domingo, 8 de março de 2015

Adelaide Cabete


"Uma vida inteira devotada à prática do
bem, especialmente à dignificação da mulher"
Elina de Guimarães (Escritora e jurista portuguesadiretora do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas)



O século XX carateriza-se pela existência de considerável número de personalidades que, de algum modo, deixaram uma marca profunda na história de Portugal e que devem ser conhecidas pelas novas gerações. Políticos, revolucionários, cientistas ou artistas. Ao longo do tempo, houve homens e mulheres que se destacaram e ajudaram a criar o mundo de hoje.
     Uma destas figuras, talvez pouco conhecida e esquecida, foi Adelaide de Jesus Damas Brasão Cabete, uma grande feminista e militante na defesa da emancipação das mulheres nos vários movimentos e iniciativas em que esteve envolvida. Destacou-se como pioneira da Medicina em Portugal, lutadora pela República, pelos direitos das crianças e dos animais, educadora, publicista, socióloga, humanista.
     Nasceu na freguesia de santa Maria, de Alcáçova, concelho de Elvas, durante a Monarquia, a 25 de janeiro de 1867. Filha de Ezequiel Duarte Brasão e de Balbina dos Remédios Damas. A sua família de trabalhadores rurais alentejanos de origens modestas não podia assegurar aos filhos uma educação primária. Adelaide passou a maioria da sua infância e juventude trabalhando na apanha da ameixa e exercendo tarefas domésticas em casas dos homens ricos.
     Em 1886, aos dezanove anos, Adelaide de Jesus Damas Brasão casou-se com o republicano Manuel Fernandes Cabete (1849-1916), intelectual autodidata, sargento do exército, e adotou o seu apelido. O matrimónio, em vez de a limitar, possibilitou-lhe crescer e escapar ao analfabetismo. Graças ao seu marido, começou a estudar, podia desenvolver as suas paixões e ultrapassar novas etapas do seu percurso profissional. O casamento libertou-a, salientou o caráter dela, a sua força e coragem. Manuel Fernandes deu-lhe, por assim dizer, a oportunidade de se tornar visível num mundo maioritariamente composto por homens, a oportunidade que Adelaide empregou perfeitamente. Apesar de não ter filhos biológicos, criou dois sobrinhos, Maria (1873-1943) e Arnaldo Brasão (1890-1968).
     Aos 22 anos, no ano 1889, Adelaide Cabete fez o exame de instrução primária e matriculou-se no Liceu Central de Lisboa. Sete anos mais tarde, ingressou na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Em 26 de julho de 1900, já com 33 anos de idade, concluiu brilhantemente o curso com a classificação de 14 valores, defendendo a tese  Proteção às mulheres grávidas pobres como meio de promover o desenvolvimento physico [de novas] gerações, assumindo-se como a terceira mulher a cumprir Medicina em Portugal. Também no ano 1900 foi admitida como sócia da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa. Durante o liceu, 119 dos estudantes eram do sexo masculino e Adelaide era a única representante feminina. No curso de medicina, a proporção era de 36 homens para duas mulheres (Adelaide Cabete e Maria do Carmo Joaquim Lopes). Após a conclusão da especialidade, exerceu Ginecologia e Obstetrícia no seu consultório em Lisboa, situado na Praça dos Restauradores.
 Em 1907 foi iniciada na Instituição Maçónica Grande Oriente Lusitano Unido – Loja Humanidade. Ao estar em desacordo com as diferenças de tratamento entre lojas masculinas e femininas, acabou por deixar a Ordem. Anos depois, em 1923, obteve autorização para criar a Ordem Maçónica Mista do Direito Humano. Na maçonaria, de nome simbólico Louise Michel, com ideias de fraternidade, progresso e justiça, atingiu o grau de “Venerável” (20º-Grau do rito escocês com 35 Graus).
