terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Deixa ir...

Vivo com os meus avós desde que me lembro. Antes também com os meus pais, agora somente com eles. A casa é pequena. Dois quartos, casa de banho e cozinha. E o cão-gato, dono da casa toda.
A minha mãe fica sempre surpreendida que os meus avós me dão tanta liberdade. Volto para casa tarde, vou às festas com os meus amigos, vivo uma vida de universitária como o resto dos meus colegas que vivem sozinhos. Mas eu com um almoço quente e coada sempre feita. Uma vida de luxo, posso dizer.
Voltando à minha mãe, ela não teve uma vida tão fácil com eles. Voltava para casa às dez e nada podia mudar isto, só uma mudança, um salto para a vida adulta.
O que mudou? Amadureceram.
Antes viviam em tempos revoltos, quando era proibido ouvir a rádio. Enquanto a sua filha mais velha lutava por poder estudar direito na universidade e depois fazer os exames para procuradora, a mais nova (a minha mãe) fugiu do país para Espanha com o seu namorado, agora o meu pai. Podiam dizer qualquer coisa? Não detiveram a sua filha e depois durante mais de vinte anos viam como, com o seu marido, mudavam de países à procura de dinheiro e do bem-estar. De uma vida digna.
Durante estos anos aprenderam que se uma pessoa quer fazer alguma coisa, vai fazê-la apesar do que pensa a família. “Deixa ir”, diz a minha avó sempre que tenho algum problema com os meus amigos ou com o namorado. Os que te amam voltam sempre. Os que não... a perda não deve ser muito dolorosa.
Hoje olho para eles. O meu avô na mesa, a fazer palavras cruzadas, maldiz quando não se lembra de alguma resposta. A minha avó na cozinha a preparar o almoço. “A comida está quase pronta! Marian, toma os medicamentos.” E ele vai ao armário e tira uma caixa cheia de comprimidos. Também uma seringa com insulina. Ela sai da cozinha com um copo de água e faz a injeção. Há sempre um beijinho depois do tratamento.
Olho para eles e sei que dentro de um tempo terei de deixá-los ir. Terei de amadurecer como eles antes. Mas acho que ainda não estou pronta. Nunca vou estar. É a única exceção que confirma a regra. Eles não vão voltar, mas não porque não nos amam. Vão voltar para os seus pais que abandonaram há muito tempo. O mesmo vão fazer depois a minha mãe e o meu pai. E finalmente eu.
Natalia Sławińska
2º ano de mestrado em espanhol

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

António Variações faria hoje 70 anos

António Variações (3 de dezembro de 1944 - 13 de junho de 1984)

