terça-feira, 27 de maio de 2014

Boinas de mohair

“Boinas de mohair”. Conheces este termo? Se vives na Polónia com certeza que sim. Ilustra de forma estereotipada  a vida das pessoas idosas na Polónia. O passeio até à igreja é a única diversão das velhotas? Vou tentar convencer- te que não.
Em cada grupo etário podemos encontrar os que aproveitam a vida e os que só existem. Há uma grande parte dos estudantes para os quais a vida é sempre difícil, os professores são maliciosos, as aulas são demasiado cedo ou pelo contrário demasiado tarde, as raparigas mentem, os rapazes traem, não há dinheiro, não há trabalho, mas felizmente há álcool, então vamos beber. Porque não? Afinal não há trabalho e a noite é curta, a festa é só o que nos restou, no nosso país não há perspetivas nenhumas para nós, só esta festa...
 Conheces este modo de pensar? Encontramos a mesma situação entre as pessoas idosas. É verdade que não têm muito dinheiro, é verdade que os cuidados de saúde não são dos nossos sonhos, que na Alemanha vive-se melhor, que os reformados da Suíça viajam por todo o mundo. Mas a realidade aqui é diferente. E  há duas alternativas. Sentar-se num banco em frente à casa, queixar-se dos políticos, da pobreza, dos jovens, da vizinha do número cinco, da chuva ou do sol... ou perceber que a velhice não é o estado de morte lenta. É um período da nossa vida. O último, sim, mas é. É possível torná-lo interessante e cheio dos acontecimentos surpreendentes. Querer é poder.  Muitos já perceberam. Como passam os seus dias os reformados “mais agitados”? Há muitos exemplos!

No início, a educação. Existem  “universidades da terceira idade” que é uma ideia excelente para se desenvolver e expandir os horizontes. O que é mais interessante, é que a partir de 2015 os estudantes destas universidades vão ter a possibilidade de fazer Erasmus! E quem disse que na reforma não é possível desfrutar a vida? Há também muitos cursos p.ex. de competências informáticas, de artesanato, das línguas, da dança. Muitas são gratuitas. Só é preciso procurar.
Em segundo lugar, uma coisa que nos deixa sentir jovens independentemente da idade é a paixão. Não é importante se alguém joga xadrez ou se mergulha. É preciso fazê-lo com dedicação e alegria. Também praticar desporto é cada vez mais popular. Já ninguém se surpreende quando as mulheres de 60 anos andam com bastões de nordic walking ou fazem aqua-aerobic.
Então não é verdade que as pessoas idosas na Polónia estão condenadas à vida triste e chata. Mas há muitos que ainda não o sabem.
Caros idosos! Acabam com os lamentos, desliguem os televisores, saiam para a rua, encontrem-se com os amigos, reparem quantas coisas há ainda para ver, fazer e experimentar!

Monika Świderska
2º ano de estudos portugueses

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O Silêncio (II)

Foi pedido aos estudantes do 2º ano de Filologia Ibérica que, depois de lerem o conto "O Silêncio", escrevessem a continuação da história, um novo final. O texto integral do conto de Sophia de Mello Breyner Andresen pode ser lido aqui: "O Silêncio"
Dentre os trabalhos do alunos foram escolhidos os melhores e hoje é publicado o segundo:

