quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Mini guia pelo Porto segundo uma ex-estudante Erasmus

  Chegou o outono. As folhas coloridas cobrem os passeios nas ruas na Polónia e em Portugal. Com certeza em quantidade maior na Polónia, porque o tempo em Portugal parece o do verão. O verão de São Martinho. Sente-se o calor abafante misturado com o cheiro das castanhas assadas nas ruas do Porto. Do Porto lindíssimo que cada vez mais torna-se o destino de viagem para muitos turistas de todo o mundo. 

Vista para o Porto e Vila Nova de Gaia dos Jardins do Palácio de Cristal

  A minha aventura com a Cidade Invicta começou há mais que um ano. Sendo estudante do primeiro ano do mestrado em Estudos Portugueses da UMCS escolhi a Universidade do Porto como a instituição para a realização da bolsa do programa Erasmus +. A variedade da oferta que a FLUP apresentou foi um dos fatores a favor da minha escolha. É óbvio que cada um tem a sua preferência quanto ao objeto dos estudos. Contudo, vale a pena sublinhar o facto de que o Centro da Linguística da FLUP é um dos pontos de referência mais importantes e ativos no mapa dos estudos da língua portuguesa. Entre as disciplinas que se podem escolher destaco as aulas no âmbito de tradução, ensino de Português como Língua Estrangeira, aspetos culturais dos países lusófonos, literatura ou cadeiras relacionadas com ciências da linguagem. Os gostos não se discutem. Porém, para mim foi uma oportunidade única poder frequentar as aulas do mestrado em PLE. Mesmo que não tivesse vocação para ser professora de línguas as aulas foram muito úteis e deram-me uma perspetiva diferente da língua portuguesa. Foi uma oportunidade de estudar o material que não podia seguir na UMCS por falta das cadeiras adequadas. Além disso, não posso omitir o facto de que os funcionários da UP sejam muito simpáticos e prestáveis. Tanto os professores como as funcionárias do gabinete das relações internacionais, o ponto fulcral para os estudantes Erasmus.

Vista para o Porto do Terreiro da Sé

  Por outro lado, as pessoas podem dizer: estudar não é a coisa mais importante durante o intercâmbio. É verdade. Para nós, filólogos, o mais importante é imergir e ser como uma esponja, isto é, captar e assimilar tudo o que estamos a ouvir à nossa volta. Erasmus para o futuro filólogo é quase como uma viagem a Meca para um muçulmano. Em uma palavra: obrigatória. Poder ouvir o português vulgar na Ribeira ou perto da Sé é inesquecível. Como dizem os próprios portuenses: na norma nortenha em dez palavras ouvem-se onze palavrões. E ninguém fica ofendido entre um c@r@**o e o outro. Pelo contrário. Os palavrões no Porto e Norte já perderam o valor ofensivo e tornaram-se o pão nosso de cada dia. Mas os palavrões e o léxico próprio não são a única diferença que destaca a norma nortenha da norma padrão. Pelo contrário, os alongamentos vocálicos, o sotaque diferente, a ditongação e tom alto que parece quase como se alguém estivesse aos gritos. Para alguém habituado ao modo de falar dos lisboetas o confronto com um tripeiro pode causar grande choque. Em comparação com as alfacinhas os nortenhos até parecem ser muito pouco educados e antipáticos. Nada mais errado! Os portuenses são muito simpáticos, abertos, gostam de ajudar as pessoas e de brincar. Às vezes nós, estrangeiros, tornamo-nos as vítimas das piadas que pouco entendemos quer por lacunas no domínio do léxico local quer por causa de fala muito rápida e sotaque distinto, não tão fácil de compreender. Contudo, uma visita ao Porto para um filólogo abunda em experiências novas que não se aprende nem na aula de português na faculdade nem em outra parte de Portugal.
O intercâmbio Erasmus é muito mais que uma viagem a um país estrangeiro. É uma experiência de viver em condições bem diferentes das que estamos habituados. A situação obriga-nos de sair da nossa zona do conforto e muitas vezes temos de chegar aos acordos que resultam de diferenças culturais. É claro que um estudante Erasmus das línguas está perante um dilema: compartilhar o apartamento com outros estudantes internacionais ou alugar um quarto no seio de uma família portuguesa para poder aprofundar o seu conhecimento do idioma. No meu caso, optei pela segunda solução e tive 10 meses de ótima experiência de ver de perto o que significa ser português, portuense e ...portista! Ouvir os gritos de alegria que chegavam ao meu quarto da sala no primeiro andar quando o Porto estava a ganhar e as brigas simpáticas da dona da casa com o vizinho benfiquista. Se alguém ainda duvida que o futebol é a religião em Portugal tem de vir ao Norte do país. Alguém podia dizer: estavas a viver com uma família, então não deves ter conhecido muitas pessoas novas. A minha resposta é: um fator não exclui o outro. Conheci pessoas novas tanto de países estrangeiros como outros portugueses. 

