terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os meus avós: uma história de amor


Num dia de janeiro um homem alto, moreno e abastado, que era o meu avô conheceu uma rapariga baixa, com os olhos azuis e pobre - a minha avó. Eles apaixonaram-se rapidamente. Encontravam-se todos os dias. Infelizmente os pais do meu avô não aceitavam a namorada do seu filho. Os meus avós amavam-se loucamente, por isso decidiram casar-se. Não se importavam com a opinião dos seus pais. No dia 26 de novembro eles casaram-se. O seu casamento foi bastante original para aqueles tempos.
De manhã eles saíram das suas casas para caminhar cinco quilómetros pelos campos até à igreja. Chegaram atrasados à missa que era celebrada por almas dos defuntos. Depois do padre anunciou e bendisse o casamento. Na igreja havia só oito pessoas. A minha avó vestida de saia e casaco mais escuro que claro e o meu avô com um fato velho juraram amar-se para sempre. Quando saíam da igreja o organista tocou a marcha nupcial. Como eles não organizaram a festa do casamento, este homem convidou-os para virem tomar o pequeno-almoço a  sua casa  e disse que os noivos mereciam uma pequena festa. Depois os meus avós reconciliaram-se com os seus sogros, porque o meu bisavô disse que não valia a pena discutir mais se a vida durava só um momentinho.
Na cultura polaca a festa de casamento muito grande é importante, mas para mim isto não significa nada. Os meus avós vivem da mesma maneira que as pessoas cujas bodas duraram dois dias. Por mais que eu observe e pense na vida dos meus avós, estou segura que na vida, o amor, a responsabilidade pela outra pessoa e a gratidão são essenciais.
Olga Bobkowska
2º ano de mestrado em espanhol

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

FOTOGRAFIA - UMA ARTE?


O que é uma fotografia? Conforme ao dicionário ,,a fotografia é a técnica de criação de imagens por meio de exposição luminosa". Para a maioria a fotografia do mesmo modo significa uma técnica de criação, mas há algum parte da população para quem é um meio de expressar todos os sentimentos e pensamentos. Esta arte permite exteriorizar a alma e o coração duma pessoa. O que é interessante, é que ninguém pode fazer a mesma fotografia que já foi feita.

