terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Natalia Juśkiewicz – a "fadista" polaca

O fado não e o género popular só entre os portugueses – alguns polacos são também activos no palco do fado e... desenrascam-se bem!
Além dos entusiastas do fado temos também os artistas que tentam demonstrar o seu valor neste género musical, fascinados pela música tradicional de Portugal, realizam os seus próprios arranjos e ganham o reconhecimento no palco nativo e português.
Especialmente a violinista Natalia Juśkiewicz, nascida em Koszalin que agora reside em Portugal há vários anos. Mais conhecida entre os portugueses do que entre os polacos? Pode ser! O fado ainda não é o género muito popular na Polónia, apenas alguns são capazes de enumerar as fadistas mais populares e ainda existem muitas pessoas que não podem dizer nada sobre esta música. Graças ao sotaque polaco, isso pode mudar.
 A carreira da Natalia começou muito cedo. Aos sete anos ela começou a aprender violino que agora é a marca registada da sua música, com especialidade em violino clássico pela Academia de Poznan. O amor pelo fado não apareceria se a Natalia não se tivesse apaixonado. E isto é o sentimento excepcional e para toda a vida, o amor por Portugal.
Durante umas férias ela visitou Portugal e descobriu o país onde muito rapidamente decidiu  viver. A paixão pela cultura portuguesa permitiu a rápida aprendizagem da língua e a assimilação na sociedade portuguêsa. Isso mudou sua vida completamente e decidiu desenvolver a sua carreira musical em Portugal. Fazendo parte de inúmeras orquestras, entre outras a Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Orquestra do Norte, ela viajou intensamente pelo país e adquiriu a experiência profissional.
Em pequenos restaurantes tradicionais entrou em contacto com o fado pela primeira vez. A música cheia de emoções e sentimentos  que Natalia decidiu  transferir para sua criação. Mas como fazê-lo sem o talento vocal? A violinista decidiu expressar todos os sentimentos do fado através do som do seu violino.
O seu projeto, longe do fado tradicional trouxe algo de novo para a música e trouxe o sucesso inesperado. As críticas entusiastas e o reconhecimento público permitiu o desenvolvimento de uma grande carreira - Natalia era o único estrangeiro na prestigiada antologia de fado ao lado de figuras famosas como Amália Rodrigues . Mas a violinista sublinha modestamente que o autor da antologia era muito corajoso, inserindo no seu livro um projeto tão distante do fado tradicional. O projeto resultou no álbum ,,Um violino no fado” que inclui versões para violino de fados tradicionais. Este não foi o fim do sucesso e reconhecimento em Portugal – recebeu entre outros o prestigioso prémio ,,A revelação em fado”. O sucesso é inegável, só me resta desejar à nossa compatriota reconhecimento tanto na Polónia como em Portugal.
                   
Paulina Mazur
3º ano de Filologia Românica

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Zygmunt Szafrański

(O meu pai e o meu avô)