ENTRE NOVA IORQUE E A SÉ DE BRAGA


António Joaquim Rodrigues Ribeiro, filho de camponeses minhotos, desde muito cedo revelou propensão para a música. Nascido em 3 de Dezembro de 1944, abandonou a sua aldeia natal (Lugar do Pilar, freguesia de Fiscal) em 1957 e foi para Lisboa, onde se dedicou a várias actividades profissionais desde empregado de escritório até barbeiro.
Em 1975 viaja até Londres, onde fica durante um ano e parte, depois para Amsterdão onde aprende a profissão de cabeleireiro. Esta aprendizagem servir-lhe-á para se instalar, novamente, na capital portuguesa; onde se estabelece com o primeiro cabeleireiro unissexo de Portugal. Esta actividade não resulta muito bem e, para ganhar a vida, abre uma barbearia na Baixa lisboeta. Em 1978 grava uma maqueta com alguns temas, que apresenta à Valentim de Carvalho, com a qual assinará contrato.
Na sua própria descrição a música que produz situa-se entre Braga e Nova Iorque. É no programa "O Passeio dos Alegres" de Júlio Isidro que António se apresenta ao grande público (1). Os temas que cantou nessa emissão chamavam-se "Toma O Comprimido" e "Não Me Consumas" e ainda permanecem inéditos, uma vez que nunca foram registados em disco.
O primeiro trabalho que gravou foi o single "Povo Que Lavas No Rio", imortalizado por Amália Rodrigues (2).  Amália era, aliás, uma das suas referências, que teve direito a uma canção de Variações ("Voz Amália de Nós"). O seu primeiro longa duração "Anjo da Guarda" (3) é também dedicado à popular fadista. Neste disco participam Vítor Rua (com o pseudónimo Vick Vaporub) e Tóli César Machado, músicos dos GNR. Quem não recorda " É P'ra Amanhã" ou "O Corpo É Que Paga"? (4)
Durante o Verão de 1983 Variações é muito solicitado para espectáculos ao vivo, sobretudo em aldeias por este país fora. Em Fevereiro do ano seguinte, António Variações entra em estúdio com os músicos dos Heróis do Mar para gravar o seu segundo longa duração que se intitulará "Dar e Receber".(5) O tema mais conhecido deste disco é, sem sombra de dúvidas, "Canção De Engate" que, posteriormente, se tornará um imenso sucesso numa versão dos Delfins.
Em Maio desse mesmo ano dá entrada no Hospital e, no dia 13 de Junho de 1984, morre em consequência de uma broncopneumonia bilateral grave. Será sepultado, dois dias depois, no cemitério de Amares (Braga), perto da sua aldeia natal, com a presença de poucos músicos acompanhando o funeral. Com a sua morte desaparece um dos maiores renovadores da canção portuguesa das últimas décadas. No entanto o seu espólio musical foi sendo aberto e Lena d'Água edita, em 1989, o disco "Tu Aqui" que inclui cinco composições inéditas de António Variações. (6)
Em Janeiro de 1994 é editado um disco de homenagem a António Variações que reúne, em torno de versões do cantor, os nomes de Mão Morta, Três Tristes Tigres, Resistência, Sitiados, Madredeus, Sérgio Godinho, Santos e Pecadores, Delfins, Isabel Silvestre e Ritual Tejo.
Isabel Silvestre incluirá no seu disco de 1996 "A Portuguesa" o tema "Deolinda de Jesus" de Variações. Este tema, uma sentida homenagem de Variações à sua mãe (que se chama exactamente Deolinda de Jesus) é o contraponto de qualidade a todas as "Mães Queridas" e quejandos deste país.
Em 1997 é editado o CD "O Melhor de António Variações", o qual recupera material editado em todos os seus discos.
Em 2006 é editada a compilação "A História de António Variações - Entre Braga e Nova Iorque".
Se Variações não tivesse desaparecido tão precocemente, a música portuguesa seria diferente? Esta é a interrogação que se impõe, tendo em conta o que o cantor/autor fez, em tão pouco tempo, pela música portuguesa.

ARISTIDES DUARTE / NOVA GUARDA

(1) Em 1980 o programa "Meia de Rock" da Renascença grava a canção "Toma O Comprimido" em casa do cantor e toca-a na rádio. No ano seguinte, António & Variações (o nome da banda que o acompanhava), cantam a canção no programa "O Passeio dos Alegres" de Júlio Isidro (um dos clientes da barbearia). O cantor apresentou-se na TV vestido de aspirina e lançando "smarties" para o público e para as câmaras...

(2) O contrato com a Valentim de Carvalho datava de 1977. O irmão, o advogado Jaime Ribeiro, pressiona a editora que acaba por vergar e António Variações entra finalmente em estúdio para gravar o seu primeiro disco. O single (e Máxi) de estreia, lançado em Julho de 1982,  incluía uma versão do clássico "Povo que lavas No Rio" e o inédito "Estou Além".

(3) Em 1998 o disco foi reeditado, em versão remasterizada, com a inclusão de "Povo Que Lavas No Rio".

(4) Disco com arranjos e produção de Tóli César Machado e Vítor Rua substituído posteriormente por José Moz Carrapa. A mudança corresponde também à saída de Vitor Rua dos GNR após uma pausa nas gravações do disco.

(5) A edição em versão remasterizada de "Dar e Receber" inclui o inédito "Minha Cara Sem Fronteira" (gravado nas sessões de gravação do disco) e duas remisturas desse tema.

(6) A versão em CD do álbum "Tu Aqui" de Lena d'Água inclui cinco temas inéditos e recupera a versão  do tema "Estou Além" incluída no álbum "Aguaceiro".