         Mas do início... A fotografia tem o seu começo no século XV quando se formou o primeiro protótipo da câmara fotográfica nomeada "câmara obscura". No século XIX o fotógrafo Joseph Nicéphore Niépce fez a primeira fotografia e depois Louis Jacques Daguerre apresentou a sua primeira fotografia na Academia de Ciências francesa. Estes acontecimentos iniciaram a técnica que hoje em dia é chamada fotografia.
          Entre muitos, os meus fotógrafos preferidos e os quais vou apresentar são Zofia Rydet e Sebastião Salgado. Porque são nomeados "os maiores"? Porque como disse Susan Sontag no seu livro ,,Sobre a fotografia": ,,as fotografias são os fragmentos empunhados dos nossos momentos aflitivos" e para mim de forma mais verdadeira exprimem os seus sentimentos e abrem os seus corações. A fotografia significa uma entrada na relação entre o fotógrafo e um objeto que é fotografado. Ela pode garantir a imortalidade, a imortalidade das nossas recordações. A fotografia é também uma prova verdadeira da existência. Admitiremos quando vermos. Como as outras artes só podem ser as interpretações subjectivas, a fotografia mostrar o objeto como é na verdade e na realidade. Não muda nada no objeto demostrado. E como mostra o mundo real pode garantir segurança, um espaço seguro onde ficamos, porque mostra a verdade e nunca nos vai enganar.
         Os fotógrafos que eu referi têm nas suas obras algo que permite nomeá-los como "melhores entre os melhores". Quando vejo as fotografias sempre me pergunto qual é a mensagem que o autor queria transmitir?
          Zofia Rydet é uma das mais eminentes fotógrafas da Polónia. Na maioria deve o seu reconhecimento ao ,,Registo sociológico", sem dúvidas o mais notável projecto documentário na fotografia polaca do pós-guerra. Durante dez anos Rydet fez por volta de 30 000 fotografias (monocromáticas) - os retratos das pessoas na interior das suas casas de a toda Polónia. Nas fotografias observamos os interiores urbanos e rurais do século XX. As fotografias mostram "os manequins" verdadeiros, vestidos com as roupas quotidianas, e a câmara fotográfica era uma caixa mágica que parava o tempo. Rydet disse:  ,,O meu trabalho tem de gravar o que já muda(...), mostrar fielmente um homem com o seu espaço circundante quotidiano(...) que apresenta a psiquismo dele, que às vezes fala mais sobre ele do que ele fala sobre si mesmo."
          Outro grande fotógrafo é Sebastião Salgado. Fotógrafo brasileiro que é reconhecido pelos seus retratos. Ele concentra-se na pobreza da humanidade. O mundo que é eternizado nas suas fotografias é sujo e lúgubre e as pessoas que vivem neste mundo - tristes. As suas primeiras obras concernem a miséria na África. Alguns mostram também os trabalhadores na França, na Rússia ou na Ucrânia. Nas suas obras podemos encontrar as fotografias do estaleiro em Gdańsk na Polónia. Uma vez ele disse que a sua intenção é fixar os sintomas da actividade humana, relacionados com os trabalhos na maioria manuais, que no futuro se extinguirão. Salgado nos seu ciclos fotográficos alude os problemas da sociedade como as migrações ou os efeitos dos conflitos. As fotografias dele estão sempre  do lado dos fracos, feridos e aproveitados. Relacionam os riscos que a uniformização e a globalização traz.
          As fotografias constituem o aprisionamento da realidade, a realidade que às vezes é inacessível, às vezes resistente e às vezes desaparecida. Param o tempo e guardam o momento para sempre. Como disse Sontag: ,,a fotografia tem uma força, que supera outros modos de criar as imagens, porque à destinação delas não depende do criador", mostra sempre a realidade e o mundo real. 






Pamela Paradowska
3º ano de Estudos Portugueses

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Canções contadas: "Anda comigo ver os aviões"


Outono. Espero que chegue o autocarro que nos levará de um terminal para outro. Ouço a canção dos Azeitonas “Anda Comigo Ver Os Aviões”. Chove, estão cerca de 5 graus, todos que estão na paragem estão enfastiados, com frio e cansados de esperar. Exceto uma pessoa. Uma mulher, quarentona, magra, com penteado desgrenhado e o telefone junto ao ouvido. Na sua atitude há algo artisticamente louco. Fala bastante alto com alguém em espanhol, mas ainda que falasse em voz baixa, todos poderíamos ouvir a conversa, porque simplesmente ninguém conversa. Fala espontaneamente, de forma rápida, mas claramente e acentuando cada frase. Fala sobre a viagem de trabalho, sobre o seu namorado, que continuamente lhe manda mensagens de texto e que tem muitas saudades dela, que estão muito bem, que em breve se vão ver, que estas viagens de trabalho são sempre cansativas, mas inevitáveis, e que desta vez também conseguiu fazer uma barganha, mas agora não pode mais, simplesmente está ansiosa para vê-lo, beijá-lo e levá-lo para a cama.
O que imaginei ouvindo a canção, a mulher e o seu telefonema? Que não há ninguém do outro lado do telefone. Que toda essa conversa é uma grande farsa e que a mulher que está a conversar uma vez por semana vai de autocarro de um terminal para o outro para poder fingir ser outra pessoa, alguém que não é – e quem quer ser – ou quem era. E nós somos observadores do espetáculo. Os nossos olhos e ouvidos fazem com que a imagem de feliz namorada e amada mulher de sucesso torna-se real. Porque, quer se queira quer não, nós somos as testemunhas e construímos isso nas nossas cabeças quando a ouvimos falar. Ela mora num pequeno apartamento. Na primavera morreu o seu parceiro de vida, um grande amor. Ele ia com ela “ver os aviões levantar voo, a rasgar as nuvens, rasgar o céu”, “ver os navios a levantar ferro, rasgar o mar” , “ver os automóveis à avenida, a rasgar as curvas, queimar pneus” e “ver os foguetões levantar voo, a rasgar as nuvens, rasgar o céu”. Agora está sozinha, o gato preto encontrado na rua não preencheu o vazio do homem, de modo que ela como um robô vai trabalhar todos os dias numa grande empresa tentando viver como sempre viveu. Mas não sabe como ser feliz de novo, então regularmente vai para o aeroporto para, durante meia hora na paragem e no autocarro, voltar a ser mulher feliz e apaixonada. Entre os estranhos, estrangeiros, turistas acidentais e empresários.
Tive também outra visão. Que ela ia também para o porto mas não com o mesmo objetivo que com o seu namorado. Encontrou uma maneira bastante estranha para matar as saudades. Ia para acenar aos passageiros que partiam, justamente julgando que alguém poderia pensar que se despede do marido, e, portanto, a acharia fácil de seduzir. As viagens ao porto tornaram-se o costume para ela. Ela pensava que a ajudavam a estar menos maluca. Mas um dia encontrou um profissional, que a observava e sabia que estes casos são frequentes e fáceis de aproveitar.
Construí esta figura trágica na imaginação de forma tão clara, com todos os detalhes e profundidade que poderia colocá-la como a heroína de um livro. Percebo-a apesar de não estar na sua pele. Ou pelo menos nunca cheguei a uma necessidade tão extrema de espelhar-me nos olhos dos estranhos. Mas tenho alguma coisa comum com ela e de alguma maneira entendo-a. Se alguém nos vê felizes, isso significa que estamos felizes, não? Act as if, dizem os americanos. Por alguma razão sentimos que se representarmos o suficiente alguma pessoa, acabaríamos por transformar-nos nela – ou pelo menos acreditar que somos essa pessoa. Isso nos bastaria, porque eu sou quem eu penso que sou.
Assim, é claro, a Mulher-Maravilha.
 Dominika Ładycka

