terça-feira, 5 de agosto de 2014

"Até Amanhã, Meu Filho" de António Macheira


Se António Macheira fosse vivo faria hoje 81 anos. Por essa razão decidimos prestar-lhe homenagem no dia do seu aniversário. Uma homenagem que serve acima de tudo para dar a conhecer a obra de um talentoso escritor que desapareceu aos 23 anos de idade em 14 de dezembro de 1957. Natural de Olhão, ou melhor, filho de Olhão como orgulhosamente os olhanenses falam de si próprios, através da sua escrita dá-nos a conhecer não só a beleza da sua terra e do Algarve, o quotidiano de uma vila piscatória, mas acima de tudo a realidade nua e crua da pobreza e miséria em que viviam os pescadores e as suas famílias. Por isso a sua escrita tem uma enorme carga social e até política que lhe valeu alguns dissabores com o regime fascista de então. Nas palavras do seu irmão José Macheira, “António Macheira dedicou a sua vida aos problemas que afetam a humanidade. Tinha o desejo de criar uma sociedade mais justa entre os pescadores e contribuir para a sua promoção social em igualdade com os outros escalões da sociedade. Ao deixar-nos prematuramente perdeu a oportunidade de conhecer uma nova sociedade, esta em que vivemos, onde crianças e família têm a vida facilitada nas escolas, doenças e no trabalho. Contudo, esta mesma estrutura social (...) continua enferma faltando-lhe aquilo que o nosso autor apregoa – a humildade e o afeto.” 
 Olhão reconheceu o seu valor dando o seu nome a uma rua da cidade e à biblioteca da Escola Básica João da Rosa. Mas a verdadeira homenagem seria a divulgação da sua obra nas escolas e bibliotecas não só da região mas do país. Em Lublin começamos a fazê-lo este ano e embora para não sejam fáceis para um falante não nativo de português, os contos de António Macheira tocaram o coração dos alunos. O livro “Até amanhã, meu filho” onde estão compilados alguns dos seus contos e crónicas, foi publicado postumamente. Decidimos publicar o conto que dá o título ao livro e que foi traduzido para polaco pela turma do 3º ano de estudos portugueses.

Até amanhã, meu filho
A chavinha emperrou um pouco, mas o estalido, já tão conhecido, da lingueta a correr, fez-se ouvir. Conceição suspirou, satisfeita, enquanto a pequena porta de ferro forjado se abria lentamente. O vidro estava baço e as duas pequenas cortinas brancas pareciam húmidas e manchadas. A pequena lamparina apagara-se e um cheiro a azeite queimado veio-lhe às narinas juntamente com o odor subtil de duas rosas amarelas que murchavam na jarrinha de porcelana. A moldura de madeira polida também sofrera os efeitos da humidade eo rosto querido esfumava-se sob uma neblina cerrada. Conceição puxou por uma ponta do xaile e limpou tudo cuidadosamente até que o rosto voltou a sorrir, um sorriso eterno, feliz. Sofregamente, beijou o retrato. Mas lembrou-se de qualquer coisa e lamentou-se em voz baixa.
 – Ai, esta minha cabeça, Luís. Não faças caso. Boa tarde, meu filho. – Novamente limpou a moldura.
– Sabes? Ontem não pude vir por causa da chuva. Eu bem me importava, mas o teu pai...Ora! Estas molduras, Nossa Senhora! Custou-me quinze escudos, na feira do ano passado...Nunca dou com o jeito. Ah! Já está. Se me constipei da outra vez, tusso outra vez, e não saí disto (tu bem o conheces) e eu acabo por ficar em casa. A tal dor não há meio de passar. Vem daqui, mete-se pelas costas...Que disparate, Luís! Vá lá que ninguém olhou para mim. Depois, a noite sem dormir, um vendaval dos demónios; o teu pai a roncar e a acordar-me: ˝Isto é chuva, Conceição?˝ ˝– É sim, João; uma chuva igualzinha à da tal noite...˝. Agora estou estafada. O teu pai ficou em casa a dormir. Quem diria que hoje estaria um dia assim. Tal e qual como na outra vez...
Agarrou no pequeno frasco que estava a um canto, desarrolhou-o lentamente e, inclinando-o sobre o recipiente da lamparina, deixou correr o azeite que restava. Um novo pavio foi colocado e acendido. Conceição fez um pequeno sinal da cruz com o fósforo antes de o apagar. Os seus lábios continuavam num vaivém incessante, que poderia parecer uma oração. Mas não era.
– Tu não estás molhado, pois não? Aqui as cortinas estão encharcadas. O teu vizinho de cima é que deve apanhar mais humidade. Oxalá que se dêem bem. A Maria ainda fala deste luxo, a parva. Se calhar o meu filho haveria de ir pró chão e ser espezinhado! Somos pobres mas graças a Deus, o teu pai arranjou aquele negociozinho de peixe... –fez outro sinal da cruz com o fósforo apagando e jogou-o fora. Sorriu inconscientemente.
– Que linda tarde, Luís. E isto hoje está muito animado, graças a Deus. Olha, a mãe do Rafael chegou agora e trouxe-lhe um ramo de malmequeres. Não o tens visto, Luís? Vocês eram tão amigos... –suspirou– às vezes penso como a vida deve ser aborrecida para vocês aí em cima.
Duas velhotas magras, vestidas de negro, aproximaram-se de Conceição.
– Nosso Senhor te salve Çanita.
– Boa tarde, tia Adélia. E à sua mana também.
O olhar perscrutador da velha Adélia fixou-se no retrato grande.
– Que belo moço, o seu santinho! Todas as vezes que passamos por aqui, digo à Luísa:   ˝Veja lá, mana, aquele rapaz que morreu afogado. É mesmo igual ao da imagem de S. Sebastião, que temos em casa... ˝
Finalmente, as duas velhas afastaram-se e Conceição bateu com uma mão na testa.
– O jantar! – e duas lágrimas correram-lhe pelo rosto envelhecido.
– Daqui a pouco é noite. Arroz com ervilhas, lembras-te? O teu prato preferido. Agora já não o faço no tacho azul, mas, sim, no pequeno.
As lágrimas corriam-lhe. – Sou uma parva, Luís. A chorar por uma coisa destas.
Enxugou os olhos com o lenço branco. Parecia mais aliviada. Meteu o pequeno frasco numa algibeira da saia. E, empurrando brandamente a portinha de ferro, que gemeu de mansinho. Conceição disse, em voz baixa:
– Até amanhã meu filho.

