quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O meu avô


O meu avô Bolesław foi o avô ideal. Ele tinha uma barba bem aparada, caminhava com uma bengala e mostrava-me a beleza das coisas mais simples. Foi com ele que pela primeira vez procurei cogumelos na floresta, soube o nome das árvores e dos pássaros. Ele deu-me o segredo de como respirar profundamente e encontrar o meu caminho para casa no caso de me perder. Ele podia acender o fogo com um fósforo e, usando um canivete para talhar um pedaço de madeira, esculpir um cãozinho ou um cavalinho. Assim que eu lhe pedia, reparava os meus brinquedos preferidos, quebrados pelo uso excessivo. 
A sua presença na minha vida era algo tão óbvio e importante que nunca me incomodou o facto de que não era realmente o meu avô, se considerar corretamente as relações familiares, mas o irmão da minha avó materna Wanda. Ainda assim, nunca me ocorreu referir-me a ele de forma diferente do que o “avô“ porque desempenhou o seu papel perfeitamente. Os “avós” Bolesław e Wanda criaram o mundo da minha infância, e apesar do facto de que na família havia outras pessoas da sua geração que pelas razões formais também merecem este título, o seu reinado foi inquestionável. O marido da minha avó Wanda morreu dois anos antes de eu nascer , então eu só o conheci a partir de fotografias. Os meus avós paternos sempre mantiveram a distância a partir do momento em que o meu pai decidiu abandonar a família. 
Cada geração vive numa época histórica, mas duas guerras afetaram profundamente o destino dos meus avós e bisavós, assim como a história de toda a minha família. Porque eles nasceram nas áreas da fronteira, que hoje pertencem à Ucrânia. A minha bisavó nasceu em Zhitomir e depois de 1917, teve que fugir da sua aldeia natal, juntamente com as outras jovens. Ameaçadas pelos soldados ucranianos, que eram conhecidos por violar mulheres. Quando, alguns anos depois de se formar numa escola católica, ela quis voltar para a sua casa, no seu caminho foi parada na fronteira, que não estava lá antes. A minha bisavó não tinha documentos, então foi parado por um policia montando um lindo cavalo branco. Ele afinal veio a ser o meu bisavô. Nunca escondeu que a minha bisavó o imediatamente lhe chamou a atenção, então, para protegê-la da prisão pediu-lhe a mão. O casamento ocorreu no mesmo dia, e a minha bisavó nunca regressou para a família de Zhitomir. Desta união nasceram dois filhos, Wanda e Bolesław, os meus queridos "avós". 
O meu bisavô tinha raízes nobres e trabalhava na polícia montada a proteger a fronteira. Ele ensinou os seus filhos a respeitar e conhecer os animais e a natureza. Era um amante de cavalos e um grande cavaleiro. Aparentemente, montou a famosa égua castanha, que mais tarde pertenceu ao primeiro chefe de estado Józef Piłsudski. Uma vez trouxe da floresta um filhote de lobo abandonado que quando cresceu se tornou melhor amigo do meu avô. 
A primeira fase da infância de meu avô foi um período idílico passado em constante contato com a natureza. Naquela altura os pais e professores tinham sempre razão e os filhos eram educados com rigor e de forma consistente, mas o meu avô foi educado para ser um homem de honra, que sempre mantinha a sua palavra. 
A infância despreocupada foi brutalmente interrompida pela guerra. Uma noite, os soldados soviéticos entraram em casa. Eles deram à família apenas meia hora para arrumar as coisas. Um soldado disparou contra o lobo do meu avô, que estava a tentar defender os seus queridos. A minha bisavó foi deportada para o Oriente com os dois filhos e passou a guerra num campo de prisioneiros soviético no Cazaquistão. O meu bisavô foi preso e transportado para Kamchatka. No Cazaquistão o meu avô trabalhou numa mina de prata. Disse-me que quando trabalhava no turno do dia, houve meses em que ele não viu a luz solar. Em seguida, ele foi convocado para o exército e em 1945 chegou às proximidades de Varsóvia, onde foi ferido em combate contra os alemães que abandonavam Varsóvia após a supressão da Revolta de Varsóvia. 
A família do meu avô perdeu na União Soviética todos os seus pertences. Eles já não tinham a casa para onde voltar, então concordaram, que depois de regressar e reunir-se com a família afastada numa aldeia perto de Lublin. Todos conseguiram, mas nunca chegaram a reunir-se. O primeiro foi o meu bisavô, que foi liberado do exército após ter sido ferido outra vez. Tinha que esperar pelo resto da família. Mas um dia os aldeões, pediram-lhe ajuda por ele ser militar. Na aldeia vizinha os soldados russos bêbados violavam as meninas polacas. O meu bisavô com os aldeões conseguiram dominá-los e capturar as armas. Como a perda das armas no exército soviético significava corte marcial, e muito provavelmente a pena de morte, os soldados começaram a pedir ao meu bisavô que lhes devolvesse as armas. Eles deram a palavra de honra que deixavam a aldeia em paz e nunca mais voltavam. Quando lhes devolveu as armas, e virou as costas para se ir embora, um deles alvejou-o pelas costas. O meu bisavô morreu um dia depois num hospital nas proximidades de Kock. No mesmo hospital dois dias mais tarde, o meu avô Bolesław pediu informações para chegar à aldeia onde morava a sua família. A enfermeira notou uma semelhança impressionante entre ele e o soldado que tinha morrido há alguns dias, mas não disse nada. Sobre a morte do seu pai e as suas circunstâncias soube apenas pela família. 

A minha avó e a sua mãe voltaram do Cazaquistão quase um ano depois. O meu avô estava a trabalhar na reconstrução de Varsóvia. A minha avó entrou no comboio e mesmo sem saber o endereço encontrou-o numa cidade completamente em ruínas (ver foto). Ela guiou-se pelo coração e pelo desejo de ver o seu irmão.  A guerra marcou-os não só a eles, mas a toda a sua geração. Quando a guerra terminou sonharam só com uma vida modesta e estável, rapidamente assumiram a família, porque era para eles, para além da pátria, o maior valor. Para o meu avô, infelizmente, não era o fim das desgraças, como se a história não o tivesse castigado o suficiente. Ele teve um filho, que era muito talentoso artisticamente, no entanto, sofria da esquizofrenia e suicidou-se com 25 anos. Foi um golpe inimaginável para toda a família, mas em menos de um ano mais tarde, a minha mãe deu à luz a trigêmeos (eu e meus dois irmãos), e a vida continuou. Eu e os meus irmãos, em parte graças a tantas histórias dramáticas, podemos desfrutar da presença dos melhores avós, que se podem imaginar. 
A minha avó Wanda morreu quando tinha apenas 64 anos, o meu avô, com 84 anos. Ambos foram para mim umas das pessoas mais importantes na minha vida. Quando eu penso neles, espero que agora morem numa terra semelhante à terra da sua infância, despreocupados onde todos os membros da família que já morreram podem finalmente reunir-se.

Agnieszka Kędzierska
1º ano mestrado em espanhol

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