quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Todas as pessoas de Fernando


  Todo o mundo sabe que Fernando Pessoa desdobrou-se nos heterónimos que são as frações da personalidade e sofrem faltas quando as comparamos com a personalidade deste génio. Por outro lado, alguns dos seus heterónimos parecem levar uma vida mais rica do que o seu criador que parecia... pois, chato. Fernando quase não viajava enquanto Álvaro Campos viu praticamente tudo. O descobrimento dos fragmentos de ‘Livro de desassossego’ numa caixa mostra que as pessoas aparentemente insípidas podem ter a vida íntima extremadamente rica graças à literatura.
  A literatura dá-nos a possibilidade de viver as vidas impossíveis: contornar as regras da concordância do tempo, do espaço, de uma lógica. Basta abrir o livro, basta ler ou escrever para viver as vidas dos outros sem correr risco nenhum. É uma mentira tão inocente e doce como um sonho. Deste ponto da vista todas as viagens de Álvaro eram tão verdadeiras como as palavras que acabo de escrever. Em vez de confrontar os seus desassossegos, Fernando escreve-os. Em vez de fazer malas e dar a volta ao mundo, ele encerra-se em casa e escreve ‚A passagem das horas’. Deixar os versos em vez de memórias é a vida de não- existência. Assim percebo as primeiras palavras de ‘Livro de Desassossego’ onde o autor escreve que este livro é a sua cobardia. Que tipo de cobardia é essa? É o medo da morte. Procuramos ultrapassá-la deixando provas da nossa existência como: registos de memórias, fotografias e formando família. Esta tentativa só serve para dar alguma resposta para a pergunta ‘Por que nasci?’. 
Há pessoas que opinam que Fernando Pessoa era louco, mas talvez fosse só uma pessoa (de minúscula) que, sendo incapaz de encarar a vida e obter experiências próprias, acumulava a sua dor de entropia e a sublimava nas obras-primas, passo a passo, e deixava que a sua frustração gotejasse com as letras belas. Viver só uma vida nunca sacia a fome. A vida de Fernando não terá sido nenhuma exceção – a sua vida parecia tão importuna como se tivesse sido uma personagem de Kafka. Por acaso ele precisava de heterónimos para viver as vidas que nunca viveu. A meu ver todas as pessoas que criou são os seus sonhos não realizados e por isso tornaram-se eternos.
Fernando Pessoa terá sido um génio, não um homem adoidado. Sempre que aparece um pensamento original o rejeitamos como sendo uma loucura. As pessoas geniais são chamadas orates porque os seus pensamentos não seguem os mesmos esquemas que nós. O que nós achamos lógico nem sempre é conforme as regras dela e a ciência mostra que algumas ‘loucuras’ eram, em fim, verdadeiras.
  Para mim, Fernando Pessoa era um sonhador – o sonhador que provoca riso, o sonhador que nos dá pena, o sonhador que nos estranha. Era um homem excecional e sensível demais - isto só provoca fragilidade.
Não podemos contar quantas pessoas contém Fernando. Deveríamos perguntar quantas pessoas nós contemos. Não somos idênticos com o decorrer do tempo, não somos fieis a nós. Éramos diferentes e seremos diferentes. Dentro de 10 anos no nosso corpo não há nenhuma célula que permaneça, então qual é a ideia de adquirir apenas um nome para toda a plêiade de ‘nós’ possíveis? 
Suponho que nos incomoda notar que o ‘eu’ velho morreu para que o novo nascesse então cada substituição possui o mesmo nome.
Aleksandra Wilkos

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