Zygmunt Szafrański, médico e ativista, nasceu a 17 de agosto de 1913 em Lewków, perto de Ostrów Wielkopolski. Depois de ter completado o ensino na escola de terceiro ciclo em Brzesko-Okocim em 1932, começou os estudos no Departamento de Medicina da Universidade de Poznan que terminou em 1938. Praticou medicina no hospital municipal de Gniezno e de Sieradz. Em 1939 foi convocado para o hospital de campanha do exército “Poznań“. Tomou parte na batalha de Bzura durante a qual foi feito prisioneiro pelos alemães. 
No campo de prisioneiros de guerra serviu como médico, cuidando dos doentes e feridos. Em 1940 foi libertado do Oflag e deslocado para o Governo Geral. Durante este período chegou a Radom, onde ficou até à sua morte e trabalhou no hospital municipal no departamento das doenças pulmonares. Em 1942 casou-se com a doutora Zofia Pietras, que faleceu infetada com a febre tifoide no dia 13 de setembro de 1944. Deste casamento teve dois filhos: Maria e Wojciech. O dr Zygmunt Szafrański colaborou com o movimento da resistência, participando na proteção das pessoas ameaçadas de prisão ou de deportação para o trabalho na Alemanha emitindo os atestados médicos falsos, colocando no hospital sob os diferentes pretextos ou curando os soldados das unidades do exército clandestino, os partisans. O dr Szafrański foi detido pela Gestapo de Radom, em 7 de abril de 1943, depois de 6 meses a investigá-lo e sujeito a torturas regulares. 
Depois foi transportado para Auschwitz, onde, considerado inimigo extremamente perigoso do Terceiro Reich, teve de usar as iniciais “IL“ o que significava o trabalho duro e escravo, rodeado de cabos de alta tensão, mas também a aplicação do chamado “Postperre“ - proibição de enviar e receber o correio. Trabalhou na Straftkompanie, uma divisão do campo, onde os prisioneiros eram forçados ao trabalho árduo, durante o qual a maioria deles morria. Foi mais duro e mais longo do que noutras partes do campo, a ração diária era mais reduzida, assim como o pausa do trabalho. A única coisa que havia em excesso era tortura. O obetivo era que o prisioneiro trabalhasse até à morte. Durante a sua estadia em Auschwitz foi submetido a pseudotratamentos farmacológicos. 
 No dia 19 de novembro de 1943 foi colocado no K.L Hamburg-Neuengamme e empregado como prisoneiro-médico no departamento de tuberculose do hospital. Segundo os testemunhos de outros prisioneiros Zygmunt Szafrański foi o padrão de patriota-militar, dedicado aos prisioneiros, encorajando moralmente e fisicamente (tratamento dos pacientes nas condições extremamente desumanas). Prolongava a permanência dos prisioneiros no departamento do hospital do campo. Ligado ao movimento da resistência do campo, várias vezes fez sabotagem  executando deliberadamente mal as ordens e divulgando mensagens hostis. Libertado pelo exército britânico no dia 3 de maio de 1945, durante o transporte dos “muçulmanos”, trabalhou em Lübeck até 25 de setembro de 1945 como diretor do departamento de Medicina Interna do hospital polaco. Depois de ter voltado à Polónia, até ao dia 17 de junho de 1975, geriu o Centro de Doenças Pulmonares, ao mesmo tempo trabalhando na Clínica de Tuberculose da PKP em Radom. Em 1953 casou-se pela segunda vez com a professora de inglês, Wanda Grochalska com quem teve dois filhos: Beata e Leszek. 
Possuidor de um conhecimento teórico e prático profundo, foi ativista, professor e pedagogo assim como organizador excelente. Nos anos 50 organizou em Radom consultas mensais com a participação dos docentes do Instituto de Tuberculose e introduziu as cirurgias inovadoras. Formou a personalidade de jovens médicos, ensinou, dedicou muito tempo às conversas profissionais, recomendando a literatura especializada. O maior mérito do dr. Szafrański foi a reconstrução e modernização do Centro de Tuberculose de Radom. Tinha um grande pudor, dedicação ao trabalho e à atividade social. Interessou-se pela coleção de curiosidades literárias e de gravuras antigas, enquanto a história da cultura nacional e regional foram a sua paixão. Faleceu no dia 17 de novembro de 1975, postumamente condecorado com a Ordem da Polonia Restituta.