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Trocadilhos e jogos de palavras

Brincar com as palavras pode resultar nisto:
acalmar: mar calcário.
alheia: aldeia em que se cultiva alho.
amarelas: pessoa que gosta muito de rãs.
amiudar: dar à luz uma miúda.
anáfora: expressão usada pela  mãe de qualquer Ana, quando a filha não está em casa.
armário: estilo da moda no qual o mais importante é ter o mesmo ar que o Super Mário
arrepio: voz de uma coruja que está zangada.
biscoito: prazer a dobrar.
cachorra: nome do lugar destinado para chorar.
calcorrear: correr com o corpo coberto de cal.
cantarolar: rolar, girar ou dar cambalhotas cantando alguma canção.
chumbar: tipo de bar onde se bebe de maneira muito pesada.
cigarro: carro de ciganos.
coca-bichinhos: bichos que consomem cocaína.
corpulento: pessoa que chega sempre atrasada.
couve- flor: vaca americana que vê uma flor.
doador: uma pessoa que partilha a sua dor com outras pessoas.
enlear: atuar no teatro como Rei Lear.
enriquecer: transformar-se em Henrique.
épico: pico electrónico.
fadista: artista que possui poderes sobrenaturais e faz magia.
família: ilha que tem muita fama.
gaguejar: imitar a Lady Gaga.
homogéneo: génio só numa disciplina.
indigente:  pessoas da Índia.
manicura : tratamento feito com as mãos por um curandeiro.
miniaturista : turista pequeno.
moção: moço muito alto.
padreco: padre ecologista.
quadrimestre: pessoa que domina quatro disciplinas diferentes.
recolher: colher acusada de cometer um crime.
secadilhos: trocadilhos inventados por mim.
Toranja: mulher de Thor
transparente: familiar que gosta de vestir roupa do sexo oposto.
tresnoitar: passar três noites no mesmo lugar.

