quinta-feira, 23 de julho de 2015

A velhice...

A nossa sociedade envelhece. É um facto que podemos observar já há algum tempo – há mais idosos do que crianças. Graças ao desenvolvimento da medicina a vida humana prolongou-se, somos mais resistentes às doenças, também a mortalidade dos recém-nascidos é menor do que no passado.
„A velhice”. Para muitas pessoas soa como a sentença. Parece-nos o pior que pode acontecer na nossa vida. A velhice é porém uma etapa da vida extremamente importante. É a etapa que fecha o perfeito círculo da vida. É como o regresso ao início. Os idosos, ao fim da sua vida parecem voltar ao estado da criança – muitas vezes não conseguem realizar as atividades básicas sem assistência, são teimosos, não percebem as expressões mais simples. Até os seus corpos se tornam mais pequenos, mais delicados e sensíveis. Estes factos criam certa aparência, como que as pessoas de idade avançada verdadeiramente fossem imaturos e merecessem ser tratados como crianças ou (ainda pior) fossem ignoradas completamente. Pensamos que não percebem os nossos problemas, esquecemos que eles viveram a mesma vida que nós, também foram estudantes, namoraram, trabalharam, divertiam-se, tiveram as suas primeiras derrotas, conflitos com os seus pais, também tomavam cervejas aos 15 anos de idade em segredo, copiavam nos exames e iam de férias com uma tenda e 20 zloty no bolso. Se nós tivéssemos um pouco de compreensão e paciência para eles, podíamos aproveitar da enorme experiência e sabedoria que têm. Porém não está na moda passar tempo com os avós, que às vezes têm os hábitos estranhos e para nós inexplicáveis. Falta de vontade de verdadeiramente ouvir o que têm para dizer faz com que tratemos o que dizem com uma piscadela de olho. Como não são muito produtivos no mercado de trabalho, frequentemente achamo-los inúteis.  Que engano! São divertidos, têm montes das histórias interessantes para contar, bons conselhos tirados da experiência da vida deles.
Um exemplo – uma situação que aconteceu durante um exame ao ouvido feito a um idoso de oitenta anos. Perguntaram-lhe, se há situações nas quais ouve melhor ou pior. „Claro que sim!” - respondeu surpreendido, que alguém lhe faça uma pergunta tão óbvia - „quando dizem toma! ouço perfeitamente. Mas quando dizem dá – já não tanto..” O que significa isto? Que os idosos não só são inteligentes como nós mas revelam-se muito mais espertinhos do que nós pensamos. 
Aleksandra Porębska
3º ano de Estudos Portugueses

terça-feira, 7 de julho de 2015

A minha aventura polaca



A minha aventura polaca começa nos primeiros dias de maio, havia greve de pilotos nessa semana em Portugal e a ansiedade tomava-me por completo. Na verdade, nem sabia se conseguiria embarcar. Por dois meses ia estar com estudantes da UMCS e do CLP Camões em Lublin, portanto a responsabilidade era grande.
Para esta viagem, levava trinta quilos de bagagem. Tudo o que, por vezes, necessitamos (ou não). No comboio para Lublin, tive a minha primeira aventura polaca: carregar uma mala de vinte e três kg e pô-la num suporte especifico para as bagagens a quase dois metros do chão. Depois de muito sacrifício e tentativas em vão, dois amáveis rapazes perceberam a minha aflição e ajudaram-me. A partir daí, pensei: esta será uma grande aventura, sem duvida!
Sem saber, a minha cabeça hispano-luso-brasileira estava a conviver também com o polaco, um idioma novo e completamente desconhecido para mim. Pôr a máquina de lavar roupa (em polaco), comprar os produtos no supermercado (em polaco), apanhar um autocarro (paragens em polaco), pedir informação (em polaco), fez com que aprendesse algumas palavras e frases do quotidiano. No entanto, por vezes, a língua inglesa teve de ser "resgatada do baú" e empregue porque os meus conhecimentos linguísticos eram limitados. Algumas dessas aventuras inusitadas foram partilhadas com os estudantes e demos boas risadas.
No que diz respeito às aulas, foi uma experiência valiosíssima, não tem preço. Tentei transmitir e também ensinar aspetos que julgo interessantes e, ao mesmo tempo, pertinentes para um estudante de Estudos Portugueses, ou seja, mostrei a cultura, a língua e a minha paixão, a literatura. Desse modo, espero bem as minhas aulas que tenham sido proveitosas.
Agora está a finalizar a minha aventura polaca. Passou tão rápido, parece que foi ontem que cheguei, receosa e expetante. Resta-me uma vez mais, agradecer a oportunidade e a compreensão de todos. Vai custar-me imenso deixar o hábito de estar na universidade antes das nove da manhã, mas a vida é assim. Apenas deixo-vos um conselho: continuem a gostar e interessar-se pela língua portuguesa, pois é lindíssima.
Um abraço da "aventureira" Ana Coelho
Estagiária da Universidade Aberta de Lisboa

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Novo número já saiu!


