sexta-feira, 29 de maio de 2015

Yana Andreeva no Centro de Língua Portuguesa/Camões em Lublin

Nos dias 19 e 20 de maio de 2015 a Dra. Yana Andreeva da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski proferiu no nosso Centro duas paletras subordinadas ao tema: O Teatro de José Saramago: entre a História e o Mito.

"A figura de José Saramago (1922-2010) foi uma das figuras mais imponentes entre a intelectualidade europeia e mundial das últimas décadas, não apenas pelo projeto estético que a sua escrita defendia, mas também pelo projeto ideológico que a sua presença ativa de humanista militante fazia chegar à sociedade internacional por todas as vias que lhe eram possíveis, desde a intervenção nos mais diversos fóruns, passando pelas muitas entrevistas e chegando ao blogue que mantinha nos últimos anos da sua vida.  A grande realização criativa de Saramago projeta-se no terreno do romance, mas o seu teatro, embora de produção mais parca, contando com apenas 5 títulos, não é menos merecedor de atenção, por apresentar interpretações originais de diversas épocas da história portuguesa e europeia, projetadas no presente, e por oferecer a visão da dimensão humana da história através de personagens magistralmente elaboradas.
Saramago explica a sua tentação pelo teatro com uma necessidade intrínseca de usar a forma dramática para levar didaticamente ao palco a sua mensagem. Todas as suas peças foram escritas a partir de encomendas que lhe foram endereçadas por gente de teatro ou por instituições culturais, justificando-se assim que a escrita dramática tenha representado para  Saramago um desafio. Talvez por isso o autor seja ambíguo, ao avaliar o seu desempenho como dramaturgo, em vários textos de depoimento pessoal, que aqui serão evocados.
Com o objectivo de evidenciar as linhas de força que permeiam a dramaturgia de José Saramago, apresentam-se, por ordem cronológica de escrita e publicação, as cinco peças do autor, focando os seus argumentos, estrutura dramática, tempo e espaço da ação, personagens e conflitos, assim como os aspetos temáticos mais relevantes, como a seguir se indica:
A Noite (1979): a censura nos média; o intelectual e o poder; a liberdade de consciência e de expressão; o discurso de esquerda entre a intelectualidade contemporânea; o  compromisso do intelectual com a verdade.
Que Farei com Este Livro? (1980): a liberdade de pensamento e de expressão; a censura inquisitorial; os compromissos da escrita literária; as relações de produção no meio cultural e literário, a reinterpretação do mito camoniano; o destino da literatura e seu papel na sociedade moderna
A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987): o discurso do poder e a perda de sentido das palavra; a integridade moral e a luta pelo poder; a pobreza: ideia fundadora da doutrina cristã e da prédica franciscana, a cruzada a favor da pobreza e contra a riqueza; a dessacralização do mito cristão da pobreza pela reversão ideológica do conceito da pobreza; a substituição do mito cristão da pobreza pelo mito humanitário da erradicação da pobreza; a denúncia social e humanitária do atual estado do primeiro mundo, da crise de valores da sociedade de consumo contemporânea, do desrespeito, sob o disfarce dos procedimentos democráticos, das regras éticas de base.
In Nomine Dei (1993): a sede de justiça; a brutalidade e a falta de sentido da violência; a fé, a credulidade e a esperança; a utopia igualitária como pretexto para praticar o fanatismo e a violência; o homem  dominado pelo homem num mundo entregue às forças irracionais.
Don Giovanni, ou o Dissoluto Absolvido (2005): a perda da memória do passado como privação de identidade; o inferno metafísico e o inferno humano; a expiação, com a desonra pública, dos pecados coletivos; a hipocrisia social; a humilhação do homem pelo homem, a vingança e a compaixão; a experiência lúdica como instrumento de desmitificação de ideologias dominantes e poderes estabelecidos. As análises e reflexões formuladas neste ciclo de conferências permitem evidenciar que a produção dramatúrgica de José Saramago se apresenta no seu conjunto como um teatro ao mesmo tempo político e existencial, teatro de ideias e de emoções, revelador de profundas contradições éticas e sociais. Todas as peças centram a ação em torno de um conflito que opõe formas de pensar e de agir entre si irreconciliáveis. Os textos aproveitam personagens e momentos conhecidos da história portuguesa e europeia, retomando tematicamente as relações entre conhecimento e alteridade, a que atribuem uma forte implicação temporal. O denominador comum da dramaturgia de Saramago é a sua insistência em trazer para o presente, reconvertendo-os, os exemplos históricos, culturais ou mítico-fabulares pelos quais o autor sente um inegável fascínio. O sentido da reinterpretação das figuras e acontecimentos que configuram o universo dramático saramaguiano é a atribuição, a essas figuras e a esses acontecimentos, de uma profunda dimensão humana que explicita, aos olhos do leitor, o projeto ideológico de José Saramago." Yana Andreeva*

*Yana Andreeva é Professora Associada no Departamento de Estudos Ibero-Americanos da Faculdade de Letras Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski, na Bulgária. Leciona cadeiras de Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira. Doutorou-se em Literatura Portuguesa Contemporânea com a tese “A escrita autobiográfica na obra de Fernando Namora” (2006). É autora de três livros sobre escritores e temas da literatura portuguesa contemporânea, de numerosos prefácios e artigos, organizadora de três antologias da Literatura Portuguesa e de vários volumes coletivos, dedicados a temas na área dos estudos do mundo lusófono.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Helena Topa Valentim no Centro de Língua Portuguesa/ Camões em Lublin

Nos dias 13 e 14 de maio, a Dra. Helena Topa Valentim, da Universidade Nova de Lisboa, proferiu duas palestras no CLP/Camões em Lublin.  O tema abordado foi a Determinação nominal e determinação verbal em Português. Esta série de seminários pretendeu sobretudo dar conta da forma como se constroem valores de referência no Português, marcados pela forma como os nomes são determinados. Descreveram-se as possibilidades de determinação dos nomes e os valores semânticos que daí resultam, tendo em conta a natureza dos nomes assim como a predicação construída. Foram, por conseguinte, objeto de estudo: as propriedades semânticas dos artigos definidos e dos artigos indefinidos; a interdependência entre definitude e indefinitude; a construção anafórica; a relação entre os artigos definidos e os demonstrativos; a relação entre os artigos indefinidos e o numeral cardinal um assim como outros quantificadores indefinidos.Foi objectivo deste trabalho transmitir um conhecimento sobre a questão geral da determinação linguística enquanto fenómeno complexo, que se compreende na interrelação existente entre todas as formas linguísticas em presença nos enunciados, daí resultando a variabilidade e a deformabilidade dos valores construídos.
A Dra. Helena Topa Valentim é docente no Departamento de Linguística da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, onde desenvolve investigação na área de Semântica, integrada num grupo de trabalho em Gramática e Texto.