DISCOGRAFIA

Anjo da Guarda (LP, EMI, 1983)
Dar e Receber (LP, EMI, 1984)
O Melhor de António Variações (Compilação, EMI, 1997)
A História de António Variações - Entre Braga e Nova Iorque (Compilação, EMI, 2006)

SINGLES

Povo Que Lavas no Rio / Estou Além  (Single, EMI, 1982) - duplo lado A
Povo Que Lavas no Rio / Estou Além  (Maxi, EMI, 1982)
É P'ra Amanhã (Maxi, EMI, 1983)
É P'ra Amanhã/Quando Fala Um Português (Single, EMI, 1983)OCEQP
O Corpo É Que Paga (Single, EMI, 1997) - É P'ra Amanhã (remistura de Nuno Miguel)

REFERÊNCIAS/HOMENAGENS

O álbum "Tu Aqui" de Lena d'Água, editado em 1989, incluía cinco temas inéditos.
Anamar -"António Variações"
Madredeus - "A Sombra"
"A Festa da Música de Variações" - Espectáculo de  Fernando Pereira
Versões (Delfins, Amarguinhas, Isabel Silvestre, M.D.A., etc...)
Disco de tributo
Documentário de Maria João Rocha
Concerto AVariações

COMENTÁRIOS

Gostava de dar e receber, o António. O António Joaquim Rodrigues Ribeiro, o que nasceu no Minho, em 1945. Mas também o António Variações, que subia a rua do Carmo na década de 80, em Lisboa, e fazia os transeuntes virar-se para trás por causa de uma imagem peculiar. Barbas longas e roupas extravagantes aos olhos da maioria. Mas o António não queria saber. Procurava a provocação como forma de afirmar a sua independência. A sua identidade. Mas isso era partir do pressuposto que era uma personagem, coisa que não é verdade. Era genuíno, o António. Era como era. Na música foi um dos melhores. Tinha uma voz peculiar, mas era mais do que isso. Era aquela forma de apelar à memória colectiva, a uma certa tradição da música portuguesa, e mesmo assim produzir uma sonoridade profundamente modernista. De tal forma que, depois daquela madrugada de 14 de Junho de 1984, a sua música continua a manter a mesma pertinência. O álbum "Dar e Receber" foi agora reeditado - contém um inédito e duas remisturas inúteis - e quem não acreditar, faça favor de o ouvir. (Vitor Belanciano/Público)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Atenção: Concurso literário com prazo alargado!

A data limite para a o envio de contos para concurso 2º Concurso Literário do CLP/Camões em Lublin : “Uma palavra, um conto” foi alterada para o dia 16 de dezembro de 2015. 

Estar fit está na moda


 As pessoas dividem-se em dois grupos: os que comem só ‘alface’ e não conseguem emagrecer e os, afortunados, que comem o que querem e nunca ficam gordos. Que injustiça! Com certeza, pertenço aos primeiros, menos felizes. Estou segura que todos já conhecem o termo fit. Na pior das hipóteses, pelo menos, ouviram algo sobre este fenómeno. Estar fit, sem dúvida, está na moda. Silhueta fit, casal fit, dieta fit, fit selfie (feitas sempre antes e depois do treino), amigos fit, até calças fit, tudo isto está à mão. Mas o que na verdade, hoje em dia, significa a vida sã e como nos tentam enganar?
 A própria filosofia da vida fit não é tão má. Há poucas pessoas que não tenham o passe para o ginásio, não façam nenhum exercício ou não treinem com as senhoras como Mel B, Chodakowska ou Lewandowska em frente do seu computador portátil. Exercício diário é imprescindível para estar em forma, mas quanto à dieta, aqui começam os problemas graves. Nas prateleiras só produtos fit: barras fit, caramelos fit, chocolate fit, batatas fritas fit, maionese fit, tudo cheio de açúcar, óleo de palma e soja. Outros produtos também surpreendem com o conteúdo. Atualmente, o próprio leite tem alguns complementos adicionais e o que parece ser natural, na verdade só está a fingir.
 Já passaram os tempos quando o leite vinha direitamente “da vaquinha”, os ovos da nossa vizinha e a carne da quinta que estava ao alcance da nossa vista. Naqueles tempos o açúcar era um luxo e a celulite só uma doença das pessoas obesas. Agora, até as crianças têm.
 Então, a moda, neste caso, tem alguns aspetos positivos porque tem como o seu objetivo a propagação dos bons hábitos alimentares. Além disso, algumas pessoas tentam enriquecer ao enganar os seguidores da moda cujo objetivo é, simplesmente, estar na moda. O mais importante é (não é nada novo) a combinação duma alimentação razoável com o exercício físico, e naturalmente, manter um bom senso. Por isso agora mesmo vou às aulas de zumba…

Emilia Wróbel
1º ano de mestrado em espanhol

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os meus avós: uma história de amor


