segunda-feira, 10 de março de 2014

É uma dança sensual…Kizomba!

Antes de ir a Portugal nunca tinha ouvido este nome. Kizomba? Estás a pensar em zumba? Salsa? O que é isso? Não percebo! Não conheces? Então repara, é outra coisa, outra dança.
Francamente quando vi pela primeira vez esta dança, fiquei um pouco chocada talvez porque seja muito sensual e íntima, embora parecia um pouco como salsa ou bachata. Apesar disso as pessoas que estavam a dançar, não tiveram nenhuma vergonha destes movimentos lentos, lentos e rápidos marcados por uma batida forte em ritmo 4/4. Temos de ter algumas capacidades e influências no corpo para dançar kizomba, é óbvio. É uma dança com coração africano, com ritmo de terras angolanas, mas quase adotadas como uma dança portuguesa. Nasceu em Angola nos anos 1987-1988 e muitas vezes pode ser confundida com “zuok”, porque tem um ritmo semelhante.
 Na Polónia participei muitas vezes em festas ou aulas de dança, onde podia ver e tentar dançar, por exemplo, salsa ou bachata. Lembro-me de uma noite com as danças latinas e africanas numa discoteca aqui em Lublin. Sim, as pessoas dançavam bastante bem ou... aparentemente,  no entanto sem alguma emoção. Porém lembro-me ainda melhor do que vi em Portugal alguns dias depois da chegada. Ou melhor – o que via quase todos os fins de semana. Os casais dançando na discoteca, mas não ao ritmo das canções de Pitbull ou DJ Techno, mas puramente danças de salão. Na Polónia também vejo as mulheres que dançam muito bem. Mas os homens? Numa discoteca? Não há muitos assim e não podia parar de observar! Cada homem pode mexer-se e é capaz de conduzir a dança. Uma surpresa enorme, pelo menos para mim. Além disso quando comecei a ter aulas de kizomba, o mais importante que tive de fazer foi relaxar-me no ritmo. Foi um prazer, mas também o esforço imenso porque não sou dançaria profissional. Mas mesmo que tentasse, nunca alcancei e nunca alcançarei o nível de por exemplo os cabo-verdianos, que têm o ritmo de kizomba no corpo e podem dançar durante muito tempo sem conhecer muitos passos diferentes, fazendo só um passo basicamente, mas dançam melhor de que alguns instrutores de dança. Os artistas mais conhecidos que fazem são por exemplo Nelson Freitas ou Anselmo Ralph. O que me surpreende ainda mais é o facto, de que a kizomba, além dos países lusófonos, é conhecida em mais três países: França, Reino Unido e... a Polónia! Por isso, como tenho tantas saudades, parece que só me resta inscrever-me nas aulas em Lublin.
Anexo uma ligação ao filme de Faro do clube Património, onde em cada fim de semana se dança kizomba! 

Aleksandra Guz
2º ano de Estudos Portugueses

segunda-feira, 3 de março de 2014

As minhas reflexões sobre a seleção portuguesa de futebol

Em julho começa a Copa do Mundo no Brasil. Um dos participantes vai ser a seleção portuguesa que se classificou graças à vitória ante a Suécia em novembro e quatro golos de Cristiano Ronaldo. Portugal tem um grupo muito forte e vai medir-se com a Alemanha, o Gana e os Estados Unidos. Na minha opinião não pertence ao grupo dos favoritos para ganhar a copa. Além disso, se não se classificar para a fase final não será nenhuma grande surpresa embora tenha Cristiano.
Mas alguns jogadores da seleção têm um potencial imenso e se estiverem em forma extraordinária poderão levá-la até às semifinais, como no ano 2006 no mundial na Alemanha, ou ultimamente no Euro 2012. Como Portugal nunca jogava bem nas eliminatórias isso não pode ser nenhum determinante. Nos últimos campeonatos, seja do mundo, seja da Europa a seleção mostrou que é capaz de melhorar o seu rendimento com cada jogo.
A seleção das Quinas tem jogadores da grande qualidade. Além do Cristiano pode-se nomear João Moutinho, Pepe ou Fábio Coentrão. Mas isto é pouco para serem considerados favoritos. A posição do guarda-redes não me convence e isso é bastante preocupante. Ainda pior está a situação dos avançados que jogam com o típico 9. Hélder Postiga e Huga Almeida lutam pelo lugar no onze inicial. Não sei qual é pior. Ambos são o mesmo desastre. Desde que Pedro Pauleta deixou de representar o país Portugal tem muitíssimos problemas com essa posição. O que pode dar otimismo é que a defesa e CR7 sabem jogar os jogos decisivos.
Outro problema é o curto banco de reservas ou melhor muito pior nível dos suplentes do que dos titulares. É muito difícil os suplentes substituírem bem algum jogador do onze inicial. Bom, não se pode jogar pior do que Almeida ou Postiga, mas não há quem pudesse jogar melhor. No caso de lesão ou suspensão a seleção terá um problema grave. Mas vale a pena recordar que Portugal com a mesma equipa conseguiu tingir as semifinais em 2012 vencendo a Dinamarca, Paises Baixos e empatando sem sofrer golos com a Espanha.
No passado Portugal não foi considerado como uma seleção forte. Salvo o ano 1966 não teve êxito. Tiveram de esperar até aos 90 quando apareceu a geração do ouro com Luís Figo, Rui Costa ou Fernando Couto. Nos últimos 15 anos Portugal melhorou o seu nível e hoje encontra-se entre os dez melhores do mundo. O atual selecionador, Paulo Bento também formou parte dessa geração. Agora Portugal tem um grande jogador, alguns jogadores bons e o resto são jogadores medíocres. Espero que Bento saiba misturá-los bem.