Praça dos Leões com o Café Piolho ao fundo e o edifício da Reitoria da UP à esquerda

O Porto é a cidade ideal para fazer amizades, porque não é tão grande como Lisboa e não é tão pequena como por exemplo Vila Real ou Covilhã. Na sua oferta da vida noturna abunda numa lista dos pontos de interesse. Um deles é a Adega Leonor com o Café Piolho ao lado, perto do edifício da Reitoria da UP na Praça dos Leões. A famosa Adega é o principal ponto de encontro antes de começar a sua rota das discotecas. Durante os fins de semana e nas vésperas dos feriados está cheia de pessoas que adoram conviver com os outros ao ar livre. Nos dias de verão o pessoal reúne-se ainda antes da noite no miradouro das Virtudes, onde acompanhados de umas minis, observam o pôr do sol. Na minha opinião não é o pôr do sol mais lindo no Porto. Este podemos vivenciar nos Jardins de Palácio de Cristal, observando o céu em cima da Ponde de Arrábida com o sol a desaparecer no horizonte na Foz de Douro. Contudo, não há melhor rua para passar a noite que Galerias de Paris! Várias discotecas mais famosas do Porto estão localizadas lá. Porém, se alguém está a pensar sobre os tamanhos das discotecas na Polónia até pode ficar muito desiludido, pois em comparação as discotecas portuenses são mais pequenas e quase sempre estão cheias. 

Vista para o pôr do sol dos Jardins de Palácio de Cristal

  Por outra parte, quem precisar de descansar no Porto também pode encontrar algo de acordo com o seu interesse. Como a palavra «descanso» é muito subjetiva, pode significar formas de entretenimento diferentes. Primeiro, há quem descanse fazendo as compras. Para este tipo de pessoa a Rua de Santa Catarina é o lugar ideal. Localizada no coração do Porto, perto da Batalha, apresenta uma variedade das lojas de roupa, calçado e produtos regionais. Segundo, há quem descanse no seio da natureza. Portanto, é recomendável visitar um dos vários parques e jardins do Porto. Temos bastante escolha entre Jardins do Palácio de Cristal, Parque de São Roque, Parque da Cidade, Parque e Jardim da Fundação Serralves ou Jardim Botânico. Terceiro, há quem descanse participando em eventos culturais. A vida no Porto abunda em concertos, exposições ou estreias de teatro. A Casa da Música e o Coliseu têm uma oferta variada dos concertos de estilos musicais diferentes. Além disso, há muitos museus na cidade que prendem e fascinam com as suas exposições. Na lista obrigatória fica o Centro Português da Fotografia, Museu dos Descobrimentos, Museu de Carro Eléctrico, Museu da Farmácia, Museu da Imprensa e muito mais! Entre os teatros uma das paragens obrigatórias fica na Batalha, onde podemos assistir a uma peça no Teatro Nacional São João ou no Teatro Sá da Bandeira. E não é preciso ter muito dinheiro para poder aproveitar-se deste tipo das diversões, porque parte dos eventos tem a entrada livre e a entrada para os outros não custa muito. Portanto, é a situação ideal para o bolso do estudante. Por último, existe o quarto grupo das pessoas que descansam quando... comem e bebem. Este grupo quando aparecer no Porto tem a tarefa mais fácil, porque praticamente em cada lugar come-se muito bem e com os preços razoáveis. E claro, um ponto obrigatório na sua visita ao Porto são as caves de vinho do Porto que ficam em Vila Nova de Gaia. Muitas vezes os portuenses gostam de meter-se com os gaienses e dizem que a melhor coisa que a Gaia tem é a vista para o Porto.  

Vista para o Porto do cais de Gaia

  Além das exposições e outros eventos culturais cada fim de semana organizam-se feiras de artesanato e dos artigos vintage, aulas de ioga ao ar livre, etc. O Porto é uma cidade muito ativa no seu desenvolvimento que além das vistas belas tem algo mais para seduzir. É o ambiente que faz com que os estrangeiros possam sentir-se como em casa. E foi por esta razão que voltei para o Porto para realizar o estágio no âmbito do programa Erasmus +. Porque é uma cidade mágica que encanta com as suas ruelas estreitas e casas revestidas com azulejos. É uma cidade acolhedora e mesmo que tenha muitos estrangeiros sente-se ainda esta «portugalidade» profunda do povo. E não apenas se sente! Logo se absorve e põe na prática. 

As casas típicas do Porto na Ribeira

Anna Krupa

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Concurso de fotografia: Portugal Natural

O concurso de fotografia "Portugal Natural", já tem um vencedor: Pamela Paradowska com a reportagem "Mundo incomum". 
Parabéns Pamela!