O número seis da Água Vai saiu hoje. Nesta edição:
Contos:
-“A tirania do Semsentido” de Kamila Wiśniewska
-“Se o caso é chorar” de Serenna Cacchioli
-“O regresso do rei” de Anna Krupa e Małgorzata Stankiewicz
-“Amor em duas rodas” de Dominika Ładycka e Patrycja Cieśluk
-“A mesa” de Małgorzata Koprowicz
Música:
-Entrevista com Kinga Rataj por Liliana Wajrak
Desporto:
-Futebol português e futebol polaco: diferenças por Maciej Durka
-Entrevista com Adison Schneeweiss por Aleksandra Porębska
Opinião:
-Serviços académicos por Magda Jóźwik
-Viajando pela vida? por Aleksandra Guz
Ecologia:
- Em socorro dos linces por Anna Krupa
Brasil:
- Afro-brasileiro: inspiração para a cultura nacional 1889-1930 por Agata Błoch
- Brasileiros e Lublin: entrevista por Aleksandra Moskal
- O gaúcho – um estado de espírito por Katarzyna Rejter
Cinema:
- Imagine, de Andrzej Jakimowski, 2012 por Martyna Jędrzejczyk
Poesia:
- Entrevista com Alexandre Soares por Monika Czarkowska-Guziuk
- Poemas de Alexandre Soares (tradução de Joanna Dudek e Ewa Tomaszewska)

Quem estiver interessado pode passar pelo Centro de Língua Portuguesa/Camões em Lublin e pedir o seu exemplar. Está também disponível em versão pdf: ÁGUA VAI – PDF

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O cristianismo e o outro paganismo ou seja “A adivinha diz sempre a verdade”

Estima-se que mais de oitenta por cento dos polacos professa o cristianismo.  Ao mesmo tempo quase sessenta por cento das pessoas, inquiridas através de várias instituições, declara que acredita nas adivinhas e nos horóscopos. Foi calculado que essas mesmas pessoas juntas gastam anualmente cerca de 2 bilhões de zlótis em serviços esotéricos.
          Deixemos os números e as estatísticas aos entrevistadores. Suponhamos que eles sabem  mais disso. O que nos realmente deve interessar é a relação entre a religiosidade dos polacos e a confiança que têm  nas coisas de raízes pagãs. Ou melhor, se existe alguma dependência entre estas duas coisas.
De acordo com  “O dicionário de mitos a tradições culturais” a adivinhação, a cartomancia, a taromancia e outras são práticas que envolvem a previsão do futuro ou coisas desconhecidas, baseadas na fé na existência do mundo sobrenatural e a possibilidade de contato com ele para ter as informações em forma de signos  ou sinais de diferentes tipos. Simplificando, se  queres conhecer o futuro tens de visitar um vidente.
Na Antiguidade alguns fenómenos eram considerados proféticos, especialmente estes vistos no céu (os eclipses, os cometas, as tempestades e as tormentas de força excecional, os trovões) vistos como os sinais de deuses. Os sonhos, o relincho do cavalo, o sussurro das folhas, o voo das aves, as entranhas do sacrifício- nestas coisas buscavam-se as respostas às perguntas que ainda hoje atormentam os seres humanos.
Tudo isto é agora substituído pelas bolas de cristal, o tarot e a teimancia (é uma técnica de leitura pelas folhas de chá). Para realçar- não todas as culturas acolhem este novo modelo de adivinhação. É uma maravilha. Tanto progresso em tão pouco tempo. Afinal o que significam 2000 anos para o homem?
Para os polacos é apenas o tempo suficiente para criar um país, sobreviver à cristianização, a duas dinastias, eleição livre, partições, a duas guerras mundiais, ao comunismo e várias repúblicas.  Nem mais, nem menos.
Quando olho para tudo isto com os olhos que conhecem o presente e o passado, começo a pensar que o Darwin tinha razão-  só os indivíduos mais fortes sobrevivem. Que pena, senhor Darwin, que não os mais sapientes.
Por que as pessoas acreditam em magia e profecia?  Os psicólogos modernos aliás pesquisadores do pelo no ovo, dizem que isto não tem nada a ver com a razão. Mas o que eu percebo da expressão “nada a ver” é bastante diferente do seu ponto de vista.
A seu ver parece que hoje as pessoas acreditam e não acreditam ao mesmo tempo. De onde conhecemos isso? A ciência e a tecnologia estão no nível muito alto. Uma grande parte dos fenómenos do mundo tem uma explicação. Parece que já não há muito  ainda a descobrir. O homem tem um grande conhecimento mas carece de mistério. Estes eu chamaria “os chateados”. A adivinhação dá-lhe uma aparência, torna a vida mais excitante- isto seria um dos motivos da crença em presságios. Existe também o grupo das pessoas que acreditam nisto, dedicam as suas vidas à constante pesquisa do extraordinário- estes chamam-se a si próprios “os iniciados”. Outros não acreditam, não praticam e não perdem o tempo- esses eu chamo “os razoáveis”.  Uma explicação mais pode ser que o homem, educado, inteligente e moderno às vezes sente-se perdido no mundo técnico. E se não acredita profundamente em Deus, tenta acreditar na magia e desta forma explicar os seus problemas. Ainda temos o meu grupo preferido. O conjunto das pessoas, que dizem que são católicos mas também acreditam na magia- estes tem só um nome. São os polacos. Somos mestres.
O que é que tem a ver o catolicismo com a adivinhação?
Muito e muito pouco ao mesmo tempo.
A religião cristã rejeita todas as formas de adivinhação. O Catecismo da Igreja Católica diz que “Todas as formas de adivinhação hão de ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demónios, evocação dos mortos ou outras práticas que erroneamente se supõe "descobrir" o futuro. A consulta aos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e da sorte, os fenómenos de visão, o recurso a médiuns escondem uma vontade de poder sobre o tempo, sobre a história e, finalmente, sobre os homens, ao mesmo tempo que um desejo de ganhar para si os poderes ocultos. Essas práticas contradizem a honra e o respeito que, unidos ao amoroso temor, devemos exclusivamente a Deus.”
A mensagem é simples: se alguma vez visitaste uma adivinha, leste um horóscopo, ou fugiste ao ver um gato preto sentado na escada no meio da rua...  pecaste. Mais ou menos isso foi o que uma vez ouvi de um padre da minha paróquia. Para uma criança de 6 anos foi um choque mas como não podia ler e escrever, não sabia de existência de adivinhas e superstições, senti que a minha alma ainda se pode salvar.
Mas cada moeda tem dois lados. Não se pode pôr todos no mesmo saco. Quando procurava inspiração para escrever encontrei-me com um homem que me inspirou para abordar este tema, um homem dedicado a Deus, um padre que, na minha opinião, é uma das pessoas mais sensatas que eu conheci na vida.  Quando falamos dos polacos, católicos que muitas vezes preferem buscar respostas na boca de uma advinha,  ele disse: “a fé que um homem tem nos horóscopos e adivinhas mostra mais a insensatez  que a maldade deste homem”. Com  isto não penso discutir. Outra pessoa muito iluminada que se chamava Confúcio disse “Se queres prever o futuro, estuda o passado”.
E para estes que como eu não gostam de adivinhar, eu digo: Se queres conhecer o futuro, espera.
Beata Zuzel
2º ano de Estudos Portugueses