Maciej Durka
2º ano Estudos Portugueses

sábado, 1 de março de 2014

Exposição "A BD Ibérica- Uma Península aos Quadradinhos"

De 27 de fevereiro a 14 de março estará patente ao público no átrio do Museu da UMCS a exposição "A BD Ibérica- Uma Península aos Quadradinhos". Organizada pelo Instituto Camões, Instituto Cervantes e pelas respetivas embaixadas, reúne trabalhos de alguns dos melhores autores portugueses e espanhóis de Banda Desenhada. A exposição foi inaugurada por sua Excelência a Embaixadora de Portugal na Polónia, Dra. Maria Amélia Paiva, que aproveitando a sua visita a Lublin, conheceu as instalações do Centro de Língua Portuguesa e encontrou-se com alunos e com o corpo docente.  


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Uma visão brasileira da Polónia

Realizei uma pequena entrevista com um amigo meu brasileiro, Túlio de Araújo Campos, que esteve na Polónia durante algum tempo, para conhecer a opinião de um estrangeiro sobre o nosso país.

J: Antes de vires à Polónia sabias algo sobre o nosso país?
T: Sim, sabia bastante sobre a Polónia porque estudei geografia e portanto tinha uma visão geral.  Além disso, sou fascinado pela história. Estou particularmente interessado na Primeira e Segunda Guerra Mundial, e isto têm uma grande relação com a Polónia. Também, mesmo antes da viagem procurei várias informações na Internet.
J: Estiveste na Polónia, durante o inverno. Como sobreviveste à diferença climática?
T: Sinceramente, foi muito difícil. No geral, tive que vestir roupa muito quente, mesmo que para vós ainda não fosse totalmente inverno. Eu ri de mim mesmo quando vestia, por exemplo, as ceroulas, calças de ganga e três pares de meias! Apesar de todo o charme do inverno e da neve, definitivamente prefiro o clima brasileiro e as nossas temperaturas.
J: Onde é que moravas durante o programa AISEC na Polónia?
T: Visitei 11 cidades, entre outras, Lublin, Rzeszów, Zamość, Cracóvia, Varsóvia e Trójmiasto. Principalmente morava nas residências de estudantes, mas também em casas de famílias polacas. Isso foi a experiência mais valiosa para mim. Pude familiarizar-me com o ritmo do seu dia, tradição, experimentar diretamente a cultura e participar na vida quotidiana da família. Isso deu-me umas memórias preciosas. Com algumas pessoas mantenho contato até hoje.
J: Gostaste da comida polaca ou houve algo que não gostaste?
T: Geralmente muito. O que mais gostei foram os pierogi e o borsch. Por outro lado, realmente não gostei de panquecas de batatas raladas e fritas, a manteiga e compotas. Além disso, faltavam-me frutas e legumes frescos, como tenho em abundância no Brasil.
J: Há algo na cultura, costumes, etc, que  particularmente te surpreendeu?
T: Principalmente, chamou a minha atenção a forma de cumprimentar. É possível observar uma grande distância, os polacos apenas dão um aperto de mão. No Brasil, todo isso é mais efusivo, abraçamo-nos e damos dois beijos. Outra coisa que notei foi a forma e o horário das refeições. Não respeitam as horas fixas e específicas. Além disso, comem quando queiram e raramente comem com a família. Não celebram estas refeições como os brasileiros. Para nós é muito importante que toda a família come junta e cada pessoa come o que foi previamente preparado para todos.
J: Gostarias de vir no futuro outra vez para a Polónia?
T: Claro que sim, mas noutra estação do ano. Fiquei encantado pela Polónia. Estou mesmo planeando em 2014 uma viagem para a Rússia, mas durante a excursão gostaria de ficar alguns dias em Varsóvia e voltar a Lublin por razões sentimentais e porque tenho muitos amigos aqui.

Justyna Teterycz
2º ano de Estudos Portugueses




sábado, 15 de fevereiro de 2014

Felicidade

Felicidade. O que é isto? Quando perguntamos a alguém o que deseja, a maioria das pessoas responde: "Quero ser feliz!"Mas o que significa ser feliz? Ter um bom trabalho, muito dinheiro ou uma casa luxuosa? Família? Namorado? Paixão? Não sei. Sei apenas que normalmente as pessoas que não têm quase nada são as mais felizes. Paradoxo? Então, o que é a felicidade para mim?
1- Três horas a jogar voleibol. Apogeu da felicidade! E a dor dos músculos no dia seguinte...
2- Morangos. O sabor dos primeiros morangos neste ano... indescritível!
3- Elogios. Levanto-me demasiado tarde, tenho apenas quinze minutos para fazer tudo. Visto-me com a primeira coisa que tenho mais próxima. Nervosa e ansiosa entro na universidade e ouço: "Que bonita estás hoje!"
4- O primeiro dia de vinte graus depois de cinco meses de inverno!
5- Um copo de água gelada quando acordo depois de uma noitada de festa...
6- As minhas colegas de quatro. Nunca pensei que vou viver com as pessoas tão excelentes. Karaoke às 3 da manhã? Porque não! Pobres vizinhos...
7- Sábado. Quando não tenho que ouvir o meu despertador e posso passar todo o dia vestida de pijama. Sob a condição de que a minha mãe não me telefone às 7 de manhã, discurso: "Ainda estás a dormir?! Porque não estás a estudar?!"
8- Memórias. Quando me encontro com os meus amigos da escola secundária e lembramos todas as coisas estúpidas que fizemos.
9- Abraços. Ouvi falar que as pessoas que se abraçam pelo menos uma vez por dia vivem mais tempo. Vale a pena praticar!
10- Ver o meu filme favorito pela décima vez. Não me importa que saiba sempre o que acontecerá. Adoro!
11- A comida caseira. Não há coisa melhor do que o sabor da comida feita pela minha mãe depois de um mês passado em Lublin.
12- Os momentos em que não posso respirar por estar a rir-me!
Isto é felicidade! 