Até amanhã, meu filho- Contos e Narrativas de António Macheira
Algarve em Foco Editora, 2ª edição aumentada, 1998

Do jutra, synku
 Kluczyk lekko się zaciął, jednak zamek wydał dobrze już znany dźwięk. Conceição westchnęła z zadowoleniem, gdy małe żelazne drzwi powoli się otwierały. Szkło było zaparowane, a dwie białe zasłonki jakby wilgotne i poplamione. Lampka oliwna zgasła, a jej zapach zmieszany z subtelna wonią więdnących w porcelanowym wazoniku dwóch żółtych róż podrażnił jej nozdrza. Na ramce z polerowanego drewna również były widoczne skutki wilgoci i ukochana twarz zanikała pokryta gęstą mgłą. Coiceição pociągnęła za koniec swojego szala i starannie wytarła wszystko, aż twarz znów się uśmiechała, uśmiechem wiecznym, szczęśliwym. Czule ucałowała zdjęcie. Lecz przypomniała sobie o czymś i poskarżyła się cicho.
- Ach, ta moja głowa, Luís. Nie zwracaj uwagi. Dzień dobry, synku. – Przetarła ponownie ramkę.
- Wiesz, wczoraj nie mogłam przyjść z powodu deszczu. Bardzo mi zależało, ale twój ojciec… Oj tam. Te ramki, Matko Boska! Kosztowała mnie piętnaście escudo na zeszłorocznym jarmarku. Nigdy nie trafiam! O, już jest. Znowu się przeziębiłam, znowu mam kaszel i ciągle to samo (dobrze wiesz, o co chodzi) i koniec końców zostaję w domu. Nie ma rady na ten ból. Wychodzi stąd i przechodzi przez całe plecy. Co za głupota, Luís. Dobrze, że nikt mnie nie widział. Później bezsenna noc, piekielna wichura, twój chrapiący ojciec budził mnie: „czy to deszcz, Conceição?”. „- Tak, João, deszcz, taki samiutki jak tamtej nocy…”. Teraz jestem wyczerpana. Twój ojciec został w domu i śpi. Kto by powiedział, że dziś będzie taki dzień. Dokładnie taki jak wtedy...
Sięgnęła po mały słoiczek stojący w rogu, odkręciła powoli zakrętkę i pochylając go nad pojemniczkiem, pozwoliła spłynąć reszcie oliwy. Następnie włożyła nowy knot i zapaliła lampę. Conceição zrobiła mały znak krzyża z zapałką w ręku, zanim ją zgasiła. Nieustanie poruszała ustami, zupełnie jakby odmawiała modlitwę, ale nie odmawiała.
- Nie zmokłeś, prawda? Zasłonki są przemoczone. Twój sąsiad na górze to dopiero ma wilgoć[1]. Obyście się dogadywali. Maria wciąż gada o tym luksusie, głupia. Pomyśleć, że mój syn miałby leżeć w ziemi, żeby go deptali. Jesteśmy biedni, ale dzięki Bogu twój ojciec rozkręcił ten interes z rybami… – zrobiła jeszcze jeden znak krzyża zgaszoną zapałką i ją wyrzuciła. Uśmiechnęła się nieświadomie.
- Cóż za piękne popołudnie, Luís. Ale dzisiaj duży ruch, dzięki Bogu. Słuchaj, matka Rafaela przed chwilą przyszła i przyniosła mu bukiet nagietków. Widziałeś go ostatnio, Luís? Byliście takimi przyjaciółmi… – westchnęła – czasem sobie myślę, jak nudne musi być życie dla was tam, na górze.
Dwie starsze szczupłe kobiety ubrane na czarno podeszły do Conceição.
- Niech Bóg Cię błogosławi, Çanita.
- Dzień dobry pani, Adelito, i pani siostrze również.
Wnikliwe spojrzenie leciwej Adeli spoczęło na podobiźnie zmarłego.
- Cóż za piękny chłopiec, ten twój aniołek! Zawsze, gdy tędy przechodzimy, mówię Luizie: spójrz no tylko, siostro, to ten młodzieniec, który się utopił. Wypisz, wymaluj S. Sebastião, którego figurkę mamy w domu.
Kiedy w końcu obie kobiety oddaliły się, Conceição złapała się za głowę.
- Kolacja! i dwie łzy spłynęły jej po pomarszczonej twarzy. - Niedługo zapadnie noc. Ryż z zielonym groszkiem, pamiętasz? Twoje ulubione danie. Teraz już go nie robię w niebieskim garnku, tylko w tym małym.
Spływały kolejne łzy. - Ale jestem głupia, Luís. Płakać z takiego powodu. Białą chusteczką wytarła oczy. Wyglądała jakby jej ulżyło. Włożyła mały słoiczek w kieszeń spódnicy. Popychając delikatnie żelazne drzwiczki, które łagodnie zaskrzypiały, Conceição powiedziała cichutko:
- Do jutra, synku.