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Jogo de Geri


20 de maio de 1995
     Uma cozinha desarrumada – no fogão há uma panela com o jantar de ontem. Cheira a livros velhos e a canela. Dois velhotes estão sentados à mesa da cozinha. Eles têm os olhos calmos e as mãos trémulas, usam óculos, as camisas amarrotadas, suspensórios e os relógios que não são necessários porque não há pressa para os velhos. O pequeno-almoço – nada especial – o pão duro, um pouco de queijo, tomates da vizinha e algumas bolachas de canela. Nas paredes  há muitas fotos dos jovens e os cartões-postais de viagens que não vão fazer de novo.  Em cada lugar da cozinha há os livros favoritos.
-Está um dia lindo, não é Caetano?
-É, muito bonito como todos os dias de maio. Que dia é hoje?
-20 de maio. Outro aniversário? Como o tempo passa rápido!
-É verdade, o António escolheu o mês mais bonito para deixar os amigos e este mundo. As coisas nunca mais foram as mesmas desde aquele dia quando ele morreu.
-Não sejas tão triste e melancólico! Lembras-te quando o António esqueceu os óculos e passou à frente da casa dele e só deu conta seis ruas depois?
-Depois ele disse que queria dar um passeio e naturalmente não estava perdido. Lembras- te como ele cantou no coro para senhores e o maestro aconselhou-lhe delicadamente…
-…umas aulas de dança! Lembras-te como plantou flores para a mulher. Regava-as todos os dias mas não apareceram umas flores lindas mas..
-...uma curgete. Sabes, a última vez que jogámos xadrez foi três semanas antes da sua morte. Desde então não fui ao nosso lugar no parque.
-Eu também não, mas vamos jogar hoje como nos velhos tempos com o António!
-Vamos embora!
Um parque em que as flores florescem, há música no ar porque as aves cantam e umas crianças comem gelados de morango. Cheira a frescura como antes da tempestade. Dois Velhos vão com umas bengalas para andar e um tabuleiro se xadrez debaixo do braço. O tabuleiro de xadrez traz muitas lembranças sobre histórias antigas e a amizade fiel dos homens.
-Vamos recomeçar do sítio em que ficámos?
-Claro como água! Mas desta vez não te deixo ganhar.
-Nesta semana ensinei o meu neto a jogar. Raios! Não jogo como antes.
-Melhor ainda!
-Começa uma batalha ingrata!
Às vezes as peças caíam porque os senhores tinham as mãos trémulas. De vez em quando havia muitas palavras duras que causaram, pelo contrário, riso e não raiva.
-Sinto que eu ganho!
-Dás vontade de rir! Estás errado.
-Melhor move algo e não digas disparates!
-Acorda para a vida! Agora é a tua vez!
-Realmente… Estou a sufocar…
-Caetano! O que está acontecendo?
-Não posso.. Não posso respirar.
-Socorro, Socorro!
-Não quero morrer.
-Calma, amigo. Como está a tua respiração?
Utilizando um momento de desatenção do seu amigo preocupado, Caetano virou o tabuleiro de xadrez e agora ele estava em melhor posição.
-Estava a brincar! Estou bem.
-Porquê , porquê ?! Estás louco?
-Eu gosto do medo nos teus olhos. Era uma brincadeira e às vezes precisamos. E… Ganhei! Ganhei!
-Não acredito tu enganaste-me!
-Ganhei!
-Tens um problema mental ou algo?
-Estás surdo como uma porta? Ganhei! Digo pela terceira vez.
-O quê?! É verdade… Estava distraído.
-Levei a carta a Garcia!
-Bem, parabéns. Uma dentadura para ti. És um homem muito afortunado…
-Ótimo, obrigado mas não sei se estou feliz…
Começou a chover e aceitou o seu prémio, Caetano levantou-se do jogo de xadrez, sentindo os seus velhos ossos ranger. Como começou a sua viagem de volta a emoção da vitória desapareceu com cada passo que dava e o sorriso em seu rosto passou de entusiasmo juvenil para um sorriso da lembrança dolorosa.
“ A vitória era mas doce quando estavas vivo, meu velho amigo… “


