terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Deixa ir...

Vivo com os meus avós desde que me lembro. Antes também com os meus pais, agora somente com eles. A casa é pequena. Dois quartos, casa de banho e cozinha. E o cão-gato, dono da casa toda.
A minha mãe fica sempre surpreendida que os meus avós me dão tanta liberdade. Volto para casa tarde, vou às festas com os meus amigos, vivo uma vida de universitária como o resto dos meus colegas que vivem sozinhos. Mas eu com um almoço quente e coada sempre feita. Uma vida de luxo, posso dizer.
Voltando à minha mãe, ela não teve uma vida tão fácil com eles. Voltava para casa às dez e nada podia mudar isto, só uma mudança, um salto para a vida adulta.
O que mudou? Amadureceram.
Antes viviam em tempos revoltos, quando era proibido ouvir a rádio. Enquanto a sua filha mais velha lutava por poder estudar direito na universidade e depois fazer os exames para procuradora, a mais nova (a minha mãe) fugiu do país para Espanha com o seu namorado, agora o meu pai. Podiam dizer qualquer coisa? Não detiveram a sua filha e depois durante mais de vinte anos viam como, com o seu marido, mudavam de países à procura de dinheiro e do bem-estar. De uma vida digna.
Durante estos anos aprenderam que se uma pessoa quer fazer alguma coisa, vai fazê-la apesar do que pensa a família. “Deixa ir”, diz a minha avó sempre que tenho algum problema com os meus amigos ou com o namorado. Os que te amam voltam sempre. Os que não... a perda não deve ser muito dolorosa.
Hoje olho para eles. O meu avô na mesa, a fazer palavras cruzadas, maldiz quando não se lembra de alguma resposta. A minha avó na cozinha a preparar o almoço. “A comida está quase pronta! Marian, toma os medicamentos.” E ele vai ao armário e tira uma caixa cheia de comprimidos. Também uma seringa com insulina. Ela sai da cozinha com um copo de água e faz a injeção. Há sempre um beijinho depois do tratamento.
Olho para eles e sei que dentro de um tempo terei de deixá-los ir. Terei de amadurecer como eles antes. Mas acho que ainda não estou pronta. Nunca vou estar. É a única exceção que confirma a regra. Eles não vão voltar, mas não porque não nos amam. Vão voltar para os seus pais que abandonaram há muito tempo. O mesmo vão fazer depois a minha mãe e o meu pai. E finalmente eu.
Natalia Sławińska
2º ano de mestrado em espanhol

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

António Variações faria hoje 70 anos

António Variações (3 de dezembro de 1944 - 13 de junho de 1984)