quinta-feira, 14 de maio de 2015

Chávena


Era uma vez uma chávena bonita. Era de cor champanhe, bastante alta, de porcelana, enfeitada com rosas vermelhas. Vivia num armário abarrotado de outras chávenas e pratos. Era a chávena mais bonita de todo o armário. E não só era linda, mas também inteligente. Gostava de ler etiquetas de café e o seu conteúdo. Mas a sua leitura favorita eram as instruções da cafeteira.
            Infelizmente, a nossa chávena não tinha amigos. As suas companheiras de apartamento odiavam-na porque invejavam-lhe a sua beleza. Os pratos não falavam com ela, porque as suas colegas proibiam-nos de o fazer. A chávena sentia-se muito sozinha, queria largar a sua vida. Começava a cair numa depressão quando um prato novo mudou-se para o armário. O prato, uma criatura vistosa, apaixonou-se pela chávena à primeira vista. E o seu amor foi mútuo. Mas ele não agradava só à chávena, outras já estavam a pensar em escolher o vestido de casamento. Uma vez, a chávena mais tonta e mentirosa, disse-lhe que tinha esperado por ele toda a sua vida. E começou a beijá-lo. O prato não queria ofender a nova colega e aceitou o seu beijo. A mentirosa celebrou a sua vitória mostrando às suas companheiras o seu dedo médio. A partir deste momento, jactava-se do seu noivado imaginário enquanto o prato não se interessava por ela. Ele tentava convidar a chávena para um café, mas a sua namorada suspeitava de algo e perseguia-o sempre. Uma tarde, depois do banho no lava-louças, a mentirosa empurrou a chávena, que caiu ao chão. A chávena coitada quebrou a sua orelha. O prato ficou muito nervoso, acusou a mentirosa de tentativa de assassinato e disse-lhe que nunca a amou.
            A mentirosa ficou tão destroçada que se atirou da beira do armário. O prato finalmente convidou a chávena para tomar café e mais tarde casaram-se. A chávena pariu duas colheres. Todos viveram muito felizes para sempre.

Magdalena Szczypta
2º ano de Filologia Ibérica

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Polónia – País dos buracos

No meu país há buracos por todo o lado. Imensos. Grandes e pequenos. Podem ser divididos em grupos, mas também podem ser considerados geralmente como um conjunto (isso, porém, não seria aconselhável, porque os buracos são muito diversificados). Acho que o assunto dos buracos é extremamente sério e tem de ser tratado seriamente, especialmente perante as próximas eleições presidenciais. Não sei porquê, mas parece que os políticos e as pessoas que possuem qualquer tipo de poder têm muito a ver com certos géneros dos buracos. Aqui vão ser brevemente apresentados alguns deles:
-Buracos orçamentais: A presença dos buracos no orçamento do governo da Polónia é indubitável. A dívida pública é enorme e continua a crescer, já conseguimos a acostumar-nos à constante falta de dinheiro.
-Buracos nas carteiras:  É incrível quanto dinheiro cabe nas carteiras dos governantes.  Ganham muitíssimo e nunca ficam satisfeitos, querem sempre mais e mais. Onde é que estão estes milhões que com tanta fúria arrancam de nós? Parece que as suas carteiras ou são sem fundo ou são mesmo cheias de buracos.
-Buracos na memória: O mencionado grupo dos poderosos que são verdadeiros especialistas em promessas. São excelentes visionários, têm ideias luminosas, frequentemente apresentam os seus planos muito bonitos. Adoram declarações que, infelizmente, muitas vezes são fábulas. Não quero julgar ninguém, seria injusto dizer, que eles mentem de forma incessante e propositadamente. Para não arruinar a minha idealística visão do mundo e cega crença na bondade e boa vontade das pessoas, aposto que todas estas desilusões são causadas por buracos na memória dos políticos. Eles, após as eleições, simplesmente, esquecem-se das promessas.
A política porém não é a única área que tem a ver com os buracos. Há mais. Nas estradas, por exemplo. Andar de carro aqui muitas vezes assemelha-se  a um slalom. O nosso país é já famoso pela má qualidade das estradas, e não é fama que traz muito orgulho. Se olharmos mais profundamente a questão dos buracos, vê-se uma certa correlação entre as frequentes faltas do asfalto nas ruas e os secretos buracos nas carteiras dos governantes. Como assim? Já explico.
Nós, os cidadãos, pagamos os impostos de circulação para cobrir as despesas de manutenção das estradas para que fiquem em condições de circulação. Quem se ocupa deste dinheiro são os políticos, os proprietários das carteiras sempre vazias, com constante necessidade de as abastecer. Preferem então reservar este dinheiro para as suas necessidades próprias, em vez de tratar dos assuntos públicos. Assim sendo, o imposto destinado para tapar os buracos na estrada desvia-se radicalmente e enche as esburacadas carteiras dos poderosos, onde desaparece para sempre. Assim fecha-se o círculo da nossa moeda. A maior parte do dinheiro dos nossos impostos, perde-se como se fosse posta num buraco negro.
Aleksandra Porębska
3º ano de Estudos Portugueses

terça-feira, 28 de abril de 2015

Luís Augusto Fischer no Centro de Língua Portuguesa/Camões em Lublin



Nos dias 23 e 24 de abril contamos com a presença  de Luís Augusto Fischer no nosso centro que nos guiou numa viagem pela história recente do Brasil e sua cultura. Analisando e comparando a obra de dois gigantes da música brasileira, Caetano Veloso e Chico Buarque, ficamos a conhecer o que está para além da letras e das músicas destes autores. Luís Augusto Fischer é Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil onde é professor associado. Trabalha com a Literatura Brasileira com particular interesse na formação e a história da literatura, géneros literários, romances e poesias brasileiras, literatura gaúcha, literatura colonial brasileira. Crítico, ensaísta, escritor e dicionarista. Autor de livros, como os de ensaio: Um passado pela frente (1992),  Amaro Juvenal (1989), e Para fazer diferença (1999), os de ficção como O edifício do lado da sombra (1996), Rua desconhecida (2002), Quatro Negros (2005), e trabalhos como: Dicionário de Porto-alegrês (1999),  Bá, tchê! – Dicionário temático (2000), Gauderiadas – a sabedoria gaúcha em frases definitivas (2004) e Dicionário de palavras e expressões estrangeiras (2004). Organizador e colaborador de muitas revistas literárias e culturais e de eventos na mesma área.
 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Arte Luso-oriental e Indo-portuguesa