Gabriela Malik
1º ano de Filologia Ibérica

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Mãe


A minha mãe chama-se Halina, tem 41 anos e é a mulher mais bonita no mundo. É uma cabeleireira muito famosa na minha cidade porque é a única mulher que corta cabelo só dos homens. É de uma aldeia pequena, tem três irmãs e dois irmãos. Para toda gente mãe é uma pessoa excepcional mas entre nós há uma relação muito forte desde o meu nascimento.  Durante três anos a minha mãe criou-me sozinha.  Sempre me disse que a coisa mais importante na minha vida é a independência. E que estudar é importante e que devo realizar todos os meus sonhos e paixões. Para mim ela é o modelo desta independência. Mostra que na vida há que lutar.
No último ano ela teve três operações muito graves. A minha família e eu sabíamos que podemos perdê-la, mas ela estava sempre muito sorridente e dizia que tudo está muito bem. É uma pessoa fortíssima. Até hoje não se queixa e não diz nada quando não se sente bem então sempre que estou em Lublin estou muito preocupada com ela. Eu sei que significa poder perder a mãe.
A minha mãe tem muita influência na minha vida. Nunca diz o que eu deveria fazer mas a opinião dela é muito importante para mim. Podia escrever muitas coisas sobre a minha mãe mas não sei o que é mais importante e o que menos então vou escrever 10 coisas que são características dela:

1.Não sabe fazer bolos. Apesar de cozinhar muito bem, não faz nenhum bolo. Gosto muito deste facto porque sei que espera por mim e precisa de mim quando lhe apetece comer um bolo.

2.É demasiado trabalhadora. Apesar de começar o trabalho às 8.00, chega às 7.00 porque “tenho de estar aqui”- como diz.

3.É viciada em comprar sapatos e carteiras. Às vezes quando chego a minha casa vejo três carteiras iguais mas de cores diferentes. Repito-lhe que tem de parar mas nesses momentos ela diz que eu tenho de parar de comprar pulseiras...

4.Chama-me KARUNIU (quando quer algo... :)).

5.É muito faladora. Fala muito, rápido e dá a toda gente a sua energia positiva.

6.Escreve-me “bom dia” ou “amo-te” sem ocasião especial quando não estou em casa.


7.Não há pessoa que faça sopa de tomate tão boa como ela!

8.É uma pessoa muito boa e tem o coração muito grande. Muitas pessoas feriram-na mas depois ela as ajudava.

9.Acha que a minha barriga tem o espaço muito grande então manda-me sempre comer tanto que depois não posso mexer-me. Diz que em Lublin não como nada (não é verdade!) então quando chego a Ryki não como durante todo o dia.

10.Colecciona discos e livros. Na minha casa há um quarto onde há só muitos discos, livros, uma mesa e o computador. A minha mãe tem cerca de 300 discos e mais que 300 livros. Nunca tive de pedir emprestado um livro, tinha em casa todas as leituras obrigatórias.

Apesar de a palavra 'pai' significar para mim menos que nada, “mãe” significa mais do que as outras pessoas pensam.