Monika Świderska

2º ano de Estudos Portugueses

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Canções contadas: O Anãozinho

  O Pedro teria uns vinte e quatro, vinte e sete anos quando o conheci. O rapaz parecia totalmente ensimesmado e praticamente não abria a boca na presença de outros empregados da nossa pequena pensão de luxo. Era mesmo muito difícil trocar dois dedos de conversa com ele, sem mencionar já a possibilidade de entabular alguma relação mais profunda com aquele ‘filho das ruas’. O Pedro era baixo e de postura lamentavelmente fraca. Rapidamente foi-lhe cunhado pelos outros o ofensivo apodo de ‘Anãozinho’, devido à sua estatura liliputiana. Além disso, o miúdo permanecia, obviamente, à margem da nossa provisória vida social, que geralmente costumava limitar-se a umas trocas de palavras mais ou menos acidentais, ocorridas durante os curtos e infrequentes intervalos na nossa faina diária.
   Apesar dessa aparente fraqueza e vários síndromes de alienação ambiental, o Anãozinho parecia um trabalhador perfeito: todos os dias estava cumpria com as suas obrigações e tarefas diurnas de empregado de mesa e de limpeza do local. Varria, lavava a louça, preparava os quartos para os hóspedes. Não obstante, os companheiros de trabalho achavam que, injusta e erroneamente, era um imbecil, incapaz de perceber a natureza dos assuntos humanos. Apesar da perfeita execução das tarefas que lhe eram atribuídas, ao Pedrinho nunca o incumbiam de nenhuma obrigação que ultrapassasse a atividade puramente manual como se o simples atender do telefone se encontrasse fora da sua aptidão intelectual. Marcado com a etiqueta de deficiente mental, o rapaz não falava com os outros pois não havia absolutamente ninguém que supusesse que por trás da sua cortina de silêncio e incomunicação o jovem estava a construir o seu próprio mundo, uma realidade alternativa cheia de maravilhas. Passavam dias e noites de guarda e sem sono, mas tudo continuava igual e nós, sem excepção, ficávamos sempre com as mãos a arder por excesso de trabalho. O Pedrinho chegava à pensão às 6 horas de manhã e saia tarde, depois do pôr- do- sol. Outras vezes a patroa pedia-lhe que ficasse no local durante toda a noite ou até durante vários dias sucessivos.
  Um certo dia o recepcionista do nosso turno da noite teve problemas em explicar as condições e regras vigentes na pensão e referentes ao alojamento nela a um casal de idosos estrangeiros que não conseguiam entendê-lo em inglês. Ao ouvir o homem dizer alguma coisa à sua mulher naquela língua que todos nós ignorávamos o Pedrinho, que ajolheado estava a limpar o chão, inesperadamente levantou-se, abriu a boca e, para nossa surpresa, começou a explicar tudo com uma fluência linguística impressionante. Todos ficamos sem palavras ao ver e ouvir o Anãozinho falar húngaro como se fosse um budapestense de gema. Naquele momento apareceu a patroa que tinha entrado pela porta traseira. Ela também não era capaz de entender o que tinha acabado de acontecer. Depois de os hóspedes terem sido alojados no seu quarto, a mulher chamou pelo Pedrinho e, sem entendermos o porquê da sua reação, começou a repreendê-lo por ter ousado falar na presença de hóspedes tão distintos. Desta vez o rapaz nem sequer abriu a boca e agora apenas acenava afirmativamente com a cabeça em sinal de compreensão total do seu erro imperdoável. Depois de ter ouvido aquele sermão, cheio de acusações humilhantes, o nosso Anãozinho jamais voltou a atrever-se a falar com ninguém. 
  Rapidamente, tudo parecia continuar como dantes e de novo presenciávamos muitas chegadas e saídas de hóspedes que vinham à procura da tranquilidade comprada por um preço astronômico. Até um dia em que a chefe chamou por nós porque queria uma explicação para o desaparecimento de três livros da prateleira do salão no segundo andar. Curiosamente, nenhum de nós recordava os títulos daqueles livros. Apenas podíamos lembrar-nos de que efetivamente se encontravam lá na prateleira do salão, muito empoeirados, sem podermos evocar nem sequer a cor da capa de nenhum dos tomos em questão. Todos, inclusive a patroa que há muitos anos tinha recebido o local de herança, ficaram envergonhados porque tinham de admitir que nenhuma vez prestaram a mínima atenção ao conteúdo das prateleiras cujo ‘buraco’ embaraçoso foi, ainda aquele mesmo dia, enganosamente tapado com umas revistas de imprensa cor- de- rosa. Ao princípio ninguém achou estranho o facto do dito desaparecimento dos três livros e a ausência do Pedrinho no trabalho aquele dia. Contudo, era verdade que a partir daquele dia o Anãozinho não voltou a aparecer na pensão. Só passados alguns anos chegou uma estranha encomenda do estrangeiro. Para surpresa da patroa, a encomenda continha os três volumes em falta da vasta coleção do seu avô intelectual falecido há mais de 40 anos. Tanto os dois os romances de Honoré de Balzac escritos em francês como o exemplar de ´Darkness at noon´ de Arthur Koestler na edição inglesa encontravam-se intactos e em perfeitas condições. Dentro do último dos livros alguém encontrou um bilhete: “Obrigado por ter podido levar emprestados e ler estes livros. Foram os últimos de toda a coleção que não consegui ler durante aqueles cinco anos. Anãozinho".

Inspirei-me na canção Spread your wings (1977) da banda britânica Queen e, além disso, introduzi alguns elementos ‘autobiográficos’ no conto. 
Michał Hułyk
1º ano de Mestrado em Espanhol

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Português europeu ou brasileiro - qual escolher?