O aspecto interessante da arte que surgiu no império português oriental é a dualidade do nome, ou seja, a coexistência de duas definições: a arte luso-oriental e a arte indo-portuguesa. Isso mostra que nenhuma cultura dominou a outra e ao mesmo tempo deu privilégio tanto à cultura lusa como à cultura indo. As fronteiras políticas do Oriente português eram difíceis de demarcar porque a região era composta por vários países e culturas diferentes, como  Chineses, Timorenses, Indianos, Japoneses e outros. A arte desempenhou o papel essencial nos contatos entre os povos nativos e os missionários portugueses.
Rafael Moreira e Alexandra Curvelo perceberam que a Carreira da  Índia resultou em um diálogo cultural e artístico e também em um convívio entre as duas culturas tão extremas. Esta arte, porém, não pode ser encaixada nos ramos geográficos e “deve ser entendida não apenas em sentido geográfico, mas sobretudo social e histórico”. (MOREIRA Rafael, CURVELO Alexandra: 532). “A Arte indo-portuguesa teria sido produzida em territórios portugueses da Índia e fora destes, em locais de influência econômica dos Portugueses e em territórios da penetração religiosa (...).” (CAGIGAL E SILVA, Maria Madalena: 374)
Através deste encontro entre a cultura portuguesa e a oriental surgiu uma nova distinta cultura, com sua própria forte personalidade. O surgimento da arte indo-portuguesa não necessariamente ocorreu apenas no continente asiático. Aqui as fronteiras desta arte são muito flexíveis. Tanto os índios que viviam em Lisboa como os aculturados na Índia portugueses podiam dar vida à arte indo-portuguesa. Esta arte é um fruto de miscigenação, convívio de duas culturas diferentes e de uma interinfluência cultural.
Talvez a Coroa Portuguesa tenha imposto as restrições à política e à economia e tenha proibido os contatos comerciais entre os países conquistados, mas na questão da cultura nunca houve nenhuma limitação nem proibição. A cultura e arte da Ásia como as de Portugal e das outras possessões marítimas se espalharam e difundiram de uma forma muito rápida cujo fruto foi o nascimento da arte indo-portuguesa, indo-açoriana etc.
A arte indo-portuguesa surgiu por um lado pela necessidade dos nobres que viviam na Índia para possuírem as coisas do cotidiano (p.e. mobiliário) e por outro lado pela encomenda religiosa dos missionários, como dos jesuítas que usavam os elementos na propagação da religião cristã. A arte indo-portuguesa desempenhou o papel importante na difusão e promoção da religião católica.
Podemos analisar também a arte indo-portuguesa em uma maneira muito mais prática; como um elemento de um cotidiano dos portugueses residentes na Índia. Por este motivo além da arte do nível mais sofisticado como arquitetura, pintura ou escultura, podemos encontrar também vários exemplos de mobiliário ou tecidos que os portugueses usavam no dia-a-dia.
A arte indo-portuguesa era um resultado de uma simbiose de duas distintas culturas e contribuiu no espalhamento dos costumes da época. Graças a esta arte foram documentados e imortalizados inúmeros hábitos. De fato, a arte indo-portuguesa não era o domínio dos portugueses. Foi bem pelo contrário porque houve pouca porcentagem dos artistas portugueses em comparação com dominação dos artistas indianos, mestiços e mongóis. A arte indo-portuguesa podia ser uma discreta maneira de cristianizar os povos indianos. Quando os Jesuítas chegaram à Ásia encontraram uma cultura altamente desenvolvida, então o objetivo dos Jesuítas era se acomodar nas realidades asiáticas. Através da arte, os Jesuítas podiam passar aos recém-encontrados  povos os temas bíblicos e elementos da cultura europeia cristã, como na Igreja de Bom Jesus em Goa ou graças aos motivos de decoração dos tecidos etc. A arte indo-portuguesa era um elemento essencial em espalhar as lendas e tradições portuguesas. Nos tecidos se representavam as estórias e figuras portuguesas dos séculos XVI e XVII.
A arte indo-portuguesa é uma mistura de vários elementos porque a Índia serviu de ponte de passagem para as ações culturais e religiosas dos portugueses. Na Índia se interferiram vários elementos: a fé cristã dos europeus, hábitos e crenças indianas e também os produtos africanos como o marfim oriundo de Moçambique. O que distinguia a arte indo-portuguesa eram a complexidade e abordagem do tema e não como pensamos apenas a introdução dos elementos básicos da Índia.
A arte relacionada com a expansão portuguesa não possui nenhuma sequência histórica nem  uma lógica sofisticada. É bem complexa, dominou vários continentes e muitos patrimônios culturais diferentes e apesar disto  também é pouco sistematizada. Nos dois textos apareceu uma teoria que era realmente muito difícil encaixar num modelo só a arte indo-portuguesa, ou seja definir exatamente os ramos, as fronteiras e a temática da arte indo-portuguesa. Como o exemplo, o Bethencourt mostra que os quadros de Garcia Fernandes do século XVI localizados na igreja em Goa, mesmo que mostrassem a história de uma região brasileira, não possuíram nenhum elemento oriental nem português. O mesmo aconteceu com a Igreja da Divina Providência, localizada na mesma cidade, que não possuiu nenhum de dois elementos e ainda foi construída por um italiano, então um sujeito fora do império português. “O único denominador comum a todas estas obras e, de algum modo, a presença determinante dos Portugueses e a consequente confrontação (contaminação, integração) de diferentes realidades e atitudes culturais e estéticas” (BETHENCOURT: 404). Podemos observar uma mestiçagem de arte de três formas: confrontação, contaminação e integração. Cada uma delas mostra uma dimensão diferente: confrontação – que a arte portuguesa e oriental foram opostas, contaminação - que uma arte foi poluída pela outra, e integração – que soa mais positivamente, que as duas artes se misturaram.

O melhor exemplo da mestiçagem cultural e do sincretismo religioso representa a escultura feita em marfim do Menino Jesus adormecido que é fruto da integração da cultura portuguesa cristã com as crenças asiáticas. Menino Jesus representa um Bom Pastor mas lembra também o Buda. Eles está situado em cima da escultura e por baixo há vários níveis com cenários com figuras evangélicas e elementos decorativos típicos da Índia. A figura do Menino Jesus representa a Primeira Meditação do Buda. Como conclusão podemos supor que tanto a influência europeia como indiana tinha direitos iguais. Nenhuma das artes dominou a outra. Com certeza este tipo de escultura era um método silencioso de espalhar a cultura europeia e a fé cristã na Índia. Isto mostra porém, que os Europeus respeitavam a cultura local na Índia e não entravam em conflito religioso. Em vez de cruzadas medievais, os portugueses aceitaram a outra forma mais orientalizada da figura de Jesus. Parece que os Portugueses abandonaram a política de cruzadas e o almejo de converter os infiéis e, em vez disto, se abriram para aceitar outras formas das figuras bíblicas que por muito tempo eram intocáveis. Grande contributo nisso teve também o Renascimento e o fato que mais atenção se prestava no elemento humano. Não surpreende, portanto que a figura de Menino Jesus tenha sido criada em pleno século XVI.
“(...) A exportação de quadros da Europa para o Oriente. No entanto a maioria dos quadros pintados para os territórios controlados pelos Portugueses foi da responsabilidade de artistas locais, europeus ou nativos formados localmente (...) Não devemos esquecer que as concepções artísticas orientais eram diferentes das do Oriente” (BETHENCOURT: 424) A arte indo-portuguesa não precisava ser necessariamente criada pelos portugueses. Para muitos dos nativos, as concepções artísticas dos portugueses eram desconhecidas e distantes.
Uma das artes indo-portuguesas mais fascinantes era a arte Namban do sul do Japão que de fato é uma grande lembrança da história dos Portugueses neste país. O caso de Japão é especial por ser uma espécie de primeiro verdadeiro intercâmbio entre as duas culturas diferentes. Por um lado os batizados japoneses construíram as capelas cristãs nas suas mansões, por outro lado vários japoneses trouxeram da Europa muito tipo de arte, incluindo livros e instrumentos musicais que resultou em “ocidentomania”. A cultura Japonesa não foi dominada pela cultura portuguesa. Aqui aconteceu bem diferente - foram os japoneses que se fascinaram pelos Europeus. Arte Namban se tornou um símbolo das relações luso-japoneses. Os biombos parecem com livro que contam a história do primeiro encontro entre os Portugueses e os Japoneses. “Noutros biombos europeus relacionado com o Ocidente surgem temas diferentes: costumes sociais, europeus, mapas-múndi, as quatro cidades de Ocidente – Lisboa, Madrid, Roma e Constantinopla.” (BETHENCOURT:433).
Outro elemento importante que constituiu também a arte indo-portuguesa são as igrejas, tanto na Índia as quais foram europeizadas, como em Portugal que foram orientalizadas. O estilo principal que podemos observar era o manuelino que promoveu o intercâmbio artístico. A Igreja de São Francisco na Velha Goa, Igreja de São Paulo em Macau, Basílica do Bom Jesus em Gola se caracterizam pelo estilo manuelino.
A arte indo-portuguesa e luso-oriental era uma arte livre e sem fronteiras. Apesar de ser livre era muito complexa, apareceu em todos os possíveis tipos da arte – desde pintura até os mobiliários. Para mim desempenhou um papel de evangelizador discreto que de uma maneira muito pacífica entrou no espaço asiático. Por espalhar discretamente a religião cristã com certeza não era uma arte inocente. Através desta arte os Portugueses conseguiram entrar nas culturas asiáticas altamente desenvolvidas.
Agata  Bloch
Fundacja Terra Brasilis 

BIBLIOGRAFIA
Moura Sousa, Luis de, A expansão e as artes: Transferências, Contaminações, Inovações: em Curto, Diogo Ramada; Bethencourt, Francisco, A expansão marítima portuguesa, 1400-1800. Edições 70, Lisboa 2010.
Cagical e Silva, Maria Madalena de, A história e as relações artísticas entre Portugal e a Índia, Lisboa : Instituto de Investigação Científica Tropical, 1985.