Ewa Szafrańska
3º ano de Estudos Portugueses

O meu avô


O meu avô Bolesław foi o avô ideal. Ele tinha uma barba bem aparada, caminhava com uma bengala e mostrava-me a beleza das coisas mais simples. Foi com ele que pela primeira vez procurei cogumelos na floresta, soube o nome das árvores e dos pássaros. Ele deu-me o segredo de como respirar profundamente e encontrar o meu caminho para casa no caso de me perder. Ele podia acender o fogo com um fósforo e, usando um canivete para talhar um pedaço de madeira, esculpir um cãozinho ou um cavalinho. Assim que eu lhe pedia, reparava os meus brinquedos preferidos, quebrados pelo uso excessivo. 
A sua presença na minha vida era algo tão óbvio e importante que nunca me incomodou o facto de que não era realmente o meu avô, se considerar corretamente as relações familiares, mas o irmão da minha avó materna Wanda. Ainda assim, nunca me ocorreu referir-me a ele de forma diferente do que o “avô“ porque desempenhou o seu papel perfeitamente. Os “avós” Bolesław e Wanda criaram o mundo da minha infância, e apesar do facto de que na família havia outras pessoas da sua geração que pelas razões formais também merecem este título, o seu reinado foi inquestionável. O marido da minha avó Wanda morreu dois anos antes de eu nascer , então eu só o conheci a partir de fotografias. Os meus avós paternos sempre mantiveram a distância a partir do momento em que o meu pai decidiu abandonar a família. 
Cada geração vive numa época histórica, mas duas guerras afetaram profundamente o destino dos meus avós e bisavós, assim como a história de toda a minha família. Porque eles nasceram nas áreas da fronteira, que hoje pertencem à Ucrânia. A minha bisavó nasceu em Zhitomir e depois de 1917, teve que fugir da sua aldeia natal, juntamente com as outras jovens. Ameaçadas pelos soldados ucranianos, que eram conhecidos por violar mulheres. Quando, alguns anos depois de se formar numa escola católica, ela quis voltar para a sua casa, no seu caminho foi parada na fronteira, que não estava lá antes. A minha bisavó não tinha documentos, então foi parado por um policia montando um lindo cavalo branco. Ele afinal veio a ser o meu bisavô. Nunca escondeu que a minha bisavó o imediatamente lhe chamou a atenção, então, para protegê-la da prisão pediu-lhe a mão. O casamento ocorreu no mesmo dia, e a minha bisavó nunca regressou para a família de Zhitomir. Desta união nasceram dois filhos, Wanda e Bolesław, os meus queridos "avós". 
O meu bisavô tinha raízes nobres e trabalhava na polícia montada a proteger a fronteira. Ele ensinou os seus filhos a respeitar e conhecer os animais e a natureza. Era um amante de cavalos e um grande cavaleiro. Aparentemente, montou a famosa égua castanha, que mais tarde pertenceu ao primeiro chefe de estado Józef Piłsudski. Uma vez trouxe da floresta um filhote de lobo abandonado que quando cresceu se tornou melhor amigo do meu avô. 
A primeira fase da infância de meu avô foi um período idílico passado em constante contato com a natureza. Naquela altura os pais e professores tinham sempre razão e os filhos eram educados com rigor e de forma consistente, mas o meu avô foi educado para ser um homem de honra, que sempre mantinha a sua palavra. 
A infância despreocupada foi brutalmente interrompida pela guerra. Uma noite, os soldados soviéticos entraram em casa. Eles deram à família apenas meia hora para arrumar as coisas. Um soldado disparou contra o lobo do meu avô, que estava a tentar defender os seus queridos. A minha bisavó foi deportada para o Oriente com os dois filhos e passou a guerra num campo de prisioneiros soviético no Cazaquistão. O meu bisavô foi preso e transportado para Kamchatka. No Cazaquistão o meu avô trabalhou numa mina de prata. Disse-me que quando trabalhava no turno do dia, houve meses em que ele não viu a luz solar. Em seguida, ele foi convocado para o exército e em 1945 chegou às proximidades de Varsóvia, onde foi ferido em combate contra os alemães que abandonavam Varsóvia após a supressão da Revolta de Varsóvia. 
A família do meu avô perdeu na União Soviética todos os seus pertences. Eles já não tinham a casa para onde voltar, então concordaram, que depois de regressar e reunir-se com a família afastada numa aldeia perto de Lublin. Todos conseguiram, mas nunca chegaram a reunir-se. O primeiro foi o meu bisavô, que foi liberado do exército após ter sido ferido outra vez. Tinha que esperar pelo resto da família. Mas um dia os aldeões, pediram-lhe ajuda por ele ser militar. Na aldeia vizinha os soldados russos bêbados violavam as meninas polacas. O meu bisavô com os aldeões conseguiram dominá-los e capturar as armas. Como a perda das armas no exército soviético significava corte marcial, e muito provavelmente a pena de morte, os soldados começaram a pedir ao meu bisavô que lhes devolvesse as armas. Eles deram a palavra de honra que deixavam a aldeia em paz e nunca mais voltavam. Quando lhes devolveu as armas, e virou as costas para se ir embora, um deles alvejou-o pelas costas. O meu bisavô morreu um dia depois num hospital nas proximidades de Kock. No mesmo hospital dois dias mais tarde, o meu avô Bolesław pediu informações para chegar à aldeia onde morava a sua família. A enfermeira notou uma semelhança impressionante entre ele e o soldado que tinha morrido há alguns dias, mas não disse nada. Sobre a morte do seu pai e as suas circunstâncias soube apenas pela família. 