Turma do 2º ano de mestrado em Estudos Portugueses

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

2º Concurso Literário do CLP/Camões em Lublin : “Uma palavra, um conto”

REGULAMENTO
Introdução
 A ideia de criar este concurso literário surgiu como forma de incentivar a criatividade literária entre os falantes não nativos de português, bem como o gosto pela escrita em português.
Artigo 1.º
 O Concurso Literário é aberto a falantes não nativos, excluindo assim cidadãos de nacionalidade portuguesa, e ainda cidadãos naturais de países de língua oficial portuguesa. O concurso é, entenda-se, aberto não só a residentes na Polónia. Aos membros do júri é vedada a participação bem como aos seus familiares diretos. 
Artigo 2.º
O Concurso Literário destina-se a premiar trabalhos inéditos na modalidade de conto. 
Artigo 3.º
Cada concorrente poderá apresentar apenas um trabalho.
Artigo 4.º
Os trabalhos a apresentar serão subordinados às seguintes normas:
a) O texto obrigatoriamente redigido em língua portuguesa, original e inédito, deverá ter um mínimo de duas páginas e um máximo de seis páginas, com espaçamento duplo entre as linhas e tipo de letra Times New Roman, tamanho 12, formato pdf, devendo ser entregue por email:clp.lublin.polonia@gmail.com
b) Juntamente com o texto, deverão ser enviados os dados de identificação (nome, nacionalidade) e de residência do concorrente, o título do trabalho apresentado e se desejar, o pseudónimo escolhido;
c) A data limite para o envio dos trabalhos é 16 de dezembro de 2015.
d) O tema do concurso é: uma palavra, um conto. A partir de uma palavra o autor terá que criar um conto. A escolha da palavra fica a cargo do autor.

Artigo 5.º
Ao trabalho que, pela sua qualidade literária, mais se distinga será atribuído um prémio e publicado no próximo número da revista Água Vai.
a)     O domínio da língua portuguesa é também tido em conta pelo júri.

Artigo 6.º
Caberão ao CLP/C todos os direitos sobre a primeira edição dos trabalhos premiados, comprometendo-se este a oferecer aos respectivos autores 10 exemplares da revista Água Vai, considerando-se os direitos de autor regularizados desta forma.
Artigo 7.º
Poderão, ainda, ser editados, mediante condições a acordar, caso haja interesse por parte do  CLP/C e dos respectivos autores, os trabalhos agraciados com menções honrosas.
Artigo 8.º
O júri terá a seguinte composição:
a)Dra. Yana Andreeva (Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski, Bulgária)
      b)Prof. Doutor Dionísio Vila Maior (Universidade Aberta, Coimbra)
      c)Dr. Pedro Balaus Custódio (Instituto Politécnico de Coimbra)
      d)Idálio Loureiro (Agrupamento de Escolas do Viso, Porto)
      e)Lino Matos (UMCS, Lublin)
Artigo 9.º
A decisão do júri será tomada no prazo de 15 dias úteis, contados a partir da data fixada para a entrega dos trabalhos.
Artigo 10.º
O júri poderá não atribuir qualquer prémio, caso considere que os trabalhos apresentados não reúnem condições de qualidade que o justifiquem.
Artigo 11.º
O júri, para além dos prémios atribuídos aos trabalhos que considerar de maior qualidade, poderá atribuir menções honrosas que, no entanto, não vincularão o CLP à respectiva publicação. O júri poderá, ainda, se entender que o respectivo valor literário o justifica atribuir prémios ex aequo.
Artigo 12.º
Os casos omissos ou as divergências na interpretação do presente regulamento serão solucionados pelo júri.
Artigo 13.º
Das decisões do júri não haverá recurso.
Artigo 14º
Disposições finais:

a) Os dados pessoais facultados serão utilizados exclusivamente pelo CLP/C para os fins do concurso, entrega de prémios e divulgação de informações relativas a futuros eventos semelhantes.

b) A apresentação dos trabalhos pressupõe a plena aceitação do presente regulamento.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A velhice...

