quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

“Se Deus quiser...” - sobre as superstições dos portugueses.


Há superstições em todo o mundo. Cada país tem as suas tradições e crenças que muitas vezes são consideradas uma parte do património cultural. Por exemplo, na Polónia agarram um botão quando veem um limpas-chaminés porque acham que isto dá sorte. Os italianos acreditam que o espirro do gato traz felicidade. Para os gregos, terça-feira é o dia de má sorte. Os japoneses pensam que matar uma aranha pela manhã é destruir uma alma humana. E os portugueses? Os portugueses também são supersticiosos.
Fique sabendo que as superstições ajudam a explicar muitos fenómenos. Compreender os medos, mitos, tabus, provérbios, lendas e folclore pode ajudar a obter um alguma informação sobre todos os tipos de raridades culturais. As superstições têm o potencial de afetar tudo. Nem todos confessam que acreditam, mas passadas de geração em geração, as superstições populares ganham terreno, espalham-se e resistem ao tempo e ao avanço da tecnologia. Quem é que ousa passar por baixo de uma escada? Quem é que gostaria de ver um gato preto atravessar-se à sua frente? E que o noivo não deve ver a sua amada vestida de noiva antes da cerimónia, também toda a gente sabe.
As superstições não têm qualquer razão científica mas há gestos que evitamos no nosso dia a dia. Não se sabe ao certo a origem exata de como a superstição começou influenciar a vida do homem. Mas com certeza essas práticas que existem hoje têm a sua origem em tempos antiquíssimos. Antes, os povos não tinham conhecimento suficiente para dar respostas às coisas que aconteciam nas suas vidas, e como consequência disso, começaram a criar superstições e crendices. Logo, o caminho da superstição abriu portas para ao mundo da magia, feitiçaria e bruxaria. Pouca gente sabe que a bruxaria foi muito popular em Portugal. Especialmente nas aldeias no norte de Portugal a crença em bruxas era comum. Quase todas as aldeias tinham os seus praticantes de magia que protegiam os habitantes dos espíritos maus. Mais tarde, as gentes perderam essas crenças populares e desistiram de práticas mágicas, mas uma forte corrente de superstição ainda permaneceu em Portugal.
Apesar da prática mágica realizada há séculos, os portugueses são profundamente religiosos e supersticiosos. O seu catolicismo formal é misturado com práticas e crenças pré-cristãs. Eles, especialmente os habitantes das áreas rurais, dão muita ênfase à adoração dos santos, porque acreditam que isto curará todas as doenças. A famosa frase: "Se Deus quiser" é a resposta automática de muitas mulheres idosas a alguma notícia sobre o futuro como para lembrar que se pode morrer antes de amanhã.
 Existem também as superstições não relacionadas com a vida cristã ou com as crenças antigas, estas consideradas uma curiosidade trivial, que dão sabor à vida. Umas mais ridículas, outras mais verossímeis, mas a maioria respeita-as. E enquanto alguns podem rir, muitas pessoas não querem abusar da sorte.
Por que é que as carteiras ou malas de mão não devem ser deixadas no chão? Não é porque é mais fácil roubá-los - na verdade, é mais fácil roubar uma bolsa pendurada no encosto de uma cadeira de que uma escondida entre os pés debaixo da mesa - é porque mantém o dinheiro fora. Isto é uma das superstições portuguesas mais interessantes. Além disso, os portugueses têm muitas superstições concernentes aos alimentos. Por exemplo, acreditam que deixar um copo de vidro cheio de sal grosso no canto da sala, traz sorte.  Do outro lado, o pão não deve ser colocado na mesa virado para baixo, porque isto dá azar. Também, não se deve beber água de noite, porque ela está a dormir. Quando alguém tem sede de noite e quer bebê-la, é necessário acordá-la batendo. O que é interessante é que os portugueses prestam muita atenção ao lado esquerdo. A esquerda representa o lado positivo, o lado do coração, por isso todas as superstições relacionadas com ele trazem uma boa notícia. Tem um zumbido no ouvido esquerdo? Alguém está a falar bem de nós. Treme o olho esquerdo? Boas notícias. E há muito mais. Por outro lado, o pé esquerdo não traz sorte. Os portugueses dizem que se deve sair de casa e entrar em qualquer lugar, sempre com o pé direito, para evitar o azar. Também, tropeçar com o pé direito é sinal de alegria que está para vir. Além disso, em Portugal deve-se lembrar de não abrir um guarda-chuva dentro de casa. Isto traz desgraça e má sorte à família. Durante a preparação da cerimónia do casamento também se devem lembrar várias crenças. Disso pode depender toda a vida futura dos cônjuges. Se chover no dia do casamento, diz- se: “casamento molhado, casamento abençoado” Isso é sinal de felicidade. Mas, se no casamento qualquer dos nubentes ao colocar a aliança no dedo do outro a deixar cair, isso é sinal de infelicidade. Então, tenha cuidado para não cometer algum erro e não atrair a desgraça sobre si.
Portugal, como qualquer outro pais, é supersticioso em maior ou menor grau. Isto faz parte da cultura e da identidade portuguesa. O conhecimento de algumas das superstições portuguesas é essencial para compreender os costumes e a tradição deste pais. Algumas são mais estranhas e ridículas, outras bem conhecidas das outras nacionalidades – todas existem. E as pessoas , mesmo as que se riem ainda acreditam nelas e seguem-nas.

