quinta-feira, 10 de julho de 2014

OS REIS PORTUGUESES NAS CRÓNICAS

Os dois textos que analisei: „Luzes e Sombras da figura do rei D. João no discurso cronístico régio” e “Pela pena e pela espada – historiografando um Portugal do Cancioneiro Geral” oferece um amplo conhecimento dos cronistas e melhor conhecimento dos reis portugueses e dá uma visão diferente e mais profunda da vida dos infantes e governadores portugueses. Assim conhecemos os dois lados dos reis portugueses: a imagem majestosa e do ser humano, a parte política e a parte humana, a evolução política e econômica.
 A construção imperial manuelina e joanina deu início a uma nova época da história de Portugal, época do Estado Moderno com fortes autoridades centralizadas. O Estado Moderno abrange três espaços: europeu, mediterrâneo e Ibérico – Castelhano. O primeiro espaço europeu mostra as mudanças de rumo da política portuguesa: diminuição da importância da ligação com Europa Norte por causa dos conflitos e guerra de Cem Anos entre a Grã Bretanha e a França. Assim o interesse político português mudou da Europa para África que em seguida começa já outro espaço – mediterrânico. Os reis portugueses encontram novas rotas comerciais por outro lado do Mar Mediterrâneo em Marrocos e África. E último espaço mostra a importância da paz estabelecida com Espanha e a luta para ser reconhecido entre outras nações como um país independente. A dinastia de Avis era uma família real muito unida, por exemplo as crônicas escrevem da tristeza do príncipe D. Afonso e da infanta D. Isabel depois da morte do filho. 
 São os cronistas que dão os apelidos aos reis: por exemplo, D. João II de gloriosa memória, nesse caso foi o cronista Rui de Pina que se dedicava à recolha das informações sobre os reis (D.Sancho I, D.Afonso II, D. Sancho II, D.Afonso III, D. Dinis, D.Afonso IV). Rui de Pina era uma das personagens mais importantes e interessantes da historiografia portuguesa. Além de ser cronista e escrivão, assumiu também o cargo do diplomata do Reino Português. As crônicas deles se tornaram confiáveis devido ao fato que Rui de Pina participou pessoalmente em vários acontecimentos mundiais, por exemplo: negociações após a descoberta da América por Colombo que acabaram com o Tratado de Tordesilhas. Representava também a presença portuguesa nas descobertas atlânticas e negociou com o papado essa presença. Tornou-se também o tradutor de português para latim da bula “Ortodoxae Fidei” que falava do poder do rei D. Manuel. A questão que queria levantar é se um cronista com tanta proximidade ao rei consegue passar as informações de uma forma neutra? Se as informações e crônicas não ficarão mais influenciadas pela pessoa do próprio rei? “Nas palavras de Rui de Pina, o ofício historial subordina-se claramente ao valor exemplar que as lembranças e contemplações das excelentes coisas passadas provocam em quem lê e ouve tais memórias.” (Ana Paula Avelar, Luzes e Sombras da figura do rei D. João II no discurso cronístico Régio, p. 6). As crônicas deviam mostrar a história imparcial ou tem direito de modificá-la do próprio jeito.        Na historiografia portuguesa podemos destacar duas pessoas importantes que descreviam a vida dos reis da dinastia Avis que virou um assunto muito polêmico. Um era cronista oficial, político e diplomata – Rui de Pina, outro era escritor, poeta e arquiteto Garcia de Resende. Um baseava-se mais na história e fatos, outro na literatura e nas memórias coletivas. A obra do primeiro era mais breve e cronológica enquanto a obra do outro se tornou famosa graças a sua fluidez e graciosidade da sua prosa. Talvez um seja mais objetivo que outro. Os dois estavam muito perto dos Reis. Existe também a hipótese de que Resende copiou alguns fragmentos da obra do Rui de Pina. Rui de Pina recebeu um oficio de Confirmações do D. Manuel I. Dom João II nomeou-o cronista oficial e em 1497 D. Manuel ofereceu-lhe os ofícios de guarda-mor da Torre do Tombo e também cronista-mor do reino. Rui de Pina participou tanto em acontecimentos da família real como, por exemplo, durante a morte de D. João II ou execução do D. Fernando, como no palco internacional (fazia parte da embaixada que foi enviada ao novo papa Inocêncio VIII). Rui de Pina seguia a filosofia do grande Cícero de valorizar a ética e moral nas suas obras. Cícero era conhecido por escrever muito detalhadamente as suas cartas. 