Pela primeira vez a Joana sentiu-se assim. Entrou na cozinha, pôs a água na chaleira e colocou-a sobre o fogão como se quisesse turvar o silêncio que a rodeava. Pela janela aberta observou o céu constelado, que agora lhe parecia sinistro e tenebroso. O grito desta mulher tocou-lhe muito profundamente. Não sabia exatamente o que se passou no seu interior, mas tudo assumiu alguma outra perspetiva. Isto, o que até hoje lhe parecia a tranquilidade e o alívio, agora era para ela uma estabilização fingida e rotineira, a qual há muitos anos conseguiu atingir. O som do apito da chaleira despertou-a da reflexão. Era já tarde e ela costumava dormir a esta hora, mas desta vez a sensação da revolta e oposição não a deixava silenciar-se nem acalmar-se. As memórias regressaram. A Joana agarrou o copo com as mãos, aproximou-o de si mesma como se fosse o único companheiro, o único calor que podia experimentar. Acostumou-se à solidão, mas agora, queria muito que alguém se sentasse em frente dela à mesa da cozinha. Deu-se conta de que aquele grito despertou a sua personagem antiga, que teve de enterrar para organizar a sua vida de novo e para dar a sensação de segurança às crianças. A consciência da presença deles na sua vida aumentou ainda mais a sua fraqueza e a sua pena. Amava muito os seus filhos e ao mesmo tempo queria voltar aos anos da sua juventude e imprudência. Cada vez que tomava um trago do chá quente, mais se aprofundava nas escuridão da sua alma, como se derretesse os gelos, que a separavam dela mesma. Fechou os olhos e na imaginação viu os quadros de antes de há muitos anos. Não queria a vida como essa que levava. O tempo, os acontecimentos que tinham passado, a gente que tinha encontrado, verificaram os seus planos de vida. Então, era uma mãe sozinha, que criava os filhos e que nunca tinha tempo para ela mesma. A rotina, que a acompanhava desde há um certo tempo, adormeceu as suas ambições e as esperanças de qualquer mudanças. 
 Aproximou-se do espelho pendurado perto do guarda-louça. Pela primeira vez desde há muito tempo, reparou verdadeiramente na sua cara. Era ainda uma mulher jovem. Tinha as rugas soltas, mas o seu rosto conservava o aspeto fresco e a forma impecável. Ficou assim, observando com os olhos tristes uma figura, que estava no outro lado do espelho. Durante anos fingia ser uma mulher forte e não necessitava de ajuda dos outros. Dedicou toda a sua vida aos seus filhos. Agora algo se partiu. Considerava uma pergunta que apareceu de repente na sua cabeça: “Porque nunca expressava os seus sentimentos? Porque não podia fazê-lo?” Sentia-se duma maneira estranha na sua casa, na sua cozinha, rodeada pelos objetos alheios. Até este momento tudo na sua vida era amansado, conhecido. No momento em que deixou de lutar com os seus sentimentos, viu tudo de outra perspetiva, ainda não descoberta. Desligou a luz na cozinha, desta vez movendo-se pelo seu apartamento como um visitante. Todos os cantos, as paredes, as portas, as janelas pareciam ser estranhas. Esta casa ainda não tinha conhecido o interior verdadeiro da Joana. Quando entrou no seu quarto de dormir, achegou-se à colcha estendida regularmente na cama. A Joana rodeada pelo negrume escutava os ecos da rua, como se tivesse esperança que o grito da mulher desconhecida voltasse uma vez mais. Podia-se ouvir só os sinos da igreja que bateram cinco badaladas. A Joana adormecia lentamente, quando os primeiros raios de sol entraram às escondidas pelas janelas tapadas. Os comboios já andavam no seu ritmo diário, os proprietários das lojas pequenas e das cafeterias abriam as portas para os primeiros clientes, a cidade acordava para a vida.
Iga Serwacka
2º ano de Filologia Ibérica

domingo, 18 de maio de 2014

“Aiii, crianças, crianças...”

“Aiii, crianças, crianças...” – acho que não há pessoa que nunca ouviu este desabafo da boca dos seus pais. Não restam dúvidas de que ele sempre vai constar da lista das frases favoritas dos nossos pais das que todo o mundo se vai lembrar sempre com carinho. Apesar disso, eu pessoalmente nunca soube o porquê dessas palavras. E nunca pensei que as usaria pela primeira vez num país tão remoto e dirigidas às crianças que não fossem os meus filhos. Até setembro de 2013 eu tinha bastante contato com crianças porque trabalhei numa escola de idiomas. Elas sempre me davam muita alegria e faziam com que me sentisse necessária. Sabia perfeitamente que podia não somente ajudá-las mas também aprender algo com elas. Mas, em setembro de 2013 eu conheci uma nova dimensão da palavra “professor” e “criança”. Na verdade, tudo começou quando decidi passar um semestre no Brasil como estudante de intercâmbio que funciona devido ao acordo entre a UMCS em Lublin e a UNIJUÍ em Ijuí. Os meus professores disseram-me que uma das regras de acordo diz que o intercambista tem que colaborar com a “etnia polonesa” cujo alvo é o de manter o espírito polaco nas cabeças de todas as pessoas que têm raízes na Polónia. Isso, entre outras coisas, significa mostrar aos mais pequenos como é a Polónia de hoje em dia, ensinar algumas frases na nossa língua etc. A mim sempre me fascinou ensinar e aquela ideia parecia-me muito boa. Assim, poderia ser prestável e ao mesmo tempo agarrar a oportunidade de ganhar experiência trabalhando com crianças no país da língua do meu interesse. Quando eu e o meu amigo, Bartek, finalmente chegamos ao Brasil, a etnia polonesa “saiu em disparada” com as ofertas e sugestões de fazer o projeto “Integrando Culturas”na escola IMEAB(Instituto Municipal de Ensino Assis Brasil). 