Num dia de janeiro um homem alto, moreno e abastado, que era o meu avô conheceu uma rapariga baixa, com os olhos azuis e pobre - a minha avó. Eles apaixonaram-se rapidamente. Encontravam-se todos os dias. Infelizmente os pais do meu avô não aceitavam a namorada do seu filho. Os meus avós amavam-se loucamente, por isso decidiram casar-se. Não se importavam com a opinião dos seus pais. No dia 26 de novembro eles casaram-se. O seu casamento foi bastante original para aqueles tempos.
De manhã eles saíram das suas casas para caminhar cinco quilómetros pelos campos até à igreja. Chegaram atrasados à missa que era celebrada por almas dos defuntos. Depois do padre anunciou e bendisse o casamento. Na igreja havia só oito pessoas. A minha avó vestida de saia e casaco mais escuro que claro e o meu avô com um fato velho juraram amar-se para sempre. Quando saíam da igreja o organista tocou a marcha nupcial. Como eles não organizaram a festa do casamento, este homem convidou-os para virem tomar o pequeno-almoço a  sua casa  e disse que os noivos mereciam uma pequena festa. Depois os meus avós reconciliaram-se com os seus sogros, porque o meu bisavô disse que não valia a pena discutir mais se a vida durava só um momentinho.
Na cultura polaca a festa de casamento muito grande é importante, mas para mim isto não significa nada. Os meus avós vivem da mesma maneira que as pessoas cujas bodas duraram dois dias. Por mais que eu observe e pense na vida dos meus avós, estou segura que na vida, o amor, a responsabilidade pela outra pessoa e a gratidão são essenciais.
Olga Bobkowska
2º ano de mestrado em espanhol

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

FOTOGRAFIA - UMA ARTE?


O que é uma fotografia? Conforme ao dicionário ,,a fotografia é a técnica de criação de imagens por meio de exposição luminosa". Para a maioria a fotografia do mesmo modo significa uma técnica de criação, mas há algum parte da população para quem é um meio de expressar todos os sentimentos e pensamentos. Esta arte permite exteriorizar a alma e o coração duma pessoa. O que é interessante, é que ninguém pode fazer a mesma fotografia que já foi feita.

         Mas do início... A fotografia tem o seu começo no século XV quando se formou o primeiro protótipo da câmara fotográfica nomeada "câmara obscura". No século XIX o fotógrafo Joseph Nicéphore Niépce fez a primeira fotografia e depois Louis Jacques Daguerre apresentou a sua primeira fotografia na Academia de Ciências francesa. Estes acontecimentos iniciaram a técnica que hoje em dia é chamada fotografia.
          Entre muitos, os meus fotógrafos preferidos e os quais vou apresentar são Zofia Rydet e Sebastião Salgado. Porque são nomeados "os maiores"? Porque como disse Susan Sontag no seu livro ,,Sobre a fotografia": ,,as fotografias são os fragmentos empunhados dos nossos momentos aflitivos" e para mim de forma mais verdadeira exprimem os seus sentimentos e abrem os seus corações. A fotografia significa uma entrada na relação entre o fotógrafo e um objeto que é fotografado. Ela pode garantir a imortalidade, a imortalidade das nossas recordações. A fotografia é também uma prova verdadeira da existência. Admitiremos quando vermos. Como as outras artes só podem ser as interpretações subjectivas, a fotografia mostrar o objeto como é na verdade e na realidade. Não muda nada no objeto demostrado. E como mostra o mundo real pode garantir segurança, um espaço seguro onde ficamos, porque mostra a verdade e nunca nos vai enganar.
         Os fotógrafos que eu referi têm nas suas obras algo que permite nomeá-los como "melhores entre os melhores". Quando vejo as fotografias sempre me pergunto qual é a mensagem que o autor queria transmitir?
          Zofia Rydet é uma das mais eminentes fotógrafas da Polónia. Na maioria deve o seu reconhecimento ao ,,Registo sociológico", sem dúvidas o mais notável projecto documentário na fotografia polaca do pós-guerra. Durante dez anos Rydet fez por volta de 30 000 fotografias (monocromáticas) - os retratos das pessoas na interior das suas casas de a toda Polónia. Nas fotografias observamos os interiores urbanos e rurais do século XX. As fotografias mostram "os manequins" verdadeiros, vestidos com as roupas quotidianas, e a câmara fotográfica era uma caixa mágica que parava o tempo. Rydet disse:  ,,O meu trabalho tem de gravar o que já muda(...), mostrar fielmente um homem com o seu espaço circundante quotidiano(...) que apresenta a psiquismo dele, que às vezes fala mais sobre ele do que ele fala sobre si mesmo."
          Outro grande fotógrafo é Sebastião Salgado. Fotógrafo brasileiro que é reconhecido pelos seus retratos. Ele concentra-se na pobreza da humanidade. O mundo que é eternizado nas suas fotografias é sujo e lúgubre e as pessoas que vivem neste mundo - tristes. As suas primeiras obras concernem a miséria na África. Alguns mostram também os trabalhadores na França, na Rússia ou na Ucrânia. Nas suas obras podemos encontrar as fotografias do estaleiro em Gdańsk na Polónia. Uma vez ele disse que a sua intenção é fixar os sintomas da actividade humana, relacionados com os trabalhos na maioria manuais, que no futuro se extinguirão. Salgado nos seu ciclos fotográficos alude os problemas da sociedade como as migrações ou os efeitos dos conflitos. As fotografias dele estão sempre  do lado dos fracos, feridos e aproveitados. Relacionam os riscos que a uniformização e a globalização traz.
          As fotografias constituem o aprisionamento da realidade, a realidade que às vezes é inacessível, às vezes resistente e às vezes desaparecida. Param o tempo e guardam o momento para sempre. Como disse Sontag: ,,a fotografia tem uma força, que supera outros modos de criar as imagens, porque à destinação delas não depende do criador", mostra sempre a realidade e o mundo real. 






