quarta-feira, 17 de junho de 2015

O cristianismo e o outro paganismo ou seja “A adivinha diz sempre a verdade”

Estima-se que mais de oitenta por cento dos polacos professa o cristianismo.  Ao mesmo tempo quase sessenta por cento das pessoas, inquiridas através de várias instituições, declara que acredita nas adivinhas e nos horóscopos. Foi calculado que essas mesmas pessoas juntas gastam anualmente cerca de 2 bilhões de zlótis em serviços esotéricos.
          Deixemos os números e as estatísticas aos entrevistadores. Suponhamos que eles sabem  mais disso. O que nos realmente deve interessar é a relação entre a religiosidade dos polacos e a confiança que têm  nas coisas de raízes pagãs. Ou melhor, se existe alguma dependência entre estas duas coisas.
De acordo com  “O dicionário de mitos a tradições culturais” a adivinhação, a cartomancia, a taromancia e outras são práticas que envolvem a previsão do futuro ou coisas desconhecidas, baseadas na fé na existência do mundo sobrenatural e a possibilidade de contato com ele para ter as informações em forma de signos  ou sinais de diferentes tipos. Simplificando, se  queres conhecer o futuro tens de visitar um vidente.
Na Antiguidade alguns fenómenos eram considerados proféticos, especialmente estes vistos no céu (os eclipses, os cometas, as tempestades e as tormentas de força excecional, os trovões) vistos como os sinais de deuses. Os sonhos, o relincho do cavalo, o sussurro das folhas, o voo das aves, as entranhas do sacrifício- nestas coisas buscavam-se as respostas às perguntas que ainda hoje atormentam os seres humanos.
Tudo isto é agora substituído pelas bolas de cristal, o tarot e a teimancia (é uma técnica de leitura pelas folhas de chá). Para realçar- não todas as culturas acolhem este novo modelo de adivinhação. É uma maravilha. Tanto progresso em tão pouco tempo. Afinal o que significam 2000 anos para o homem?
Para os polacos é apenas o tempo suficiente para criar um país, sobreviver à cristianização, a duas dinastias, eleição livre, partições, a duas guerras mundiais, ao comunismo e várias repúblicas.  Nem mais, nem menos.
Quando olho para tudo isto com os olhos que conhecem o presente e o passado, começo a pensar que o Darwin tinha razão-  só os indivíduos mais fortes sobrevivem. Que pena, senhor Darwin, que não os mais sapientes.
Por que as pessoas acreditam em magia e profecia?  Os psicólogos modernos aliás pesquisadores do pelo no ovo, dizem que isto não tem nada a ver com a razão. Mas o que eu percebo da expressão “nada a ver” é bastante diferente do seu ponto de vista.
A seu ver parece que hoje as pessoas acreditam e não acreditam ao mesmo tempo. De onde conhecemos isso? A ciência e a tecnologia estão no nível muito alto. Uma grande parte dos fenómenos do mundo tem uma explicação. Parece que já não há muito  ainda a descobrir. O homem tem um grande conhecimento mas carece de mistério. Estes eu chamaria “os chateados”. A adivinhação dá-lhe uma aparência, torna a vida mais excitante- isto seria um dos motivos da crença em presságios. Existe também o grupo das pessoas que acreditam nisto, dedicam as suas vidas à constante pesquisa do extraordinário- estes chamam-se a si próprios “os iniciados”. Outros não acreditam, não praticam e não perdem o tempo- esses eu chamo “os razoáveis”.  Uma explicação mais pode ser que o homem, educado, inteligente e moderno às vezes sente-se perdido no mundo técnico. E se não acredita profundamente em Deus, tenta acreditar na magia e desta forma explicar os seus problemas. Ainda temos o meu grupo preferido. O conjunto das pessoas, que dizem que são católicos mas também acreditam na magia- estes tem só um nome. São os polacos. Somos mestres.
O que é que tem a ver o catolicismo com a adivinhação?
Muito e muito pouco ao mesmo tempo.
A religião cristã rejeita todas as formas de adivinhação. O Catecismo da Igreja Católica diz que “Todas as formas de adivinhação hão de ser rejeitadas: recurso a Satanás ou aos demónios, evocação dos mortos ou outras práticas que erroneamente se supõe "descobrir" o futuro. A consulta aos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e da sorte, os fenómenos de visão, o recurso a médiuns escondem uma vontade de poder sobre o tempo, sobre a história e, finalmente, sobre os homens, ao mesmo tempo que um desejo de ganhar para si os poderes ocultos. Essas práticas contradizem a honra e o respeito que, unidos ao amoroso temor, devemos exclusivamente a Deus.”
A mensagem é simples: se alguma vez visitaste uma adivinha, leste um horóscopo, ou fugiste ao ver um gato preto sentado na escada no meio da rua...  pecaste. Mais ou menos isso foi o que uma vez ouvi de um padre da minha paróquia. Para uma criança de 6 anos foi um choque mas como não podia ler e escrever, não sabia de existência de adivinhas e superstições, senti que a minha alma ainda se pode salvar.
Mas cada moeda tem dois lados. Não se pode pôr todos no mesmo saco. Quando procurava inspiração para escrever encontrei-me com um homem que me inspirou para abordar este tema, um homem dedicado a Deus, um padre que, na minha opinião, é uma das pessoas mais sensatas que eu conheci na vida.  Quando falamos dos polacos, católicos que muitas vezes preferem buscar respostas na boca de uma advinha,  ele disse: “a fé que um homem tem nos horóscopos e adivinhas mostra mais a insensatez  que a maldade deste homem”. Com  isto não penso discutir. Outra pessoa muito iluminada que se chamava Confúcio disse “Se queres prever o futuro, estuda o passado”.
E para estes que como eu não gostam de adivinhar, eu digo: Se queres conhecer o futuro, espera.
Beata Zuzel
2º ano de Estudos Portugueses

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