ambos passaram muito tempo em profundas reflexões sobre a raça humana.
    Havia momentos em que todos eles se encontravam e nestes momentos a cabeça de Fernando parecia um vulcão à beira da erupção. Corria de uma parede à outra, sem parar. Já não sabia quem era. O mesmo aconteceu quando conheceu a jovem datilógrafa Ophélia Queiroz. Foi um destes momentos nos quais o seu coração começou a bater tão rápido que parecia que queria sair do seu peito. O próprio Fernando, nesse momento, sentiu-se fora de si, como se um estranho controlasse o seu corpo. Todas as caras da sua personalidade se revolveram, identificava-se com todos e com ninguém, estava fechado na sua imaginação. Ao mesmo tempo era o Álvaro, o Alberto, o Ricardo, o Bernardo…e muitos mais. Havia momentos nos quais queria deixar tudo isto.. Mas finalmente, era o Álvaro quem escrevia as cartas a Ophélia.


A minha inspiração foram as canções Lisboa Antiga de Amália Rodrigues e Fado de Pessoa de Ana Moura.

 Patrycja Chorylek
1º ano de mestrado em Espanhol

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Os futuristas de Portugal - Padre António Vieira e Rainha Dona Luísa de Gusmão

Analisando as biografias do padre António Vieira e da rainha Dona Luísa de Gusmão cheguei a uma conclusão que o tempo real não sempre corresponde ao tempo da vida das pessoas. Há pessoas que têm os pensamentos e comportamentos muito mais avançados do que a gente da mesma época. O padre António Vieira e a D. Luísa são excelentes exemplos para provar minha tese.
            Padre António Vieira foi considerado um verdadeiro visionário e futurista. O seu pensamento só chegou à luz depois da revolução francesa e no caso do Brasil duzentos anos após a sua morte quando começou o processo da libertação dos escravos. Foi o autor de várias extraordinárias propostas econômicas cujo objetivo foi enriquecer Portugal na época da Restauração. O padre António Vieira percebeu que o sucesso de rápido enriquecimento não eram as constantes conquistas, mas sim o estabelecimento de paz. Na época do Brasil holandês o padre defendia a política pacifista em relação aos Países Baixos e chegou com uma proposta de negociar com os Holandeses a compra do estado brasileiro ocupado por eles, Pernambuco.
Eu chamaria o Padre António Vieira de um cidadão do mundo – além de ser um missionário da Companhia de Jesus, era também um verdadeiro diplomata, sempre convidado pelos vários reis a expressar as suas opiniões políticas e por esta razão foi bem visto nas cortes europeias. A sua política pacifista foi refletida na atitude dele como mediador e negociador. Conseguiu negociar e pactuar com os reis, chefes indígenas, colonos ou funcionários régios em todas as colônias portuguesas quer no próprio Portugal quer nas colônias ultramarinas, nomeadamente no Brasil entre os grupos indígenas do interior brasileiro. O seu lado mais forte foi a arte de se acomodar muito facilmente e a sua flexibilidade - ora quanto à bem-sucedida imposição das suas ideias no ultramar ora quando teve que confrontar-se com as sociedades mais resistentes à sua pregação e mesmo assim conseguiu adaptar-se à nova situação.
O poeta Fernando Pessoa chamou-lhe de “imperador de língua portuguesa”. O padre António Vieira se opôs ao tráfico de escravos africanos, à Inquisição e lutava pela liberdade religiosa. Além de só ocupar o cargo importante nas estruturas religiosas era também escritor, diplomata, político, pregador, sonhador e missionário – tudo ao mesmo tempo. Com a sua visão do mundo “Liberté-Égalité-Fraternité” ultrapassou a grande revolução francesa. Depois da sua morte, foi publicada em 1718 uma obra importante - que o padre António Vieira escreveu secretamente – intitulada “História do Futuro”, onde destaca-se seu pensamento marcante:

“Para satisfazer, pois a maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério, pomos hoje no teatro do mundo esta nova História, por isso chamada do Futuro. Não escrevemos com Beroso, nem com Heródoto as dos Egípcios, nem com Josefo as dos Hebreus, nem com Curciu as dos Macedônios (....) mas escrevemos sem autor o que nenhum deles escreveu nem pode escrever. Eles escreveram histórias do passado para os futuros, nós escrevemos a do futuro para os presentes. Impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias, mas isto é que o fará o pincel da nossa história”.

            O padre António Vieira projetou o futuro de Portugal e previu o papel importante que ia ser desempenhado por Portugal na história do mundo. A visão dele não era o presente para o futuro, mas o futuro para o presente.