A minha avó e a sua mãe voltaram do Cazaquistão quase um ano depois. O meu avô estava a trabalhar na reconstrução de Varsóvia. A minha avó entrou no comboio e mesmo sem saber o endereço encontrou-o numa cidade completamente em ruínas (ver foto). Ela guiou-se pelo coração e pelo desejo de ver o seu irmão.  A guerra marcou-os não só a eles, mas a toda a sua geração. Quando a guerra terminou sonharam só com uma vida modesta e estável, rapidamente assumiram a família, porque era para eles, para além da pátria, o maior valor. Para o meu avô, infelizmente, não era o fim das desgraças, como se a história não o tivesse castigado o suficiente. Ele teve um filho, que era muito talentoso artisticamente, no entanto, sofria da esquizofrenia e suicidou-se com 25 anos. Foi um golpe inimaginável para toda a família, mas em menos de um ano mais tarde, a minha mãe deu à luz a trigêmeos (eu e meus dois irmãos), e a vida continuou. Eu e os meus irmãos, em parte graças a tantas histórias dramáticas, podemos desfrutar da presença dos melhores avós, que se podem imaginar. 
A minha avó Wanda morreu quando tinha apenas 64 anos, o meu avô, com 84 anos. Ambos foram para mim umas das pessoas mais importantes na minha vida. Quando eu penso neles, espero que agora morem numa terra semelhante à terra da sua infância, despreocupados onde todos os membros da família que já morreram podem finalmente reunir-se.

Agnieszka Kędzierska
1º ano mestrado em espanhol

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Amizade

            Cada homem tem na sua vida alguns valores que determinam o comportamento dele e a atitude que adota perante várias situações vitais. Todos somos diferentes e todos temos os nossos próprios modos de ser, de perceber as coisas, e para todos os diversos valores não têm a mesma importância. No entanto, não há quem diga que dentro destes valores num dos primeiros lugares não seja mencionada a amizade, que se mostra um princípio essencial na nossa vida. O sentimento da amizade acompanha-nos desde os primeiros anos da nossa vida e desde sempre tem o lugar relevante nela. Não estamos em condições de imaginar a nossa existência sem alguém que está sempre no nosso lado e não seja o nosso pai nem mãe, nem nenhum dos nossos irmãos. Mesmo que frequentemente demos mostras de um sentimento forte e desinteressado aos nossos familiares, sempre procuramos alguém que seja o apoio para nós, que goste de passar o tempo connosco, que simplesmente seja o nosso amigo. Procuramos uma pessoa que não seja ligada connosco pelos vínculos familiares que muitas vezes obrigam-nos a manter relações interpessoais nem sempre sinceras, e que queira acompanhar-nos para sempre.
            Diz-se que sem o amor e sem a amizade o homem não se pode sentir feliz na vida. Sem dúvida. O homem está construído de tal forma que não lhe bastam os bens materiais para manter o equilíbrio psíquico, quer dizer, sentir-se satisfeito e realizado. A esfera espiritual tem para nós a relevância desmedida e por isso precisamos de saber que temos alguém com que sempre podemos contar, que nunca nos vai decepcionar e que sempre nos vai ajudar de forma desinteressada. É o tipo de conforto psíquico que nos dá a amizade com outra pessoa porque a pior coisa que pode acontecer ao homem é a solidão. Todos temos medo da solidão e por isso prestamos tanta atenção à procura do amigo eterno. Nos nossos tempos a amizade começa lentamente a perder o seu sentido prévio que se baseava no contato visual, físico de duas pessoas, devido à maior popularidade das redes sociais e os contatos interpessoais de tipo virtual que preferem. O problema é que a noção da amizade no espaço virtual é completamente diferente da que funciona na vida real. Os quinhentos amigos no Facebook não equivalem nem a um amigo real, amigo em sentido prévio desta palavra. Tens os teus quinhentos amigos na rede mas não tens nem uma pessoa com que poderias ir ao café ou simplesmente conversar sobre o tempo. Agora chama-se amigo à pessoa com que se trocou algumas palavras no corredor da escola ou trabalho. Basta vê-la todos os dias para chamá-la amigo.