Moreira, Rafael e Curvelo, Alexandra, A Circulação das Formas. Artes Portáteis, Arquitectura e Urbanismo,  História da Expansão Portuguesa, Círculo de Leitores, (Vol. 2), Lisboa 1998. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Kazimierz Guziuk

  

Sempre que visito a casa de família do Wojtek, lembro-me do seu avô. A casa fica em Białka, uma aldeia perto de Krasnystaw. A casa está vazia, só durante os feriados e as férias se enche com a família Guziuk a que pertenço. Quando entrei nesta casa pela primeira vez senti-me como se o tempo tivesse parado. Estava cheia de aparelhos antigos, móveis, galhadas e outros troféus de caça. E, sobretudo, coisas relacionadas com cavalos. Quadros, figurinhas, selas, muitas medalhas e diplomas de concursos hípicos – tudo relacionado com estes animais. Em cima da cómoda está pendurada a pintura da pessoa que fundou este lugar extraordinário. O quadro de Kazimierz Guziuk, o diretor da Coudelaria de Białka. No quadro está vestido com uniforme, montado no seu cavalo, o Arcymiły; ao lado dele está o seu fiel cão, um schnauzer gigante, o Amor. Embora nunca o tenha conhecido, eu vou sempre lembrar-me do seu rosto nesta imagem, cru e impenetrável. Não podem ler sobre ele na Wikipedia, mesmo que tenha sido um dos fundadores da criação moderna de cavalos na Polónia. Por causa da sua filiação no Partido Comunista, foi apagado da história moderna pelos "defensores da democracia". 
 O meu marido gosta de contar as histórias sobre o seu avô; quando o fez pela primeira vez repetia muitas vezes as palavras patriota e herói. Com razão, porque apesar de – como cada ser humano – ter cometido muitos erros, ninguém pode dizer que ele não amava a sua pátria e não tinha coragem. Fiquei a conhecê-lo falando com o meu marido e com o meu sogro – o filho de Kazimierz Guziuk, que herdou do seu pai a paixão pelos cavalos e pelo trabalho duro, graças ao qual agora é um reconhecido juiz de competições internacionais e diretor da coudelaria Al Khalediah Stables em Nowe Wrońska perto de Varsóvia. 
 Kazimierz Guziuk nasceu em 1921 numa aldeia perto de Janów, onde se encontra a maior coudelaria da Polónia. Começou a trabalhar ai como palafreneiro quando era um menino de catorze anos. Conheceu a sua mulher no tempo de guerra, ao tentar proteger os cavalos dos alemães. Com os cavalos tinha fugido de Janów para uma aldeia perto de Sanok (a cerca de 300km). Ela procedia da nobreza, embora pobre, mas nessa altura foi o casamento desigual quando uma menina de classe superior casou com um rapaz de uma simples família campesina. Casaram em 1941 mas pouco tempo depois Kazimierz voltou para Janów e Sabina ficou na sua aldeia natal. Em 1942 ela foi presa e deportada para a Alemanha, onde trabalhou numa quinta. Nesse tempo Kazimierz trabalhou no pelotão conspiratório de cavalaria do Armia Krajowa (a resistência) e terminou a Escola de Suboficiais. Também participou em ações de sabotagem e retaliação realizados pelo Armia Krajowa. Os alemães, que durante a guerra roubaram a coudelaria em Janów, apreciaram-na e apoiaram o seu desenvolvimento. Mas em troca, os cavalos foram considerados propriedade alemã e durante a evacuação, em 1944, levaram todas as 300 cabeças da manada. Os seus protetores, Kazimierz Guziuk entre eles, partilharam este destino incerto dos cavalos. A manada chegou a Dresden onde sobreviveu ao bombardeamento dos Aliados e logo foi levado a Nettelau onde formou o conselho das coudelarias polacas na Alemanha que abrangeu todos os cavalos roubados de muitas criações da Polónia. Kazimierz conseguiu trazer de lá a sua mulher e lá também nasceu o seu filho, Andrzej. 
 Em 1946 voltou de barco para a Polónia com a sua família e a manada. Começou a trabalhar em Kwidzyn onde entrou no Partido Socialista Polaco. Em 1950 como resultado da chamada promoção social, assumiu as funções de diretor da Coudelaria de Białka. Mudou-se com a família para uma aldeia pitoresca perto de Krasnystaw onde desde os anos 20 funcionava a coudelaria militar. Faltava-lhe a experiência mas não faltava entusiasmo. Com um grupo dos colaboradores acertados conseguiu criar uma coudelaria que se desenvolvia dinamicamente e o número de cavalos ia crescendo. Estabeleceu também uma colaboração com os centros universitários, recebendo estudantes para estágios e organizando acampamentos equestres (num deles conheceram-se os meus sogros!). Ele mesmo também praticou equitação com alguns êxitos nesta área. Geriu a coudelaria com mão de ferro e rigor militar (todos os empregados tinham de usar uniformes). Tudo isto influenciou bastante na condição da coudelaria, que, apesar dos problemas, funcionava (uma das quatro no país) e tinha sucesso. 
Em 1981 depois de 46 anos de trabalho ativo, Kazimierz Guziuk reformou-se e deixou a administração da criação dos cavalos nas mãos do seu filho primogénito, Andrzej. Isso permitiu a realização dos projetos iniciados e começados há algum tempo, como por exemplo a fundação da coudelaria dos cavalos árabes que agora tem a posição firme na Polónia. 
Depois de se reformar, Kazimierz Guziuk desenvolveu a atividade social, colaborando com os criadores e tornou-se membro da Associação de Caçadores (todos os troféus em casa são de caça). Dedicou toda a sua vida à criação dos cavalos; a família sofreu muitas vezes, mas conseguiu não só reativar a criação dos cavalos árabes na Polónia, mas também passar a sua paixão aos filhos (o segundo filho foi o diretor da coudelaria em Kurozwęki e agora gere a coudelaria árabe Al Khalediah Stables em Nowe Wrońska). A determinação e coragem de Kazimierz Guziuk com as quais durante a guerra salvou centenas de cavalos do bombardeamento em Dresden, desperta a minha profunda admiração.
Monika Czarkowska-Guziuk
2º ano de mestrado em Estudos Portugueses