Karina Piecyk
2º ano de Filologia Ibérica

sábado, 6 de junho de 2015

Carta aos finalistas

Patrycja Pluta, Debora Mirosław, Justyna Kisielewska, Emilia Wróbel, Anna Drabik, Małgorzata Tracz, Edyta Marzec, Aleksandra Rogala, Liliana Wajrak, Rafał Ciosmak e  Weronika Ślęzak

Marta Wasilak, Aleksandra Guz, Agata Kowalczyk, Justyna Teterycz, Maciej Durka e Aleksandra Porębska (Ausentes : Dagmara Różańska*, Monika Świderska* e Sylwia Budzyńska*)

Estera Małek, Monika Czarkowsa-Guziuk, Katarzyna Kuczyńska, Magdalena Józwik, Natalia Trzebuniak, Karolina Kierepko, Małgorzata Koprowicz, Paulina Szczygielska, Patrycja Cieśluk e Dominika Ładycka (Ausentes: Olga Kukawka, Patrycja Pawecka* e Paweł Nowak*)

*Erasmus

Caros finalistas
Chegou ao fim mais um ano lectivo. Para alguns acabou a boa vida de estudante. Mesmo que esta “boa vida” não tenha sido fácil, a próxima etapa será um pouco mais difícil do que esta que acabou de terminar. Dizem adeus aos "indeks"[1],aos exames, às longas filas de espera no "dziekanat"[2]aos trabalhos de casa feitos no último momento, à angustia dos exames orais e dão as boas vindas à declaração de impostos e à simpática entidade patronal. Os que ficarem por cá mais dois anos irão perceber que estudar na capital ou numa universidade com tradição secular nem sempre é a melhor opção. Não é a tradição académica que vos põe a falar português. Nem sequer a localização geográfica, a menos que tenham muita pressa em serem "warszawskie słoiki"[3].
  Foi um prazer trabalhar convosco, mesmo que por vezes tenha lido nos vossos olhos: “Mas de que raio está este gajo a falar?” ou “Um café por favor!”. Espero que esta carta não seja um adeus mas sim um até já.

De um professor que vos estima,
aquele abraço:)





[1] Caderneta individual do aluno onde os professores escrevem as notas. É uma espécie de livro de autógrafos que obriga os alunos a andarem atrás dos professores no final de cada semestre a recolher rubricas. Quando a colecção semestral está completa o aluno tem que deixar este precioso objeto nos Serviços Académicos. Na era da globalização e do digital este método obsoleto continua a resistir qual bastião do antigo regime.
[2] Serviços Académicos
[3] Frascos varsovianos: Forma pejorativa como são designados os migrantes que todos os anos se mudam para Varsóvia. Fogem do desemprego e são oriundos das aldeias, vilas e cidades das regiões mais próximas de Varsóvia, embora os haja de todo o país. Uma das formas tradicionais de conservar a comida na Polónia é em frascos de vidro que também podem ser usados para transportar comida. Quando regressam à capital depois de um fim de semana nas localidades de origem, muitos destes migrantes levam consigo comida caseira em frascos de vidro e por isso são rotulados desta forma. A maioria dos varsovianos que chamam os novos vizinhos ou colegas de trabalho de warszawskie słoiki é constituída por ex-frascos , filhos de frascos ou netos de frascos. Têm é fraca memória e complexo de inferioridade.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Entrevista com a minha avó

