Nos dias 23 e 24 de abril contamos com a presença de Luís Augusto Fischer no nosso centro que
nos guiou numa viagem pela história recente do Brasil e sua cultura. Analisando
e comparando a obra de dois gigantes da música brasileira, Caetano Veloso e
Chico Buarque, ficamos a conhecer o que está para além da letras e das músicas
destes autores. Luís Augusto Fischer é Doutor em Letras pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil onde é professor
associado. Trabalha com a Literatura Brasileira com particular interesse na
formação e a história da literatura, géneros literários, romances e poesias
brasileiras, literatura gaúcha, literatura colonial brasileira. Crítico, ensaísta,
escritor e dicionarista. Autor de livros, como os de ensaio: Um passado pela
frente (1992), Amaro Juvenal (1989), e
Para fazer diferença (1999), os de ficção como O edifício do lado da sombra
(1996), Rua desconhecida (2002), Quatro Negros (2005), e trabalhos como:
Dicionário de Porto-alegrês (1999), Bá,
tchê! – Dicionário temático (2000), Gauderiadas – a sabedoria gaúcha em frases
definitivas (2004) e Dicionário de palavras e expressões estrangeiras (2004).
Organizador e colaborador de muitas revistas literárias e culturais e de
eventos na mesma área.
Revista dos alunos de língua portuguesa da Universidade Maria Curie Sklodowska, Lublin, Polónia
terça-feira, 28 de abril de 2015
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Arte Luso-oriental e Indo-portuguesa
O aspecto interessante
da arte que surgiu no império português oriental é a dualidade do nome, ou
seja, a coexistência de duas definições: a arte luso-oriental e a arte
indo-portuguesa. Isso mostra que nenhuma cultura dominou a outra e ao mesmo
tempo deu privilégio tanto à cultura lusa
como à cultura indo. As fronteiras
políticas do Oriente português eram difíceis de demarcar porque a região era
composta por vários países e culturas diferentes, como Chineses, Timorenses, Indianos, Japoneses e outros.
A arte desempenhou o papel essencial nos contatos entre os povos nativos e os
missionários portugueses.
Rafael Moreira e Alexandra
Curvelo perceberam que a Carreira da Índia
resultou em um diálogo cultural e artístico e também em um convívio entre as
duas culturas tão extremas. Esta arte, porém, não pode ser encaixada nos ramos
geográficos e “deve ser entendida não
apenas em sentido geográfico, mas sobretudo social e histórico”. (MOREIRA
Rafael, CURVELO Alexandra: 532). “A Arte
indo-portuguesa teria sido produzida em territórios portugueses da Índia e fora
destes, em locais de influência econômica dos Portugueses e em territórios da
penetração religiosa (...).” (CAGIGAL E SILVA, Maria Madalena: 374)
Através deste encontro
entre a cultura portuguesa e a oriental surgiu uma nova distinta cultura, com sua
própria forte personalidade. O surgimento da arte indo-portuguesa não
necessariamente ocorreu apenas no continente asiático. Aqui as fronteiras desta
arte são muito flexíveis. Tanto os índios que viviam em Lisboa como os
aculturados na Índia portugueses podiam dar vida à arte indo-portuguesa. Esta
arte é um fruto de miscigenação, convívio de duas culturas diferentes e de uma
interinfluência cultural.
Talvez a Coroa
Portuguesa tenha imposto as restrições à política e à economia e tenha proibido
os contatos comerciais entre os países conquistados, mas na questão da cultura nunca
houve nenhuma limitação nem proibição. A cultura e arte da Ásia como as de
Portugal e das outras possessões marítimas se espalharam e difundiram de uma
forma muito rápida cujo fruto foi o nascimento da arte indo-portuguesa,
indo-açoriana etc.
A arte indo-portuguesa
surgiu por um lado pela necessidade dos nobres que viviam na Índia para possuírem
as coisas do cotidiano (p.e. mobiliário) e por outro lado pela encomenda
religiosa dos missionários, como dos jesuítas que usavam os elementos na
propagação da religião cristã. A arte indo-portuguesa desempenhou o papel importante
na difusão e promoção da religião católica.
Podemos analisar
também a arte indo-portuguesa em uma maneira muito mais prática; como um
elemento de um cotidiano dos portugueses residentes na Índia. Por este motivo
além da arte do nível mais sofisticado como arquitetura, pintura ou escultura, podemos
encontrar também vários exemplos de mobiliário ou tecidos que os portugueses
usavam no dia-a-dia.
A arte indo-portuguesa
era um resultado de uma simbiose de duas distintas culturas e contribuiu no
espalhamento dos costumes da época. Graças a esta arte foram documentados e
imortalizados inúmeros hábitos. De fato, a arte indo-portuguesa não era o
domínio dos portugueses. Foi bem pelo contrário porque houve pouca porcentagem
dos artistas portugueses em comparação com dominação dos artistas indianos,
mestiços e mongóis. A arte indo-portuguesa podia ser uma discreta maneira de
cristianizar os povos indianos. Quando os Jesuítas chegaram à Ásia encontraram
uma cultura altamente desenvolvida, então o objetivo dos Jesuítas era se
acomodar nas realidades asiáticas. Através da arte, os Jesuítas podiam passar
aos recém-encontrados povos os temas
bíblicos e elementos da cultura europeia cristã, como na Igreja de Bom Jesus em
Goa ou graças aos motivos de decoração dos tecidos etc. A arte indo-portuguesa
era um elemento essencial em espalhar as lendas e tradições portuguesas. Nos
tecidos se representavam as estórias e figuras portuguesas dos séculos XVI e
XVII.
A arte indo-portuguesa
é uma mistura de vários elementos porque a Índia serviu de ponte de passagem
para as ações culturais e religiosas dos portugueses. Na Índia se interferiram
vários elementos: a fé cristã dos europeus, hábitos e crenças indianas e também
os produtos africanos como o marfim oriundo de Moçambique. O que distinguia a
arte indo-portuguesa eram a complexidade e abordagem do tema e não como
pensamos apenas a introdução dos elementos básicos da Índia.
A arte relacionada com
a expansão portuguesa não possui nenhuma sequência histórica nem uma lógica sofisticada. É bem complexa,
dominou vários continentes e muitos patrimônios culturais diferentes e apesar
disto também é pouco sistematizada. Nos
dois textos apareceu uma teoria que era realmente muito difícil encaixar num modelo
só a arte indo-portuguesa, ou seja definir exatamente os ramos, as fronteiras e
a temática da arte indo-portuguesa. Como o exemplo, o Bethencourt mostra que os
quadros de Garcia Fernandes do século XVI localizados na igreja em Goa, mesmo
que mostrassem a história de uma região brasileira, não possuíram nenhum
elemento oriental nem português. O mesmo aconteceu com a Igreja da Divina
Providência, localizada na mesma cidade, que não possuiu nenhum de dois
elementos e ainda foi construída por um italiano, então um sujeito fora do
império português. “O único denominador
comum a todas estas obras e, de algum modo, a presença determinante dos
Portugueses e a consequente confrontação (contaminação, integração) de
diferentes realidades e atitudes culturais e estéticas” (BETHENCOURT: 404).
Podemos observar uma mestiçagem de arte de três formas: confrontação,
contaminação e integração. Cada uma delas mostra uma dimensão diferente:
confrontação – que a arte portuguesa e oriental foram opostas, contaminação -
que uma arte foi poluída pela outra, e integração – que soa mais positivamente,
que as duas artes se misturaram.