     Adelaide Cabete foi admitida em 1912 como médica e professora no Instituto Feminino de Odivelas (conhecido popularmente por meninas de Odivelas e tendo então o nome de Instituto Feminino de Educação e Trabalho) onde regeu a disciplina de Higiene e Puericultura (acompanhamento do desenvolvimento infantil) até 1929. Na Universidade Popular Portuguesa dirigiu um curso com o mesmo nome.
     No ano 1914 foi fundado o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, a mais importante e duradoura organização feminista da primeira metade do século XX em Portugal e a única a subsistir para além da Primeira Guerra Mundial.  O CNMP teve como principal dirigente Adelaide Cabete, reeleita consecutivamente Presidente até à década de 30. A organização manteve a sua atividade até 1947, quando o regime salazarista do Estado Novo ordenou o encerramento.
    O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas tinha como objetivos melhorar a situação legal da mulher na sociedade e na família, a eliminação da prostituição, o melhoramento da saúde pública, a criação de gabinetes de consulta, a educação dos emigrantes, a proteção das crianças contra os maus tratos, trabalhos pesados e abusos sexuais. Em 1924, para celebrar o décimo aniversário do CNMP, foi organizado o Primeiro Congresso Feminista e da Educação no qual Cabete proferiu o discurso inaugural e apresentou 3 teses, entre elas um projeto de natureza pedagógica relacionado com A Luta Anti-Alcoólica nas Escolas, que se tornou um marco fundamental na Educação em Portugal.
     Defensora da vida, considerando-a desde a conceção e manifestou-se contra o aborto. Defendeu e praticou a proteção da mulher pobre e das prostitutas a cujos problemas foi sempre sensível, combateu a propagação das doenças infetocontagioso. Cabete lutou contra a ignorância, contra os curandeiros e as superstições. Numa das suas publicações no Portugal Feminino, no verão de 1930, mostrou-se contrária à importação da moda feminina, criticando as saias curtas e recomendando o uso da saia até um palmo do chão. Desencorajou o emprego de substâncias para emagrecimento e de dietas que prejudicavam a saúde, debilitando o organismo.
    A aviação, atividade nova naquele época, também teve a ver com Adelaide Cabete.  Foi a primeira secretária da Assembleia Geral do Centro Nacional de Aviação fundada em 1914. Ali prestou os seus serviços médicos, exercendo uma profissão que foi considerada de alto risco.
No campo político foi grande ativista republicana, patriota e defensora dos direitos das mulheres. Desenvolveu intensa atividade militante a favor do estabelecimento daquele regime político e pela dignificação do estatuto da mulher, mostrando que o sexo não limita o ser humano. Foi ela quem, com duas outras mulheres,  em 1910 coseu e bordou a bandeira nacional hasteada na implantação da República em Lisboa. Em 28 de agosto de 1908 Cabete participou na fundação da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP) que apoiou a queda da monarquia constitucional. No ano seguinte foi publicado o primeiro número da revista mensal A Mulher e a Criança (1909-1911), órgão da LRMP. A Liga tinha como objetivos defender a dignidade a emancipação feminina, especialmente das mulheres socialmente mais desfavorecidas.
Como sufragista militante em 1912 reivindicou o voto das mulheres. Em 1922 integrou a Direção do Centro Republicano Democrático e em 1933 foi a primeira e única mulher a votar em Luanda a Constituição Portuguesa. Depois da implantação da ditadura do Estado Novo(1926), desiludida com a nova situação política, partiu em 1929 com o seu sobrinho Arnaldo para Angola. Em Luanda, Adelaide Cabete abriu consultório médico, mas continuou a colaborar com jornais locais e da metrópole. Regressou a Lisboa em 1934. Faleceu aos 68 anos de forma repentina, de ataque cardíaco, a 14 de setembro de 1935 na sua residência de Lisboa. Está sepultada no Cemitério do Alto de São João em Lisboa. Como mostra de reconhecimento recebeu postumamente a 10 de Junho de 1995 a Medalha e Colar de Grande Oficial da Ordem da Liberdade. Foi nomeada uma das "100 Figuras que moldaram o século" seleciondas pelo semanário Expresso, na edição de 1 de junho de 2013.
