quinta-feira, 25 de abril de 2013

Vamos às compras!? Outra vez...

Sou mulher e não gosto das compras - esta frase é quase como um oximoro. Mas eu realmente não gosto das compras. Desde pequena que se notava o motim no meu comportamento: 
 –Abre a boca! 
 –Não.
 –Diz “a”.
 –“b”. 
 Mas não ia falar da minha meninice. As compras, o consumo, a publicidade, o gasto de dinheiro - não, isto não é o meu lado mais forte (sobretudo a última questão, o dinheiro é como o meu amigo... virtual, mas continua sendo o meu amigo!), então digo um calado e indeciso ‘não sei’ às compras. Pois não se pode evitar o consumo nem reduzi-lo a zero, então não sou tão masoquista para obrigar-me a sofrer todos os dias. O que é que eu compro? As coisas mais necessárias para viver é claro, a comida, os produtos da higiene pessoal, o chocolate, os cosméticos, os brincos... Só para escrever composições tenho de comprar as canetas todos os meses. E quando ando pela zona das canetas perto encontram-se outras coisas que eu acho imprescindíveis: o coador (está em liquidação!), a laca para o cabelo, entre outras coisas que naquele momento acabam. Além disso, um cartaz grande lembra-me de que só hoje posso comprar as meias que normalmente vendem com o preço três vezes mais alto. Concluindo, eu pertenço ao grupo “consumidor normal”, ou seja, costumo comprar o que é necessário e o que me dizem que necessito. Quem? Os amigos, a sociedade, a moda, o apresentador na televisão. E repito outra vez: não gasto das compras, as compras gostam de mim.
 Edyta Marzec 

 O mundo de hoje oferece-nos um tipo de vida muito comercializado, cada um diz-nos que precisamos de alguma coisa, que temos de comprar o novo telemóvel ou vestido. Acho que temos de parar, desligar a televisão e deixar um pouco este mudo artificial. 
 Há um filme que se chama `Into the Wild´ e mostra a história de Christopher McCandless, um jovem que deixou a sua vida de luxo e o seu prometedor futuro universitário, cortou os cartões de crédito, queimou o seu dinheiro, pegou numa mochila e foi descobrir o mundo. Praticamente sem nada, viajou à boleia por uma parte da América e conseguiu chegar ao seu objetivo- Alasca. Ali, com vinte e quatro anos, morreu no meio do nada, sozinho. Ele tentava viver sem as coisas que considerava desnecessárias, não usava o carro, comia o que encontrava pelo caminho ou o que lhe davam as pessoas, dormia onde podia. Gostei muito deste jovem, que tinha a cabeça cheia de ideais tirados dos livros de Jack London e Leo Tolstoy e que tinha coragem para viver a vida à sua maneira. 
 Depois de ver este filme, fiquei a pensar sobre como as pessoas complicam a vida com todas as coisas inúteis que tem. Não acho que o vigésimo vestido ou o novo telemóvel sejam tão importantes. As pessoas compram a roupa elegante só para que os vizinhos os vejam, compram cremes, máscaras e pós para ficarem mais lindas e gastam muito dinheiro nas férias num hotel de cinco estrelas, com o SPA, piscina e ginásio, como se uma noite numa tenda sem um jantar elegante pudesse matá-los. Temos cada vez mais dinheiro e separamo-nos da vida real e da natureza com uma muralha de plástico e vidro, como se fossemos mais belos e mais perfeitos do que o resto de mundo, como se um batom e um verniz de unhas nos tornasse em seres supernaturais. E só depois compreendemos que o mundo verdadeiro é o que viajamos a pé e tocamos com as nossos mãos, e não o que vimos na televisão ou pelo vidro dum carro. Eu não faço muitas compras, mas há uma coisa que compro sempre e não penso deixar de fazer. São, obviamente, os livros. Mas para mim, isto não é só mais um produto comercial, mas a história de algumas pessoas, seja verdadeira ou inventada, não importa. Uma livraria é um lugar com alma, e não é fácil encontrá-lo, porque não há muitas. No nosso mundo cheio de comércio, temos de parar por um momento e pensar sobre a nosso estilo da vida. Acho que se aprendemos a passar um dia a, por exemplo, fazer desporto em vez de estar no centro comercial e temos mais contato com a natureza, seremos mais felizes. 
Sylwia Jabłońska