Sou aluna do terceiro ano de Filologia Românica da UMCS. A minha primeira língua é o francês e a segunda é o português. Desde o início, eu tive as aulas de português com dois professores que me ensinaram as duas variantes diferentes do português, a europeia e a brasileira. Nos primeiros dias de aulas, percebi rapidamente que essas duas versões têm muitas semelhanças, mas também muitas diferenças. No final do ano eu decidi que quero participar no programa de intercâmbio Erasmus durante um ano e fui para Portugal estudar o segundo curso que frequento, Turismo e Lazer. Eu queria aprender a linguagem informal e ser capaz de falar bem pelo menos numa variante de português. Isto foi um grande desafio! Eu passei muito tempo com os estudantes estrangeiros que falavam só inglês. Também na universidade era mais fácil de comunicar em inglês. No entanto, no segundo semestre, eu já sabia que era preciso encontrar algumas pessoas que vão estar dispostas a conversar comigo em português o mais rápido possível. Participei em várias reuniões de linguistas e de viajantes mas reuniões de uma hora não foram suficientes. Finalmente encontrei um grupo das pessoas do Brasil e nós tornamo-nos amigos. Falavam mal inglês, por isso fui obrigada a falar português com eles. Desta forma, quando eu estava em Portugal, eu aprendi a falar português na variante brasileira.
Agora, eu gostaria de apresentar neste artigo as diferenças básicas nas duas variantes do português, a fim de facilitar a escolha de aprendizagem de uma delas. Em todo o mundo há cerca de 210 milhões pessoas que falam português.  O português é a sexta língua mais usada do mundo. Fora de Portugal, é língua oficial em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. O Brasil possui cerca de 194 milhões de habitantes,  Portugal cerca de 11 milhões. O português é uma língua única, combinando os melhores sabores de muitas línguas europeias, mas não se limitando às da Europa. Por um lado, extremamente suave, melódico, quente, por outro lado, uma língua  dura, incrivelmente intensa.
A pronúncia: A variante brasileira, em oposição à da Europa, não tem a redução de vogais em sílabas átonas (por exemplo: a palavra distante em Portugal pronunciamos  quase como dsztant e no Brasil dzistanci). Portanto, ficamos com a impressão de que a pronúncia brasileira é mais suave e melódica.
O português do Brasil é enriquecido com uma série de palavras e de expressões das línguas dos índios brasileiros e ex-escravos da África Ocidental. Há também algumas diferenças significativas no vocabulário quotidiano (por exemplo, o ônibus no Brasil é o autocarro em Portugal, o sorvete no Brasil é o gelado em Portugal, etc.). No Brasil, há ainda mais estrangeirismos do inglês.
A gramática: Não há muitas diferenças na gramática de português brasileiro e europeu. Os termos de uso e a colocação dos pronomes numa frase em português do Brasil são mais simples do que na Europa. As outras modificações significativas à gramática que existem no português brasileiro é evitar o pronome possessivo definitivo (no Brasil, diz-se: meu carro, em Portugal: o meu carro) e o uso das formas verbais da terceira pessoa do singular em vez da segunda pessoa do singular (você diz no Brasil é tu falas em Portugal).
Como você pode ver a escolha não é fácil, eu ainda não decidi qual variante escolher :)  Talvez, quando o meu sonho de fazer uma viagem ao Brasil se torne realidade um dia,  eu decida que variante prefiro...

Karolina Swaj
3º ano de Filologia Românica

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Natalia Juśkiewicz – a "fadista" polaca

O fado não e o género popular só entre os portugueses – alguns polacos são também activos no palco do fado e... desenrascam-se bem!
Além dos entusiastas do fado temos também os artistas que tentam demonstrar o seu valor neste género musical, fascinados pela música tradicional de Portugal, realizam os seus próprios arranjos e ganham o reconhecimento no palco nativo e português.
Especialmente a violinista Natalia Juśkiewicz, nascida em Koszalin que agora reside em Portugal há vários anos. Mais conhecida entre os portugueses do que entre os polacos? Pode ser! O fado ainda não é o género muito popular na Polónia, apenas alguns são capazes de enumerar as fadistas mais populares e ainda existem muitas pessoas que não podem dizer nada sobre esta música. Graças ao sotaque polaco, isso pode mudar.
 A carreira da Natalia começou muito cedo. Aos sete anos ela começou a aprender violino que agora é a marca registada da sua música, com especialidade em violino clássico pela Academia de Poznan. O amor pelo fado não apareceria se a Natalia não se tivesse apaixonado. E isto é o sentimento excepcional e para toda a vida, o amor por Portugal.
Durante umas férias ela visitou Portugal e descobriu o país onde muito rapidamente decidiu  viver. A paixão pela cultura portuguesa permitiu a rápida aprendizagem da língua e a assimilação na sociedade portuguêsa. Isso mudou sua vida completamente e decidiu desenvolver a sua carreira musical em Portugal. Fazendo parte de inúmeras orquestras, entre outras a Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Orquestra do Norte, ela viajou intensamente pelo país e adquiriu a experiência profissional.
Em pequenos restaurantes tradicionais entrou em contacto com o fado pela primeira vez. A música cheia de emoções e sentimentos  que Natalia decidiu  transferir para sua criação. Mas como fazê-lo sem o talento vocal? A violinista decidiu expressar todos os sentimentos do fado através do som do seu violino.
O seu projeto, longe do fado tradicional trouxe algo de novo para a música e trouxe o sucesso inesperado. As críticas entusiastas e o reconhecimento público permitiu o desenvolvimento de uma grande carreira - Natalia era o único estrangeiro na prestigiada antologia de fado ao lado de figuras famosas como Amália Rodrigues . Mas a violinista sublinha modestamente que o autor da antologia era muito corajoso, inserindo no seu livro um projeto tão distante do fado tradicional. O projeto resultou no álbum ,,Um violino no fado” que inclui versões para violino de fados tradicionais. Este não foi o fim do sucesso e reconhecimento em Portugal – recebeu entre outros o prestigioso prémio ,,A revelação em fado”. O sucesso é inegável, só me resta desejar à nossa compatriota reconhecimento tanto na Polónia como em Portugal.
                   