A ideia, como já mencionei, era divulgar a cultura e língua polacas por meio de brincadeiras, troca de conhecimentos etc. Na verdade não sabíamos o que esperar deste encontro mas tínhamos um bom palpite de que nunca nos iríamos esquecer dele. A professora e ao mesmo tempo o líder cultural, Marli Meigers, levou-nos a esta escola e demonos conta de que tanto a escola, quanto os estudantes eram bastante similares a tudo que conhecemos dos tempos da nossa infância na Polónia. Muito ruído nos corredores, muitos cartazes nas paredes e as pequenas criaturas passeando por todo o lado – uma imagem típica. 

 Começamos com a turma de crianças de 10 anos. Apresentamo-nos no centro da sala e ao mesmo tempo no centro de olhares curiosos. Sentíamo-nos como se fôssemos estrelas de cinema! A professora fez a menção de onde e de quem éramos e depois de trocarmos olhares ansiosos entre nós dois começamos uma curta apresentação de todos os aspetos mais importantes da Polónia que todo o mundo deveria saber. Mostramos a nossa bandeira, explicamos a história das cores dela, contamos algumas lendas polacas, falamos das banalidades quotidianas até que reparamos que o tempo da aula quase terminou! Tínhamos ainda alguns minutos para à pressa responder às perguntas e assim começou uma enxurrada de indagações. Com muita dificuldade a professora conseguiu acalmar os alunos e pudemos atender à curiosidade das crianças. A segunda turma era de 12 anos. Já tínhamos as bases do funcionamento num grupo de miúdos então foi um pouco mais fácil. Assim como no caso da turma de 10 anos, acolheram-nos de braços abertos e com as cabeças cheias de interrogações. Para começar com algo interessante, mostramos-lhes um dos nossos poemas mais famosos para crianças – “Lokomotywa” escrito por Julian Tuwim e lido por Piotr Fronczewski. 

Os alunos adoraram a língua polaca e todos os sons produzidos por Piotr Fronczewski durante a leitura! Acharam o nosso idioma muito difícil mas também muito lindo e não cessavam de nos pedir para que lhes ensinássemos algumas palavras. Assim, conheceram os nomes de alguns animais, frutas, vegetais e muitos outros. Fizemos também um pequeno concurso para ler os primeiros versos deste poema em polaco. Todos nós (inclusive o Bartek, que até então não gostava muito de crianças) passamos os momentos de muita alegria! Depois chegou o momento de falarmos um bocado e, como se viu, para moldarmos a opinião do povo ijuense sobre a Polónia de hoje em dia. Eu e o Bartek ficamos boquiabertos ao ouvir perguntas como: “vocês lá na Polónia conhecem computadores?” ou “lá na Polónia já se usam carros?”. Pessoalmente, fiquei abalada mas felizmente o Bartek não permitiu que aquele choque pequeno dominasse o meu comportamento e tomou as rédeas da situação, explicando com muitos pormenores a situação atual da Polónia. No fim das contas tudo terminou bem e saímos contentes com o sentimento de que cumprimos a nossa missão como patriotas. 