A nossa sociedade envelhece. É um facto que podemos observar já há algum tempo – há mais idosos do que crianças. Graças ao desenvolvimento da medicina a vida humana prolongou-se, somos mais resistentes às doenças, também a mortalidade dos recém-nascidos é menor do que no passado.
„A velhice”. Para muitas pessoas soa como a sentença. Parece-nos o pior que pode acontecer na nossa vida. A velhice é porém uma etapa da vida extremamente importante. É a etapa que fecha o perfeito círculo da vida. É como o regresso ao início. Os idosos, ao fim da sua vida parecem voltar ao estado da criança – muitas vezes não conseguem realizar as atividades básicas sem assistência, são teimosos, não percebem as expressões mais simples. Até os seus corpos se tornam mais pequenos, mais delicados e sensíveis. Estes factos criam certa aparência, como que as pessoas de idade avançada verdadeiramente fossem imaturos e merecessem ser tratados como crianças ou (ainda pior) fossem ignoradas completamente. Pensamos que não percebem os nossos problemas, esquecemos que eles viveram a mesma vida que nós, também foram estudantes, namoraram, trabalharam, divertiam-se, tiveram as suas primeiras derrotas, conflitos com os seus pais, também tomavam cervejas aos 15 anos de idade em segredo, copiavam nos exames e iam de férias com uma tenda e 20 zloty no bolso. Se nós tivéssemos um pouco de compreensão e paciência para eles, podíamos aproveitar da enorme experiência e sabedoria que têm. Porém não está na moda passar tempo com os avós, que às vezes têm os hábitos estranhos e para nós inexplicáveis. Falta de vontade de verdadeiramente ouvir o que têm para dizer faz com que tratemos o que dizem com uma piscadela de olho. Como não são muito produtivos no mercado de trabalho, frequentemente achamo-los inúteis.  Que engano! São divertidos, têm montes das histórias interessantes para contar, bons conselhos tirados da experiência da vida deles.
Um exemplo – uma situação que aconteceu durante um exame ao ouvido feito a um idoso de oitenta anos. Perguntaram-lhe, se há situações nas quais ouve melhor ou pior. „Claro que sim!” - respondeu surpreendido, que alguém lhe faça uma pergunta tão óbvia - „quando dizem toma! ouço perfeitamente. Mas quando dizem dá – já não tanto..” O que significa isto? Que os idosos não só são inteligentes como nós mas revelam-se muito mais espertinhos do que nós pensamos. 
Aleksandra Porębska
3º ano de Estudos Portugueses

terça-feira, 7 de julho de 2015

A minha aventura polaca



A minha aventura polaca começa nos primeiros dias de maio, havia greve de pilotos nessa semana em Portugal e a ansiedade tomava-me por completo. Na verdade, nem sabia se conseguiria embarcar. Por dois meses ia estar com estudantes da UMCS e do CLP Camões em Lublin, portanto a responsabilidade era grande.
Para esta viagem, levava trinta quilos de bagagem. Tudo o que, por vezes, necessitamos (ou não). No comboio para Lublin, tive a minha primeira aventura polaca: carregar uma mala de vinte e três kg e pô-la num suporte especifico para as bagagens a quase dois metros do chão. Depois de muito sacrifício e tentativas em vão, dois amáveis rapazes perceberam a minha aflição e ajudaram-me. A partir daí, pensei: esta será uma grande aventura, sem duvida!
Sem saber, a minha cabeça hispano-luso-brasileira estava a conviver também com o polaco, um idioma novo e completamente desconhecido para mim. Pôr a máquina de lavar roupa (em polaco), comprar os produtos no supermercado (em polaco), apanhar um autocarro (paragens em polaco), pedir informação (em polaco), fez com que aprendesse algumas palavras e frases do quotidiano. No entanto, por vezes, a língua inglesa teve de ser "resgatada do baú" e empregue porque os meus conhecimentos linguísticos eram limitados. Algumas dessas aventuras inusitadas foram partilhadas com os estudantes e demos boas risadas.
No que diz respeito às aulas, foi uma experiência valiosíssima, não tem preço. Tentei transmitir e também ensinar aspetos que julgo interessantes e, ao mesmo tempo, pertinentes para um estudante de Estudos Portugueses, ou seja, mostrei a cultura, a língua e a minha paixão, a literatura. Desse modo, espero bem as minhas aulas que tenham sido proveitosas.
Agora está a finalizar a minha aventura polaca. Passou tão rápido, parece que foi ontem que cheguei, receosa e expetante. Resta-me uma vez mais, agradecer a oportunidade e a compreensão de todos. Vai custar-me imenso deixar o hábito de estar na universidade antes das nove da manhã, mas a vida é assim. Apenas deixo-vos um conselho: continuem a gostar e interessar-se pela língua portuguesa, pois é lindíssima.
Um abraço da "aventureira" Ana Coelho
Estagiária da Universidade Aberta de Lisboa

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Novo número já saiu!