domingo, 19 de abril de 2015

Vesela Chergova no Centro de Língua Portuguesa


A mais recente visita ao Centro de Língua Portuguesa/ Camões em Lublin veio da Bulgária. No dia 16 de abril, a  Prof.ª Dr.ª Vesela Chergova da Universidade São Clemente de Ohrid de Sofia  deu uma palestra intitulada " As categorias temporais no modo Indicativo e no modo Conjuntivo do verbo português". A conferência tratou da organização dos conteúdos temporais dentro do valor modal comum não subjetivo (Indicativo) e dentro do valor modal comum subjetivo (Conjuntivo) na tentativa de explicar o desequilíbrio das formas temporais (menor número de formas temporais conjuntivas) em ambos os modos do português contemporâneo. Pretendeu-se identificar a hierarquia na estruturação das categorias modais e das temporais segundo os postulados de Greenberg (1971: 295-313), apresentando uma possível análise dos valores invariantes, contextuais e distributivos de todas as formas sintéticas indicativas e conjuntivas.
 Vesela Chergova é Doutora em Linguística Portuguesa, Professora Auxiliar, docente das disciplinas curriculares de Fonética e Fonologia, Morfologia e Lexicologia Portuguesa, Português L2 e algumas disciplinas opcionais de tradução especializada no curso de Licenciatura em Filologia Portuguesa do Departamento de Estudos Ibero-Americanos da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de SófiaRealizou estudos de pós-graduação na Universidade de Lisboa (1991–1992) e na Universidade do Porto (1996–1997). É autora do trabalho monográfico O Imperfeito do Conjuntivo em Português Contemporâneo (2012) e de artigos referentes à análise semântico-funcional dos gramemas modo-temporais do sistema verbal português.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Irmão

Imagina uma criança pequena de quatro anos. Esta criança brinca com o seu ursinho de peluche e chama-lhe o seu irmão. Esta criança não tem irmãos, mas quer muito ter um. Nove anos depois já não é uma criança, já não  brinca com o seu ursinho de peluche e já não pensa em irmãos. Mas um dia os pais dela dizem-lhe que vai ter um irmão. O mundo desta menina vai mudar totalmente. Os pais já não vão preocupar-se tanto com ela como faziam antes. Vai ter que dividir o seu quarto com ele e ajudar os seus pais em tudo...
Quem é o meu irmão?                                                                      
É um menino de oito anos, com olhos grandes e castanhos e uma cara sempre sorridente. É alto, forte e maior do que as outras crianças da mesma idade.  Gosta muito de ver os desenhos animados e brincar com “legos”. Está fascinado por astronomia e dinossauros.  Gosta muito de andar de bicicleta e nadar. Mas nem sempre foi assim. O meu irmão é autista. Quando tinha dois anos não sabia falar, comunicava-se só com os gestos, era muito nervoso, chorava e gritava muito. Durante muito tempo não sabíamos o que se passava com ele. Depois de muitas consultas com vários médicos, foi-lhe diagnosticado autismo, e começaram a curá-lo. Agora o meu irmão está muito melhor. Frequenta uma escola para meninos com necessidades especiais e na sua turma só há crianças com autismo.
Quem é o meu irmão para mim?
Sem dúvida, ele é a pessoa que me ama mais no mundo. Nenhuma outra pessoa fica tão feliz quando eu chego a casa e ninguém fica mais triste quando eu saio. Por causa do seu autismo mostra mais amor do que as crianças normais, mas também necessita mais. Quando estava na escola secundária passava muito tempo com o meu irmão. Ia busca-lo e levava-o à sua escola , depois esperávamos juntos pelos nossos pais em casa. O meu irmão ensinou-me a ser uma pessoa responsável, sensível, indulgente e paciente. Não posso imaginar a minha vida sem ele porque é a pessoa mais importante para mim.
Aleksandra Moskal
2º ano de Filologia Ibérica

NR: O Dia Mundial da Consciencialização do Autismo é celebrado a 2 de abril

terça-feira, 14 de abril de 2015

O bacalhau

Esta história teve lugar no dia 27 de fevereiro de 2015. Eu levantei-me como sempre duas horas após o despertador ter tocado pela primeira vez. Tirei as ramelas dos olhos, vesti-me e preparei o pequeno-almoço. Naquele momento não sabia o que ia acontecer. Ao tomar o pequeno-almoço ja pensava no almoço e em fazer as compras no Biedronka – o equivalente do Pingo Doce na Polónia. Fiz uma lista de compras numa folha de papel e sai de casa levando a mochila. Sai para a rua, o sol brilhava como se fosse verão. Passando pelo bairro, encontrei muitas pessoas incluindo as que não apanharam o cocó do seu cão porque não “viram”. Atravessei a rua mas desta vez sem ser quase atropelado e uns metros depois entrei no Biedronka. Como sempre havia muitas pessoas a gritar, correr, rezar ou fazer centenas de outras coisas. Tirando a lista de compras do meu bolso dirigi-me para o interior do supermercado. Número um na minha lista: tomates – está feito, dois: farinha – já está no meu cesto, açúcar também. Cheguei ao ponto vinte e tal e li: bacalhau. Dirigi-me à secção dos produtos congelados olhando para cada congelador. Num momento notei um brilho como se fosse uma auréola num congelador. Aproximei-me e pela primeira vez vi uma coisa tão bonita como esta. Um bacalhau congelado, tão branco, tão bonito que até era ridículo. Tirei-o do congelador e de repente senti um puxão no braço. Virei-me e vi uma mulher velha de setenta e tal anos, gorda, baixa e com o prazer do crime nos olhos.
- Isto é o meu bacalhau!
Gritou, cuspindo na minha cara.
- Nunca!
Respondi e abraçando a pacote e entrei na zona das caixas registadoras. Esta terrível velhota seguia-me o tempo todo chamando-me o diabo e molhando-me com a água benta. Mas eu não desisti, cheguei às caixas, paguei e sai do Biedronka. Quando voltava para a casa, tinha um estúpido pressentimento que alguém me seguia, mas graças a Deus cheguei à casa e fechei a porta. Preparei o bacalhau com natas, que estava mesmo muito bom, os pássaros piavam, todos estavam contentes. Menos eu, porque até hoje tenho medo de sair de casa e visitar o Biedronka. Sempre que vejo uma velhota baixa e gorda que é parecida com esta, passo para o outro lado da rua. A moral é muito simples: Nunca desistam, lutem pelo vosso bacalhau.
Łukasz Gomoła
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses

sábado, 11 de abril de 2015

Curta história de uma tábua longa em Lublin.

Tudo começa à noite. Durante o dia seria impossível - há demasiado trânsito para percorrer as ruas. O único som que se ouve é o das rodas de uretano a rolar no asfalto. Para alguns vizinhos o som é um problema, aproximam-se de um grupo com a intenção de assustar aqueles miúdos para eles não voltarem àquela rua. Mas rapidamente dão conta de que “os miúdos” têm por volta de 30 anos e durante o dia são responsáveis pais, funcionários, artistas, empresários. O longboard atrai as pessoas de ambientes diferentes, mas todos têm a mesma vontade de circular pelas ruas. Voltando aos nossos vizinhos, às vezes os argumentos não os convencem bastante e pedem ajuda à polícia. Uma cidade como Lublin ainda é pouco tolerante quanto às modalidades desportivas além do futebol ou ciclismo. Poucos sabem que os melhores skateboarders da Polónia são da região de Lublin.