Pamela Paradowska
3º ano de Estudos Portugueses

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Canções contadas: "Anda comigo ver os aviões"


Outono. Espero que chegue o autocarro que nos levará de um terminal para outro. Ouço a canção dos Azeitonas “Anda Comigo Ver Os Aviões”. Chove, estão cerca de 5 graus, todos que estão na paragem estão enfastiados, com frio e cansados de esperar. Exceto uma pessoa. Uma mulher, quarentona, magra, com penteado desgrenhado e o telefone junto ao ouvido. Na sua atitude há algo artisticamente louco. Fala bastante alto com alguém em espanhol, mas ainda que falasse em voz baixa, todos poderíamos ouvir a conversa, porque simplesmente ninguém conversa. Fala espontaneamente, de forma rápida, mas claramente e acentuando cada frase. Fala sobre a viagem de trabalho, sobre o seu namorado, que continuamente lhe manda mensagens de texto e que tem muitas saudades dela, que estão muito bem, que em breve se vão ver, que estas viagens de trabalho são sempre cansativas, mas inevitáveis, e que desta vez também conseguiu fazer uma barganha, mas agora não pode mais, simplesmente está ansiosa para vê-lo, beijá-lo e levá-lo para a cama.
O que imaginei ouvindo a canção, a mulher e o seu telefonema? Que não há ninguém do outro lado do telefone. Que toda essa conversa é uma grande farsa e que a mulher que está a conversar uma vez por semana vai de autocarro de um terminal para o outro para poder fingir ser outra pessoa, alguém que não é – e quem quer ser – ou quem era. E nós somos observadores do espetáculo. Os nossos olhos e ouvidos fazem com que a imagem de feliz namorada e amada mulher de sucesso torna-se real. Porque, quer se queira quer não, nós somos as testemunhas e construímos isso nas nossas cabeças quando a ouvimos falar. Ela mora num pequeno apartamento. Na primavera morreu o seu parceiro de vida, um grande amor. Ele ia com ela “ver os aviões levantar voo, a rasgar as nuvens, rasgar o céu”, “ver os navios a levantar ferro, rasgar o mar” , “ver os automóveis à avenida, a rasgar as curvas, queimar pneus” e “ver os foguetões levantar voo, a rasgar as nuvens, rasgar o céu”. Agora está sozinha, o gato preto encontrado na rua não preencheu o vazio do homem, de modo que ela como um robô vai trabalhar todos os dias numa grande empresa tentando viver como sempre viveu. Mas não sabe como ser feliz de novo, então regularmente vai para o aeroporto para, durante meia hora na paragem e no autocarro, voltar a ser mulher feliz e apaixonada. Entre os estranhos, estrangeiros, turistas acidentais e empresários.
Tive também outra visão. Que ela ia também para o porto mas não com o mesmo objetivo que com o seu namorado. Encontrou uma maneira bastante estranha para matar as saudades. Ia para acenar aos passageiros que partiam, justamente julgando que alguém poderia pensar que se despede do marido, e, portanto, a acharia fácil de seduzir. As viagens ao porto tornaram-se o costume para ela. Ela pensava que a ajudavam a estar menos maluca. Mas um dia encontrou um profissional, que a observava e sabia que estes casos são frequentes e fáceis de aproveitar.
Construí esta figura trágica na imaginação de forma tão clara, com todos os detalhes e profundidade que poderia colocá-la como a heroína de um livro. Percebo-a apesar de não estar na sua pele. Ou pelo menos nunca cheguei a uma necessidade tão extrema de espelhar-me nos olhos dos estranhos. Mas tenho alguma coisa comum com ela e de alguma maneira entendo-a. Se alguém nos vê felizes, isso significa que estamos felizes, não? Act as if, dizem os americanos. Por alguma razão sentimos que se representarmos o suficiente alguma pessoa, acabaríamos por transformar-nos nela – ou pelo menos acreditar que somos essa pessoa. Isso nos bastaria, porque eu sou quem eu penso que sou.
Assim, é claro, a Mulher-Maravilha.
 Dominika Ładycka

