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Canções contadas: "Anda comigo ver os aviões"

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Outono. Espero que chegue o autocarro que nos levará de um terminal para outro. Ouço a canção dos Azeitonas “Anda Comigo Ver Os Aviões”. Chove, estão cerca de 5 graus, todos que estão na paragem estão enfastiados, com frio e cansados de esperar. Exceto uma pessoa. Uma mulher, quarentona, magra, com penteado desgrenhado e o telefone junto ao ouvido. Na sua atitude há algo artisticamente louco. Fala bastante alto com alguém em espanhol, mas ainda que falasse em voz baixa, todos poderíamos ouvir a conversa, porque simplesmente ninguém conversa. Fala espontaneamente, de forma rápida, mas claramente e acentuando cada frase. Fala sobre a viagem de trabalho, sobre o seu namorado, que continuamente lhe manda mensagens de texto e que tem muitas saudades dela, que estão muito bem, que em breve se vão ver, que estas viagens de trabalho são sempre cansativas, mas inevitáveis, e que desta vez também conseguiu fazer uma barganha, mas agora não pode mais, simplesmente está ansiosa para vê-lo, bei...

O conto da Mosca Muda sobre o Mordedor

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- A Mosca Muda vai contar a sua história – decidiu a Aranha de Duas Cabeças e o resto dos bichos assentiram cheios de alegria. Poder sentir as feromonas da Mosca Muda, que, desde que entrou no grupo com a sua companheira Aranha, não disse nenhuma palavra, era uma tentação muito grande. O inseto moveu o seu probóscide num gesto de consentimento e soltou as primeiras palavras. Era uma história dos tempos passados, quando ainda os monstros caminhavam pela terra e não havia Grandes Ninhos. Entre os seres racionais reinava a lei mais antiga de todas as leis antigas, presente ainda antes da velha Lei do Poder. A esquecida Lei da Morte. - Uma família da minha espécie, eu não provenho dela, mas conheço outras moscas que sim, viajava pelo céu, como nós temos a costume e não seria nada de especial se não chegasse, seguramente por casualidade, até o fim do mundo. Não era o fim do mundo verdadeiro, afastado, vazio e sem nenhuma coisa para comer. Era um extremo mais próximo. Não tinha areia...

Fernando Pessoa e Lisboa

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A primavera de 1905 chegou a Lisboa com antecedência. Os raios de sol acariciavam as caras dos transeuntes, o ar fresco dava voltas por toda a cidade começando por Alfama e chegando até os arredores, e logo pelo resto de Portugal. Este ar da primavera refrescante trazia consigo o triste sentimento de saudade que só aumentava a beleza desta cidade. Ah, este cidade é cheia de encanto, uma princesa real. Uma princesa, mais também uma lutadora. Não é fácil levantar-se depois de um terramoto, pensou o rapaz de 17 anos passeando pelas ruas. No seu coração também sentia uma espécie de terramoto. Mas não havia nenhum marquês de Pombal que o ajudasse a levantar-se. De manhã chegou ao porto e desde então estava visitando a cidade que não via há muito tempo. Depois de terminar os seus estudos na África do Sul decidiu mudar-se definitivamente para Lisboa. Aqui quase cada rua o inspirava, cada sopro de vento. Aqui podia escrever. Com somente sete anos, graças ao seu padrasto, teve que deixar...

Não me toca

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"Já estou há três dias neste quarto escuro, rodeado por garrafas vazias, em silêncio total mas com os gritos na minha cabeça. Fumei dezenas de cigarros, comi pouco. O álcool já não me dá alívio nem vai resolver os meus problemas mas ainda bebo a última cerveja que tenho. O meu telemóvel está desligado, não abro a porta - quero estar sozinho. Dói-me a cabeça e todo o meu corpo. Ultimamente não tenho dormido bem. Acabei de fazer as malas e estou pronto para sair e nunca mais voltar a este apartamento de que tenho tantas memórias. Já tomei uma decisão e sei perfeitamente o que quero. Dei-me conta de que não era um homem feliz e por isso vou dar o primeiro passo para a felicidade. A minha felicidade. Hoje ela volta da casa dos seus pais. Finalmente vou dizer-lhe tudo o que agora sinto. Depois da última briga pensei muito sobre a nossa relação. Relação... não sei se posso chamar assim isto que agora há entre nós. Há quatro anos que estamos juntos e com o decorrer do tempo c...