O longboard chegou a Lublin só há três anos, mas a sua história é bastante longa e confunde-se muito com a história do skateboard. Afinal, é tudo skate, e até à década de 1980 não havia muita distinção entre as modalidades. O skate como conhecemos surgiu a partir de uma necessidade. Surfistas no Havai e na Califórnia no final dos anos 1950, em dias sem ondas, adaptavam tábuas com trucks daqueles patins antigos e rodas de metal. Assim, podiam praticar movimentos do surf no asfalto.
Em Lublin, a situação foi distinta. O movimento nasceu da procura de uma modalidade semelhante ao snowboard para praticar durante os meses quando não havia neve. Em 2011 foi criado o grupo Lublin Longboard Crew, que, através da página no Facebook atraiu já uns 40 membros.
Os princípios não foram nada fáceis. “Encontrar outras pessoas que faziam longboard em Lublin foi como “encontrar vida extraterrestre”. Não havia uma loja em Lublin onde se pudesse comprar um longboard. Só se podia fazer compras em Varsóvia ou pela internet”- diz Krzysztof, um dos fundadores do grupo. “Aprendemos a andar de longboard e como fazer as primeiras manobras vendo vídeos na internet. Foi num grupo de Madrid que nos inspirámos para começar um movimento em Lublin. Queríamos cativar pessoal novo para o desporto e trazer o pessoal que já andava dentro da cidade. Falhamos e aprendemos com os nossos erros. Agora  fazemos workshops para quem está a pensar iniciar-se no longboard. Ter aulas pode ser uma boa maneira de evitar quedas desnecessárias”- continua.

Os encontros dependem muito das condições atmosféricas. “Há dois anos isso não era um problema porque podíamos praticar num parque de estacionamento de um centro comercial” diz Wojtek, um dos primeiros a andar de longboard em Lublin. “No entanto, havia cada vez mais pessoas e tornou-se impossível que 20 participantes fizessem dancing entre os carros. Tivemos de mudar para a rua. Andávamos muito em Felin, numa zona industrial fechada ao trânsito”.  Havia tantas pessoas interessadas em começar a andar que nasceu a ideia de fazer cruising . O longboard tem como base a possibilidade de percorrer as ruas sem andar a pé. “Circula-se pela estrada, com carros sempre ao lado, mas todos levamos capacetes, isso é fundamental, e proteção nas mãos e nos joelhos”- explica Wojtek. “Sabemos que o nível dos participantes é diferente e incentivamos quem não tem um nível bastante bom a fazer as partes mais difíceis do percurso com o skate na mão”- sublinha.

O Lublin Longboard Crew está sempre disposto a ajudar a começar a aventura com o longboard. “Sabemos da nossa própria experiência que não é fácil escolher um equipamento adequado da modalidade de longboard que se quiser praticar” – diz Kuba da FunkySkate, uma loja fundada em 2012, especializada em todos os tipos de equipamento para praticar snowboard, skateboard e longboard. Sim, o longboard também tem as suas modalidades. Existem diversos modelos, tamanhos e formas de tábuas, cada uma para uma modalidade e finalidade específica. Cruising é aquele passeio no parque ou pelas estradas sem se importar muito com slides e manobras. Pode ser combinado com um pouco de freestyle e dancing em ladeiras leves ou uma superfície plana. Downhill é talvez a modalidade mais famosa do longboard, trata-se de descer ladeiras fazendo slides agressivos, o que requer bastante técnica e equipamentos apropriados como capacete, cotoveleiras, joelheiras e luvas de slide (aquelas que têm um plástico redondo na palma). Freestyle é mais parecido com o skate comum, pode-se fazer qualquer coisa: manobra, dancing, manual, utilizando tudo que estiver no ambiente. Dancing é a arte de dançar na tábua. Essa modalidade pode ser muito bem utilizada com um freestyle, as pessoas praticam-na nas tábuas compridas, até semelhantes às pranchas de surf.
“Uma decisão de compra tem a ver com dinheiro então é muito importante escolher bem. Antes de abrirmos uma loja em Lublin as pessoas tinham de comprar online o que, para alguém que se está a iniciar na modalidade, não é nada apelativo, até porque convém ter alguém com quem falar e a quem pedir uma opinião”, afirma Kuba. “Mesmo para quem não se está a iniciar, pegar no material é diferente de estar a ver apenas uma fotografia na internet”- acrescenta.

“Também por isso incentivamos os novos adeptos a virem a um encontro para experimentar vários tipos e tamanhos de tábuas. Ajudamos também a começar a andar e na escolha do outro equipamento. Durante os encontros trocamos as experiências, dicas e ideias para os próximos percursos”- resume Wojtek.
Num daqueles encontros, apareceu Przemek, na altura um rapaz tímido, introvertido, sem autoconfiança. Começou por praticar dancing e apaixonou-se por esta modalidade. Agora ele mesmo ensina como dançar e mostra os passos diferentes. “ O longboard permitiu-me tornar-se uma pessoa aberta e segura de mim. Estou contente que agora posso motivar outras pessoas para fazerem o mesmo” - diz Przemek.
Entre os adeptos de longboard não encontramos muitas raparigas. “O problema é que a maior parte das meninas tem medo das quedas”- diz Karolina, uma rapariga de 20 anos que participa com frequência nos encontros. Ela própria também diz que às vezes é “um bocado cobarde”. As raparigas em geral preocupam-se mais com o seu aspeto físico imaculado.

A atividade do grupo no Facebook cresce rapidamente. “Quase todos os dias temos pedidos de adesão ao grupo, as pessoas combinam individualmente encontros e a página torna-se um sítio onde se pode também livrar-se do equipamento que já não é usado. Começamos por uma página onde pusemos vídeos dos Estados Unidos, Brasil e da Espanha. Agora os adeptos criam os seus próprios vídeos que provam que o nível sobe. Estamos muito orgulhosos do nosso trabalho e convidamos a quem está interessado a seguir-nos  na página do Facebook e participar nos próximos eventos” - diz Wojtek.

Monika Czarkowska-Guziuk
2º ano de mestrado em Estudos Portugueses


terça-feira, 31 de março de 2015

Dois dedos de conversa com... Michał, luthier.


Chama-se Michał, tem 30 anos, é de Białystok. Estudou em Lublin mas agora vive e trabalha em Varsóvia. É uma pessoa normal, psicólogo. O que o faz extraordinário é o seu passatempo que está a converter na sua nova profissão. É um luthier, faz instrumentos de corda. Para ser mais concreto – um tipo de instrumento com seis (ou sete) cordas e caixa-de-ressonância, parecido ao violoncelo, mas com trastos. Uma viola da gamba, instrumento barroco com som muito agradável, mas não tão popular como o violoncelo ou contrabaixo – algo a meio caminho entre estes dois.