O melhor exemplo da
mestiçagem cultural e do sincretismo religioso representa a escultura feita em
marfim do Menino Jesus adormecido que é fruto da integração da cultura
portuguesa cristã com as crenças asiáticas. Menino Jesus representa um Bom
Pastor mas lembra também o Buda. Eles está situado em cima da escultura e por
baixo há vários níveis com cenários com figuras evangélicas e elementos
decorativos típicos da Índia. A figura do Menino Jesus representa a Primeira
Meditação do Buda. Como conclusão podemos supor que tanto a influência europeia
como indiana tinha direitos iguais. Nenhuma das artes dominou a outra. Com
certeza este tipo de escultura era um método silencioso de espalhar a cultura europeia
e a fé cristã na Índia. Isto mostra porém, que os Europeus respeitavam a
cultura local na Índia e não entravam em conflito religioso. Em vez de cruzadas
medievais, os portugueses aceitaram a outra forma mais orientalizada da figura
de Jesus. Parece que os Portugueses abandonaram a política de cruzadas e o
almejo de converter os infiéis e, em vez disto, se abriram para aceitar outras
formas das figuras bíblicas que por muito tempo eram intocáveis. Grande
contributo nisso teve também o Renascimento e o fato que mais atenção se
prestava no elemento humano. Não surpreende, portanto que a figura de Menino
Jesus tenha sido criada em pleno século XVI.
“(...) A exportação de quadros da Europa para o
Oriente. No entanto a maioria dos quadros pintados para os territórios
controlados pelos Portugueses foi da responsabilidade de artistas locais,
europeus ou nativos formados localmente (...) Não devemos esquecer que as
concepções artísticas orientais eram diferentes das do Oriente”
(BETHENCOURT: 424) A arte indo-portuguesa não precisava ser necessariamente
criada pelos portugueses. Para muitos dos nativos, as concepções artísticas dos
portugueses eram desconhecidas e distantes.
Uma das artes
indo-portuguesas mais fascinantes era a arte Namban do sul do Japão que de fato é uma grande lembrança da história
dos Portugueses neste país. O caso de Japão é especial por ser uma espécie de
primeiro verdadeiro intercâmbio entre as duas culturas diferentes. Por um lado
os batizados japoneses construíram as capelas cristãs nas suas mansões, por
outro lado vários japoneses trouxeram da Europa muito tipo de arte, incluindo
livros e instrumentos musicais que resultou em “ocidentomania”. A
cultura Japonesa não foi dominada pela cultura portuguesa. Aqui aconteceu bem
diferente - foram os japoneses que se fascinaram pelos Europeus. Arte Namban se tornou um símbolo das relações
luso-japoneses. Os biombos parecem com livro que contam a história do primeiro
encontro entre os Portugueses e os Japoneses. “Noutros biombos europeus
relacionado com o Ocidente surgem temas diferentes: costumes sociais, europeus,
mapas-múndi, as quatro cidades de Ocidente – Lisboa, Madrid, Roma e
Constantinopla.” (BETHENCOURT:433).
Outro elemento
importante que constituiu também a arte indo-portuguesa são as igrejas, tanto
na Índia as quais foram europeizadas, como em Portugal que foram
orientalizadas. O estilo principal que podemos observar era o manuelino que
promoveu o intercâmbio artístico. A Igreja de São Francisco na Velha Goa,
Igreja de São Paulo em Macau, Basílica do Bom Jesus em Gola se caracterizam
pelo estilo manuelino.
A arte indo-portuguesa
e luso-oriental era uma arte livre e sem fronteiras. Apesar de ser livre era
muito complexa, apareceu em todos os possíveis tipos da arte – desde pintura
até os mobiliários. Para mim desempenhou um papel de evangelizador discreto que
de uma maneira muito pacífica entrou no espaço asiático. Por espalhar
discretamente a religião cristã com certeza não era uma arte inocente. Através
desta arte os Portugueses conseguiram entrar nas culturas asiáticas altamente
desenvolvidas.
Agata Bloch
Fundacja Terra Brasilis
BIBLIOGRAFIA
Moura Sousa, Luis de, A expansão e as artes: Transferências, Contaminações,
Inovações: em Curto, Diogo Ramada;
Bethencourt, Francisco, A expansão
marítima portuguesa, 1400-1800.
Edições 70, Lisboa 2010.
Cagical e Silva, Maria
Madalena de, A história e as relações artísticas
entre Portugal e a Índia, Lisboa : Instituto
de Investigação Científica Tropical, 1985.
Moreira, Rafael e
Curvelo, Alexandra, A Circulação das
Formas. Artes Portáteis, Arquitectura e Urbanismo, História da Expansão Portuguesa, Círculo de
Leitores, (Vol. 2), Lisboa 1998.
terça-feira, 21 de abril de 2015
Kazimierz Guziuk
Sempre que visito a casa de família do Wojtek, lembro-me do seu avô. A casa fica em Białka, uma aldeia perto de Krasnystaw. A casa está vazia, só durante os feriados e as férias se enche com a família Guziuk a que pertenço. Quando entrei nesta casa pela primeira vez senti-me como se o tempo tivesse parado. Estava cheia de aparelhos antigos, móveis, galhadas e outros troféus de caça. E, sobretudo, coisas relacionadas com cavalos. Quadros, figurinhas, selas, muitas medalhas e diplomas de concursos hípicos – tudo relacionado com estes animais. Em cima da cómoda está pendurada a pintura da pessoa que fundou este lugar extraordinário. O quadro de Kazimierz Guziuk, o diretor da Coudelaria de Białka. No quadro está vestido com uniforme, montado no seu cavalo, o Arcymiły; ao lado dele está o seu fiel cão, um schnauzer gigante, o Amor. Embora nunca o tenha conhecido, eu vou sempre lembrar-me do seu rosto nesta imagem, cru e impenetrável. Não podem ler sobre ele na Wikipedia, mesmo que tenha sido um dos fundadores da criação moderna de cavalos na Polónia. Por causa da sua filiação no Partido Comunista, foi apagado da história moderna pelos "defensores da democracia".
O meu marido gosta de contar as histórias sobre o seu avô; quando o fez pela primeira vez repetia muitas vezes as palavras patriota e herói. Com razão, porque apesar de – como cada ser humano – ter cometido muitos erros, ninguém pode dizer que ele não amava a sua pátria e não tinha coragem. Fiquei a conhecê-lo falando com o meu marido e com o meu sogro – o filho de Kazimierz Guziuk, que herdou do seu pai a paixão pelos cavalos e pelo trabalho duro, graças ao qual agora é um reconhecido juiz de competições internacionais e diretor da coudelaria Al Khalediah Stables em Nowe Wrońska perto de Varsóvia.
Kazimierz Guziuk nasceu em 1921 numa aldeia perto de Janów, onde se encontra a maior coudelaria da Polónia. Começou a trabalhar ai como palafreneiro quando era um menino de catorze anos. Conheceu a sua mulher no tempo de guerra, ao tentar proteger os cavalos dos alemães. Com os cavalos tinha fugido de Janów para uma aldeia perto de Sanok (a cerca de 300km). Ela procedia da nobreza, embora pobre, mas nessa altura foi o casamento desigual quando uma menina de classe superior casou com um rapaz de uma simples família campesina. Casaram em 1941 mas pouco tempo depois Kazimierz voltou para Janów e Sabina ficou na sua aldeia natal. Em 1942 ela foi presa e deportada para a Alemanha, onde trabalhou numa quinta. Nesse tempo Kazimierz trabalhou no pelotão conspiratório de cavalaria do Armia Krajowa (a resistência) e terminou a Escola de Suboficiais. Também participou em ações de sabotagem e retaliação realizados pelo Armia Krajowa.