ENTRE NOVA IORQUE E A SÉ DE BRAGA


António Joaquim Rodrigues Ribeiro, filho de camponeses minhotos, desde muito cedo revelou propensão para a música. Nascido em 3 de Dezembro de 1944, abandonou a sua aldeia natal (Lugar do Pilar, freguesia de Fiscal) em 1957 e foi para Lisboa, onde se dedicou a várias actividades profissionais desde empregado de escritório até barbeiro.
Em 1975 viaja até Londres, onde fica durante um ano e parte, depois para Amsterdão onde aprende a profissão de cabeleireiro. Esta aprendizagem servir-lhe-á para se instalar, novamente, na capital portuguesa; onde se estabelece com o primeiro cabeleireiro unissexo de Portugal. Esta actividade não resulta muito bem e, para ganhar a vida, abre uma barbearia na Baixa lisboeta. Em 1978 grava uma maqueta com alguns temas, que apresenta à Valentim de Carvalho, com a qual assinará contrato.
Na sua própria descrição a música que produz situa-se entre Braga e Nova Iorque. É no programa "O Passeio dos Alegres" de Júlio Isidro que António se apresenta ao grande público (1). Os temas que cantou nessa emissão chamavam-se "Toma O Comprimido" e "Não Me Consumas" e ainda permanecem inéditos, uma vez que nunca foram registados em disco.
O primeiro trabalho que gravou foi o single "Povo Que Lavas No Rio", imortalizado por Amália Rodrigues (2).  Amália era, aliás, uma das suas referências, que teve direito a uma canção de Variações ("Voz Amália de Nós"). O seu primeiro longa duração "Anjo da Guarda" (3) é também dedicado à popular fadista. Neste disco participam Vítor Rua (com o pseudónimo Vick Vaporub) e Tóli César Machado, músicos dos GNR. Quem não recorda " É P'ra Amanhã" ou "O Corpo É Que Paga"? (4)
Durante o Verão de 1983 Variações é muito solicitado para espectáculos ao vivo, sobretudo em aldeias por este país fora. Em Fevereiro do ano seguinte, António Variações entra em estúdio com os músicos dos Heróis do Mar para gravar o seu segundo longa duração que se intitulará "Dar e Receber".(5) O tema mais conhecido deste disco é, sem sombra de dúvidas, "Canção De Engate" que, posteriormente, se tornará um imenso sucesso numa versão dos Delfins.
Em Maio desse mesmo ano dá entrada no Hospital e, no dia 13 de Junho de 1984, morre em consequência de uma broncopneumonia bilateral grave. Será sepultado, dois dias depois, no cemitério de Amares (Braga), perto da sua aldeia natal, com a presença de poucos músicos acompanhando o funeral. Com a sua morte desaparece um dos maiores renovadores da canção portuguesa das últimas décadas. No entanto o seu espólio musical foi sendo aberto e Lena d'Água edita, em 1989, o disco "Tu Aqui" que inclui cinco composições inéditas de António Variações. (6)
Em Janeiro de 1994 é editado um disco de homenagem a António Variações que reúne, em torno de versões do cantor, os nomes de Mão Morta, Três Tristes Tigres, Resistência, Sitiados, Madredeus, Sérgio Godinho, Santos e Pecadores, Delfins, Isabel Silvestre e Ritual Tejo.
Isabel Silvestre incluirá no seu disco de 1996 "A Portuguesa" o tema "Deolinda de Jesus" de Variações. Este tema, uma sentida homenagem de Variações à sua mãe (que se chama exactamente Deolinda de Jesus) é o contraponto de qualidade a todas as "Mães Queridas" e quejandos deste país.
Em 1997 é editado o CD "O Melhor de António Variações", o qual recupera material editado em todos os seus discos.
Em 2006 é editada a compilação "A História de António Variações - Entre Braga e Nova Iorque".
Se Variações não tivesse desaparecido tão precocemente, a música portuguesa seria diferente? Esta é a interrogação que se impõe, tendo em conta o que o cantor/autor fez, em tão pouco tempo, pela música portuguesa.

ARISTIDES DUARTE / NOVA GUARDA

(1) Em 1980 o programa "Meia de Rock" da Renascença grava a canção "Toma O Comprimido" em casa do cantor e toca-a na rádio. No ano seguinte, António & Variações (o nome da banda que o acompanhava), cantam a canção no programa "O Passeio dos Alegres" de Júlio Isidro (um dos clientes da barbearia). O cantor apresentou-se na TV vestido de aspirina e lançando "smarties" para o público e para as câmaras...

(2) O contrato com a Valentim de Carvalho datava de 1977. O irmão, o advogado Jaime Ribeiro, pressiona a editora que acaba por vergar e António Variações entra finalmente em estúdio para gravar o seu primeiro disco. O single (e Máxi) de estreia, lançado em Julho de 1982,  incluía uma versão do clássico "Povo que lavas No Rio" e o inédito "Estou Além".

(3) Em 1998 o disco foi reeditado, em versão remasterizada, com a inclusão de "Povo Que Lavas No Rio".

(4) Disco com arranjos e produção de Tóli César Machado e Vítor Rua substituído posteriormente por José Moz Carrapa. A mudança corresponde também à saída de Vitor Rua dos GNR após uma pausa nas gravações do disco.

(5) A edição em versão remasterizada de "Dar e Receber" inclui o inédito "Minha Cara Sem Fronteira" (gravado nas sessões de gravação do disco) e duas remisturas desse tema.

(6) A versão em CD do álbum "Tu Aqui" de Lena d'Água inclui cinco temas inéditos e recupera a versão  do tema "Estou Além" incluída no álbum "Aguaceiro".