Paulina Mazur
3º ano de Filologia Românica

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Zygmunt Szafrański

(O meu pai e o meu avô)

Zygmunt Szafrański, médico e ativista, nasceu a 17 de agosto de 1913 em Lewków, perto de Ostrów Wielkopolski. Depois de ter completado o ensino na escola de terceiro ciclo em Brzesko-Okocim em 1932, começou os estudos no Departamento de Medicina da Universidade de Poznan que terminou em 1938. Praticou medicina no hospital municipal de Gniezno e de Sieradz. Em 1939 foi convocado para o hospital de campanha do exército “Poznań“. Tomou parte na batalha de Bzura durante a qual foi feito prisioneiro pelos alemães. 
No campo de prisioneiros de guerra serviu como médico, cuidando dos doentes e feridos. Em 1940 foi libertado do Oflag e deslocado para o Governo Geral. Durante este período chegou a Radom, onde ficou até à sua morte e trabalhou no hospital municipal no departamento das doenças pulmonares. Em 1942 casou-se com a doutora Zofia Pietras, que faleceu infetada com a febre tifoide no dia 13 de setembro de 1944. Deste casamento teve dois filhos: Maria e Wojciech. O dr Zygmunt Szafrański colaborou com o movimento da resistência, participando na proteção das pessoas ameaçadas de prisão ou de deportação para o trabalho na Alemanha emitindo os atestados médicos falsos, colocando no hospital sob os diferentes pretextos ou curando os soldados das unidades do exército clandestino, os partisans. O dr Szafrański foi detido pela Gestapo de Radom, em 7 de abril de 1943, depois de 6 meses a investigá-lo e sujeito a torturas regulares. 
Depois foi transportado para Auschwitz, onde, considerado inimigo extremamente perigoso do Terceiro Reich, teve de usar as iniciais “IL“ o que significava o trabalho duro e escravo, rodeado de cabos de alta tensão, mas também a aplicação do chamado “Postperre“ - proibição de enviar e receber o correio. Trabalhou na Straftkompanie, uma divisão do campo, onde os prisioneiros eram forçados ao trabalho árduo, durante o qual a maioria deles morria. Foi mais duro e mais longo do que noutras partes do campo, a ração diária era mais reduzida, assim como o pausa do trabalho. A única coisa que havia em excesso era tortura. O obetivo era que o prisioneiro trabalhasse até à morte. Durante a sua estadia em Auschwitz foi submetido a pseudotratamentos farmacológicos. 
 No dia 19 de novembro de 1943 foi colocado no K.L Hamburg-Neuengamme e empregado como prisoneiro-médico no departamento de tuberculose do hospital. Segundo os testemunhos de outros prisioneiros Zygmunt Szafrański foi o padrão de patriota-militar, dedicado aos prisioneiros, encorajando moralmente e fisicamente (tratamento dos pacientes nas condições extremamente desumanas). Prolongava a permanência dos prisioneiros no departamento do hospital do campo. Ligado ao movimento da resistência do campo, várias vezes fez sabotagem  executando deliberadamente mal as ordens e divulgando mensagens hostis. Libertado pelo exército britânico no dia 3 de maio de 1945, durante o transporte dos “muçulmanos”, trabalhou em Lübeck até 25 de setembro de 1945 como diretor do departamento de Medicina Interna do hospital polaco. Depois de ter voltado à Polónia, até ao dia 17 de junho de 1975, geriu o Centro de Doenças Pulmonares, ao mesmo tempo trabalhando na Clínica de Tuberculose da PKP em Radom. Em 1953 casou-se pela segunda vez com a professora de inglês, Wanda Grochalska com quem teve dois filhos: Beata e Leszek. 
Possuidor de um conhecimento teórico e prático profundo, foi ativista, professor e pedagogo assim como organizador excelente. Nos anos 50 organizou em Radom consultas mensais com a participação dos docentes do Instituto de Tuberculose e introduziu as cirurgias inovadoras. Formou a personalidade de jovens médicos, ensinou, dedicou muito tempo às conversas profissionais, recomendando a literatura especializada. O maior mérito do dr. Szafrański foi a reconstrução e modernização do Centro de Tuberculose de Radom. Tinha um grande pudor, dedicação ao trabalho e à atividade social. Interessou-se pela coleção de curiosidades literárias e de gravuras antigas, enquanto a história da cultura nacional e regional foram a sua paixão. Faleceu no dia 17 de novembro de 1975, postumamente condecorado com a Ordem da Polonia Restituta.