Os nossos avós voltam sempre às recordações dos anos da sua juventude. Temos a impressão de que eles se lembram melhor dos acontecimentos que tiveram lugar antes do que do momento. Às vezes, são as aventuras engraçadas da infância, às vezes as histórias cheias de emoções da guerra. Vale a pena anotá-los todos! Como escreveu S.J. Lec – “pode-se fechar os olhos à realidade, mas não para as memórias”, porque as memórias são imortais...
- Avó Filomena, podes falar-me sobre a tua infância?
- Nasci em Ruszów há 78 anos. Era uma pequena aldeia onde viviam apenas algumas famílias. Até à aldeia mais próxima tinha 6 quilómetros e para a cidade 12. Vivíamos perto da floresta e passávamos ali a maioria do tempo. Durante o verão apanhávamos os morangos, framboesas e no outono avelãs. A casa vinham os veados, corços e aves selvagens. Os meninos adoravam brincar com uma parte do fogão chamada “fajerka”, um aro de metal, que faziam rolar.
- Como era a tua casa?
- Era toda de madeira e não era muito grande. Ao lado estava o celeiro e o estábulo e outros edifícios utilizáveis. O meu avô construiu-a no lugar de outros edifícios.
- O que aconteceu com eles?
- É uma história triste. Anteriormente, os nossos parentes moravam lá. Uma vez foram para o campo deixando na casa uma filha pequena de 6 anos. A criança, inconsciente do perigo, começou a brincar com fósforos e provocou um incêndio. Queimaram-se três casas com todos os pertences.
- É realmente terrível…
- Antigamente, não se cuidava tanto das crianças como atualmente. Os pais tinham de tratar do campo. Não haviam máquinas que melhoravam ou aceleravam o trabalhos. Os menores eram deixados em casa enquanto os mais velhos ajudavam no campo com o trabalho.
- Quantas pessoas viviam na tua casa?
- Os meus avós, pais e seis filhos. Havia um monte de gente e por isso não havia muito espaço mas tivemos de lidar com tais condições como eram, e ninguém sequer pensou em queixar-se.
- E de que tinham dinheiro?
- Tínhamos uma grande fazenda. Os meus pais trabalhavam no campo, tinham 40 hectares de terra. Criávamos vacas, cavalos, porcos e galinhas. Vendíamos trigo, leite, ovos e principalmente vivíamos disso.
- Havia lá uma escola?
- Infelizmente não. A escola estava numa aldeia vizinha. Todos os dias tínhamos de percorrer um caminho muito longo. Na maioria das vezes a pé, às vezes o meu pai atrelava o cavalo à carroça e levava-nos assim para a escola. Havia também lá uma igreja. Ensinava-nos uma mulher que no início veio só para o estágio mas decidiu ficar lá mais tempo. Na turma haviam as crianças de diferentes idades, desde a primeira até à sétima classe. Ela tinha de preparar o trabalho para todas as idades. Era muito talentosa. Lembro-me de danças, cantos e declamações de poemas. Preparava-nos muito bem.
- Como era a vida durante a guerra?
- No verão, nós dormíamos na floresta. Tínhamos medo de que durante a noite viessem os alemães e nos matassem. Quando dormíamos em casa, dormia sempre vestida, sentada, no caso de ter de fugir. Quando o meu pai ouvia algo perturbador, fugíamos sempre para a floresta. Uma vez capturaram-no. Fingiu que era compatriota porque falava mais ou menos alemão. Ordenaram-lhe rezar. Mas ele não sabia as orações em alemão. Apenas fez o sinal da cruz e felizmente deixaram-no. Uma vez chegaram com uma carroça e roubaram tudo. Roupas, panelas, bicicleta, todo o equipamento para casa. A minha mãe chorava e pediu-lhes que devolvessem as coisas das crianças. Neste momento um alemão colocou uma arma no seu peito e ameaçou que a fuzilava se não voltasse já para casa. Nunca vou esquecer esse medo. No entanto, quando descobriram que o meu pai era sapateiro, começaram a tratar-nos um pouco melhor. Mas em 1942 a população de Ruszów foi expulsa pelos alemães. A maioria das pessoas foram levadas para a Rotunda em Zamość, para Majdanek, e para muitos outros campos de concentração nazis. Os homens mais fortes foram deportados para o trabalho nas profundezas do Terceiro Reich. Mais tarde, a área foi habitada por colonos alemães. Nós fugimos para a nossa família que morava em Szewnia e de alguma forma conseguimos sobreviver.
- E como conheceste o teu futuro marido, o meu avô?
- Isto foi num baile no quartel de bombeiros. Nós dançámos juntos e conversamos. Mais tarde ele visitava-me de motocicleta. Naquele tempo isto era impressionante e as raparigas gostavam disso. Ele era um homem “desejável” na aldeia porque vivia ao lado da estrada principal asfaltada e trabalhava como motorista. Depois de um ano nós casamos. 

Justyna Teterycz
3º ano de Estudos Portugueses

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Yana Andreeva no Centro de Língua Portuguesa/Camões em Lublin

Nos dias 19 e 20 de maio de 2015 a Dra. Yana Andreeva da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski proferiu no nosso Centro duas paletras subordinadas ao tema: O Teatro de José Saramago: entre a História e o Mito.