Os alemães, que durante a guerra roubaram a coudelaria em Janów, apreciaram-na e apoiaram o seu desenvolvimento. Mas em troca, os cavalos foram considerados propriedade alemã e durante a evacuação, em 1944, levaram todas as 300 cabeças da manada. Os seus protetores, Kazimierz Guziuk entre eles, partilharam este destino incerto dos cavalos. A manada chegou a Dresden onde sobreviveu ao bombardeamento dos Aliados e logo foi levado a Nettelau onde formou o conselho das coudelarias polacas na Alemanha que abrangeu todos os cavalos roubados de muitas criações da Polónia. Kazimierz conseguiu trazer de lá a sua mulher e lá também nasceu o seu filho, Andrzej.
Em 1946 voltou de barco para a Polónia com a sua família e a manada. Começou a trabalhar em Kwidzyn onde entrou no Partido Socialista Polaco. Em 1950 como resultado da chamada promoção social, assumiu as funções de diretor da Coudelaria de Białka. Mudou-se com a família para uma aldeia pitoresca perto de Krasnystaw onde desde os anos 20 funcionava a coudelaria militar. Faltava-lhe a experiência mas não faltava entusiasmo. Com um grupo dos colaboradores acertados conseguiu criar uma coudelaria que se desenvolvia dinamicamente e o número de cavalos ia crescendo.
Estabeleceu também uma colaboração com os centros universitários, recebendo estudantes para estágios e organizando acampamentos equestres (num deles conheceram-se os meus sogros!). Ele mesmo também praticou equitação com alguns êxitos nesta área. Geriu a coudelaria com mão de ferro e rigor militar (todos os empregados tinham de usar uniformes). Tudo isto influenciou bastante na condição da coudelaria, que, apesar dos problemas, funcionava (uma das quatro no país) e tinha sucesso.
Em 1981 depois de 46 anos de trabalho ativo, Kazimierz Guziuk reformou-se e deixou a administração da criação dos cavalos nas mãos do seu filho primogénito, Andrzej. Isso permitiu a realização dos projetos iniciados e começados há algum tempo, como por exemplo a fundação da coudelaria dos cavalos árabes que agora tem a posição firme na Polónia.
Depois de se reformar, Kazimierz Guziuk desenvolveu a atividade social, colaborando com os criadores e tornou-se membro da Associação de Caçadores (todos os troféus em casa são de caça). Dedicou toda a sua vida à criação dos cavalos; a família sofreu muitas vezes, mas conseguiu não só reativar a criação dos cavalos árabes na Polónia, mas também passar a sua paixão aos filhos (o segundo filho foi o diretor da coudelaria em Kurozwęki e agora gere a coudelaria árabe Al Khalediah Stables em Nowe Wrońska). A determinação e coragem de Kazimierz Guziuk com as quais durante a guerra salvou centenas de cavalos do bombardeamento em Dresden, desperta a minha profunda admiração.
Monika Czarkowska-Guziuk
2º ano de mestrado em Estudos Portugueses
domingo, 19 de abril de 2015
Vesela Chergova no Centro de Língua Portuguesa
A mais recente visita ao Centro de Língua Portuguesa/ Camões em Lublin veio da Bulgária. No dia 16 de abril, a Prof.ª Dr.ª Vesela Chergova da Universidade São Clemente de Ohrid de Sofia deu uma palestra intitulada " As categorias temporais no modo Indicativo e no modo Conjuntivo do verbo português". A
conferência tratou da organização dos conteúdos temporais dentro do valor modal
comum não subjetivo (Indicativo) e dentro do valor modal comum subjetivo
(Conjuntivo) na tentativa de explicar o desequilíbrio das formas temporais (menor
número de formas temporais conjuntivas) em ambos os modos do português
contemporâneo. Pretendeu-se identificar a hierarquia na estruturação das
categorias modais e das temporais segundo os postulados de Greenberg (1971:
295-313), apresentando uma possível análise dos valores invariantes, contextuais
e distributivos de todas as formas sintéticas indicativas e conjuntivas.
Vesela Chergova é Doutora em Linguística Portuguesa, Professora Auxiliar, docente das disciplinas curriculares de Fonética e Fonologia, Morfologia e Lexicologia Portuguesa, Português L2 e algumas disciplinas opcionais de tradução especializada no curso de Licenciatura em Filologia Portuguesa do Departamento de Estudos Ibero-Americanos da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia. Realizou estudos de pós-graduação na Universidade de Lisboa (1991–1992) e na Universidade do Porto (1996–1997). É autora do trabalho monográfico O Imperfeito do Conjuntivo em Português Contemporâneo (2012) e de artigos referentes à análise semântico-funcional dos gramemas modo-temporais do sistema verbal português.
Vesela Chergova é Doutora em Linguística Portuguesa, Professora Auxiliar, docente das disciplinas curriculares de Fonética e Fonologia, Morfologia e Lexicologia Portuguesa, Português L2 e algumas disciplinas opcionais de tradução especializada no curso de Licenciatura em Filologia Portuguesa do Departamento de Estudos Ibero-Americanos da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia. Realizou estudos de pós-graduação na Universidade de Lisboa (1991–1992) e na Universidade do Porto (1996–1997). É autora do trabalho monográfico O Imperfeito do Conjuntivo em Português Contemporâneo (2012) e de artigos referentes à análise semântico-funcional dos gramemas modo-temporais do sistema verbal português.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Irmão
Imagina uma criança
pequena de quatro anos. Esta criança brinca com o seu ursinho de peluche e
chama-lhe o seu irmão. Esta criança não tem irmãos, mas quer muito ter um. Nove
anos depois já não é uma criança, já não
brinca com o seu ursinho de peluche e já não pensa em irmãos. Mas um dia
os pais dela dizem-lhe que vai ter um irmão. O mundo desta menina vai mudar
totalmente. Os pais já não vão preocupar-se tanto com ela como faziam antes.
Vai ter que dividir o seu quarto com ele e ajudar os seus pais em tudo...
Quem é o meu irmão?
É um menino de oito
anos, com olhos grandes e castanhos e uma cara sempre sorridente. É alto, forte
e maior do que as outras crianças da mesma idade. Gosta muito de ver os desenhos animados e
brincar com “legos”. Está fascinado por astronomia e dinossauros. Gosta muito de andar de bicicleta e nadar.
Mas nem sempre foi assim. O meu irmão é autista. Quando tinha dois anos não
sabia falar, comunicava-se só com os gestos, era muito nervoso, chorava e
gritava muito. Durante muito tempo não sabíamos o que se passava com ele.
Depois de muitas consultas com vários médicos, foi-lhe diagnosticado autismo, e
começaram a curá-lo. Agora o meu irmão está muito melhor. Frequenta uma escola
para meninos com necessidades especiais e na sua turma só há crianças com
autismo.
Quem é o meu irmão
para mim?
Sem dúvida, ele é a
pessoa que me ama mais no mundo. Nenhuma outra pessoa fica tão feliz quando eu
chego a casa e ninguém fica mais triste quando eu saio. Por causa do seu
autismo mostra mais amor do que as crianças normais, mas também necessita mais.
Quando estava na escola secundária passava muito tempo com o meu irmão. Ia busca-lo
e levava-o à sua escola , depois esperávamos juntos pelos nossos pais em casa.
O meu irmão ensinou-me a ser uma pessoa responsável, sensível, indulgente e
paciente. Não posso imaginar a minha vida sem ele porque é a pessoa mais
importante para mim.