DISCOGRAFIA

Anjo da Guarda (LP, EMI, 1983)
Dar e Receber (LP, EMI, 1984)
O Melhor de António Variações (Compilação, EMI, 1997)
A História de António Variações - Entre Braga e Nova Iorque (Compilação, EMI, 2006)

SINGLES

Povo Que Lavas no Rio / Estou Além  (Single, EMI, 1982) - duplo lado A
Povo Que Lavas no Rio / Estou Além  (Maxi, EMI, 1982)
É P'ra Amanhã (Maxi, EMI, 1983)
É P'ra Amanhã/Quando Fala Um Português (Single, EMI, 1983)OCEQP
O Corpo É Que Paga (Single, EMI, 1997) - É P'ra Amanhã (remistura de Nuno Miguel)

REFERÊNCIAS/HOMENAGENS

O álbum "Tu Aqui" de Lena d'Água, editado em 1989, incluía cinco temas inéditos.
Anamar -"António Variações"
Madredeus - "A Sombra"
"A Festa da Música de Variações" - Espectáculo de  Fernando Pereira
Versões (Delfins, Amarguinhas, Isabel Silvestre, M.D.A., etc...)
Disco de tributo
Documentário de Maria João Rocha
Concerto AVariações

COMENTÁRIOS

Gostava de dar e receber, o António. O António Joaquim Rodrigues Ribeiro, o que nasceu no Minho, em 1945. Mas também o António Variações, que subia a rua do Carmo na década de 80, em Lisboa, e fazia os transeuntes virar-se para trás por causa de uma imagem peculiar. Barbas longas e roupas extravagantes aos olhos da maioria. Mas o António não queria saber. Procurava a provocação como forma de afirmar a sua independência. A sua identidade. Mas isso era partir do pressuposto que era uma personagem, coisa que não é verdade. Era genuíno, o António. Era como era. Na música foi um dos melhores. Tinha uma voz peculiar, mas era mais do que isso. Era aquela forma de apelar à memória colectiva, a uma certa tradição da música portuguesa, e mesmo assim produzir uma sonoridade profundamente modernista. De tal forma que, depois daquela madrugada de 14 de Junho de 1984, a sua música continua a manter a mesma pertinência. O álbum "Dar e Receber" foi agora reeditado - contém um inédito e duas remisturas inúteis - e quem não acreditar, faça favor de o ouvir. (Vitor Belanciano/Público)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Atenção: Concurso literário com prazo alargado!

A data limite para a o envio de contos para concurso 2º Concurso Literário do CLP/Camões em Lublin : “Uma palavra, um conto” foi alterada para o dia 16 de dezembro de 2015. 

Estar fit está na moda


 As pessoas dividem-se em dois grupos: os que comem só ‘alface’ e não conseguem emagrecer e os, afortunados, que comem o que querem e nunca ficam gordos. Que injustiça! Com certeza, pertenço aos primeiros, menos felizes. Estou segura que todos já conhecem o termo fit. Na pior das hipóteses, pelo menos, ouviram algo sobre este fenómeno. Estar fit, sem dúvida, está na moda. Silhueta fit, casal fit, dieta fit, fit selfie (feitas sempre antes e depois do treino), amigos fit, até calças fit, tudo isto está à mão. Mas o que na verdade, hoje em dia, significa a vida sã e como nos tentam enganar?
 A própria filosofia da vida fit não é tão má. Há poucas pessoas que não tenham o passe para o ginásio, não façam nenhum exercício ou não treinem com as senhoras como Mel B, Chodakowska ou Lewandowska em frente do seu computador portátil. Exercício diário é imprescindível para estar em forma, mas quanto à dieta, aqui começam os problemas graves. Nas prateleiras só produtos fit: barras fit, caramelos fit, chocolate fit, batatas fritas fit, maionese fit, tudo cheio de açúcar, óleo de palma e soja. Outros produtos também surpreendem com o conteúdo. Atualmente, o próprio leite tem alguns complementos adicionais e o que parece ser natural, na verdade só está a fingir.
 Já passaram os tempos quando o leite vinha direitamente “da vaquinha”, os ovos da nossa vizinha e a carne da quinta que estava ao alcance da nossa vista. Naqueles tempos o açúcar era um luxo e a celulite só uma doença das pessoas obesas. Agora, até as crianças têm.
 Então, a moda, neste caso, tem alguns aspetos positivos porque tem como o seu objetivo a propagação dos bons hábitos alimentares. Além disso, algumas pessoas tentam enriquecer ao enganar os seguidores da moda cujo objetivo é, simplesmente, estar na moda. O mais importante é (não é nada novo) a combinação duma alimentação razoável com o exercício físico, e naturalmente, manter um bom senso. Por isso agora mesmo vou às aulas de zumba…

Emilia Wróbel
1º ano de mestrado em espanhol