O número seis da Água Vai saiu hoje. Nesta edição:
Contos:
-“A tirania do Semsentido” de Kamila Wiśniewska
-“Se o caso é chorar” de Serenna Cacchioli
-“O regresso do rei” de Anna Krupa e Małgorzata Stankiewicz
-“Amor em duas rodas” de Dominika Ładycka e Patrycja Cieśluk
-“A mesa” de Małgorzata Koprowicz
Música:
-Entrevista com Kinga Rataj por Liliana Wajrak
Desporto:
-Futebol português e futebol polaco: diferenças por Maciej Durka
-Entrevista com Adison Schneeweiss por Aleksandra Porębska
Opinião:
-Serviços académicos por Magda Jóźwik
-Viajando pela vida? por Aleksandra Guz
Ecologia:
- Em socorro dos linces por Anna Krupa
Brasil:
- Afro-brasileiro: inspiração para a cultura nacional 1889-1930 por Agata Błoch
- Brasileiros e Lublin: entrevista por Aleksandra Moskal
- O gaúcho – um estado de espírito por Katarzyna Rejter
Cinema:
- Imagine, de Andrzej Jakimowski, 2012 por Martyna Jędrzejczyk
Poesia:
- Entrevista com Alexandre Soares por Monika Czarkowska-Guziuk
- Poemas de Alexandre Soares (tradução de Joanna Dudek e Ewa Tomaszewska)

Quem estiver interessado pode passar pelo Centro de Língua Portuguesa/Camões em Lublin e pedir o seu exemplar. Está também disponível em versão pdf: ÁGUA VAI – PDF

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O cristianismo e o outro paganismo ou seja “A adivinha diz sempre a verdade”