Tłumaczenie
III rok portugalistyki UMCS: Anna Tylec, Bartosz Suchecki, Ewa Kobyłka, Ewa Szafrańska, Ewa Tomaszewska, Katarzyna Frąszczak, Katarzyna Janowska, Katarzyna Rejter, Łukasz Gomoła, Olena Boczkowska i Zuzanna Michalska


[1] W Portugalii trumny na cmentarzach są zarówno przytwierdzane piętrowo do ścian, jak też, zgodnie z polskim zwyczajem, zakopywane w ziemi.

sábado, 26 de julho de 2014

As festas de casamento na Polónia

„Zastaw się, a postaw się” – é um provérbio tradicional polaco que significa que embora não tenhas dinheiro, tens que receber os convidados com hospitalidade e generosidade. Acho que podemos dizer que este provérbio é entre os polacos a primeira e a mais importante regra quando preparam as festas de casamento. Isto serve para mostrar a riqueza (às vezes fictícia) dos anfitriões, mas também está ligado às tradições que existem na cultura polaca. Há numerosas regras e rituais que numa família tradicional são absolutamente imprescindíveis para que a festa de casamento não seja uma vergonha para os organizadores e também para que os recém-casados tenham uma vida próspera e feliz.  Aqui vamos ver o que é que ocorre, passo a passo, quando as pessoas organizam a cerimónia e a festa de casamento tradicionais, tendo em conta que estas podem variar ligeiramente segundo as regiões do país.
Todo o processo começa quando duas pessoas decidem casar-se. Depois de tudo estar decidido (e normalmente o homem tem de pedir a mão da sua namorada perante os pais dela), é necessário escolher o mês da cerimónia. Costuma-se organizá-la nos meses que contêm no seu nome a letra „r” para dar sorte. Depois a mulher tem de arranjar o seu vestido ao qual também está ligada uma superstição: é proibido o noivo vê-lo antes do dia do casamento, para não atrair o azar. E para atrair a sorte e bom tempo neste dia importante, alguns põem os sapatos da boda num parapeito da casa.


Já no dia do casamento decora-se a casa da noiva com balões e outros adornos e o noivo vai lá para pedir a bênção dos pais da sua namorada. E o que se passa depois é normalmente a cerimónia na igreja, como a maioria das pessoas na Polónia é católica, então os noivos e as suas famílias vão para a igreja onde já esperam os convidados. Depois da cerimónia ao sair da igreja, todas as pessoas os esperam à porta e atiram-lhes arroz ou moedas. Os recém-casados recolhem este dinheiro e diz-se que aquele que junta mais, terá mais poder na relação no futuro.

 Após tudo isso, os convidados e o casal vão para o lugar da festa de casamento, frequentemente barrados durante o caminho pelos vizinhos ou crianças que lhes dão parabéns e exigem algo - ou um pacote de bolos ou uma bebida alcoólica (que normalmente é uma garrafa de vodca) – para deixá-los passar e continuar a viagem durante a qual se costuma buzinar, como quem quer anunciar a todo o mundo a alegria, até ao chegar ao destino. Já neste lugar, que costuma ser abundantemente adornado, os recém-casados são recebidos com pão e sal e bebem um copo de vodca. Depois recebem parabéns e presentes da família e dos amigos. Neste momento é preciso ter muita paciência, porque todos os convidados querem ter os seus 5 minutos com o casal e isto pode durar muitíssimo. Os presentes costumam ser: dinheiro num envelope, um buquê de flores e por exemplo algum utensílio doméstico, um conjunto de talheres ou qualquer coisa que sirva ao casal na nova vida na sua nova casa. Embora oferecer flores seja tradicional e popular, agora cada vez mais pessoas diz que prefere que os convidados doem alguma quantidade de dinheiro para fins caritativos ou que comprem algo para as crianças de orfanato. Também se pode comprar um bilhete de lotaria para que o casal tenha a possibilidade de ganhar dinheiro que lhes garanta um futuro próspero.

 Outro momento muito importante é também quando se agradece aos pais dos noivos e tem lugar a dança da noiva com o seu pai e do noivo com a sua mãe.  Tradicionalmente isto é acompanhado por uma canção que se chama „Cudownych rodziców mam” (“Tenho os pais maravilhosos”) que presta homenagem aos pais. Além disso, não se pode omitir a primeira dança dos apaixonados, mas lá não há regras exactas quanto à escolha da canção. Depois de dançar, participar em algumas brincadeiras específicas, jantar, comer bolos e frutas e beber vodca, as pessoas estão bastante descontraídas e relaxadas. Temos de mencionar que há sempre abundância de comida e de bebidas e quase nunca faltam. Se és mulher, seguramente vais ser forçada a dançar com um tio bêbado, o que é ao mesmo tempo um pouco desconfortável e engraçado.
À meia-noite tem lugar um ritual que se chama “oczepiny” e que consiste em a noiva atirar o seu buquê ou o seu véu ao grupo de todas as mulheres solteiras presentes na festa. Aquela que consiga apanhá-lo será a primeira a casar-se. O mesmo acontece com o noivo, a sua gravata e os homens solteiros. Depois deste gracioso costume, as pessoas continuam a festejar até às 5 ou 6 da manhã. Todos recebem o seu próprio pacote de bolos porque os anfitriões querem que os seus hóspedes se sintam bem acolhidos e lembrem a festa positivamente. Mas isto não é o fim! No dia seguinte, por volta das 4 ou 5 horas da tarde, os convidados que tenham vontade (mas já não se costuma convidar as crianças), juntam-se novamente no mesmo lugar e festejam, dançando, comendo o que sobrou do dia anterior e falando da festa. À noite tudo termina e tanto os convidados como os recém-casados e a sua família voltam para casa de bom humor e cheios de recordações agradáveis.
Isto é uma festa de casamento tradicional mais típica, pelo menos nas localidades mais pequenas, porque obviamente nas mais modernas não haverá todos esses costumes, mas acho que em todas é normal querer receber os hóspedes da melhor maneira possível. Contudo, se queres experimentar a verdadeira festa de casamento polaca, tens que assistir a alguma.