 A última turma foi a de que eu mais gostei porque todas as crianças eram muito simpáticas, prestavam muita atenção ao que nós contávamos e colaboravam connosco. Havia também momentos muito engraçados. O Bartek escreveu uns versos de “Lokomotywa” no quadro e eu andava ao redor da sala ajudando a soletrar as palavras. Em algum momento, um aluno chamou-me. “- Moça, moça! - Sim, como te posso ajudar? - Nada... Só te queria dizer que você tem os olhos mais lindos de todos os que eu vi na minha vida...” Eu estive perto de cair na gargalhada mas consegui manter as aparências e somente sorri. Em suma, todo o nosso esforço deu certo. Ao sair das salas de aulas os alunos despediam-se de nós gritando os nossos nomes e perguntando quando poderíamos visitá-los novamente. Depois disso muitas vezes dava de caras com alguns alunos do IMEAB no centro da cidade ou numa loja e ficavam sempre muito contentes de poder falar um bocado com a sua “professora” que veio do outro lado do oceano. Sejam quem forem, sejam de onde forem, as crianças vão ser sempre as criaturas que nos dão muita alegria e o sentimento de sermos mais jovens (até mesmo com22 anos). Agora, quando podia conhecer pessoalmente este “lado de vida” onde eu sou a pessoa que mostra o mundo aos mais pequenos, percebo bem o porquê de todos os suspiros e todos os sorrisos dos meus país.

Katarzyna Rejter
3º ano de Estudos Portugueses

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Relações entre Portugueses e Marroquinos após a tomada de Ceuta (1415)