Ewa Szafrańska
3º ano de Estudos Portugueses

O meu avô


O meu avô Bolesław foi o avô ideal. Ele tinha uma barba bem aparada, caminhava com uma bengala e mostrava-me a beleza das coisas mais simples. Foi com ele que pela primeira vez procurei cogumelos na floresta, soube o nome das árvores e dos pássaros. Ele deu-me o segredo de como respirar profundamente e encontrar o meu caminho para casa no caso de me perder. Ele podia acender o fogo com um fósforo e, usando um canivete para talhar um pedaço de madeira, esculpir um cãozinho ou um cavalinho. Assim que eu lhe pedia, reparava os meus brinquedos preferidos, quebrados pelo uso excessivo. 
A sua presença na minha vida era algo tão óbvio e importante que nunca me incomodou o facto de que não era realmente o meu avô, se considerar corretamente as relações familiares, mas o irmão da minha avó materna Wanda. Ainda assim, nunca me ocorreu referir-me a ele de forma diferente do que o “avô“ porque desempenhou o seu papel perfeitamente. Os “avós” Bolesław e Wanda criaram o mundo da minha infância, e apesar do facto de que na família havia outras pessoas da sua geração que pelas razões formais também merecem este título, o seu reinado foi inquestionável. O marido da minha avó Wanda morreu dois anos antes de eu nascer , então eu só o conheci a partir de fotografias. Os meus avós paternos sempre mantiveram a distância a partir do momento em que o meu pai decidiu abandonar a família. 
Cada geração vive numa época histórica, mas duas guerras afetaram profundamente o destino dos meus avós e bisavós, assim como a história de toda a minha família. Porque eles nasceram nas áreas da fronteira, que hoje pertencem à Ucrânia. A minha bisavó nasceu em Zhitomir e depois de 1917, teve que fugir da sua aldeia natal, juntamente com as outras jovens. Ameaçadas pelos soldados ucranianos, que eram conhecidos por violar mulheres. Quando, alguns anos depois de se formar numa escola católica, ela quis voltar para a sua casa, no seu caminho foi parada na fronteira, que não estava lá antes. A minha bisavó não tinha documentos, então foi parado por um policia montando um lindo cavalo branco. Ele afinal veio a ser o meu bisavô. Nunca escondeu que a minha bisavó o imediatamente lhe chamou a atenção, então, para protegê-la da prisão pediu-lhe a mão. O casamento ocorreu no mesmo dia, e a minha bisavó nunca regressou para a família de Zhitomir. Desta união nasceram dois filhos, Wanda e Bolesław, os meus queridos "avós". 
O meu bisavô tinha raízes nobres e trabalhava na polícia montada a proteger a fronteira. Ele ensinou os seus filhos a respeitar e conhecer os animais e a natureza. Era um amante de cavalos e um grande cavaleiro. Aparentemente, montou a famosa égua castanha, que mais tarde pertenceu ao primeiro chefe de estado Józef Piłsudski. Uma vez trouxe da floresta um filhote de lobo abandonado que quando cresceu se tornou melhor amigo do meu avô. 
A primeira fase da infância de meu avô foi um período idílico passado em constante contato com a natureza. Naquela altura os pais e professores tinham sempre razão e os filhos eram educados com rigor e de forma consistente, mas o meu avô foi educado para ser um homem de honra, que sempre mantinha a sua palavra. 
A infância despreocupada foi brutalmente interrompida pela guerra. Uma noite, os soldados soviéticos entraram em casa. Eles deram à família apenas meia hora para arrumar as coisas. Um soldado disparou contra o lobo do meu avô, que estava a tentar defender os seus queridos. A minha bisavó foi deportada para o Oriente com os dois filhos e passou a guerra num campo de prisioneiros soviético no Cazaquistão. O meu bisavô foi preso e transportado para Kamchatka. No Cazaquistão o meu avô trabalhou numa mina de prata. Disse-me que quando trabalhava no turno do dia, houve meses em que ele não viu a luz solar. Em seguida, ele foi convocado para o exército e em 1945 chegou às proximidades de Varsóvia, onde foi ferido em combate contra os alemães que abandonavam Varsóvia após a supressão da Revolta de Varsóvia. 
A família do meu avô perdeu na União Soviética todos os seus pertences. Eles já não tinham a casa para onde voltar, então concordaram, que depois de regressar e reunir-se com a família afastada numa aldeia perto de Lublin. Todos conseguiram, mas nunca chegaram a reunir-se. O primeiro foi o meu bisavô, que foi liberado do exército após ter sido ferido outra vez. Tinha que esperar pelo resto da família. Mas um dia os aldeões, pediram-lhe ajuda por ele ser militar. Na aldeia vizinha os soldados russos bêbados violavam as meninas polacas. O meu bisavô com os aldeões conseguiram dominá-los e capturar as armas. Como a perda das armas no exército soviético significava corte marcial, e muito provavelmente a pena de morte, os soldados começaram a pedir ao meu bisavô que lhes devolvesse as armas. Eles deram a palavra de honra que deixavam a aldeia em paz e nunca mais voltavam. Quando lhes devolveu as armas, e virou as costas para se ir embora, um deles alvejou-o pelas costas. O meu bisavô morreu um dia depois num hospital nas proximidades de Kock. No mesmo hospital dois dias mais tarde, o meu avô Bolesław pediu informações para chegar à aldeia onde morava a sua família. A enfermeira notou uma semelhança impressionante entre ele e o soldado que tinha morrido há alguns dias, mas não disse nada. Sobre a morte do seu pai e as suas circunstâncias soube apenas pela família. 

A minha avó e a sua mãe voltaram do Cazaquistão quase um ano depois. O meu avô estava a trabalhar na reconstrução de Varsóvia. A minha avó entrou no comboio e mesmo sem saber o endereço encontrou-o numa cidade completamente em ruínas (ver foto). Ela guiou-se pelo coração e pelo desejo de ver o seu irmão.  A guerra marcou-os não só a eles, mas a toda a sua geração. Quando a guerra terminou sonharam só com uma vida modesta e estável, rapidamente assumiram a família, porque era para eles, para além da pátria, o maior valor. Para o meu avô, infelizmente, não era o fim das desgraças, como se a história não o tivesse castigado o suficiente. Ele teve um filho, que era muito talentoso artisticamente, no entanto, sofria da esquizofrenia e suicidou-se com 25 anos. Foi um golpe inimaginável para toda a família, mas em menos de um ano mais tarde, a minha mãe deu à luz a trigêmeos (eu e meus dois irmãos), e a vida continuou. Eu e os meus irmãos, em parte graças a tantas histórias dramáticas, podemos desfrutar da presença dos melhores avós, que se podem imaginar. 
A minha avó Wanda morreu quando tinha apenas 64 anos, o meu avô, com 84 anos. Ambos foram para mim umas das pessoas mais importantes na minha vida. Quando eu penso neles, espero que agora morem numa terra semelhante à terra da sua infância, despreocupados onde todos os membros da família que já morreram podem finalmente reunir-se.