Aleksandra Moskal
2º ano de Filologia
Ibérica
NR: O Dia Mundial da Consciencialização do Autismo é celebrado a 2 de abril
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Palavras soltas,
Sem papas na língua
terça-feira, 14 de abril de 2015
O bacalhau
Esta história teve lugar
no dia 27 de fevereiro de 2015. Eu levantei-me como sempre duas horas após o
despertador ter tocado pela primeira vez. Tirei as ramelas dos olhos, vesti-me
e preparei o pequeno-almoço. Naquele momento não sabia o que ia acontecer. Ao
tomar o pequeno-almoço ja pensava no almoço e em fazer as compras no Biedronka
– o equivalente do Pingo Doce na Polónia. Fiz uma lista de compras numa folha
de papel e sai de casa levando a mochila. Sai para a rua, o sol brilhava como
se fosse verão. Passando pelo bairro, encontrei muitas pessoas incluindo as que
não apanharam o cocó do seu cão porque não “viram”. Atravessei a rua mas desta
vez sem ser quase atropelado e uns metros depois entrei no Biedronka. Como
sempre havia muitas pessoas a gritar, correr, rezar ou fazer centenas de outras
coisas. Tirando a lista de compras do meu bolso dirigi-me para o interior do
supermercado. Número um na minha lista: tomates – está feito, dois: farinha –
já está no meu cesto, açúcar também. Cheguei ao ponto vinte e tal e li:
bacalhau. Dirigi-me à secção dos produtos congelados olhando para cada
congelador. Num momento notei um brilho como se fosse uma auréola num
congelador. Aproximei-me e pela primeira vez vi uma coisa tão bonita como esta.
Um bacalhau congelado, tão branco, tão bonito que até era ridículo. Tirei-o do
congelador e de repente senti um puxão no braço. Virei-me e vi uma mulher velha
de setenta e tal anos, gorda, baixa e com o prazer do crime nos olhos.
- Isto é o meu
bacalhau!
Gritou, cuspindo na
minha cara.
- Nunca!
Respondi e abraçando a
pacote e entrei na zona das caixas registadoras. Esta terrível velhota seguia-me o tempo todo chamando-me o diabo e
molhando-me com a água benta. Mas eu não desisti, cheguei às caixas, paguei e
sai do Biedronka. Quando voltava para a casa, tinha um estúpido pressentimento
que alguém me seguia, mas graças a Deus cheguei à casa e fechei a porta.
Preparei o bacalhau com natas, que estava mesmo muito bom, os pássaros piavam,
todos estavam contentes. Menos eu, porque até hoje tenho medo de sair de casa e
visitar o Biedronka. Sempre que vejo uma velhota baixa e gorda que é parecida
com esta, passo para o outro lado da rua. A moral é muito simples: Nunca
desistam, lutem pelo vosso bacalhau.
Łukasz Gomoła
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses
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sábado, 11 de abril de 2015
Curta história de uma tábua longa em Lublin.
Tudo começa à noite. Durante o dia seria
impossível - há demasiado trânsito para percorrer as ruas. O único som que se
ouve é o das rodas de uretano a rolar no asfalto. Para alguns vizinhos o som é
um problema, aproximam-se de um grupo com a intenção de assustar aqueles miúdos
para eles não voltarem àquela rua. Mas rapidamente dão conta de que “os miúdos” têm por volta de 30
anos e durante o dia são responsáveis pais, funcionários, artistas,
empresários. O longboard atrai as
pessoas de ambientes diferentes, mas todos têm a mesma vontade de circular
pelas ruas. Voltando aos nossos vizinhos, às vezes os argumentos não os
convencem bastante e pedem ajuda à polícia. Uma cidade como Lublin ainda é pouco tolerante quanto às
modalidades desportivas além do futebol ou ciclismo. Poucos sabem que os
melhores skateboarders da Polónia são
da região de Lublin.
O longboard
chegou a Lublin só há três anos, mas a sua história é bastante longa e confunde-se muito com a
história do skateboard. Afinal, é
tudo skate, e até à década de 1980 não havia muita distinção entre as modalidades. O skate
como conhecemos surgiu a partir de uma necessidade. Surfistas no Havai e na
Califórnia no final dos anos 1950, em dias sem ondas, adaptavam tábuas com trucks daqueles patins antigos e rodas
de metal. Assim, podiam praticar movimentos do surf no asfalto.
Em Lublin, a situação foi distinta. O
movimento nasceu da procura de uma modalidade semelhante ao snowboard para
praticar durante os meses quando não havia neve. Em 2011 foi criado o grupo Lublin Longboard Crew, que, através da
página no Facebook atraiu já uns 40 membros.
Os princípios não foram nada fáceis.
“Encontrar outras pessoas que faziam longboard
em Lublin foi como “encontrar vida extraterrestre”. Não havia uma loja em
Lublin onde se pudesse comprar um longboard.
Só se podia fazer compras em Varsóvia ou pela internet”- diz Krzysztof, um dos
fundadores do grupo. “Aprendemos a andar de longboard
e como fazer as primeiras manobras vendo vídeos na internet. Foi num
grupo de Madrid que nos inspirámos para começar um movimento em Lublin. Queríamos
cativar pessoal novo para o desporto e trazer o pessoal que já andava dentro da
cidade. Falhamos e aprendemos com os nossos erros. Agora fazemos workshops para quem está a
pensar iniciar-se no longboard. Ter
aulas pode ser uma boa maneira de evitar quedas desnecessárias”- continua.
Os encontros dependem muito das condições
atmosféricas. “Há dois anos isso não era um problema porque podíamos praticar num
parque de estacionamento de um centro comercial” diz Wojtek, um dos primeiros a
andar de longboard em Lublin. “No
entanto, havia cada vez mais pessoas e tornou-se impossível que 20
participantes fizessem dancing entre os carros. Tivemos de mudar para a
rua. Andávamos muito em Felin, numa zona industrial fechada ao trânsito”. Havia tantas pessoas interessadas em começar
a andar que nasceu a ideia de fazer cruising . O longboard tem como
base a possibilidade de percorrer as ruas sem andar a pé. “Circula-se pela
estrada, com carros sempre ao lado, mas todos levamos capacetes, isso é
fundamental, e proteção nas mãos e nos joelhos”- explica Wojtek. “Sabemos que o
nível dos participantes é diferente e incentivamos quem não tem um nível
bastante bom a fazer as partes mais difíceis do percurso com o skate na mão”-
sublinha.
O Lublin
Longboard Crew está sempre disposto a ajudar a começar a aventura com o longboard. “Sabemos da nossa própria
experiência que não é fácil escolher um equipamento adequado da modalidade de
longboard que se quiser praticar” – diz Kuba da FunkySkate, uma loja fundada em
2012, especializada em todos os tipos de equipamento para praticar snowboard, skateboard e longboard.
Sim, o longboard também tem as suas
modalidades. Existem diversos modelos, tamanhos e formas de tábuas, cada uma
para uma modalidade e finalidade específica. Cruising é aquele passeio
no parque ou pelas estradas sem se importar muito com slides e manobras. Pode ser combinado com um pouco de freestyle e
dancing em ladeiras leves ou uma superfície plana. Downhill é
talvez a modalidade mais famosa do longboard,
trata-se de descer ladeiras fazendo slides agressivos, o que requer
bastante técnica e equipamentos apropriados como capacete, cotoveleiras,
joelheiras e luvas de slide (aquelas que têm um plástico redondo na
palma). Freestyle é mais parecido com o skate comum, pode-se fazer
qualquer coisa: manobra, dancing, manual, utilizando tudo que estiver no
ambiente. Dancing é a arte de dançar na tábua. Essa modalidade pode ser
muito bem utilizada com um freestyle,
as pessoas praticam-na nas tábuas compridas, até semelhantes às pranchas de
surf.