A origem da presença portuguesa em Marrocos tinha vários fatores, tanto políticos, como econômicos ou religiosos. Um destes fatores foi a consolidação da independência portuguesa no contexto da Península Ibérica. A reconquista árabe da Península entrou em declínio a partir do ano 1250 quando os muçulmanos perderam a cidade de Córdoba. Até ao ano 1492 o último território peninsular, Granada, ainda estava na posse dos muçulmanos. A primeira conquista pelos Portugueses da cidade norte-africana de Ceuta foi realizada no ano 1415. No olhar português, a tomada do Norte de África foi um grande triunfo perante Castela e o Papado. De fato a reconquista de África foi prevista a partir do século XIII e de acordo com várias regras européias ia ser uma invasão legítima porque a ocupação do Reino de Fez e de Marrocos seria vista como reconquista e a luta contra os infiéis. A cruzada contra os Mouros foi um grande desejo tanto do papa como dos Franciscanos e Dominicanos. O fato da tomada de Constantinopla pelos Turcos em 1453 levou o papa a preparar uma nova cruzada, mas no final a idéia não tinha sido adotada por outros países europeus. O único país que apoiava o Papa era Portugal que desta maneira conseguiu a ajuda financeira do Vaticano e logo em 1458 o rei português conseguiu conquistar Alcácer-Ceguer. A reconquista foi a continuidade da expansão ultramarina e do movimento expansionista para o Norte de África. O prolongamento do território nacional foi possível apenas através das cruzadas contra os Mouros.
O Norte de África é um bom exemplo da convivência intercultural, mesmo se havia alguns conflitos. Naquela época o norte de Marrocos era o único lugar onde viviam cristãos, muçulmanos e judeus. Judeus - depois da ordem de expulsão de Espanha e Portugal e por causa da perseguição pela Santa Inquisição - tentavam se adaptar em Marrocos porque lá as ordens do rei não eram tão rígidas. Por vários séculos os cristãos e os muçulmanos tinham que aprender a viver uns ao lado dos outros. Convém acrescentar que essas relações não sempre eram conflituosas. Em vários casos os Mouros se converteram ao cristianismo e foram batizados. Alguns assumiram também os importantes cargos militares nos serviços portugueses. Obviamente esse tipo de comportamento não foi bem visto entre os muçulmanos porque quando eles apanhavam um “traidor” castigavam-no conforme mostra o caso de Gonçalo Vaz (Anais de Azrila). Muitos cristãos portugueses que viviam em Marrocos também abandonaram a fé católica e mudaram do cristianismo para o islamismo.
A reconquista de Marrocos pelos portugueses não seria possível sem a ajuda dos próprios Mouros. Na época da conquista, o Norte de África era governado pelo rei muito impopular entre as tribos locais – Abu Saíde. A intervenção portuguesa nos assuntos internos da região ajudou os Mouros a combaterem os governantes indesejáveis. Como a força portuguesa em Marrocos não era suficiente, os portugueses decidiram arranjar aliados das tribos locais, aproveitando dos problemas locais e assim ganhando novos aliados.
Podemos destacar também três fases nos relacionamentos entre os portugueses e marroquinos. Depois da conquista de Ceuta entre 1415 - 1471 nas relações entre os dois povos era bem visível a hostilidade. Os portugueses tinham uma perceção do mundo muito eurocêntrica, vendo os muçulmanos como infiéis e inimigos de cristianismo. Mesmo que a idéia principal da invasão tenha sido a conversão ao cristianismo, no final os portugueses pareciam estar interessados muito mais pelas potencialidades econômicas de África. Na zona de Estreito a política adotada pelos Portugueses pode-se considerar militar e estratégica enquanto na região meridional comercial e dialogante. A partir de 1471 (conquista de Arzila) os portugueses declararam uma ocupação restrita com soberania limitada no norte do país enquanto no sul o domínio de Algarve era protetorado. A presença portuguesa começou a declinar a partir de 1515 com o desastre em Mamora e a paz foi rompida quando D. Manuel I declarou uma cruzada contra os povos muçulmanos. A partir daí os portugueses acabaram perdendo a capacidade de intervir na política marroquina.
            Para manter as praças marroquinas o rei português anunciou a política de ordenação do território, ou seja, Marrocos tinha que estar o mais possível parecido com Portugal – nas questões políticas, econômicas e administrativas. Também foram enviados para Marrocos vários arquitetos portugueses com objetivo de construir castelos e fortificações semelhantes às construções portuguesas. O objetivo dos portugueses não era a exterminação dos marroquinos, mas manter com eles as relações semiamigáveis para aumentar o comércio e com ajuda deles penetrar no território marroquino. Não obstante, de acordo com várias crônicas os marroquinos sofreram bastante violência das mãos portuguesas. No olhar português os marroquinos eram gananciosos, perigosos, com temperamento muito violento, machucavam os próprios compatriotas, eram bastante cruéis com os portugueses e eram hipócritas pois consumiam álcool o que era contra os princípios do Islã. Os portugueses temiam os muçulmanos (os Turcos, Persas, Mouros do Magrebe e aqueles que moravam nos países banhados pelo Oceano Índico) vendo eles como uma ameaça de sufocar a cristandade.
            A luta pelo domínio e posse de Ceuta foi essencial por sua posição privilegiada do ponto de vista da política. A cidade era uma das duas cidades em Marrocos junto com Tanger que tinham baías que olhavam para Espanha. Segundo Leão o Africano (diplomata e explorador mourisco) a cidade de Ceuta era muito rica graças ao tráfico comercial. De Ceuta, Portugal era capaz de vigiar a navegação do Oceano Atlântico e do Mar Mediterrâneo combatendo com mais eficaz os corsários. No início da reconquista de Marrocos o objetivo era a conversão dos infiéis, mas a partir do século XVI o alvo dos portugueses era o comércio para a Índia. Para eles as condições de vida eram bastante difíceis (a questão da guerra permanente nas praças e da guerra guerrada – tipo de guerrilha) e de fato Marrocos se tornou uma escola de sobrevivência para que os portugueses conseguissem sobreviver na Índia. 
           
Bibliografia:
DIAS FARINHA António, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Coleção Lazúli, 1999.
LOPES David, A Expansão em Marrocos. Lisboa: Teorema / O Jornal, [1989]. (Outra pequena síntese mas muito importante para entender todo o processo da presença portuguesa em Marrocos).’
LOUREIRO Rui, A Visão do Mouro nas Crónicas de Zurara, Mare Liberum. Revista de História dos Mares, nº 3, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1991, pp. 193-209.
VICENTE Paulo, A Violência na Cronística sobre Marrocos nos Séculos XV a XVI. Representações e Vivências, Lagos, Câmara Municipal de Lagos, 2009.

