terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Ribas na Costa, Praia da Maças

  Dizem que ao princípio havia o caos. Depois o Criador separou a terra da água o que foi o primeiro passo. Com certeza absoluta o lugar onde o mar acaba e começa a terra tem algo místico, maravilhoso e até divino na sua natureza. Tanto a costa ocidental, como a meridional de Portugal deslumbram multidões com a sua beleza irresistível. Desde há séculos que as paisagens marítimas inspiram os autores de todos os ramos da arte. Na parte central da costa ocidental, perto da cidade de Sintra fica uma praia da beleza empolgante, a Praia das Maças. Em Lisboa no Museu do Chiado, chamado também o Museu Nacional de Arte Contemporânea encontra-se uma obra de Alfredo Cristiano Keil, o grande músico, pintor e poeta português de ascendência alemã da segunda metade do século XIX. O artista mais conhecido como o autor da música de A Portuguesa” que se tornou o hino nacional de Portugal. Um dos seus melhores quadros, “Ribas na Costa, Praia da Maças” (http://www.matriznet.imc-ip.pt/MatrizNet/Objetos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=202372) pintado no ano 1880 podia ser um bom retrato do ato de criação do mundo.  Ao olharmos para esta pintura a óleo, reparamos um ponto do encontro do mar, da terra e do céu… três elementos básicos e poderosos. A vista traz uma dose de equilíbrio, graças às cores usadas pelo artista. O leque das cores é bastante limitado, dominam o azul, o verde e a cor da cinza… mas a obra estranhamente emana com o calor sutil.  A falésia verde e pura com as ondas selvagens que batem na praia rochosa formam o plano principal da obra. Basta esforçar a vista e podemos ver a figura do homem de chapéu sentado  na falésia. Se pudéssemos diminuir a velocidade estonteante da nossa vida e respirar profundamente, há quem não queira estar no seu lugar? Hoje em dia sonhamos muito com coisas que nem merecem a nossa atenção. O homem de chapéu não está preocupado com as ninharias. Comparando com a eternidade tudo parece uma ninharia. A eternidade consiste no tempo, espaço e na matéria. Ele nem tem pressa, nem medo do futuro. Enfeitiçou a matéria e parou o tempo.   O homem de chapéu… está a observar as ondas ferozes, a espuma  na água como a saliva de uma besta que se opõe ao céu tão calmo e limpo naquele momento. Neste momentinho particular ele converte-se no Senhor do mundo inteiro, o Criador que olha à sua obra e talvez se orgulhe da beleza enorme que inventou. A perfeição da natureza faz da praia o lugar excelente para contemplar. O que me interessa são os pensamentos deste homem. O que sentiria cada um de nós se formasse parte desta obra? E que sentiu o próprio autor ao pintar esta paisagem? Se calhar o autor da obra queria adivinhar com a figura do homem um pouco da saudade à sua obra. O que eu sinto quando vejo esta porta do mundo é o prazer e o alívio. Onde está o homem? O homem está onde a terra  acaba ou começa. Esteja onde estiver, tem sorte de estar tão afastado do caos.         
Olga Kukawka

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