“Uma decisão de compra tem a ver com dinheiro
então é muito importante escolher bem. Antes de abrirmos uma loja em Lublin as
pessoas tinham de comprar online o que, para alguém que se está a iniciar na
modalidade, não é nada apelativo, até porque convém ter alguém com quem falar e
a quem pedir uma opinião”, afirma Kuba. “Mesmo para quem não se está a iniciar,
pegar no material é diferente de estar a ver apenas uma fotografia na
internet”- acrescenta.
“Também por isso incentivamos os novos
adeptos a virem a um encontro para experimentar vários tipos e tamanhos de
tábuas. Ajudamos também a começar a andar e na escolha do outro equipamento.
Durante os encontros trocamos as experiências, dicas e ideias para os próximos
percursos”- resume Wojtek.
Num daqueles encontros, apareceu Przemek, na
altura um rapaz tímido, introvertido, sem autoconfiança. Começou por praticar dancing
e apaixonou-se por esta modalidade. Agora ele mesmo ensina como dançar e
mostra os passos diferentes. “ O longboard
permitiu-me tornar-se uma pessoa aberta e segura de mim. Estou contente que
agora posso motivar outras pessoas para fazerem o mesmo” - diz Przemek.
Entre os adeptos de longboard não encontramos muitas raparigas. “O problema é que a
maior parte das meninas tem medo das quedas”- diz Karolina, uma rapariga de 20
anos que participa com frequência nos encontros. Ela própria também diz que às
vezes é “um bocado cobarde”. As raparigas em geral preocupam-se mais com o seu
aspeto físico imaculado.
A atividade do grupo no Facebook cresce
rapidamente. “Quase todos os dias temos pedidos de adesão ao grupo, as pessoas
combinam individualmente encontros e a página torna-se um sítio onde se pode
também livrar-se do equipamento que já não é usado. Começamos por uma página
onde pusemos vídeos dos Estados Unidos, Brasil e da Espanha. Agora os adeptos
criam os seus próprios vídeos que provam que o nível sobe. Estamos muito
orgulhosos do nosso trabalho e convidamos a quem está interessado a seguir-nos na página do Facebook e participar nos
próximos eventos” - diz Wojtek.
Monika Czarkowska-Guziuk
2º ano de mestrado em Estudos Portugueses
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Lublin,
Polónia
sábado, 4 de abril de 2015
terça-feira, 31 de março de 2015
Dois dedos de conversa com... Michał, luthier.
Chama-se Michał, tem
30 anos, é de Białystok. Estudou em Lublin mas agora vive e trabalha em Varsóvia.
É uma pessoa normal, psicólogo. O que o faz extraordinário
é o seu passatempo que está a converter na sua nova profissão. É um luthier,
faz instrumentos de corda. Para ser mais
concreto – um tipo de instrumento com seis (ou sete) cordas e caixa-de-ressonância,
parecido ao violoncelo, mas com trastos. Uma viola da gamba, instrumento
barroco com som muito agradável, mas não tão popular como o violoncelo ou
contrabaixo – algo a meio caminho entre estes dois.
Michał não tem
nenhuma preparação profissional para isso. É um luthier autodidata. A ideia de
fazer instrumentos nasceu num festival da música folclórica em Lublin onde viu
um homem com instrumentos feitos de madeira, de latas, de peças metálicas... Tinham
forma estranha, mas produziam som, mesmo uma melodia gira. Isso mostrou-lhe que
se pode fazer uma coisa dessas por si mesmo. Assim começou a pensar em fazer
algum instrumento parecido, a verdadeira viola da gamba, só para poder aprender
a tocar e praticar. Sempre quis ter uma, mas isso era impossível por causa do
preço. Os instrumentos deste tipo são muito caros, o preço chega até alguns
milhares de euros.
Não sabia nada de
acústica nem como construir instrumentos. No
entanto, em dois meses conseguiu fazer um instrumento que apesar da falta de
aparência da viola, soava exatamente como ela. Tudo teve lugar na cave da sua
casa em Białystok, onde Michał passava todo o seu
tempo livre, às vezes saindo só para comer e beber.
Hoje reconhece que o
seu objetivo foi fazer algo que tivesse som, não esperava mais. E já tendo um
protótipo podia praticar. Graças a ter um ouvido muito bom (ou seja, absoluto)
não tinha problemas com isso. Aprendeu a tocar e continuou praticando com a viola
feita por ele durante seis anos. O instrumento tinha um aspeto um pouco
estranho, em vez de colar as peças, Michał juntava-as com parafusos o que deu ao instrumento o ar de estilo steampunk. Não foi envernizado mas
depois de alguns anos foi pintado tal como uma das guitarras de Eric Clapton.
Durante esse tempo
na cabeça de Michał crescia uma nova ideia, fazer outro instrumento, mas já de
maneira como deveria ser feito. De maneira, digamos, profissional. Pesquisou informações
na internet, recolheu dados, viu as fotografias. Não podia perguntar a alguém
diretamente como se faz certas coisas, porque na Polónia não havia nenhuma pessoa
que fizessem isso. Durante essa época de pesquisa esteve em alguns concertos de
música histórica onde podia tocar e ver de perto as verdadeiras violas da
gamba. Recolhendo toda essa experiência, decidiu finalmente começar os
trabalhos. Foi em 2012 que transformou um dos
quartos da sua casa numa oficina de luthier e comprou as primeiras peças de
madeira.
Rapidamente chegou à
conclusão que vai precisar das ferramentas que nunca tinha visto e das quais
sabe pouco. Mas isto não impediu o trabalho. Se não podia comprar alguma coisa
(que fazia normalmente nas lojas estrangeiras pela internet), construía. Isto
ocupava mais tempo mas Michał não tinha pressa. Passava cada momento livre na
sua oficina de luthier, às vezes fazendo intervalos muito longos no trabalho,
porque esperava a encomenda de outro país com certo tipo de madeira comprada pela
internet.
Já no princípio
deste projeto decidiu que vai documentar cada movimento seu com fotos. Criou um
site onde cada dia punha as fotos. Assim os amigos dele podiam ver como vai o
trabalho e não só os amigos. Tem muitos seguidores que o felicitam cada vez que
acaba alguma parte dos seu instrumento.
Se a primeira viola
da gamba que fez ocupou-lhe dois meses, a segunda precisava de mais tempo.
Também dois, não meses mas anos. Tudo isso por necessidade de encontrar por ele
mesmo soluções técnicas que não conhecia antes. Celebrou o dia em que acabou
completamente o instrumento com uma garrafa de espumante. A viola da gamba que
fez era um instrumento verdadeiro, com todos os detalhes necessários, como se
saísse de oficina de um luthier profissional. Tem sete cordas, o que amplia a
escala do som. Soa alto e profundo.
Já tendo a oficina
de luthier completamente equipada decidiu continuar com a produção de violas da
gamba. A recém terminada é sua, mas outra que já começou a fazer vai querer
vender. E provavelmente ganhará muito com ela. Assim quer também mudar
completamente a sua ocupação que é o trabalho de psicólogo. O seu sonho é fazer
instrumentos e que isso seja o seu trabalho verdadeiro, não só o passatempo.
Diz que a viola que
está a fazer agora, a segunda da sua oficina de luthier, já não deveria
ocupar-lhe tanto tempo porque já tem todas as ferramentas que precisa e também
um pouco de experiência que ganhou fazendo os dois primeiros instrumentos. Vai continuar
também documentando com fotos os seus trabalhos. De fato, já está a fazê-lo. Tudo
se pode ver no site goldenviol.tumblr.com.
O que é mais difícil na construção do instrumento?