Agnieszka Kędzierska
1º ano mestrado em espanhol

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Amizade

            Cada homem tem na sua vida alguns valores que determinam o comportamento dele e a atitude que adota perante várias situações vitais. Todos somos diferentes e todos temos os nossos próprios modos de ser, de perceber as coisas, e para todos os diversos valores não têm a mesma importância. No entanto, não há quem diga que dentro destes valores num dos primeiros lugares não seja mencionada a amizade, que se mostra um princípio essencial na nossa vida. O sentimento da amizade acompanha-nos desde os primeiros anos da nossa vida e desde sempre tem o lugar relevante nela. Não estamos em condições de imaginar a nossa existência sem alguém que está sempre no nosso lado e não seja o nosso pai nem mãe, nem nenhum dos nossos irmãos. Mesmo que frequentemente demos mostras de um sentimento forte e desinteressado aos nossos familiares, sempre procuramos alguém que seja o apoio para nós, que goste de passar o tempo connosco, que simplesmente seja o nosso amigo. Procuramos uma pessoa que não seja ligada connosco pelos vínculos familiares que muitas vezes obrigam-nos a manter relações interpessoais nem sempre sinceras, e que queira acompanhar-nos para sempre.
            Diz-se que sem o amor e sem a amizade o homem não se pode sentir feliz na vida. Sem dúvida. O homem está construído de tal forma que não lhe bastam os bens materiais para manter o equilíbrio psíquico, quer dizer, sentir-se satisfeito e realizado. A esfera espiritual tem para nós a relevância desmedida e por isso precisamos de saber que temos alguém com que sempre podemos contar, que nunca nos vai decepcionar e que sempre nos vai ajudar de forma desinteressada. É o tipo de conforto psíquico que nos dá a amizade com outra pessoa porque a pior coisa que pode acontecer ao homem é a solidão. Todos temos medo da solidão e por isso prestamos tanta atenção à procura do amigo eterno. Nos nossos tempos a amizade começa lentamente a perder o seu sentido prévio que se baseava no contato visual, físico de duas pessoas, devido à maior popularidade das redes sociais e os contatos interpessoais de tipo virtual que preferem. O problema é que a noção da amizade no espaço virtual é completamente diferente da que funciona na vida real. Os quinhentos amigos no Facebook não equivalem nem a um amigo real, amigo em sentido prévio desta palavra. Tens os teus quinhentos amigos na rede mas não tens nem uma pessoa com que poderias ir ao café ou simplesmente conversar sobre o tempo. Agora chama-se amigo à pessoa com que se trocou algumas palavras no corredor da escola ou trabalho. Basta vê-la todos os dias para chamá-la amigo.

Monika Lisik 
1º ano Mestrado de Espanhol

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Discurso sobre a filologia

Um dia o Brasil tornou-se o país mais desejado na minha lista de lugares a visitar. Já não me lembro exatamente quando esta ideia estranha me veio à cabeça. Foi, com certeza, depois do meu intercâmbio em Lisboa em 2012, talvez antes do fim desse ano. Não foi a curiosidade turística que me conduziu a este estado da mente. O monumento do Cristo Redentor no Rio de Janeiro ou as praias da Bahia eram-me basicamente indiferentes. Foi o desejo de experimentar uma outra variante do português o que me cativou. Este facto simples e sintomático para o meu mundo extraordinário explica porque Ijuí, uma cidade pequena no sul do Brasil, pintava-se, apesar das suas deficiências, como uma oportunidade imperdível. 
Do mesmo modo, nem o clima agradável, nem os doces deliciosos me davam saudades depois do regresso da Península Ibérica para a Polónia. Também não foi a cultura o que prevaleceu. A cultura polaca, apesar de defeituosa, permanece a única com que me posso identificar plenamente. A mais evidente entre as síndromes de abstinência de Lisboa, foi a falta da língua portuguesa no meu dia a dia. O idioma tão mais querido quando experimentado fora da sala de aulas, no seu ambiente natural. Talvez pareça excêntrica esta confissão, mas Portugal e o Brasil eram para mim mais ligados com a linguística do que com qualquer outro universo (incluindo a gente, a cultura, o clima). A fala e a escrita eram na minha visão a chave – facilitavam-me perceber tudo o que me rodeava ou ia me rodear nestes espaços obscuros. 

  Uma outra revelação curiosa: eu era muito intolerante em relação à variante brasileira do português antes de chegar à América do Sul. Era do meu ponto de vista a versão inferior, ruim. Tudo por causa da minha atitude nociva: queria falar português perfeito, sem “contaminações”. No início, não podia cumprir este requisito misturando português com espanhol. Depois de me livrar do idioma de Cervantes, o português brasileiro tornou-se um inimigo declarado. Nessa altura, minha filosofia não me permitia, por exemplo, deixar os pronomes possessivos sem artigo. Que blasfémia seria isso! A gente não iria aceitar. Os pronomes pessoais quase sempre precedendo um verbo? Me parecia impensável. Uma superabundância de construções gramaticais com gerúndio dava-me vertigens. Nem sequer estou brincando. 
  A legião de discordâncias, iniciada pelo famoso Grito do Ipiranga de 1822, é ainda mais numerosa. Entre os rebeldes: o sotaque que difere bastante da variante portuguesa. A pronúncia insubordinada varia bastante de região para região dentro do Brasil mesmo, ainda mais que em Portugal que por sua conta abriga muitas peculiaridades. O vocabulário também mantém certa independência. Na era digital Portugal e o Brasil apresentam teclados diferentes apesar de partilharem o mesmo alfabeto. 
Apesar de tudo isto, decidi provar algo novo, aventurar-me. A aprendizagem de português no meu caso tinha sempre muito a ver com um esforço consciente. Queria, pelo menos durante alguns meses, mudar de atitude. Quando aprende, a criança tem de conhecer, em primeiro lugar, os sons da língua materna e só após esta introdução adquire habilidade para ler e escrever. Para dominar a língua estrangeira é necessário um empenho de outro tipo – o aluno deve ler com atenção, memorizar as regras, etc. Por isso, as competências do falante nativo são diferentes das do estudante de fora. Um bom exemplo desta regularidade é que os portugueses e os brasileiros têm muitas vezes problemas em perceber-se uns aos outros (sem falar nos estrangeiros). Em ambos os casos têm de se acostumar a sons desconhecidos. Paradoxalmente, é mais fácil entender variantes distintas para nós – os adeptos zelosos da escrita. 