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Trocadilhos e jogos de palavras

Brincar com as palavras pode resultar nisto:
acalmar: mar calcário.
alheia: aldeia em que se cultiva alho.
amarelas: pessoa que gosta muito de rãs.
amiudar: dar à luz uma miúda.
anáfora: expressão usada pela  mãe de qualquer Ana, quando a filha não está em casa.
armário: estilo da moda no qual o mais importante é ter o mesmo ar que o Super Mário
arrepio: voz de uma coruja que está zangada.
biscoito: prazer a dobrar.
cachorra: nome do lugar destinado para chorar.
calcorrear: correr com o corpo coberto de cal.
cantarolar: rolar, girar ou dar cambalhotas cantando alguma canção.
chumbar: tipo de bar onde se bebe de maneira muito pesada.
cigarro: carro de ciganos.
coca-bichinhos: bichos que consomem cocaína.
corpulento: pessoa que chega sempre atrasada.
couve- flor: vaca americana que vê uma flor.
doador: uma pessoa que partilha a sua dor com outras pessoas.
enlear: atuar no teatro como Rei Lear.
enriquecer: transformar-se em Henrique.
épico: pico electrónico.
fadista: artista que possui poderes sobrenaturais e faz magia.
família: ilha que tem muita fama.
gaguejar: imitar a Lady Gaga.
homogéneo: génio só numa disciplina.
indigente:  pessoas da Índia.
manicura : tratamento feito com as mãos por um curandeiro.
miniaturista : turista pequeno.
moção: moço muito alto.
padreco: padre ecologista.
quadrimestre: pessoa que domina quatro disciplinas diferentes.
recolher: colher acusada de cometer um crime.
secadilhos: trocadilhos inventados por mim.
Toranja: mulher de Thor
transparente: familiar que gosta de vestir roupa do sexo oposto.
tresnoitar: passar três noites no mesmo lugar.

Turma do 2º ano de mestrado em Estudos Portugueses

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

2º Concurso Literário do CLP/Camões em Lublin : “Uma palavra, um conto”

REGULAMENTO
Introdução
 A ideia de criar este concurso literário surgiu como forma de incentivar a criatividade literária entre os falantes não nativos de português, bem como o gosto pela escrita em português.
Artigo 1.º
 O Concurso Literário é aberto a falantes não nativos, excluindo assim cidadãos de nacionalidade portuguesa, e ainda cidadãos naturais de países de língua oficial portuguesa. O concurso é, entenda-se, aberto não só a residentes na Polónia. Aos membros do júri é vedada a participação bem como aos seus familiares diretos. 
Artigo 2.º
O Concurso Literário destina-se a premiar trabalhos inéditos na modalidade de conto. 
Artigo 3.º
Cada concorrente poderá apresentar apenas um trabalho.
Artigo 4.º
Os trabalhos a apresentar serão subordinados às seguintes normas:
a) O texto obrigatoriamente redigido em língua portuguesa, original e inédito, deverá ter um mínimo de duas páginas e um máximo de seis páginas, com espaçamento duplo entre as linhas e tipo de letra Times New Roman, tamanho 12, formato pdf, devendo ser entregue por email:clp.lublin.polonia@gmail.com
b) Juntamente com o texto, deverão ser enviados os dados de identificação (nome, nacionalidade) e de residência do concorrente, o título do trabalho apresentado e se desejar, o pseudónimo escolhido;
c) A data limite para o envio dos trabalhos é 16 de dezembro de 2015.
d) O tema do concurso é: uma palavra, um conto. A partir de uma palavra o autor terá que criar um conto. A escolha da palavra fica a cargo do autor.