Michał: Os mais difíceis são todos esses momentos quando tenho
de ser muito preciso. Em cada parte de trabalho há esses momentos. O pior é fazer
um erro na fase de preparação do desenho técnico e dar conta na fase da
construção. Pois, é muito fácil enfurecer-se neste momento. Depois pode-se mudar
da conceção, fazer esta parte outra vez desde zero ou aceitar que esta parte do
instrumento vai ser imperfeita. O
difícil é também recolher os dados sobre o tamanho e tipo de madeira do
instrumento que quero fazer. Tenho de procurar muito na internet.
Estás contente com os instrumentos que fizeste até agora?
Michał: Sim e não. Sim, porque a primeira viola teve dois objetivos:
poder tocar e que soasse mais ou menos como viola da gamba. E estes objetivos
foram alcançados. Não, porque não era o instrumento verdadeiro, feito segundo
certas regras. Estou contente com a segunda viola que fiz porque soa melhor, tem
som mais alto, é mais leve e mais cómoda para tocar. Realizei o objetivo de
fazer o instrumento verdadeiro. Não estou contente porque tem alguns erros e más
soluções técnicas. Além disso, ainda não tem o som que procuro. O primeiro
passo foi feito mas ainda tenho muito por fazer. O descontentamento é um bom
sentido porque dá a força para continuar com este trabalho.
O que dá mais satisfação em ser luthier?
Michał: Não sei quando é esse momento em já és um luthier. É
mais o processo de converter-se nele que o ser. É uma boa oportunidade de expressar
a minha criatividade. Posso sentir-me como um criador porque crio o novo
objeto. É uma ocupação muito fascinante. Além disso, crio uma coisa que posso vender
por muito dinheiro.
O que dirias às pessoas que se queixam do seu trabalho mas não fazem nada
para mudá-lo?
Michał: Se não gostas do que fazes, não gostas do sítio onde
estás, muda algo. Não és uma árvore, não tens raízes. O facto que não tens
preparação para fazer algo não significa que não podes fazê-lo. Tenta antes de
dizer que não sabes fazer algo.
Estera Małek
2º de Mestrado em Estudos
Portugueses
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sábado, 28 de março de 2015
O conto da Mosca Muda sobre o Mordedor
- A Mosca Muda vai contar a sua
história – decidiu a Aranha de Duas Cabeças e o resto dos bichos assentiram
cheios de alegria. Poder sentir as feromonas da Mosca Muda, que, desde que
entrou no grupo com a sua companheira Aranha, não disse nenhuma palavra, era
uma tentação muito grande. O inseto moveu o seu probóscide num gesto de
consentimento e soltou as primeiras palavras.
Era uma história dos tempos passados,
quando ainda os monstros caminhavam pela terra e não havia Grandes Ninhos.
Entre os seres racionais reinava a lei mais antiga de todas as leis antigas,
presente ainda antes da velha Lei do Poder. A esquecida Lei da Morte.
- Uma família da minha espécie, eu não
provenho dela, mas conheço outras moscas que sim, viajava pelo céu, como nós
temos a costume e não seria nada de especial se não chegasse, seguramente por
casualidade, até o fim do mundo. Não era o fim do mundo verdadeiro, afastado,
vazio e sem nenhuma coisa para comer. Era um extremo mais próximo. Não tinha
areia em baixo e vento em cima, todas as paredes eram frias, escorregadias e
brilhantes. Era um sítio, onde o tempo não existia, estava sempre calor e luzia
uma fila de compridos sóis azuis.
Mas o mais importante era que havia ali
imensas quantidades de comida, carne da melhor qualidade. Não como a nossa, dos
bichos, era carne dos monstros, vermelha, saborosa e seca. Montanhas, montanhas
de carne dos monstros. As moscas decidiram que era um lugar perfeito para
viver, assim puseram os ovos e começaram a comer.
A má verdade sobre este extremo do
mundo conheceram depois, quando apareceu o Mordedor. O monstro era invisível
para a sua vista e olfato, não produzia nenhum som e não tinha sombra. Contavam,
que tinha tanta força que podia transformar uma mosca grande e gorda numa
mancha de sangue e era o que fazia. Trazia a morte a qualquer uma que pousava
só por um momentinho para descansar as suas asas. Não caçava para saciar a sua
fome. Havia comida suficiente para todos, também para o monstro. Além disso
deixava os cadáveres no sitio onde caiam. Rapidamente e com muito sangue espalhava-se
a não-vida entre a jovem colónia das moscas.
Algumas delas conseguiram sobreviver à
ira da besta e puseram-lhe um nome, o Mordedor, porque uma só dentada sobrava para
cair morto. As que escaparam, contavam histórias incríveis. Segundo elas, o
monstro mostrava o seu rosto um momento antes do ataque, e era da cor mais bela
(amarela), e assobiava como uma carraça esfomeada, só que mais alto e forte,
fazendo anunciar a sua chegada. No começo poucos acreditavam nas suas palavras.
As outras moscas diziam que estavam loucas ou doentes, mas as histórias
começaram a circular e repetir-se com tanta frequência que a história sobre o
monstro Mordedor de um conto passou a ser uma Verdade; e vivia, como a Verdade,
com a sua própria vida.
Um grupo procurava nele a figura da
Primeira Serpente, que devorava o seu rabo. A Serpente que é o começo do mundo
e o seu final ao mesmo tempo, a que cria e destrói tudo. Outras achavam, que
por casualidade entraram no ninho do Demiurgo e a epidemia de não-vida era um
castigo por comer a carne com que criava novos monstros semelhantes a ele. Mais
perto da solução do enigma estava outra Verdade que descrevia o Mordedor como
um predador, com desejo de caçar, como a aranha, mas que apreciava a astúcia
das suas vítimas. Por isso, embora fosse invisível, mostrava o seu rosto e
deixava fugir os que podiam fazê-lo.
Finalmente, a natureza do Mordedor
deixou de ser tão importante. As moscas acostumaram-se a estar atentas o tempo
todo e o seu número lentamente aumentava. Então começaram a ser mais insolentes
e deixaram de temer o monstro. Algumas até apostavam qual delas fugia dos seus
dentes durante mais tempo. Foi isto o que enfureceu a besta.
Isto aconteceu numa época, não se sabe
se durante o dia ou a noite, porque naquelas terras não havia muita diferença
entre elas. O monstro voltou a atacar. Era mais rápido, mais aferrado e matava
cada mosca que podia alcançar com o seu olho da cor mais bela que via tudo. O voo não ajudava na fuga porque a
besta pulverizava um ácido que cheirava muito bem, doce e suculento, mas se
colava às asas e forçava as moscas a aterrar. Num abrir e fechar de olhos as
moscas jaziam uma ao lado de outra, mortas ou quase mortas, e só neste conto as
corajosas Viajantes, que encontraram o Mordedor, são mencionadas.
***
O M. era um novo empregado num talho.
Gostava de facas e carne, por isso era um trabalho perfeito para ele. O único
defeito eram as moscas omnipresentes, que todos para além dele pareciam
ignorar. Apanhou um mata-moscas e um aromatizador de pêssego e depois de acabar
com os bichos saiu para fumar um cigarro. Não sabia que a lembrança sobre ele
ia durar muito mais do que ele mesmo e de uma forma que não podia imaginar.