"A figura de José Saramago (1922-2010) foi uma das figuras mais imponentes entre a intelectualidade europeia e mundial das últimas décadas, não apenas pelo projeto estético que a sua escrita defendia, mas também pelo projeto ideológico que a sua presença ativa de humanista militante fazia chegar à sociedade internacional por todas as vias que lhe eram possíveis, desde a intervenção nos mais diversos fóruns, passando pelas muitas entrevistas e chegando ao blogue que mantinha nos últimos anos da sua vida.  A grande realização criativa de Saramago projeta-se no terreno do romance, mas o seu teatro, embora de produção mais parca, contando com apenas 5 títulos, não é menos merecedor de atenção, por apresentar interpretações originais de diversas épocas da história portuguesa e europeia, projetadas no presente, e por oferecer a visão da dimensão humana da história através de personagens magistralmente elaboradas.
Saramago explica a sua tentação pelo teatro com uma necessidade intrínseca de usar a forma dramática para levar didaticamente ao palco a sua mensagem. Todas as suas peças foram escritas a partir de encomendas que lhe foram endereçadas por gente de teatro ou por instituições culturais, justificando-se assim que a escrita dramática tenha representado para  Saramago um desafio. Talvez por isso o autor seja ambíguo, ao avaliar o seu desempenho como dramaturgo, em vários textos de depoimento pessoal, que aqui serão evocados.
Com o objectivo de evidenciar as linhas de força que permeiam a dramaturgia de José Saramago, apresentam-se, por ordem cronológica de escrita e publicação, as cinco peças do autor, focando os seus argumentos, estrutura dramática, tempo e espaço da ação, personagens e conflitos, assim como os aspetos temáticos mais relevantes, como a seguir se indica:
A Noite (1979): a censura nos média; o intelectual e o poder; a liberdade de consciência e de expressão; o discurso de esquerda entre a intelectualidade contemporânea; o  compromisso do intelectual com a verdade.
Que Farei com Este Livro? (1980): a liberdade de pensamento e de expressão; a censura inquisitorial; os compromissos da escrita literária; as relações de produção no meio cultural e literário, a reinterpretação do mito camoniano; o destino da literatura e seu papel na sociedade moderna
A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987): o discurso do poder e a perda de sentido das palavra; a integridade moral e a luta pelo poder; a pobreza: ideia fundadora da doutrina cristã e da prédica franciscana, a cruzada a favor da pobreza e contra a riqueza; a dessacralização do mito cristão da pobreza pela reversão ideológica do conceito da pobreza; a substituição do mito cristão da pobreza pelo mito humanitário da erradicação da pobreza; a denúncia social e humanitária do atual estado do primeiro mundo, da crise de valores da sociedade de consumo contemporânea, do desrespeito, sob o disfarce dos procedimentos democráticos, das regras éticas de base.
In Nomine Dei (1993): a sede de justiça; a brutalidade e a falta de sentido da violência; a fé, a credulidade e a esperança; a utopia igualitária como pretexto para praticar o fanatismo e a violência; o homem  dominado pelo homem num mundo entregue às forças irracionais.
Don Giovanni, ou o Dissoluto Absolvido (2005): a perda da memória do passado como privação de identidade; o inferno metafísico e o inferno humano; a expiação, com a desonra pública, dos pecados coletivos; a hipocrisia social; a humilhação do homem pelo homem, a vingança e a compaixão; a experiência lúdica como instrumento de desmitificação de ideologias dominantes e poderes estabelecidos. As análises e reflexões formuladas neste ciclo de conferências permitem evidenciar que a produção dramatúrgica de José Saramago se apresenta no seu conjunto como um teatro ao mesmo tempo político e existencial, teatro de ideias e de emoções, revelador de profundas contradições éticas e sociais. Todas as peças centram a ação em torno de um conflito que opõe formas de pensar e de agir entre si irreconciliáveis. Os textos aproveitam personagens e momentos conhecidos da história portuguesa e europeia, retomando tematicamente as relações entre conhecimento e alteridade, a que atribuem uma forte implicação temporal. O denominador comum da dramaturgia de Saramago é a sua insistência em trazer para o presente, reconvertendo-os, os exemplos históricos, culturais ou mítico-fabulares pelos quais o autor sente um inegável fascínio. O sentido da reinterpretação das figuras e acontecimentos que configuram o universo dramático saramaguiano é a atribuição, a essas figuras e a esses acontecimentos, de uma profunda dimensão humana que explicita, aos olhos do leitor, o projeto ideológico de José Saramago." Yana Andreeva*

*Yana Andreeva é Professora Associada no Departamento de Estudos Ibero-Americanos da Faculdade de Letras Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski, na Bulgária. Leciona cadeiras de Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira. Doutorou-se em Literatura Portuguesa Contemporânea com a tese “A escrita autobiográfica na obra de Fernando Namora” (2006). É autora de três livros sobre escritores e temas da literatura portuguesa contemporânea, de numerosos prefácios e artigos, organizadora de três antologias da Literatura Portuguesa e de vários volumes coletivos, dedicados a temas na área dos estudos do mundo lusófono.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Helena Topa Valentim no Centro de Língua Portuguesa/ Camões em Lublin

Nos dias 13 e 14 de maio, a Dra. Helena Topa Valentim, da Universidade Nova de Lisboa, proferiu duas palestras no CLP/Camões em Lublin.  O tema abordado foi a Determinação nominal e determinação verbal em Português. Esta série de seminários pretendeu sobretudo dar conta da forma como se constroem valores de referência no Português, marcados pela forma como os nomes são determinados. Descreveram-se as possibilidades de determinação dos nomes e os valores semânticos que daí resultam, tendo em conta a natureza dos nomes assim como a predicação construída. Foram, por conseguinte, objeto de estudo: as propriedades semânticas dos artigos definidos e dos artigos indefinidos; a interdependência entre definitude e indefinitude; a construção anafórica; a relação entre os artigos definidos e os demonstrativos; a relação entre os artigos indefinidos e o numeral cardinal um assim como outros quantificadores indefinidos.Foi objectivo deste trabalho transmitir um conhecimento sobre a questão geral da determinação linguística enquanto fenómeno complexo, que se compreende na interrelação existente entre todas as formas linguísticas em presença nos enunciados, daí resultando a variabilidade e a deformabilidade dos valores construídos.
A Dra. Helena Topa Valentim é docente no Departamento de Linguística da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e investigadora do Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, onde desenvolve investigação na área de Semântica, integrada num grupo de trabalho em Gramática e Texto.