sábado, 20 de abril de 2013

" UM FUNERAL À CHUVA" Contextodependência – Em Busca de Sentido



Na cultura há trabalhos que são únicos e, ao mesmo tempo, universais. Conseguem captar a atenção da maioria dos observadores – fazem-nos pensar e comovem-nos. São universalmente reconhecidos, elogiados tanto pela crítica como pelo público. Constituem o ápice da criatividade dos seus autores – são as obras-primas deles, a crème de la crème do género. Existem também produções que nem sequer se juntam ao grupo elitista – são mais mundanas, mas ainda assim sólidas e podem funcionar surpreendentemente bem num contexto definido. Eu incluiria nesta segunda lista o filme que fez parte da série de sessões de cinema português organizada no Centro de Língua Portuguesa Camões – “Um Funeral à Chuva” – uma obra suficientemente intrigante para me fazer esquecer das suas imperfeições como se não importassem nem um pouco.
O filme foi classificado como “comédia”, mas, apesar desta avaliação, acho que a qualidade da criação está fora dos elementos satíricos que são, por vezes (as piadas dirigidas a um casal homossexual entre outros clichés), demasiado previsíveis. Portanto, não tenho dúvidas: uma obra-prima – este “Um Funeral à Chuva” não é.
Contudo, a magia da cultura consiste no facto de que as suas expressões não têm de ser impecáveis para que um indivíduo se emocione e identifique com elas. Às vezes, basta que um observador, espetador, leitor, etc. encontre nelas os valores comuns com o autor. E com certeza não faz mal se a mundividência apresentada for compartilhada entre a audiência. Tendo em conta estes fatores, acho que durante a projeção a 17 de abril de 2013 a longa-metragem de Telmo Martins realizou todas as potencialidades. Apesar de que a minha primeira impressão ainda durante a exibição fosse que o que via era um pouco depressivo, ao sair da sala do Centro vi também um vislumbre de esperança. Isto parece contraditório, mas, na verdade, é perfeitamente compatível.
A intriga concentra-se na história de um grupo de amigos dos tempos académicos. Depois da conclusão do curso os seus caminhos separam-se. O motivo da reunião 10 anos mais tarde é a súbita morte de um deles – o João. Os protagonistas chegam à Serra de Estrela (o lugar onde o João queria ser enterrado) na véspera do funeral para relembrarem a vida do falecido. Esta ocasião é o pretexto para conhecermos a evolução da sua amizade, as atividades que compõem a sua vida atual e, consequentemente, os carateres das pessoas – com um leque de virtudes e defeitos. Por meio das histórias ouvidas no restaurante à volta da mesa distinguem-se as diferenças entre os reunidos. Dizem petas, fazem observações sarcásticas, alguns têm os problemas com a aceitação deles mesmos apesar do aparente êxito profissional (Diana) ou, antes pelo contrário, ficam felizes na vida pessoal a despeito de serem mal sucedidos no trabalho (Rui). Mas, sobretudo, todos se sentem bem neste conjunto.
Apesar disto, acho secundários os pormenores do enredo e as personagens. A depressão aparente que o filme me trouxe à primeira vista e a esperança que se seguiu fazem parte da mesma magia que decide sobre a singularidade da arte. O componente essencial nesta mistura mágica e a palavra-chave para a minha perceção da criação de Martins é “contexto”. “Um Funeral à Chuva” é um filme de contexto – em dois sentidos. Em primeiro lugar, como já mencionado, funciona melhor em ambiente definido – entre os jovens, preferivelmente os estudantes. O que é mais importante é que, em sentido mais lato, descreve o papel do contexto na nossa vida.
Por um lado, a morte do João que é o eixo da narrativa, ou melhor, a reação do pessoal perante a sua visita inesperada na vizinhança faz com que sentisse o desespero ligado à fraqueza humana, à falta de escolha, de atitude adequada em face do destino. Os amigos, com exceção do Zé, tentam lutar com o facto do falecimento do companheiro relaxando-se – bebem vinho, riem-se, brincam e trazem à luz as memórias – comportam-se como se ainda fossem os estudantes. Parecem não ter papas na língua nem preocupações nenhumas. No entanto, pode-se notar que o seu contentamento é ilusório – a reunião é um baile de máscaras. Todos os participantes estão conscientes da realidade do problema, mas esperam que se possa enterrá-lo como se fosse um cadáver que nunca mais viria à tona. As cenas seguintes mostram, porém, que este procedimento pode fazer sentido.
Os protagonistas começam a aprender como abordar a dificuldade – a sua fórmula é simples: a unidade que se baseia nas experiências passadas comuns, restabelecida no presente. Têm de se ajudar uns aos outros, criar um sistema de apoio próprio, visto que fazem parte da geração que rejeitou o conceito de Deus, da verdade absoluta e, consequentemente, a comunidade religiosa. A religião que antigamente era o guia nunca contestado na matéria espiritual, sem a qual não se tocava no assunto, que explicava a morte e as suas consequências, perdeu a sua autoridade. Por conseguinte, o plano religioso, além da coleção das cruzes no apartamento da velhinha devota e a igreja onde se situa o caixão do João, na realização de Martins é inexistente.
Indo mais longe, a realizadora roça o tema do niilismo – desta maneira interpreto a disputa entre o Marco e o Zé. O Zé – um professor académico – sente que os preparativos e a cerimónia de funeral precisam da seriedade e exige que os companheiros sigam a sua opinião. O Marco – um escritor – não gosta desta atitude bastante tradicional, mais solene perante a morte (a necessidade de luto) e acusa o Zé de moralização desnecessária. Sugere que toda a gente tem direito a experimentar esta dificuldade como quiser e que não existe a norma universal. Parece que a forma de agir do Marco não provém da sua indiferença, mas é uma luta interior, uma tentativa de encontrar a crença, os limites que podia respeitar na sua vida.
Para mim, o filme narra não só a história do João e os seus amigos, mas, sobretudo, descreve a situação da nova geração que tenta redefinir as regras de vida, conferir o sentido à existência privada, por eles mesmos, da promessa de eternidade. Os amigos procuram as respostas sem auxílio, sozinhos, e, paradoxalmente ou não, encontram-nas na – desta vez não religiosa, mas laica – comunidade. As suas brincadeiras, as tolices ditas enquanto estão bêbados, ainda que pareçam não servir para nada, formam entre eles uma ligação, deixam-lhes gozar da presença de outros. E isto é o reverso da medalha, um fator animador, o fragmento otimista da mensagem – o que importa no mundo caótico são as pessoas que nos rodeiam. O João não era exatamente o rei da festa, mas os amigos aceitavam-no.
Telmo Martins – um jovem realizador português criou um filme cuja ideia central, se calhar, traduz-se só para o público-alvo – as pessoas de 20, 30 ou 40 anos. Para este grupo a noção do argumentista paradoxalmente, pode parecer universal. Isto é o mérito principal da produção – a coerência entre a mensagem da própria obra e a atitude exigida para a perceber. A interpretação do filme depende do contexto, do mesmo que os protagonistas do enredo tentam encontrar em proveito da sua vida. Isto, bem provavelmente, pode guiar-lhes aos paradoxos. Já no século XVII Hamlet na famosa tragédia shakespeariana disse: “Nada em si é bom ou mau; tudo depende daquilo que pensamos”. Talvez a nova geração privada de soluções certas, suponha que a felicidade própria reside em busca da felicidade e o fim é só um meio?