Monika Lisik 
1º ano Mestrado de Espanhol

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Discurso sobre a filologia

Um dia o Brasil tornou-se o país mais desejado na minha lista de lugares a visitar. Já não me lembro exatamente quando esta ideia estranha me veio à cabeça. Foi, com certeza, depois do meu intercâmbio em Lisboa em 2012, talvez antes do fim desse ano. Não foi a curiosidade turística que me conduziu a este estado da mente. O monumento do Cristo Redentor no Rio de Janeiro ou as praias da Bahia eram-me basicamente indiferentes. Foi o desejo de experimentar uma outra variante do português o que me cativou. Este facto simples e sintomático para o meu mundo extraordinário explica porque Ijuí, uma cidade pequena no sul do Brasil, pintava-se, apesar das suas deficiências, como uma oportunidade imperdível. 
Do mesmo modo, nem o clima agradável, nem os doces deliciosos me davam saudades depois do regresso da Península Ibérica para a Polónia. Também não foi a cultura o que prevaleceu. A cultura polaca, apesar de defeituosa, permanece a única com que me posso identificar plenamente. A mais evidente entre as síndromes de abstinência de Lisboa, foi a falta da língua portuguesa no meu dia a dia. O idioma tão mais querido quando experimentado fora da sala de aulas, no seu ambiente natural. Talvez pareça excêntrica esta confissão, mas Portugal e o Brasil eram para mim mais ligados com a linguística do que com qualquer outro universo (incluindo a gente, a cultura, o clima). A fala e a escrita eram na minha visão a chave – facilitavam-me perceber tudo o que me rodeava ou ia me rodear nestes espaços obscuros. 

  Uma outra revelação curiosa: eu era muito intolerante em relação à variante brasileira do português antes de chegar à América do Sul. Era do meu ponto de vista a versão inferior, ruim. Tudo por causa da minha atitude nociva: queria falar português perfeito, sem “contaminações”. No início, não podia cumprir este requisito misturando português com espanhol. Depois de me livrar do idioma de Cervantes, o português brasileiro tornou-se um inimigo declarado. Nessa altura, minha filosofia não me permitia, por exemplo, deixar os pronomes possessivos sem artigo. Que blasfémia seria isso! A gente não iria aceitar. Os pronomes pessoais quase sempre precedendo um verbo? Me parecia impensável. Uma superabundância de construções gramaticais com gerúndio dava-me vertigens. Nem sequer estou brincando. 
  A legião de discordâncias, iniciada pelo famoso Grito do Ipiranga de 1822, é ainda mais numerosa. Entre os rebeldes: o sotaque que difere bastante da variante portuguesa. A pronúncia insubordinada varia bastante de região para região dentro do Brasil mesmo, ainda mais que em Portugal que por sua conta abriga muitas peculiaridades. O vocabulário também mantém certa independência. Na era digital Portugal e o Brasil apresentam teclados diferentes apesar de partilharem o mesmo alfabeto. 
Apesar de tudo isto, decidi provar algo novo, aventurar-me. A aprendizagem de português no meu caso tinha sempre muito a ver com um esforço consciente. Queria, pelo menos durante alguns meses, mudar de atitude. Quando aprende, a criança tem de conhecer, em primeiro lugar, os sons da língua materna e só após esta introdução adquire habilidade para ler e escrever. Para dominar a língua estrangeira é necessário um empenho de outro tipo – o aluno deve ler com atenção, memorizar as regras, etc. Por isso, as competências do falante nativo são diferentes das do estudante de fora. Um bom exemplo desta regularidade é que os portugueses e os brasileiros têm muitas vezes problemas em perceber-se uns aos outros (sem falar nos estrangeiros). Em ambos os casos têm de se acostumar a sons desconhecidos. Paradoxalmente, é mais fácil entender variantes distintas para nós – os adeptos zelosos da escrita. 

Por outro lado, a arte da conversa diária bem sucedida reside em não ter papas na língua, no sentido de não pensar muito na correção gramatical, só se preocupar com ser entendido. A ideia mesma aliena o estudante de Letras. Para ele é inconcebível esquecer a conjugação, declinação, frase, crase, sintaxe. Ele trata estes fenómenos como os elementos essenciais da língua. Sim são unidades indispensáveis no discurso linguístico, fazem parte inerente da metalinguagem, mas para os 95% de falantes não importam. É necessário para nós – filólogos – termos em conta que somos um nicho. Devido à familiaridade com a norma a nossa expressão é correta, pura, mas, ao mesmo tempo, falta-lhe vigor, naturalidade. Obedece à regra, ignora, porém, interjeições, superfluidades típicas dos falantes nativos. 
A estada no Brasil em consequência do intercâmbio em Portugal isentou-me das restrições quotidianas, mas não me virou contra a filologia. Longe disso. Ao contrário, só ressaltou a importância de cuidar da fala e escrita e afirmou o papel dos filólogos neste processo que é… dar exemplo. A língua está sempre a mudar e, visto que é a propriedade coletiva dos homens sábios, não temos poder individual de parar a transformação. É-nos possível apenas influenciá-la. No entanto, para promovermos o crescimento da língua, antes disso, precisamos de entender a relação entre as diferenças que a constituem e que determinam as mudanças seguintes. 