Artigo 5.º
Ao trabalho que, pela sua qualidade literária, mais se distinga será atribuído um prémio e publicado no próximo número da revista Água Vai.
a)     O domínio da língua portuguesa é também tido em conta pelo júri.

Artigo 6.º
Caberão ao CLP/C todos os direitos sobre a primeira edição dos trabalhos premiados, comprometendo-se este a oferecer aos respectivos autores 10 exemplares da revista Água Vai, considerando-se os direitos de autor regularizados desta forma.
Artigo 7.º
Poderão, ainda, ser editados, mediante condições a acordar, caso haja interesse por parte do  CLP/C e dos respectivos autores, os trabalhos agraciados com menções honrosas.
Artigo 8.º
O júri terá a seguinte composição:
a)Dra. Yana Andreeva (Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski, Bulgária)
      b)Prof. Doutor Dionísio Vila Maior (Universidade Aberta, Coimbra)
      c)Dr. Pedro Balaus Custódio (Instituto Politécnico de Coimbra)
      d)Idálio Loureiro (Agrupamento de Escolas do Viso, Porto)
      e)Lino Matos (UMCS, Lublin)
Artigo 9.º
A decisão do júri será tomada no prazo de 15 dias úteis, contados a partir da data fixada para a entrega dos trabalhos.
Artigo 10.º
O júri poderá não atribuir qualquer prémio, caso considere que os trabalhos apresentados não reúnem condições de qualidade que o justifiquem.
Artigo 11.º
O júri, para além dos prémios atribuídos aos trabalhos que considerar de maior qualidade, poderá atribuir menções honrosas que, no entanto, não vincularão o CLP à respectiva publicação. O júri poderá, ainda, se entender que o respectivo valor literário o justifica atribuir prémios ex aequo.
Artigo 12.º
Os casos omissos ou as divergências na interpretação do presente regulamento serão solucionados pelo júri.
Artigo 13.º
Das decisões do júri não haverá recurso.
Artigo 14º
Disposições finais:

a) Os dados pessoais facultados serão utilizados exclusivamente pelo CLP/C para os fins do concurso, entrega de prémios e divulgação de informações relativas a futuros eventos semelhantes.

b) A apresentação dos trabalhos pressupõe a plena aceitação do presente regulamento.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A velhice...

A nossa sociedade envelhece. É um facto que podemos observar já há algum tempo – há mais idosos do que crianças. Graças ao desenvolvimento da medicina a vida humana prolongou-se, somos mais resistentes às doenças, também a mortalidade dos recém-nascidos é menor do que no passado.
„A velhice”. Para muitas pessoas soa como a sentença. Parece-nos o pior que pode acontecer na nossa vida. A velhice é porém uma etapa da vida extremamente importante. É a etapa que fecha o perfeito círculo da vida. É como o regresso ao início. Os idosos, ao fim da sua vida parecem voltar ao estado da criança – muitas vezes não conseguem realizar as atividades básicas sem assistência, são teimosos, não percebem as expressões mais simples. Até os seus corpos se tornam mais pequenos, mais delicados e sensíveis. Estes factos criam certa aparência, como que as pessoas de idade avançada verdadeiramente fossem imaturos e merecessem ser tratados como crianças ou (ainda pior) fossem ignoradas completamente. Pensamos que não percebem os nossos problemas, esquecemos que eles viveram a mesma vida que nós, também foram estudantes, namoraram, trabalharam, divertiam-se, tiveram as suas primeiras derrotas, conflitos com os seus pais, também tomavam cervejas aos 15 anos de idade em segredo, copiavam nos exames e iam de férias com uma tenda e 20 zloty no bolso. Se nós tivéssemos um pouco de compreensão e paciência para eles, podíamos aproveitar da enorme experiência e sabedoria que têm. Porém não está na moda passar tempo com os avós, que às vezes têm os hábitos estranhos e para nós inexplicáveis. Falta de vontade de verdadeiramente ouvir o que têm para dizer faz com que tratemos o que dizem com uma piscadela de olho. Como não são muito produtivos no mercado de trabalho, frequentemente achamo-los inúteis.  Que engano! São divertidos, têm montes das histórias interessantes para contar, bons conselhos tirados da experiência da vida deles.
Um exemplo – uma situação que aconteceu durante um exame ao ouvido feito a um idoso de oitenta anos. Perguntaram-lhe, se há situações nas quais ouve melhor ou pior. „Claro que sim!” - respondeu surpreendido, que alguém lhe faça uma pergunta tão óbvia - „quando dizem toma! ouço perfeitamente. Mas quando dizem dá – já não tanto..” O que significa isto? Que os idosos não só são inteligentes como nós mas revelam-se muito mais espertinhos do que nós pensamos. 
Aleksandra Porębska
3º ano de Estudos Portugueses