Estima-se que mais de oitenta por cento dos polacos professa o cristianismo.  Ao mesmo tempo quase sessenta por cento das pessoas, inquiridas através de várias instituições, declara que acredita nas adivinhas e nos horóscopos. Foi calculado que essas mesmas pessoas juntas gastam anualmente cerca de 2 bilhões de zlótis em serviços esotéricos.
          Deixemos os números e as estatísticas aos entrevistadores. Suponhamos que eles sabem  mais disso. O que nos realmente deve interessar é a relação entre a religiosidade dos polacos e a confiança que têm  nas coisas de raízes pagãs. Ou melhor, se existe alguma dependência entre estas duas coisas.
De acordo com  “O dicionário de mitos a tradições culturais” a adivinhação, a cartomancia, a taromancia e outras são práticas que envolvem a previsão do futuro ou coisas desconhecidas, baseadas na fé na existência do mundo sobrenatural e a possibilidade de contato com ele para ter as informações em forma de signos  ou sinais de diferentes tipos. Simplificando, se  queres conhecer o futuro tens de visitar um vidente.
Na Antiguidade alguns fenómenos eram considerados proféticos, especialmente estes vistos no céu (os eclipses, os cometas, as tempestades e as tormentas de força excecional, os trovões) vistos como os sinais de deuses. Os sonhos, o relincho do cavalo, o sussurro das folhas, o voo das aves, as entranhas do sacrifício- nestas coisas buscavam-se as respostas às perguntas que ainda hoje atormentam os seres humanos.
Tudo isto é agora substituído pelas bolas de cristal, o tarot e a teimancia (é uma técnica de leitura pelas folhas de chá). Para realçar- não todas as culturas acolhem este novo modelo de adivinhação. É uma maravilha. Tanto progresso em tão pouco tempo. Afinal o que significam 2000 anos para o homem?
Para os polacos é apenas o tempo suficiente para criar um país, sobreviver à cristianização, a duas dinastias, eleição livre, partições, a duas guerras mundiais, ao comunismo e várias repúblicas.  Nem mais, nem menos.
Quando olho para tudo isto com os olhos que conhecem o presente e o passado, começo a pensar que o Darwin tinha razão-  só os indivíduos mais fortes sobrevivem. Que pena, senhor Darwin, que não os mais sapientes.
Por que as pessoas acreditam em magia e profecia?  Os psicólogos modernos aliás pesquisadores do pelo no ovo, dizem que isto não tem nada a ver com a razão. Mas o que eu percebo da expressão “nada a ver” é bastante diferente do seu ponto de vista.
A seu ver parece que hoje as pessoas acreditam e não acreditam ao mesmo tempo. De onde conhecemos isso? A ciência e a tecnologia estão no nível muito alto. Uma grande parte dos fenómenos do mundo tem uma explicação. Parece que já não há muito  ainda a descobrir. O homem tem um grande conhecimento mas carece de mistério. Estes eu chamaria “os chateados”. A adivinhação dá-lhe uma aparência, torna a vida mais excitante- isto seria um dos motivos da crença em presságios. Existe também o grupo das pessoas que acreditam nisto, dedicam as suas vidas à constante pesquisa do extraordinário- estes chamam-se a si próprios “os iniciados”. Outros não acreditam, não praticam e não perdem o tempo- esses eu chamo “os razoáveis”.  Uma explicação mais pode ser que o homem, educado, inteligente e moderno às vezes sente-se perdido no mundo técnico. E se não acredita profundamente em Deus, tenta acreditar na magia e desta forma explicar os seus problemas. Ainda temos o meu grupo preferido. O conjunto das pessoas, que dizem que são católicos mas também acreditam na magia- estes tem só um nome. São os polacos. Somos mestres.
O que é que tem a ver o catolicismo com a adivinhação?
Muito e muito pouco ao mesmo tempo.
A religião cristã rejeita todas as formas de adivinhação. O Catecismo da Igreja Católica diz que “Todas as formas de adivinhação hão de ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demónios, evocação dos mortos ou outras práticas que erroneamente se supõe "descobrir" o futuro. A consulta aos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e da sorte, os fenómenos de visão, o recurso a médiuns escondem uma vontade de poder sobre o tempo, sobre a história e, finalmente, sobre os homens, ao mesmo tempo que um desejo de ganhar para si os poderes ocultos. Essas práticas contradizem a honra e o respeito que, unidos ao amoroso temor, devemos exclusivamente a Deus.”
A mensagem é simples: se alguma vez visitaste uma adivinha, leste um horóscopo, ou fugiste ao ver um gato preto sentado na escada no meio da rua...  pecaste. Mais ou menos isso foi o que uma vez ouvi de um padre da minha paróquia. Para uma criança de 6 anos foi um choque mas como não podia ler e escrever, não sabia de existência de adivinhas e superstições, senti que a minha alma ainda se pode salvar.
Mas cada moeda tem dois lados. Não se pode pôr todos no mesmo saco. Quando procurava inspiração para escrever encontrei-me com um homem que me inspirou para abordar este tema, um homem dedicado a Deus, um padre que, na minha opinião, é uma das pessoas mais sensatas que eu conheci na vida.  Quando falamos dos polacos, católicos que muitas vezes preferem buscar respostas na boca de uma advinha,  ele disse: “a fé que um homem tem nos horóscopos e adivinhas mostra mais a insensatez  que a maldade deste homem”. Com  isto não penso discutir. Outra pessoa muito iluminada que se chamava Confúcio disse “Se queres prever o futuro, estuda o passado”.
E para estes que como eu não gostam de adivinhar, eu digo: Se queres conhecer o futuro, espera.
Beata Zuzel
2º ano de Estudos Portugueses