Michał não tem nenhuma preparação profissional para isso. É um luthier autodidata. A ideia de fazer instrumentos nasceu num festival da música folclórica em Lublin onde viu um homem com instrumentos feitos de madeira, de latas, de peças metálicas... Tinham forma estranha, mas produziam som, mesmo uma melodia gira. Isso mostrou-lhe que se pode fazer uma coisa dessas por si mesmo. Assim começou a pensar em fazer algum instrumento parecido, a verdadeira viola da gamba, só para poder aprender a tocar e praticar. Sempre quis ter uma, mas isso era impossível por causa do preço. Os instrumentos deste tipo são muito caros, o preço chega até alguns milhares de euros.
Não sabia nada de acústica nem como construir instrumentos. No entanto, em dois meses conseguiu fazer um instrumento que apesar da falta de aparência da viola, soava exatamente como ela. Tudo teve lugar na cave da sua casa em Białystok, onde Michał passava todo o seu tempo livre, às vezes saindo só para comer e beber.
Hoje reconhece que o seu objetivo foi fazer algo que tivesse som, não esperava mais. E já tendo um protótipo podia praticar. Graças a ter um ouvido muito bom (ou seja, absoluto) não tinha problemas com isso. Aprendeu a tocar e continuou praticando com a viola feita por ele durante seis anos. O instrumento tinha um aspeto um pouco estranho, em vez de colar as peças, Michał juntava-as com parafusos o que deu ao instrumento o ar de estilo steampunk. Não foi envernizado mas depois de alguns anos foi pintado tal como uma das guitarras de Eric Clapton.
Durante esse tempo na cabeça de Michał crescia uma nova ideia, fazer outro instrumento, mas já de maneira como deveria ser feito. De maneira, digamos, profissional. Pesquisou informações na internet, recolheu dados, viu as fotografias. Não podia perguntar a alguém diretamente como se faz certas coisas, porque na Polónia não havia nenhuma pessoa que fizessem isso. Durante essa época de pesquisa esteve em alguns concertos de música histórica onde podia tocar e ver de perto as verdadeiras violas da gamba. Recolhendo toda essa experiência, decidiu finalmente começar os trabalhos. Foi em 2012 que transformou um dos quartos da sua casa numa oficina de luthier e comprou as primeiras peças de madeira.
Rapidamente chegou à conclusão que vai precisar das ferramentas que nunca tinha visto e das quais sabe pouco. Mas isto não impediu o trabalho. Se não podia comprar alguma coisa (que fazia normalmente nas lojas estrangeiras pela internet), construía. Isto ocupava mais tempo mas Michał não tinha pressa. Passava cada momento livre na sua oficina de luthier, às vezes fazendo intervalos muito longos no trabalho, porque esperava a encomenda de outro país com certo tipo de madeira comprada pela internet.
Já no princípio deste projeto decidiu que vai documentar cada movimento seu com fotos. Criou um site onde cada dia punha as fotos. Assim os amigos dele podiam ver como vai o trabalho e não só os amigos. Tem muitos seguidores que o felicitam cada vez que acaba alguma parte dos seu instrumento.

Se a primeira viola da gamba que fez ocupou-lhe dois meses, a segunda precisava de mais tempo. Também dois, não meses mas anos. Tudo isso por necessidade de encontrar por ele mesmo soluções técnicas que não conhecia antes. Celebrou o dia em que acabou completamente o instrumento com uma garrafa de espumante. A viola da gamba que fez era um instrumento verdadeiro, com todos os detalhes necessários, como se saísse de oficina de um luthier profissional. Tem sete cordas, o que amplia a escala do som. Soa alto e profundo.
Já tendo a oficina de luthier completamente equipada decidiu continuar com a produção de violas da gamba. A recém terminada é sua, mas outra que já começou a fazer vai querer vender. E provavelmente ganhará muito com ela. Assim quer também mudar completamente a sua ocupação que é o trabalho de psicólogo. O seu sonho é fazer instrumentos e que isso seja o seu trabalho verdadeiro, não só o passatempo.
Diz que a viola que está a fazer agora, a segunda da sua oficina de luthier, já não deveria ocupar-lhe tanto tempo porque já tem todas as ferramentas que precisa e também um pouco de experiência que ganhou fazendo os dois primeiros instrumentos. Vai continuar também documentando com fotos os seus trabalhos. De fato, já está a fazê-lo. Tudo se pode ver no site goldenviol.tumblr.com.

O que é mais difícil na construção do instrumento?
Michał: Os mais difíceis são todos esses momentos quando tenho de ser muito preciso. Em cada parte de trabalho há esses momentos. O pior é fazer um erro na fase de preparação do desenho técnico e dar conta na fase da construção. Pois, é muito fácil enfurecer-se neste momento. Depois pode-se mudar da conceção, fazer esta parte outra vez desde zero ou aceitar que esta parte do instrumento vai ser imperfeita.  O difícil é também recolher os dados sobre o tamanho e tipo de madeira do instrumento que quero fazer. Tenho de procurar muito na internet.

Estás contente com os instrumentos que fizeste até agora?
Michał: Sim e não. Sim, porque a primeira viola teve dois objetivos: poder tocar e que soasse mais ou menos como viola da gamba. E estes objetivos foram alcançados. Não, porque não era o instrumento verdadeiro, feito segundo certas regras. Estou contente com a  segunda viola que fiz porque soa melhor, tem som mais alto, é mais leve e mais cómoda para tocar. Realizei o objetivo de fazer o instrumento verdadeiro. Não estou contente porque tem alguns erros e más soluções técnicas. Além disso, ainda não tem o som que procuro. O primeiro passo foi feito mas ainda tenho muito por fazer. O descontentamento é um bom sentido porque dá a força para continuar com este trabalho.

O que dá mais satisfação em ser luthier?
Michał: Não sei quando é esse momento em já és um luthier. É mais o processo de converter-se nele que o ser. É uma boa oportunidade de expressar a minha criatividade. Posso sentir-me como um criador porque crio o novo objeto. É uma ocupação muito fascinante. Além disso, crio uma coisa que posso vender por muito dinheiro.

O que dirias às pessoas que se queixam do seu trabalho mas não fazem nada para mudá-lo?
Michał: Se não gostas do que fazes, não gostas do sítio onde estás, muda algo. Não és uma árvore, não tens raízes. O facto que não tens preparação para fazer algo não significa que não podes fazê-lo. Tenta antes de dizer que não sabes fazer algo.