quinta-feira, 14 de maio de 2015

Chávena


Era uma vez uma chávena bonita. Era de cor champanhe, bastante alta, de porcelana, enfeitada com rosas vermelhas. Vivia num armário abarrotado de outras chávenas e pratos. Era a chávena mais bonita de todo o armário. E não só era linda, mas também inteligente. Gostava de ler etiquetas de café e o seu conteúdo. Mas a sua leitura favorita eram as instruções da cafeteira.
            Infelizmente, a nossa chávena não tinha amigos. As suas companheiras de apartamento odiavam-na porque invejavam-lhe a sua beleza. Os pratos não falavam com ela, porque as suas colegas proibiam-nos de o fazer. A chávena sentia-se muito sozinha, queria largar a sua vida. Começava a cair numa depressão quando um prato novo mudou-se para o armário. O prato, uma criatura vistosa, apaixonou-se pela chávena à primeira vista. E o seu amor foi mútuo. Mas ele não agradava só à chávena, outras já estavam a pensar em escolher o vestido de casamento. Uma vez, a chávena mais tonta e mentirosa, disse-lhe que tinha esperado por ele toda a sua vida. E começou a beijá-lo. O prato não queria ofender a nova colega e aceitou o seu beijo. A mentirosa celebrou a sua vitória mostrando às suas companheiras o seu dedo médio. A partir deste momento, jactava-se do seu noivado imaginário enquanto o prato não se interessava por ela. Ele tentava convidar a chávena para um café, mas a sua namorada suspeitava de algo e perseguia-o sempre. Uma tarde, depois do banho no lava-louças, a mentirosa empurrou a chávena, que caiu ao chão. A chávena coitada quebrou a sua orelha. O prato ficou muito nervoso, acusou a mentirosa de tentativa de assassinato e disse-lhe que nunca a amou.
            A mentirosa ficou tão destroçada que se atirou da beira do armário. O prato finalmente convidou a chávena para tomar café e mais tarde casaram-se. A chávena pariu duas colheres. Todos viveram muito felizes para sempre.

Magdalena Szczypta
2º ano de Filologia Ibérica

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Polónia – País dos buracos

No meu país há buracos por todo o lado. Imensos. Grandes e pequenos. Podem ser divididos em grupos, mas também podem ser considerados geralmente como um conjunto (isso, porém, não seria aconselhável, porque os buracos são muito diversificados). Acho que o assunto dos buracos é extremamente sério e tem de ser tratado seriamente, especialmente perante as próximas eleições presidenciais. Não sei porquê, mas parece que os políticos e as pessoas que possuem qualquer tipo de poder têm muito a ver com certos géneros dos buracos. Aqui vão ser brevemente apresentados alguns deles:
-Buracos orçamentais: A presença dos buracos no orçamento do governo da Polónia é indubitável. A dívida pública é enorme e continua a crescer, já conseguimos a acostumar-nos à constante falta de dinheiro.
-Buracos nas carteiras:  É incrível quanto dinheiro cabe nas carteiras dos governantes.  Ganham muitíssimo e nunca ficam satisfeitos, querem sempre mais e mais. Onde é que estão estes milhões que com tanta fúria arrancam de nós? Parece que as suas carteiras ou são sem fundo ou são mesmo cheias de buracos.
-Buracos na memória: O mencionado grupo dos poderosos que são verdadeiros especialistas em promessas. São excelentes visionários, têm ideias luminosas, frequentemente apresentam os seus planos muito bonitos. Adoram declarações que, infelizmente, muitas vezes são fábulas. Não quero julgar ninguém, seria injusto dizer, que eles mentem de forma incessante e propositadamente. Para não arruinar a minha idealística visão do mundo e cega crença na bondade e boa vontade das pessoas, aposto que todas estas desilusões são causadas por buracos na memória dos políticos. Eles, após as eleições, simplesmente, esquecem-se das promessas.
A política porém não é a única área que tem a ver com os buracos. Há mais. Nas estradas, por exemplo. Andar de carro aqui muitas vezes assemelha-se  a um slalom. O nosso país é já famoso pela má qualidade das estradas, e não é fama que traz muito orgulho. Se olharmos mais profundamente a questão dos buracos, vê-se uma certa correlação entre as frequentes faltas do asfalto nas ruas e os secretos buracos nas carteiras dos governantes. Como assim? Já explico.
Nós, os cidadãos, pagamos os impostos de circulação para cobrir as despesas de manutenção das estradas para que fiquem em condições de circulação. Quem se ocupa deste dinheiro são os políticos, os proprietários das carteiras sempre vazias, com constante necessidade de as abastecer. Preferem então reservar este dinheiro para as suas necessidades próprias, em vez de tratar dos assuntos públicos. Assim sendo, o imposto destinado para tapar os buracos na estrada desvia-se radicalmente e enche as esburacadas carteiras dos poderosos, onde desaparece para sempre. Assim fecha-se o círculo da nossa moeda. A maior parte do dinheiro dos nossos impostos, perde-se como se fosse posta num buraco negro.
Aleksandra Porębska
3º ano de Estudos Portugueses