AGATA BŁOCH                                                                                                          
Fundacja Terra Brasilis e Centro de História de Além-Mar  (Universidade Nova de Lisboa)

NR: O presente artigo, é o primeiro e esperemos que não o último, escrito por "correspondentes" de fora da nossa universidade. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

1º Concurso Literário do CLP/Camões em Lublin


REGULAMENTO
Introdução
 A ideia de criar este concurso literário surgiu como forma de incentivar a criatividade literária entre os falantes não nativos de português, bem como o gosto pela escrita em português.
Artigo 1.º
 O Concurso Literário é aberto a falantes não nativos, excluindo assim cidadãos de nacionalidade portuguesa, e ainda cidadãos naturais de países de língua oficial portuguesa. O concurso é, entenda-se, aberto não só a residentes na Polónia. Aos membros do júri é vedada a participação bem como aos seus familiares diretos. 
Artigo 2.º
O Concurso Literário destina-se a premiar trabalhos inéditos na modalidade de conto. 
Artigo 3.º
Cada concorrente poderá apresentar apenas um trabalho.
Artigo 4.º
Os trabalhos a apresentar serão subordinados às seguintes normas:
a) O texto obrigatoriamente redigido em língua portuguesa, original e inédito, deverá ter um mínimo de duas páginas e um máximo de seis páginas, com espaçamento duplo entre as linhas e tipo de letra Times New Roman, tamanho 12, formato pdf, devendo ser entregues por email: clp.lublin.polonia@gmail.com
b) Juntamente com o texto, deverão ser enviados os dados de identificação (nome, nacionalidade) e de residência do concorrente, o título do trabalho apresentado e se desejar, o pseudónimo escolhido;
c) A data limite para o envio dos trabalhos é 15 de outubro.
d) A escolha do conteúdo temático fica a cargo do autor.
Artigo 5.º
Ao trabalho que, pela sua qualidade literária, mais se distinga será atribuído um prémio e publicado no próximo número da revista Água Vai.
a)     O domínio da língua portuguesa é também tido em conta pelo júri.
b)     O prémio será divulgado brevemente.
Artigo 6.º
Caberão ao CLP/C todos os direitos sobre a primeira edição dos trabalhos premiados, comprometendo-se este a oferecer aos respectivos autores 10 exemplares da revista Água Vai, considerando-se os direitos de autor regularizados desta forma.
Artigo 7.º
Poderão, ainda, ser editados, mediante condições a acordar, caso haja interesse por parte do  CLP/C e dos respectivos autores, os trabalhos agraciados com menções honrosas.
Artigo 8.º
O júri terá a seguinte composição:
a)     Profa. Dra. Barbara Hlibowicka-Węglarz ,que presidirá (diretora do CLP/C, UMCS, Lublin)
b)     Prof. Dr. Dionísio Vila Maior (Universidade Aberta, Coimbra)
c)      Prof. Dr. Pedro Balaus Custódio (Instituto Politécnico de Coimbra)
d)     Idálio Loureiro (Agrupamento de Escolas do Viso, Porto)
e)     Lino Matos (UMCS, Lublin)
Artigo 9.º
A decisão do júri será tomada no prazo de 30 dias úteis, contados a partir da data fixada para a entrega dos trabalhos.
Artigo 10.º
O júri poderá não atribuir qualquer prémio, caso considere que os trabalhos apresentados não reúnem condições de qualidade que o justifiquem.
Artigo 11.º
O júri, para além dos prémios atribuídos aos trabalhos que considerar de maior qualidade, poderá atribuir menções honrosas que, no entanto, não vincularão o CLP à respectiva publicação. O júri poderá, ainda, se entender que o respectivo valor literário o justifica atribuir prémios ex aequo.
Artigo 12.º
Os casos omissos ou as divergências na interpretação do presente regulamento serão solucionados pelo júri.
Artigo 13.º
Das decisões do júri não haverá recurso.
Artigo 14º
Disposições finais:

a) Os dados pessoais facultados serão utilizados exclusivamente pelo CLP/C para os fins do concurso, entrega de prémios e divulgação de informações relativas a futuros eventos semelhantes.
b) A apresentação dos trabalhos pressupõe a plena aceitação do presente regulamento.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Em busca do amor perdido (3)

O amor reencontrado 


São Paulo
São Paulo é uma cidade enorme, imponente, a maior na América do Sul com quase 12 milhões de habitantes. É com muitos arranha-céus a mais alta no país. O panorama de construções sem fim pode-se observar do chamado Terraço Itália que funciona no 41° andar do segundo maior edifício da cidade.