Paulina Nycz
2º ano de Filologia Ibérica





terça-feira, 22 de julho de 2014

A minha avó, Maria Cieśluk

A minha avó, que hoje tem 88 anos, nasceu em 1926 em Grodno que nesta altura era parte da Polónia. A história da sua vida é provavelmente bem parecida com a dos seus colegas, mas tão diferente da nossa.
  O seu pai lutou nas Legiões de Piłsudski e durante uma das suas expedições militares, em Grodno, conheceu a sua futura mulher - Maria. Depois de casados decidiram ficar nesta cidade. A minha avó foi a terceira dos seis filhos de Józef e Maria. Teve dois irmãos – Stanisław e Józef e três irmãs – Genowefa, Janina e Irena.
  Quando a minha avó tinha dois anos a família mudou-se para Mielnik – cidade natal do seu pai. Até 1939 levava uma vida como as outras crianças – uma vida normal. Frequentava a escola primária e durante as tardes ajudava à sua mãe nos trabalhos domésticos.
  Mas em setembro de 1939 já ninguém pensava em ir às aulas. As escolas locais foram fechadas. Começou a guerra. O rio Bug, que atravessa Mielnik, passa a ser a fronteira entre a Alemanha Nazi e a União Soviética. Esta linha de demarcação entre ambas as potências traz consigo graves consequências para os habitantes da cidade. Ao fim do ano começa a ocupação soviética que vai durar até 1941. Durante este período a família da minha avó é repetidamente invadida pelos russos que roubavam tudo o que parecia ter algum valor. Em 1940 os soviéticos obrigam a família a deixar tudo e mudar-se para Grabowiec (uma aldeia a 5 km de Mielnik).
 Em 1941 o território do município já está sob o controle nazi. Com a chegada dos novos invasores começam as deportações de população local para o território alemão na Prússia Oriental onde a gente é utilizada como mão-de-obra escrava. A minha avó vai num comboio de carga para Hajde Kruk (perto de Królewiec, hoje Kaliningrad) em 1942. Durante a “seleção” é escolhida para os trabalhos forçados numa exploração agrícola. O seu primeiro dono é um homem cruel, sem escrúpulos. Odeia os polacos e abusa dos seus subalternos. A minha avó trabalhou ali um ano e depois foi enviada para outra exploração agrícola. Ali faz amizade com Zuzanna - filha do seu novo dono. Começa a trabalhar como cozinheira da casa. Nesta altura os russos que não conseguiram fugir do inimigo, tornaram-se prisioneiros de guerra - foram mal tratados, passavam fome. Zuzanna com a minha avó traziam-lhes pão. Um certo dia um alemão apanhou a minha avó em flagrante e ordenaram fuzilá-la. O seu dono decidiu defendê-la e salvou a sua vida porque a tratava quase como filha.
Quando a guerra acabou Maria voltou para Mielnik. Em 1958 foi atropelada por um carro. Depois disso teve muitas problemas de saúde. Esteve em coma e os médicos não lhe davam muitas esperanças de recuperação. Mas a minha avó venceu a luta contra a morte e passados dois anos casou-se com o meu avô. Trabalhava como cozinheira nas festas de casamento e mais tarde como funcionária pública. A minha avó ainda mora em Mielnik na mesma casa em que passou infância. Tem três filhos, muitos netos e até bisnetos. 