A minha passagem por Terras de Vera Cruz chega ao fim e é muito provável que o meu português seja agora mais corrupto do que os políticos brasileiros, mas que experiência libertadora é essa! Tanto conhecimentos linguísticos como literários importam. Não é à toa, porém, que dentro da estrutura universitária a filologia faz parte do campo mais vasto – do universo das ciências humanas. Afinal, não era a língua o que me limitava, mas o medo dela. Com a muralha do preconceito desmantelada, não há mais fronteiras. Posso continuar a conhecer as pessoas, as suas culturas, descobrir novos mundos como Pedro Álvares Cabral há cinco séculos só com uma ferramenta maravilhosa – a língua. Talvez seja por acaso… Agora mesmo veio-me à cabeça uma ideia estranha de visitar a África. 

Agradeço ao Departamento de Estudos Portugueses da UMCS. Foram eles que me possibilitaram chegar a esta conclusão humanística. Valeu. 

 Bartosz Suchecki 
3º ano Estudos Portugueses

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Morreu o Rei Eusébio

Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014)

Morreu o melhor jogador de futebol português de sempre, o "King" Eusébio. Um dos melhores do mundo tem lugar garantido no panteão dos deuses. Veio da então colónia de Moçambique para encher de alegria um Portugal cinzento e tristonho. Espalhou classe pelos estádios por esse mundo fora com a camisola da quinas ou de águia ao peito. 
Palmarés individual:


Pelo Benfica:
 Entre maio de 1961 e abril de 1975: 596 golos em 557 jogos, com a média de 1,07 golos por desafio, divididos pelas várias competições nacionais (Campeonato, Taça de Portugal, Taça de Honra, Taça Ribeiro dos Reis e Campeonato de Reservas) e internacionais (Taça dos Campeões Europeus, outras competições europeias e torneios internacionais). 2 Ligas dos Campeões , 11 vezes campeão nacional, 5 taças de Portugal.

Por Portugal:
Entre outubro de 1961 e outubro 1973: 41 golos em 64 jogos, com a média de 0,64 golos por desafio, divididos pelas várias competições (apuramento e fase final de Mundiais e Europeus e encontros de preparação). 3º lugar no campeonato do mundo de 1966

Prémios individuais:
1962 - “Bola de Prata” da revista France Football para segundo melhor futebolista na Europa.
1963/64 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 28 golos.
1964/65 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 28 golos.
1965 - “Bola de Ouro” da revista France Football para melhor futebolista na Europa.
1965/66 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 25 golos.
1966 - Melhor marcador da fase final do Mundial Inglaterra66, com nove golos; Melhor Jogador do Mundial Inglaterra 66; “Bola de Prata” da revista France Football para segundo melhor futebolista na Europa.
1966/67 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 31 golos (ex-aequo com Figueiredo, do Sporting).
1967/68 - “Bota de Ouro” para melhor marcador europeu, com 42 golos; Melhor marcador do Campeonato Nacional.
1969/70 - Melhor marcador do Campeonato Nacional, com 21 golos.
1972/73 - “Bota de Ouro” para melhor marcador europeu, com 40 golos; Melhor marcador do Campeonato Nacional.

Distinções:
1966 - Medalha de Prata da Ordem do Infante D. Henrique.
1981 - Grande Colar do Mérito Desportivo.
1982 – “Águia de Ouro” do Sport Lisboa e Benfica.
1990 - Grande Colar de Honra ao Mérito Desportivo.
1992 - Ordem do Infante, Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa, Estátua em bronze à entrada do Estádio da Luz.
1994 - Ordem de Mérito Federação Internacional de Futebol.
1998 - Membro inaugural do “Galeria dos Campeões” (Hall of Champions) da FIFA, em conjunto outras oito glórias do futebol mundial.
2000 - Terceiro melhor futebolista do Século XX para a FIFA, a seguir a Pelé (Brasil) e Maradona (Argentina).

Fontes:
A Bola, Record, Zerozero.pt