Para mim atingiu uma proeminência especial no mapa do Brasil por várias razões. É a minha capital mais recente e provavelmente definitiva do país – a capital da cultura. Neste sentido, encontrei lá tudo para satisfazer o meu apetite. Mas apesar dos shows, museus (da Língua portuguesa, do Futebol, de Arte Contemporânea, de Arte de São Paulo, entre outros), cinemas, livrarias enormes, foram de novo as pessoas que me deixaram reencontrar a sensação de pertença na terra da garoa.
Passei na capital paulista um mês e pouco sem uma conversa em polaco com pessoa em carne e osso. Gosto de aprender sem compulsão, mas não há melhor impulso de usar uma língua estrangeira que a necessidade. Foi em São Paulo onde aumentei a minha autoconfiança e comecei a falar com as pessoas estranhas na rua. Isto, com algumas exceções, a mais notável em Curitiba onde um empregado de bomba de gasolina elogiava os valores (as mulheres, para ser exato) do Norte durante a chuvada, não aconteceu antes. Até indiquei o caminho a desconhecidos algumas vezes. Ouvi também que o meu português (quase) não soava como a versão de Portugal – um cumprimento enorme depois das experiências no início da estada quando os gaúchos não podiam entender o meu sotaque europeu.
A música que referi antes merece um parágrafo separado. Realizei aqui um dos meus sonhos. Assisti ao show de Stevie Wonder que não costuma incluir a Polónia nos seus trajetos, mas tem um fraco pelo Brasil. Em São Paulo, porém, entusiasmei-me sobretudo com a música brasileira. Os mais significantes foram para mim as atuações de artistas como Caetano Veloso, Tom Zé, Ney Matogrosso e os Mutantes – todos com idade avançada e todos ainda relevantes na cena brasileira, ao lado de representantes da nova geração – Criolo, Emicida, Ellen Oléria. Só lamento que Jorge Ben, a lenda da MPB, tenha cancelado o seu show tão esperado.
A propósito, num sábado de janeiro entendi que os sebos são ótimos, mas nada se pode comparar com a Feira de Artes, Cultura e Lazer da Praça Benedito Calixto. É um mercado onde se pode comprar tudo, inclusive os sinais de trânsito.
Como a estadia foi longa, identifiquei, ao lado de benefícios, as desvantagens de morar em Sampa. A cidade é um paraíso para os privilegiados – pessoas com recursos, localizadas nos bairros mais desenvolvidos, perto do centro. A situação da maioria não é tão deslumbrante. O trânsito é um problema grave, mas ainda mais óbvia é a desigualdade entre os cidadãos. Os centros das grandes cidades brasileiras aos domingos ou feriados são parecidos uns aos outros. Os portões de bancos, os lugares de encontros da elite financeira ao longo da semana, estão ocupados pelos sem-abrigo.  

Aos fins de semana é também mais fácil notar os slogans rebeldes pintados nos muros de instituições públicas.




Essas observações facilitam perceber o êxito das músicas como "Não existe amor em SP" de Criolo que, na verdade, explica a situação em todo o país. O autor não toca no assunto do amor romântico, antes retrata a falta de cidadania, indiferença em relação aos outros. Nunca acreditei nos avisos que consideravam o Rio ou São Paulo as cidades diabólicas onde reinava a violência e o estupro. Pessoalmente, senti-me seguro lá e não sofri nenhum prejuízo. É contudo verdade que os problemas existem, estão enraizados na estrutura social e surgem cada vez mais óbvios. As pessoas começam a agir, lutar por sua causa. A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos podem afetar profundamente o país, mas não graças a feitos heróicos dos governadores. Ao contrário, por causa da falta de atividade construtiva e do abuso do poder pelos governantes o povo pode decidir que chega. Chega de saudade. Chegou a hora de reencontrar o amor.