Patrycja Cieśluk e Dominika Ładycka
1º ano de Mestrado em Português

quinta-feira, 10 de julho de 2014

OS REIS PORTUGUESES NAS CRÓNICAS

Os dois textos que analisei: „Luzes e Sombras da figura do rei D. João no discurso cronístico régio” e “Pela pena e pela espada – historiografando um Portugal do Cancioneiro Geral” oferece um amplo conhecimento dos cronistas e melhor conhecimento dos reis portugueses e dá uma visão diferente e mais profunda da vida dos infantes e governadores portugueses. Assim conhecemos os dois lados dos reis portugueses: a imagem majestosa e do ser humano, a parte política e a parte humana, a evolução política e econômica.
 A construção imperial manuelina e joanina deu início a uma nova época da história de Portugal, época do Estado Moderno com fortes autoridades centralizadas. O Estado Moderno abrange três espaços: europeu, mediterrâneo e Ibérico – Castelhano. O primeiro espaço europeu mostra as mudanças de rumo da política portuguesa: diminuição da importância da ligação com Europa Norte por causa dos conflitos e guerra de Cem Anos entre a Grã Bretanha e a França. Assim o interesse político português mudou da Europa para África que em seguida começa já outro espaço – mediterrânico. Os reis portugueses encontram novas rotas comerciais por outro lado do Mar Mediterrâneo em Marrocos e África. E último espaço mostra a importância da paz estabelecida com Espanha e a luta para ser reconhecido entre outras nações como um país independente. A dinastia de Avis era uma família real muito unida, por exemplo as crônicas escrevem da tristeza do príncipe D. Afonso e da infanta D. Isabel depois da morte do filho. 
 São os cronistas que dão os apelidos aos reis: por exemplo, D. João II de gloriosa memória, nesse caso foi o cronista Rui de Pina que se dedicava à recolha das informações sobre os reis (D.Sancho I, D.Afonso II, D. Sancho II, D.Afonso III, D. Dinis, D.Afonso IV). Rui de Pina era uma das personagens mais importantes e interessantes da historiografia portuguesa. Além de ser cronista e escrivão, assumiu também o cargo do diplomata do Reino Português. As crônicas deles se tornaram confiáveis devido ao fato que Rui de Pina participou pessoalmente em vários acontecimentos mundiais, por exemplo: negociações após a descoberta da América por Colombo que acabaram com o Tratado de Tordesilhas. Representava também a presença portuguesa nas descobertas atlânticas e negociou com o papado essa presença. Tornou-se também o tradutor de português para latim da bula “Ortodoxae Fidei” que falava do poder do rei D. Manuel. A questão que queria levantar é se um cronista com tanta proximidade ao rei consegue passar as informações de uma forma neutra? Se as informações e crônicas não ficarão mais influenciadas pela pessoa do próprio rei? “Nas palavras de Rui de Pina, o ofício historial subordina-se claramente ao valor exemplar que as lembranças e contemplações das excelentes coisas passadas provocam em quem lê e ouve tais memórias.” (Ana Paula Avelar, Luzes e Sombras da figura do rei D. João II no discurso cronístico Régio, p. 6). As crônicas deviam mostrar a história imparcial ou tem direito de modificá-la do próprio jeito.        Na historiografia portuguesa podemos destacar duas pessoas importantes que descreviam a vida dos reis da dinastia Avis que virou um assunto muito polêmico. Um era cronista oficial, político e diplomata – Rui de Pina, outro era escritor, poeta e arquiteto Garcia de Resende. Um baseava-se mais na história e fatos, outro na literatura e nas memórias coletivas. A obra do primeiro era mais breve e cronológica enquanto a obra do outro se tornou famosa graças a sua fluidez e graciosidade da sua prosa. Talvez um seja mais objetivo que outro. Os dois estavam muito perto dos Reis. Existe também a hipótese de que Resende copiou alguns fragmentos da obra do Rui de Pina. Rui de Pina recebeu um oficio de Confirmações do D. Manuel I. Dom João II nomeou-o cronista oficial e em 1497 D. Manuel ofereceu-lhe os ofícios de guarda-mor da Torre do Tombo e também cronista-mor do reino. Rui de Pina participou tanto em acontecimentos da família real como, por exemplo, durante a morte de D. João II ou execução do D. Fernando, como no palco internacional (fazia parte da embaixada que foi enviada ao novo papa Inocêncio VIII). Rui de Pina seguia a filosofia do grande Cícero de valorizar a ética e moral nas suas obras. Cícero era conhecido por escrever muito detalhadamente as suas cartas. 
 Os cronistas claramente mostram a sua simpatia aos reis. D. João II foi descrito muito bem por Rui de Pina (“a excelência de suas bondades e virtudes, de que na paz, e na guerra, no publico e no secreto, na vida e na morte maravilhosamente sempre usou (...)”) e por Garcia de Resende (“homem de muito bom parecer e bom corpo, e de mean estatura, porem mais grande que pequeno, muito bem feyto e em tudo muy proporcionado, ayroso e de tanta grauidade e autoridade que entre todos era logo conhecido por Rey (...)”). 
Rui de Pina e Garcia de Resende escreviam sobre o império português na época quando os portugueses conseguiram conquistar África, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. As crônicas que descreviam em detalhe os sucessos marítimos eram também uma forma de legitimar o poder da coroa portuguesa quando a dinastia de Avis chegou ao poder. Houve uma grande necessidade de legitimar a nova dinastia de Avis em Portugal. As crônicas descrevem as conquistas marítimas também a propósito. A população portuguesa na época ficou sabendo dos sucessos dos atuais reis legitimando assim a presença da dinastia de Avis. 
Os reis portugueses passaram a assumir um papel importante de servir de exemplo e de construir uma boa imagem do monarca. Nas cartas da história foram lembrados como “O Messias” - D. João I ou “O Príncipe Perfeito” - D. João II. 
A história reflete muito na literatura. Um dos exemplos é a obra do Garcia de Resende Cancioneiro Geral que é uma compilação de poesia elaborada pelo próprio Resende que mostra a transição da Idade Média para a Renascença. Este tipo de escrita vem da tradição da Península Ibérica e principalmente da cultura castelhana. Além de competir nos mares e oceanos Portugal percebeu que a literatura portuguesa estava muita atrás da já bem desenvolvida tradição escrita espanhola. Os descobrimentos e conquistas marítimas descritos por vários cronistas inspiraram os poetas portugueses. Na crônica do João de Barros Décadas da Ásia (titulo completo: Ásia de Ioam de Barros, dos feitos que os Portuguezes fizeram na conquista e descobrimento dos mares e terras do Oriente) a partida de Vasco da Gama foi poetizada por Luís de Camões em Os Lusíadas
 Destacam-se alguns opostos, ou seja, cronistas versus poetas; Rui de Pina versus Garcia de Resende, os cronistas dos descobrimentos – Gomes Eanes de Zurara, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda versus poetas de Cancioneiro Geral. Por que a obra do Resende ficou mais famosa na época? A resposta é muito fácil. A obra do Rui Pina não foi publicada no século XVI enquanto a obra do Garcia de Resende Cancioneiro Geral foi impressa já em 1516. Naquela época era mais importante promover a história entre o povo através da literatura porque a literatura conseguiu chegar a todos os cidadãos de uma maneira muito mais rápida. Foi também uma forma de legitimar a dinastia de Avis entre a própria população. Os reis da dinastia de Avis foram os pioneiros na época do Renascimento. A importância do papel assumido por eles como lideres de “missão civilizadora” podemos explicar como justificação para a reconquista contra os mouros, mas também no espírito do estado moderno como o registro da história, sucessos marítimos e conquistas das novas terras de uma forma mais acessível ao povo.

Bibliografia:
ANDRADE, A.A., “A importância da linha costeira na estruturação do reino medieval português. Algumas reflexões”.
AVELAR, A.P.,“Luzes e Sombras da figura do rei D. João II no discurso cronístico Régio.
AVELAR, Ana Paula, “Pela pena e pela espada – Historiografando um Portugal do Cancioneiro Geral.
DINSEY, A.R., “A History of Portugal and the Portuguese Empire”, Cambridge University Press, New York 2009.
FONSECA, L.A.,, “Política e cultura nas relações luso-castelhanas no século XV”

AGATA BŁOCH                                                                                                          
Fundacja Terra Brasilis e Centro de História de Além-Mar  (Universidade Nova de Lisboa)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

CONCURSO DE FOTOGRAFIA: RELIGIÕES E TRADIÇÃO

Regulamento
O IV Concurso de Fotografia é uma iniciativa organizada pelo Centro de Língua Portuguesa/Camões de Lublin e tem por objetivo divulgar Portugal, através da imagem.
1.Participantes:
a) O concurso é aberto apenas a fotógrafos amadores. 
b) Aos membros do júri é vedada a participação bem como aos seus familiares diretos. 

2.Tema: O tema do concurso é religiões e tradição. Portugal é um país historicamente e tradicionalmente católico, mas onde convivem outras religiões. Não devemos também esquecer que para além da língua o outro importante legado português nos quatro cantos do mundo foi a fé católica.