(Inspirado na canção "Mosca na Sopa" de Raul
Seixas)
Natalia Sławińska
1º ano de Mestrado em Espanhol
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quinta-feira, 26 de março de 2015
O vegetarianismo aos olhos dos carnívoros
Há quase quatro anos que
sou vegetariana e estou muito orgulhosa da minha decisão. Isso significa que não como
os animais (sim, os peixes também pertencem a este grupo), não compro os
produtos de couro, por exemplo os sapatos, e não compro os cosméticos testados
em animais. Para tomar essa decisão tive de pensar muito nas vantagens e desvantagens
da dieta vegetal, li muitos livros sobre esta temática e falei com os
vegetarianos que conhecia. Quando fiz 18
anos decidi oferecer a mim mesma a melhor prenda de todas e tornei-me
vegetariana. O meu primeiro motivo para fazer isso foi a grande sensibilidade,
o amor aos animais e a vontade de viver em harmonia comigo mesma e com o mundo
inteiro.
Inicialmente a minha
família não ficou muito surpreendida porque pensavam que era só uma das minhas
ideias loucas que ia fracassar. Pensavam que em algum momento eu ia
aborrecer-me da ideia de melhorar o
mundo e que ia voltar à mesa posta de filete de carne com batatas, mas isso
nunca aconteceu. Passavam dias, semanas e meses e eu ficava cada vez mais
convencida das minhas razões. Os meus pais começaram a preocupar-se comigo e eu
sentia-me melhor do que nunca. Enquanto os meus amigos pensaram que era
excêntrica e até perguntaram se podiam fazer algo por mim para ajudar-me a lutar
com minha „enfermidade”.
Rapidamente passaram quatro
anos desde o dia em que a minha vida mudou radicalmente. Durante todos esses
anos observei com atenção os comportamentos da minha família e dos meus amigos
quanto ao vegetarianismo. Hoje sou mais rica com esta experiência e posso
compartilhar com os outros as minhas observações e conclusões. Vou apresentar
então certas opiniões dos meus amigos carnívoros.
O que é o vegetarianismo segundo as pessoas “normais”
(quer dizer que comem carne)?
O vegetarianismo é uma
dieta que consiste em comer exclusivamente erva, cenoura e rebentos de plantas.
Teve início na antiga Índia cujos cidadãos costumavam comer tudo o que se movia
ou não se movia por estar morto. Mas depressa se deram conta de que tudo o que
era saboroso e agradável ao paladar tinha sido comido e nos campos só ficaram
as ervas que depois se tornaram a base
do vegetarianismo.
O líder dos
vegetarianos e ao mesmo tempo o seu deus é o Senhor Deus Soja, e como é
característico para Deus, pode aparecer sob várias formas, como por exemplo algo
que parece carne do animais, o leite ou
qualquer outro produto alimentício. Um homem simples (quer dizer o carnívoro)
teria graves problemas de digestão depois de comer qualquer das formas do Soja
e seria obrigado a passar muitas horas fechado entre as quatro paredes do
quarto de banho.
O indivíduo vegetariano,
evidencia uma série dos transtornos mentais, está sob o poder do Diabo e quer
mudar mundo a qualquer preço.
Caracteriza-se por ser fraco e pálido. É considerado um dos maiores inimigos
dos ecologistas por comer o que eles defendem.
Espero ter elucidado
um pouco o tema do vegetarianismo e as maneiras de percebe-lo pelos meus
amigos-carnívoros. Queria também encorajar todos para pelo menos tentarem
experimentar a dieta baseada nos alimentos de origem vegetal.
Aqui apresento também algumas frases que
cada vegetariano tem de ouvir pelo menos uma vez na sua vida:
-Não comes carne, mas as plantas também
sentem dor e têm sentimentos!
-Se não comeres carne, ficarás doente.
-Não se comem os animais vivos mas
mortos e os mortos não sofrem.
-Os cristãos não podem ser
vegetarianos, só os ateus podem.
-Jesus também comia carne.
-O homem é criado para comer carne e
para matar os animais!
-De onde consegues proteína?
-E comes peixes?
-Como é que te vais casar? (A pergunta
feita pelas avós)
-O que é que comes na verdade?
-Não tens medo de morrer?
-Porque te preocupas mais com os
animais do que com os homens?
-Sabes, diz-se que o Hitler também era
vegetariano...
Aleksandra Rogala
3º ano de Filologia Ibérica
terça-feira, 24 de março de 2015
Ecce árvore!
Eram 9 da manhã. Nenhum raio de sol,
nenhum sorriso nas caras dos pedestres na rua. Naquele dia, Lublin era mesmo
muito feia. Não estavam mais que 4 graus acima de zero, nem havia esperanças
que a Primavera cedo chegasse. Mas o que mais importava, era a chuva constante
que não parava! Estava a chover para caraças! Já disse como detesto a chuva? Aquele
líquido repugnante que descaradamente costuma cair no chão, sem qualquer
permissão, e que não nos permite pensar logicamente? Pronto. Além disso não
trazia comigo nenhum guarda-chuva. Nunca trago, mas a razão é muito óbvia.
Simplesmente não posso descer ao nível da chuva, tentando lutar com ela como se
eu fosse um Don Quixote que achava que poderia ganhar contra os moinhos de
vento. Que tola que era... Mas pronto. Ainda faltavam muitos metros ou até quilómetros
para atravessar estas flutuantes e mega sujas ruas de Lublin, por isso
precisava, mas precisava mesmo de um plano que me ajudasse a sobreviver neste
momento traumático.
Decidi então pensar,
ou seja, fingir que realmente não sentia que o meu sapato esquerdo estava
completamente encharcado. Que porreiro! - pensei ironicamente, mas pelo menos
pensei! Então o meu plano começou a funcionar. Só faltava mudar o curso do meu
pensamento, encontrar um pretexto! Sim! Mas mais três passos e o sapato direito
compartilhou o destino desprezível do primeiro. Já navegavam alegremente
juntos, como se estivessem nas profundezas do oceano. O meu cabelo também
estava totalmente molhado. Por um segundo até pensei que com este ar, poderia atuar
na cena mais dramática do naufrágio do Titanic. Só me faltava uma porta velha e
um Jack congelado, a quem poderia deixar no centro de uma poça de água. Mas
pronto, já tinha chumbado nos exames de admissão para a escola de teatro, então
era melhor deixar este assunto e não me meter mais no papel de actriz. Decidi,
portanto, começar a cantar! Isto não quer dizer que canto como Whitney Houston
ou Celine Dion, a verdade é que acho que nem chego até às habilidades vocais da
Britney Spears (penso que tenho mais ou menos o nível vocal do vocalista da
banda polaca Weekend), mas naquele
momento isso não importava. Outra quantidade de água, que de repente caiu a
partir de um telhado, impulsionou esta maravilhosa ideia de cantar. Fooo...
força menina! - gritou alguém na minha cabeça! Uma voz muito optimista, mas
provavelmente de alguém que já tinha bebido pelo menos três cafés e estava
deitado na cama quentinha, com um livro de Dostoyevski... A minha mãe sempre me
disse: quem não arrisca não petisca! Assim comecei pela música do meu
repertório quotidiano, tipo Yesterday dos
The Beatles ou Kolorowe Jarmarki, mas não conhecia mais que cinco versos de cada
uma. Além disso, o sentimento terrível da água constante não me deixava.
Resolvi então, concentrar-me mais e assim alienar-me dos meus problemas. Lembrei-me da
melhor época da minha vida, ou seja, da minha infância, quando costumava criar
as minhas próprias canções com as letras maravilhosas que agora seguramente
figuravam no top da música pop. Nem 10 anos tinha, quando produzi as minhas
primeiras canções com os meus próprios direitos de autor. Eram em inglês, mas
ninguém me importava com o facto de que só quando tinha 12, é que comecei a
estudar este idioma. Ah, que memórias... Mas pronto, de volta ao tópico, como
já posso dizer que o meu português não é nada mau, decidi criar uma música com
aroma lusitano. Mas as primeiras palavras que surgiram na minha cabeça foram: Já está tudo preparaaado, e logo algo do
tipo: Piri, pipire, pire piradinha, Ela
tá maluca ela tá doidinha! Não vejo nenhum mal na música brasileira mas só
quando estou no mode Erasmus. O sol
algarvio, as brasileiras em biquíni (os brasileiros também) e a caipirinha na
mão. Infelizmente estas memórias não se encaixavam de todo na paisagem de
Lublin no inverno. Por isso decidi procurar mais algumas músicas, digamos,
europeias e finalmente optei pela minha fadista favorita, quer dizer, Mariza.