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Jogo de Geri


20 de maio de 1995
     Uma cozinha desarrumada – no fogão há uma panela com o jantar de ontem. Cheira a livros velhos e a canela. Dois velhotes estão sentados à mesa da cozinha. Eles têm os olhos calmos e as mãos trémulas, usam óculos, as camisas amarrotadas, suspensórios e os relógios que não são necessários porque não há pressa para os velhos. O pequeno-almoço – nada especial – o pão duro, um pouco de queijo, tomates da vizinha e algumas bolachas de canela. Nas paredes  há muitas fotos dos jovens e os cartões-postais de viagens que não vão fazer de novo.  Em cada lugar da cozinha há os livros favoritos.
-Está um dia lindo, não é Caetano?
-É, muito bonito como todos os dias de maio. Que dia é hoje?
-20 de maio. Outro aniversário? Como o tempo passa rápido!
-É verdade, o António escolheu o mês mais bonito para deixar os amigos e este mundo. As coisas nunca mais foram as mesmas desde aquele dia quando ele morreu.
-Não sejas tão triste e melancólico! Lembras-te quando o António esqueceu os óculos e passou à frente da casa dele e só deu conta seis ruas depois?
-Depois ele disse que queria dar um passeio e naturalmente não estava perdido. Lembras- te como ele cantou no coro para senhores e o maestro aconselhou-lhe delicadamente…
-…umas aulas de dança! Lembras-te como plantou flores para a mulher. Regava-as todos os dias mas não apareceram umas flores lindas mas..
-...uma curgete. Sabes, a última vez que jogámos xadrez foi três semanas antes da sua morte. Desde então não fui ao nosso lugar no parque.
-Eu também não, mas vamos jogar hoje como nos velhos tempos com o António!
-Vamos embora!
Um parque em que as flores florescem, há música no ar porque as aves cantam e umas crianças comem gelados de morango. Cheira a frescura como antes da tempestade. Dois Velhos vão com umas bengalas para andar e um tabuleiro se xadrez debaixo do braço. O tabuleiro de xadrez traz muitas lembranças sobre histórias antigas e a amizade fiel dos homens.
-Vamos recomeçar do sítio em que ficámos?
-Claro como água! Mas desta vez não te deixo ganhar.
-Nesta semana ensinei o meu neto a jogar. Raios! Não jogo como antes.
-Melhor ainda!
-Começa uma batalha ingrata!
Às vezes as peças caíam porque os senhores tinham as mãos trémulas. De vez em quando havia muitas palavras duras que causaram, pelo contrário, riso e não raiva.
-Sinto que eu ganho!
-Dás vontade de rir! Estás errado.
-Melhor move algo e não digas disparates!
-Acorda para a vida! Agora é a tua vez!
-Realmente… Estou a sufocar…
-Caetano! O que está acontecendo?
-Não posso.. Não posso respirar.
-Socorro, Socorro!
-Não quero morrer.
-Calma, amigo. Como está a tua respiração?
Utilizando um momento de desatenção do seu amigo preocupado, Caetano virou o tabuleiro de xadrez e agora ele estava em melhor posição.
-Estava a brincar! Estou bem.
-Porquê , porquê ?! Estás louco?
-Eu gosto do medo nos teus olhos. Era uma brincadeira e às vezes precisamos. E… Ganhei! Ganhei!
-Não acredito tu enganaste-me!
-Ganhei!
-Tens um problema mental ou algo?
-Estás surdo como uma porta? Ganhei! Digo pela terceira vez.
-O quê?! É verdade… Estava distraído.
-Levei a carta a Garcia!
-Bem, parabéns. Uma dentadura para ti. És um homem muito afortunado…
-Ótimo, obrigado mas não sei se estou feliz…
Começou a chover e aceitou o seu prémio, Caetano levantou-se do jogo de xadrez, sentindo os seus velhos ossos ranger. Como começou a sua viagem de volta a emoção da vitória desapareceu com cada passo que dava e o sorriso em seu rosto passou de entusiasmo juvenil para um sorriso da lembrança dolorosa.
“ A vitória era mas doce quando estavas vivo, meu velho amigo… “


Gabriela Malik
1º ano de Filologia Ibérica