3. Trabalhos:
a) Cada participante pode apresentar a concurso até 3 trabalhos.
b) Só serão aceites trabalhos que não tenham sido premiados noutros concursos.
c) Os trabalhos deverão ser apresentados em formato digital.
d) Os trabalhos deverão ser entregues por e-mail, até ao dia 15 de Outubro de 2014 (clp.lublin.polonia@gmail.com).
e) Os concorrentes deverão indicar o título do trabalho e a indicação do local de recolha da imagem.
f) Juntamente com os trabalhos os concorrentes deverão indicar o nome e e-mail.

4.Júri: A divulgar.

5.Prémios: Serão premiados os três melhores trabalhos.

6. Disposições finais:
a) A organização reserva-se o direito de expor, publicar ou reproduzir quaisquer dos trabalhos premiados, salvaguardando sempre a indicação do autor.
b) Os dados pessoais facultados serão utilizados exclusivamente pelo CLP/C para os fins do concurso, entrega de prémios e divulgação de informações relativas a eventos futuros semelhantes.

c) A apresentação dos trabalhos pressupõe a plena aceitação do presente regulamento.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Colheita de 2014

Está a terminar mais um ano lectivo e a colheita de 2014 é a prova de que foi um bom ano.  E com uma variedade de castas única. Como de costume temos os vinhos ibéricos, onde se cruzam castas portuguesas e espanholas. Destacamos também os vinhos românicos, que não são mais do que vinhos franceses com um aroma lusitano que  lhes confere mais qualidade. E finalmente os vinhos portugueses, fruto de uma criteriosa selecção das melhores castas nacionais que merecem destaque por serem os primeiros a sair da nossa adega. Alguns destes vinhos serão já colocados no mercado, enquanto que outros ainda irão envelhecer mais dois anos nas nossas caves.

Em cima da esquerda para a direita:
Żaneta Lipińska, Kinga Ostrowska, Urszula Półkosznik, Natalia Sławińska, Olga Bobkowska, Joanna Sędzimir–Dobrowolska, Katarzyna Matraszek, Kamila Wiśniewska, Katarzyna Walczak, Paulina Kuziorowicz, Joanna Kwiatkowska e Ada Dąbek.
Em baixo da esquerda para a direita:
Joanna Dudek, Sylwia Jablońska, Małgorzata Grzesiowska, Martyna Danilewicz e Ewa Gad.

Da esquerda para a direita:
Paulina Mazur, Agata Serwin, Klaudia Rachoń, Magda Pacuk e Kamila Stelmarczyk
Em cima da esquerda para a direita:
Katarzyna Janowska, Katarzyna Frąszczak, Ewa Szafrańska, Ewa Tomaszewska, Katarzyna Rejter e Zuzanna Michalska
Em baixo da esquerda para a direita:
Łukasz Gomoła, Anna Tylec, Olena Boczkowska, Ewa Kobyłka e Bartosz Suchecki 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Campeonato do mundo de futebol Brasil 2014


Já começou o Campeonato do mundo de futebol 2014, um grande acontecimento para muitos brasileiros e todo o mundo, . Todos esperaram em suspense, não só por causa de futebol, mas também  por várias razões, tais como o desenvolvimento do turismo ou do mercado.  É óbvio que o futebol é muito importante para os brasileiros, então queria saber as impressões dos meus amigos brasileiros.  Há algum motivo para estar feliz ou triste? Deixem-me apresentar as opiniões do Jefferson Quesado (Fortaleza) e Fábio Sobral (Rio de Janeiro).

Quando a FIFA tomou a decisão de organizar a Copa no Brasil, as pessoas saíram para a rua e protestaram.  Lembre-nos por favor, porque foi assim e o que mudou até agora?
Jefferson Quesado: Quando a FIFA resolveu fazer a copa aqui, houve muita discussão. Então o governo (na época o presidente era o Lula) prometeu muitas coisas, muitas melhorias... Só que muitas não foram feitas, e as que foram feitas foram superfaturadas, atrasadas e de qualidade ruim.
Fábio Sobral: Não houve protestos na época, acho que ninguém se importou muito. Coletivamente nós somos meio alienados e despreocupados.  Não nos preocupamos realmente com nada até aos minutos finais, sempre esperando pelo melhor.  Além disso o cenário político mudou, as pessoas começam  a  preocupar-se  mais com qualidade de vida, do jeito que falam parece que de um dia para o outro surgiu corrupção, caos nas instituições públicas de saúde, educação e segurança, mas nada mudou.  Muitos acham que é descontentamento, que estamos de saco cheio, mas acho que somos passivos demais para estar apenas de saco cheio, acho que finalmente queremos mais e isso exige agir de alguma forma.

O que é que o governo fez para preparar a Copa? Os estádios estão prontos para receber todas as estrelas do mundo do futebol?
J. Q.: A parte dos estádios foi muito controversa, mas mais controversa ainda foram outras reformas e atitudes. O estádio Castelão, no Ceará (cidade de Fortaleza), foi um dos poucos a ficarem prontos na época e usando os recursos prometidos, a maioria dos outros estádios foram superfaturados demais, demoraram muito... Já vou dar os outros exemplos. No Maracanã, no Rio de Janeiro, foi algo à parte, mesmo custando mais do que o dobro do que o esperado! Mas houve um conjunto de fatores para Isso: Primeiro, era mais barato derrubar e fazer de novo, mas como era patrimônio histórico do Brasil, não se podia fazer isso, então eles tiveram de reformar tudo, mantendo apenas a base da construção. Alem disso eles privatizaram o estádio, que até hoje era patrimônio de uso exclusivo do governo. Em Brasília, no Distrito Federal, lugar onde não há tradição de futebol nem equipas o suficiente, foi feito um dos estádios mais caros de todos, custou um absurdo de caro. Além disso, o nome que gostariam de por no estádio era Mané Garrincha (foi um dos grandes jogadores de futebol do Brasil), porém a FIFA foi contra esse nome porque disse que os estrangeiros não iriam entender o nome do estádio.