Por outro lado, a arte da conversa diária bem sucedida reside em não ter papas na língua, no sentido de não pensar muito na correção gramatical, só se preocupar com ser entendido. A ideia mesma aliena o estudante de Letras. Para ele é inconcebível esquecer a conjugação, declinação, frase, crase, sintaxe. Ele trata estes fenómenos como os elementos essenciais da língua. Sim são unidades indispensáveis no discurso linguístico, fazem parte inerente da metalinguagem, mas para os 95% de falantes não importam. É necessário para nós – filólogos – termos em conta que somos um nicho. Devido à familiaridade com a norma a nossa expressão é correta, pura, mas, ao mesmo tempo, falta-lhe vigor, naturalidade. Obedece à regra, ignora, porém, interjeições, superfluidades típicas dos falantes nativos. 
A estada no Brasil em consequência do intercâmbio em Portugal isentou-me das restrições quotidianas, mas não me virou contra a filologia. Longe disso. Ao contrário, só ressaltou a importância de cuidar da fala e escrita e afirmou o papel dos filólogos neste processo que é… dar exemplo. A língua está sempre a mudar e, visto que é a propriedade coletiva dos homens sábios, não temos poder individual de parar a transformação. É-nos possível apenas influenciá-la. No entanto, para promovermos o crescimento da língua, antes disso, precisamos de entender a relação entre as diferenças que a constituem e que determinam as mudanças seguintes. 

A minha passagem por Terras de Vera Cruz chega ao fim e é muito provável que o meu português seja agora mais corrupto do que os políticos brasileiros, mas que experiência libertadora é essa! Tanto conhecimentos linguísticos como literários importam. Não é à toa, porém, que dentro da estrutura universitária a filologia faz parte do campo mais vasto – do universo das ciências humanas. Afinal, não era a língua o que me limitava, mas o medo dela. Com a muralha do preconceito desmantelada, não há mais fronteiras. Posso continuar a conhecer as pessoas, as suas culturas, descobrir novos mundos como Pedro Álvares Cabral há cinco séculos só com uma ferramenta maravilhosa – a língua. Talvez seja por acaso… Agora mesmo veio-me à cabeça uma ideia estranha de visitar a África. 

Agradeço ao Departamento de Estudos Portugueses da UMCS. Foram eles que me possibilitaram chegar a esta conclusão humanística. Valeu. 

 Bartosz Suchecki 
3º ano Estudos Portugueses

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Morreu o Rei Eusébio

Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014)

Morreu o melhor jogador de futebol português de sempre, o "King" Eusébio. Um dos melhores do mundo tem lugar garantido no panteão dos deuses. Veio da então colónia de Moçambique para encher de alegria um Portugal cinzento e tristonho. Espalhou classe pelos estádios por esse mundo fora com a camisola da quinas ou de águia ao peito. 
Palmarés individual:


Pelo Benfica:
 Entre maio de 1961 e abril de 1975: 596 golos em 557 jogos, com a média de 1,07 golos por desafio, divididos pelas várias competições nacionais (Campeonato, Taça de Portugal, Taça de Honra, Taça Ribeiro dos Reis e Campeonato de Reservas) e internacionais (Taça dos Campeões Europeus, outras competições europeias e torneios internacionais). 2 Ligas dos Campeões , 11 vezes campeão nacional, 5 taças de Portugal.

Por Portugal:
Entre outubro de 1961 e outubro 1973: 41 golos em 64 jogos, com a média de 0,64 golos por desafio, divididos pelas várias competições (apuramento e fase final de Mundiais e Europeus e encontros de preparação). 3º lugar no campeonato do mundo de 1966

Prémios individuais:
1962 - “Bola de Prata” da revista France Football para segundo melhor futebolista na Europa.
1963/64 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 28 golos.
1964/65 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 28 golos.
1965 - “Bola de Ouro” da revista France Football para melhor futebolista na Europa.
1965/66 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 25 golos.
1966 - Melhor marcador da fase final do Mundial Inglaterra66, com nove golos; Melhor Jogador do Mundial Inglaterra 66; “Bola de Prata” da revista France Football para segundo melhor futebolista na Europa.
1966/67 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 31 golos (ex-aequo com Figueiredo, do Sporting).
1967/68 - “Bota de Ouro” para melhor marcador europeu, com 42 golos; Melhor marcador do Campeonato Nacional.
1969/70 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 21 golos.
1972/73 - “Bota de Ouro” para melhor marcador europeu, com 40 golos; Melhor marcador do Campeonato Nacional.

Distinções:
1966 - Medalha de Prata da Ordem do Infante D. Henrique.
1981 - Grande Colar do Mérito Desportivo.
1982 – “Águia de Ouro” do Sport Lisboa e Benfica.
1990 - Grande Colar de Honra ao Mérito Desportivo.
1992 - Ordem do Infante, Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa, Estátua em bronze à entrada do Estádio da Luz.
1994 - Ordem de Mérito Federação Internacional de Futebol.
1998 - Membro inaugural do “Galeria dos Campeões” (Hall of Champions) da FIFA, em conjunto outras oito glórias do futebol mundial.
2000 - Terceiro melhor futebolista do Século XX para a FIFA, a seguir a Pelé (Brasil) e Maradona (Argentina).

Fontes:
A Bola, Record, Zerozero.pt