Mas que tristeza! Quando comecei a cantar os primeiros versos da sua música,
dei-me conta de que o título dela era Chuva!
Imediatamente apercebi-me que não havia outra chance senão regressar aos tempos
de infância e começar a criar algo por mim própria, algo totalmente novo,
fresco e criativo! Gostei tanto desta ideia que até decidi fechar os olhos.
Pois, diziam-me sempre que isso ajuda na criatividade, e eu precisava, desesperadamente,
de uma inspiração forte! O único problema era que naquele momento estava no
caminho, no movimento constante, rodeada de pessoas e de outros objetos esquisitos.
Mas mesmo assim, decidi arriscar, pois quem não arrisca... (amo-te mãe! Beijinhos!).
Então, fechei os olhos. O primeiro sentimento foi mesmo agradável, senti-me
como se me encontrasse com uma musa da inspiração, parecida com as mulheres
pintadas por Boticcelli, loira, gira com o cabelo grande, andando num cavalo
branco e correndo na minha direção. Que prazer! Que beleza! Que inspiração! De
repente as palavras começaram a surgir na minha mente sem nenhum esforço.
Naquele momento senti-me quase como uma poetisa! Agoraaa, la la la, a razão vaaaai
obviamente, la la la, reganhar energias! - comecei a cantar com uma paixão
indescritível! Até me senti muito inteligente! Mas a impressão seguinte foi
apenas a dor enorme provocada por uma pancada na minha testa. No início pensei
que foi um cavalo que não conseguiu abrandar e assim bateu-me na cara com um enorme
ímpeto, mas quando abri os olhos, reparei apenas numa árvore enorme. Que diabos é isto?
Uma árvore no meio da calçada? Perfeito. Acho que às vezes se exagera um pouco
com esta ecovida design, tentando ter
mais forças que a própria natureza, e achar que se pode interferir nela,
plantando uma árvore no meio da calçada, como se esta árvore pobre e solitária
pudesse ser feliz por lá estar. Mas, este não é o momento adequado para me
debruçar sobre os direitos humanos de intervir na natureza. Por causa da dor
que se espalhava por todo o corpo, fiquei imóvel durante alguns bons minutos. E
não sei porquê, mas a cada segundo olhava para esta árvore com um fascínio
maior. Ecce homo – disse uma vez
Pôncio Pilatos, mas eu mais diria: ecce árvore!
Sorri para mim mesma. A chuva terminou. Até o fraco sol de inverno, surgiu por detrás
das nuvens. Por uma última vez olhei para a minha árvore e decidi voltar diretamente
para casa. Durante todo o caminho cantei a minha música mágica, criando novas
melodias, mas sem mudar a letra.
Quando entrei em casa, peguei numa caneta e
escrevi o texto todo: AGORA RAZÃO VAI OBVIAMENTE REGANHAR ENERGIAS, Agora -
Razão – Vai - Obviamente – Reganhar – Energias, A (gora) R (azão) V (ai) O
(bviamente) R (eganhar) E (energias). Ecce
ARVORE! – gritei. A partir daquele momento, realmente comecei a apreciar a
chuva. Também decidi que se a minha carreira de grande cantora não der certo, tornar-me-ei
filósofa ou poetisa e começarei a plantar árvores (mesmo no meio das calçadas).
Joanna Dudek
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses
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Palavras soltas,
Sem papas na língua
sexta-feira, 20 de março de 2015
‘PRZYSTANEK WOODSTOCK’ – o paraíso na terra ou um caminho para o inferno?
PrzystanekWoodstock é um festival musical organizado na Polónia há 20 anos. O
seu nome é derivado do lendário festival Woodstock
e da série da televisão dos anos 90 – Przystanek
Alaska (No Fim do Mundo). O
festival é organizado anualmente para cumprir o seu objetivo principal, ou
seja, para agradecer aos voluntários que ajudam e colaboram com a Wielka Orkiestra Świątecznej Pomocy (ONG
polaca que desde 1993 já angariou cerca de 140 milhões de euros usados na
compra de equipamento hospitalar). O festival, tem lugar em Kostrzyn nad Odrą, e
é completamente gratuito. Embora Przystanek Woodstock seja considerado por
muitos o melhor festival no mundo, não faltam as pessoas que criticam este
evento. O que é tão especial no Woodstock que provoca tantas controvérsias?
Pagão, satânico, escandaloso, cheio de bêbedos e drogados...esta
é a visão estereotipada do Woodstock. Segundo
muitas reportagens ficamos a saber que este evento é um lugar de barulho insuportável,
poeira, fedor, onde as pessoas vestem a roupa estranha e não fazem nada mais do
que tomar banho na lama. Antes do Woodstock aparecem na internet artigos com os
avisos para os pais. “Não permitam os seus filhos ir ao Woodstock. Podem não
regressar.” – escrevem. Surpreendentemente passei três dias em Kostrzyn nad
Odrą e regressei a casa sã e salva, sóbria e com muitas lembranças.
O que é visível desde o primeiro minuto no Woodstock é a
multidão de pessoas de várias idades, incluindo as crianças e as pessoas
idosas, várias subculturas e vários gostos musicais. O fenómeno deste festival
é que é possível encontrar todos: polacos, estrangeiros, pessoas de distintas
educações, religiões e opiniões políticas. Apesar destas diferenças entre os participantes,
a violência está ausente. Pelo contrário, o que está presente todo o tempo são sorrisos, abraços entre
desconhecidos e ‘Dá cá mais cinco’.
Em Woodstock a diversidade concerne não só os
participantes mas também os músicos e os artistas que são convidados para a Akademia Sztuk Pięknych (Academia de
Belas Artes). Anualmente é organizada uma série de encontros com personalidades
conhecidas na Polónia, mas também não faltam os convidados estrangeiros. Numa
tenda especial reúnem-se com os participantes do Woodstock, respondendo às suas
perguntas e falando sobre as suas atividades. Este é o espaço onde as pessoas
têm uma grande oportunidade para ouvir debates, cujas temas variam da arte à
liberdade ou dedicação. É o lugar onde se discute com os padres sobre religião,
com os escritores sobre literatura ou com políticos sobre a situação no país.
Mas a ASP não
se compõe só de encontros e discussões. Também organiza muitas atividades
artísticas, como as aulas práticas dedicadas a teatro ou dança. Não faltam as
palestras sobre por exemplo motivação efectiva, emissão vocal ou prevenção da
violência contra as mulheres.
Não se pode esquecer que Woodstock é um festival musical,
onde a música acompanha os participantes durante três dias sem parar. A música
é muito diversa, todas as pessoas podem encontrar algo adequado. É normal que por
exemplo ao mesmo tempo num palco atua um grupo de punk, noutro um grupo de
reggae e num terceiro um grupo de música religiosa. Todos os elementos já mencionados fazem com que muitas
pessoas reservem sempre o último fim de semana de Julho para ir a Kostrzyn e
passar pelo menos três inesquecíveis dias.
Patrycja Pluta
3º ano de Filologia Ibérica
NR: Na edição da 2014 passaram pelo festival 750 mil pessoas.
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