Bartosz Suchecki
3º ano de Estudos Portugueses

NR: Para ler a segunda parte da crónica siga a ligação:Em busca do amor perdido (2)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Silêncio

Foi pedido aos estudantes do 2º ano de Filologia Ibérica que, depois de lerem o conto "O Silêncio", escrevessem a continuação da história, um novo final. O texto integral do conto de Sophia de Mello Breyner Andresen pode ser lido aqui: "O Silêncio"
Dentre os trabalhos do alunos foram escolhidos os melhores e hoje é publicado o primeiro:


Depois deste acontecimento, Joana não podia encontrar nenhum lugar em casa para poder tranquilizar-se. O sentido da alienação era tão grande que se sentiu como uma pessoa que tinha perdido tudo o que amava. O tempo passava lentamente, cada pancada do relógio provocava na sua alma um ataque de receio, pânico. As coisas que antes causavam felicidade agora contribuem para uma explosão de ira e de irritação. Joana não podia encontrar uma resposta lógica para o seu comportamento.  Quase todos os dias era uma muda testemunha de situações semelhantes. Mas o grito desta mulher era diferente. Era cheio de dor profunda, uma dor tão profunda que invadia o coração, provocava o temor de cada célula do corpo. Joana tinha impressão que o seu coração saltará do seu peito. Sentou-se na sua poltrona preferida e tentou regularizar a respiração. O ar era pesado e quente. Não notou quando as lágrimas começaram a fluir pelas suas bochechas. O grito desta mulher desconhecida gravou-se não só na sua memória, mas também na sua alma tão fortemente que não podia deixar de pensar nesta coitada. Com o passar do tempo a mulher sentia-se cada vez mais cansada. De repente caiu nos braços de Morfeu. A noite foi longa e exaustiva. Joana teve um pesadelo relacionado com o acontecimento da noite finda.   Entendia exatamente o que sentia este mulher porque há três anos o seu namorado foi preso pela PIDE. Era um homem lindo, bem educado, também era um patriota que amava a sua pátria. Por causa do seu conceito do país expôs-se à  cólera do governo. A Joana era muito importante para ele mas não podia ver a situação do seu povo e decidiu participar numa rebelião na Marinha. O seu amor ao país e ao povo causou o exílio no campo da morte lenta na Ilha de Santiago. Joana tentava esquecer este acontecimento mas o pensamento que o seu namorado sofreu suplícios na solidão sem nenhuma pessoa que pudesse aliviar o padecimento, provocava nela uma grande dor. Vivia com o sentimento de uma enorme perda no seu coração. Quando Joana mais ou menos deu cabo das demónios  do passado o acontecimento na rua despertou as memórias dolorosas. A manhã não era fácil, não tinha vontade de levantar-se da cama. Queria passar todo o dia na cama mas sabia que tinha de dar o pequeno-almoço ao seu gatinho. De repente ouviu um grande alarido. Aproximou-se com  receio da janela e viu um grupo de homens. Entre eles reparou numa cara conhecida. O passar do tempo deixou uma marca visível  mas os olhos eram os mesmos, alegres e brilhantes. Era a cara do seu namorado, do seu querido Pedro. A tigela que segurava nas suas mãos caiu no chão e quebrou-se num sem número de  pedaços pequenos. Joana não podia acreditar que o seu Pedro estava vivo. Começou a correr para baixo mas no meio do caminho escorregou , caiu da escada e perdeu os sentidos e por isso deixou fugir a possibilidade do encontro e da conversa com o homem que lhe parecia o seu namorado. Quando recuperou os sentidos estava no hospital. Não sabia como foi parar a este lugar mas lembrava-se que antes do seu acidente tinha visto o Pedro. Sentiu uma grande desilusão e uma irrefutável vontade de chorar. Passou uns dias no hospital sem nenhuma esperança de ver o homem outra vez. No último dia da sua estada no hospital quando se preparava para a saída viu o Pedro de farda falando com a rececionista. Aproximou-se do homem e de repente deu conta de que o homem é só parecido ao Pedro. Começou a chorar tanto que o soldado assustou-se que algo tinha acontecido a este pobre mulher. Começou a consolá-la mas ela não deixava de chorar. Depois de um tempo tranquilizou-se e olhou para olhos dele. Compreendeu que embora o soldado não fosse o seu Pedro passará com ele resto da sua vida.
Liliana Wajrak
2º ano de Filologia Ibérica