 D. Luísa de Gusmão, de origem espanhola, foi uma mulher com muitas aspirações políticas. Pelo seu casamento com D. João IV, o primeiro rei da dinastia de Bragança após a Restauração em 1640, virou a primeira rainha de Portugal representando a nova família real. As longas tradições ibéricas de casamentos entre as famílias reais portuguesas e castelhanas causaram também as ameaças de uma possível perda da independência. Mas a D. Luísa de Gusmão esteve bem longe de unir os dois países rivais sob um cetro.  Incentivou o seu marido D. João IV para ele se opusesse à dinastia filipina e além disto interessou-se bastante pelos assuntos da política portuguesa e agiu de tal modo para garantir a independência deste pequeno país ibérico. Através das suas agitações acabou de vez com o sistema da monarquia dual português-espanhola, recuperando totalmente a autonomia portuguesa. Sempre se manteve fiel aos ideais da Restauração. D. Luísa de Gusmão era uma mulher muito inteligente que defendia o fortalecimento da nova dinastia (por exemplo através dos casamentos – da sua filha D. Catarina com Carlos II de Inglaterra).
Sabia bem que o destino dela era reinar e não apenas servir. Foi lhe atribuída esta frase – „melhor morrer reinando, que acabar servindo” que no decorrer do tempo foi alterada e parafraseada ficando nas cartas da história assim - “É melhor ser rainha por um dia, do que duquesa toda a vida”. Quando D. João IV morreu em 1656  D. Luísa se tornou a regente do reino durante a menoridade do pequeno infante D. Afonso.
D. Luísa foi uma participante ativa na construção da Independência de Portugal. Uma rainha dedicada ao povo português. Mulher inteligente e orgulhosa, boa esposa e carinhosa mãe. Uma mulher certa no tempo e lugar certo.
Contudo, o mundo daquela época não estave pronto para a recepção dos grandes futuristas de Portugal. As ideias inovadoras, o desejo de uma mudança global, a ruptura com um pensamento fixo e a ousadia requerem uma grande força interna. Padre António Vieira defendendo os judeus e os cristãos-novos (vendo em eles uma possibilidade de um desenvolvimento do país e respeitando o dinâmico espírito empreendedor deles) foi condenado pela Inquisição que só anularia esta condenação na segunda metade do século XVII. Um caminho parecido cheio de obstáculos e desafios seguiu a D. Luísa de Gusmão. Mesmo defendendo a independência de Portugal e sempre fiel aos princípios da liberdade, as suas atitudes políticas bravas foram consideradas perigosas a medida que foi afastada do governo por seu filho D. Afonso.
Os grandes futuristas de Portugal foram simplesmente esmagados pela realidade.


Bibliografia:
AVELAR, Ana Paula, D. Luísa de Gusmão, A rainha Mãe.
AVELAR, Ana Paula, Espelhos de um Império na escrita de Padre António Vieira: esboços: iniciáticos.
GARCIA, Lima, Futuro e Futurismo Barroco na Obra de António Vieira, Escola Superior de Educação da Guarda 2008.
RAMOS, Rui, História de Portugal, A Esfera dos Livros 2009.
VIEIRA António, Cartas do Padre António Vieira, Tito de Noronha, Cornel University Library.

AGATA BŁOCH                                                                                                          
Fundacja Terra Brasilis 





sábado, 14 de fevereiro de 2015

Dia de São Valentim?

Se alguém acredita no calendário, hoje estamos no dia 14 de Fevereiro. E o que é que destaca este dia do resto dos desagradáveis dias de inverno? É o dia de São Valentim, um pesadelo para os homens e a data adorada pelas mulheres.
As vitrinas estão cheias de diversas coisas de cor vermelha para mostrar às pessoas que não sabem de nada, que o vermelho é a cor do amor. Do outro lado do vidro sorriem-nos os ursos de peluche, rosas (obrigatoriamente vermelhas). E como é que eu me pude esquecer dos corações! Os corações de chocolate, de amêndoa, de papel, de ouro... este é o símbolo inextricavelmente ligado ao Dia dos Namorados.
E que é que fazem os namorados neste dia tão especial? Sem dúvida, as coisas indescritivelmente românticas. E assim, os namorados vão aos cinemas, aos parques, aos restaurantes e fazem todas estas coisas que (quando se pensa bem nisso) podem fazer todos os dias. Mas não fazem. É engraçado que as pessoas precisam de estabelecer uma festa para encontrar uma desculpa, um tempo, ou pior, uma vontade de mostrar, de expressar o afeto que sentem. Também me faz rir o peso que as mulheres atribuem à celebração deste dia. E que Deus tenha piedade do homem que se atrever a esquecer do dia de São Valentim ou dizer à sua namorada que não reconhece esta festa. Aquele homem pode contar com a falta de amor, pelo menos, até ao Dia das Mulheres.
E o que pensaria de tudo isto  o próprio São Valentim? Como o patrono, defensor de doenças graves como as doenças nervosas e a epilepsia, acho que o pobre são Valentim não diria muito.

Beata Zuzel
2º ano de Estudos Portugueses