Ewelina Sysiak

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Os filmes, sem dúvida, mudam a nossa vida!


Quando era pequena, gostava do cheiro do cinema. Sim, simplesmente o cheiro. O filme não era tão importante. Só o cheiro das pipocas e a esperança fútil de que vou beber uma coca-cola grande. Com este ‘aparelhamento’ tão gorduroso e cheiroso, gostava de me esconder debaixo dos assentos e apenas de imaginar, quais são os personagens que aparecem no filme. Agora faço o mesmo. Vou ao cinema, sozinha. Não compro o bilhete nem as pipocas, nem a coca-cola. Não digo nada a ninguém. Entro na sala em silêncio e sente-me na fila da frente. Tiro o meu casaco, desligo o telemóvel. Por um momento, olho, de soslaio, para a tela em branco e ouço o silêncio... Instintivamente fecho os olhos, involuntariamente abro a boca, respiro... e começo a minha viagem  pelo mundo cheio das imagens, sons e diálogos que vivem na minha memória.

A estação número I
A Joanna, chamada carinhosamente de Joaninha, 3 anos

Uma menina pequena, com o cabelo de cor não identificada, que já é muito comprido, caminha orgulhosamente ao lado do seu pai e do seu tio. Ela vai ao cinema pela primeira vez! Não sabe nada sobre a vida, nem sobre filmes, mas quer ver um leão que alegremente dança e canta. Ela está muito animada, mas o desejo de ver "O Rei Leão" é mais forte do que a vontade de fazer xixi, portanto bravamente aperta a bexiga e sem fôlego, entra no mundo dos animais animados. Depois das duas horas da sessão, não se lembra de muito, mas a cada manhã tenta rugir como o Simba.

A estação número II
A Joanna tímida como uma borboleta, 6 anos

A menina já não ruge como um leão, mas lê fluentemente os livros sobre o Castelo Real Wawel em Cracóvia. Não gosta de falar muito, portanto foge para o mundo das letras e imagens. Todos os dias antes de ir dormir liga a televisão e conversa com uma menina orfã que se chama Madeline. "As novas aventuras de Madeline" é para Joana como o encontro com a melhor amiga que vive grandes aventuras em cada episódio desta série. A Madeline mora no Orfanato de Lorde Croissant onde é guardada pela sua tutora, a Senhora Clavel, que é uma freira. É possível que por isso, sete anos depois, a Joanna, não totalmente madura, escolha uma escola católica onde as freiras lhe ensinam... Que trauma tão grande!

A estação número III
A Joanna que já sabe o que é amor verdadeiro, 10 anos

Senhorita Joanna descobre em casa uma colecção dos livros "Harlequin". Secretamente assiste aos filmes para adultos. Enquanto isso conquista novos corações. O tempo ideal para conhecer a história do "Titanic". O filme tão dramático e emocionante! A Joanna não entende por que o DiCaprio abraça a sua amada no carro, com tanta força, mas junto com sua mãe, chora amargamente durante todo o filme. Primeira vez, mas não última vez... Pobre Jack!  ...Jaaaack?! Jack! Jack!!! Come back!


A estação número IV
A Joanna que está á procura de novas inspirações, 12 anos

A senhorita com a experiência de vida grandíssima, já está farta do amor. Por isso, decide desistir de todos os seus amores "eternos" e começa a dedicar-se à paixão. Pelo menos uma vez por mês, vê ao filme "Dirty Dancing" e dança apaixonadamente com os atores na cena final. Ela sabe perfeitamente que um dia, vai dançar tão bem como eles!

A estação número 666.
Trevas, mal e vampiros, isto é a Joanna Dark, a versão gótica, 16 anos

A vida tenebrosa da Joanna está cheia da poesia de Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Tadeusz Miciński. Por isso o filme "Eclipse Total" é tão importante para ela. Não só inspira, mas também mostra que o DiCaprio porém é o ator excelente. A menina que chamam de bruxa, tenta assistir aos filmes de terror. Brevemente range os dentes e liga "13 Fantasmas". É uma obra totalmente sem valor artístico. Não é terrível, mas ela está com muito medo. Depois desta sessão de cinema, a Joanna tem certeza que não pode assistir aos filmes de terror. Mesmo sem som...

A estação número VII
 A Joanna, uma estudante muito aplicada, 18 anos

A Joanna, já adulta, está a preparar-se para os exames finais da escola secundária. Portanto, vê muitos filmes biográficos, em particular sobre os pintores famosos. " Rapariga com Brinco de Pérola", "Os Fantasmas de Goya" ou "Frida" são os filmes que ainda estão na sua memória...