 Os cronistas claramente mostram a sua simpatia aos reis. D. João II foi descrito muito bem por Rui de Pina (“a excelência de suas bondades e virtudes, de que na paz, e na guerra, no publico e no secreto, na vida e na morte maravilhosamente sempre usou (...)”) e por Garcia de Resende (“homem de muito bom parecer e bom corpo, e de mean estatura, porem mais grande que pequeno, muito bem feyto e em tudo muy proporcionado, ayroso e de tanta grauidade e autoridade que entre todos era logo conhecido por Rey (...)”). 
Rui de Pina e Garcia de Resende escreviam sobre o império português na época quando os portugueses conseguiram conquistar África, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. As crônicas que descreviam em detalhe os sucessos marítimos eram também uma forma de legitimar o poder da coroa portuguesa quando a dinastia de Avis chegou ao poder. Houve uma grande necessidade de legitimar a nova dinastia de Avis em Portugal. As crônicas descrevem as conquistas marítimas também a propósito. A população portuguesa na época ficou sabendo dos sucessos dos atuais reis legitimando assim a presença da dinastia de Avis. 
Os reis portugueses passaram a assumir um papel importante de servir de exemplo e de construir uma boa imagem do monarca. Nas cartas da história foram lembrados como “O Messias” - D. João I ou “O Príncipe Perfeito” - D. João II. 
A história reflete muito na literatura. Um dos exemplos é a obra do Garcia de Resende Cancioneiro Geral que é uma compilação de poesia elaborada pelo próprio Resende que mostra a transição da Idade Média para a Renascença. Este tipo de escrita vem da tradição da Península Ibérica e principalmente da cultura castelhana. Além de competir nos mares e oceanos Portugal percebeu que a literatura portuguesa estava muita atrás da já bem desenvolvida tradição escrita espanhola. Os descobrimentos e conquistas marítimas descritos por vários cronistas inspiraram os poetas portugueses. Na crônica do João de Barros Décadas da Ásia (titulo completo: Ásia de Ioam de Barros, dos feitos que os Portuguezes fizeram na conquista e descobrimento dos mares e terras do Oriente) a partida de Vasco da Gama foi poetizada por Luís de Camões em Os Lusíadas
 Destacam-se alguns opostos, ou seja, cronistas versus poetas; Rui de Pina versus Garcia de Resende, os cronistas dos descobrimentos – Gomes Eanes de Zurara, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda versus poetas de Cancioneiro Geral. Por que a obra do Resende ficou mais famosa na época? A resposta é muito fácil. A obra do Rui Pina não foi publicada no século XVI enquanto a obra do Garcia de Resende Cancioneiro Geral foi impressa já em 1516. Naquela época era mais importante promover a história entre o povo através da literatura porque a literatura conseguiu chegar a todos os cidadãos de uma maneira muito mais rápida. Foi também uma forma de legitimar a dinastia de Avis entre a própria população. Os reis da dinastia de Avis foram os pioneiros na época do Renascimento. A importância do papel assumido por eles como lideres de “missão civilizadora” podemos explicar como justificação para a reconquista contra os mouros, mas também no espírito do estado moderno como o registro da história, sucessos marítimos e conquistas das novas terras de uma forma mais acessível ao povo.

Bibliografia:
ANDRADE, A.A., “A importância da linha costeira na estruturação do reino medieval português. Algumas reflexões”.
AVELAR, A.P.,“Luzes e Sombras da figura do rei D. João II no discurso cronístico Régio.
AVELAR, Ana Paula, “Pela pena e pela espada – Historiografando um Portugal do Cancioneiro Geral.
DINSEY, A.R., “A History of Portugal and the Portuguese Empire”, Cambridge University Press, New York 2009.
FONSECA, L.A.,, “Política e cultura nas relações luso-castelhanas no século XV”

AGATA BŁOCH                                                                                                          
Fundacja Terra Brasilis e Centro de História de Além-Mar  (Universidade Nova de Lisboa)

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