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Entrevistas improváveis


Uma entrevista inacabada com o Conde Drácula

Henio Trolejbus: Senhor Drácula, como se sente hoje? Sabemos que ultimamente tem tido problemas de saúde.
Conde Drácula: Estou bastante bem. Tomei os medicamentos prescritos pelo meu psiquiatra. Todos os meus problemas como úlceras ou insónia são resultados da depressão.
HT: O que é que o seu psiquiatra diz sobre a causa da doença?
CD: Diz que está relacionada com o estresse. Como presidente da Ordem de Vampiros estou muito preocupado com os últimos acontecimentos e a fama atual do meu género.
HT: Que acontecimentos?
CD: Trata-se sobretudo do lançamento deste livro para crianças com deficiência mental: Madrugada, Amanhã, Tarde, Noite... não me lembro agora do título. Pois, pago muito ao meu psiquiatra para poder esquecer-me. Dantes, eramos monstros assustadores. Fomos inspiração para autores de livros de terror. Ao ler na descrição do filme a palavra «vampiro» já se sabia que se ia ver uma imagem misteriosa, sinistra, que não deixava dormir, com muito sangue...
HT: É verdade que os vampiros podem sobreviver sem beber o sangue humano?
CD: Disparate! Graças a esta necessidade causamos tanto temor. Todos sabiam que não éramos capazes de controlar esta fome. Assim, as nossas vítimas quando atacadas morriam de medo sabendo o seu destino. E agora acham que as queremos abraçar. Dantes, o vampiro significava morte, hoje significa amor.
HT: Considera ofensiva esta associação?
CD: Pois, claro! Cuidamos da nossa reputação durante séculos mantendo uma atmosfera de terror perto de nós. Conseguimos criar um conjunto de características próprias do nosso género: força, poder, majestade, elegância, escuridão... E de repente este idiota brilha no sol!
HT: Então, o que realmente se passa com a pele de um vampiro em contacto com os raios de sol?
CD: Matam-nos.
HT: Mas... Não estão já mortos?
CD: Pois... Antes de fazer estas perguntas, deve saber que hoje tenho muita fome...
HT: O que tem são úlceras e eu sou difícil de digerir.
CD: Está a ver? Já ninguém tem medo de nós! É o nosso fim! O nosso império construído há séculos chega ao fim. Não há esperança! Não há futuro. Não há nada...
HT: Senhor Drácula?...


«Detesto o Patinho Feio!» entrevista com Hans Christian Andersen

Henio Trolejbus: Desculpe por ser pomposo – qual é o sentido da vida?
Hans Christian Andersen: Desculpa por ser honesto – a vida não tem sentido. Nascemos só para morrer. Afinal, o único que resta de nós é uma lantejoula enegrecida pelo fogo. Cinza. Mais nada.
HT: Esta é a mensagem que quer transmitir às crianças com os seus contos?
HA: O meu objetivo é representar a realidade tal como é. A morte faz parte da vida, não se pode viver felizmente para sempre. As pessoas matar-se-iam se tivessem de viver para sempre. Podem ficar juntos e continuar a amar-se, na maior felicidade, até se partir.
HT: Isto é o que considera o happy end?
HA: Viver até à morte? Sim, parece-me muito happy end.
HT: Quando se vive na miséria também?
HA: Claro! Neste caso a morte põe fim à miséria, à fome, à prisão da vida.
HT: Então, aconselha aos seus jovens leitores para que se matem?
HA: Não, não. Eu aconselho que tenham esperança.
HT: Como a rapariguinha dos fósforos?
HA: Como o patinho feio. Maltratado na infância tornou-se bonito e ficou feliz.
HT: Quer ensinar às crianças que a beleza dá felicidade? Que só o branco é bonito? Um feio não merece o respeito por si mesmo, mas por ser um feio que pode tornar-se bonito um dia?
HA: Essas são perguntas para o meu editor e advogado. Na versão original um dos patos suicida-se por não poder suportar tanta humilhação e o outro ao tornar-se um cisne forte procura a vingança pela morte do seu irmão. Eu não escrevi nada sobre beleza.
HT: A vingança? Não é um motivo popular nos seus contos.
HA: Proibiram-me de usá-lo porque não é didático. Aparentemente, é didático mostrar animais que insultam o patinho feio sem nenhumas consequências.
HT: Não gosta do seu conto mais conhecido?
HA: Do que restou do meu conto? Detesto. Ninguém morre. Desde o lançamento, cada vez que vejo um cisne, disparo de fisga.
HT: É curioso que o seu melhor conto foi na realidade escrito por outras pessoas.
HA: Onde está a minha fisga?
HT: Então, qual dos seus contos é o seu conto preferido?
HA: A Margarida. Sobre um pássaro e uma flor cativados, fechados numa gaiola onde morrem por serem esquecidos e abandonados.
HT: Voltando à pergunta do início da nossa conversa. A mensagem que quer transmitir às crianças é que a vida não tem sentido?
HA: Sim. É mesmo assim.

Małgorzata Stankiewicz