A estação número VIII
A Joanna que fica no cinema e pensa que está sozinha, 20 anos

É muito tarde. Depois de uma longa viagem através da sua memória, a Joanna abre os olhos. A menina não está ciente de quantas mentes estrangeiras há em torno dela. Não importa. Não importa, porque na grande tela começam a projetar o filme "Pina". Um documentário alemão em 3D. As pessoas no cinema emudecem, apagam as luzes. Alguns segundos de silêncio e começa uma nova jornada. Desta vez, uma jornada através de movimentos, sons e gestos. A verdadeira adoração do corpo humano. Arte, precisão, perfeição. Sem palavras e sem fôlego, como a pequena Joaninha de três anos, Joanna afoga-se na dança. Está feliz. Está muito feliz. E... queria que esse momento durasse para sempre.

Joanna Dudek

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Timor-Leste nos olhos de Luís Cardoso


Em maio de 2012, para celebrar o décimo aniversário da reconquista da independência de Timor-Leste, o mais importante escritor timorense, Luís Cardoso, foi convidado para visitar Cracóvia. Esta iniciativa fez parte de um projeto maior* que envolve a popularização da língua e da cultura dos países lusófonos. O encontro acompanhou a estreia dos fragmentos dos seus romances em polaco, Crónica de uma travessia, Olhos de coruja olhos de gato bravo e Requiem para o navegador solitário, publicados no “Roman” - jornal dos estudantes do Instituto de Filologia Românica da Universidade Jaguelónica.
Luís Cardoso nasceu em 1958 na ilha de Timor e recebeu a sua primeira formação no colégio missionário, uns anos depois terminou os estudos universitários em Portugal e lá ficou. Não podia regressar à sua pátria por razões políticas- naquela altura Timor estava ocupado pela Indonésia. Apesar disso, sempre foi um representante e um defensor da questão timorense na arena internacional. O seu país é muito jovem, pode desfrutar-se da liberdade e da independência só há 10 anos. No entanto, ainda sofre das repercussões dos tempos da ocupação e da isolação.
Nos seus livros o autor aproxima o leitor da “terra onde nasce o sol”, como é chamado Timor. Apresenta a diversidade étnica do povo timorense, a sua história e a cultura que é profundamente arraigada na tradição impregnada pelos ritos e mitos. Ainda a mesma ilha tem a sua própria história no que se refere à sua origem. Acredita-se que foi criada do corpo do crocodilo que chegou ao fim do mundo com o primeiro habitante nas suas costas. As lendas deste tipo constituem uma parte intrínseca do universo timorense. Durante o encontro com Luís Cardoso tive uma oportunidade única de escutar contos da sua infância em Timor. Como ele é um contador maravilhoso podia com as suas histórias “transportar” a sua audiência para este sítio mágico onde se encontram o mundo terrestre com o espiritual e o sobrenatural.
É interessante como o povo tão afastado da nossa cultura europeia pode perceber o mundo. Na visão dos timorenses o mundo é capaz de virar-se do avesso só para desviar os intrusos. O truque chama-se rain-fila e se alguma pessoa se dá conta de que o truque foi feito, deve despir-se e pôr a roupa do avesso para encontrar o seu caminho correto. Em Crónica de uma travessia, uma personagem que está em Portugal faz este rito em frente de um grupo de pessoas. Eles ficam muito surpreendidos, mas também estão inconscientes totalmente do que acontece.
Uma das histórias contadas durante o encontro com Cardoso referia-se ao espírito da mulher grávida, uma pontiana, que assombra durante a noite e o encontro com ela pode provocar a insanidade. Além disso, diz-se que se à meia-noite os meninos dormem de boca para cima enquanto lá fora um pássaro canta, uma pontiana aparece e arranca os corações deles. Cardoso revelou que a mãe dele para proteger o seu filho adormecido virava-o sempre para que ele ficasse de costas para a janela. Também, o autor acrescentou que durante a sua infância queria sempre encontrar uma pontiana porque a lenda diz que ela é uma mulher muito bonita.
Quanto aos espíritos  deve-se mencionar os dos antepassados. Eles não se separam do seu povo, estão sempre presentes porque habitam os corpos de tubarões que vivem nas águas que rodeiam a ilha. Os timorenses respeitam muito os espíritos ancestrais. Se eles ficam ofendidos por algum motivo podem provocar uma tempestade. Também, como eles já viveram a vida têm uma sabedoria grande e podem ajudar a resolver os conflitos. Portanto, se dois homens não podiam chegar a acordo em alguma questão, o povo mandava-os ao mar, aos tubarões e quem regressava tinha razão.
Estes são alguns dos mitos ainda vivos nos lares timorenses. Contudo, não se deve esquecer do que a população timorense também é católica e trata a sua religião com uma devoção verdadeira. É admirável como estas duas esferas coexistem sem evocar os conflitos. A realidade timorense com o seu imaginário mágica não só surpreende, mas também fascina. Que pena que Timor-Leste fica tão longe da Polónia!

* o projeto realizado pela Fundação Lusorizonte, o Instituto da Filologia Portuguesa UJ, o Instituto de Camões em Cracóvia e o Círculo Académico da Língua Portuguesa UJ

Agnieszka Miciuła