sábado, 11 de abril de 2015

Curta história de uma tábua longa em Lublin.

Tudo começa à noite. Durante o dia seria impossível - há demasiado trânsito para percorrer as ruas. O único som que se ouve é o das rodas de uretano a rolar no asfalto. Para alguns vizinhos o som é um problema, aproximam-se de um grupo com a intenção de assustar aqueles miúdos para eles não voltarem àquela rua. Mas rapidamente dão conta de que “os miúdos” têm por volta de 30 anos e durante o dia são responsáveis pais, funcionários, artistas, empresários. O longboard atrai as pessoas de ambientes diferentes, mas todos têm a mesma vontade de circular pelas ruas. Voltando aos nossos vizinhos, às vezes os argumentos não os convencem bastante e pedem ajuda à polícia. Uma cidade como Lublin ainda é pouco tolerante quanto às modalidades desportivas além do futebol ou ciclismo. Poucos sabem que os melhores skateboarders da Polónia são da região de Lublin.

O longboard chegou a Lublin só há três anos, mas a sua história é bastante longa e confunde-se muito com a história do skateboard. Afinal, é tudo skate, e até à década de 1980 não havia muita distinção entre as modalidades. O skate como conhecemos surgiu a partir de uma necessidade. Surfistas no Havai e na Califórnia no final dos anos 1950, em dias sem ondas, adaptavam tábuas com trucks daqueles patins antigos e rodas de metal. Assim, podiam praticar movimentos do surf no asfalto.
Em Lublin, a situação foi distinta. O movimento nasceu da procura de uma modalidade semelhante ao snowboard para praticar durante os meses quando não havia neve. Em 2011 foi criado o grupo Lublin Longboard Crew, que, através da página no Facebook atraiu já uns 40 membros.
Os princípios não foram nada fáceis. “Encontrar outras pessoas que faziam longboard em Lublin foi como “encontrar vida extraterrestre”. Não havia uma loja em Lublin onde se pudesse comprar um longboard. Só se podia fazer compras em Varsóvia ou pela internet”- diz Krzysztof, um dos fundadores do grupo. “Aprendemos a andar de longboard e como fazer as primeiras manobras vendo vídeos na internet. Foi num grupo de Madrid que nos inspirámos para começar um movimento em Lublin. Queríamos cativar pessoal novo para o desporto e trazer o pessoal que já andava dentro da cidade. Falhamos e aprendemos com os nossos erros. Agora  fazemos workshops para quem está a pensar iniciar-se no longboard. Ter aulas pode ser uma boa maneira de evitar quedas desnecessárias”- continua.

Os encontros dependem muito das condições atmosféricas. “Há dois anos isso não era um problema porque podíamos praticar num parque de estacionamento de um centro comercial” diz Wojtek, um dos primeiros a andar de longboard em Lublin. “No entanto, havia cada vez mais pessoas e tornou-se impossível que 20 participantes fizessem dancing entre os carros. Tivemos de mudar para a rua. Andávamos muito em Felin, numa zona industrial fechada ao trânsito”.  Havia tantas pessoas interessadas em começar a andar que nasceu a ideia de fazer cruising . O longboard tem como base a possibilidade de percorrer as ruas sem andar a pé. “Circula-se pela estrada, com carros sempre ao lado, mas todos levamos capacetes, isso é fundamental, e proteção nas mãos e nos joelhos”- explica Wojtek. “Sabemos que o nível dos participantes é diferente e incentivamos quem não tem um nível bastante bom a fazer as partes mais difíceis do percurso com o skate na mão”- sublinha.

O Lublin Longboard Crew está sempre disposto a ajudar a começar a aventura com o longboard. “Sabemos da nossa própria experiência que não é fácil escolher um equipamento adequado da modalidade de longboard que se quiser praticar” – diz Kuba da FunkySkate, uma loja fundada em 2012, especializada em todos os tipos de equipamento para praticar snowboard, skateboard e longboard. Sim, o longboard também tem as suas modalidades. Existem diversos modelos, tamanhos e formas de tábuas, cada uma para uma modalidade e finalidade específica. Cruising é aquele passeio no parque ou pelas estradas sem se importar muito com slides e manobras. Pode ser combinado com um pouco de freestyle e dancing em ladeiras leves ou uma superfície plana. Downhill é talvez a modalidade mais famosa do longboard, trata-se de descer ladeiras fazendo slides agressivos, o que requer bastante técnica e equipamentos apropriados como capacete, cotoveleiras, joelheiras e luvas de slide (aquelas que têm um plástico redondo na palma). Freestyle é mais parecido com o skate comum, pode-se fazer qualquer coisa: manobra, dancing, manual, utilizando tudo que estiver no ambiente. Dancing é a arte de dançar na tábua. Essa modalidade pode ser muito bem utilizada com um freestyle, as pessoas praticam-na nas tábuas compridas, até semelhantes às pranchas de surf.
“Uma decisão de compra tem a ver com dinheiro então é muito importante escolher bem. Antes de abrirmos uma loja em Lublin as pessoas tinham de comprar online o que, para alguém que se está a iniciar na modalidade, não é nada apelativo, até porque convém ter alguém com quem falar e a quem pedir uma opinião”, afirma Kuba. “Mesmo para quem não se está a iniciar, pegar no material é diferente de estar a ver apenas uma fotografia na internet”- acrescenta.

“Também por isso incentivamos os novos adeptos a virem a um encontro para experimentar vários tipos e tamanhos de tábuas. Ajudamos também a começar a andar e na escolha do outro equipamento. Durante os encontros trocamos as experiências, dicas e ideias para os próximos percursos”- resume Wojtek.
Num daqueles encontros, apareceu Przemek, na altura um rapaz tímido, introvertido, sem autoconfiança. Começou por praticar dancing e apaixonou-se por esta modalidade. Agora ele mesmo ensina como dançar e mostra os passos diferentes. “ O longboard permitiu-me tornar-se uma pessoa aberta e segura de mim. Estou contente que agora posso motivar outras pessoas para fazerem o mesmo” - diz Przemek.
Entre os adeptos de longboard não encontramos muitas raparigas. “O problema é que a maior parte das meninas tem medo das quedas”- diz Karolina, uma rapariga de 20 anos que participa com frequência nos encontros. Ela própria também diz que às vezes é “um bocado cobarde”. As raparigas em geral preocupam-se mais com o seu aspeto físico imaculado.

A atividade do grupo no Facebook cresce rapidamente. “Quase todos os dias temos pedidos de adesão ao grupo, as pessoas combinam individualmente encontros e a página torna-se um sítio onde se pode também livrar-se do equipamento que já não é usado. Começamos por uma página onde pusemos vídeos dos Estados Unidos, Brasil e da Espanha. Agora os adeptos criam os seus próprios vídeos que provam que o nível sobe. Estamos muito orgulhosos do nosso trabalho e convidamos a quem está interessado a seguir-nos  na página do Facebook e participar nos próximos eventos” - diz Wojtek.

Monika Czarkowska-Guziuk
2º ano de mestrado em Estudos Portugueses


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