Quais são as soluções nas questões da segurança e do mercado? Os brasileiros sentem alguma diferença entre os preços dos produtos e serviços, ou eles sobem apenas para os estrangeiros?
J.Q.: Na parte da mobilidade urbana, fizeram algumas obras em Fortaleza, melhoraria bastante, mas  de todas as obras, quase nenhuma foi concluída a tempo, sendo apenas a do entorno do estádio prometida de ser entregue até à copa (ainda não está pronta hoje).  Em segurança, foi feito muito investimento no sudeste, eles desmontaram diversos grupos de tráfico de drogas que eram donos do morro. Depois de desarticular esses grupos, nunca mais foram vistos bandidos com metralhadoras, lança mísseis, e rifles andando nas ruas das favelas. Porém surgiram grupos menores, menos numerosos e mais espalhados do que os anteriores. Eles são ainda mais violentos do que os anteriores, porém não possuem o mesmo armamento. O governo não está tomando atitude em relação a esses grupos, Também fizeram desapropriação violenta de casas de pessoas com poucas condições financeiras, sendo muitas expulsas de casa debaixo de tiro de borracha e bombas de gás, outras saíram das casas quando o trator já estava dentro da casa, derrubando tudo. Muitos policias e até forças de guerra (como o exército) estão de prontidão, inclusive há a promessa de eles ficarem nas cidades com os tanques de guerra para garantir segurança.  Os preços aumentam muito durante o mês de julho, mas aumentaram ainda mais com a promessa de vinda de estrangeiros, porém como os hotéis não lotaram, o preço não aumentou tanto quanto nos esperávamos.

Como acha, a Copa no Brasil é boa ocasião para promover o seu país? Por quê?
 J.Q. : A copa seria ótima para melhorar a imagem do Brasil, porém do jeito que foi feito tem muita propaganda para pouca realidade.
F. S.: Sim, acho importante porque ainda somos muito pouco conhecidos, dentro e fora do país. Os estrangeiros conhecem pouco além do eixo Rio-São Paulo, e os brasileiros conhecem pouco fora das suas cidades e estados. Sabe como brasileiro se irrita quando um estrangeiro acha que nós vivemos no meio da floresta? Aqui dentro, nós pensamos isso de nós mesmos em relação a outros lugares. Só ver na tv não serve de muita coisa, e para um país que se diz apaixonado por futebol talvez seja uma oportunidade de nós mesmos conhecermos mais o país. Por isso apesar de todos os problemas, acho importante um estádio no Amazonas por exemplo.  Sei que a Copa não é conhecida por deixar um legado invejável, mas acho que pode ser uma boa desculpa para olharmos melhor para o país como um todo e apresentar todo esse país pra fora, não apenas o sul-maravilha. Reconhecer mais do que temos por aqui pode ser bom para sabermos o que promover, não é? Afinal nem todo mundo se interessa apenas por praia, samba e futebol, e o país tem muito mais que isso.

Ouvi dizer que durante os acontecimentos tão grandes como este, criam as condições ótimas para desenvolver o turismo sexual e para aumentar o tráfico de droga. Qual é a sua opinião?
J.Q. : Fortaleza é um dos maiores pontos de turismo sexual, sempre aumenta durante esses eventos. Isso é uma questão de oferta e procura, há muita oferta aqui e muito turista vem cá com o propósito de se aproveitar disso. A ocasião faz o ladrão!
F.S.: Sem dúvida, já encontraram até droga embalada para a Copa com logo do evento e tudo! Isso não me deixa particularmente envergonhado do país ou coisa parecida, é o tipo de mercado em que eu francamente culpo mais o comprador do que o vendedor. Pessoas esfaqueadas por brigas banais, assaltantes porque não sabem viver de outra forma ou porque só sabem ser cruéis por terem crescido em ambiente assim, isso sim me envergonha. Mas sinceramente, nossas instituições públicas me envergonham mais do que tudo.

Mais uma perguntinha: Tem bilhete para um jogo ou vai assistir na televisão? Que jogos queria ver?
J.Q. : Assim, ainda tenho preferência pelo Brasil, mas Holanda e Espanha são ótimas equipas. Eu, pessoalmente não tenho dinheiro pra comprar os bilhetes, e também a burocracia para conseguir era grande. Talvez não acompanhe os jogos, estou de mal com o governo e sua violência contra os manifestantes.
F.S.: Não tenho preferência nenhuma.  Em geral, o torcedor de esporte costuma ser fanático, mas eu sou do tipo que gosta de um jogo bonito, seja lá quem estiver jogando. De qualquer forma futebol está longe de ser meu esporte preferido, mas uma partida bonita é sempre boa de assistir. Também não quero ir a um estádio, já fui mas sou do tipo que prefere uma tv com câmeras e detalhes.  Se eu tivesse de escolher entre alguns eventos ao vivo, preferia um concerto.