 Acho que com toda a certeza, Adelaide Cabete merece todo o nosso reconhecimento. Esta mulher excecional, que honrou e dignificou a mulher, tem todo o direito a homenagem e memória. Abriu caminho para as gerações seguintes e mostrou que com o trabalho duro e a perseverança tudo é possível. Inspirou as suas contemporâneas e pode servir como exemplo para as mulheres de hoje.
Tudo o que conseguiu na sua vida foi pela sua força de vontade, coragem, esforço e enorme dedicação em tudo que fez. Nada lhe foi dado, não tinha a vantagem de provir de uma família de classe alta, mas apesar de todos os obstáculos, de origens humildes e simplesmente sendo mulher numa época em que o homem dominava, triunfou. Soube aproveitar as oportunidades que lhe foram dadas e aproveitou-a da melhor maneira que podia, ajudando outros menos afortunados e atuando a favor de todas as portuguesas.
     Tratou a sua educação que tardiamente começou, e o seu desenvolvimento profissional de forma muito séria e com grande devoção. Sistematicamente procurava ampliar os seus conhecimentos e melhorar a sua formação. Tinha a necessidade de manter-se atualizada, era uma grande leitora da imprensa nacional e estrangeira. A leitura regular foi um dos seus hábitos do dia a dia. “Fiz os exames do primeiro e do segundo grau aos 21 anos e já depois de casada, e aos 33 estava médica. Vê-se por isso, que não estudava a brincar nem para me divertir”. Adelaide Cabete,  A Província de Angola,17 de agosto de 1932
Cabete tinha ideias progressistas, avançadas para a época em que vivia. Não foi uma personagem de seu tempo mas de vanguarda. Na sua opinião, as mulheres tendo as mesmas capacidades que os homens, deviam ter também os mesmos direitos e liberdades. Acreditava na dignidade, igualdade e na independência feminina. Lutou pelo direito de trabalho digno e bem remunerado para as mulheres. Procurou advogar a causa das mais necessitadas e denunciar as injustiças. Aplaudiu o encerramento de tabernas e manifestou-se contra a violência nas touradas ou o uso de brinquedos bélicos.
    Destacou-se também pelo grande sentido de humor e tratava com distância as críticas, tanto do seu aspeto físico como do seu caráter e trabalho. Adelaide não mostrou sentir-se ofendida com o que outros pensavam dela e não os deixou menosprezar os seus esforços  para mudarar o mundo.
    Sem dúvidas, por detrás desta grande mulher houve um homem igualmente grande. Manuel Fernandes Cabete não limitou a sua mulher, não a reduziu somente a dona de casa fechada em casa. Pelo contrário, despertou nela a curiosidade e vontade de descobrir  e conhecer as múltiplas faces do mundo. Partilhava com ela as tarefas diárias da casa, o que na época não era a norma.
O marido de Cabete foi uma figura extraordinária, um homem que contra todas as crenças e estereótipos daquela época, tratava, não só a sua mulher, mas todas, como iguais a si mesmo. Juntos formavam um par que se complementava e pode servir como casamento exemplar até aos nossos dias.

Fontes e Bibliografia:
-  Lousada Isabel, Adelaide Cabete (1867-1935), 2010
- Lousada Isabel, Da presença feminina nas Letras & Ciências:
o pioneirismo de Adelaide Cabete
- Adelaide Cabete, HOMENAGEM A UMA MULHER (Diálogos com Helena à beira-rio), http://www.triplov.com
- Associação de Professores de História, http://www.aph.pt
- Associação República e Laicidade, http://www.laicidade.org
- Dicionário de Médicos Portugueses, http://medicosportugueses.blogs.sapo.pt
- http://www.institutodivelas.com
- http://odivelas.com

Urszula Półkosznik
1º ano de mestrado em Estudos Portugueses

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