Estera Małek
2º de Mestrado em Estudos Portugueses

sábado, 28 de março de 2015

O conto da Mosca Muda sobre o Mordedor


- A Mosca Muda vai contar a sua história – decidiu a Aranha de Duas Cabeças e o resto dos bichos assentiram cheios de alegria. Poder sentir as feromonas da Mosca Muda, que, desde que entrou no grupo com a sua companheira Aranha, não disse nenhuma palavra, era uma tentação muito grande. O inseto moveu o seu probóscide num gesto de consentimento e soltou as primeiras palavras.
Era uma história dos tempos passados, quando ainda os monstros caminhavam pela terra e não havia Grandes Ninhos. Entre os seres racionais reinava a lei mais antiga de todas as leis antigas, presente ainda antes da velha Lei do Poder. A esquecida Lei da Morte.
- Uma família da minha espécie, eu não provenho dela, mas conheço outras moscas que sim, viajava pelo céu, como nós temos a costume e não seria nada de especial se não chegasse, seguramente por casualidade, até o fim do mundo. Não era o fim do mundo verdadeiro, afastado, vazio e sem nenhuma coisa para comer. Era um extremo mais próximo. Não tinha areia em baixo e vento em cima, todas as paredes eram frias, escorregadias e brilhantes. Era um sítio, onde o tempo não existia, estava sempre calor e luzia uma fila de compridos sóis azuis.
Mas o mais importante era que havia ali imensas quantidades de comida, carne da melhor qualidade. Não como a nossa, dos bichos, era carne dos monstros, vermelha, saborosa e seca. Montanhas, montanhas de carne dos monstros. As moscas decidiram que era um lugar perfeito para viver, assim puseram os ovos e começaram a comer.
A má verdade sobre este extremo do mundo conheceram depois, quando apareceu o Mordedor. O monstro era invisível para a sua vista e olfato, não produzia nenhum som e não tinha sombra. Contavam, que tinha tanta força que podia transformar uma mosca grande e gorda numa mancha de sangue e era o que fazia. Trazia a morte a qualquer uma que pousava só por um momentinho para descansar as suas asas. Não caçava para saciar a sua fome. Havia comida suficiente para todos, também para o monstro. Além disso deixava os cadáveres no sitio onde caiam. Rapidamente e com muito sangue espalhava-se a não-vida entre a jovem colónia das moscas.
Algumas delas conseguiram sobreviver à ira da besta e puseram-lhe um nome, o Mordedor, porque uma só dentada sobrava para cair morto. As que escaparam, contavam histórias incríveis. Segundo elas, o monstro mostrava o seu rosto um momento antes do ataque, e era da cor mais bela (amarela), e assobiava como uma carraça esfomeada, só que mais alto e forte, fazendo anunciar a sua chegada. No começo poucos acreditavam nas suas palavras. As outras moscas diziam que estavam loucas ou doentes, mas as histórias começaram a circular e repetir-se com tanta frequência que a história sobre o monstro Mordedor de um conto passou a ser uma Verdade; e vivia, como a Verdade, com a sua própria vida.
Um grupo procurava nele a figura da Primeira Serpente, que devorava o seu rabo. A Serpente que é o começo do mundo e o seu final ao mesmo tempo, a que cria e destrói tudo. Outras achavam, que por casualidade entraram no ninho do Demiurgo e a epidemia de não-vida era um castigo por comer a carne com que criava novos monstros semelhantes a ele. Mais perto da solução do enigma estava outra Verdade que descrevia o Mordedor como um predador, com desejo de caçar, como a aranha, mas que apreciava a astúcia das suas vítimas. Por isso, embora fosse invisível, mostrava o seu rosto e deixava fugir os que podiam fazê-lo.
Finalmente, a natureza do Mordedor deixou de ser tão importante. As moscas acostumaram-se a estar atentas o tempo todo e o seu número lentamente aumentava. Então começaram a ser mais insolentes e deixaram de temer o monstro. Algumas até apostavam qual delas fugia dos seus dentes durante mais tempo. Foi isto o que enfureceu a besta.
Isto aconteceu numa época, não se sabe se durante o dia ou a noite, porque naquelas terras não havia muita diferença entre elas. O monstro voltou a atacar. Era mais rápido, mais aferrado e matava cada mosca que podia alcançar com o seu olho da cor mais bela que  via tudo. O voo não ajudava na fuga porque a besta pulverizava um ácido que cheirava muito bem, doce e suculento, mas se colava às asas e forçava as moscas a aterrar. Num abrir e fechar de olhos as moscas jaziam uma ao lado de outra, mortas ou quase mortas, e só neste conto as corajosas Viajantes, que encontraram o Mordedor,  são mencionadas.

***

O M. era um novo empregado num talho. Gostava de facas e carne, por isso era um trabalho perfeito para ele. O único defeito eram as moscas omnipresentes, que todos para além dele pareciam ignorar. Apanhou um mata-moscas e um aromatizador de pêssego e depois de acabar com os bichos saiu para fumar um cigarro. Não sabia que a lembrança sobre ele ia durar muito mais do que ele mesmo e de uma forma que  não podia imaginar. 
(Inspirado na canção "Mosca na Sopa" de Raul Seixas)
Natalia Sławińska
1º ano de Mestrado em Espanhol


quinta-feira, 26 de março de 2015

O vegetarianismo aos olhos dos carnívoros


Há quase quatro anos que sou vegetariana e estou muito orgulhosa da minha decisão. Isso significa que não como os animais (sim, os peixes também pertencem a este grupo), não compro os produtos de couro, por exemplo os sapatos, e não compro os cosméticos testados em animais. Para tomar essa decisão tive de pensar muito nas vantagens e desvantagens da dieta vegetal, li muitos livros sobre esta temática e falei com os vegetarianos que conhecia. Quando fiz  18 anos decidi oferecer a mim mesma a melhor prenda de todas e tornei-me vegetariana. O meu primeiro motivo para fazer isso foi a grande sensibilidade, o amor aos animais e a vontade de viver em harmonia comigo mesma e com o mundo inteiro.
Inicialmente a minha família não ficou muito surpreendida porque pensavam que era só uma das minhas ideias loucas que ia fracassar. Pensavam que em algum momento eu ia aborrecer-me  da ideia de melhorar o mundo e que ia voltar à mesa posta de filete de carne com batatas, mas isso nunca aconteceu. Passavam dias, semanas e meses e eu ficava cada vez mais convencida das minhas razões. Os meus pais começaram a preocupar-se comigo e eu sentia-me melhor do que nunca. Enquanto os meus amigos pensaram que era excêntrica e até perguntaram se podiam fazer algo por mim para ajudar-me a lutar com minha „enfermidade”.
Rapidamente passaram quatro anos desde o dia em que a minha vida mudou radicalmente. Durante todos esses anos observei com atenção os comportamentos da minha família e dos meus amigos quanto ao vegetarianismo. Hoje sou mais rica com esta experiência e posso compartilhar com os outros as minhas observações e conclusões. Vou apresentar então certas opiniões dos meus amigos carnívoros.
O que é o vegetarianismo segundo as pessoas “normais” (quer dizer que comem carne)?
O vegetarianismo é uma dieta que consiste em comer exclusivamente erva, cenoura e rebentos de plantas. Teve início na antiga Índia cujos cidadãos costumavam comer tudo o que se movia ou não se movia por estar morto. Mas depressa se deram conta de que tudo o que era saboroso e agradável ao paladar tinha sido comido e nos campos só ficaram as ervas  que depois se tornaram a base do vegetarianismo.
O líder dos vegetarianos e ao mesmo tempo o seu deus é o Senhor Deus Soja, e como é característico para Deus, pode aparecer sob várias formas, como por exemplo algo que parece  carne do animais, o leite ou qualquer outro produto alimentício. Um homem simples (quer dizer o carnívoro) teria graves problemas de digestão depois de comer qualquer das formas do Soja e seria obrigado a passar muitas horas fechado entre as quatro paredes do quarto de banho.
O indivíduo vegetariano, evidencia uma série dos transtornos mentais, está sob o poder do Diabo e quer mudar  mundo a qualquer preço. Caracteriza-se por ser fraco e pálido. É considerado um dos maiores inimigos dos ecologistas por comer o que eles defendem.

Espero ter elucidado um pouco o tema do vegetarianismo e as maneiras de percebe-lo pelos meus amigos-carnívoros. Queria também encorajar todos para pelo menos tentarem experimentar a dieta baseada nos alimentos de origem vegetal.
Aqui apresento também algumas frases que cada vegetariano tem de ouvir pelo menos uma vez na sua vida:
-Não comes carne, mas as plantas também sentem dor e têm sentimentos!
-Se não comeres carne, ficarás doente.
-Não se comem os animais vivos mas mortos e os mortos não sofrem.
-Os cristãos não podem ser vegetarianos, só os ateus podem.
-Jesus também comia carne.
-O homem é criado para comer carne e para matar os animais!
-De onde consegues proteína?
-E comes peixes?
-Como é que te vais casar? (A pergunta feita pelas avós)
-O que é que comes na verdade?
-Não tens medo de morrer?
-Porque te preocupas mais com os animais do que com os homens?
-Sabes, diz-se que o Hitler também era vegetariano...

Aleksandra Rogala
3º ano de Filologia Ibérica