terça-feira, 7 de julho de 2015

A minha aventura polaca



A minha aventura polaca começa nos primeiros dias de maio, havia greve de pilotos nessa semana em Portugal e a ansiedade tomava-me por completo. Na verdade, nem sabia se conseguiria embarcar. Por dois meses ia estar com estudantes da UMCS e do CLP Camões em Lublin, portanto a responsabilidade era grande.
Para esta viagem, levava trinta quilos de bagagem. Tudo o que, por vezes, necessitamos (ou não). No comboio para Lublin, tive a minha primeira aventura polaca: carregar uma mala de vinte e três kg e pô-la num suporte especifico para as bagagens a quase dois metros do chão. Depois de muito sacrifício e tentativas em vão, dois amáveis rapazes perceberam a minha aflição e ajudaram-me. A partir daí, pensei: esta será uma grande aventura, sem duvida!
Sem saber, a minha cabeça hispano-luso-brasileira estava a conviver também com o polaco, um idioma novo e completamente desconhecido para mim. Pôr a máquina de lavar roupa (em polaco), comprar os produtos no supermercado (em polaco), apanhar um autocarro (paragens em polaco), pedir informação (em polaco), fez com que aprendesse algumas palavras e frases do quotidiano. No entanto, por vezes, a língua inglesa teve de ser "resgatada do baú" e empregue porque os meus conhecimentos linguísticos eram limitados. Algumas dessas aventuras inusitadas foram partilhadas com os estudantes e demos boas risadas.
No que diz respeito às aulas, foi uma experiência valiosíssima, não tem preço. Tentei transmitir e também ensinar aspetos que julgo interessantes e, ao mesmo tempo, pertinentes para um estudante de Estudos Portugueses, ou seja, mostrei a cultura, a língua e a minha paixão, a literatura. Desse modo, espero bem as minhas aulas que tenham sido proveitosas.
Agora está a finalizar a minha aventura polaca. Passou tão rápido, parece que foi ontem que cheguei, receosa e expetante. Resta-me uma vez mais, agradecer a oportunidade e a compreensão de todos. Vai custar-me imenso deixar o hábito de estar na universidade antes das nove da manhã, mas a vida é assim. Apenas deixo-vos um conselho: continuem a gostar e interessar-se pela língua portuguesa, pois é lindíssima.
Um abraço da "aventureira" Ana Coelho
Estagiária da Universidade Aberta de Lisboa

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Novo número já saiu!


O número seis da Água Vai saiu hoje. Nesta edição:
Contos:
-“A tirania do Semsentido” de Kamila Wiśniewska
-“Se o caso é chorar” de Serenna Cacchioli
-“O regresso do rei” de Anna Krupa e Małgorzata Stankiewicz
-“Amor em duas rodas” de Dominika Ładycka e Patrycja Cieśluk
-“A mesa” de Małgorzata Koprowicz
Música:
-Entrevista com Kinga Rataj por Liliana Wajrak
Desporto:
-Futebol português e futebol polaco: diferenças por Maciej Durka
-Entrevista com Adison Schneeweiss por Aleksandra Porębska
Opinião:
-Serviços académicos por Magda Jóźwik
-Viajando pela vida? por Aleksandra Guz
Ecologia:
- Em socorro dos linces por Anna Krupa
Brasil:
- Afro-brasileiro: inspiração para a cultura nacional 1889-1930 por Agata Błoch
- Brasileiros e Lublin: entrevista por Aleksandra Moskal
- O gaúcho – um estado de espírito por Katarzyna Rejter
Cinema:
- Imagine, de Andrzej Jakimowski, 2012 por Martyna Jędrzejczyk
Poesia:
- Entrevista com Alexandre Soares por Monika Czarkowska-Guziuk
- Poemas de Alexandre Soares (tradução de Joanna Dudek e Ewa Tomaszewska)

Quem estiver interessado pode passar pelo Centro de Língua Portuguesa/Camões em Lublin e pedir o seu exemplar. Está também disponível em versão pdf: ÁGUA VAI – PDF