Agata Kowalczyk
2º ano de Estudos Portugueses

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A biografia de Tempo Livre


Tempo Livre nasceu em Lublin, no dia 28 de abril de 1990. Foi desportista e músico amador, leitor de livros. O seu misterioso desaparecimento em 2009 é uma das maiores tragédias do século XXI.
INFÂNCIA
Tempo Livre nasceu em Lublin, onde passou toda a sua curta vida. Quando era criança, gostava de passar os dias e as noites ao ar livre brincando com os amigos. Aos quatro anos aprendeu a ler e a escrever, nesta época começou também a sua grande aventura com a literatura.  O ano 1996 foi um dos mais importantes na sua vida, foi quando entrou na escola primária. Adorava estudar e aprender as coisas novas. Segundo os seus colegas da turma: Tempo Livre conseguia sempre encontrar tempo para fazer alguma coisa interessante e incentivar os outros fazê-lo também.
Quando em 1998 recebeu uma bicicleta na sua Primeira Comunhão foi óbvio que ia levar uma vida ainda mais ativa. A partir deste momento começou a passar cada vez mais tempo viajando com os amigos pelos arredores da sua cidade. Dois anos mais tarde participou numa corrida de bicicletas para crianças e ganhou a competição.
Terminou a escola primária gozando de popularidade. Todos queriam ser amigos dele e apreciavam a sua fantástica habilidade de juntá-lo às obrigações. Cantava num coro, tocava guitarra, jogava ao ar livre com os colegas, lia livros, aprendia a cozinhar pratos facílimos com a sua mãe e praticava vários desportos. Além disso, colecionava moedas, selos postais e fazia construções de LEGO.
ADOLESCÊNCIA
Em 2003 a sua posição social começou a mudar. Nesta altura ainda conseguia sair com amigos, jogar ténis ou voltar a passar tempo sem pensar nas obrigações do dia seguinte. No entanto, os pais consideravam-no o amigo inapropriado para os seus filhos e tentavam subsisti-lo pelos outros amigos que se chamavam Obrigação, Ambição, Aprendizagem, Línguas Estrangeiras e Trabalho de Casa.
A sua situação piorou na escola secundária em 2006. Começou a cair no esquecimento, às vezes tornava-se inatingível. Já não era amigo de todos, dizia-se que os companheiros que lhe restavam não iam conseguir nada na sua vida, que deveriam trocá-lo pelo exigente e severo amigo Exame. Tentava assumir formas variadas desde simples música até aos desportos de risco, queria fazer amigos, a todo custo.
Em 2009, já não tinha amigos, mas todos tinham saudades dele, apreciaram-no e esperavam que algum dia voltasse. Não o estimavam quando estava com eles, porém sentiam uma falta depois do seu desaparecimento. Foi substituído pela Gramática, Cultura e Literatura Portuguesa e Espanhola, pelas maiores inimigas dele.
Nem atingiu a maturidade, a sua vida foi curta, mas há uns que dizem que voltará quando os tempos e o estilo da vida mudarem. Hoje em dia, alguns acham que o viram, especialmente na altura das férias, mas um pouco depois não se lembram como era. É geralmente considerado como Elvis Presley, que supostamente nunca morreu. Todos, tal como os portugueses esperam pelo D. Sebastião, acham que o Tempo Livre também voltará algum dia para salvar o povo.

Katarzyna Kuczyńska e Natalia Trzebuniak
1º ano de Mestrado em Português

terça-feira, 10 de junho de 2014

Os Lusíadas...alegoria da vida



Para dizer a verdade, ultimamente eu não tenho lido muito. Tenho saudades dos tempos quando eu tinha muito tempo livre e até podia escolher o que ia ler ou ver. No entanto os tempos agora são distintos: eu não tenho o acesso à internet, mas o obstáculo mais grave é que eu tenho medo de perder tempo para ler em polaco, para não esquecer as línguas que estudo diariamente.
Felizmente que para eu não perder o contacto com a cultura temos as aulas de literatura que oferecem uma diversidade de livros, de autores, de histórias que temos de conhecer, mas também com as quais podemos simpatizar. Então, ultimamente eu descobri o Camões e os Lusíadas que acho que é uma obra muito mais interessante do que os estudantes podem pensar no início.
Eu acho que esta saga expressa os valores universais, porque fala dos sonhos e da firme vontade de vencer. É a história da gente que quis obter o que era inatingível e não hesitava em correr o risco. Parece-me que cada um tem o seu Cabo Bojador que lhe custa muito ultrapassar. Ou sente-se como se navegasse no mar tempestuoso. Também é possível encontrarmos na nossa vida o Gigante Adamastor que quer impedir que continuemos navegando. Ou o Velho do Restelo que tenta parar a nossa aventura já no ponto de partida.
Nesta obra eu encontrei a alegoria da vida que pode ser às vezes uma temerária empreitada. O mar de dificuldades e a instabilidade do destino parecem-me os temas bastante reais. Para mim, ler esta obra foi como redescobrir os ideais da luta, apanhar os sonhos dispersos no mar intranquilo. Foi mesmo uma aventura, não só um livro que foge da memória depois da aula.

Kamila Wiśniewska
3º ano de Filologia Ibérica.

domingo, 8 de junho de 2014

Bento Sitoe no CLP/Camões

Desta vez o nosso mais recente convidado chegou de Moçambique. No passado dia 30 de maio o Professor Doutor Bento Sitoe da Universidade Eduardo Mondlane de Maputo, proferiu uma palestra intitulada: Literatura em línguas africanas: (n)um caldeirão cultural.  De uma forma descontraída mas sem deixar de ser profissional, os presentes ficaram a conhecer melhor não só a vida e a obra de Bento Sitoe mas a realidade moçambicana.  Moçambique é um imenso caldeirão cultural, onde se misturam várias línguas, hábitos, modos de vida, realidades, religiões e maneiras de ver o mundo.  O próprio Bento Sitoe é uma figura multifacetada pois conjuga a docência universitária e a investigação, com a vida eclesiástica como Pastor Evangélico e a escrita. Natural de Maputo terminou o Curso de Teologia pela Igreja Presbiteriana de Moçambique em 1986 e foi consagrado Pastor Evangélico em dez anos mais tarde. Em 1991 obteve o Mestrado em Linguística Africana pela Universidade de Varsóvia e em 2001 o Doutoramento em Linguística Africana pela Universidade de Leiden, na Holanda.  É docente e investigador na Universidade Eduardo Mondlane, no Departamento de Linguística e Literatura. Tem as seguintes áreas de interesse: Linguística Comparativa; Linguística Descritiva das Línguas Bantu; Lexicografia; Tradução e Literatura em línguas africanas. Sendo falante nativo de changane optou por escrever ficção neste idioma e publicou em 1983 a novela Zabela, posteriormente editada em versão bilíngue, changane-português e mais tarde também traduzida para inglês. Esta obra pioneira é a prova de que a literatura em línguas africanas tem público e tem futuro.