Bartosz Suchecki
2º ano de Portugalistyka, UMCS

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A festa de São Jacinto


Uma das minhas lembranças da infância são as festas populares que se celebravam em honra do patrono da igreja local, são Jacinto. No meio do bonito mês do agosto, quando ainda fazia calor e as pessoas andavam relaxadas, o Jacinto convidava todos os habitantes do meu bairro industrial em Gliwice para a sua festa.
Por esta ocasião a rua em frente da igreja ficava fechada à circulação e estendiam-se as bancas carregadas de brinquedos de origem chinesa. Os avós generosamente ofereciam aos seus netos dinheiro que se esgotava num instante. Os miúdos tentados pelos pavilhões com armamento carregavam as suas pistolas de plástico que ao disparar transtornavam os sons da música festivaleira e deixavam uma nuvem de fumo asfixiante. Num ano, o verdadeiro hit eram as grandes e peludas tarântulas com uma corda o que possibilitava levá-las a passear como se fossem os cãezinhos e aterrorizar desta maneira os animais domésticos. Noutro, estavam na moda os olhos artificiais em forma de bolinhas pequenas que depois circulavam por toda a escola.
No pavilhão de doces reuniam-se todos. As velhotas compravam bolos de mel e os croissants de são Jacinto. As crianças preferiam uma espécie de pastilha elástica comprida e extremamente ácida que provocava o concurso de caretas.
O ponto central (o mais excitante) era o sorteio. O dia todo compravam-se bilhetes, no entanto os prémios mais valiosos esperavam até à noite, quando toda a gente se reunia para ouvir com inquietação o veredito. O prémio principal era a figura do nosso patrono, mas a esmagadora maioria das pessoas preferia obter algum eletrodoméstico. Então, para que o santo não chegasse a mãos indignas, (para que ninguém o tratasse como se fosse umaa escultura que serve para enfeitar o jardim) ficava sempre com ele um dos membros do conselho paroquial.
À noite havia um concerto, em que não participavam os coros nem músicos gospel, senão as verdadeiras estrelas pouco brilhantes. Era como um concurso de talentos: os comediantes entretinham a platéia falando na língua silesiana, havia uma apresentação da escola local de idiomas que também se ocupava de dança, um grupo de entusiastas cantava os grandes hits italianos (“não sabemos italiano, nas conseguimos aprender os textos de cor, porque é uma língua muito bonita”).
E o Jacinto? Parece que ninguém pensava nele (salvo o feliz dono da sua figura enorme). Se calhar divertia-se bem vendo a criatividade do seu povo e repousou com alívio de que esta vez também não partilharia o destino dum duende de jardim.

Kamila Wiśniewska